Edição 11

Editorial

Apesar de, em nossa época, assistirmos a uma oposição artificial entre oriente e ocidente, que tantos obstáculos colocou ao longo da História para o avanço da civilização, cada vez que olhamos com atenção alguma das manifestações culturais que chegam do Oriente, sentimos que se enriquece e amplia nossa visão do mundo. Talvez, simplificando, tendamos a considerar que as culturas ocidentais aportaram à humanidade um inquestionável legado de racionalidade e progresso, uma habilidade para dominar a natureza e descobrir seus segredos que nos fez avançar em inumeráveis aspectos do bem-estar material e da criatividade tecnológica. Em troca, o Oriente continua nos surpreendendo com a sutileza de seus paradigmas, com a profundidade de suas interpretações da realidade, como se a cultura oriental fosse mais eficaz para abrir-nos ao invisível e apresentar outros âmbitos esquivos a nossas percepções e nos ajudasse a descobrir o papel que podemos aí desempenhar. O Ocidente parece o território da razão, e o Oriente o da imaginação. Tendemos a pensar com uma certa superioridade ao considerar determinados aspectos como meras fantasias.

As coisas não são exatamente assim, ainda que devamos reconhecer que as línguas do Oriente estão mais bem dotadas para nomear os processos espirituais do que as ocidentais, mais versáteis para os significados técnicos e concretos. Também o Ocidente soube alcançar e desvendar os mistérios da alma e do céu. Este exercício de comparação é saudável para ampliar nossas perspectivas e aceitar que se pode olhar a realidade de diferentes ângulos.

Neste número, oferecemos algumas referências às contribuições orientais para uma visão do mundo mais intensa e rica em matizes, algumas delas, como o Feng Shui, aplicáveis em nossa vida cotidiana e doméstica.

Sabedoria é um termo que parece inventado por personagens como Confúcio, que, no entanto, não era um sábio isolado do mundo e seus problemas, mas sim comprometido com seu tempo e capaz de oferecer uma doutrina filosófica universal e plenamente vigente. De Confúcio recolhemos ótimas chaves para melhorar a sociedade e recuperamos o ideal do sábio e do político, como duas condições que podem e devem apresentar-se unidas, por mais que nos pareça distante essa proposta, em nossa mentalidade ocidental.

Confúcio dizia que a essência do bom governo é ir adiante do povo e animá-lo. E o que mais? — perguntavam seus discípulos. Não se cansar — respondia o sábio mestre.

Mosaico

Um conto sobre as diferentes aparências

Quatro viajantes, provenientes de distintos países, que seguiam o mesmo caminho juntaram o pouco dinheiro que tinham para comprar comida.

O persa disse: compraremos angur.

O árabe falou: não, eu quero inab.

O turco não estava de acordo e exclamou: nada disso, comeremos uzum.

O grego protestou dizendo: o que compraremos será stafil.

Como nenhum sabia o que significavam as palavras dos demais, começaram a brigar. Tinham informação, mas careciam de conhecimento.

Passou, então, um homem que disse:

Eu posso satisfazer o desejo de todos vocês. Dêem-me o dinheiro.

Os viajantes acederam ao recém-chegado. Pouco tempo depois, o homem regressou com aquilo que todos haviam dito sem saber que se referiam à mesma coisa: uvas.

Um peixe em uma árvore?

Sim, trata-se de um peixe que pode subir em árvores (com moderação, claro). Como se chama? Saltador da lama ou “salta-lamas” (Periophtalmus koelreuteri). Vive nas costas tropicais dos oceanos Índico e Pacífico.

Os saltadores da lama são peixes que podem se impulsionar sobre a terra usando suas nadadeiras peitorais como patas. Podem permanecer fora da água durante vários dias, respirando o ar armazenado em suas câmaras branquiais.

E não acabam por aí suas excentricidades. Este pequeno peixe pode nadar ao contrário (ou seja, de barriga para cima), manejando com suas nadadeiras ventrais uma folha grande o suficiente para ocultá-lo da vista de seus solícitos devoradores potenciais, como as aves pescadoras, sempre atentas ao menor descuido para obter seu almoço.

A dificuldade de aprender verdadeiramente

Em certa ocasião, um homem de grande erudição foi visitar um ancião que era considerado sábio. Ia com a intenção de se declarar seu discípulo e aprender de seu conhecimento. Quando chegou à sua presença, manifestou suas pretensões mas não pôde evitar se fazer notar sua condição de erudito, opinando e sentenciando sobre qualquer tema sempre que tinha uma oportunidade. Em um momento da visita, o sábio o convidou a tomar uma xícara de chá. O erudito aceitou, aproveitando para fazer um breve discurso sobre os benefícios do chá, seus distintos tipos, métodos de cultivo e produção.

Quando a fumegante chaleira chegou à mesa, o sábio começou a servir o chá na xícara de seu convidado, que logo começou a transbordar. Mas o sábio continuava vertendo chá impassivelmente, derramando-se o líquido pelo chão.

O que você está fazendo? — gritou o erudito — Não vê que a xícara já está cheia?

Precisamente demonstro isso — respondeu o sábio.— Você, como a xícara, está cheio com suas próprias crenças e opiniões. De que serviria que eu tratasse de lhe ensinar algo?

Treinamento para o cérebro – Estudo baseado em meditação tibetana

Um estudo científico sugere que as respostas básicas e involuntárias do cérebro podem ser anuladas.

A essa conclusão chegaram os especialistas das universidades de Queensland e Califórnia depois de estudar as reações visuais de 76 monges budistas tibetanos com experiência em meditação.

Durante as provas realizadas pelos investigadores, os monges usaram óculos especiais que lhes permitiam ver simultaneamente uma imagem diferente em cada olho. A resposta normal e automática do cérebro seria alternar rapidamente a atenção entre ambas as imagens, uma reação conhecida como rivalidade perceptiva ou visual.

No entanto os monges foram capazes de se concentrar em só uma das imagens.

O poder da vontade

Com a meditação em “um ponto”, os monges conseguiram centrar sua atenção sobre um só objeto ou pensamento.

Aqueles que tinham maior experiência em meditação conseguiram concentrar-se em só uma das imagens durante um período mais longo, de até 12 minutos.

Segundo explicam os especialistas na revista científica Current Biology, a capacidade dos monges para anular a resposta mental básica indica que o cérebro pode ser treinado.

Até agora se acreditava que a rivalidade perceptiva era uma resposta básica e involuntária.

Saúde mental

“Os monges demonstraram que podiam bloquear a informação externa”, explicou Olívia Carter, da Universidade de Queensland.

“Seria bom agora fazer mais provas utilizando técnicas de imagem para ver exatamente que diferenças há nos cérebros dos monges.”

“As pessoas que praticam meditação, incluindo o Dalai Lama, expressaram que a habilidade para controlar e dirigir os pensamentos pode ser muito benéfica para a saúde mental”, acrescentou Carter.

Os monges, todos em lugares de retiro da Índia, tinham recebido entre 5 e 54 anos de treinamento em meditação.

http://news.bbc.co.uk/

A múmia “mais bem conservada” do Egito

(Segundo o arqueólogo José Manuel Galán, o verdadeiro valor da descoberta está no ataúde de madeira em que foi encontrada)

Uma equipe de arqueólogos australianos descobriu no Egito, a vinte e cinco quilômetros do Cairo, três múmias da Dinastia XXVI, que datam de aproximadamente 2600 anos. O achado aconteceu por acaso, ao se abrir uma porta secreta por trás de uma estátua no interior de uma tumba de 4.200 anos de antiguidade que estavam explorando. Uma das múmias se encontra em muito bom estado, podendo ser, segundo os especialistas, “uma das mais bem conservadas que se encontraram”. Seu peito está coberto de contas. “Na maioria das múmias desse período as contas desapareceram, mas esta conserva todas”. José Manuel Galán, diretor do projeto espanhol “Djehuty”, que o Conselho Superior de Pesquisa Científica desenvolve no Egito, não concorda com a importância dada à antiguidade do achado, já que no Egito foram encontradas múmias em “melhor ou pior estado” que datam de 3000 antes de Cristo, quando começou essa prática.

Para Galán, o verdadeiro valor dessas múmias está em seu processo de enterramento, já que estão em cofres de madeira. “Se o ataúde estiver em bom estado, estaremos ante uma grande descoberta”, declarou. O sarcófago tem a forma do deus faraônico Osíris.

Em um lugar próximo, os especialistas encontraram várias tumbas pequenas construídas de adobe de barro que datam da dinastia V, que reinou no Egito entre 2463 e 2322 a.C.

Gontzal Larrauri

Organização das Nações Unidas promove o cultivo em terraços e parques das cidades

A ONU para a Agricultura e Alimentação (FAO) considera que as pequenas hortas nas metrópoles podem proporcionar até 2,4 euros por dia às famílias com menos recursos.

Os terraços, jardins e parques das cidades e de sua periferia podem ser aproveitados para o cultivo de pequenas hortas e, inclusive, para a criação de animais de granja, como vacas leiteiras. Essa é uma das curiosas propostas que a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) lançou no Dia Mundial do Meio Ambiente.

Devido ao “rápido crescimento das cidades no mundo”, as explorações agrícolas dentro das áreas urbanas ou em sua periferia desempenharão um papel cada vez maior na alimentação da população, considera a FAO.

A agricultura em áreas urbanas e suas periferias proporciona atualmente comida a cerca de 700 milhões de residentes nas cidades, um quarto da população urbana mundial, segundo a agência da ONU.

Levando em conta que o crescimento da população no planeta daqui até o ano 2030 se concentrará nas áreas urbanas dos países em desenvolvimento — então cerca de 60% da população desses países viverá nas cidades —, os benefícios de cultivar hortaliças e criar aves ou gado nas proximidades dos núcleos urbanos são óbvios.

Por um lado, se solucionariam os problemas relacionados ao transporte de alimentos aos centros urbanos. “As longas distâncias, estradas em mau estado e o caos urbano fazem com que se percam entre 10 e 30 por cento do produto durante o transporte”, afirma a FAO.

Por outro, dispor de alimentos frescos ajudaria a combater os transtornos e enfermidades relacionados com maus hábitos alimentares. É que “o moderno estilo de vida nas grandes metrópoles induz cada vez mais gente a consumir mais gordura e comidas rápidas, menos fibras e comida caseira”, adverte a FAO, que sublinha o paradoxo que enfrentam os países em desenvolvimento.

Exemplos atuais

Alguns exemplos atuais desse tipo de agricultura urbana podem ser encontrados na capital da Tanzânia, Dar es Salaam, ou em Dakar, no Senegal. Na primeira, 650 hectares dedicados à produção de hortaliças sustentam 4.000 camponeses, segundo dados da FAO. Na segunda, graças a um projeto da FAO, as hortas de tomates de um metro quadrado cultivadas nos terraços produzem entre 18 e 30 quilos de tomate ao ano.

Mais informação:

Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO)

Canal Solidário-OneWorld, 2005

http://www.canalsolidario.org

O Pequeno príncipe (fragmento)

O planeta seguinte era habitado por um bêbado:

O que você está fazendo? — perguntou ao bêbado, a quem encontrou instalado em silêncio ante uma coleção de garrafas vazias e uma coleção de garrafas cheias.

Bebo — respondeu o bêbado, com ar lúgubre.

Por que você bebe? — perguntou o pequeno príncipe.

Para esquecer — respondeu o bêbado.

Para esquecer o quê? — indagou o pequeno príncipe, já compadecido.

Para esquecer que tenho vergonha — confessou o bêbado, abaixando a cabeça.

Vergonha de quê? — inquiriu o principezinho, que desejava ajudá-lo.

Vergonha de beber! — terminou o bêbado, que se fechou definitivamente em seu silêncio.

E o pequeno príncipe se afastou, perplexo.

“As pessoas adultas são decididamente muito, mas muito, estranhas”, dizia a si mesmo durante a viagem.”

Antoine de Saint-Exupéry

Mosaico: Renovando neurônios

1. Quem foi o maior dos soberanos assírios conhecidos?

2. Que importante deus egípcio é representado com cabeça de cachorro?

3. O que significa, literalmente, o Dhammapada budista?

4. Que nome recebem as divindades que conduzem ou guiam as almas no Outro Mundo?

5. De qual escola filosófica surgiu a neoplatônica?

Respostas:

1. Asurbanipal

2. Anúbis

3. O caminho da lei

4. Psicopômpicas

5. Da de Alexandria

Mosaico: Inventos com história

As bonecas e os ursinhos de pelúcia

Supõe-se que desde tempos imemoriais as crianças usaram bonecas para suas brincadeiras, imitando a realidade dos pais e seus filhos.

A palavra francesa poupée deriva do latim puppa, que significa menina.

No começo, as bonecas foram fabricadas de madeira, de barro cozido, de marfim ou de cera. Os gregos e romanos criaram bonecas com braços e pernas articuladas. No séc. XIX apareceram bonecas feitas em papel machê. Na Alemanha e Inglaterra fabricaram-se bonecas de porcelana com as quais sonham os atuais colecionadores. A França se especializou nas vestimentas das bonecas. Da Europa chegaram à China.

Assim, começou pouco a pouco a aparecer no mercado uma grande variedade de bonecas brancas, negras, bebês, grandes, pequenas, de pano, de plástico ou de materiais duros, sendo talvez o mais popular dos brinquedos.

Por volta de 1880, Thomas Alba Edison (1847 – 1931), inventou uma boneca que falava mamãe e papai.

Em 1958 aparece a boneca com aspecto de adulta, a Barbie. Em 1961 surge seu amigo, o boneco Ken, e sucessivamente outros personagens do “mundo barbie”.

Outro personagem que se popularizou e que constitui uma companhia para as crianças é o ursinho de pelúcia.

Muitos disputam sua origem.

Na Rússia, em 1892 o Kzar Nicolas II presenteou um urso de madeira ao Presidente da França, Loubet, na ocasião da assinatura do tratado franco-russo.

Outros contam que o filho do presidente Roosevelt (período 1901 – 1908) tinha um urso do qual gostava muito, e ante a dor causada pela morte do animal, um carpinteiro criou um urso de brinquedo. O nome do filho do presidente era Teddy, daí o nome Teddy Bear.

Também se diz que em 1902, na Alemanha, Richard Steiff construiu um urso de tecido, com olhos de botões, e que vendeu muitos a um comerciante dos EUA para o desfile no casamento da filha de Roosevelt, mesclando-se as versões com a história do Teddy Bear.

O que é certo é que hoje o urso de pelúcia é um brinquedo muito conhecido e popular entre as crianças.

Francisco Capacete

Esoterismo e Religião

“Seus discípulos se aproximaram dele e lhe perguntaram: Por que lhes fala com parábolas? Ele lhes respondeu: A vocês foi concedido o conhecimento dos mistérios do reino dos céus, e a eles não”. Mateus, Capítulo XIII, Versículos X-XVIII.

Infelizmente as palavras “esoterismo” e “religião” estão sendo deturpadas porque os conceitos originais, os verdadeiros, foram contaminados com as poluições mentais e emocionais de cada momento histórico. E o que nos cabe viver agora não foge a esta alienação, mas sim que, por estarem os entendimentos e as vocações espirituais deformados pelo peso do materialismo, as imagens correntes estão se tornando confusas e freqüentemente estéreis, quando não malignas.

Assim vulgarmente se aceita que o esoterismo é um conjunto desorganizado de práticas mórbidas, ajudadas por drogas e manobras estúpidas de loucos e tiranos, alheios a toda norma ética e estética.

Na melhor das hipóteses pensa-se que o esoterista é um recompilador de todas as superstições e falsas crenças que foram acumuladas com o passar dos séculos. E que por esoterismo se deve entender tudo aquilo que, com grave risco da saúde da alma e do corpo, afasta os humanos do bem e da justiça, precipitando-os em crenças absurdas e criminosas.

Em suma, uma dissolução de tudo o que se entende por cultura e civilização.

Um câncer escondido e obscuro que carcome os indivíduos e a coletividade. E, logo, é a antítese de tudo o que é autenticamente religioso.

Melhor sorte não teve a Religião e suas diferentes formas e aspectos.

Ninguém considerado de “vanguarda” pode aceitar a religião como outra coisa que não seja o “ópio do povo”, que se opõe constantemente à ciência e se adapta como camaleão aos descobrimentos e às constatações da razão e da experiência.

Vêem-na como um consolo para os covardes que temem os sinais evidentes da vida e da morte. E, aos autenticamente religiosos, como simples frustrados e impotentes que buscam mentiras que lhes compensem as inevitáveis dores da existência.

Nossa sociedade de consumo aceita naturalmente que cinemas e supermercados estejam abertos até altas horas da noite, assim como bares e bordéis, mas igrejas, sinagogas e mesquitas só podem abrir suas portas umas poucas horas por dia.

Em contrapartida, os religiosos vêem os esoteristas como inimigos de morte e vice-versa. Assim as coisas ficam fáceis para ateus e materialistas, os quais, de uma forma ou de outra, infiltrados, trocam idéias para acabar com a fé em Deus, na alma imortal, e com todo aquele que, por seu caráter, supera o mito deles que colocam o homem na cúspide da evolução animal, ou seja, como o mais animal de todos.

Por azar de uns e outros, tanto os que se dizem esoteristas como os que se intitulam religiosos têm dado exemplos pouco construtivos.

Os primeiros por conformarem todo o tipo de seitas distorcidas que rebaixam a condição humana, além de terem em seu histórico práticas de magia negra, bruxarias e feitiços que levaram à loucura e à morte inúmeros crédulos, desde reis até mendigos.

Os segundos por terem uma postura de acordo a um fanatismo irracional e excludente que constitui o maior “racismo espiritual”. O passado deles está tristemente iluminado pelas fogueiras de todas as inquisições e, em nome de Deus, cometeram mais crimes e infâmias do que nossos jornais seriam capazes de publicar. Os elementos de tortura empregados contra os ímpios e suas perseguições superam o que é mostrado atualmente nos filmes de terror.

Porém podemos nos perguntar, não ignorando os equívocos que cometem todos os mortais: Isto é esoterismo? Isto é religião? O que têm em comum? São a mesma coisa? E se não são, que os diferencia?

Sob a luz da filosofia, que tão-somente busca a verdade que não tem dono, podemos responder essas perguntas.

As opiniões negativas que a maioria das pessoas têm sobre esoterismo e religião surgem em função da ignorância e do fato de nunca terem pensado seriamente sobre o tema.

Assim como não rechaçamos a ciência por haver inventado as bombas atômicas, tampouco podemos rechaçar o esoterismo, baseados no que sabemos e cremos saber sobre as seitas, e a religião, fundamentados nos pecados humanos – que conhecemos ou cremos conhecer – e de suas confrarias.

O homem, desde seu mais remoto passado, se diferenciou dos animais, nem tanto por sua inteligência ou bondade, mas pela possibilidade de perceber, de alguma maneira, a presença de Deus e a dos seres invisíveis, em circunstâncias especiais, por eles serem sensíveis aos nossos sentidos mais sutis. O homem, da idade da pedra, seja primitivo ou o remanescente de desaparecidas civilizações, fabricou primeiramente instrumentos de trabalho, junto a altares e pinturas, de intencionalidade metafísica, mágica, ainda que não tenha sido por causa disso que deixaram de ser úteis, já que propiciavam boa caça e proteção em relação às forças naturais, que eles intuíam como expressão de espíritos da natureza.

Homens sábios ou seres com aparência humana – que não devemos pensar que necessariamente eram tripulantes de discos voadores – lhes ensinaram, segundo todas as tradições, a agricultura e a pecuária, lhes deram conhecimentos astronômicos e astrológicos, técnicas e expressões faladas e escritas, símbolos e normas higiênicas, medicinais e formas de atravessar rios, abismos e montanhas.

Esses conhecimentos, somados a muitos outros, foram transmitidos de boca a ouvido, sendo considerados secretos, pois sua má utilização poderia trazer mais mal do que bem. A possibilidade de ser portador desse conhecimento foi conquistada por uns poucos homens que haviam superado ou controlado seus instintos de forma segura. Esses foram os herdeiros da “Magna Ciência”, a Magia, sendo os primeiros esoteristas.

