Edição 24

Editorial

Acostumamo-nos a manejar conceitos que temos por admitidos, como se fossem verdades comprovadas, quando não são mais do que presunções ditadas pelas convenções de cada tempo e de cada lugar. À força de repeti-los e de considerá-los válidos, ninguém se atreve a contradizê-los e, entretanto, uma das mais apaixonantes tarefas consiste em olhar por trás das aparências do que é aceito, e descobrir a falta de solidez dos argumentos, a falta de verdade das conclusões.

Assim, acontece a convenção de que o conhecimento científico é uma descoberta da modernidade, que não teve espaço no mundo antigo, entregue às superstições ou à magia. A civilização ocidental teria o orgulho de haver-se situado sobre as bases da ciência, uma vez superadas as etapas infantis do mundo antigo, tão envergonhado com o resplendor dos relatos míticos. A razão devia anular a imaginação e é obvio as crenças, a ciência acabaria até com o pensamento filosófico, tal era a orgulhosa conclusão.

Mas, a mesma ciência, neste caso, a investigação histórica e arqueológica, encarregou-se de desmontar essa representação distorcida sobre o mundo antigo, conforme demonstram as reportagens do número anterior e deste mês em nossa revista. São uma série de exemplos que justificam a validez do pensamento científico da antigüidade com a autoridade empírica dos fatos constatados. Com efeito, existiu ciência na antigüidade, podemos afirmar sem riscos e, é muito provável que a investigação paciente dos estudiosos em responder às perguntas sobre o passado, ofereça-nos abundantes surpresas no futuro. De fato, o que consideramos sempre “descobertas” próprias da idade moderna, em realidade, foram achados redescobertos, pois já foram conhecidos em outras épocas e esquecidos posteriormente.

Neste ponto, cabe perguntar se o progresso científico e técnico, que agora desfrutamos, seguirá sua progressão linear, ou pelo contrário, esperam-nos tempos futuros de obscuridade e esquecimento, como ao que parece, já nos aconteceu no passado. Esse seria um assunto merecedor de nossa reflexão, no marco de um tempo cíclico que marca os ritmos da história da humanidade, que leva as coisas e volta a trazê-las com formas renovadas, embora pareçam invenções de cada momento. Por algum motivo, Platão relacionava o conhecimento com a lembrança.

Mosaico

Seis vidas em uma (Conto sufi)

Certa vez um jovem pensou: Se eu pudesse experimentar várias fases da existência, poderia me livrar de toda limitação de pontos de vista. De que serve dizer para alguém “você saberá quando ficar mais velho”, se aí será muito tarde para aproveitar? Encontrou-se com um homem sábio, que respondendo as suas perguntas disse: “Poderás encontrar a resposta, se quiser”.

– Como? – perguntou o jovem.

– Através da transformação múltipla. Ingerindo certas frutas que te mostrarei, poderás adiantar ou retroceder a sua idade, ou deixar de ser uma pessoa e converter-te em outra.

– Eu não acredito na reencarnação.

– Não é questão do que acreditas, mas do que é possível – replicou o sábio. Comeu as frutas e seu desejo foi o de se transformar num homem adulto. Mas ser um homem adulto tinha tantas limitações, que ingeriu outra fruta e passou a ser velho.

Quando velho, quis ser jovem outra vez e recorreu à outra fruta. Assim, voltou a ser jovem, mas como cada estado tem sua forma de conhecimento correspondente, ocorreu que desapareceu da sua mente a experiência adquirida nas suas duas mutações anteriores.

Não obstante, o jovem ainda lembrava das frutas, e decidiu fazer um segundo experimento.

Comeu outra, desejando desta vez converter-se em alguma outra pessoa. Apenas se viu transformado em outra pessoa, compreendeu que a mudança, por si só, era vã. Portanto, comeu outra fruta e desejou voltar a ser ele mesmo novamente.

Uma vez restituído ao seu estado original, precaveu-se de que tudo o que tinha ganhado, realmente, com aquelas experiências era completamente diferente do que esperava obter com as mudanças de sua pessoa.

Voltou a apresentar-se ao sábio, que lhe disse: – Agora que sabes que as experiências importantes não são as que desejas, mas as que necessitas, talvez possas começar a aprender.

Plantas descontaminantes

Bill Wolverton, engenheiro ambiental da Nasa, estudou, no início dos anos 70, sobre o problema de manter limpo e saudável o ar nos veículos espaciais. Começou estudando as plantas domésticas e obteve resultados melhores do que o esperado. A partir de níveis “perigosos” de vários compostos orgânicos voláteis, Wolverton percebeu que algumas plantas reduzem a contaminação a níveis não detectáveis em 24 horas. Duas das mais eficazes foram os cleomes e os filodendros (philodendron, gênero com mais de 250 espécies da família das aráceas ornamentais), que também se encontram entre as plantas domésticas que são mais fáceis de cuidar: toleram quase qualquer condição de iluminação, basta regá-las 1 ou 2 vezes por semana, são resistentes às pragas e não têm flores que provocam alergias. Além disso, plantam-se com facilidade: os filodendros de galhos e os cleomes dos numerosos talos que produzem. Estas plantas podem ajudar também a limpar a contaminação do ar no interior das moradias. Demonstrou-se que, em muitas ocasiões, o ar dos interiores está poluído porque diversos materiais emitem compostos orgânicos voláteis (tapetes, tapeçarias, plásticos, fibras artificiais, etc.), além da contaminação química de higienizadores, inseticidas, colas, pinturas e vernizes…

A corda de Paganini

Era uma vez um grande violinista chamado PAGANINI.

Alguns diziam que ele era muito estranho. Outros, que era sobrenatural.

As notas mágicas que saíam de seu violino tinham um som diferente, por isso ninguém queria perder a oportunidade de ver seu espetáculo.

Certa noite, o camarote de um auditório, repleto de admiradores, estava preparado para recebê-lo. A orquestra entrou e foi aplaudida. O maestro foi ovacionado, mas quando a figura do Paganini surgiu, triunfante, o público delirou.

Paganini coloca seu violino no ombro e o que se escuta é indescritível.

Breves e semibreves, fusas e semifusas, colcheias e semicolcheias parecem ter asas e voar com o toque de seus dedos encantados.

De repente, um som estranho interrompe a distração da platéia.

Uma das cordas do violino de Paganini se rompeu. O maestro parou.

A orquestra parou. O público parou. Mas Paganini não parou.

Olhando sua partitura, continua arrancando sons deliciosos de um violino com problemas.

O maestro e a orquestra, exaltados, voltam a tocar. Antes de o público se acalmar, outro som perturbador interrompe a atenção dos assistentes.

Outra corda do violino do Paganini se rompe. O maestro parou novamente. A orquestra parou novamente. Paganini não parou.

Como se nada tivesse acontecido, ignorou as dificuldades e continuou tirando sons do impossível.

O maestro e a orquestra, impressionados, voltaram a tocar.

Mas o público não podia imaginar o que estava por acontecer.

Todas as pessoas, atônitas, exclamaram OHHH!

Uma terceira corda do violino do Paganini se rompe.

O maestro ficou paralisado. A orquestra parou. A respiração do público se deteve, mas Paganini continuou.

Como se fosse um contorcionista musical, arranca todos os sons da única corda que ficava em seu violino destruído.

Nenhuma nota musical foi esquecida. O maestro se anima. A orquestra se motiva. O público parte do silêncio à euforia, da inércia ao delírio.

Paganini alcança a glória. Seu nome corre através do tempo. Não é apenas um violinista genial: é o símbolo do profissional que continua adiante, frente ao impossível.

Aplicar a epiqueya (flexibilidade)

A flexibilidade é uma virtude que leva uma pessoa a ser mais feliz, além de ser positiva para a convivência.

O rei de Constantinopla convida um mensageiro de Carlos Magno a um banquete e solicita que se sente ao lado dos nobres. Esses têm por lei que, nenhum convidado à mesa do rei, seja nativo ou estrangeiro, revire a carne que lhe servem: deve comer começando sempre pela parte de cima.

Servem ao mensageiro um prato de peixe coberto com ervas. Não conhecendo os costumes do país, o coitado revira a comida. Os nobres ficam de pé e gritam ao rei: “Oh, senhor! Foste desonrado como jamais o fora rei algum”.

O rei se dirige ao mensageiro: “Sinto muito, mas tenho que te condenar à morte. O máximo que posso fazer por ti é te conceder qualquer favor que me peça, contanto que não seja a vida”. O mensageiro responde: “Não, a vida não. Só te peço um pequeno favor: que arranquem os olhos de todos aqueles que me viram revirar o peixe”.

O rei afirma que ele, pessoalmente, não viu tal coisa, só ouviu a palavra dos outros comensais. A rainha também se excusa: “Dou minha palavra que não vi nada”.

Os outros nobres também negam categoricamente: tampouco viram nada.

O mensageiro volta para sua terra são e salvo.

Dirigir pela esquerda

Apesar de chocar os demais países o fato de os britânicos e os cidadãos de outros estados dirigirem pela esquerda, tudo parece indicar que no passado era a convenção mais difundida em todo mundo.

De fato, alguns estudos apontam, que já na época romana, os carros circulavam pela esquerda nas calçadas do império, costume que perduraria durante toda a Idade Média. A explicação dada é que, como a maioria das pessoas é destra e, naquela época, era habitual andarem armadas, as pessoas preferiam deixar passar os que vinham de frente pela sua direita, para o caso de ser necessário fazer o uso da espada.

No século XVIII, dois fatores – um econômico e outro político – contribuíram decisivamente para a mudança. Por um lado, a proliferação de grandes carruagens, para o transporte de mercadorias, carregadas por cavalos nos Estados Unidos e na França. Como estas carruagens não dispunham de assento para o condutor, este montava no último cavalo situado à esquerda, enquanto a mão direita ficava livre para o látego, que lhe permitia açoitar os demais cavalos. Observando dessa forma, era normal querer ver os veículos que vinham de frente, circulando pela esquerda. Por outro lado, o fato de que na Revolução Francesa acabou-se com o costume de circular pela esquerda, uma deferência reservada até então à aristocracia. As invasões napoleônicas estenderam essa norma aos países ocupados, norma que não foi aceita pelos países que resistiram a essa expansão, como o Império Austro-húngaro, Grã-Bretanha e Portugal.

Em 1835, estabeleceu-se a obrigação de circular pela esquerda em todo o Império Britânico – exceto no Egito, país conquistado anteriormente por Napoleão -, apesar de que os demais países da Europa e da América se inclinavam progressivamente pela condução pela direita. Esta mudança comportou situações curiosas, como por exemplo, que na Colúmbia britânica e em outros territórios anglófonos do Canadá, se circulasse pela esquerda até a Segunda Guerra Mundial, enquanto que em Quebec se circulava pela direita.

Kirchhoff e Bunsen

Que relação teve um incêndio com os inícios da espectroscopia?

Os nomes de Robert Wilhem Bunsen (1811-1899) e Gustav Robert Kirchhoff (1824- 1887), atualmente apenas lembram às pessoas um queimador (ainda utilizado nos laboratórios de química) e algumas regras referidas aos circuitos elétricos. Entretanto, a colaboração destes dois cientistas alemães no Heilderberg foi fundamental para o desenvolvimento da espectroscopia.

A espectroscopia se apóia na idéia de que, ao se esquentar certas substâncias, por exemplo, com uma chama, emite-se luz. Se a luz emitida passar através de um prisma, decompõe-se em um conjunto de radiações denominado espectro.

Bunsen e Kirchhoff desenvolveram um aparelho denominado espectroscópio, que permite observar espectros de diversas substâncias.

Em certa ocasião, enquanto observavam um incêndio no porto do Hamburgo, a uns 80 km de distância, ocorreu-lhes fazer passar por um prisma a luz que vinha do incêndio. Viram uma luz amarela intensa, como a que tinham observado ao queimar sódio. Logo encontraram a explicação. O que estava ardendo era um armazém de sal.

Se foi possível deduzir a presença de sódio à distância, observando a luz das chamas, também seria possível deduzir a composição do Sol e das estrelas analisando a luz que recebemos delas.

Depois de várias semanas de intenso trabalho chegaram a algumas conclusões, entre elas: o Sol é formado por substâncias como as que existem na Terra.

Invenções com história – Receptor de áudio: o audião

Lee de Forest, professor de Filosofia da Universidade do Yale, teve a idéia de que os gases incandescentes poderiam ser utilizados de algum jeito para detectar sinais de rádio. Em 1903, Forest, em seu laboratório instalado em Nova Iorque, montou um circuito à base de um bico de Bunsen e este estranho dispositivo funcionou, recebendo sinais do TSH procedentes de navios do porto da cidade, próximo do seu laboratório.

O eletrodo inferior na chama era de platina quadrada de 2cm² de superfície e 2mm de espessura. O eletrodo superior era um fio do mesmo metal e a bateria era de 22,5 Volts. Provou diferentes compostos metálicos, melhorando a recepção ao colocar óxido de bário no eletrodo inferior. O êxito da experiência consolidou sua hipótese relativa às propriedades elétricas dos gases quentes e seus trabalhos seguintes foram presididos por essa idéia.

Encarregou-se da construção do primeiro diodo de gás ao Wallace Candles de Nova Iorque, fabricante de abajures elétricos, tipo miniatura, advertindo-lhe que não usasse alto vácuo, posto que, para seu funcionamento, era necessário um pouco de gás. Com este detector, as estações de rádio se deixaram “ouvir”, por isso o ajudante do Dr. Lee de Forest propôs designar o novo detector de “audião” derivado do latim “áudio”, “ouvir”. No final de 1906, a Navy Americana encomendou a Lee de Forest um receptor que seria instalado na Base Naval do Key West, e os tubos empregados foram chamados “Key West Audions”.

Em 1907, Forest (prêmio Nobel de Física) teve a feliz idéia de cobrir o tubo com uma folha de papel de estanho e conectar a antena a este eletrodo exterior. O resultado foi surpreendente: os sinais eram mais intensos, havia efeito amplificador. Em outra experiência, ajustou uma bobina, conectando seus extremos a uma antena e a terra respectivamente, e o audião teve similar rendimento. Então, mandou construir um novo tubo que continha duas placas que cobriam os dois lados do filamento; conectou uma placa à antena e a outra aos cascos (bateria-terra), com um resultado melhor. Passado certo tempo, dotou o tubo de um ralo (grid) em ziguezague situado entre a placa e o filamento, ao mesmo tempo que os filamentos de carvão foram substituídos por filamentos de tântalo e tungstênio, o que deu origem ao  abajur tríodo (com a que Meissner fabricaria, em 1913, o primeiro oscilador), base de todos os abajures posteriores: tetrodo, pentodo, etc.

No ano 1919, o técnico investigador David Sarnoff, da RCA, apresenta à direção comercial e aos técnicos desta companhia seu projeto do primeiro receptor de rádio para uso público, sendo rechaçado por unanimidade, por não considerá-lo rentável. Em 1920, a emissora MARCONI Wireless de Chelsford (Inglaterra) transmite, como ensaio, o primeiro concerto de música clássica. No mesmo ano, em Pittsburgh (EUA), inaugura-se a emissora KDLA, que foi a primeira a emitir programas regulares de rádio. Em 1921, iniciam-se em Paris os primeiros ensaios de programas de rádio para o público utilizando a Torre Eiffel como antena.

Francisco Capacete

Frases

Não confunda os prazeres com a felicidade: são cães de raças diferentes.

J. Billings

Não existe maior prazer que encontrar um velho amigo, salvo o de fazer um novo.

R. Kipling

A sabedoria vem de escutar; o arrependimento, de falar.

Provérbio italiano

Um perito é uma pessoa que cometeu todos os erros, que se possa cometer, em uma determinada área.

N. Bohr

A calúnia sempre é singela e verossímil; nisso se diferencia muitas vezes da verdade.

F. Mauriac

Não dês a ninguém o que te pedem, mas o que entendes que necessitam; e logo, suportas a ingratidão.

M. do Unamuno

Quem vive sem cometer alguma loucura não é tão prudente como supõe.

F. do Rochefoucauld

Ter espírito aberto, não significa aberto a todas as necessidades.

J. Rostand

Ninguém pode fazer com que te sintas inferior sem teu consentimento.

E. Roosevelt

Apenas desejo ser tudo aquilo que sou capaz.

K. Mansfield

Aportes científicos do mundo clássico

No mundo grego chegamos realmente ao que é o nascimento da ciência ocidental, tal como nós a entendemos. Para os antigos, o mundo metafísico e o mundo físico eram duas coisas distintas, por isso a explicação da natureza não entrava em contradição com as idéias religiosas, diferentemente do que aconteceu no mundo ocidental, desde o início do cristianismo. Na Grécia, admitiam-se todas as explicações sobre o universo e a natureza, das mais inverossímeis, até algumas muito acertadas. Assim, deu-se um florescimento de idéias, e sempre que encontrarmos uma descoberta na Idade Média, ou em séculos posteriores, poderemos nos referir a um grego que já disse algo parecido ou que intuiu parte disso, que logo seria uma realidade.

Tales de Mileto viveu no século VI a.C. e conta-se que foi o primeiro matemático, mas não legou nenhum escrito, embora tenha predito eclipses de sol em sua época, que foram muito importantes. Mais tarde, Euclides, em seu livro “Os Elementos”, incluiu muitos dos ensinamentos de Tales e também de Pitágoras. Os cinco postulados de geometria, que desenvolve nesta obra, mantiveram-se inalteráveis até o século XX, em que apareceram as geometrias não euclidianas.

O atomismo, das mãos de Demócrito de Abdera, foi uma teoria de muitos paralelismos com o que, posteriormente, seria a teoria atômica. Demócrito dizia que toda a natureza está constituída por átomos e por vácuo. Os átomos seriam elementos materiais, imensamente pequenos, indivisíveis, cujas combinações desembocavam na variedade de objetos e de seres vivos que vemos. Não possuíam diferenças qualificativas, mas possuíam diferenças quanto a sua forma, ordem e posição.

Poderiam parecer muito distintos, mas no fundo eram os mesmos, compostos pela mesma única substância. E, de maneira análoga, a teoria atômica nos diz que todos os átomos são compostos da mesma coisa, prótons, nêutrons e elétrons, ou seja, que qualitativamente são iguais, embora em função do número de prótons e elétrons, a diversidade dos átomos é enorme.

Pitágoras é famoso na história da matemática pelo teorema que leva seu nome. Este teorema era conhecido em toda a antigüidade: pelos babilônios, hindus, egípcios… Mas Pitágoras é quem faz o desenvolvimento matemático para demonstrá-lo. Este grande filósofo estabeleceu um sistema de filosofia onde sobressaía a matemática, onde tudo estava sujeito a proporções. Os pitagóricos diziam que os números constituem a natureza do universo, e, ademais, os consideravam espacialmente. Por outro lado, estabeleceram que a harmonia musical está baseada em proporções numéricas. A escola pitagórica unia o mundo da ciência com o mundo da moral. Os pitagóricos tinham fama de ser pessoas com uma moral tão elevada que, quando um grego via uma pessoa dessa escola, dizia: “Olhe, ali vai um pitagórico”, tal era seu modo de conduzir-se na vida, que se apreciava em seu aspecto exterior.

Com Pitágoras, aparece uma forma de entender o mundo, que é a dedução. Veremos que há duas maneiras de chegar às leis que regem a natureza, uma é a partir dos arquétipos, da teoria das idéias, como Platão dirá posteriormente e, outra, é partir do mundo material. A corrente dedutiva afirma que existem alguns arquétipos e que o mundo que vemos é um reflexo deles. Portanto, o trabalho do cientista seria conhecer essas idéias primeiras, essas generalidades, para depois, por meio da atividade mental, poder adaptá-las às particularidades de cada situação. Mais tarde, aparece outra corrente, que é a indutiva, quer dizer, observar cada fenômeno em particular e, quando já se observaram muitas particularidades, estabelecer semelhanças até chegar a uma lei geral. Precisamente, toda nossa ciência atual se apóia neste segundo modelo.

As duas personalidades gregas que condicionaram a ciência ocidental foram Platão e Aristóteles. Há um quadro na Stanza della Segnatura do Vaticano pintado por Rafael, chamado de Escola de Atenas. Nesta obra Platão aparece apontando para cima e Aristóteles apontando para baixo, buscando representar precisamente esses dois sistemas de pensamento. Por um lado, Platão com sua teoria dos arquétipos celestes, por outro, Aristóteles, o observador da natureza terrestre. A influência das correntes platônicas e aristotélicas se alterna sucessivamente ao longo da história da ciência.

Platão tinha no frontispício da entrada da Academia um lema que dizia: “Não entre aqui quem não saiba geometria”. Quer dizer, Platão seguia a linha de Pitágoras, tinha um grande interesse pela matemática. A formação das montanhas, os animais, esse tipo de coisa era secundário para ele. O que tinha valor era o mundo das idéias, da geometria, dos sólidos platônicos e como isso pode ser refletido no mundo físico. Aristóteles, embora tenha estudado com Platão, com a morte deste, encarregou-se, durante um tempo, da educação de Alexandre Magno, para depois fundar sua própria escola em Atenas, chamada de Liceu. Aristóteles foi um grande naturalista. Deixando à parte seus tratados sobre política, filosofia e ética, escreve sobre história natural, tratados sobre as plantas, os minerais, a locomoção, as partes e a reprodução dos animais… e tem livros de física, sobre o céu, sobre a meteorologia, sobre o movimento… De Aristóteles, a partir da Idade Média, o que mais foi valorizado foram seus livros de Física, onde recolhe muitos conceitos errôneos e, em troca, não se atentou muito aos seus livros de Biologia, que contêm conceitos acertados. Ele fez descobertas muito adiantadas para sua época. Fez a primeira classificação dos animais, dividiu-os em animais de sangue quente, em seguida em mamíferos, répteis, aves, peixes, e animais de sangue-frio, classificação que, em linhas gerais, mantém-se até nossos dias. Também fez observações que passaram em branco durante dois mil anos, como por exemplo, que os golfinhos não eram peixes, mas sim mamíferos, porque tinham que sair para respirar, possuíam pulmões ao em vez de brânquias e pariam crias vivas.

Mais tarde, outro grande centro científico da antigüidade foi Alexandria. Na Alexandria, fundou-se uma instituição chamada Museu. Museu significa o lugar dedicado às musas, era um lugar dedicado à cultura que, além disso, albergava uma biblioteca. Conta-se que, a cada navio que chegava a Alexandria, requisitavam-se todos os livros que o navio continha, até que eram duplicados pelos copistas da biblioteca. Com o tempo, a biblioteca de Alexandria chegou a ter mais de 700.000 pergaminhos, que equivaleriam a uns cem mil livros.

Em Alexandria viveu Eratóstenes, que foi diretor da biblioteca e um dos que demonstrou que a Terra é redonda. Para os gregos, a esfera era o sólido mais perfeito. Tomemos como exemplo Platão e Pitágoras e sua teoria dos sólidos platônicos; portanto, todos os corpos celestes, incluindo a Terra, eram esferas. Ou seja, a idéia de que a Terra é redonda foi comum no mundo grego, com exceção dos pré-socráticos. Eratóstenes mediu a circunferência da Terra, utilizando um singelo procedimento e chegou a uma cifra muito aproximada.

Argumentou que, se a Terra fosse plana, os raios de sol cairiam perpendiculares à superfície terrestre, formando um ângulo reto com ela, enquanto que, sendo redonda na maioria das zonas – que é o que ele via – cairiam oblíquos, e o ângulo que se formaria seria agudo. Descobriu que justo no dia do solstício do verão, na cidade do Asuán, no Egito, ao meio-dia o sol não produzia sombras, já que estava em posição perpendicular, e o que fez foi pagar uma pessoa para que fosse de Alexandria ao Asuán e medisse a distância em passos que havia entre as duas cidades. Nesse mesmo dia do solstício de verão, ao meio-dia, ele cravou uma estaca no chão e mediu a sombra que produzia essa estaca. Sabendo que em Asuán o sol estava em posição perpendicular e na Alexandria estava com uma inclinação conhecida (um ângulo de 1/50 de diâmetro, quer dizer, 7.2º), e sabendo a distância entre as duas cidades (800 km), como a circunferência terrestre tem que ter 360 graus, pôde extrapolar com assombrosa precisão a circunferência total da Terra, que estimou em 40 000 quilômetros.

Até não chegarmos à época de Cristóvão Colombo, esta idéia não foi uma realidade para o mundo ocidental, e entretanto, os gregos já a conheciam. Aristóteles deu três razões para afirmar que a Terra era redonda. Em primeiro lugar, deu-se conta de que os eclipse de lua se produziam porque a Terra situava-se entre o sol e a lua, e a sombra da Terra era sempre redonda. Se fosse um disco plano, seria vista uma sombra alongada e elíptica. Em segundo lugar, registraram-se observações de que a estrela polar, ao invés de permanecer imóvel independentemente do lugar, era vista mais baixa no céu das regiões setentrionais. Em terceiro lugar, ele percebeu, ao ver um navio afastar-se no horizonte, que se a Terra fosse plana, todo o navio diminuiria de tamanho, quando se afastasse no horizonte; entretanto, o que se observa é que primeiro a embarcação desaparece de nosso campo visual, depois desaparece a vela e por último o mastro. Outro sábio interessante foi Aristarco de Samos, do qual fica um livro intitulado “Sobre o Tamanho e as Distâncias do Sol e da Lua”, em que expõe suas medições da Terra ao Sol, da Terra à Lua. Embora tenham sido realizados cálculos corretos nessa obra, as estimativas têm muitos erros, pois ele carecia de meios técnicos. Propôs o sistema heliocêntrico, tal como o conhecemos, afirmando que a Terra gira sobre si mesmo, e que gira ao redor do Sol descrevendo uma circunferência, enquanto o Sol se mantém imóvel em relação às estrelas fixas. Inclusive, conta-se que falou da rotação diária da Terra. Embora os pitagóricos rechaçassem o sistema geocêntrico, e falavam de um fogo central ao redor do qual girariam o sol e outros planetas, a idéia do sistema heliocêntrico não foi tão universal entre os gregos. Sabemos o que Aristarco dizia, graças a Arquimedes, que em seus livros a menciona como uma teoria com a qual não concordava.

Arquimedes é a figura de maior renome do século III. Viveu ao sul da Itália, onde então era a Magna Grécia, durante a conquista de Siracusa pelos romanos. Foi ele quem se encarregou da defesa da cidade, desenhou máquinas para rechaçar os ataques. Conta-se que fabricou catapultas e espelhos que incendiavam os navios dos romanos. Não apenas tinha muitos conhecimentos matemáticos, mas também a faculdade de aplicá-los em artefatos novos. Arquimedes fez descobrimentos de geometria, aritmética, física e engenharia. Segundo o que conta a tradição, descobriu o princípio de flutuação, que diz: “todo corpo submerso em um fluido experimenta um empuxo igual ao peso da água deslocada”, procurando resolver um enigma que lhe expôs o rei Hieron de Siracusa. Tinham fabricado para o rei uma coroa de ouro, mas suspeitava que tinham acrescentado um pouco de prata ou de outros metais nobres. Por isso, perguntou para Arquimedes se existia algum modo de saber se era toda de ouro ou uma mescla. Arquimedes, enquanto estava pensando sobre o problema, foi tomar banho para relaxar e, justo quando entrou na banheira descobriu a solução ao ver a água que transbordou. Foi tanta a sua emoção, que gritou a famosa palavra eureca (encontrei!) e saiu correndo nu pelas ruas de Siracusa para contar imediatamente ao rei. Assim o comprovou: fabricou uma barra de ouro e outra de ouro e prata do mesmo peso que tinha a coroa, e as colocou em baldes idênticos cheios de água. Recolheu a quantidade de água que transbordava, e comprovou que a barra de ouro era a que mais água deslocava, enquanto que a coroa e a barra de ouro e prata deslocavam mais ou menos a mesma quantidade de água. Isto se deve ao fato de que as densidades do ouro e da prata são diferentes. Esta foi a prova de que efetivamente lhe tinham enganado.