Houve outros homens que, estimulados pelas necessidades do momento e dos diferentes lugares, que inicialmente seu nomadismo os levou, recolheram os reflexos destes ensinamentos secretos, adaptando-os constantemente ao tempo e ao espaço. Estes eram os religiosos. Em contato direto com o povo, tinham que pintar, para os que viviam próximo aos pólos, um inferno gelado e um paraíso quente; e, para os habitantes das zonas tórridas e temperadas, um inferno quente e um paraíso fresco e ameno montado sobre brancas nuvens.

No princípio, esses religiosos, possuidores ainda de elementos verdadeiros e secretos, pois viviam em íntimo contato com os esotéricos, deram a seus povos ensinamentos elementares, ao alcance de sua capacidade de compreensão, pois, tendo consciência disso, se dirigiam a eles com exemplos mais ou menos simples, por meio de contos e parábolas, que possibilitava que eles buscassem um entendimento maior e uma maior vivência das virtudes imprescindíveis para o progresso espiritual e material. Em pouco tempo, como no mito da Torre de Babel, os religiosos começaram a não se reconhecer mais e isso os levou a se combaterem uns aos outros ferozmente. Então a piedade de Deus fez com que, periodicamente, encarnasse entre eles um Messias, um Avatar, um Salvador, ou como queiramos chamá-los, para reencontrá-los novamente com a verdade, promovendo reformas que geralmente foram recebidas naquele momento com repúdio pelos religiosos obsoletos e pelos seus povos.

Os esoteristas mantiveram, graças ao segredo e as muitas garantias exigidas aos “iniciados”, um mesmo ensinamento e conduta através dos milênios. Esses ensinamentos eram e são iguais na Ásia, na Europa, na África e na América.

Os religiosos os adaptaram para benefício dos povos, fazendo com que não faltassem as verdades básicas, assim o ensinamento foi pacifista com Buda, militante com Cristo e bélico com Maomé.

Esoterismo e religião não são a mesma coisa nem se opõem, e sim se completam, como faz o eixo do carro que gira sobre si mesmo e a ampla roda que recolhe, em grandes voltas, a poeira dos caminhos. A roda às vezes fica coberta de areia e outras de água, mas o eixo permanece sempre no mesmo lugar em relação ao solo. Roda sem eixo seria um objeto sem utilidade e o eixo sem a roda uma abstração inútil.

Todos os grandes mestres religiosos tiveram seus discípulos diretos aos quais transmitiram as verdades que possuíam e outros mais afastados do conhecimento das coisas sagradas, ainda que não o estivessem de seus corações, que os seguiram levados por fenômenos impactantes e por narrações claras, fáceis de entender e, por sua vez, suficientemente atrativas para serem lembradas.

Todos os verdadeiros esoteristas formaram núcleos de discípulos aos quais transmitiram os antigos ensinamentos, para que esses, por sua vez, promovessem as ciências, as artes, a filosofia, a política e até mesmo as religiões.

Como todas as coisas manifestadas, uns e outros se desviaram e os corromperam mais de uma vez, dando origem a confrontações, perseguições, seitas e inquisições.

Porém este mal inevitável não deve ser confundido com tudo de bom que foi conservado, tanto no esotérico ou mistérico, como no religioso. O erro não é dos mestres; o erro é dos homens e isso está magnificamente simbolizado na “última ceia” do Cristo, com Judas traidor atrelado a sua bolsa de moedas.

Confundir e pôr no mesmo saco religião e esoterismo é um grave erro. As religiões passam e hoje milhares de turistas transitam pelos restos dos templos egípcios perguntando sobre as características e nomes de representações divinas que há milhares de anos eram conhecidas até pelo mais simples dos camponeses. Mas o espírito interno que alentou os mistérios no Egito não foi perdido e ajudou a levantar muitas outras culturas e civilizações.

Sei que, se algum fervoroso crente de qualquer religião ler estas páginas, dirá a si mesmo: “minha religião é a verdadeira; as demais caíram porque eram falsas, a minha prevalecerá”… Este é um argumento que foi usado também no passado por outros homens que acreditaram na religião de Osíris, de Istar, de Quetzalcoatl, de Nailamp. Hoje os visitantes dos museus olham suas imagens e perguntam: quem são esses?

Isso não desvaloriza a religião como ponte entre os homens e a divindade; simplesmente é necessário diferenciar o rótulo da garrafa e a garrafa de seu conteúdo.

Daí por que a mistura, tão em moda entre os mestres religiosos e os filósofos esoteristas, seja tão artificial e uma amostra a mais da contaminação e da confusão que impera. Pois há os que perguntam: Acaso um Buda ou um Moisés não eram iniciados? Evidentemente que, de alguma maneira, sim… Porém também, de alguma maneira, eram religiosos e místicos um Raimundo Lulio ou um Paracelso. Pois não há nada absolutamente separado nesse universo que tende à unidade, que é Deus acima de todas as formas. Mas no momento e enquanto dure o tempo, a maçã continuará sendo maçã e a rosa, rosa. E ambas cabem harmonicamente no jardim cultivado pelas mãos de Deus.

Seria belíssimo se todos entendessem isso e que, sem negar sua forma de fé ou de acesso ao conhecimento das idéias sagradas, se preocupassem mais em vivê-las do que em criticá-las e deixassem, como nos recomendou o Cristo, de ver a palha no olho alheio, e não a viga no seu próprio olho.

Uma Experiência Pessoal

Há muitos anos, quando o autor deste trabalho estava em sua primeira juventude e descobria, por meio da filosofia à maneira clássica, as fontes da vida e suas expressões, abriu a porta de sua casa para uns pregadores de uma forma religiosa que não vem ao caso mencionar. Mostraram-me um livro e me disseram, sentencialmente, que nele estava toda a verdade, e não somente isso, mas que unicamente por meio deste livro é que se encontrava Deus. Estavam se baseando, evidentemente, num princípio de fé, de credo à prova de balas. Citaram-me parábolas e ensinamentos. Escutei respeitosamente e lhes disse que o que me ofereciam não constituía, para mim, uma verdade, pois noutros livros e por meio de outros personagens históricos se havia dito mais ou menos a mesma coisa desde a proto-história. Ficaram escandalizados. Ameaçaram-me com o inferno eterno… e tanto insistiram que, com juvenil impaciência, lhes perguntei se Deus era onipotente e onipresente. Responderam que sim. Então lhes perguntei se Deus estava nas cadeiras em que estávamos sentados. Alarmados com minha ousadia, negaram. E à luz da lógica mais elementar, disse-lhes que, se Deus não estava nessas cadeiras, elas o limitavam e, portanto, Deus não era onipotente…, que eu concebia um Deus onipotente e onipresente, logo poderia estar tanto em uma cadeira como em um livro, tanto em uma oficina como em um altar. Ainda recordo o espanto estampado em seus rostos, talvez nunca tivessem pensado nessa problemática devido à força da repetição diária da mesma ladainha. Balbuciaram algumas palavras iradas, levantaram-se e se foram. Hoje, que sou mais velho e um pouquinho mais sábio, penso que não deveria ter questionado a fé deles, pois jamais devemos despojar alguém de um apoio, por ridículo que ele possa parecer, sem lhe oferecer outro mais sólido para que possa sustentar-se, ou melhor ainda, sem lhe ensinar a andar sem muletas. Porém, há pessoas que podem andar sozinhas e outras que necessitam de apoio. Mas, isso, só aprendi mais tarde.

Fernando de las Casas

Mitos e Simbolismo em Siddhartha de Hermann Hesse

Pilar Luis

Neste breve artigo, faremos uma homenagem a uma das obras literárias mais lidas no século XX e que certamente continuará sendo lida neste novo século XXI. Trata-se do romance Siddhartha do escritor alemão Hermann Hesse, Prêmio Nobel de Literatura de 1946.

Este romance foi publicado em 1922, quando o autor tinha 45 anos de idade e já era um literato consagrado, reconhecido graças às suas obras tais como “Peter Camenzind” (1904), “Bajo la Rueda” (1906), “Knulp” (1915) e “Demian” (1919) entre outras.

Hermann Hesse sempre se apresentou como um buscador, como um homem que queria se aprofundar constantemente no significado da vida, no destino, nas profundezas da alma humana. Aí radica precisamente sua força, no fato de que soube se aproximar do atemporal, das perguntas inerentes à condição humana. Por isso, mesmo depois de praticamente um século desde a publicação da primeira obra que o tornou famoso, Peter Camenzind, suas obras continuam sendo lidas com a mesma admiração de antes.

É importante mencionar que o interesse de H. Hesse pela filosofia e pela mística da Índia era, na verdade, um interesse familiar, pois tanto seu avô materno, o famoso sanscritista Gundert, como seu pai, Johannes Hesse, tinham sido missionários pietistas na Índia. Em sua casa estavam presentes tanto concepções cristãs e protestantes como hinduístas e budistas. De fato, H. Hesse sempre mostrou que Siddhartha tinha sido a obra que retratava sua própria crença. Todos os personagens de seus romances foram uma parte importante de sua própria alma rebelde e incansável, buscadora de valores duráveis e comuns a toda a Humanidade.

A trama do romance

Siddharta, o protagonista do romance, é um destacado filho de brâmanes que não encontra, por meio da religiosidade regulamentada, uma forma de satisfazer sua busca pela verdade, de encontrar a causa primeira das coisas. Tanto é assim que decide abandonar sua família contra a vontade de seu pai, indo embora em companhia de seu amigo Govinda.

Em busca de verdades mais diretas e desprendidas de formalidades vazias, une-se a um grupo de samanas, nome que recebiam os ascetas, habitantes das montanhas, que viviam longe dos convencionalismos sociais e faziam longas meditações e sacrifícios corporais. O objetivo destas austeridades rigorosas era alcançar, superando os personalismos, o “Atman”, a Causa primeira, a Unidade que tudo abarca.

Entretanto, junto aos samanas do bosque, também não consegue sua busca pela verdade e entende que toda a verdade da Vida nunca poderia ser encontrada anulando uma parte dessa vida, seu próprio corpo, suporte de sua existência. Junto com seu amigo, abandona os samanas e empreende uma viagem em busca de Buda (s. VI a.C.), Gautama, cujo nome quer dizer “O Vitorioso na Terra”, de quem precisamente se comentava haver conseguido segurança, harmonia e plenitude na vida.

Quando os dois homens se encontram com o Buda histórico ficam realmente impressionados pelo que este homem desprendia de si: uma serenidade, um saber estar no justo meio e um saber entender mais além das aparentes contradições da vida. Govinda decide ficar na ordem do Buda, o Shanga, como monge. Porém, Siddharta, mesmo certo de que o Buda havia alcançado sua ansiada meta, entende algo que este mesmo Buda ensinava: as doutrinas são ferramentas que podem nos levar ao conhecimento, mas só o esforço individual de cada ser humano pode levá-lo finalmente à perfeição buscada. As doutrinas são um meio, e não um fim.

Regressa à cidade em busca de seu próprio caminho de perfeição. Foi discípulo de uma bela cortesã, Kamala, que lhe ensinou todos os segredos do amor. Também foi discípulo de Kamaswami, que era o mais rico comerciante da cidade. Passou vinte anos com eles para entender, com base em sua própria experiência, que tanto a busca do prazer, que experimentou nesses 20 anos, como a austeridade em extremo, que havia praticado com os samanas, nunca o levariam ao “Atman”, à perfeição, a entender o sentido profundo da vida, sonho que o havia movido tanto tempo atrás e que ele estava a ponto de esquecer.

Abandona a cidade, sua amante e um filho que ia nascer sem ele saber. Finalmente, une-se ao barqueiro Vasudeva, com o qual já tinha se encontrado em outra ocasião e que não soube daquela vez reconhecer como instrutor. O barqueiro o iniciará na arte de entender a linguagem do rio no qual navegam, que não é mais do que uma metáfora do rio da vida. Finalmente Siddhartha conquista, com seu próprio esforço, a compreensão profunda da linguagem do rio da vida e da ajuda de todos os seres humanos que encontrou ao longo de sua intensa vida, conquistando a fusão com o todo, com o “Atman”, estrela dourada que o havia alentado desde sua juventude.

Os personagens

A obra Siddhartha está cheia de conceitos importantes da filosofia hinduísta e budista que são o Karma, o Nirvana e a Roda de Samsara, porém neste breve artigo nos concentraremos no simbolismo e nos mitos que aparecem na obra.

Todos os que leram Hesse sabem que ele deixa uma impressão de beleza e profundidade na alma. Hesse sempre dominou a arte de elevar-nos ao plano do mito, ao mundo dos símbolos, das realidades universais, válidas para todos os seres humanos. Ao ler uma obra de Hesse não podemos deixar de nos identificarmos com algo de seus personagens.

A bela cortesã Kamala e o comerciante Kamaswami são personagens dominados pelo que Platão chamou a parte irascível da alma humana, aquela que gosta dos objetos sensíveis, que deseja de forma desmedida os bens materiais, aquela que nunca se conforma com o que tem e sempre quer mais. Mais posses externas, maior segurança, maior comodidade, maior prestígio social.

Segundo a etimologia, o nome de ambos tem a mesma raiz, kama, que precisamente quer dizer “desejo” em sânscrito, a antiga língua dos brâmanes. Literalmente, kamala significa “a desejável” e representa o viver para satisfazer os sentidos, sem a preocupação de onde essa corrente de sensações pode nos levar. Kamaswami quer dizer “o mestre dos desejos”, aquele que sabe transformar em realidade seus desejos materiais, mas que tem medo de perder aquilo pelo qual tanto se esforçou para conseguir.

O barqueiro Vasudeva representa o homem sábio, aquele que já chegou ao fim de toda a busca, que encontrou o sentido profundo da vida. Curiosamente, Hesse deu a este personagem o nome do pai de Krishna, um dos grandes sábios da humanidade e inspirador da grande obra épica da filosofia bramânica, o Bhaghavad Gita.

Vasudeva, como encarnação do homem sábio, é um ancião, símbolo da experiência, das provas superadas na vida. Sua virtude principal é saber escutar a vida e os seres humanos, sem preconceitos, sem opiniões. Por esse motivo, pelo valor que se dá no Oriente à virtude do saber escutar e do saber interpretar o significado da vida, é que, na iconografia oriental, se representam as imagens dos Budas com grandes orelhas.

Siddhartha simboliza os seres humanos que estão no meio do caminho entre a sabedoria e a ignorância, ou seja, aqueles que estão entre os que vislumbram o sentido profundo da vida e aqueles que acham que o sentido da vida é a acumulação de bens e honras. Siddhartha também tem desejos, como Kamala e Kamaswami, porém seus desejos não são de posses, mas, sim, de conhecimento. Representa o filósofo, o amante do conhecimento, o guerreiro do espírito que supera seus limites e sua ignorância para alcançar as realidades perpétuas da vida.

Govinda quer dizer em sânscrito “a fase minguante da lua”. Daí por que na obra em algum momento Siddhartha chama seu amigo de “a sombra”. Govinda também representa o homem que busca, porém é aquele que não a termina por assumir sua própria responsabilidade. Não quer correr riscos, quer caminhos já feitos, por isso em vários momentos da obra ele só segue Siddhartha em suas decisões, como uma sombra.

Hesse tem a genialidade de fazer com que sintamos que seus personagens são encarnações de parcelas da alma humana. Todos temos algo de Kamala, pois buscamos prazeres e fugimos das dores sem pararmos para refletir sobre para onde essa roda sem fim dos acontecimentos nos levará. Porque cada prazer tem a semente da dor. Sofremos para conseguir o que desejamos e sofremos quando pensamos no seu possível fim. Todos temos algo de Kamaswami quando estamos preocupados em ter uma certa estabilidade e segurança na vida. Todos temos também dentro de nós um Vasudeva e quando o escutamos nos recordamos das coisas pelas quais vale a pena realmente lutarmos na vida. Porém, sobretudo Hesse nos faz viver, sonhar e experimentar com Siddhartha, pois somos viajantes, eternos buscadores das causas da vida mais além dos medos e das limitações.

O Mito

O pano de fundo do romance é precisamente a vida humana, a vontade de querer encontrar o seu sentido. Entender por que nascemos e por que morremos.

Este mito da busca é descrito em todas as culturas, exemplificando no mito grego de Teseu e Ariadne, no Bhaghavad Gita da Índia e no mito de São Jorge e o Dragão. No romance, como parte deste mito da busca da perfeição, é falado sobre duas viagens. A primeira evidentemente é a pelo mundo externo e a segunda é a feita pelo seu mundo interno. A Odisséia externa provoca uma Odisséia interna muito mais apaixonante. Siddhartha vai se transformando, vai mudando ao longo da obra. Ele quer o conhecimento, mas este tem dois véus sutis, porém reais, que não o deixam ver: é muito inteligente (é o mais inteligente dos filhos de brâmanes, é o mais diligente na hora de fazer as coisas, é o mais atento e tem toda a erudição dos versos sagrados, então já sabe muito, o que vai aprender?) e tem um orgulho que não deixa que ele aprenda plenamente com os outros. A primeira vez que se encontra com o barqueiro Vasudeva, antes de ir à cidade, o toma por um homem idiota, mas na verdade o barqueiro era possuidor de uma sabedoria e irá transmiti-la a ele no fim da obra.

Siddhartha teve que se perder nos prazeres da vida e nas ânsias pelo poder para vencer este orgulho, para sentir-se como os outros homens e romper esse véu que o estava separando dos demais. O segundo véu ele viu através de Kamala: “Siddharta, você é incapaz de amar”.  Era incapaz de se entregar, de dar tudo por outro ser humano e isso, somado ao seu orgulho, o limitava. Porém, a vida lhe dá um filho orgulhoso e desrespeitoso. Ele o quer e deseja facilitar tudo para ele, porque é seu filho. Pelo garoto comete todas as loucuras e desperta para o amor. A vida o faz entender uma lição sintetizada de forma genial pelo poeta libanês Khalil Gibran em sua obra “O Profeta”: “nossos filhos não são realmente nossos, são filhos da vida. Os pais somos apenas arcos que servimos à vida para que essa flecha que são os nossos filhos tomem seu próprio caminho, seu próprio destino”.

O filho o abandonou. Siddharta olhou para o rio, que ria, e sua imagem o fazia lembrar a imagem de outro ser, que ele em outro tempo havia respeitado e inclusive temido. Era a imagem de seu pai, então recordou o dia em que saiu e nunca mais voltou, e talvez aquele homem, que tanto o havia amado, tenha morrido sem ter visto seu filho novamente. O rio ria, sua vida e sua história não eram mais do que a história repetida de seu pai.

Estes eram alguns dos velhos ensinamentos da Índia, ou seja, o ensinamento do Karma, do qual Vasudeva já tinha lhe falado na primeira vez em que se encontraram, mas ele era orgulhoso demais para entender. Porque quando chegaram à outra margem, Siddharta lhe disse que não tinha dinheiro para lhe pagar e o barqueiro lhe disse que não importava, pois já imaginava isso. E lhe disse: “tudo na vida volta, você terá o mesmo em outra ocasião”.

O rio lhe mostrará sua imagem entrelaçada com a de seu pai, com a de seu filho, a imagem de Kamala, a de Govinda e a de todos os que havia conhecido em vida, cada imagem buscando uma meta, um fim, com ansiedade e com dor. E a consecução dessa meta era o começo de outra busca, de outra meta, de outra ansiedade, de outra dor. A água do rio também buscava sua meta, que era chegar ao mar, desde onde se evaporava para formar nuvens que voltariam a produzir chuvas que, por sua vez, formariam novos rios, novos riachos, novas correntezas.

Siddhartha continua olhando o rio e escuta todas as vozes: as de alegria, de tristeza, de dor e de prazer. Quando escuta atentamente o rio, e não faz sua nenhuma dessas vozes, a soma de todas elas é um único som: a perfeição. Então Siddharta deixa de lutar contra o destino, entende o sentido da corrente da vida e nesse momento entende que a Sabedoria é a consciência da Unidade das coisas, é saber ver detrás de todas as ansiedades e de todas as lutas. É saber pensar, sentir e viver em cada momento a Unidade.