Outro dos princípios, pelos quais Arquimedes é conhecido, é o princípio da alavanca. Apesar de não parecer muito habitual uma alavanca hoje em dia, a utilizamos num cortador de unhas, numa tesoura, numa pinça, num carrinho de mão ou num quebra-nozes. Ou seja, tem muitas aplicações. O princípio da alavanca afirma que, quando se quer mover um peso, a resistência que exerce esse peso multiplicado pela distância ao ponto de apoio, chamado fulcro, é igual à multiplicação da força realizada pela distância do fulcro ao lugar onde se aplica a força. Ele disse: “me dêem um ponto de apoio e moverei o mundo”. Por que? Porque com a força de um homem e um ponto de apoio (fulcro) muito próximo da Terra, a única coisa que terei que fazer é afastar suficientemente o ponto de onde se aplica essa força para chegar a movê-la. Daí sua famosa frase.

A biblioteca de Alexandria sofreu vários incêndios, o último deles, que acabou com todo esse reduto cultural, aconteceu em 415 d.C. e marca o início de uma idade obscura para a ciência até o Renascimento. Nesse momento, Hipátia, uma matemática e física muito célebre, ensinava no museu como filósofa neoplatônica. Conta-se que ela construiu instrumentos científicos astronômicos como o astrolábio, usado para conhecer o movimento e a posição das estrelas, ou o planisfério, e que inventou um aparelho para destilar a água, um hidrômetro graduado para medir a densidade dos líquidos e um artefato para medir o nível da água. Seu pai Teón, ilustre matemático e astrônomo, foi o último diretor do Museu de Alexandria. Naquela época, no Egito, já estava assentando-se o cristianismo. Narram que uma horda de cristãos incitados pelo bispo Cirilo, mutilaram Hipátia em plena rua, para em seguida levar seus restos ao museu, ateando fogo em tudo. Assim, perderam-se inumeráveis textos. Este fato representa o princípio da Idade Média.

Demos algumas pinceladas em alguns dos avanços que o mundo antigo acumulou. São muitos outros os progressos que se conhecem. Entretanto, desconhecemos tantas coisas! É muito o que jaz adormecido, sepultado no esquecimento, e tanto mais o que se perdeu irremediavelmente entre as brumas do passado, conhecimentos que os seres humanos tiveram e dos quais ignoram tudo.

Chegando ao início desta era cristã, terão que passar muitos séculos para recuperar novamente todos aqueles conhecimentos que uma vez a humanidade acumulou, em uma lenta revolução científica que começou a partir do Renascimento e que não terminou ainda. Nossa Idade Média européia foi um longo sonho, um grande esquecimento. O que demonstra que não são importantes só as conquistas, mas tão importantes ou mais são os esforços por manter aquilo que conquistamos.

Isabel Pérez Arellano

A Vocação Nossa de Cada Dia – O Modelo

O modelo do homem de vitrúvio corresponde a uma das obras de Leonardo da Vinci, cuja inspiração foi o próprio Vitrúvio, que se dirigindo a Otávio César Augusto, o primeiro dos imperadores romanos, envia-lhe uma obra com os princípios da arte e da arquitetura como carta de apresentação, solicitando fazer parte da equipe de arquitetos e profissionais que trabalhavam nos projetos do imperador. É interessante observar essa apresentação, pois Leonardo fez a mesma coisa com o duque de Sforça, o que leva a pensar que Leonardo não só se inspirou em Vitrúvio para desenhar o modelo por este descrito, mas também o utilizou como modelo de comportamento, para se apresentar de forma parecida e provavelmente para buscar inspiração na sua obra como um todo. Isso permite uma melhor compreensão desse modelo através do estudo das obras completas de Vitrúvio.

Quando se olha o modelo de Vitrúvio, vêem-se dois homens aparentemente justapostos. Um deles toca com suas mãos a figura da esfera e nela apóia seus pés. O outro toca com suas mãos a figura do quadrado e apóia seus pés nele. Isso é um símbolo que representa no primeiro caso, da esfera, o homem em relação ao universo, e no segundo, ou seja o do quadrado, o ser humano propriamente dito, em relação a si mesmo. Mas, ao se observar com maior detenção, vê-se que, embora no modelo exista a representação de dois homens, na verdade ambos têm em comum a cabeça e o peito.

A primeira representação é símbolo da inteligência, e a segunda da força, isso quer dizer que tanto o universo quanto o homem possuem a mesma inteligência e a mesma força. A questão é como fazer para que o homem possa canalizar essas duas faculdades, e aqui Vitrúvio responde também através do simbolismo: já que o homem do quadrado está desenhado com as partes, pulsos, cotovelos, ombros, cadeiras, joelhos e tornozelos, destacadas em proporções, medidas, ritmos, razão, em síntese harmônica, através do cultivo desses fatores, o ser humano pode chegar a desenvolver esse potencial. O desenvolvimento de tais fatores cabe à vocação, pois quando é encontrada e cultivada o que se está fazendo é trazer harmonia à vida.

A Música e Seu Poder Curativo

Sophia Trelle

A música é um fenômeno arraigado no homem desde sua origem. Ultrapassa as fronteiras de culturas, épocas e tem impregnado todas as áreas das ações humanas. Vivemos constantemente imersos em uma atmosfera de som, em um mundo de sons que nos acompanham durante toda a vida, ainda que poucas vezes nos demos conta disto. Tudo soa, tudo vibra, tanto nas grandes cidades, com seus gritos, chiados, silvos de homens e máquinas, como no campo, onde podemos escutar o canto da Natureza, o sopro do vento nas árvores, o murmúrio da água de um riacho, o gorjeio dos pássaros, ou nas margens do mar, com os golpes rítmicos das ondas contra os rochedos. O mundo todo parece participar desta grande sinfonia, que não termina nos confins de nossa terra, mas que abrange até as regiões mais distantes no espaço, onde soa a música das esferas, imperceptível ao ouvido humano.

Segundo os últimos estudos científicos, o homem percebe os primeiros sons ainda como feto, no útero materno, sendo as impressões mais importantes as pulsações rítmicas do coração e a respiração de sua mãe. A partir do sexto mês de vida embrionária, o ouvido está suficientemente desenvolvido para também escutar os sons exteriores. Estas primeiras recepções são gravadas na memória e nela são registradas como “envoltura pré-natal”, um estado de proteção e segurança, razão pela qual em músicas terapêuticas atuais emprega-se o efeito relaxante das batidas do coração.

Esta experiência básica é a mesma em todos os seres humanos, mas a partir de então as influências mudam segundo o lugar, a época e o ambiente em que a criança se desenvolve, e no qual imediatamente move-se o homem. Não obstante, há uma constante que se mantém através de todos os tempos: o ser humano sempre buscou a expressão de seus sentimentos e sensações na Música; criou suas próprias melodias e impregnou-as de dor e de alegria, bem como de suas experiências religiosas mais profundas. Toda a história da Humanidade dá crédito a isto; cada povo desenvolveu seu estilo musical de acordo com suas características e natureza, desde os mais primitivos, onde o instrumento principal foi a própria voz humana com todos seus matizes, acompanhada de materiais encontrados na natureza, como palitos, ossos e bambus, até as mais desenvolvidas civilizações, como a egípcia, a grega ou a romana, nas quais se utilizavam instrumentos mais elaborados, muito semelhantes aos atuais, como a flauta, a harpa, a lira, o chifre, a trompa, mas cujas melodias perderam-se nas distâncias do tempo.

Por outro lado, sempre atribuiu-se à Música um poder especial, e todas as antigas tradições estão repletas de relatos que falam dessa influência da Música sobre os seres e as coisas. Aí estão os Desuses e semi-deuses que são conhecidos por sua milagrosa habilidade musical. O mais destacado entre eles é Orfeu, cujo canto subjugava os animais selvagens, detia o curso das ondas e fazia as árvores e rochas dançarem. Nem sequer as criaturas do Mundo Subterrâneo resistiam ao encanto de sua música e até do próprio Hades conseguiu a liberdade temporária de sua esposa Eurídice. Nas lendas hindus, os cantores influenciavam no crescimento das plantas, mudavam o ritmo das estações, detinham o curso do sol e faziam a chuva cair. Contos gauleses e escoceses falam de feitiços por meio da Música. Na Prússia, conta-se dos ratos e das crianças que ficaram cativos pelo som da flauta de Pied, o famoso flautista de Hamelin. A Bíblia narra que os muros de Jericó caíram quando as trombetas soaram, e que Davi curou a tristeza de Saul tocando a cítara.

Hoje, novamente tem-se investigado o poder da Música e demonstrado sua influência sobre os vegetais, animais e homens. As plantas crescem melhor e mais saudáveis em um ambiente musical. O incremento do rendimento das vacas leiteiras por influência da Música é um fato bem conhecido. Igualmente comprovou-se que as galinhas produzem melhor quando são musicalizados os ninhos, e que os coelhos tornam-se muito mais férteis. Também o ser humano é afetado positivamente pela Música. Está cientificamente provado que ela influi sobre a capacidade de trabalho e retarda a fadiga; facilita a digestão, a respiração e a circulação sanguínea, melhorando o rendimento cardíaco; além disso, induz a um estado de distensão e de relaxamento. Estatísticas nos EUA demonstraram que a Música nas fábricas faz aumentar a produção em 4%. As mais recentes investigações inclusive descobriram que determinados sons podem provocar mudanças no metabolismo do homem e na biossíntese dos diversos processos enzimáticos referentes ao DNA e RNA, que constituem os elementos fundamentais da vida.

É interessante observar que nem todo tipo de música causa o mesmo efeito. Há músicas que relaxam, outras que adormecem, outras que, ao contrário, trazem ânimo e coragem, outras excitam e outras inclusive desequilibram o sistema nervoso até o ponto de causar sérios danos cerebrais, como a epilepsia, muitas vezes produzida por músicas demasiado estridentes nas discotecas de hoje. Platão, na República, fala da importância da Música para a educação do ser humano. Diz que há tonalidades ou harmonias que são negativas, desfavoráveis para os homens de bem, porque abrandam seu espírito, levam à moleza, à embriaguez e à indolência. Pelo contrário, o filósofo recomenda aquelas melodias que dão força e conduzem o homem à sabedoria e à moderação. Platão falava assim porque sabia que a Música é uma força que pode ser um meio extraordinário para transformar, enobrecer e aperfeiçoar o homem, já que a atividade mental cria uma atmosfera e é uma poderosa ajuda para a realização, inclusive para poder entrar em contato com o mundo superior. Os sábios de todos os tempos sempre levaram em conta as necessidades dos homens e instauraram festas com músicas, dança e teatro para alegrar-lhes o coração e, ao mesmo tempo, alimentar-lhes o espírito.

Temos que levar em conta que, na Antigüidade, não existia a música pela música em si, como tampouco existia a arte pela arte em si. Portanto, a idéia de que a Música e o som podem curar não é nova; é uma das mais antigas terapias conhecidas. Pitágoras ensinava a seus discípulos a fazer música diariamente, cantando ou tocando algum instrumento, para “limpar-se” das tristezas, medos e angústias. Também, nos antigos templos da China, Índia e Tibet, a prática da música com finalidades terapêuticas era uma ciência altamente desenvolvida, baseada na convicção de que as vibrações que produzem os tons musicais são semelhantes àquelas que criam verdadeiramente o mundo físico e que emanam de forças espirituais.

O som fundamental “OM” ou “AUM” simboliza, para a filosofia da Índia, a Origem, a fonte suprema, o Absoluto. É a essência de todas as manifestações do Universo, a vibração divina; e assim como o Som Primordial mantinha a ordem e a harmonia dos Céus, o som audível, em sua forma musical, transmitia o reflexo desta ordem na Terra. Daí também justificar-se a importância dos Mantrams, já que eles são invocações das forças as quais representam. Cada som no mundo físico desperta um som correspondente nos Reinos invisíveis e provoca a ação de alguma força do lado oculto da Natureza.

Cansado muitas vezes dos tratamentos da Medicina atual, onde sente-se freqüentemente como mero número em longas listas  de espera, das que sai, na maioria dos casos, com um receita para estas ou outras pastilhas que curam apenas os sintomas de um mal mais profundo, o homem, hoje em dia, volta seu olhar para trás e busca naquelas terapias do passado, ali onde o homem era plenamente homem, ali onde suas enfermidades eram consideradas com um mau funcionamento de algo dentro do organismo em seu conjunto (o que hoje costumamos chamar de visão holística do homem). Sob este ponto de vista, entende-se que, muitas vezes, uma enfermidade, antes de manifestar-se fisicamente, forma-se nos planos invisíveis, para logo baixar ao mundo material e fazer-se notar, como uma inflamação do fígado, um infarto cardíaco ou uma úlcera estomacal. Aí é onde as chamadas Medicinas Alternativas têm seu grande campo de trabalho e onde a Musicoterapia em particular também encontra sua especial aplicação, porque ela trabalha com elementos que a Medicina ortodoxa, freqüentemente desconhece.

Todo o Universo, para os hindus, está baseado em sons, e se contemplarmos o mundo que nos rodeia, podemos perceber que nele tudo corresponde a ressonâncias, a determinados comprimentos de onda. Assim, também as células do organismo são sensíveis a certos comprimentos de onda, e, portanto, a certos sons. Por isso, entende-se que, por exemplo, a antiga Medicina chinesa teria todo um sistema de correspondências entre as notas da escala musical e os órgãos. O segredo da cura consistia em manter o equilíbrio entre as duas forças complementares da natureza, o “Yin” e o “Yang”, e no caso de enfermidade, em restabelecer novamente a perda de energia vital. Por outro lado, também diziam que cada instrumento musical tinha um efeito determinado sobre o corpo humano, e mais ainda sobre cada órgão em particular, de forma que as flautas estavam especialmente indicadas para curar enfermidades do fígado, os sinos faziam melhorar os pulmões, os tambores eram indicados para os rins, etc.

Sistemas parecidos existem também na Índia, no Japão e em outras culturas da Antigüidade. A Musicoterapia normalmente não era utilizada como terapia única, mas em conjunto com a Acupuntura, massagens, aplicações de ervas e outras técnicas, segundo o lema do médico do Imperador Amarelo, Khipha, que dizia: “O sábio trata as mesmas enfermidades de diversos modos”.

Também os terapeutas de hoje que experimentam estas antigas técnicas seguem o mesmo conceito e costumam combinar distintos métodos, como, por exemplo, a cromoterapia, a hidroterapia ou a oxigenoterapia, junto com a Musicoterapia. Muitas vezes, utiliza-se para este conjunto o nome coletivo de Biomusicoterapias. Chegou-se até a incluir o estudo da Astrologia nestes tratamentos, aproveitando também os antigos conhecimentos sobre correspondências entre notas musicais e signos do zodíaco, elaborando, desta forma, uma tipologia com sua correspondente lista de músicas adequadas para o bem-estar de cada pessoa, a qual todo mundo pode aplicar facilmente em sua casa.

À parte desta vertente passiva da Musicoterapia, que consiste em que o paciente escute programas de Música e se entregue a eles de forma receptiva, existe também outra vertente, que é a Musicoterapia ativa, na qual o paciente intervém tocando ele mesmo os instrumentos musicais. É um método que está sendo aplicado com muito êxito em todo tipo de patologias, neuroses, psicoses e também para terapias de desintoxicação de alcoólicos e drogados. Os instrumentos que se utilizam para estes casos são simples e não requerem conhecimentos musicais prévios, mas permitem a expressão espontânea do que alguém sente. Utiliza-se flautas, xilofones, tambores e outros instrumentos de percussão. Tudo isso incita à expressão do que o paciente vive dentro de si sem necessidade de argumentar sobre o problema e explicá-lo verbalmente. Dá a possibilidade de dramatização pelo som de uma forma lúdica, com o que facilita a descarga de sentimentos reprimidos através da expressão sonora (golpes, gritos, cantos) e leva muitas vezes a uma espécie de catarse, uma liberação de tudo que é inibido e uma abertura da pessoa para novas possibilidades de vivências.

Curar, segundo a mentalidade chinesa, consiste principalmente em eliminar os obstáculos que impedem o fluir da energia, em restabelecer novamente o equilíbrio do homem. Se contemplamos qualquer instrumento musical, por exemplo, um trombeta, podemos observar que esta não soa se existe alguma obstrução em um de seus tubos. Podemos estabelecer um paralelo entre este exemplo e o corpo humano. Muitas vezes, na Antigüidade, o homem foi comparado a um instrumento de sete cordas, como a lira de Apolo. É óbvio que estas cordas somente podem soar bem quando cada uma delas está afinada e em harmonia com as demais. Voltando ao ser humano, ele também, como bom músico, deverá ter seu instrumento bem afinado, o que, traduzido para nosso plano, significa manter sempre uma boa higiene física, psíquica e mental; em resumo: eliminar seus defeitos em todos os diferentes níveis. Isto só se consegue mediante uma formação integral do homem que permita conseguir um equilíbrio entre o Yin e o Yang e um fluir sem obstáculos da energia que há no ser humano. Quando isto realmente for alcançado, não haverá tantos problemas de enfermidades físicas e psíquicas, e o homem será capaz de estabelecer essa harmonia interior que permite que ele expresse seu verdadeiro Ser, e que sua lira de sete cordas soe com a mesma perfeição que a lira de Apolo.

Amigo Livro

A humanidade, em seu esforço para registrar e transmitir os conhecimentos acumulados em sua história, utiliza vários recursos, tais como, símbolos talhados, esculpidos ou pintados em paredes, cerâmicas, papiros, pergaminhos, etc.

As pirâmides, os zigurates e as catedrais impõem-se e desafiam o tempo como extraordinários livros de pedra.

Muitos são os meios utilizados para perpetuar e transportar ao futuro os conhecimentos conquistados. Um destes meios, talvez o que possua maior carisma, charme e encantamento, é o livro.

Os livros nos trouxeram os milenares ensinamentos védicos, os sagrados textos bíblicos, os clássicos versos de Homero e de Hesíodo, os diálogos filosóficos de Platão, as divinas palavras de Buda e as preciosas parábolas de Cristo.

Eles nos permitem fazer um estudo comparado entre as culturas do Oriente e do Ocidente, nos aproximam de Plotino e de Confúcio, de Da Vinci e de Lao Tsé, de Giordano Bruno e de Zoroastro.

Os livros registraram os pensamentos de Marco Aurélio, nos fazem navegar com Ulisses, sair do labirinto com Teseu e entrar no Olimpo com Hércules. Nos fazem voar com o Pequeno Príncipe, remar com os argonautas e combater ao lado de Leônidas.

Um bom livro é um ser alado que nos conduz a um lugar sagrado que, muitas vezes, permanece oculto no interior de nossos corações.

Ele harmoniza os opostos, exalta os justos, eleva nossos pensamentos…

É capaz de calar os insensatos e romper o silêncio de nossas almas.

Ele pode nos fazer sonhar com um Mundo Novo e Melhor e ainda nos ensinar a construí-lo.

Um bom livro nos ensina a amar os Mestres da Humanidade, escutar suas palavras e viver segundo seus princípios.

Íntimo e fiel amigo livro abro para ti meu coração e nele depositas tua essência. Assim travamos harmônicos diálogos, como numa sinfonia dialogam o piano e o violino, conduzidos por um sábio Maestro.

Gerson Rodrigues de Miranda

Ciranda, Brasil! – A Cultura da Brincadeira a Serviço da Paz

Por: Emanuelle Alvaia

“Ciranda cirandinha, vamos todos cirandar, vamos dar a meia volta, volta e meia vamos dar”.

Esta musiquinha que, para os adultos de hoje é tão familiar, para muitas crianças é completamente desconhecida. Isto quem percebeu foi a pesquisadora e Assistente Social Nair Spinelli Lauria, a Nairzinha.

Em sua pesquisa com 513 crianças, Nairzinha observou que, na sua grande maioria, as crianças de hoje estão “erotizadas”, impregnadas pela sociedade de consumo, e sentem-se inadequadas de acordo com os padrões da mídia globalizada. Elas perderam o contato com o corpo e com a natureza, só brincam com aparelhos eletrônicos, vivem presas em apartamentos e são alvo de violência sexual e social. Com o incentivo à solidão dos brinquedos eletrônicos, perdeu-se o sentimento de grupo, o significado da brincadeira, da cantiga e da cultura popular.

O principal motivo de as crianças terem perdido o contato com a brincadeira e com a cantiga é simplesmente a falta de acesso. As crianças não conhecem brincadeiras e cantigas porque ninguém ensinou a elas. O excesso de trabalho, devido à constante criação de falsas necessidades pelo sistema capitalista, que obriga as pessoas a buscarem sempre ganhar mais dinheiro, resultou no afastamento dos pais de seus filhos. Assim, Nairzinha concluiu que “as crianças são as mesmas, nós adultos é que mudamos a maneira de lidar com elas”.

Segundo Nairzinha, “o ser humano é um ser brincante e a brincadeira é a reprodução da vida e dos modelos sociais”. Por isso, Nairzinha criou o Projeto Cirandando Brasil para resgatar a cultura da brincadeira, as cantigas de roda e a identidade cultural do povo brasileiro. Ela rearranjou as cantigas em formatos mais modernos e não teve dificuldade em reunir mil crianças em cada bairro, nos quatro cantos da cidade de Salvador, na Bahia. Lançou CDs e partiu para a capacitação de professores para chegar às crianças mais facilmente.

Nas escolas onde o projeto foi implantado, a violência no recreio diminuiu, as crianças reaprenderam a brincar e, com as brincadeiras coletivas e a competição sadia, reconquistaram a auto-estima.

O projeto envolve artes cênicas, histórias recontadas em forma de peça, literatura oral com histórias da carochinha portuguesa, lendas indígenas e contos africanos, além de muita brincadeira coletiva. O trabalho traz a integração da identidade cultural brasileira, tudo passado pela cultura da brincadeira com o objetivo de que as crianças sejam as porta-vozes no futuro.

O principal objetivo do Cirandando Brasil é contribuir para que a sociedade brasileira não perca a identidade cultural de Povo Brasileiro, a cultura que está adormecida pelo modelo moderno de uma sociedade séria, complexa de competição e solidão. Para Nairzinha, “nós impomos às crianças um modelo que é nosso, mas a criança é naturalmente simples, curiosa e gosta de coisas simples; por isso o projeto é uma grande brincadeira com a sociedade”.

Sobre a Nairzinha

“Quero que cheguem ao futuro os ecos da minha infância”.

Cantora, compositora e pesquisadora do folclore infantil há mais de 30 anos, Nairzinha sempre teve interesse pelo patrimônio imaterial do seu país. Sua infância foi povoada pelos personagens de Monteiro Lobato, por histórias de Pedro Malazartes contadas pela sua babá Dedeca e pelas brincadeiras de roda na Praça da Piedade.

Sua paixão pelo folclore infantil vem da “Hora da Criança”, projeto de arte e educação onde sofreu a influência do Professor Adroaldo Ribeiro Costa e do Maestro Agenor Gomes. Em junho de 1998, recebe da família de Ester Pedreira de Cerqueira (grande pesquisadora do folclore baiano e autora do Folclore Musical da Bahia) seu acervo, com a responsabilidade de devolvê-lo às crianças do Brasil e de dar continuidade ao sonho de Ester.

Sobre o Projeto

O projeto Cirandando Brasil resgata e devolve a cultura da brincadeira brasileira, promove a integração entre as crianças e fortalece a identidade cultural. Além disso, oportuniza a troca de saberes inter-classes e reforça a auto-estima, de forma a ampliar a ciranda mundial em defesa da inocência e da integridade da infância e contribuir para o desenvolvimento de uma Cultura de Paz pela brincadeira.

O programa Cirandando Brasil também nasceu da observação da pesquisadora sobre a brincadeira praticada nos dias de hoje, além da inserção dos valores adultos, que impregnam o ato de brincar. Seu sucesso vem da forma como essa brincadeira é reapresentada às crianças. Sem macular o folclore, preservando a letra, a melodia, a coreografia e a intenção da brincadeira, as velhas e tradicionais cantigas são reapresentadas às crianças, seus pais e professores pelas ferramentas de ação do programa.

As ferramentas empregadas no programa são os CDs Cirandando Brasil, shows com bailes, o livro Cirandando Brasil – Guia Prático para Pais e Professores, capacitações para multiplicadores e o projeto de arte e educação Memória da Brincadeira. Para mais informações, visite o site: http://www.nairzinha.com.br/

Em Busca da Arte – A Última Ceia

Salvador Dalí

Galeria Nacional de Washington

Trata-se de uma grande pintura em óleo, de 166 x 267 cm, na qual o gênio espanhol plasmou uma de suas várias representações religiosas, um dos Cristos que lhe são tão caros. Neste caso, trata-se da última ceia, com uma forte raiz tradicional que se relaciona com o maneirismo renascentista: a composição é puramente clássica, com a disposição das figuras dos apóstolos ao redor da mesa, exceto dois deles, que aparecem diante dela e de costas ao espectador. Além do magnífico estudo dos tecidos, com as dobras das capas, sua função é fechar a cena, não deixá-la aberta para o espectador, quase que negando a entrada à Ceia. Porém, além disso, a linha de suas roupagens e suas cabeças, prolongadas, unem-se ao do Espírito Santo, tão estranhamente representado, formando um triângulo, figura mágica que expressa a parte mais elevada do ser humano.

Esta forma geométrica completa-se com o dodecaedro, símbolo da perfeição celestial, um dos “brinquedos dos deuses”, um dos sólidos platônicos. Sobre ele e através dele, aparece essa proteção divina que abre os braços, e cujo rosto não aparece para o espectador.

A figura de Cristo, um Cristo-Apolo, sem barba, não se senta à mesa, mas emerge das águas, as águas batismais, o renascer, e ante ele, a barca, que é também símbolo da alma que navega nessas águas.

Os apóstolos são homens de qualquer época, mescla de monges e cavalheiros, assemelhados aos templários entorno do graal. Um graal que, aqui, é um copo de cristal, em que não podemos deixar de perceber seu maravilhoso reflexo sobre a toalha.

A paisagem que fecha, as rochas, diz-se que é o Port Lligat, no Cadaqués, lar de Dalí. Mas não podemos assegurar essa informação.

O colorido é discreto, suave, luminoso. Nenhuma só nota discordante. A luz invade tudo, mas é detrás da cabeça do Cristo de onde surge a maior luminosidade, rasante, porque o Sol entra em seu ocaso. Mª Anjos Fernández

As Pirâmides de Güímar

Já é bem conhecido o enigma de que existem pirâmides em distintas partes do mundo, distintos continentes e culturas, com características muito parecidas. O que não é tão conhecido é o fato de existirem pirâmides dentro do território espanhol, concretamente na ilha de Tenerife; tão parecidas com algumas das pirâmides escalonadas que encontramos na América, que qualquer um poderia pensar que estas foram transladadas daquelas remotas terras até as Ilhas Canárias.

O parque etnográfico das Pirâmides de Güímar está situado a 26 km da província de Santa Cruz de Tenerife. As primeiras escavações destas pirâmides foram realizadas no ano de 1991, pelo departamento de arqueologia da Universidade de La Laguna, fazendo um estudo das características arqueoastronômicas destas construções, onde se pôde demonstrar que as Pirâmides estão orientadas aos solstícios de verão e inverno, o que demonstra claramente que seus construtores tinham conhecimentos astronômicos.