A crença de Hermann Hesse

Hermann Hesse falou numa ocasião que Siddhartha era a obra na qual tinha expressado sua crença. Em uma de suas cartas escreve: “Não acredito na nossa ciência, nem na nossa política, nem na nossa maneira de pensar e não compartilho nenhum dos ideais do nosso tempo. Mas não careço de fé. Acredito nas leis milenares da Humanidade e acredito que sobreviverão a toda a confusão de nossa época atual…Creio que, apesar do seu aparente absurdo, a vida tem um sentido”.

Bibliografia:

Mi Credo, H. Hesse, Ed. Bruguera.

Siddharta, H. Hesse, Ed. Mexicanos Unidos.

Hermann Hesse, José María Carandell, Ed. Barcanova.

Quando a Filosofia é Arte – O Profeta, de Khalil Gibran

Yolanda García

Sobre a generosidade: “pouco você dá se só dá dos seus bens; dá de verdade só quando dá de si mesmo.”

Em 1923, o escritor libanês Khalil Gibran publica “O Profeta”. Esta obra será não só a de maior êxito como a mais madura de todas as que escreveu.

Filósofo e poeta, Gibran passou muitos anos pensando no livro e esperando sempre um momento especial para escrevê-lo. “Este livro é apenas uma pequena parte do que vi e do que vejo cada dia, uma pequena parte das muitas coisas que desejam se expressar nos silenciosos corações dos homens e em suas almas. O poeta é apenas a primeira letra de uma só palavra.”

Quando alguns lhe perguntaram como havia sido escrito, respondeu: “O livro me escreveu”. Ele se via como transmissor de um ensinamento universal que é patrimônio da Humanidade.

O Profeta foi seu segundo nascimento, e levando-se em conta o primeiro como o biológico, ele é o da consciência.

Apresentando-se com o nome de Almustafá, o profeta, antes de partir do povoado de Orfalase, sob os auspícios de Almitra, a sacerdotisa, dirige-se aos habitantes para lhes dizer: “De que outra coisa posso lhes falar senão do que vejo se agitar em suas almas?” É dessa maneira que ele então nos aproxima dos aspectos mais importantes com que todos se deparam em suas vidas. Fará com que reflitamos sobre o tema, revisemos nossas idéias, nossos sentimentos e nossa atitude. Abre-nos as portas para encontrarmos o verdadeiro ser humano, aquele que se esconde por detrás das aparências, aquele que pode surgir se soubermos como esculpi-lo.

Sobre o amor: “o amor só dá de si e nada recebe senão de si mesmo”. Sobre a amizade: “quando seu amigo se cala, seu coração continua escutando o dele”. Mostrando o que é a alegria e a tristeza: “juntas chegam e, quando uma vem se sentar à sua mesa, lembre-se de que a outra, adormecida, te espera em seu leito”. Sobre o trabalho de cada um: “Trabalhar com amor é estar unido com você mesmo, com os outros e com Deus”. Falando sobre a verdadeira liberdade: “e se é um temor o que queres dissipar, o centro deste temor está em seu coração, e não na mão que temes”. Sobre a generosidade: “pouco você dá se só dá dos seus bens; dá de verdade quando dá de si mesmo”.

Depois dessa jornada, desvelando mais um véu nos revelará os mistérios da vida e da morte com sua linguagem intimamente poética e cheia de significado.

“O que é parar de respirar senão liberar o alento de seus mares agitados a fim de que se levante e se expanda e busque a Deus livremente?” Almustafá partirá do povoado de Orfalese, porém sua marcha não é sinônimo de vazio, pois se converteu em um guia para que cada um reconheça seu próprio ser interior e possa viver sua própria vida de acordo com sua natureza imortal, que arraigou no mais profundo de seu coração. “Você não está preso em seu corpo; o que você é mora mais acima das montanhas e vaga no vento…”

Khalil Gibran deixa claro a importância que tem o Profeta, seja no livro ou na vida real. É a figura do mestre, do homem de conhecimento, o que guarda as sementes da sabedoria para aquele que queira buscá-las. Para cobrir a necessidade de aprender que tem o ser humano é necessário aquele que ensina, alguém com essa capacidade tão pouco comum de ver mais além da superfície e aprofundar através das máscaras da vida; e esse alguém pode descobrir algo que naturalmente todo ser humano necessita, porque devolve a magia de saber-se humano e a possibilidade de viver de acordo com nossas nobres aspirações.

Desde o fundo da História – As asas do escudo

Só fiquei eu, o emblema, a parte central do escudo do meu dono, porque sou de bronze. O restante, de couro e de madeira, se desfez por entre os dedos sem misericórdia do tempo. Nasci em Olímpia, no século IV antes de vossa era. Meu rosto de górgona infundia terror em meus inimigos. As serpentes que me rodeavam os hipnotizavam.

E tenho asas. Três como logo foram representadas nos triskeles mágicos do norte da Espanha. Girando em sentido horário, porque devem dar força e proteção ao guerreiro, porque o escudo não traz a morte, mas sim segurança. Nada tira, senão o desamparo ante a morte.

Tenho asas. São de minha vitória. Minha esperança. Elas, após o combate, me farão levantar vôo sobre a terra ensangüentada, por cima dos cadáveres caídos dos heróis. Elas me levarão ao Hades, para continuar servindo a meu dono em sua nova vida no submundo. Já não terei que defendê-lo de nada, porque ali ninguém é inimigo, todos se igualam na morte, porém seguirei fazendo parte de sua vestimenta, junto com sua espada e sua couraça. Estou orgulhoso por isso.

Asas de vitória, para sobrevoar os campos de batalha. Asas para os sonhos de conquista, para os pensamentos das noites de guarda das sentinelas. Para as proezas das almas guerreiras, sem medos nem fronteiras.

Meu dono me poliu, meu rosto e meus cabelos serpentinos cintilaram ao Sol, ferindo os olhos dos inimigos. Depois, na tumba na qual repouso junto a ele, os óxidos tornaram verde minha bela cor dourada. O couro que me sustentava foi se desfazendo. Os ossos do meu guerreiro viraram pó com a terra acolhedora.

Fiquei eu. Ficaram minhas asas, 2600 anos depois.

E seguirei voando pelo céu dos deuses da guerra e da paz.

Mª Ángeles Fernández

Protagonistas da história – Gandhi, a conquista da liberdade

“O que se adquire com violência, só se pode manter com violência”. (M. Gandhi)

Einstein em certa oportunidade ao referir-se a M. Gandhi disse: “talvez as gerações futuras duvidarão que alguma vez um homem semelhante a esse realmente fosse feito de carne e osso e tenha caminhado por este mundo”. O poeta Rabindranath Tagore o chamou de “Mahatma” (Grande Alma), título que sempre evitou com absoluta modéstia.

Nascido na cidade indiana de Porbandar no dia 26 de outubro de 1869, seu verdadeiro nome era Mohandas Karamchand Gandhi. A família Gandhi (que significa vendedor de mercearia e de alimentos) pertencia à casta dos vaishayas, vale dizer a dos comerciantes.

O menino Mohandas, apelidado de Mohaina, brincava circulando pelos cantos e esconderijos da enorme casa onde nasceu e deslizava pelas ruas do bazar “como se fosse um azogue” como diria sua irmã. Demonstrava uma curiosidade insaciável por tudo o que o rodeava e, apesar de suas travessuras, foi um bom menino, que não duvidava de, ao subir num pé de mangueira, “fazer uma cura aos frutos” como ele diria posteriormente. Gostava muito de rir e sorrir.

Aos quatorze anos o casam, como exige o costume do hinduismo da época, com uma menina de treze anos que não conhece, chamada Kasturbai. A experiência é muito forte para Mohaina, que já não ria tanto, mas em troca a amava com paixão. Mais tarde se declararia contra o casamento entre crianças e a favor da continência sexual.

Aos dezoito anos, depois de concluído seus estudos no seu País, o jovem Mohandas Gandhi decide ir estudar direito na Inglaterra. Para contentar sua mãe, que era muito religiosa, antes de viajar fez três votos solenes de não beber vinho, de não tocar em mulher e de não comer carne. Além disso, foi expulso de sua casta que não autorizou sua partida: “Este rapaz será tratado como um pária a partir do dia de hoje”.

O cordão umbilical é aparentemente cortado, no entanto é na Inglaterra que Mohaina vai se descobrindo indiano. Como resultado disso, em Londres começou a freqüentar os teosóficos, que o iniciaram na leitura de Bhagavad Gîta, que ele consideraria “o livro por excelência para o conhecimento da verdade”. Também descobre o “Novo Testamento” e o Livro de Arnol “Luz de Ásia”. Também leu Tolstoi, quem mais tarde serviria como seu guia para a teoria e a prática da não-violência. Quando regressou à Índia com o diploma de advogado, tinha procedido da forma oriental: foi buscar a sabedoria ocidental, mas regressou com os segredos que tinham feito sábios os hindus.

Logo que chegou aceitou o trabalho que lhe ofereceu uma firma indiana para trabalhar na África do Sul. A segunda separação de sua família é dolorosa, pois, desta vez, estava começando sua vida profissional. Ele ainda não sabia que seria também sua entrada na luta.

Na África do Sul, como na Índia, reina o Império Britânico. Os brancos contrataram e trouxeram milhares de indianos, que eram melhores escravos do que os negros que não rendiam o suficiente. No caminho feito de trem até Pretoria, o advogado Gandhi tomou consciência de que ali ele não era mais do que um “sujo coolie”. Ainda que tivesse um bilhete de primeira classe, um branco o fez descer na plataforma com suas malas. Ali Gandhi ficou a noite toda, tremendo de frio e de indignação. De reunião em reunião e por meio de fortes protestos, obteve o que parecia impossível: os indianos vestidos corretamente e limpos teriam o direito de viajar na primeira classe. Mas a situação era mais grave do que parecia. Terminado seu trabalho, Gandhi estava pronto para regressar à Índia quando soube da existência de um projeto de lei para tirar o direito de voto dos hindus. Decidiu então retardar sua partida em um mês para organizar a resistência de seus compatriotas, e esse mês se converteu em vinte e dois anos. Gandhi diria o que aprendeu como resultado de toda sua luta contra as injustiças: “para desarmar o adversário há que comovê-lo, e não devolver a injustiça com injustiça”.

A África do Sul foi laboratório de provas no qual Gandhi testou e comprovou as técnicas que mais tarde utilizaria em sua terra natal. Chegando à Índia em 1915 foi recebido como herói pelas massas de Bombaim. Começou fundando uma comunidade quase monástica onde eram proibidas as vestimentas estrangeiras, as comidas com especiarias e a propriedade privada. Nesta ocasião Gandhi iniciou a luta que manteria durante toda sua vida: a batalha contra todos os resquícios de práticas atrasadas do hinduismo e a favor dos intocáveis (não enquadrados em castas), começando por admiti-los como membros da comunidade.

Nos anos seguintes, Gandhi se converteu em um indiscutível líder nacionalista. Foi nessa época que ocorreram as grandes campanhas de desobediência civil, que iam desde o não-pagamento de impostos até o boicote às autoridades. Milhares de indianos encheram os cárceres e Gandhi foi detido em março de 1922. Ao ver que se rompeu a unidade de ação entre hindus e muçulmanos, retirou-se da política para viver como um eremita, convertendo-se no chefe espiritual da Índia.

A Índia alcançou sua independência em 1947, separando-se em dois países, Índia e Paquistão, após a separação continuaram os enfrentamentos entre hindus e muçulmanos. No dia 13 de janeiro de 1948, com 78 anos,começou um jejum com o firme propósito de deter o derramamento de sangue. No dia 30 de janeiro foi assassinado por um fanático hindu que era opositor do seu programa de tolerância em relação a todos os credos e religiões. Morreu com a palavra Rama (Deus Rama) nos lábios.

Julián Palomares

Agressividade

Desde muito cedo, as crianças costumam manifestar suas angústias e fragilidades através de impulsos e exaltações por vezes violentas. Mordidas, gritos, tapas e beliscões são os meios de expressar sentimentos com os quais não possuem mecanismos desenvolvidos para lidar. Isso ocorre já na fase que compreende a primeira infância, quando a criança está começando a perceber-se, a inserir-se no mundo e passa a ter contato com as primeiras situações de conflito.

Os maiores conflitos ocorrem nos períodos de transição: o ser humano, em geral, teme o novo e tem dificuldades de lidar com mudanças, devido a sensações de insegurança e instabilidade. Exemplos disso são as alterações no comportamento que se observam quando a criança deixa de ser bebê e também quando começa a entrar na puberdade. São momentos especiais, quando deixamos algo para trás e nos deparamos com o desconhecido.

A adolescência é um momento muito marcante. Um adolescente que passa por tal processo de transformação necessita de uma boa estrutura física, psíquica e espiritual para que possa firmar sua identidade em bases sólidas e não acabe se deixando levar pelo desespero, caindo em rebeldias vulgares, frutos de seus próprios instintos descontrolados.

Cada fase da vida do ser humano requer vivências e elementos específicos que lhe permitirão seguir avançando sempre, com segurança e portando as ferramentas necessárias à sua própria evolução. Amor, beleza, bons exemplos, disciplina, responsabilidades, aventuras e realizações são elementos fundamentais na formação de crianças e jovens. A falta desses elementos é o que irá produzir desvios de conduta e futuras deformações de caráter.

Atitudes agressivas periódicas denotam a existência de um problema efetivamente. Trata-se de um pedido de ajuda, é o sinalizador de que algo está errado. Cabe aos pais e educadores o papel de, juntos, analisarem os fatos e refletirem sobre suas possíveis causas, conscientes de que boa parte da solução está na simples tomada de atitude no sentido de se estabelecer uma postura firme que traga segurança e referencial à criança. Ela precisa saber para onde ir, o quê e como fazer. Ter a certeza de que não está só, de que há alguém forte ao seu lado. Alguém que sabe e é capaz de ensiná-la.

Natália Ramon

BUSCANDO A ARTE – Cenas de carroças

Claudete Guillot – Museu do Louvre

Por Maria Ángeles Fernández

Este pintor pouco conhecido dos séculos XVII – XVIII, como Watteau e muitos outros artistas da época, interessou-se pelo teatro e em particular pelas figuras da comédia italiana, como indica este quadro.

Trata-se de uma cena de comédia, a feira de Saint-Germain, onde se enfrentam dois carroceiros em uma representação especular. Se se traçasse uma linha vertical que correspondesse quase exatamente à esquina da casa central, haveria dois blocos, um espelho do outro: as rodas que fecham as laterais, as varas que se quase chocam entre si, os arcos dos assentos, as mãos com varizes de dois dos personagens, os braços dos carroceiros, cujos rostos quase se tocam, coisa que fazem os tricórnios (chapéus de cor preta brilhante com três pontas que usava a guarda civil), um prolongação do outro; suas pernas, na mesma posição, a postura avançada dos viajantes, que ademais faz convergir, entre a paleta escura geral, a mancha branca dos seus véus.

Essa situação especular e sua união no centro criam, não um ponto de fuga, mas uma atração imediata à atenção do espectador. É um exemplo de “desvio do óbvio”, porque, ainda que o estranho véu branco seja como uma flecha de luz que deveria chamar a atenção, são os rostos dos condutores que primeiro se destacam. Consegue-se assim centrar no argumento da cena, a discussão — a possível batalha — que sem dúvida é a base da comédia representada.

É, portanto, um quadro “psicológico”, ainda que custe chegar a essa conclusão. Distrai-se nos demais elementos, mas inevitavelmente se chega a ela.

O cenário, os sombrios edifícios, fecham toda saída. Bloqueiam o escape. Fecham com os personagens e sua violência, escurecem tudo que não sejam eles e a sua discussão.

Quaisquer que sejam os ocupantes das carroças, são ignorados. Mas ainda em sua estranha monstruosidade, como o da direita, se vêem próximos da realidade atual: uma briga de trânsito.

Existe algo mais cotidiano, três séculos depois?

Confúcio e a harmonia entre o céu e a terra. O Chung Yung

No Chung Yung se encontra desde a mais metafísica das sentenças até os exemplos mais cotidianos e simples para conseguir plasmar os mais altos ideais celestes na terra.

Pilar Luis

No século VI a.C., a China vive momentos de incerteza, de conflitos pessoais e políticos. Mas a perturbação social e moral que dominava esse povo milenar não poderia ser duradoura, porque o espírito chinês tende naturalmente ao equilíbrio das formas, feitos e ideais, inspirados no equilíbrio da Natureza. Naqueles anos de perda de valores em todos os âmbitos, se plantam as sementes de um grande renascimento cultural, social e político que a posterioridade conheceria como período clássico.

Um dos homens que mais contribuiu para plantar a semente desse grande renascimento chinês foi o sábio Kong Tse ou Confúcio, como é normalmente conhecido no Ocidente, pela latinização de seu nome pelos missionários franceses de Pequim no século XVIII d.C.

Talvez a conquista mais importante de Confúcio nesse sentido, além de ter formado um sólido grupo de discípulos e de ter utilizado sua sabedoria para melhorar a justiça de seu estado natal — chamado Lu (atual província de Shang Tung) —, seja que teve a grande visão histórica de recuperar o povo chinês e incorporar para toda a Humanidade seu tradicional conhecimento, para que não ficassem no esquecimento aqueles turbulentos dias de crises e revoltas.

Neste breve artigo, se fará um comentário ao Chung Yung, que pertence ao segundo grupo de obras. Para isso, serão apresentadas numerosas citações de sua obra. Nela se encontrará a doutrina central ensinada pelo mestre. Mas, acima de tudo, se encontrará com grande claridade o tradicional ideal chinês de traçar uma ponte entre o celeste — as leis celestes — e o terrestre. Inspirando-se na Natureza se trataria de plasmar a harmonia no homem e nas sociedades.

O Chung Yung ou a doutrina do meio

Chung quer dizer “centro”, lei, aquilo que não se tenha desviado para os extremos. Yung trata da arte de saber aproximar-se do centro, da estrela, do ideal, do arquétipo, do eixo, das leis da vida e da lei do humano e plasmá-lo de forma contínua, perseverando nele.

A obra foi escrita por Tse-tsé, neto de Kung Tsé. Os ensinamentos foram transmitidos de forma oral por Confúcio a seus discípulos diretos. Estes por sua vez os transmitiram a seus discípulos. Dentre eles encontrava-se Tse-tsé, que, por medo de que esses profundos, belos, elevados e ao mesmo tempo práticos ensinamentos se perdessem, decidiu transcrevê-los para que o tempo não os distorcesse.

Reproduzir a ordem celeste, nas leis da Natureza.

Para Confúcio, todas as coisas tinham sua causa no metafísico, no perfeito.

O perfeito é a causa e o fim de todos os seres; sem o perfeito, por conseqüência, não poderia existir nenhum ser (cap. XXV).

Tanto nos movimentos dos astros quanto nas leis da natureza na terra se pode ver o reflexo do perfeito, da causa que há por trás de todas as coisas.

O poder do céu e da terra se resume em uma só palavra: a perfeição (cap. XXVI).

Dessa forma, e com grande lógica, o mais perfeito, o mais regular e justo que se pode conceber são as leis dos astros no céu e da Natureza na Terra, o ideal chinês — e, segundo Confúcio, modelo do sábio chinês — é harmonizar o celeste e o terrestre, regular a vida dos homens e das sociedades aplicando essas leis naturais.

Kung Tse professava uma extraordinária veneração pelos reinados dos antigos imperadores Yao e Chun, mas tinha como modelo em suas ações os soberanos mais recentes Wen e Wu. Conheciam as leis naturais e imutáveis dos corpos celestes e imitavam a sucessão regular das estações que ocorrem em virtude de tais leis. Adaptavam-se às leis da terra, às leis das águas tranqüilas e móveis. Eram comparáveis ao céu e à terra, que sustentam e dão energia a todos os seres, que cobrem e envolvem tudo que existe. São também comparáveis às quatro estações, que se sucedem de forma regular e constante. São comparáveis ao Sol e à Lua, que se alternam na iluminação do mundo (cap. XXX 1-2).

Por esse motivo, pela devoção que professava pelas leis da Natureza, o povo chinês sempre deu muita importância e valor aos rituais e às cerimônias. Entendiam que as cerimônias terrestres reproduziam os movimentos celestes.

Somente através dos rituais e costumes inspirados no céu se pode alcançar a ciência do trato a todos os seres (cap. XX-5).

A harmonia no homem: ordenar vida conforme a razão.