A partir deste momento, começaram a aparecer muitas perguntas difíceis de responder: pirâmides escalonadas no Egito, México, Peru… Tenerife! Por que algumas construções tão similares se encontram em culturas tão longínquas entre si? Como é possível que todas estas pirâmides tenham uma orientação determinada do ponto de vista astronômico? Houve contato entre o Antigo e Novo Mundo antes de Colombo? As pirâmides são uma evidência dos paralelos culturais, que se encontram em culturas de todo o mundo? Existiu a mítica Atlântida, da qual nos falava Platão e esta serviu como base cultural para todos estes povos?

O antropólogo norueguês Dr. Thor Heyerdahl (1.914 – 2.002), conhecido internacionalmente por suas aventuras transoceânicas em embarcações pré-históricas, feitas com junco ou com simples balsas de troncos, com as quais realizou as expedições Kon Tiki, Ra, R ll, Tigris, Uru e Mata-rangi; que cruzaram mais de 3.000 milhas através dos oceanos. Em 1947 navegou com a Kon Tiki, do Peru à Polinésia, cobrindo 8.000 km em 101 dias. Em 1969 e 1970 navegou do Marrocos, com a Ra II, alcançando a Ilha de Barbados, depois de 57 dias de navegação. Heyerdahl demonstrou com suas experiências que, tanto o oceano Atlântico como o Pacífico, poderiam ter sido atravessados com as mais antigas formas de embarcações conhecidas.

A similitude das construções destas pirâmides com as da Sicilia, México, Mesopotâmia, Polinésia e Peru animou o investigador norueguês a se deslocar até Tenerife para estudar essas pirâmides.

Existem várias teorias sobre a origem e a antigüidade das pirâmides, mas os estudiosos não concordam entre si, embora pareça que as investigações assinalem às civilizações pré-hispânicas do Tenerife.

Dentro do parque etnográfico, encontramos um museu que oferece ao visitante reproduções de vestígios culturais do Velho e do Novo Mundo, deixando abertas numerosas perguntas sobre os possíveis contatos culturais entre ambas as bordas do Atlântico. Podemos ver representações de homens Barbados, quando se sabe que os habitantes americanos careciam de barba; teorias sobre como as correntes marítimas poderiam ter levado embarcações de um a outro continente, etc. Também conta com um auditório, no qual projetam-se documentários sobre expedições do Heyerdahl e alguns dos mistérios do estudo destas culturas.

Juan Carlos Rodero

As máximas de Ptahotep

Ptahotep é um sábio egípcio que serve como visir do faraó Djedkare-Isesi, da V Dinastia (em 2.500 a. C, aproximadamente). Aos 110 anos de idade, e considerando o final de seus dias, decidiu redigir um ensino que corporizasse todo seu conhecimento e experiência sobre o “dever ser”, depois de uma vida inteira de serviço ao Faraó e ao Egito. É um “manual” prático sobre a reta atitude e conduta, para filósofos, escribas e governantes. Um tratado de cortesia com os outros, e o que não é menos importante, consigo mesmo e com a vida. Esta obra foi considerada um clássico durante toda a história do Egito, clássico que os escribas copiaram uma e outra vez. Um livro como a Eneida de Virgílio, a Ilíada de Homero ou os Analectos de Confúcio. É milagroso que tenha sobrevivido à destruição sistemática do patrimônio egípcio por mais de 1.600 anos, e mais milagroso ainda, que se conserve um exemplar completo da obra, o Papiro Prise. Papiro que despertou de um sonho de milênios, graças ao engenheiro e pintor Prise d`Avennes (1807-1879), apaixonado pela arte egípcia, que o adquiriu em Tebas.

É um texto que pertence à chamada “literatura sapiencial”. No prólogo se anuncia que é “ensino, sabedoria”. Trata-se de um gênero literário em que os Grandes (Visires, Sacerdotes, Faraós…quer dizer, Iniciados) redigiam ”uma “sabedoria” a seu sucessor, a fim de facilitar sua tarefa e evitar enganos; grandes pensadores, que são sempre homens de experiência e com os pés na terra, e não intelectuais encerrados nas teorias e análise do real, compartilham o mesmo dever”(1). A palavra designada é sebait, que se escreve com um hieróglifo representado por uma estrela, “pois trata de esclarecer o espírito do leitor com uma luz de origem celeste”(2). A raiz egípcia seba, que possivelmente tenha dado origem ao sophos grego, ou ao sabeo caldeu, e inclusive ao sábio lusitano e castelhano, é indicativa das noções de “porta”, “luz” e “ensino”. Porque a sabedoria é uma porta que permite acessar o invisível, a essência e a alma da natureza. Porque é luz que ilumina o caminho da alma e os caminhos da vida. E porque os ditados da sabedoria são a alma dos ditados da vida; não são um ensino mais, são O ENSINO, tal e como expressou o inspirador do livro “Folhas do Jardim Morya”:

A imagem que representa este termo egípcio, seba, é uma porta detrás da qual se acha uma estrela de cinco pontas, símbolo de Sírio. Uma imagem plena de evocações poéticas e intuitivas.

O Papiro Prise se apresenta sob a forma de um tríptico: prólogo, trinta e sete máximas e um longo epílogo. A primeira linha de cada máxima está acha escrita em tinta vermelha, quer dizer, rubricada, para determinar bem a passage para outro tema. Depois do prólogo, indica-se o verdadeiro título do livro, que Christian Jacq traduz como “Máximas da Palavra Cumprida”, título que em hieróglifo é, em si mesmo, motivo de um discurso filosófico(3).

Destas 50 lições de vida (cada uma das máximas do livro) escolhemos uns fragmentos que, esperamos, convertam-se em jóias alquímicas que encham de luz e calor sua mente e seu coração:

Se és um chefe destinado a dar diretrizes para muitos, busca cada oportunidade para ser eficaz, para que assim seu governo seja impecável. Luminosa é a Regra (MAAT), duradoura sua eficácia; ela não foi perturbada desde os tempos de Osíris.

Ainda quando tudo chega ao seu fim, o Ideal permanece,

Nada cobice, proponha-te a viver em paz com aquilo que tens e os dons de Deus chegarão naturalmente.

Não fale mal de ninguém, seja ele grande ou pequeno. Fazer isto é uma abominação da tua própria energia criadora (ka).

Deus faz crescer a alma de quem se encontra em íntima solidão.

Segue teu coração durante toda a tua vida, acha sempre a justa medida. Não diminua o tempo e a vida que pertence ao teu coração.

Um discípulo pertence à semente de sua própria energia espiritual. Não separes dele seu coração.

Aquele a quem os deuses guiam não pode se extraviar, aquele a quem privam o barco não poderá atravessar o rio da vida.

Se és poderoso, atua de modo que sejas respeitado em função de teu conhecimento, tua experiência e serenidade de tua linguagem. Não dê ordens mais do que quando for necessário.

Não repitas um rumor maledicente, não o escutes. É a maneira de expressar-se de quem se acha fora de si pela paixão, a exaltação e a ignorância. Se for necessário, diga o que viste, mais que o que escutaste. Que o rumor maledicente seja arrojado à terra, não dele fale absolutamente. Assim, quem está diante de ti reconhecerá tua qualidade humana.

Notas:

1- Christian Jack, em sua introdução a L’ Enseignement du sage égyptien Ptahhotep. Editions A Maison de Sex.

2- A mesma obra citada.

3- Tjes medet neferet. Tjes, e que aqui se traduz como “máximas” vem de uma raiz que significa “ligar, atar, aderir, tecer”, mas também “levantar, elevar” e, como indica Christian Jacq, em certos contextos, “ordenar, mandar as tropas”. Dito termo é usado para designar as palavras de poder, as ordens divinas, as expressões mágicas que ligam o céu com a terra (algo assim como o conceito grego primitivo de logoi e cujo significado profundo é o das harmonias ou energies – Fohat- que expressam o Pensamento Divino na natureza em forma de leis, e “caminhos de ação”). O hieróglifo que se usa para escrever este termo é uma cauda de andorinha, freqüentemente impressa nas pedras dos templos, a fim de uni-las magicamente entre si, e de acordo aos Logotipos ou Idéia que lhe serve de matriz e guia.

O termo “medet” se traduz como palavra e está associado a medou, “fortificação”, pois as palavras são as fortificações divinas, em que a alma se sustenta para avançar nos caminhos invisíveis de sua natureza mental.

“Neferet” significa “bela, perfeita, cumprida, musical, voz do coração”. Significa que o livro quer ser uma obra de arte de acordo à beleza, luminosa para tornar luminosos a quem a leia e vivam seus ensinos. Perfeita de acordo à ordem, justiça e medida do MAAT.

Este Ideal é Maat, quer dizer, a harmonia universal.

José Carlos Fernández

A Renascença Suméria

Algo que pode ser observado no presente momento histórico é uma natural admiração pelas antigas civilizações, que faz alguns anos, tem tomado força e se reflete nos vários romances e filmes de contexto históricos. Trata-se de uma admiração inspiradora que pode levar as pessoas a sonhar e trabalhar em prol de um mundo novo, um mundo onde grandes mestres possam governar com sua sabedoria, guiando-nos para as margens do desenvolvimento humano e fazendo-nos adentrar em nossa própria espiritualidade.

Mas estudando a história, nos deparamos, às vezes, com momentos de decadência, onde estas grandes civilizações começam a ruir, e toda sua cultura começa a ser esquecida ou destruída. Aprendemos então que a história, ao contrário do que se ensinou por muito tempo, é cíclica e passa por altos e baixos, momentos de ouro e de ferro, luz e trevas numa constante que parece nunca variar.

Talvez por proximidade histórica, a Idade Média, seja um dos momentos de decadência que nos parece mais vivo e que trouxe até nossa época inúmeras influências.

O estudo da tentativa de nossos antepassados em fazer reviver a cultura clássica torna-se então uma de nossas preferências, e o que conhecemos como Renascimento Italiano, passa a ser um referencial, onde começamos a beber não só dos elementos culturais dessa época, mas também dos elementos filosóficos e mágicos que ali surgiram.

Porém, em pesquisas sobre as civilizações antigas, na busca por culturas ricas, por culturas que tenham tido alguma influência relevante na história da humanidade, é natural esbarrarmos com uma civilização intitulada hoje Suméria, considerada por muitos como a primeira civilização.

Mãe e senhora do que conhecemos como Mesopotâmia, esta civilização possui algo muito importante para nos ensinar. Que os ciclos históricos existem não temos dúvidas, mas como a história se repete, como estes ciclos se interpõem, isso é algo que só podemos aprender com o tempo.

Com certeza o grande fascínio da Suméria não está apenas na importância de seus inventos nem em sua posição de mãe das civilizações. Mais que isso, a verdadeira fascinação por esta civilização surge justamente ao saber que há mais de quatro mil anos existiram ao sul da Mesopotâmia, personagens, que numa época de decadência, fomentaram um resgate cultural, dando origem a um movimento renascentista, cujos moldes se assemelham, de forma quase idêntica, ao nosso Renascimento europeu.

Pequena Introdução à História da Suméria

A Suméria (em sua língua nativa Ki En Gir) é considerada uma das primeiras civilizações da humanidade, senão a primeira, logicamente considerando-se a historiografia atual, que pouco fala sobre civilizações anteriores à mesopotâmica. Floresceu onde hoje se localiza o Iraque, ao sul da Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates, próximo ao Golfo Pérsico.

De acordo com as evidências arqueológicas, a Suméria teve sua origem cerca de cinco mil anos antes de Cristo. Entre 3.500 e 3.000 a.C. houve um florescimento cultural muito grande e esta civilização passou a exercer influências nas culturas circundantes, culminando na dinastia Acádia, fundada aproximadamente em 2.340 a.C. por Sargo ou Sargão I.

Em 2.000 a.C., a Suméria começou a entrar em declínio, sendo absorvida pela Babilônia e pela Assíria.

Um pouco mais de história

O nome Sumério foi adotado posteriormente pelos acádios, em lugar do termo com o qual se autodenominavam os sumérios: sag-gi-ga, que significa “o povo de cabeças negras”. O nome de sua terra era Ki-en-gi, e significa “o lugar dos senhores civilizados”.

Donos de uma língua, cultura e aparência próprias, os povos que deram origem à Suméria parecem então não ser autóctones, mas uma corrente de migração, que os historiadores até hoje não conseguiram compreender de onde surgiu e em qual momento esses eventos ocorreram.

Os momentos da decadência

Um dos momentos de maior esplendor da Suméria foi justamente o período da dinastia acádia, fundada por Sargão. Naram-Sin, um de seus netos, vai ser o herdeiro do trono em um momento de guerras e invasões. Quando Naram-Sin morre, o império está ameaçado de todos os lados, mas o seu reinado de 37 anos tinha lhe permitido firmar um estilo novo de existência para toda a Mesopotâmia.

Sharkali-Shari, seu filho, vai tentar continuar a obra do pai, mas a pressão era tal nas fronteiras orientais que ele teve que aceitar a secessão do Elam. A campanha contra os Elamitas acabava de terminar quando graves desordens irromperam de uma ponta a outra do império. Tribos nômades amoritas, surgidas dos desertos da Siria, assolavam as províncias ocidentais. Sharkali-Shari repeliu-as para além da montanha de Bishri, depois de ter exterminado um grande número na batalha de Basar. Mas apenas extinta esta fogueira ocidental, o soberano era de novo constrangido a correr à outra fronteira, a do nordeste, para socorrer o seu governador: os gutis multiplicavam as incursões devastadoras. Sharkali-Shari conseguiu duas vitórias sobre os inimigos e fez prisioneiro um rei do Gutium. Mas as invasões bárbaras multiplicaram-se e os gutis dominaram a Mesopotâmia.

Por volta de 2.120, os gutis não representavam a força devastadora que encarnavam um século antes, tinham se fundido na população conquistada, a ponto de seu rei não ter mais que um poder nominal.

Foi o momento em que um soberano de Uruk, Utu-Heal (2123-2113), digno continuador de Eanatum, escolheu para brandir a bandeira mesopotâmica e expulsar o ocupante. Atacou o rei guti Tirigan e infligiu-lhe uma memorável derrota, levando-o prisioneiro para Uruk, em festa.

A Renascença Suméria

Alguns anos antes da expulsão dos gutis, uma cidade gozava curiosamente de um status especial: Lagash. No momento em que se extinguia a realeza em Acad e enquanto outras cidades ainda gemiam sob o julgo guti, Lagash mantinha relações comerciais longínquas e aparentemente sem obstáculos.

Foi em 2.155 que o fundador de uma nova dinastia subiu ao poder nesta cidade. Chamava-se Ur-Bawa. Nas inscrições que se encontram dele, ressalta-se que utilizava o título de príncipe e não de rei e que se entregava exclusivamente à construção de templos. Estas duas características serão encontradas também nos seus sucessores. Estaríamos então na presença de uma dinastia de ensis, quer dizer, sacerdotes administradores pouco atraídos pela guerra e pelas conquistas.

Três genros de Ur-Bawa lhe sucederam: Urgar, Nammahni e sobretudo Gudéia (2141-2122), um dos príncipes mais renomados da Suméria.

Como os seus predecessores, Gudéia teve uma atividade militar reduzida, uma única expedição punitiva aos Elamitas. Conta um escriba da época que Gudéia teve um sonho com o deus Ningursu, o deus águia, e este lhe teria dado a ordem de reconstruir o seu templo. Gudéia não poupou esforços para cumprir a ordem divina. Lançou seus negociantes aos quatro cantos do mundo para comprar madeira de cedro e pedras para construção, ouro, cobre, diorito e outras matérias preciosas, bem como para recrutar mão de obra.

O curioso é perceber que enquanto outras cidades sumérias se levantavam das penosas cobranças gutis, Lagash transbordava riquezas. Estas riquezas foram usadas exclusivamente para fins religiosos, e servindo aos deuses, os chefes de Lagash deram ocasião aos seus artistas para levarem a arte suméria a um nível jamais atingido até então e que vai provocar, num movimento cultural sem procedentes, o que se chama a Renascença Suméria.

Gudéia vai ser lembrado então como um príncipe santo ou iluminado, que provocou e continua provocando nas pessoas, no mínimo, um sentimento de simpatia. Algumas inscrições da época nos remetem a isso:

“Como um jovem que renova a sua casa, ele não pensava em nenhum outro prazer, como uma vaca que volta os olhos para seu bezerro, ele dedicava todo o seu amor ao seu templo; como um homem ocupado, ele nunca se cansava de ir e vir”…

“Gudéia fez brilhar o templo de Ningursu como o Sol no meio das estrelas. Tal como uma montanha de lapis-lazuli ele o construiu; tal como uma montanha de mármore brilhante ele o entregou aos olhares da admiração…”

Outros textos nos remeterão ao senso de justiça que possuía Gudéia, bem como a diversos atributos e qualidades.

Depois de Gudéia, o seu filho Ur-Ninirsu, e depois o seu neto Pirig-Me, continuaram a obra. Mas não por muito tempo. Uma expedição elamita por volta de 2.100 destruiu para sempre a cidade de Lagash de tal forma que, quatro milênios depois, os pesquisadores caíram imediatamente sobre a camada gudeiana: ninguém nunca tentou erguer as ruínas…

A Renascença Suméria iniciada em Lagash aparece-nos como o pressentimento que teriam tido os sumérios de seu fim próximo. O povo da baixa Mesopotâmia não parece animado por outra paixão que não seja ressuscitar o seu antigo esplendor. Conseguirão, mas não saberão salvaguardar de forma durável a sua nova independência, face aos inimigos de sempre: os Elamitas do leste e os nômades do oeste.

Gudéia, um Verdadeiro Mecenas

Se o período sargônico foi pobre na grande estatuária, o que se seguiu à invasão gutia revela-se de uma excepcional riqueza: a Renascença Suméria sob a III dinastia de Ur levou, tanto as realizações arquitetônicas, quanto a arte escultórica, a um nível jamais atingido…

Mas a riqueza da estatuária terá sido praticamente toda devida a um só homem, do qual já falamos: Gudéia. Este soberano foi um apaixonado por estátuas, mandando esculpir um grande número delas para os templos e palácios. No total, a sua coleção não conta menos de 30 grandes estátuas de uma realização inigualável. É em Lagash, entre 2050 e 2030 que a arte mesopotâmica, depois de um milênio de buscas, atingiu sua plena força de expressão. Com o recuo do tempo tem-se a impressão de que todos os esforços das gerações anteriores tenderam para um único fim: permitir aos geniais mestres de Lagash fazer explodir os limites da Arte.

As estátuas de Gudéia foram executadas em diorito verde escuro, ou algumas vezes em dolerito, ambas pedras muito duras. Inspirados por um fervor religioso forte e simples, os cinzéis souberam conferir uma majestade serena. Ficamos confundidos diante da sua segurança de traço.

Quer esteja representado de pé ou sentado, Gudéia tem sempre, exceto uma vez, as mãos unidas num gesto de adoração e de oração, cuja intensidade é tal que, apesar das destruições, o gesto das mãos servem para sugerir uma devoção e uma humildade desarmadoras.

Homem de paz e de fé, tal foi esse mecenas, cujo gosto requintado e paixão pelo retrato tornaram possíveis essa arte perfeita, há mais de quatro mil anos.

Não seria difícil fazer mais descrições sobre Gudéia e seu renascimento, mas apenas descrições, pois os fatos históricos escapam por entre nossos dedos, fazendo com que a maior parte do que possamos compreender sobre esse príncipe e sua época, fiquem à mercê de nossa imaginação, ou de nossa intuição.

Símbolos, como o caduceu de Mercúrio, foram encontrados nas taças de sacrifício de Gudéia, bem como outros símbolos e deuses, que não são de um império nem de outro, mas da humanidade…

O que nos ensina Gudéia e todos os senhores de Lagash? O que podemos aprender com estes tão antigos personagens? Com certeza, há muito que aprender. Principalmente, quando nos remetemos aos nossos conceitos de cultura e de civilização. Um império é fruto de um processo histórico e em sua decadência há sempre um renascimento, uma tentativa de resgatar e manter a cultura, de projetá-la para o futuro. Os mestres europeus cumpriram seu papel no Renascimento, que tão bem conhecemos. Os mestres de Lagash também cumpriram seu papel. Também nós cumpriremos o nosso, revivendo a cultura e os valores e projetando-nos ao futuro? É o mínimo que podemos fazer.

Em algum lugar desse Universo, o brilho do olhar de Gudéia, e de todos os seus seguidores, nos inspira a mais uma vez vivermos o Renascimento!

O Labirinto

Délia Steinberg Guzmán

Muitas vezes, expõem-se as diferenças que existem entre o que é Mito e o que é História. Aceitamos facilmente como História todos aqueles fatos que têm uma data, que aconteceram em algum lugar determinado da Terra e que se referem a personagens conhecidos; enfim, fatos relevantes nos quais podemos crer porque provêm de historiadores dignos de fé. Por outro lado, falamos de Mitos como de relatos muito mais fantásticos, imprecisos no tempo, difíceis de definir e atribuídos não mais a personagens históricos e reais, mas a personagens fabulosos que, geralmente, não se sabe sequer se existiram.

No caso do Labirinto, encontramo-nos justamente com um Mito, com um relato de fatos e personagens que são, acima de tudo, simbólicos ou que, pelo menos, a História dificilmente aceita como reais, e sim em um sentido figurado.

Pensamos que todo mito, todo acontecimento figurado, todo relato simbólico, no fundo, apóia-se sobre alguma realidade, ainda que, às vezes, não possamos chamá-la de histórica. O Mito é verdadeiro como referência a realidades psicológicas, a vivências humanas, a processos e formas que se refletem, cobertos de símbolos, e começam a circular, através do tempo, entre os homens, chegando a nós, que devemos ter o trabalho de desvelá-los, ou seja, retirar seus véus e voltar a encontrar o sentido oculto e profundo das coisas.

O Mito do Labirinto é antiquíssimo e, atrevo-me a dizer, é comum a todas as antigas civilizações, nas quais se explica que o labirinto é uma passagem difícil de percorrer, confusa, que faz o homem se perder em caminhos complicados. Às vezes, mescla-se o relato de algum homem fantástico, algum herói ou personagem mítico que desfaz o labirinto e encontra a chave que, finalmente, leva-o à solução desse enigma que lhe é colocado em forma de caminho.

Quando falamos de labirintos, o mais conhecido, o que melhor chegou até nós através da mitologia grega, tão acessível, tão simples, em forma de relatos praticamente infantis, é o labirinto de Creta. Não vou referir-me a esse labirinto tal como relata a mitologia mais conhecida, mas remontaremos um pouco mais no tempo em busca daqueles elementos, que puderam ser encontrados, graças aos últimos descobrimentos arqueológicos em Creta, para ver o que realmente os cretenses adoravam e em que fundamentaram seu labirinto. Veremos, então, que o relato já não é tão infantil e torna-se cada vez mais complexo e simbólico.

Para começar, um velho símbolo cretense, que se referia à sua máxima deidade, era o Machado de Duplo Fio, que também podia ser simbolizado por um par de cornos, com um deles voltado para cima e o outro para baixo, os quais, unidos, conformavam, precisamente, um Machado de Duplo Fio, velho símbolo que se refere a uma deidade com um culto muito forte em Creta: o Touro Sagrado. Esse Machado recebia o nome de Labris e, segundo uma tradição muito antiga, foi a arma com que um deus, o qual os gregos viriam a chamar de Ares-Dionísio, abriu o Primeiro Labirinto.

Eis aqui o relato: conta-se que esse Ares-Dionísio, deus muito antigo, dos primeiros tempos, desce à terra. Não há nada criado ou plasmado; há apenas escuridão, apenas trevas. Mas, das alturas é outorgado a esse Ares-Dionísio uma arma, o Labris, e diz-se que, com ela, ele deve forjar o mundo.

Ares-Dionísio, em meio a essas trevas, começa a marchar em forma circular. Isso é muito curioso, porque a ciência atual descobriu que, geralmente, quando estamos na escuridão e não conhecemos o recinto no qual nos encontramos, ou quando queremos sair de um lugar grande, sem luz, a primeira tendência que temos é a de caminhar em círculo; quando nos perdemos, a primeira tendência que temos também é a de caminhar em círculo.

Fizemos essas associações porque queríamos, desde o começo, relacionar o sentido do Labirinto com certos atavismos que ainda hoje guardamos, como seres humanos que somos. Eis que Ares-Dionísio começa a caminhar em círculos e, com seu machado, vai rompendo a escuridão e abrindo uma fresta. Este caminho que ele abre e que se vai iluminando paulatinamente, chamamos de Labirinto, ou seja, o caminho aberto com o Labris.

Quando Ares-Dionísio, depois de muito trabalho, chega ao verdadeiro centro de seu Caminho, descobre que já não tem o machado do início. Agora, seu machado converteu-se em pura luz; o que tem em suas mãos é uma chama, uma tocha que ilumina perfeitamente, porque ele realizou um duplo milagre: trabalhou sobre a escuridão, do lado de fora, com um fio de seu machado, e trabalhou sua própria escuridão interior com o outro fio do machado. À medida que conquistou a luz do lado de fora, conquistou-a também dentro de si; à medida que abriu passagem por fora, abriu-a também por dentro.

Assim, quando chega ao centro do labirinto, encontra o centro do caminho: conquistou a luz e conquistou a si mesmo. Essa é a mais antiga tradição que se pode recolher, em Creta, sobre o mito do Labirinto. A partir daí, as demais são muito mais conhecidas.

Muito conhecido por todos nós é o episódio do fantástico labirinto elaborado por Dédalo, arquiteto e inventor prodigioso da Creta antiga, cujo nome costuma-se utilizar como sinônimo de Labirinto.

Recordando o velho idioma dos gregos, Dédalo ou Dáctil, como é chamado em outras oportunidades, é aquele que faz, que trabalha com os dedos, aquele que constrói. Seu símbolo é o do construtor, não mais de um conjunto de palácios ou jardins, como era o labirinto do Rei Minos, mas em um sentido ainda mais profundo e distante, talvez semelhante àquele primeiro deus, que constrói, nas trevas, um Labirinto de Luz.

Diz-se que, na realidade, o labirinto de Dédalo não era uma casa subterrânea, escura ou tortuosa, e sim um conjunto de casas, palácios e jardins traçados de tal forma que quem entrava não encontrava a saída. O problema não era que o labirinto fosse horroroso, e sim que não se podia sair dali.

Dédalo construiu esse Labirinto para o Rei Minos, de Creta, um personagem quase legendário, cujo nome nos permite aparentá-lo com tradições muito antigas de todos os povos dessa época.

Minos habitava um fantástico palácio, tinha uma esposa, Pasifae, que vai ser quem gestará todo o drama relativo ao Labirinto.

Para chegar a ser rei, Minos contou com a ajuda de outro poderoso deus, o do Oceano e das Águas, Poseidon. Para que Minos se sentisse seguro de seu trono entre os homens, Poseidon realizou um prodígio: dentre as águas, em meio às espumas do mar, faz surgir fantasticamente um touro branco, como um presente, que concede a esse Rei das ilhas de Creta. Isso significa que Minos é efetivamente o Rei.

Mas eis que, conforme a mitologia grega nos relata, a esposa de Minos enamora-se perdidamente por esse touro branco, que se torna o único ser pelo qual ela anseia e o qual deseja, e como não encontra uma forma de aproximar-se dele, pede a Dédalo, o grande construtor, outro favor: que fabrique uma enorme vaca de bronze, bela e atrativa o suficiente para que o touro se sentisse inclinado por ela, e Pasifae esconde-se dentro do animal.

A tragédia é enorme: Dédalo constrói a vaca, Pasifae esconde-se, o touro aproxima-se dela e, dessa estranhíssima união entre uma mulher e um touro branco, surgirá uma besta, metade homem, metade touro: o Minotauro. Esse monstro irá residir no centro do Labirinto, o qual, a partir de agora, se transformará; não será mais um conjunto de jardins e palácios, e sim um lugar tétrico, aterrador e doloroso: a recordação perpétua do drama do Rei de Creta.