Já se mencionou o valor que para o homem chinês tinha a Natureza como inspiradora de sua ética. Tratava de imitar a regularidade e a perfeição observada na mudança das estações, na sucessão dos dias e das noites, ante o fato de que as leis dos corpos celestes se cumprem simultaneamente sem interferir uma na outra.

Mas o maravilhoso e transcendental é que, se tudo teve sua origem no perfeito, também dentro do próprio ser humano se encontra a lei, o reflexo das leis da Natureza. Para Confúcio, essa lei humana, o reflexo do perfeito no ser humano, é constituída pela parte racional do homem.

A única coisa verdadeiramente perfeita, sem nenhuma mistura de imperfeição, é a lei do céu. O homem deve esforçar-se para descobrir em seu interior essa lei do céu, que é a base e fundamento de todos os seus deveres (cap. X-17).

O destino, a meta, de todo ser humano é conquistar plenamente sua natureza racional. O homem que tenha conquistado o ideal humano de perfeição é o sábio.

A virtude do homem perfeito é comparável à terra por sua amplitude e profundidade; é comparável ao céu por sua elevação e resplendor; assemelha-se ao espaço e ao tempo ilimitado por sua extensão e duração (cap. XXVI).

O sábio identificado com a lei do dever cultiva com esmero sua natureza racional, que recebeu do céu, e se dedica a investigar o que ela prescreve. Penetra no mais profundo do seu ser para descobrir os preceitos mais sutis e para captar as normas inacessíveis às inteligências vulgares. Desenvolve ao grau máximo as faculdades de sua inteligência e como norma impõe a si mesmo seguir sempre os princípios da reta ação. (…) Aceita as leis reconhecidas e praticadas desde a antiguidade pelos homens virtuosos (…) e esmera-se na prática dos ritos e dos costumes, por ser a manifestação da lei do céu (cap. XXVI).

Talvez o mais surpreendente ou o mais belo seja ver como essas palavras de Confúcio se encontram expressas de forma similar por outros grandes filósofos ou sábios de outras grandes correntes civilizatórias da História. Quando se ouve Confúcio falando da parte racional do homem, soa como Platão ou seu discípulo Aristóteles, que ensinavam que a felicidade própria da natureza humana não pode ser a de permanecer num estado vegetativo, já que isso o homem comparte com as plantas; tampouco a vida de sensações, pois isso o homem compartilha também com os animais. Deve haver algo próprio somente do homem: é a vida da alma conforme a razão. O maravilhoso e transcendente é encontrar esse ideal de perfeição humana mais além do tempo e do espaço, é lembrar pela boca de outros homens algo que se intui e se sonhamos, o que é um homem perfeito e quanto custa plasmá-lo.

Mas como chegar à sabedoria? Como exercitar-se cotidianamente? Que conselho dá Confúcio?

É preciso estudar muito para descobrir tudo o que é bom. É necessário também saber perguntar com precisão e acerto para averiguar, dentre tantas coisas, o que é bom. Deve-se permanecer sempre alerta e refletir constantemente para não perder o bem que se tenha adquirido. A todo momento se devem renovar os esforços para avançar no conhecimento do bem e distingui-lo com clareza do mal (discernimento). Finalmente, é preciso praticar o bem com firmeza e tenacidade (cap. XX-18).

Portanto, deve-se dedicar atenção especial ao estudo, à reflexão, à atenção, ao discernimento e, sobretudo, à tenacidade ou perseverança.

Quem não estuda, ou quem mesmo estudado não obtém nenhum aproveitamento, não deve desanimar por isso, não deve parar sua caminhada. (…) O que outros fariam em uma única vez, este necessita dez vezes para fazê-lo; o que outros fariam em cem vezes, este necessita mil vezes para fazê-lo. Aquele que segue de verdade esta norma de perseverança, por mais ignorante que seja, tornar-se-á ilustre sem se dar conta; por mais débil que seja, tornar-se-á naturalmente forte (cap. XX 19-20).

A harmonia nas sociedades – A justiça

Para Confúcio — como para os filósofos da Grécia Clássica qual Platão, Aristóteles, Pitágoras ou Zenão —, a perfeição, a sabedoria não é o único fim, pois o homem sábio buscará seu papel trabalhando para outros homens. Buscará também a perfeição de todos os seres, pois este é o ideal no social, o ideal humano no político: que os homens morais e intelectualmente mais capazes ajudem aos outros homens na busca de sua própria perfeição.

O homem perfeito não se satisfaz com sua própria perfeição, mas busca o aperfeiçoamento de todos os demais homens. O aperfeiçoamento de si mesmo ou o aperfeiçoamento interior é uma virtude; o aperfeiçoamento dos demais ou o aperfeiçoamento exterior é uma ciência sublime (cap. XXV).

O principal dever de um príncipe prudente consiste na promulgação das leis mais importantes, que se imporão a todo o povo pela autoridade de sua virtude e pela alta dignidade de sua pessoa (cap. XXIX).

Uma vez mais a harmonia, ou o Li, entre os homens estará inspirado nas leis celestes e da Natureza:

Somente o homem perfeito pode estabelecer a norma fundamental de todas as coisas, as ações e operações que se realizam no mundo, de acordo com alguns princípios fixos e de acordo com a natureza de cada ser; somente o homem perfeito pode compreender a força criadora e aniquiladora do céu e da terra (cap. XXXII).

Como para o indivíduo, seguem-se alguns exemplos práticos do que é um país dirigido por um governante sábio ou pelo menos por um filósofo inspirado pelas leis da vida.

A boa administração de um reino depende do conjunto de virtudes e qualidades que possuem os ministros do príncipe, do mesmo modo que a fertilidade de uma terra depende do conjunto dos elementos que a compõem (cap. XX-3).

A genialidade de Confúcio foi traçar uma ponte entre os ideais individuais do homem, a ética, e a política ou os ideais sociais do homem. Os estados só podem ser verdadeiramente felizes se os indivíduos são felizes, e os indivíduos só podem ser felizes se os estados são felizes.

Confúcio hoje

Confúcio volta a ser estudado e respeitado na China cinqüenta anos depois da revolução comunista por que sua mensagem é a alma do povo chinês.

Mas, para além disso, se pode dizer que a mensagem de Confúcio é como as estrelas que iluminam a noite e marcam a rota dos navegantes; a mensagem de Confúcio não tem idade. E mostra, como tantos outros sábios, o eterno ideal humano da busca da perfeição, no individual e no coletivo. Pitágoras dizia que “a perfeição não é planta desta terra” e assim é; quem sabe na Terra nunca haverá nada perfeito. Mas que seria da vida dos homens se esses grandes sábios não os lembrassem uma vez ou outra os eternos ideais da beleza, da justiça, da bondade, da verdade? Onde ficariam as grandes obras humanas na arte, na ciência, na mística, no social? Talvez não haja nada mais difícil e mais belo do que se atrever a buscar a harmonia, atrever-se a traçar uma ponte entre o celeste e o terrestre.

Obras de Confúcio

A obra de Confúcio divide-se em dois grandes grupos. De um lado, os cinco livros clássicos que são uma compilação do tradicional saber chinês. Nesse grupo de livros se encontra o Shi Ching (Livro de Poemas), o Shu Ching (Livro de História), o I Ching (Livro das Mutações) e o Li Ki (Livro de Ritos). De outro lado, os quatro livros clássicos que contêm os ensinamentos de Confúcio compilados por seus discípulos. Dentre eles se encontra o Ta Hio (Grande Estudo), o Lun Yun (Analectos), o Chung Yung (A doutrina do meio) e os livros de Mencio (máximas ao estilo das Analectas, realizadas por Mencio, sucessor de Confúcio).

As quatro grandes virtudes celestes

Confúcio, em sua grande praticidade, mostra as virtudes a conquistar:

(…) As quatro grandes virtudes celestes: o amor, a justiça, a cortesia e a consciência do dever (cap. XXXII).

O amor. O homem perfeito ama intensamente a todos os seus semelhantes, possui intensa e profunda capacidade de reflexão interior, e seus conhecimentos sobre as realidades celestes são numerosos (cap. XXXII).

A justiça. O sábio conhece o externo, ou seja, o mundo e os homens através de sua própria pessoa; conhece as paixões dos demais homens refletindo sobre suas próprias paixões; conhece os mais secretos movimentos do coração dos homens analisando seus próprios sentimentos. Deste modo pode entrar pelo caminho da virtude (cap. XXXIII-1). Quem é mais justo do que aquele que conhece a si mesmo?

A cortesia. Para o bom governo de si mesmo, é indispensável a higiene pessoal, sempre se apresentar ante os demais com decoro e elegância, vestir roupas distintas e não permitir o menor gesto ou ação contrários aos ritos ou costumes prescritos (o olhar, o escutar, o mover-se, entrar, sair, levantar-se, sentar-se e gestos) (cap. X-13).

O dever. Ser diligente e pôr o máximo de empenho no cumprimento de todos os deveres; ser mensurado no falar, evitando toda palavra supérflua; comportar-se sempre com serenidade e prudência; ser sincero, pois as palavras sempre respondem às obras, e ser veraz, pois as obras sempre respondem às palavras (cap. XIII-5).

Bibliografia

Os quatro livros clássicos. Confúcio. Ed. Grupo Zeta, 1997.

A filosofia chinesa segundo Confúcio e Lao Tse. Samuel Wolpin. Ed. Kier, 1993.

Confúcio. Daniel Leslie. Ed. Edaf, 1991.

Einstein, o homem

Foi um homem profundamente bom, vítima de um tempo em que as armas e as guerras floresciam em qualquer lugar e em que a musa da arte poética já não cantava, mas em que a musa da arte matemática de Einstein o fez. Para ele, o conhecimento e a verdade são como dois pontos que se encontrarão no infinito; a verdade é o fim ultérrimo a que se há de chegar. Ele fez uso da linguagem da abstração para alcançá-la.

Não acreditava num governo mundial com fronteiras. Falava de estados federados onde, através da educação, os homens fossem livres, em mente e espírito. Somente assim triunfaria a verdade sobre a mentira.

Apesar de suas discrepâncias com os pais da teoria quântica, existia entre eles uma cordialidade inusitada — Einstein e Bohr faziam consultas um ao outro. Participava junto com físicos quânticos das reuniões anuais de Copenhague, às quais o convocavam para que expusesse seus pontos de vista, que, devido a sua energia mental, eram sempre os mais lógicos.

Quando uma tese quântica conseguia passar pelas provas submetidas por Einstein, normalmente era a mais idônea.

Seus famosos experimentos mentais eram conhecidos. Essa agilidade demonstrou em mais de uma oportunidade, em muitos compromissos com grandes físicos como Bohr ou Heisenberg. Mas não apenas de pão vive o homem. Nessas reuniões se conversava sobre temas sociais, políticos e filosóficos. O século XX foi o mais semelhante às épocas das academias florentinas do Renascimento ou do Liceu de Aristóteles.

Einstein intuía soluções dos problemas, não chegava a elas através de um desenvolvimento matemático. Primeiro, fazia um exercício mental de abstração. Logo, vinha o árduo trabalho das equações matemáticas para corroborá-lo. Isso não era o mais importante. Às vezes, até chegava a encarregar o trabalho a algum colega. Seu método era indutivo, platônico. Poucos homens são capazes de fazer uso desse método de conhecimento; essa abertura mental está restrita a determinadas flores da Humanidade.

Sempre preferiu o ensinamento à investigação. Era um grande mestre. Conta-se que se podia vê-lo em casa entretendo seus filhos com uma mão e com a outra resolvendo equações, e na sua frente um aluno da universidade que tinha convocado para esclarecer algum tema.

Os alunos acorriam a ele, adoravam-no, porque ele lhes dava a possibilidade de se perguntar, de pensar. Ajudava os jovens a pensar por si mesmos e não a serem pensados. Não era duvidar por duvidar, mas saber questionar corretamente os problemas. Tudo surgia de um bom planejamento, fazer-se as perguntas básicas, como uma criança, e tratar de resolvê-los. Não pelo que os outros diziam, mas pelo autoconvencimento; do contrário, não serviria para nada. Quando alguém interioriza isso, avança mais um passo.

Para Einstein, havia homens que sabiam muito, grandes intelectuais, grandes eruditos, com muitos conhecimentos, mas não sabiam entender as coisas, e isso, na realidade, de nada servia. Ele dizia que o importante era entender os conceitos simples, humildes, belos da vida, que não há tantos, e isso foi o que conseguiu dos seus alunos. Chegou a editar um livro com todas as conclusões e passos que lhe tinham custado anos de investigação e esforço, mas que, sinceramente, não serviam para nada, a fim de evitar que outro “tolo”, como ele dizia, perdesse tanto tempo, tantos anos, como ele fizera.

Foi um homem de coração, de coragem, digno de se chamar cientista com letra maiúscula, de defender os sagrados conceitos da ciência. Esses conceitos que não têm pátria nem nacionalidade, mas que são universais porque foram criados por grandes homens que, após muito esforço e investigação, forjaram um compêndio para que os que viessem pudessem nutrir-se dele. Aportou com uma gota a mais para esse grande rio. E como dizia, com sua típica humildade, suas teses ficarão obsoletas porque chegará um dia em que os homens terão encontrado não apenas respostas a essas perguntas simples, mas terão encontrado a si mesmos. E quando um homem aprende a pensar por si mesmo, surge aí o homem do futuro, um homem com ideais profundos.

Estudava a Natureza, mas seus delineamentos iam para além do físico, eram mais filosóficos. Suas teorias têm esse aprofundamento que permite refletir sobre os segredos da Natureza, esses segredos pequenos, simples, escondidos, mas que estão à vista de todos e que as pessoas não se atrevem a descobrir porque não os vêem, porque estão encerradas em seu pequeno mundo de mentira. Ele foi capaz de tirar os véus e detalhar o que observou.

Viu-se envolvido no famoso projeto Manhattan para construir a bomba atômica. Proclamava-se pacifista no bom sentido da palavra, mas como ele mesmo dizia, um pacifista era um homem comprometido com a sua época e que não devia permitir que uma multidão de homens violentos e sem moral dominassem o mundo a força, pois acabariam indo contra os deuses.

Um livre-pensador não poderia permitir que a Alemanha que tanto amava tivesse tomado aquele rumo. Talvez tenha pecado por ingenuidade, porque não imaginou as intrigas políticas e os interesses mais além do meramente humano, que motivaram os promotores do projeto científico, que, como sempre, não eram os rigorosos cientistas. Além do mais, sabia-se da existência de fábricas de armas pesadas na Noruega ocupada pelos nazistas e das extrações de urânio na Tchecoslováquia, principalmente quando foi o alemão Otto Hann o primeiro investigador da transformação de matéria em energia. Mas quando a Alemanha se rendeu, Einstein insistiu junto ao governo de Roosevelt para que abandonasse o projeto. Fez manifestações públicas ao povo americano que lhe tinha acolhido no seu exílio. Mas os interesses militares primaram sobre a consciência dos homens, e o projeto seguiu adiante. Historicamente, sabe-se que quando da morte de Roosevelt, encontraram-se todas as cartas que Einstein lhe escrevera na gaveta do seu escritório, mas estavam fechadas.

Cansado das intrigas políticas, recusou o oferecimento sionista de erigi-lo como primeiro ministro do recém-criado Estado de Israel. Insistiu com todos os intelectuais americanos que eram convocados, ao terminar a guerra, aos tribunais públicos por suas idéias liberais (a famosa caça às bruxas do presidente Eisenhower) para que não participassem disso, ainda que, para defender o livre-pensamento, tivessem de acabar na prisão. Ele mesmo foi convocado, mas se negou a participar.

Sua grandeza se reflete não apenas em sua bondade, sua humildade, seu caráter idealista, mas também na sua capacidade de trabalho. Sua grande obra, dos últimos 30 anos de sua vida — quando alguns físicos jovens o consideravam uma relíquia de tempos passados, — a de tentar encontrar essa ordem universal da Natureza, esteve presente nele até a mesma manhã outonal em que faleceu. Horas antes, tinha pedido seus velhos livros de anotações e assim foi encontrado morto, em meio ao trabalho incansável.

Este Mozart da Física não desapareceu da memória coletiva da Humanidade. Suas idéias continuam vigentes. Ele foi um exemplo vivo do que a mente humana bem canalizada é capaz de conseguir.

Incitou o ser humano a deixar de lado os horrores que era capaz de realizar, para se interessar mais em mudar a si mesmo para logo mudar o mundo.

Este renascentista talvez tenha nascido fora do seu tempo; ou melhor, ele voltou a nos recordar da necessidade de recuperar a arte esquecida de pensar por nós mesmos, sem convencionalismos, com sinceridade.

Fica como recordação sua figura um tanto extravagante, de sábio distraído, e seu enorme sorriso que trouxe um pouco de luz a uma época um tanto obscura da história do homem.

José Escorihuela

E fez-se a luz

O homem antigo, através de diversas tradições, legou-nos seus conhecimentos sobre a importância da Luz.

O Gênesis nos diz que a Luz foi o princípio organizador do caos e a confusão primordial. A manifestação, para os antigos, está sujeita a algumas leis e a uma harmonia, a uma ordem que foi introduzida pela Luz. O Caos, então, mais do que uma desordem, é o latente, aquilo que ainda não participa da ordem e da harmonia celeste.

Desde a Antigüidade, a Luz é o princípio da manifestação e a que faz com que a vida nasça e se desenvolva. Para nós, humildes habitantes do planeta Terra, o principal aporte de luz provém do Sol. Talvez por isso todas as religiões deram uma importância capital a este astro, tornando-lhe causa da vida e elemento de vital importância nas suas tríades religiosas. Não é certo afirmar que os egípcios ou os peles-vermelhas adoravam o Sol como corpo celeste, pois verdadeiramente rendiam culto ao espírito solar, a esse ser de vontade extraordinária que, segundo eles, permite o desenvolvimento da vida em todo o sistema solar.

O texto hermético “Asclépios”, que nos fala sobre a vivificação de estátuas no antigo Egito, entre outras coisas, afirma: “o Sol é eterno como o mundo, governa para sempre os seres vivos, é a fonte e o distribuidor de toda vitalidade”. Logicamente, podemos supor que o veículo para a distribuição da vida deve ser a luz, em qualquer de seus graus, visível ou invisível, pois é o que nos chega do Sol. Por isso, na religião egípcia dava-se uma importância fundamental ao Sol, pois para os egípcios a luz tinha uma função vivificadora.

A astrologia clássica não dá muita importância às constelações, e sim aos signos e planetas. A luz que nos chega das constelações é mínima em comparação com a que nos chega do Sol, diretamente ou refletida. De fato, um dos campos de investigação da Astrologia é a relação entre planetas e cores, entre a luz que nos vêm refletida de cada planeta e sua correspondência com uma faixa do espectro luminoso.

Dessa forma, o homem antigo explica a formação da vida e os elementos a partir da Luz. Desta surgiriam os outros dois elementos principais que formariam uma tríade e que permitem que se desenvolva a vida tal como a conhecemos: o Calor e a Umidade. Isso sim, entendidos de maneira diferente de como fazemos atualmente. Como explica Kepler em seus “Dos Fundamentos mais certos da Astrologia”, com “Calor” nos referimos à capacidade de um corpo absorver a Luz, e com a “Umidade” nos referimos à capacidade de um corpo de refletir a luz recebida.

Outros dois princípios surgem a partir destes, ainda que não sejam mais do que gradações dos mesmos, aos que chamamos frialdade e sequidão. A frialdade seria a diminuição ou ausência de calor, e a sequidão a diminuição ou ausência de umidade.

A estas quatro sensações se lhes denominou naturezas simples. A partir delas, surgem os primeiros compostos. Por exemplo, o efeito do calor nos corpos é o quente. Assim, teremos os 4 primeiros compostos: Quente, Frio, Úmido e Seco.

E da combinação destes primeiros compostos surgem o que conhecemos como elementos: Terra, Água, Ar e Fogo. Cada um dos elementos tem uma proporção de cada uma das Naturezas simples, ainda que prevaleçam dois em cada um dos elementos.

Disso entrevemos que os Elementos nunca podem ser absolutos, mas que são proporções ou estados da matéria, e que todos têm uma mesma natureza mas em distintas gradações.