Em outras antigas tradições, além dessa de Creta, encontramos uma explicação um pouco menos simplista para o drama de Pasifae e do Touro Branco.

Descobrimos, por exemplo, nos relatos da antiga América pré-colombiana e na Índia, alusões a que, num determinado momento da evolução humana, há milhões de anos, segundo nos dizem, houve um momento em que os homens se confundiram e mesclaram-se com os animais. Dessa aberração e ruptura das leis da Natureza, surgiram verdadeiros monstros, seres híbridos, estranhíssimos de se definir. Não se tratava somente de que trouxessem em si a maldade, como no caso do Minotauro, mas traziam também a vergonha de uma união que jamais deveria ter se realizado, e a vergonha do segredo que não deveria ser revelado jamais, depois que se pudesse apagar esse episódio da memória dos homens.

Assim, a relação de Pasifae com o Touro, e o nascimento do Minotauro faz, de certo modo, referência a essas antigas raças e aos velhos processos que se ocultaram da memória humana em um determinado momento.

Por outro lado, o monstro, o Minotauro, representa a matéria cega e informe, sem inteligência nem direção, encerrada no centro do Labirinto, esperando as vítimas propiciatórias.

A lenda continua, e com o correr dos anos, o Minotauro, dentro de seu Labirinto, converte-se num verdadeiro elemento de terror. O rei de Creta, por questões de guerra, cobra dos atenienses um espantoso tributo: a cada nove anos, eles têm de enviar sete rapazes e sete donzelas virgens para o Minotauro. Na terceira vez, levanta-se um herói em Atenas, um ateniense por excelência: Teseu. Ele promete a si mesmo que não assumirá o reino de sua cidade enquanto não puder libertá-la de semelhante castigo, ou seja, enquanto não puder matar o Minotauro.

Teseu indica a si mesmo para ir entre os jovens que serão sacrificados; chega a Creta e, com a clássica estratégia de namorar a filha de Minos, Ariadne, consegue que esta lhe entregue um novelo de lã para que penetre no Labirinto e, após matar o Minotauro, encontre a saída. Efetivamente, o novelo é fundamental: Teseu entra e vai desenrolando-o à medida que penetra nos intrincados caminhos. Quando chega ao centro, com sua descomunal força e vontade, mata o Minotauro e consegue sair.

Se lermos nas versões simples e corriqueiras, Teseu mata o Minotauro com uma espada ou, algumas vezes, com um punhal. Mas se nos remetermos aos mais velhos relatos e às figuras que encontramos em antigos vasos áticos, Teseu mata o Minotauro com um machado de duplo fio. Uma vez mais, o herói, que abriu caminho em meio ao Labirinto, quando chega ao centro, realiza o prodígio necessário com a ajuda de um Labris, ou seja, com um machado duplo.

Há um mistério a mais para ser elucidado, ainda: o que Ariadne entrega a Teseu não é exatamente um novelo, mas um fuso envolvido por um fio. Este fuso é o que Teseu irá desenrolar à medida que penetra no interior do Labirinto. Mas quando Teseu sai e começa a recolher seu fio, enrolando-o novamente, vai torná-lo perfeitamente circular. Agora, sim, trata-se de uma esfera, de um novelo. Esse símbolo também não é novo; o fuso envolvido com o qual Teseu penetra no Labirinto é a imperfeição de seu ser interior que necessita desenvolver-se, passar por uma série de provas. A esfera que constrói ao recolher o fio é a perfeição conquistada após ter matado o Minotauro, após ter passado pela prova e saído novamente ao exterior.

Labirintos, houve muitos, e Teseus também. Em toda a zona do Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, e em toda a Galícia, existem infinidades de gravações em pedra, antiquíssimas, com labirintos desenhados, repetidos sistematicamente, como se fossem um sinal,  uma marca que atrai, também, o peregrino do Caminho de Santiago e o induz a percorrer esse caminho, o qual, embora para nós, apresente-se como sendo reto, quanto ao seu sentido simbólico e de realização espiritual, é também um labirinto.

Labirintos encontram-se na Inglaterra, no famoso castelo de Tintagel, onde se diz que nasceu o Rei Arthur. Também os encontramos na Índia, onde foram tomados como símbolo da meditação, da concentração, do retorno sobre o próprio eixo.

No antigo Egito, na cidade de Abydos, tão antiga que quase se entronca com a história pré-dinástica do Egito, existia um labirinto que se chamava “Caracol”; era o Caracol de Abydos; precisamente, um templo circular, em cujos caminhos eram celebradas as cerimônias relativas ao tempo, à evolução, aos muitos caminhos que o homem teria que percorrer até encontrar-se com o centro, que é, na realidade, o próprio homem.

Inclusive, referindo-se ao Egito, esse Caracol de Abydos parece ter sido nada mais que a parte infinitesimal de outro enorme labirinto, ao qual faz referência Heródoto, dizendo que o labirinto egípcio era tão grande, tão tremendo, tão maravilhoso e tão fantástico que a Grande Pirâmide ficava obscurecida ao seu lado.

Hoje, não o encontramos e só nos restam os dados de Heródoto. Como de costume, os homens, depois de haverem chamado Heródoto, durante muitos anos, de “O Pai da História”, “Heródoto, o Veraz” e outras coisas do gênero, como nem tudo que ele menciona foi encontrado, afirmam, hoje, que ele não estava muito seguro do que dizia. A questão é que tantas coisas estão surgindo que, talvez, valha a pena ter paciência e ver se não aparece também aquele labirinto que mencionava o historiador grego.

Na Idade Média, nas catedrais góticas, tampouco faltavam labirintos. Um dos mais famosos e que costuma estar representado em todas as ilustrações, é o labirinto de Chartres, desenhado nas lajes do pavimento da grande catedral, esse labirinto não foi feio para se perder nele, mas para ser percorrido, numa espécie de Caminho Iniciático, de realização e de conquistas, que o candidato, o discípulo, aquele que pretende ter acesso aos Mistérios, o atravesse.

É dificílimo perder-se no labirinto de Chartres; os caminhos estão perfeitamente assinalados, as curvas e os trajetos estão à vista, mas o mais importante é chegar ao centro, à pedra quadrada onde os cravos marcam as distintas constelações e onde o homem, de uma maneira alegórica, chega aos céus e incrusta-se entre as deidades.

Provavelmente, todos esses Mitos da Antiguidade, e ainda dos labirintos simbólicos, que eram traçados nas catedrais não obedeciam tanto a uma realidade histórica, mas talvez, a uma realidade psicológica. A realidade psicológica do labirinto está tão viva hoje, como esteve sempre. Se, na Antiguidade, falávamos de um labirinto de iniciação, que é o caminho pelo qual o homem pode realizar-se à medida que o percorre, assim também, hoje em dia, devemos falar de um labirinto que se traduz de forma material e de forma psicológica.

De forma material, não há que buscar muito: todo mundo que nos rodeia, tudo aquilo em que estamos imersos, onde vivemos e nos desenvolvemos, constitui um labirinto. O que ocorre é que, nem os que penetravam nos jardins de Creta se davam conta de que entravam no labirinto, nem nós, quando estamos em nosso mundo circundante, somos conscientes de estar em um deles.

Não obstante, os jardins cretenses o eram, assim como nosso mundo circundante também é  um labirinto, o qual costuma nos confundir. Psicologicamente, a angústia de um Teseu que buscava o Minotauro para matá-lo é também a angústia do homem que teme e que está desconcertado.

Fica claro que o Mito nos oferece uma solução. Teseu não entra com as mãos vazias no Labirinto; tampouco é lógico que resolvamos o problema de nosso labirinto com as mãos vazias. Teseu leva duas coisas: um machado (ou uma espada, como se queira) para matar o monstro e um fuso envolvido num fio, seu novelo, para encontrar o caminho. Vamos traduzir um pouco isso para nossa linguagem.

O machado ou a espada foi sempre símbolo da vontade. Quantas tradições medievais falam ainda sobre a espada cravada na pedra que só o homem de vontade forte pode retirar! O que significa esse retirar a espada da pedra? É a vontade que extrai o vertical da matéria, que é horizontal, ou seja, uma das armas fundamentais que necessitamos para abrir os caminhos no labirinto é a Vontade, a força de vontade.

Outra arma importantíssima é o fio, a astúcia do fio que vai desenrolar-se pelos caminhos para encontrar o regresso. Esse fio é a perseverança e, diríamos mais, é a memória. Por que se estende os fios pelos caminhos do labirinto? Porque nós estamos impossibilitados de recordar por onde caminhamos, por onde vamos, com que obstáculos tropeçamos e por onde podemos sair. Não podendo recordá-lo, utilizamos o sortilégio do fio, o qual voltaremos a encontrar e que nos indicará o caminho de volta. É a possibilidade labiríntica de não repetir os mesmos erros, de reconhecer aqueles lugares pelos quais fomos passando durante nossa evolução e de saber quais são os caminhos que nos restam para percorrer e como devemos fazê-lo.

Para os gregos, Ariadne é a alma, que no momento justo, quando Teseu está mais desesperado, entrega-lhe uma resposta e uma saída, uma chave, uma solução. Isso, que vibra, que vive e que nos proporciona as soluções no momento justo, isso é Ariadne, a Alma, a salvadora que aparece oportunamente e que nos dá a solução para resolvermos nosso problema.

O Minotauro é o excesso de materialismo, é a matéria que cresce, que perturba e que toma tudo para si. É esse excesso de matéria que se deve destruir, antes que ele destrua o Teseu que penetra no labirinto.

Quando se toma consciência do labirinto, quando se penetra nele, tanto nós quanto o Teseu da mitologia grega, tem que se conscientizar também da importância de encontrar a saída. Aquele que a encontra, destrói o labirinto.

Entretanto, tem que se levar em conta que a saída do labirinto não está fora; a saída do labirinto está exatamente no centro, em seu coração. Aquele que penetra no labirinto e, percebendo seus becos e tortuosidades, sente medo e foge, aquele que pretende escapar pelas laterais, pular fora ou somente farejar superficialmente, não resolve o labirinto. Temos que fazer verdadeiramente como Teseu: introduzir-se, caminhar, chegar ao próprio centro. No centro está a saída, e não fora; temos que ter a valentia de um Teseu para enfrentar os monstros.

Certamente, é muito difícil que apareça diante de nós esse elemento pré-histórico, metade homem, metade touro. Mas encontramos monstros diários que temos que enfrentar e com os quais devemos travar batalhas, se é que nos atrevemos. Dúvidas, preocupações, rancores, temores, inseguranças que, ainda que não tenham corpos físicos, vivem em nós e têm tentáculos tão poderosos quanto os do Minotauro de Creta. Temos que saber enfrentá-los com as armas da Vontade, da Inteligência e da Memória.

Dizem os antigos que o labirinto não era percorrido de qualquer forma, que a maneira ideal para percorrê-lo era dançando ou realizando passos de tal forma que descrevessem figuras no solo e no espaço, figuras rituais e mágicas. Nós, de alguma forma, deveríamos dançar ao longo da vida, chamando assim o processo de evolução.

Se conseguirmos que cada um de nossos passos não se desenvolva somente em seu labirinto horizontal, mas que, pelo contrário, esteja em um escalão superior, um ponto mais acima, teremos realizado essa estranha e misteriosa dança, que é a evolução, e teremos aprendido a dar esses passos justos e medidos, esses que não se dá de qualquer maneira ou em qualquer lugar, mas que são os “passos do caminho”.

Em todos nós, reside, também, o trabalho de despertar Teseu, dar-lhe vida, trazer esse herói à luz. Em todos nós, existe um segundo nascimento, que não é o de ter surgido fisicamente na vida, mas sim esse outro, no qual nosso herói interior se manifesta com suas melhores armas, com seus melhores trajes, forças e qualidades.

Indubitavelmente, não somos todos iguais; não somos todos igualmente heróicos, e nem mesmo na hora de praticar o heroísmo nossos atos coincidirão. Há aqueles que serão heróicos em um sentido, e outros que o serão em um sentido diferente; uns se voltarão para o estudo, as ciências, as artes, a religião, a política; outros para a meditação interior; há os que se voltarão para a família, para os entes queridos, ou seja, para simplesmente adornar a vida dos que estão ao seu redor.

Mas tudo isso é um ato heróico se nasce do verdadeiro ser interior. Por isso, escolhemos o tema de um herói grego que penetra o labirinto, mata um monstro e encontra-se com sua alma, que o ajuda a sair. Velho tema que nos permite comprovar, uma vez mais, que os anos passaram e que as civilizações só mudaram muito nas aparências.

O problema de percorrer o labirinto e sair dele continua sendo nosso. As armas de Teseu podem ser nossas armas, e esse herói, que adorna as páginas legendárias, que nos maravilha com suas vestes e seus cabelos de ouro, também está em nós.

O Reino da Alegria

Adoración Perea

Lendo uns versos da ópera Tannhäuser de Wagner, encontrei uma frase que me chamou poderosamente a atenção: “Um raio de esplendor novo e inusitado ilumina minha alma. Oh, Alegria, te reconheço; és Ela!”

Perguntei-me, então: O que significa alegria? E por que os músicos mais famosos dedicam a ela suas melhores obras?

Busquei entre meus amigos livros que respondessem à minha pergunta: o que é a alegria?

Há vários anos, Sêneca dizia: “as pessoas utilizam a palavra alegria para expressar contento por situações triviais que terminam por ser o princípio de futuras tristezas, mas a verdadeira alegria só se pode sentir ao adquirir sabedoria. Apenas o sábio, sorridente, sereno e inabalável frente às circunstâncias, é o homem pleno de alegria; pois vive no mesmo nível que os deuses, já que a alegria só pode nascer da consciência das próprias virtudes”.

Geoffrey Hodson, escritor mais contemporâneo, ensinou que “o reino da alegria está em nós quando conseguimos que nossa parte humana esteja em harmonia com a nossa parte espiritual, que é possuidora das virtudes. Por esse caminho se conhece a sabedoria, que em essência, é o que unifica todas as coisas. E no reino da alegria a Unidade é a Lei fundamental”.