Das combinações dos Primeiros Compostos surgiriam: calor-seco, frio-úmido, calor-úmido e frio-seco.

Por isso, nos herbários antigos se explicavam os graus de calor, frio, etc. de cada planta para elaborar os medicamentos, pois se tratava, mediante estas proporções, de realizar a mescla adequada para cada pessoa, para o qual também havia que conhecer a proporção no paciente, o que se fazia com a quantificação do seu horóscopo, mas isso já é um tema para outro artigo.

Para concluir, poderíamos incidir novamente no mistério da Luz, entidade da qual conhecemos muitas coisas, mas da qual ainda ignoramos mais ainda. Esperamos que no futuro se continue investigando sobre este tema tão interessante, que nos coloca em contato com o Universo e com nós mesmos como parte integrante Dele.

Enrique Bérniz

O Imperador e o pirata: Carlos I e Barba Vermelha

Barba Vermelha reuniu a armada turca e os piratas que encontrou, e partiu para Sicília e Nápoles. O único capaz de impedi-lo foi Carlos I da Espanha, e para ele se voltaram os olhos da cristandade.

Horuc e Haradín. Dois irmãos que a partir de 1515 são conhecidos como capitães de uma frota pirata de até 12 galeras com as quais aterrorizaram os navegantes de Dardanelos a Gibraltar. O que foi retirado das mãos cristãs é vendido em Berberia, onde começam a ser muito admirados, e assim cresce sua fama. Tanto é assim que o rei de Argel solicita sua ajuda para se apoderar do forte espanhol de Oran em Argel. E assim fizeram os irmãos. O forte é derrubado, e o rei de Argel também: Horuc, o mais velho dos irmãos, assassina-o e toma seu trono. A partilha de ouro aos amigos e os castigos aos inimigos lhe asseguram a estabilidade.

Após isso, apodera-se também de Tremecén, vizinho de Argel, e segue suas correrias pelo litoral da Itália e da Espanha. O que faz com que Carlos I envie tropas à Oran, cujo governador se une ao destronado rei de Argel. Juntos vencem o usurpador, que morre na batalha.

Fica o irmão menor, Haradín, mais conhecido por Barba Vermelha pela inusitada cor de seu adorno facial. Ele que segue os passos de Horuc, agora sob a proteção de Solimão II, sultão de Constantinopla, do qual logo se tornou conselheiro.

A primeira coisa que consegue a favor do seu novo tutor foi conquistar a florescente Túnez. Após, reuniu a armada turca e todos os piratas que encontrou, e partiram todos à Sicília e Nápoles.

O único capaz de impedi-lo foi Carlos I da Espanha, e para ele se voltaram os olhos da cristandade. Ainda mais porque eram seus os Estados da Cerdenha, Sicília, Calábria, grande parte da Itália e costa da África, além da subseqüente ameaça a algumas províncias da Espanha. À sua expedição se unem a Itália, Portugal e Alemanha. A França não se uniu a essa expedição, que, ao contrário, leva seu ódio por Carlos ao abominável extremo de avisar Barba Vermelha. Que, logicamente, aproviziona tropas e apoios e fortifica seus portos.

Em maio de 1535, Carlos de Barcelona parte. Contam as crônicas que não se podia andar pelas ruas, devido a multidão que nelas se reuniu, nos seus trajes de gala, suas armaduras, com suas armas e bandeiras, acompanhados das multidões que sempre acompanharam os exércitos em marcha.

Após a missa na Nossa Senhora do Mar, Carlos embarca na galera capitana. Em Cagliari, unem-se a ele as tropas espanholas de lá, as de Nápoles e Sicília, as alemãs e as do Papa, até 25.000 infantes, 2000 cavalos, 420 velas e milhares de aventureiros e artesãos. Na sua proclamação, Carlos assegura a todos seu amparo até que termine a campanha.

Em 13 de junho chegam a Utica, a pátria de Catón, ao poderoso porto de La Goleta. O primeiro acampamento se estabelece onde era Cartago. Quando Barba Vermelha fica sabendo, seu assombro é grande ao saber que o mesmo imperador cristão vem à frente da frota; e aguarda a vitória que espera e o riquíssimo saque que com ela viria.

Ataca-se primeiro La Goleta, como chave que era da cidade, em que pese as enormes dificuldades. Durante dias há avanços e retrocessos; adicionam-se tropas albanesas e mais italianas, além da ajuda de turcos, jenízaros, alexandrinos e de todas as tribos do deserto. Decide-se com elas invadir o acampamento cristão, desde vários pontos de uma só vez, e tivera alcançado o seu objetivo sem a extraordinária defesa dos capitães do imperador: o marquês de Mondéjar, Dom Fadrique de Toledo, Dom Fernando de Alarcón e muitos outros.

Ao dia seguinte uma terrível tormenta se levantou, foi tamanha que no mar fez bater entre si os navios e na terra impedia qualquer manobra e comunicação, ao ponto de os soldados, atemorizados, nem atenderem as ordens. O almirante Andrea Doria corria de um lugar ao outro gritando: “La Goleta está ganha!”. O que não era certo, mas, acreditado pelos soldados, ao final da tormenta encontrou armas nas mãos deles prestes a se enfrentar com as tropas de Barba Vermelha, que aproveitavam a ocasião para atacar.

Os dias se prolongavam em excesso para os cristãos, que, ademais, tinham que se enfrentar com o calor africano de junho dentro de suas armaduras, a falta de abastecimentos, as enfermidades da região. Em vista disso, Carlos dispôs o ataque por mar e por terra à formidável fortaleza. Passou a noite anterior ao 14 de junho, junto com seu cunhado, o infante de Portugal, recorrendo bastões, baterias e trincheiras, animando aos homens e não deixando escapar um detalhe. Por mar, ao mando de Andrea Doria, contavam-se as galeras do Papa, Rodas, Malta e Portugal. A frota espanhola estava ao mando de Dom Álvaro de Bazán. Por terra, os Terços de Santiago, São Jorge e São Martim.

Ao amanhecer do dia 14 começa o ataque artilheiro. Que durou mais de 8 horas. La Goleta cái. Sabemos os nomes dos primeiros a entrar nela: dois soldados toledanos, Miguel de Salas e Andrés Toro.

Atrás deles, todo o resto. Entre as centenas de peças de artillharia capturadas, haviam várias com flores de lis, indicando que haviam sido capturadas na França; e a ela não voltaram, já que ela havia traído a Coligação.

À continuação vinha Túnez, onde Barba Vermelha, que tinha perdido sua frota junto com La Goleta, havia se refugiado. Lá, na alcáçova, aprisionou os doze mil cativos cristãos que tinha. Em La Goleta fica Andrea Doria com tropas espanholas e italianas e quantos não podiam lutar. Junto com o imperador vai o rei Muley Hacen, o desempossado do seu trono pelo pirata.

Os hombres, sem água, cobertos com suas armaduras, arrastam sob o sol do deserto a artilharia, pela areia africana…

Ante as portas de Túnez, Barba Vermelha espera com um enorme exército. Tão grande que, conta-se que um soldado expressou seu temor ao seu capitão, e ele lhe respondeu: “Não te preocupes, homem; quanto mais mouros mais honra.”

Frente à frente, imperador e pirata. Esgotados os homens do primeiro, vigorosos os do segundo e no seu terreno. Barba Vermelha dá sinal de ataque, certo de seu triunfo; mas suas tropas encontram um combate tão feroz e disciplinado, e tão extraordinários capitães, que, vencidos, fogem à Túnez, ficando as tropas cristãs donas, oh! felicidade, do maior dos tesouros: os poços.

O primeiro passo de Barba Vermelha de volta à Túnez é à alcáçova, onde pensa degolar os doze mil prisioneiros. Já não tem tempo: haviam conseguido escapar, após convencer o carcereiro, antigo cristão renegado, de que mais lhe valeria estar ao lado deles, visto como pintavam espadas; atropelaram sua guarda, apoderaram-se da artilharia e voltaram-na contra o exército de Barba Vermelha, que chega… e não pode acreditar no que vê. Amontoados entre os fogos, o pirata e os restos das suas tropas fogem à Túnez.

Carlos e seus capitães não saem de seu assombro quando vêem hasteada a bandeira branca. Nada sabiam da existência dos cativos; alguns levavam prisioneiros desde a época das primeiras atividades dos irmãos piratas.

O imperador entrega à Muley Hacen seu antigo reino de Túnez, roubado por Barba Vermelha, em troca, logicamente, de algumas condições: liberdade a todos os cativos cristãos do reino e promessa de não fazer mais nada nos domínios de Carlos; licença de culto cristão; cessão das cidades de Bona e Bizerta; possessão de La Goleta exceto dos seus poços, que seriam de livre uso dos vizinhos; livre comércio; pagamento anual para a Espanha de seis cavalos e doze falcões; e não receber corsários e piratas nos seus portos.

Ambos firmam, e Muley Hacen sobe novamente ao seu trono. Carlos lhe disse na cerimônia: “Ganhei este reino derramando o sangue dos meus; conserve-o você ganhando o coração dos teus.”

Barba Vermelha não se dá por vencido, ainda mais quando se tratasse de batalha. Ainda tiveram a oportunidade para armar em Argel uma nova frota de 35 galeras, e a astúcia para hastear nelas bandeiras cristãs. Assim, vão rumo às Baleares e por cima ao porto de Mahón, cujos habitantes, acreditando receber seus compatriotas, encontram-se indefesos ante os navios turcos. O pirata saqueia a cidade, “não deixando nem os ferrolhos das portas”, disse a crônica, e leva 800 cativos. Leva-os à Constantinopla e coloca-os juntamente com ele à serviço do sultão, que por sua vez, estava sendo tentado pela França a se unir a uma aliança contra o poderoso Carlos da Espanha. Algo ocorreu, mas ficou no ir e vir, planos e esforços. E como não se podia contra a Espanha, podia-se contra Veneza, que ficava mais à mão e era mais fraca. Mas tão pouco isso. Porque Veneza recebeu ajuda de Andrea Doria com seus navios e os do Papa, e mais uma vez Barbarroja volta a popa dos seus navios. Escapou  por pouco da vingança pelo ocorrido em Mahón. Que simplesmente se prorroga.

O combate entre a Liga e os piratas sob bandeira turca é contínuo: Candia, Castelnovo, sofrem os ataques deles, e a Liga se mantém em pé de guerra na defesa. Isso lhe custou milhares de mortos.

Não é a única frente de combate para o Imperador: Gante se subleva por questões monetárias. Os gastos são enormes, a Espanha não podia pagar tudo e pediu ajuda aos belgas. Carlos não teve um só momento de repouso. Tão pouco Barba Vermelha, que fazia contas para ver se ao final não era mais proveitoso ser amigo que inimigo do dono de mais da metade do mundo. E se encontra em Constantinopla, com o embaixador Alarcón e através dele o espanhol fica sabendo das várias traições do francês.

A negociação é árdua, porque o pirata pede muito e Carlos não é inferior a ele. Barba Vermelha queria Túnez novamente, além de Orán, Bujía e Trípoli, conquistadas por Fernando o Católico; propõe ceder em troca 60 galeras à serviço do Imperador, desarmar suas galeras frente à Espanha e ajudar no combate contra os turcos, França e mais quem se mostrar inimigo.

Dois anos de negociações dão muito o que falar, e dessa forma o sultão de Constantinopla soube dos tratados, o qual temeu pelo seu trono a longo prazo e por Túnez a curto prazo. E se propôs a interpor, oferecer mais ao pirata e buscar mais aliados. E com tudo isso arruinar  a iniciada aliança.

Já não havia mais como consertar. Muitos partidos e muitos partidários. E Carlos, farto das contínuas incursões piratas, decide partir para cima de Argel de uma vez por todas.

O caminho é desastroso: tormentas no mar, que acarretaram na perda de muitos homens e armamento, e em terra uma perseguição feroz dos argelinos e de todas as tribos que as uniram. Em Argel não se podia pensar. Carlos decidiu salvar o resto da sua frota, vai rumo à Mallorca e de lá à Cartagena. Teve todo o caminho de regresso para pensar que deveria ter ouvido seus capitães, que desaconselhavam a expedição até que o sultão deixasse de estar tão alerta sobre os pactos. Entre esses capitães encontrava-se Hernán Cortés.

E Barba Vermelha? Não se aproximou mais da Espanha, mas devastou as costas da Itália e de todos os países até Constantinopla, onde acumulou imensas riquezas e milhares de cativos cristãos. Chegou a ser Almirante do Gran Turco e deixou como  herdeiro o seu filho Hassen.

E nos encantaria saber o que aconteceu com a saga dos piratas.

Mª Ángeles Fernández

Convite à música – O violão

Criando atuamos sobre a imortalidade, colaboramos com ela. Joaquín Rodrigo

Bem-vindos! Esta nova seção que abrimos para a música tem a intenção ser uma janela pela qual possamos adentrar neste fantástico mundo. Analisar os compositores e intérpretes, os instrumentos e as obras, gêneros e diversos estilos, em épocas e momentos distintos da música.

E começaremos pelo instrumento espanhol mais conhecido: o violão espanhol, e por uma música muito sugestiva: o Concerto de Aranjuez para violão e orquestra.

Muitos concordarão que provavelmente a melodia mais conhecida escrita para violão seja o segundo movimento (ou parte) do Concerto de Aranjuez.

Levado à canção, interpretado em estilo flamenco, adaptado ao blues, etc., este concerto tão conhecido foi escrito na França e, além do mais, numa época na qual o violão não era tão popular como o é agora. Era um instrumento para poucos, com deficientes possibilidades técnicas e escassos intérpretes relevantes.

O Concerto de Aranjuez foi composto por Joaquín Rodrigo, compositor nascido em Sagunto (Valência) que aos 3 anos ficou quase completamente cego devido a uma epidemia de difteria. Sua família, dadas às inclinações naturais do menino pela literatura e pela música, conseguiu com que Joaquín tivesse aulas de música com professores do conservatório de Valência, embora não tenha se inscrito nele. Também tiveram o cuidado para que obtivesse uma ampla cultura literária e para isso contrataram um empregado: Rafael Ibáñez, que com o passar do tempo se tornou mais do que um amigo, copista e secretário de Joaquín Rodrigo. Rodrigo costumava dizer sobre ele: “Rafael me empresta os olhos que não tenho”.

Aos 20 anos já era um extraordinário pianista e aos 28 partiu para Paris, onde se davam as correntes vanguardistas mais importantes do momento. Lá conheceu Paul Dukas que se converteu no seu Mestre assim como Albeniz, Falla, Turina. Ravel, Stravinsky, etc. Mas voltemos ao nosso concerto de Aranjuez.

Em 1938, o já compositor Joaquín Rodrigo foi convidado a ministrar um curso de verão na Universidade de Santander. De volta à Paris, durante um almoço com o violonista Regino Sainz de la Maza e o Marquês de Bolarque, ambos lhe animaram para compor um concerto para violão e orquesta. Uma verdadeira aventura se levamos em conta os poucos concertos que, até então, haviam escrito para este instrumento e os muitos que o piano acumulava no seu repertório.

Assim, durante a primavera de 1939, Joaquín Rodrigo se pôs a escrever o concerto, que mais tarde batizou de Aranjuez. Em setembro desse ano, Rodrigo e sua mulher voltavam à Espanha com o manuscrito sob o braço, dois dias antes de estourar a segunda guerra mundial.

Este concerto foi estreado em Barcelona no dia 9 de Novembro de 1940, interpretado por Regino Sainz de la Maza a quem foi dedicado. Depois foi estreado em Bilbao e, por último em Madri, onde recebeu o apoio definitivo. Em seguida ocorreram convites, estréias e as homenagens de todas as partes da Europa, América latina, Estados unidos, Japão, Austrália, etc. Queriam ouvir esse maravilhoso concerto. O Concerto de Aranjuez, escrito na primavera, próximo ao jardim de Luxemburgo, e enquanto os estudantes cantavam alegres, encontrou sua forma definitiva em Madri, meses depois. Numa ocasião perguntaram a Joaquín Rodrigo: Maestro, o que tem esta obra que encanta e desperta a mesma emoção em tão diversos públicos, em qualidade, preferências, costumes, raças, etc.? E ele respondeu: “Sinceramente, não sei. Se eu soubesse teria encontrado o êxito, a panacéia, numa palavra, a pedra filosofal da minha própria música e do meu própio êxito”.

O Concerto de Aranjuez que toma seu título do famoso lugar real, é “uma sugestão de tempos passados, dos belos jardins de Aranjuez, das suas fontes, suas árvores, seus pássaros…”

Esse não foi o único concerto para violão do Maestro Rodrigo, compôs mais quatro ao longo da sua vida, para um ou mais violões, concertos que constituem uma parte importantíssima e indispensável do repertório dos violonistas.

Mas disso falaremos no próximo artigo.

O autor descreve deste modo a criação do concerto:

“Passaram-se já muitos anos desde que lá, no bairro Latino de Paris, na primavera do ano de 39, enquanto esperava voltar à Espanha, compûs a obra. Hoje, graças à sua música, aos seus intérpretes, e ao ensinamento que leva, ao sugestivo nome histórico e poético de Aranjuez, o concerto, encerrado na caixa do violão espanhol, percorre por todo o mundo.

Lembro-me que estava numa manhã de pé no meu pequeno estúdio da Rua Saint Jacques, no coração do Bairro Latino, e pensando vagamente no concerto, ouvi cantar dentro de mim o tema completo do refrão, de uma só vez, sem vacilações. E, em seguida, sem passagem, ouvi o do terceiro tempo, este absolutamente igual como figura na obra. Rapidamente me dei conta que a obra estava feita. Esbocei a forma governada pelos temas respectivos e escrevi a partitura do violão com um primeiro esboço muito rudimentário e incerto da orquestra.

Se ao refrão e ao allegro final me conduziu algo como a inspiração, essa força irresistível e sobrenatural, ao primeiro tempo cheguei pela reflexão, pelo cálculo e pela vontade. Foi o último tempo dos três, terminei a obra por onde deveria tê-la iniciado.

Em poucos meses estava acabada, e a orquestra, que por se tratar de um tecido em volta do mais fugidio dos instrumentos, havia de formar parte dele mesmo, envolvê-lo, estar nele, estava resolvido fundamentalmente. Era a primavera de 39, primavera prazeirosa.

Apenas ficava uma coisa, incógnita que muitas vezes me tirava o sono. Poderia-se executar, poderia se ouvir? E o milagre se fez.”.

Sebastián Pérez

Vida Sadia – A temida calvície

Conta a Bíblia que Sansão perdeu sua força quando Dalila lhe cortou o cabelo. No entanto, não há por que se assustar, já que a correlação entre a presença do cabelo e a virilidade é apenas uma falsa crença. O nome de Sansão está relacionado com a palavra hebraica que designa o sol e acredita-se que a lenda resguarda um antigo mito solar, simbolizando seu longo cabelo o aumento ou diminuição do calor dos raios do sol com o curso das estações.

O coro cabeludo representa uma proteção natural contra o frio, a luz solar e numa medida menor contra pequenos golpes. Na cabeça há aproximadamente 100.000 fios de cabelo (120.000 no caso dos loiros e uns 90.000 entre os ruivos). Como o crescimento do cabelo é escalonado, apenas 85% de nossos folículos tem fios em desenvolvimento num determinado momento, o resto está em fase de repouso.

Diariamente se perdem uma média de 60 a 100 fios de cabelo (mais na primavera e outono), procedentes dos folículos que ficam inativos, que são substituídos pelos fios daqueles folículos que entram em fase de crescimento ativo. Quando as perdas estão acima de 100 fios por dia, rompe-se este equilíbrio e podemos falar de queda de cabelo.

O fio de cabelo está formado pela raiz, inserta numa depressão da pele chamada folículo piloso, e a haste, composta de células córneas, mortas, cheias de queratina e dispostas em três capas concêntricas: uma cutícula externa, uma cortiça média e uma médula central. As glândulas sebáceas próximas lubrificam a haste do fio e protegem a pele contra infecções de bactérias e fungos, enquanto que os músculos “arrepiadores” movem os fios, podendo arrepiá-los diante do frio ou do medo.

O folículo contém (a) o bulbo piloso, (b) a papila dérmica com uma rede de capilares sangüíneos que se encarregam de prover oxigênio, energia e aminoácidos ao fio nascente, e (c) os melanócitos, células que dão cor ao fio de cabelo. Se é negro ou marrom é porque segregam melanina e se é ruivo ou loiro é pela feomelanina. Quando os melanócitos deixam de segregar pigmentos, o cabelo cresce branco. Os fios brancos podem aparecer repentinamente ante traumas emocionais, e não a calvície, como, às vezes, erroneamente se pensa. Contam que Pitágoras envelheceu numa só noite quando o oráculo de Delfos lhe anunciou que tinha que se casar com a sacerdotisa Theano.

A calvície comum se denomina alopecia androgênica, e ainda que suas causas sejam variadas e complexas, fica claro que tem um forte componente genético e hormonal, o que exclui as mulheres de padecê-la, cujo nível de hormônios masculinos é mais reduzido. Ou seja, que os homens cujas famílias apresentam casos de calvície têm muitas possibilidades de sofrê-la. Entre certos grupos raciais há menor incidência, como com os chineses, os japoneses, os índios americanos e alguns negros africanos.

Conforme progressa a calvície, o cabelo se reduz em diâmetro, fica menor e eventualmente se despigmenta. Se a calvície se inicia antes dos 30 anos será mais severa do que se é de aparição mais tardia. Começa com entradas no nível da testa e posteriormente se clareia a parte superior da cabeça até que finalmente ambas regiões se juntam.

Estando o cabelo influenciado pelo sistema nervoso e pelo estado do sistema circulatório, vê-se favorecido por massagens regulares do coro cabeludo, que estimulam a irrigação e a secreção das glândulas sebáceas que desembocam no folículo piloso.

O cabelo é um indicador da saúde corporal, revelando mudanças no equilíbrio hormonal ou no sistema endócrino. É afetado pela má mutrição protéica, estresse físico e emocional, problemas na tiróide, anemias, enfermidades nervosas, o contato com substâncias tóxicas ou os tratamentos de quimioterapia. Neste sentido, há mais de 200 medicamentos que podem provocar a queda do cabelo.

Nos Estados Unidos apenas existem duas substâncias oficialmente autorizadas para o tratamento do cabelo: o Minoxidil, um vasodilatador periférico, e o Finasteride em baixas doses (porque em altas doses é empregado para tratar a próstata e pode produzir impotência). Estes tratamentos são paliativos, apenas funcionam nos primeiros estágios da calvície e a perda do cabelo continua enquanto se suspende o tratamento.

Além do mais, a longo prazo podem provocar efeitos secundários, motivo pelo qual seu emprego é controvertido.

Se observamos a aparição dos primeiros sintomas de calvície convém revisar nosso estado de saúde geral e propor-nos a levar uma alimentação sã, assumindo com resignação sua real progressão. Sem nos deprimir por uma questão que é fundamentalmente estética, além do que, para muitas mulheres os calvos contam com um maior atrativo.

Isabel Pérez Arellano

Investigação científica – Mergulhar sem bombas de ar comprimido

por Juan Carlos del Río

Desde os primórdios da Humanidade, o Homem teve dois poderosos sonhos: voar como os pássaros e nadar como os peixes. Para ambos os casos, o Homem idealizou complexos aparatos que permitem “voar” ou submergir na água, mas sempre com a custosa ajuda de um avião ou de um submarino. Recentemente, aperfeiçoou-se o vôo livre, ou sem motor, porém, para submergir, deve enfrentar a impossibilidade de respirar dentro da água. Apenas com a utilização de bombas de ar comprimido, de limitada duração, isso é possível. Mas a recarga desses tanques é cara e perigosa, e seu peso condiciona o equilíbrio do mergulhador na água.

Outro sistema de geração de ar debaixo do mar é extremamente caro em termos energéticos e requer um maquinário muito pesado. Os submarinos nucleares e a estação espacial internacional, por exemplo, usam esses sistemas para gerar oxigênio a partir da água por meio da eletrólise, para assim separar o oxigênio do hidrogênio, aplicando eletricidade.

Com uma idéia que parece tirada da ficção científica, um inventor israelita chamado Alon Bodner patenteou um pequeno aparato respiratório similar ao que Obi-Wan utiliza em “A Ameaça Fantasma”, quando sai do submarino Jedi.

O sistema é inspirado na respiração dos peixes, que não separam quimicamente o oxigênio do hidrogênio da água para respirar, pois usam o ar diluído que existe na água.

A água dos oceanos contém pequenas quantidades de ar, devido à ação do vento, às ondas e às correntes submarinas. Inclusive, até uma profundidade de 200 metros, há 1,5% de ar dissolvido, suficiente para permitir a um peixe respirar tranqüilamente.

A extração do gás na água pode ser feita por meio de um sistema de força centrífuga, que faz rodar rapidamente o líquido, gerando nele menos pressão, de forma que o ar seja expulso. Para aproveitar o ar que há na água, é usada uma pequena câmara cujo sistema é recarregável com baterias. Os cálculos realizados demonstram que uma bateria de lítio de um quilo de peso forneceria oxigênio a um mergulhador durante uma hora embaixo da água.

O sistema desenvolvido por Alon Bodner emprega uma lei física chamada Lei de Henry, que descreve a absorção de gases nos líquidos. Essa lei estabelece que a quantidade de gás que pode estar dissolvido em um líquido é proporcional à pressão desse líquido. Diminuindo a pressão do líquido, mais gás será expelido. Isso é o que acontece quando se abre uma lata de refrigerante: o dióxido de carbono dissolvido no líquido e submetido à pressão da lata sai quando a pressão diminui ao se abrir o recipiente.

Bodner, com apoio financeiro do ministério israelita de Indústria e Comércio, construiu um protótipo, que foi testado em laboratório. As patentes desse modelo já foram compradas na Europa, e um protótipo similar está sendo testado nos Estados Unidos. A descoberta interessou, além das fábricas de equipamentos de mergulho, a Marinha israelita.

Para saber mais:

http://www.isracast.com/tech_news/310505_tech.htm

http://www.wmaker.net/tendencias/index.php?action=article&id_article=158074

Feng shui

A harmonia é um estado da consciência que se expressa em atos, e a beleza no físico é sempre um reflexo da beleza espiritual

Alicia Rodríguez Berenguer

Para falar de Feng Shui, cujo significado literal é “vento e água”, e cujo significado simbólico se refere ao vento e à água subindo ao topo para orientar até a harmonia, se deve em primeiro lugar referir ao Chi. A tradição chinesa fala da energia que percorre todo o universo, que se chama chi. A essa energia ou vitalidade universal os japoneses chamam ki, e será o pneuma grego, o prana hindu ou o alento do dragão de que falava Merlin.

Existem dois tipos distintos de chi: o chi terrestre (que no Ocidente é designado como forças telúricas), o chi celeste (ou energias astrais) e o chi humano. A relação entre os três tipos de chi dará lugar a energias positivas (sheng chi) ou negativas (shar chi). Chi é uma energia em movimento, que circula ou estanca, e que em seu movimento cria pontos de positividade ou negatividade. O Feng Shui tratará de harmonizar essas energias e suas relações.

A arte do Feng Shui tem milhares de anos antigüidade. Lam Kam Shen sugere sua aparição no ano 3000 a.C., mas recentes descobertas mostram que pode ser ainda mais antigo. É evidente que, como ciência, evoluiu no tempo até os dias atuais de várias formas, adaptando-se com o passar dos séculos às necessidades e formas de vida das diferentes gerações. Parece que seu primeiro uso consistiu na busca de lugares para sepultamentos. É conhecida a importância que o povo chinês dava ao culto aos antepassados, pois existia a crença de que os defuntos se convertiam em intermediários entre os poderes celestes (divinos) e os homens. Posteriormente, esse conhecimento se aplicou à busca dos melhores terrenos para os cultivos e depois à eleição dos lugares para habitar, trabalhar, etc.

O propósito do Feng Shui é harmonizar o homem com o meio. Para isso, estuda o movimento do chi — a energia que reside nos diferentes lugares — e seus laços energéticos, como este interage, com o meio. Também leva em consideração elementos como a orientação, a cor, a forma dos objetos e das casas, assim como a função que vai realizar cada um deles.

Em sua evolução, se distinguiram fundamentalmente duas escolas: a da forma e a da bússola. A primeira usava para estudar as localizações a forma das montanhas, pedras e rios; a segunda utilizava para localizar o lugar mais propício a bússola chamada Luo Pan.

Na escola da forma, leva-se em consideração fundamentalmente a teoria do yin-yang e a dos cinco elementos. Um de seus aspectos mais característicos é o dos cinco animais celestiais que, por sua vez, se associam a cores e direções geográficas.

A escola da bússola estuda, sobretudo, a orientação, utilizando a bússola chinesa, assim como o quadrado mágico chinês. Tem vertentes conhecidas como o Ba Zhai, ou escola das oito casas, e a escola de Xuan Kon, ou das estrelas voadoras. E nesta, além da bússola, se usam datas e astrologia chinesa.

Pode-se destacar também, por seu êxito no método tibetano, atribuído a Lin Yung, o chamado Baguá, que, por sua facilidade, se estendeu, sobretudo no Ocidente, e que provavelmente é o grande causador do auge atual do Feng Shui.

Hoje, no Ocidente, se utiliza o Feng Shui tanto em decoração e em projetos arquitetônicos quanto em empresas que começam a compreender que o “ambiente” é algo mais do que uma decoração casual ou aleatória, e que muitas das doenças que nos são inexplicáveis podem ter sua origem em algo tão sutil como um defeito nos distintos elementos de um escritório.

Em muitas situações, não se pode mudar a estrutura de uma casa, ou evitar que diferentes linhas elétricas interfiram no chi, mas se pode sim colocar em prática pequenos truques que o Feng Shui coloca à disposição e que propiciarão uma maior harmonia no ambiente e na vida dos que ali permanecem.

A harmonia é um estado da consciência que se expressa em atos, e a beleza no físico é sempre um reflexo da beleza espiritual. Assim, encher de beleza e harmonia o entorno se converte em algo mais que uma pequena arte, é a arte de viver e deixar viver: é conviver!

A vocação nossa de cada dia (XI) – OS HOBBIES

O que há de mais parecido com a vocação são os hobbies. Por definição hobbie é uma atividade que fazemos porque queremos, porque gostamos e porque a fazemos bem. A vocação não é muito diferente, é só acrescentar que é uma atividade profissional. Mas isso é apenas circunstancial, pois essencialmente a condição de um hobbie e de uma vocação é a mesma. Tanto é assim que um hobbie pode se tornar vocação e vice-versa. É muito comum constatar que pessoas que acharam sua vocação na vida antes de realizá-la como uma atividade profissional já a desenvolviam como um hobbie. Portanto, para quem ainda não achou sua vocação este método é perfeitamente válido. A atual condição profissional ou de trabalho é geralmente muito estressante e o que é pior com muita pouca satisfação. Trabalhamos compulsoriamente, por uma necessidade que nem sempre é verdadeira, muitas vezes é simplesmente falta de recurso, de cultura, de oportunidade ou de imaginação. Para pessoas que se encontram nessa condição buscar um hobbie poderia ser a solução para muitos problemas. Buscar um hobbie é uma questão de versatilidade, pois muitas vezes precisamos testar muitas coisas até descobrir uma que nos dê prazer e ao mesmo tempo seja útil. É por isso que a busca de um hobbie se caracteriza por desenvolver em princípio artes ou ofícios ou também desenvolver atividades que nos permitam integrar muitas outras. A interdisciplinaridade e a transversalidade podem também ajudar muito para encontrar hobbies, mas uma questão fundamental é superar o preconceito da especialização. De início, digamos que ela não é natural ao ser humano, mas uma imposição de interesses de produtividade e não do trabalho. A especialização não surgiu da necessidade de melhorar as condições de trabalho, mas de melhorar as condições dos investimentos, portanto o natural é que um ser humano esteja em condições de fazer muitas coisas e tarefas variadas. É muito empolgante observar pessoas que sempre estão fazendo coisas e mais gratificante ainda quando as fazem com muita motivação. Nem sempre a curiosidade é ruim, muitas vezes ela, se bem direcionada, nos permite observar as coisas de diferentes ângulos de visão e compreensão, o que gera a oportunidade de encontrar algo que possamos fazer e que nos dê um retorno com esse tipo de satisfação. Por outro lado, um hobbie não é só uma questão de satisfação, mas também de saúde e de realização. De saúde porque um hobbie nos mantém longe do estresse ou de psicosomatizações patológicas, e de realização porque num hobbie a gente se entrega por completo tendo assim condições de trazer à tona o nosso potencial. É interessante observar a surpresa de muitas pessoas quando, fazendo alguma coisa em que se aplicam com mais intensidade do que o comum, descobrem que são capazes de executar ações para as quais pensavam que estavam impossibilitados. Aqui então existe um caminho a ser tomado com relação às nossas atividades, e o desenvolvimento de potencial, criatividade e crescimento. O importante é não ficar parado, perdendo iniciativa e oportunidades. Normalmente quem tem um hobbe é alguém especial e geralmente desperta interesse nos demais, o que já é uma pequena porta para a realização em qualquer aspecto humano. Também é necessário esclarecer que hobbie não é sinônimo de lazer, ou de atividades amadoras em qualquer área, mas um trabalho que exige aplicação, esforço, pesquisa e desenvolvimento com um alto grau de eficiência, não é estressante só porque é realizado de forma voluntária, consciente, com prazer e talvez o que é mais importante sem a neurose da busca do resultado. Em síntese, hobbie é uma atividade à altura de qualquer profissão, com o mesmo padrão de qualidade de uma atividade vocacional, porém para benefício de nós mesmos, para além de qualquer questão circunstancial e compulsória, que dá retorno em termos de autonomia, autoconhecimento, beleza e realização.

Do fundo da História – Atena do Pireo

Vem, toma minha mão. Estendo-s à procura da tua, para levar-te a um mundo que hoje apenas entrevês. Levar-te-ei até a luz. Essa luz brilhante de Sabedoria que sou eu mesma. Levar-te-ei em direção ao amor, porque o amor nasce do saber, de conhecer outras almas, de guardar a união entre tudo que foi criado.

Se vês nos meus olhos a inefável doçura do meu rosto, como poderias não atender ao chamado da minha mão?

Às vezes me afastam. Penso que me vêem distante, inacessível, que me temem. Talvez acreditem que nunca poderão alcançar a minha mão. Que nunca poderão saber. Ainda assim, roçaste minhas mãos. Não te deste conta?

Quando leste aqueles livros que falavam da beleza, da honra e do valor, eram meus dedos os que viravam as páginas.

Quando fechaste teus olhos ao feio e teus ouvidos ao soez, eram meus dedos que roçavam a pele do teu rosto.

Quando te sentaste junto a um amigo e notaste que tanto a conversa quanto o silêncio eram laços inquebrantáveis que os uniam, elos dessa corrente mágica que se chama amor alado, estavas compreendendo o que é dar sem pedir, receber sem esperar, como eu dou meu conhecimento.

Quando sorriste ao amor e sentiste que teu coração era o espelho de toda a felicidade do mundo, estavas fazendo minha mão forte, muito forte.

Quando em qualquer lugar do mundo, em um salão, em um templo em ruínas, sob as estrelas, escutaste as palavras do teu Mestre até fundi-las na tua alma, e ao seu som sentiste abrir as portas obscuras, então agarraste minha mão com a força de um menino que aprende a andar. Nunca a soltes.

E quando alguma vez chorares pelo que tenhas perdido, aperta-a, e dá a outro tua mão. Forma uma corrente de amor, de vontade de vida, de inteligência. De Sabedoria.

Os olhos de Atena os guiarão.

Mª Ángeles Fernández

Alfabetização e Educação

Afortunados de nós que vivemos em uma sociedade moderna, na qual quem não tem acesso à cultura oficial é porque não tem tempo, ou por que prefere exercer seu direito de ser um analfabeto funcional.

Todos podemos ter acesso a uma biblioteca, a cursar o segundo grau, vale dizer que temos a oportunidade de nos alfabetizar e de ter um mínimo de cultura. Mas uma grande parte do mundo não é assim. Milhões de crianças em todo o mundo nunca terão a oportunidade de aprender a ler e escrever. Não poderão receber uma informação, ler um conto, escrever um poema ou conhecer a historia de seu país. Estarão ocupados em extrair minério de uma mina durante 16 horas por dia, remexendo o lixo, buscando alguma coisa para comer, ou nos braços de algum turista sexual, ou serão mortos por algum mafioso que extrairá seus órgãos para vendê-los.

A cultura faz a diferença

Parece que a cultura e a informação fazem a diferença, vale dizer, que está relacionado o conhecimento com a riqueza e o desenvolvimento. Dizem que saber é poder. De fato, ao longo da História, podemos comprovar que em determinadas épocas, alguns grupos vetaram o acesso à cultura para os demais, enquanto eles se formavam. Na época de meus avós, enquanto os filhos dos “senhores” iam para a Universidade, os filhos dos lavradores, com muito esforço e com sorte, aprendiam um ofício, e isso com o sacrifício de seus pais e em muitas circunstâncias das filhas das famílias, às quais era muito mais difícil o acesso a qualquer formação.

Assim, a melhor maneira de fazer com que alguns países não levantem a cabeça é negando-lhes o direito à alfabetização. Já nos redimiremos com ajudas humanitárias esporádicas, as quais quase sempre serão escassas e acabarão nas mãos de quem menos necessita, porém servirá para nos lavar a pouca consciência que nos resta.

Por isso, teríamos não só que promover a alfabetização, mas também lutar de forma real contra as desigualdades tão grandes que existem no mundo. A luta pela alfabetização e o acesso à cultura é uma luta pela Justiça.

Necessidade da Ética

Como explicava o filosofo Platão, não é possível dividir justiça se nos não somos justos. Talvez aqui se encontre o verdadeiro problema, um problema de educação. Possivelmente, a educação de um ser humano não seja simplesmente uma acumulação de dados e títulos acadêmicos e também deva incluir uma parte de moral e ética que seja real e não só uma disciplina “optativa”.

Parece inacreditável, mas hoje em dia a Ética, o conjunto de costumes que nos permite conviver sem que nos matarmos uns aos outros, não é mais que algo optativo. É bom pensar que algum dia esses meninos governarão países e lhes caberá tomar decisões importantes, como, por exemplo, criar programas para alfabetizar ou para o aceso a uma formação profissional. Assim, onde há uma educação com valores como a generosidade, a justiça ou o bem, esse há de ser o melhor lugar. Se há algo que tem verdadeira capacidade de transformação da sociedade é a educação.

Um ser humano com uma boa educação não pensará em impedir que outros tenham acesso à cultura para se aproveitar deles. Não permitirá que outros seres humanos vivam na ignorância para depender dele. Enfim, tratará de fazer homens e mulheres livres e não escravos, a golpes de chicote ou a golpes de manipulação sutil.

Um ser humano com uma verdadeira educação se verá a si mesmo como parte de um conjunto a que deve ajudar. Não verá os outros como inimigos porque ele não se considerará inimigo de ninguém, não considerará o outro como competidor porque não competirá com ninguém a não ser com ele mesmo.

No final, ficará muito trabalho por fazer, e seguramente não faltarão oportunidades para que aportemos com o nosso grão de areia e para que todos possam fazer alguma coisa para pôr um pouco de justiça neste mundo.

Enrique Bérniz

Necessidade de uma nova educação

O problema da educação, cada vez que aparece na opinião pública, desperta uma grande controvérsia social, embora logo o assunto passe a ter importância secundária nos meios de comunicação diante das novas notícias que cobram mais protagonismo.

Mas no tema em discussão, quase sempre se tratam somente aspectos formais, que embora possam parecer importantes, não deveriam obnubilar o planejamento essencial sobre a educação.

Teríamos de nos perguntar: Para que serve a educação? Qual é ou qual deveria ser a sua finalidade?

É algo que está a serviço da economia? A serviço das empresas? Da estabilidade social? Das tendências políticas ou convicções religiosas? Ou deveria ser algo que tivesse como finalidade o Homem, seu desenvolvimento integral e completo?

Basta um olhar mais criterioso sobre os nossos sistemas de educação e ensino para ver que são dirigidos para criar especialistas num sistema produtivo econômico, em que as diretrizes determinam a oferta e demanda de emprego, para desenvolver as potencialidades e qualidades humanas, para que o individuo possa realizar-se plenamente no marco gradual de sua passagem pela vida, ou para que possa aprofundar-se nos mistérios da natureza ou do homem.

O sentido etimológico da palavra educação vem de “educir:” tirar de dentro. Significa educação como algo destinado a fazer surgir em cada indivíduo aqueles valores, aquelas capacidades próprias e inerentes à condição humana. Significa que existe um potencial no interior esperando ser realizado, educar seria despertá-lo e ajudar a sua realização. Para isso, a educação deveria ajudar a nos conhecermos e a harmonizar os diferentes fatores que em nós convivem.

A educação, assim entendida, mantém um sentido de unidade que deve contribuir para uma visão global e harmônica do mundo e de si mesmo, um conhecimento que relacione todos os conhecimentos, uma formação que ajude a integrar e conduzir todas as habilidades humanas.

As diferentes expressões da cultura (ciência-religião-política-arte) unificam-se sob uma visão filosófica que lhes dê profundidade e unidade — assim como as quatro faces triangulares de uma pirâmide confluem ao vértice — como caminhos complementares na busca da verdade e da realização humana.

No homem, essa educação integral deveria ser o melhor apoio no conhecimento de nós mesmos, a natureza humana em geral e a própria realidade particular; deveria potencializar o conhecimento e desenvolvimento de nossas qualidades e vocações profundas (o que Platão chamaria instintos da Alma), teria que fortalecer a harmonização do todo, ajudando-nos a encontrar e a viver nosso lugar natural na humanidade e na Vida.

Entretanto, os atuais sistemas educativos afastam-se cada vez mais dessa formação integral, afastando essa responsabilidade, que acaba sendo canalizada em grande parte pelos meios de comunicação de massa (não se deve esquecer que eles têm como finalidade a rentabilidade econômica e não a formação humana).

Isso faz que, nos dias de hoje, uma pessoa com formação universitária possa ser um ignorante em termos gerais, incapaz de ter um bom critério global para entender a si mesmo e a seu tempo.

A verdadeira liberdade, base da condição humana, manifesta-se primeiro no interior, nasce no coração e na mente; só o conhecimento realmente dá “asas” ao ser humano (e não fórmulas químicas numa lata etiquetada).

Para que haja uma educação completa deve-se partir de um sentido profundo de cultura. Isso não se pode entender como uma recompilação simplesmente baseada em folclores coloridos, mas sim no conhecimento, desde as civilizações proto-históricas aos nossos dias, da experiência profunda da humanidade, expressada no conjunto de valores permanentes, conhecimentos científicos, crenças e experiências que vão sendo acumuladas gerações após gerações pela humanidade.

Outro fator importante na educação é o exemplo. Sem ele não há transmissão. O exemplo vivifica o conhecimento e o faz útil para o presente. Dizer que uma coisa é válida e não se esforçar para vivê-la é matar a metade da verdade. O exemplo de educadores, pais, pessoas públicas, artistas, juizes, etc., assim como os modelos que predominam como protótipos de uma sociedade, atuam como catalisadores, sua presença, ao ressonar no indivíduo, lhe desperta o desenvolvimento do que vê de semelhante no modelo. Tanto assim, que os filósofos antigos aconselhavam rodear-se de coisas belas e harmônicas, de bons amigos, de leituras e imagens heróicas que despertassem em nós essa mesma beleza e harmonia, essa vontade e firmeza frente à adversidade que subjazia adormecida.

Quando a educação desperta um discernimento do justo, do belo, do verdadeiro e do bom em nós, esse sentido elevado reflete-se em bons hábitos que tornam desnecessário muitas leis e restrições do amanhã.

A educação deve prever as necessidades e problemas do futuro, deve antecipar-se e desenvolver as qualidades e conhecimentos que lhe permitem enfrentar todos os desafios. Mas sem esquecer que o verdadeiro propósito do progresso não está no desdobramento de meios, mas sim na plasmação dos fins, e a finalidade humana deve iluminar todo esforço. Assim necessitamos de engenheiros e médicos, de padeiros e advogados, sobretudo de homens e mulheres íntegros, donos de si mesmos e com as melhores qualidades humanas.

É importante saber colocar o homem em sua realidade e em seu tempo, não como um marco que dobra suas aspirações, mas sim como exemplo para modelar aquilo que se concebe como melhor. Então a educação não deve conformar, mas sim despertar o idealismo, partindo de uma realidade que se conhece e não se teme, mas que se quer melhorar, seja no campo da ciência, da arte, da política ou da religião.

Platão falava da importância de fazer convergir na educação a “música” para a alma, e a “ginástica” para o corpo. Essa necessária complementaridade proporcionava rigor e esforço para o corpo, mantendo-o saudável e disciplinado; e desenvolvimento para as qualidades da alma: Discernimento, Intuição da Beleza, desenvolvimento da Bondade e do Amor ou reconhecimento da Justiça.

Quem sabe seja a filosofia mais profunda o repositório da chave: o processo da educação teria que desenvolver no homem sua natureza interna, em seu triplo aspecto: Vontade, Amor e Inteligência, canalizada por uma mente ordenada, uma psiquê harmonizada, uma vitalidade ativa e um corpo saudável.

Sendo a educação a base da transmissão da cultura, e esta o cimento invisível que sustenta cada civilização, os benefícios que dela provêm, como a estabilidade econômica e social, avanços na medicina ou no direito, o desenvolvimento da arte, até a plasmação de princípios de dignidade e solidariedade, estremecem quando suas colunas são invisíveis, quando os valores filosóficos e princípios universais que lhes deram nascimento já não estão presentes na educação. Restam somente formas culturais vazias incapazes de regenerar e de recriar, como força motriz, novas formas, novos modelos de vida para os princípios sempre válidos.

O valor da educação e os sistemas educativos deveriam voltar-se e olhar-se no espelho e ver se realmente respondem à realidade global do ser humano.

Miguel Ángel Padilla

Protagonistas da história – Nietzsche, a audácia do pensamento

“Aqui tens o homem, podeis olhá-lo, mas não esqueçais que sob a sua figura humana se esconde um deus…” (F.Nietzsche)

Nietzsche provavelmente é o filosofo mais lido no mundo moderno, embora continue sendo o menos entendido. Sua dolorosa e atormentada existência, suas idéias, sua maneira de ver o mundo que quis mudar radicalmente e seu caráter veemente e apaixonado não podem nos deixar indiferentes. Sua vida foi uma busca contínua de respostas para as inquietudes humanas em todos os âmbitos do conhecimento e da arte.

Friedrich Nietzsche nasceu em 15 de outubro de 1844 em Rocken, próximo a Leipzig, Alemanha. Seu pai era pastor luterano em sua cidade natal, e sua mãe era filha de um pastor luterano de uma cidade próxima. É curioso observar que o filósofo que chegou a simbolizar a rejeição dos dogmas religiosos tenha sido educado em um ambiente familiar tão piedoso. Sua filosofia foi considerada como uma rebelião contra a sua educação rígida, opressiva e conformista.

Seus primeiros anos foram muito tranqüilos, imerso em sua vida familiar, mas esse panorama mudou bruscamente com a morte de seu pai aos 36 anos, e um ano depois morreria seu irmão mais novo. Nietzsche foi um jovem estudioso, mas também gostava das atividades desportivas e cresceu com uma constituição forte. Porém, sua saúde sempre foi frágil, sofrendo freqüentemente de enxaqueca.

Sua juventude foi marcada pelo estudo apaixonado dos clássicos, Platão, Cervantes, Schopenhauer. Fascinado, descobriu a música de Schumann e de Wagner. Sua vida sentimental sempre foi intensa e confessava que queria falar com o mundo com toda a franqueza de que fosse capaz.

Em 1865, iniciou seus estudos na universidade de Leipzig, onde seu tutor o considerou o melhor estudante dos últimos quarenta anos. Aos 24 anos, era professor de filosofia grega na universidade de Basiléia. Nos anos seguintes, foi perdendo o interesse pela filologia e ganhando entusiasmo pela filosofia, que para ele não se encontrava afundando-se em livros. Seu objetivo filosófico era fazer o homem livre e feliz, dono de sua razão e de seu destino.

Um dos argumentos fundamentais de Nietzsche era que os valores tradicionais (representados na essência pelo cristianismo) haviam perdido o seu poder de vida nas pessoas, daí ter expressado sua cortante declaração: “Deus está morto”. Estava convencido de que esses valores tradicionais representavam uma “moralidade escrava”, que fomentava comportamentos como a submissão e o conformismo e favorecia interesses egoístas.

Nietzsche afirmou o imperativo ético de criar novos valores que deveriam substituir os tradicionais, e sua discussão sobre essa possibilidade evoluiu até configurar o retrato do homem do porvir, o super-homem (Übermensch). Diferente das massas temerosas que se adaptam à tradição, o super-homem é seguro e independente. Sente com intensidade, mas suas paixões são dirigidas pela razão e centra-se no mundo real mais do que nas recompensas de uma vida futura. Não é um super-homem genético, mas sim um criador de valores, um exemplo ativo de ética superior.

Sustentou que todo ato ou projeto humano é motivado pela “vontade de poder”. A vontade de poder não está só no poder sobre os outros, mas sim no poder sobre si mesmo, algo que é necessário para a criatividade. Tal capacidade manifestou-se na autonomia do super-homem, em sua criatividade e coragem. Embora Nietzsche tenha negado em inúmeras oportunidades que algum super-homem já tivesse surgido, citava algumas pessoas que poderiam servir como modelo: Sócrates, Jesus Cristo, Leonardo da Vinci, Michelangelo, Shakespeare, Goëthe, Julio César e Napoleão.

O último ano produtivo para Nietzsche foi 1888. Mas a enorme quantidade de trabalho, junto a seu isolamento e enfermidade, lhe produziram um colapso mental do qual não se recuperaria. Morreu em 25 de agosto de 1900, em Weimar.

Para finalizar, algumas palavras da escritora Remédios Ávila: “O que singulariza Nietzsche é aquilo que ele reconheceu como o melhor antídoto e o remédio mais eficaz contra o niilismo: o amor apaixonado pela vida e o humor como estratégia para conquistar e para suportar a verdade”.

Julián Palomares

Einstein

Falar de Albert Einstein é falar de uma das cotas mais elevadas que a Humanidade pôde plasmar através de um dos seus. Um homem tão inteligente quanto nobre, tão valente quanto bondoso, tão decidido quanto reflexivo, um poeta e um físico, um artista e um político.

Ele se definia como um cientista crente. Mas, em que acreditava Albert? Na ordem universal, nas leis inexploradas da Natureza, “nos segredos do velho”, como ele chamava ao desconhecido? E ele simplesmente tentava extrair esses segredos: “As leis da Natureza deviam ser logicamente simples, senão nos restariam poucas esperanças de encontrá-las”. E, como desvendar esses segredos? Através de perguntas simples, como as de uma criança, pois no simples se encerram as leis eternas. E com o quê contamos? Contamos com a física-matemática que, por sua capacidade de extrair o esqueleto da Natureza e eliminar distorções, é um instrumento imprescindível.

Se as leis da Natureza são tão simples, onde está o problema? Por que não podemos desvendá-las? Einstein dizia que o homem não é uma máquina e que se atrofia quando não tem uma oportunidade de formar-se com independência e de julgar por si mesmo. Ou seja, a dificuldade principal está em se atrever a pensar, em se atrever a sonhar, e então a Natureza abre suas portas e nos desvela o mistério.

Foi um buscador, um homem sem máscaras, um homem que quando morreu não quis que se lhe levantasse nenhuma tumba, e quis que suas cinzas fossem espalhadas por um lugar até hoje desconhecido, porque só o fato de ter descoberto um pequeno segredo da Natureza para ele era suficiente para uma vida. Essa era a sua humildade. Fugia de todos os luxos e ostentações e sempre que aparecia em algum país, convidado pelo respectivo governo, chegava com seu velho violino, seus largos ternos fora de moda e sua cabeleira leonina, como um cidadão a mais nos vagões de terceira classe. Assim era esse velho mestre, um homem que gostava de rir, conversar e conviver com todos os tipos de homens.

Apesar de toda a simplicidade, não deixou de ser um personagem controvertido politicamente. Ante os acontecimentos dramáticos vividos em seu país, soube se aproveitar de seu reconhecimento social para falar livremente daquilo que o sentido comum ditava, afastando-se assim dos convencionalismos sociais e políticos da Alemanha nazista. Por isso, foi odiado e perseguido. Mas aqui se vê o grande sentido da honra de Albert Einstein, assistindo às reuniões do partido nazista onde se criticava a teoria da relatividade por ser uma teoria sionista, e ali, em um palco, Einstein dava gargalhadas das tolices ditadas por homens sem moral e sem consciência. Um homem tão bom que salvou muitas vidas humanas e que cobrava para dar entrevistas e o dinheiro era destinado aos órfãos da guerra.

Aparentemente é algo simples, mas ao mesmo tempo tão complexo que é difícil de entender e mais ainda de explicar.

Einstein era como uma criança, para ele o segredo do conhecimento era fazer-se as perguntas como uma criança. Começou a perguntar-se ainda na sua infância, quando aos sete anos lhe presentearam uma bússola, e ele se perguntou: por que a bússola aponta sempre para o norte?

Aos doze anos, fez-se talvez a pergunta mais decisiva da sua vida: como se veria o mundo de cima de raio de luz? Isso o conduziu a grandes descobertas, porque se uma pessoa vai sobre um raio de luz, como verá outro raio de luz?

Pensemos: o verá parado. Aqui está o grande problema. A luz é luz porque está em movimento, não há nada no universo que permaneça estático. Veríamos algo então? Essa luz não existiria. Poderíamos resolver o problema dizendo que a velocidade da luz poderia ser superada, mas aqui encontramos um dos segredos melhor guardados da Natureza, o limite da velocidade da luz. Como dizia Albert, “c” (velocidade da luz) não foi ultrapassada até o momento, mas quem sabe no futuro possa ser. Por isso, é preferível não criar dogmas. É que para Einstein a ciência era uma poesia bordada ao redor da realidade para ser superada, para criar novas teorias que demonstrassem essa realidade que jaz na Natureza, que ao mesmo tempo está na evolução, e ele era um mero buscador desses segredos.

Talvez, como fez Einstein, fosse necessário dar voltas às perguntas para encontrar a solução. Há perguntas de difícil resposta, aparentemente impossível; isso acontece muito na ciência. As soluções aparecem de repente, como aconteceu com Albert, encontrando a maneira adequada de perguntar.

Ao questionar-se sobre o mundo da luz, as respostas que lhe apareceram o fizeram trocar seus hábitos mentais. Para começar, chegou à conclusão de que nossos sentidos nos enganam, mas que esse engano faz parte da própria Natureza, de sua forma própria do mundo manifestar-se diante dos humanos. Para um daltônico seu sentido da visão o engana em relação a um não-daltônico, pois as gamas cromáticas do verde, por exemplo, não são visíveis. Também nos engana nossa psiquê. Por exemplo, diante de uma paisagem muito bela, haverá gente que pensará: que lugar ideal para passar um bom domingo com minha família! Outros, com interesse mais comercial, pensarão: que lugar ideal para construir uma urbanização para veraneio! São dois aspectos psicológicos da mesma realidade.

Muitos foram descrentes, mas outros, como Madame Curie, apoiaram o jovem Einstein, chegando a catalogá-lo como o maior físico do século XX. Mas, pouco a pouco, suas equações foram revisadas, e o sentido comum acabou impondo-se. Tudo foi idealizado por um jovem Einstein aos 26 anos, quando trabalhava como um simples empregado no escritório de patentes de Berna. Como ele diria depois, aquilo lhe serviu muito, ver a grandeza humana através do engenho para inventar aquelas coisas de que todos alguma vez haviam necessitado, mas que ninguém havia pensado antes. Einstein não conseguiu trabalho na Faculdade ao finalizar seus estudos porque não foi aceito pela maioria dos seus etiquetados professores. Ele era um contestador, um aspirante à verdade, por isso questionava tudo e não era bem aceito entre os vaidosos.

E é que Albert sempre foi um tanto peculiar. Foi uma criança “rara”. Quando todas as crianças liam aventuras de piratas ou viagens, livros de Salgari ou de Verne, ele lia livros de geometria ou álgebra. Forjou-se nos confins da matemática e por isso desde jovem foi desenvolvendo o que levava dentro.

Era aficionado por longos passeios pela Natureza e por longas conversas com seus amigos. Fundou a “Academia Olímpia” com outros jovens companheiros, um filósofo, um músico e um matemático, quando estudava na universidade, e até altas horas da noite falavam de temas tão diversos como a chuva de estrelas ou as dificuldades da República de Platão. Não foi aceito pela comunidade científica já assentada. Ele dizia:

“O templo da ciência é um lugar onde só há dois tipos de pessoas. Aquelas que só buscam satisfazer suas ambições e aquelas que buscam a ciência como se fosse um esporte para realizar companhias intelectuais e gastar assim sua energia mental, como faz um tenista ou um maratonista. Se viesse um anjo do Senhor e tirasse todos do templo da ciência, este ficaria sozinho. Temos que preservar os grandes conceitos que Newton, Galileu, Kepler, Maxwell conseguiram plasmar, extraindo-os da Natureza. Temos que mantê-los em lugares sagrados para que não sejam corrompidos”.

Freqüentemente fazia referência à comprometida época em que viveu, a época dos nacionalismos extremistas. Para ele, os nacionalismos eram uma enfermidade infantil, o sarampo dos povos. Que importava que Michelangelo fosse florentino ou romano, ou que Colón fosse genovês ou balear? São cidadãos do mundo, que ofereceram sua obra a toda a Humanidade. Dizia que era de cérebro medíocre pensar em ter direito sobre os grandes homens da Humanidade pelo simples fato de terem nascido aqui ou ali.

Este era Einstein: um homem que não ficava mal com ninguém, e que inclusive quiseram fazer presidente do Estado de Israel. Mas não aceitou porque sabia que só valorizavam sua popularidade e sua fama, que aos políticos não lhes interessavam em absoluto os melindres da ciência. A única coisa que buscavam nessa época era criar aparelhos mais sofisticados para matar a maior quantidade de homens, como já havia acontecido, ou, em épocas de paz, massificar a maior quantidade de homens com máquinas cada vez mais avançadas tecnologicamente. E essa maneira de pensar o levou a compartilhar uma grande amizade com o polêmico Charles Chaplin.

Einstein era uma espécie de filósofo pré-socrático. Suas teorias falam de transformações, do fluir das coisas. Einstein foi um visionário e, ao mesmo tempo, foi um precursor, precursor da mecânica quântica, que carregou a Física durante quase um século, e visionário do que ao final da sua vida seria sua grande cruzada.

À maneira de um Alberto Magno ou Giordano Bruno tentou encontrar a unidade na diversidade, encontrar leis comuns a todas as forças que existem na Natureza e que aparentemente são díspares. A força eletromagnética atua, por exemplo, entre elementos de polaridades diferentes, enquanto a força gravitacional atua entre corpos de grande massa independentemente da carga elétrica que possuam. Além do mais, a força gravitacional é muito mais fraca do que a força elétrica. Como conjugar essas duas forças aparentemente tão diferentes? Existem leis comuns, ou seja, invariáveis, que as codifiquem? E nesses problemas de complexo cálculo matemático envolveu-se Einstein nos últimos anos de sua vida, chegando a formular teorias de gravitação generalizadas. Hoje a física de partículas continua trabalhando na teoria da Grande Unificação, desenvolvendo as bases que esse profeta da ciência dedicou-se há mais de meio século.

Como ele dizia, a beleza de uma teoria encontra-se em sua simplicidade. O simples é belo, geralmente correto, quando na matemática se chega a ele após longas demonstrações. As fórmulas com grande simetria, por exemplo, a já mencionada E=mc2, que se obtinha como resultado de um entrelaçamento primeiramente bastante complexo, eram para Einstein uma confirmação de que estava no caminho certo, pois beleza e verdade vão de mãos dadas, e nunca se enganou. Estava adiantado no seu tempo e ao mesmo tempo era um homem de grande cultura clássica e humanista. Talvez por isso tenha retomado essas velhas idéias que para os gregos eram o arquétipo a conseguir. O Bem, a Verdade, a Beleza os extrapolou na ciência abstrata do século XX.

José Escorihuela

A Memória e a Arte de Esquecer

Esquecer é uma arte, porque assim quis a vida, que consiste em perder muitos neurônios e sinapses, entre outras coisas.  Nessas sinapses e nesses neurônios que se perdem podem residir memórias e, quando aqueles se vão, as memórias vão juntas.

O esquecimento pode ser o aspecto mais predominante da memória, mas conservamos e usamos memória suficiente ou fragmentos de memória para termos um desempenho ativo, funcional e relativamente satisfatório como pessoas.

Por que e para que esquecemos?

Esquecemos porque os mecanismos que formam e evocam a memória são saturáveis.  Não podemos fazê-los funcionar constantemente de maneira simultânea para todas as memórias possíveis, as existentes e as que adquirimos a cada minuto.  Isso obriga naturalmente a perda de memórias preexistentes, por falta de uso ou para dar lugar a novas memórias.

Não sabemos ainda se os mecanismos através dos quais se guardam no cérebro os elementos principais de cada memória são ou não saturáveis.

Mas há evidências recentes de que, na hora de sua formação e na hora de sua evocação, os sistemas cerebrais que se encarregam das memórias de longa duração, que envolvem fundamentalmente uma estrutura do lobo temporal chamada hipocampo, são altamente saturáveis.  O mesmo ocorre com os sistemas encarregados de analisar on-line as informações correspondentes à aquisição e à evocação das memórias.

E, além do mais, para que precisamos esquecer?  Simplesmente para não ficarmos loucos e para que possamos conviver e sobreviver.

Formas de esquecimento

Há quatro formas de esquecimento.  Duas consistem em tornar as memórias menos acessíveis, sem perdê-las por completo: extinção e repressão.  As outras duas consistem em perdas reais de informação: uma delas por bloqueio de sua aquisição e a outra por deterioração e perda da informação (esquecimento como um acontecimento involuntário).  A arte de esquecer se concentra na extinção (e seus parentes próximos, a habituação e a discriminação) e na repressão, e, também, na falsificação.

Extraído do livroA arte de esquecer” de Ivan Izquierdo (Editora Vieira e Lent – Rio de Janeiro)

O papel dos contos e mitos na Educação

O filósofo grego Platão descreve em suas obras, “A República” e “As Leis”, os fundamentos da Educação de acordo às diferentes fases da vida e propõe elementos essenciais que devem ser trabalhados em cada uma dessas fases. Seguindo seus ensinamentos, essas etapas bem vividas constituem as bases sobre as quais se constroem as características de uma personalidade forte e bem formada, na qual a inteligência prima sobre os instintos e conduz à temperança (sabedoria), o que torna o ser humano verdadeiramente feliz.

Platão se refere à infância como a “Idade dos Contos”. Nesta fase, a criança percebe o mundo a sua volta e se relaciona com ele, sobretudo, através dos sentimentos. A lógica e a razão começam a vir à tona no estágio seguinte, por volta dos sete anos, e após isso vão gradativamente ocupando lugar de destaque.

No entanto, atualmente as crianças estão, cada vez mais cedo e de forma mais intensa, sendo inseridas num sistema de ensino que consiste em absorver um acúmulo de informações através de métodos artificiais e pouco estimulantes.

Na infância, a criança vive uma realidade de descobertas e encantamentos e manifesta um interesse especial por tudo que seja apresentado a ela de maneira lúdica e viva. Tudo pode ser objeto de sua atenção, desde que encontre eco em seus sentimentos.

Os mitos falam diretamente ao coração, não pertencem ao campo da lógica. O próprio Platão se refere aos mitos como realidades que estão acima de nossa compreensão racional e se utiliza dessa linguagem para tratar dos temas mais profundos relacionados à alma humana e às misteriosas leis que regem o universo.

As crianças compreendem muito bem a linguagem dos mitos. Elas se relacionam com os seus símbolos e assimilam suas idéias de maneira direta. É muito mais fácil ensinar-lhes por meio de histórias do que explicando logicamente por que algo é certo ou errado. Elas possuem a capacidade de ver todas as coisas vivas e integradas, por isso seu universo é repleto de magia e entusiasmo. Esses sentimentos se traduzem naturalmente em respeito, curiosidade e alegria, além de eles promoverem um maior valor às experiências. Infelizmente, devido à ausência de estímulos, o homem vai perdendo esse frescor e, com o passar do tempo, deixa de acreditar nos contos, nos sonhos e em si mesmo.

Os heróis, as princesas, as fadas e os magos, os castelos, seus reis e rainhas, os contos dos bosques, os animais das fábulas… todas essas figuras pertencem a um simbolismo universal que sempre existiu e está presente na cultura de diferentes povos de diferentes épocas. São referenciais atemporais de valores que inspiram, com seus exemplos e ensinamentos, os ideais de amor, justiça e bondade.

Deuses, semideuses e seres encantados representam arquétipos que, essencialmente, penetram nos corações de crianças e jovens como poderosas sementes em uma terra fértil para um dia florescerem como árvores de virtudes firmes e frondosas, capazes de gerar muitos frutos e novas sementes.

O Tempo, do cotidiano ao enigmático

por Leonardo Santelices A.

“Quando o pai percebeu vivo e em movimento o mundo que ele havia gerado à semelhança dos deuses eternos, regozijou-se e na sua alegria determinou deixá-lo ainda mais parecido com seu modelo. E, por ser esse modelo um animal eterno, cuidou de fazer também eterno o universo, na medida do possível. Mas a natureza eterna desse ser vivo não podia ser atribuída em toda sua plenitude ao que é engendrado. Então, pensou em compor uma imagem móbil da verdade, e, ao mesmo tempo em que organizou o céu, fez da eternidade que perdura na Unidade dessa imagem eterna que se movimenta de acordo com o número e a que chamamos tempo”. O Timeu – Platão

A natureza do Tempo

Em seu livro Confissões, Santo Agostinho reflete, de certa forma, o que todos nós sentimos ante este cotidiano, mas também sobre o misterioso tempo: “Por que e o que é o tempo? Quem pode explicá-lo fácil e brevemente? Quem pode entendê-lo sequer no pensamento, de modo a poder dizer uma palavra acerca dele? E, no entanto, não é verdade que em nossas conversas não há nada a que nos refiramos com maior familiaridade ou conhecimento do que o tempo? E certamente o entendemos quando falamos dele, e o entendemos também quando ouvimos outra pessoa falar dele. O que é, então, o tempo? Se ninguém me pergunta, sei o que é. Se quiser explicá-lo a quem me pergunta, já não o sei.”

O tempo, essa imagem da eternidade, como disse Platão, no parágrafo do seu livro “O Timeu” que citamos, é uma continuidade, mas também uma seqüência de momentos. Como a luz, às vezes o tempo parece uma onda contínua e em outras ocasiões se comporta como um corpúsculo, formado por esses momentos que o compõem.

A continuidade do tempo é como um rio que não cessa de correr para o mar, mas à medida que o tempo se move vai devorando todas as coisas, como no mito grego.

“Mas o grande Cronos os tragava, à medida que, desde o seio sagrado de sua mãe, caiam sobre seus joelhos. E o fazia com o objetivo de que nenhum dentre os ilustres Urânidas possuísse jamais o poder supremo entre os Imortais.

Porque, efetivamente, Géia e Urano estrelado lhe disseram que estava destinado a ser dominado pelo seu próprio filho, pelos desígnios do grande Zeus, apesar de sua força. E, por isso, não sem habilidade, refletia sobre suas estratégias e devorava seus filhos. E Réia estava atordoada por uma grande dor.”

A Teogonia – Hesíodo

Num constante paradoxo o tempo constrói, transforma uma semente numa árvore, mas também é ele quem faz com que a flor murche, que o fruto apodreça. No entanto, é esta destruição que garante a continuidade, se a flor não murchar, o fruto não cresce, se o fruto não apodrece, a semente não sai.

O tempo desenvolve a vida, permite que as coisas cresçam e que os acontecimentos se desenvolvam, aí a ação do tempo aparece como uma benção e o tempo é a própria vida. O tempo no seu constante movimento se transforma em expectativa, “O ventre do tempo guarda muitos acontecimentos que logo verão a luz”. Shakespeare – Otelo. De forma constante, o que estava oculto vai saindo à luz. Desde a obscuridade do mistério as coisas vão se fazendo evidentes, vão passando do mundo das idéias ao mundo da manifestação, como dizia Platão.

Mas essa mesma continuidade vai cortando – para nós de forma bruta – esses mesmos processos que fez nascer. Por isso, um símbolo de Saturno é a gadanha. “Assim, não podia acreditar que tão valente história tivesse ficado incompleta e deturpada, e colocava a culpa na malignidade do tempo, devorador e consumidor de todas as coisas, o qual ou a tinha oculta ou consumida”. Miguel de Cervantes Saavedra – Dom Quixote. Aqui vemos o tempo como quase uma maldição.

É que o tempo não se move em linha reta, faz curvas e forma espirais. Esses dois extremos que chamamos vida e morte se conjugam para formar uma continuidade, como a imagem do Nilo para os antigos egípcios, uma margem é a vida e outra é a morte, mas o rio segue seu fluxo formando a Vida que integra seus dois extremos.

Ainda quando sua natureza é semelhante, pelo menos para nós seres humanos, a experiência do tempo se dá em diferentes âmbitos que nos levam a sentir que o tempo se prolonga ou se encurta, inclusive mudando de significado.

O tempo que poderíamos chamar de físico, aquele que medimos de acordo com o ciclo dos astros ou com as suas reproduções, que são os objetos mecânicos ou eletrônicos, transcorre de forma regular, com ritmos predizíveis.

Há outro tempo que podemos chamar de psicológico, cujos ritmos são variáveis e quase nunca regulares. Ele está caracterizado por aspectos internos de cada pessoa e contribuem para acelerar ou lentificar o tempo físico. Uns minutos de angústia podem ser mais longos que algumas horas tranqüilas. São os fatores psicológicos e emocionais que fazem o tempo variar: a alegria, o medo, a tristeza, entre outros, são os que tingem o tempo variando a percepção que temos dele.

Finalmente há outro tempo que podemos chamar de espiritual, no qual o tempo se relaciona de forma muito direta com o sentido da vida, é aqui onde aparece como destino: o destino humano, o destino histórico, o destino individual, todos eles relacionados e conjugados formando um grande rio. “Toda humanidade, como uma longa coluna de peregrinos, marcha pelo caminho do Destino. Se nos elevarmos um pouco, veremos esse longo e largo rio humano descrever mil e um meandros, cair por fragorosas cascatas bélicas, estancar-se em represas de quietude à espera de que a força do conjunto sobrepasse a barreira, para se lançar uma e outra vez ao invisível, mas pressentido Mar… Deus… ou como queiras chamá-lo”. Jorge A. Livraga – Cartas à Délia e Fernando

Assim transcorre o tempo e com ele a vida e também nossa vida, nossas ações transcorrem no tempo, mas também são parte dele, nossas decisões se tomam no tempo, mas também vão condicionar como será o tempo futuro. “No fluxo das ondas da vida, no turbilhão da ação, ondulo subindo e descendo, agito-me de um lado a outro. Nascimento e morte, um oceano sem fim, uma atividade mutável, uma vida febril: assim trabalho tecendo a vivente roupagem da Divindade”. Goethe – Fausto

O Tempo na Física

A primeira aproximação da ciência ao tempo é para medi-lo, saber quando ocorreu um acontecimento, saber o dia, a hora, em que minuto ou segundo ocorreu. Esta medida que nos permite saber quando aconteceu algo também permite essa outra medida que é a duração ou o intervalo, o tempo que fica entre dois momentos e que se mede como uma magnitude temporal.

O tempo é também uma sucessão periódica de tempos, assim um dia sucede a outro, ao dia sucede a noite, uma hora a outra, e é esse tempo que sentimos completamente alheio a nós mesmos. O presente se transforma em passado e o futuro em presente, em uma sucessão contínua e uniforme sem começo nem fim. Este é o tempo que Newton chama de absoluto, verdadeiro e matemático, e que define como tal que, por si mesmo e por sua própria natureza, flui uniformemente sem relação com nada externo.

O tempo absoluto é representado por um ponto que se move numa reta que vem desde o infinito e vai até o infinito, sem princípio nem fim. Embora isso seja uma noção puramente conceitual, já que um tempo sem princípio nem fim não é realmente o tempo, é provável que tenha relação com a noção que Newton tem de Deus. É como se diz no Escólio Geral no seu clássico Princípios Matemáticos da Filosofia Natural: “É eterno e infinito, onipotente e onisciente, isto é, dura desde a eternidade e até a eternidade, e está presente desde o infinito até o infinito; não é duração ou espaço, mas dura e está presente. Dura sempre e está presente em todas as partes, fundamenta a duração e o espaço”.

Entre março e setembro de 1905, Albert Einstein publica quatro artigos na revista Annalen der Physik que provocaram uma revolução na Física.

O primeiro artigo trata do Movimento Browniano e expõe uma análise matemática do movimento aleatório dos átomos, a partir da observação do movimento de grãos de pólen na água em repouso. Essa foi uma prova da existência real dos átomos, que ainda não era totalmente aceita por todos os cientistas da época.

No segundo artigo sobre o Efeito Fotoelétrico, Einstein assinala que a luz pode ser transmitida em unidades discretas, os “quanta de luz”, que posteriormente foram chamados fótons, revelando a dualidade onda-partícula da luz. Einstein recebeu o prêmio Nobel de Física em 1921 por este trabalho, que também foi a peça fundamental da Mecânica Quântica.

O terceiro artigo intitulado “Sobre a Eletrodinâmica dos Corpos em Movimento” foi conhecido posteriormente como a Teoria da Relatividade Especial, nele expõe dois importantes e revolucionários postulados:

1.- A velocidade da luz é constante e independente do movimento relativo entre a fonte de luz e o observador.

2.- O espaço e o tempo absolutos não existem. Dependem da posição e da velocidade do observador.

A Equivalência massa-energia foi o quarto artigo e aí é onde aparece sua famosa equação E = mc2, que significa que a energia “E” de um corpo é igual a sua massa “m” multiplicada pela velocidade da luz ao quadrado “c2”. Esta fórmula é utilizada para explicar como se produz a energia nuclear e seria a base para o desenvolvimento da bomba atômica.

Sobre o tema que tratamos, a mudança fundamental, com relação ao tempo da Física de Newton, é que agora se concebe o tempo como algo relativo à posição e à velocidade do observador.

Quando tratamos de medir o tempo, ele escorre entre os nossos dedos como água, já que o fator que se busca para uma boa medida é a exatidão, e nunca uma medida é exata. A menor medida é a que está mais próxima, mas como quem está medindo também está no tempo, nunca se poderá chegar a uma medida verdadeiramente exata.

O tempo é também movimento e este movimento contínuo é o que impede de obter uma medida exata de um instante determinado. Poder fazê-lo significaria poder “congelar” o universo num momento determinado, mas em ciclos maiores ou menores, sempre o tempo flui, como o rio ao mar. Por isso, Heráclito, chamado o Obscuro, dizia que um homem não pode se banhar duas vezes num mesmo rio, porque nunca o rio volta a ser o mesmo e tampouco o homem.

Peter Lynds, um jovem da Nova Zelândia de 27 anos, escreveu um revolucionário artigo sobre uma nova concepção do tempo que gerou um grande interesse entre os cientistas.

Uma Teoria revolucionária

No mês de agosto de 2005, na Revista Foundations of Physics Letters, Peter Lynds escreveu o artigo Tempo e Mecânica Clássica e Quântica: Indeterminação frente à Descontinuidade que muda a concepção de tempo. Para alguns este jovem é ousado e quase um aventureiro da ciência, outros o comparam com Albert Einstein, o certo de tudo isso é que a teoria é bastante interessante.

Na sua introdução Lynds expõe o problema da seguinte forma: “O tempo entra na mecânica como uma medida de intervalos, relativa ao relógio, que completa as medições. Inversamente, embora geralmente não nos demos conta, em todos os casos, um valor temporal indica um intervalo de tempo (e não um instante específico e estático no tempo) durante o qual se determinam, teoricamente e com precisão, a posição relativa de um corpo em estado de movimento relativo ou qualquer outra magnitude física”.

E mais adiante continua: “Apesar de pequeno e preciso que tomemos o valor, não podemos, no entanto, indicar um instante exato e estático no tempo durante o qual o valor pudesse se determinar teoricamente com total precisão, já que não existe um instante preciso no tempo inerente a um processo físico dinâmico. Se existisse, toda a continuidade física, incluindo o movimento e a variação em todas as magnitudes físicas, não seria possível, visto que se deteria nesse preciso instante, permanecendo de tal forma. Conseqüentemente, não se pode determinar com precisão a posição relativa de um corpo em movimento relativo, ou qualquer outra magnitude física, em nenhum momento, tanto se tratando de um intervalo de tempo medido (o menor que se queira) ou de um instante estático no tempo, visto que, sem tempo, não existe uma mudança constante e indeterminada. Portanto, a possibilidade do movimento e da variação das magnitudes físicas são devidas precisamente à não-existência de um instante preciso no tempo, inerente a um processo físico dinâmico, e à impossibilidade de se determinar com precisão, num dado momento, o movimento relativo de um corpo em estado de movimento relativo (ou qualquer outra magnitude física): é necessário o reajuste simultâneo de todos os valores físicos determinados com precisão, para sua continuidade através do tempo”.

Medir de forma exata um instante, por menor que seja, significaria congelar esse instante, mas as leis da física, aquelas que são as que fazem com que o universo seja o que é, também ficariam congeladas, o que significa que deixariam de ser tais e, se congelássemos, por exemplo, as forças fundamentais, então o universo desapareceria.

Platão nos fala do Mundo das Idéias, onde as coisas são sem chegar a existir e do mundo da manifestação onde as coisas existem sem chegar a ser. Essa é a forma de ver as diferentes qualidades de cada um destes mundos. Por exemplo, a Unidade é uma Idéia que por sua natureza é permanente, encontramo-la na concepção do mesmo Universo, mas nada do que existe é a Unidade, esta outra Unidade, que é a que marca uma existência singular de algo, é uma imitação no mundo da manifestação da Unidade. Mas uma coisa e um pensamento são existências e como tais nascem e morrem, por outro lado a Unidade como não pertence ao mundo da manifestação, nem nasce nem morre, simplesmente É.

Voltamos a citar a última parte do parágrafo do Timeu de Platão que citamos no início do artigo e que projeta muitas luzes sobre esta natureza paradoxal do tempo que é uma imitação da eternidade, porque é impossível que ela esteja no mundo da manifestação.

“Mas a natureza eterna desse ser vivo não podia ser atribuída em toda sua plenitude ao que é engendrado. Então, pensou em compor uma imagem móbil da verdade, e, ao mesmo tempo em que organizou o céu, fez da eternidade que perdura na Unidade dessa imagem eterna que se movimenta de acordo com o número e a que chamamos tempo”.

Próximo Número

A doença do medo

O homem está doente de medo, e as conseqüências desta enfermidade se manifestam em doenças que aparecem dia a dia. O filósofo deve erradicar o medo, e com ele todas as suas seqüelas. Saber ter ideais firmes e autênticos para se opôr a qualquer coisa que lhe atemorize.

A filosofia secreta em  Walt Disney

O dom de Walt Disney foi de educar através da beleza. Para as almas sensíveis, o efeito das suas obras é um retorno à pureza, aos sonhos intactos. Para os estudiosos das ciências herméticas são uma expressão originalíssima e fiel dos conhecimentos milenários.

Os índios Hopi

Estes índios, aborígenes do Novo Mundo, vivem hoje numa reserva, numa faixa da costa do Pacífico que compreende o norte do Arizona e parte do Novo México. Uma raça que trata de manter, num mundo agressivo, suas tradições e seu modo de vida.

Hans Christian Andersen

Cada personagem dos contos de Andersen representa uma reflexão filosófica, uma idéia, que se resume em alcançar uma meta; onde está a sublimação e a vitória final. Suas chaves nos aproximam do mundo dos símbolos universais, valores que sempre existiram.

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