Neste reino governado pela alegria, moram os ideais universais, a essência que nos chega de Deus. E a partir do momento em que o homem aspira esse perfume, nasce um sistema filosófico, para que o mundo superior e espiritual possa se harmonizar com o inferior.

As almas sentem alegria ao saber que Deus está próximo delas, e o homem adquire a coragem necessária para seguir, a cada instante, com o heroísmo da vida cotidiana.

Foi através de Mario Roso de Luna que compreendi por que os maiores músicos dedicaram suas obras à alegria. Conta que Beethoven, depois de uma vida plena de amarguras, ingratidões, sofrimentos e solidão, conseguiu sobrepor-se a tudo e alcançou o céu da arte, onde tudo é felicidade e harmonia. Quando a surdez o isolou do mundo exterior, superou divinizado a “região das águias”, remontou ao mais alto e lançou do alto seu canto de amor à humanidade dos tempos futuros. O hino imortal à alegria transcendente, o mais belo resplendor dos deuses: a Nona Sinfonia.

Dizem os biógrafos que, depois de compô-la, estava transfigurado e rejuvenescido. Havia bebido, na taça dos deuses, o sagrado licor que dá a imortalidade!

Schiller, o poeta, depois de, tal qual Beethoven, conhecer as tristezas e alegrias, escreveu as estrofes imortais do seu Hino à Alegria, cujo verdadeiro título é A Voluptuosidade, no mais puro sentido da palavra e não no sentido degradado que hoje se aplica. E sobre este ponto, Roso de Luna nos esclarece que, ainda que hoje voluptuosidade signifique algo débil, brando, sensual, libidinoso e lascivo, na antiguidade era muito mais que a alegria ordinária, era a alegria transcendente e pura, aquela da qual os clássicos diziam que era personificada como uma deusa casta e pura, nascida do ósculo divino da alma humana, no seu ego superior, chispa da grande chama da divindade ou Logos.

Em tal sentido, único verdadeiro, equivale à emoção transcendente; mais que alegria singela, elevação sobre-humana da alma, deleite divino, êxtase, amor supra-sensível e místico, compenetração íntima da divindade que está latente em nós.

Beethoven e Schiller, como todos os grandes mestres, como todos que conheceram a Alegria, não nos dão outra mensagem que a da fraternidade universal.

Tannhäuser é a alma viajante que, prisioneira neste mundo, aspira a outro mundo superior, celeste, um mundo que conhece porque viveu e recordou sua estada no palácio de Vênus, a deusa do sublime amor.

Este palácio se habita espiritualmente e tem o mesmo significado que o Devachán dos hindus, o Amenti dos egípcios e o Céu dos cristãos.

A alma humana, quando se vê forçada pela cíclica lei natural a descer e deixar a região de Vênus, apresentando-se uma vez mais à “existência”, busca na terra sua projeção ideal.

Por isso, Tannhäuser, em uma de suas canções, nos diz: “Oh, pobres mortais, que nunca conhecestes o amor!”. De fato, apenas alguém que, como ele, gozou um tempo de delícias transcendentais do Palácio de Vênus pode compreender o quanto caímos no mundo material que habitamos.

Precisamos recordar, além disso, que o Amor (Eros) é esse gênio alado que acompanha sempre a Vênus porque nasceu no mesmo dia que ela e lhe serve de escudeiro e mensageiro. Vênus, por ser divina, não pode descer à terra, mas Eros, por ser ao mesmo tempo mortal e imortal, pode subir e descer. O amor é, então, o mediador entre os deuses e os homens. É o amor que une os opostos e faz com que nasça a harmonia e o equilíbrio.

É o amor a força universal de atração, produtora e regeneradora de todas as coisas, é o laço, a conexão, o mediador e o enlace que os antigos sábios gregos vinculavam à filosofia (amor à sabedoria), que tratava de abranger a pluralidade das coisas e fatos, para enquadrá-los e integrá-los em uma compreensão unificadora. Por estes atributos, compreende-se que Eros seja visto como patrocinador desse amor à sabedoria, desse desejo insaciável de relacionar todas as coisas e chegar a conhecê-las.

Só me cabe dizer que um sentimento de gratidão me embarga por todos os mestres da humanidade, que nos ensinam e nos fazem partícipes da beleza, e com sua música nos elevam até esse reino da alegria para compartilhar conosco a grande união das almas, a fraternidade universal.

Canção à Alegria

Poema: Friedrich Von Schiller

Ó amigos, não mais estes sons!

Deixem-nos cantar canções mais alegres

mais cheias de alegria!

Alegria, centelha luminosa da divindade,

Filha de Elêusis,

Fogo inspirador, nós pisamos

Teu santuário.

Tua força mágica reconcilia

Tudo que o hábito tem dividido,

Todos os homens tornam-se irmãos

Sobre o agitar de tuas asas gentis.

Entretanto, tens criado

Uma inabalável amizade,

Ou tens adquirido

Uma verdadeira e amável esposa,

Tudo a que pode enfim chamar uma alma

Junte-se em nossa canção de louvor;

Mas ninguém deverá rastejar-se lacrimoso

Fora do nosso círculo.

Todas as criatura, embriagadas de alegria,

No seio da natureza.

Justo ou injustamente

Sabor diferente de seu presente

Ela nos deu beijos e as frutas das vinhas,

Um amigo de confiança no final.

Até mesmo os seres inferiores

Podem sentir contentamento,

E os anjos pararem ante a Deus!

Agradecidas, semelhantes aos corpos celestes

Aos quais Ele atacou seus trajetos

Através do esplendor do firmamento;

Assim, irmãos, vocês devem correr nas suas corridas,

Como um herói indo para a conquista.

Vocês, aos milhões, eu abraço.

Este beijo é para todo mundo!

Irmãos, acima da estrelada cobertura

Deve residir um Pai amoroso.

Aos milhões, vocês caem em adoração?

Mundo, você sabe quem é seu Criador?

Procure Ele nos Céus!

Acima das estrelas Ele deve morar.

O zodiaco e sua antiguidade

A grande pesquisadora Helena Petrovna Blavatsky faz uma referencia ao Velho Testamento, especificamente ao Livro de Jô, capítulos 9, versículo 9 e 38, versículos 31 e 32, onde se lê, respectivamente:

“De Arturo, de Orion, das Plêiades e das recâmaras do Sul” e  “Ou poderás tu ajuntar as delícias do Sete-estrelo ou soltar os cordéis do Órion? Ou produzir as constelações a seu tempo, e guiar a Ursa com seus filhos?”.

Segundo ela, essas passagens mostram o conhecimento dos antigos hebreus do Zodíaco.

Vamos entender primeiramente o que é o Zodíaco.  Em sua obra “Glossário Teosófico, página 773, afirma Helena Blavatsky:

Da palavra zodion, diminutivo de zoon, animal.  Em astronomia é um cinturão imaginário no céu, de 16º ou 18º de largura, através do qual passa o caminho do Sol (a eclíptica).  Contém as doze constelações que constituem os doze signos do zodíaco e das quais recebem os seus nomes.

“O Zodíaco astrológico é um circulo imaginário, que passa ao redor da Terra no plano do Equador, sendo Áries 0o e seu primeiro ponto.  É dividido em doze parte iguais denominadas “Signos do Zodíaco”, e contendo cada um 30º de espaço e nele é medida a verdadeira ascensão dos corpos celestes. Zodíaco móvel ou natural é uma série de constelações, que formam um cinturão de 47º de largura, situado ao Norte e ao sul do plano da eclíptica. A precessão dos equinócios é causada pelo movimento do Sol através do espaço, o que faz com que as constelações pareçam mover-se para a frente, contra a ordem dos signos, à razão de 50 e 1/3 segundos por ano. O Zodíaco foi conhecido na Índia e no Egito desde tempos imemoriais e o conhecimento dos sábios destes países, em relação à influencia das estrelas e dos corpos celestes sobre a Terra, foi muito grande”.

Agora, vamos conhecer um pouco das estrelas citadas.

Arcturus é a estrela mais brilhante no hemisfério Norte. Embora emita 180 vezes mais energia do que o Sol, ela parece somente 110 vezes mais brilhante, pois grande parte da luz que emana é infravermelha e invisível ao olho humano.

Arcturus está a 37 anos-luz de distância de nós e poderia ser uma estrela binária, mas sua companheira é vinte vezes menos brilhante e muito difícil de ser vista.

Arcturus possui o mesmo nome do antigo grego Arktouros, que significa “guardião do urso”, porque é a estrela mais brilhante próxima às Ursas Maior e Menor.

Quanto a Orion, vejamos:

Uma constelação fácil de enxergar é Órion. Para identificá-la devemos localizar 3 estrelas próximas entre si, de mesmo brilho, e alinhadas. Elas são chamadas Três Marias, e formam o cinturão da constelação de Órion, o caçador. Seus nomes são Mintaka, Alnilan e Alnitaka. A constelação tem a forma de um quadrilátero com as Três Marias no centro. O vértice nordeste do quadrilátero é formado pela estrela avermelhada Betelgeuse, que marca o ombro direito do caçador. O vértice sudoeste do quadrilátero é formado pela estrela azulada Rigel, que marca o pé esquerdo de Órion. Estas são as estrelas mais brilhantes da constelação. Como vemos, no hemisfério Sul Órion aparece de ponta cabeça. Segundo a lenda, Órion estava acompanhado de dois cães de caça, representadas pelas constelações do Cão Maior e do Cão Menor. A estrela mais brilhante do Cão Maior, Sírius, é também a estrela mais brilhante do céu e facilmente identificável a sudeste das Três Marias. Procyon é a estrela mais brilhante do Cão Menor, e aparece a leste das Três Marias. Betelgeuse, Sírius e Procyon formam um grande triângulo. As estrelas de uma constelação só estão aparentemente próximas na esfera celeste, pois na verdade estão a distâncias reais diferentes.

E agora, as plêiades.

O aglomerado estelar aberto das Plêiades é o aglomerado de estrelas mais brilhante em todo o céu. As Plêiades também são conhecidas por vários outros nomes tais como “Sete Irmãs”, como M45 pela classificação do catálogo Messier, e como “Subaru” no Japão. Este aglomerado está localizado na constelação do Touro (Taurus). Seis das estrelas nas Plêiades são visíveis sem o auxílio de telescópios. Aproximadamente 500 estrelas pertencem ao aglomerado estelar aberto das Plêiades e a maioria delas são fracas. Uma nebulosa de reflexão circunda estas estrelas.

curiosidade

Quais são as referências feitas na Bíblia ao aglomerado aberto das Pleiades?

A Bíblia cita vários objetos astronômicos, além do Sol e dos planetas. Algumas constelações, tais comoUrsa Maior e Orion também surgem ao longo do texto bíblico. O aglomerado aberto das Pleiades, chamado de “Sete-estrelo” na tradução em português, é citado em três momentos. As citações sobre as Pleiades são:

livro de Jó: 9-9

9-9 …quem fez a Ursa, o Órion, o Sete-estrelo e as recâmaras do sul;

livro de Jó: 38-31

38-31 Ou poderás tu, atar as cadeias do Sete-estrelo, ou soltar os laços de Órion?

livro de Amós: 5-8

5-8 …procurai o que faz o Sete-estrelo, e o Órion, e torna a densa treva em manhã e muda o dia em noite; o que chama as águas do mar, e as derrama sobre a terra: o SENHOR é o seu nome.

Bibliografia

Blavatsky, Helena P., Doutrina Secreta vol II, 12a ed. São Paulo, Pensamento, 1997, 395p.

O CAMINHO DAS FLORES

I – Introdução

O “Caminho das Flores”, do japonês “Kado”, onde Ka tem o mesmo sentido de “Hana” (flor) e Do significa caminho, é como originalmente se conhecia no Japão a arte dos Arranjos Florais, ou Iquebana.

A palavra Iquebana deriva de “Iqueru” (tornar vivo, ou chegar à essência de algo) e “Hana” (flor, cuja pronúncia é “bana”). Então Iquebana significa “dar vida à flor”,  ou “vivificar as flores”, expressão muito utilizada pela Academia Sanguetsu. No contexto oriental a palavra flor (hana) inclue toda espécie de plantas: ramos, galhos, folhas, ervas, raiz, musgo, etc. e tudo isso está dentro dessa idéia de vivificação floral.

Para os japoneses, dar vida às flores não é simplesmente conserva-las em água fresca; é muito mais do que isto, é impregna-las com nossos sentimentos, nossas emoções, nossa espiritualidade, enfim dar vida à arte de tal forma que o Arranjo Floral vivifique por sua vez, o ambiente e as pessoas que o apreciem, transmitindo-lhes este algo que está além da forma. Ou seja, que o importante não é a técnica e sim o estado interior com qual o artista da flor faz o Iquebana.

De fato a presença de flores transforma um ambiente, modifica as pessoas, vivifica toda atmosfera, é como se seu espírito penetrasse em tudo. O convívio com as flores aprimora a natureza humana.

Portanto o “Caminho das Flores” é muito mais profundo do que possa parecer à primeira vista. É o caminho que nos leva a nós mesmos, ao centro, ao encontro do nosso Ser que se projeta no arranho Floral, o qual expressa o nosso interior no seu legítimo estado psíquico e espiritual.

Isto posto, não é difícil compreender que o Iquebana é uma prática para a vida toda. Por isso é imprescindível a perseverança e a constância, porque o Caminho é longo.

II – Sua Origem

A Arte Floral nasceu no oriente, com o propósito de expressar certos conceitos filosóficos  da Religião Budista. Tudo leva a crer que seu berço tenha sido a Índia antiga. A tradição nos fala de monges hindus, que imbuídos do seu amor universal ao Todo, foram os primeiros a colher cuidadosamente as flores danificadas pela tempestade, ou murchas pelo calor e cuidar delas, na tentativa de mantê-las vivas.

Nos templos budistas colocavam-se diante da imagem sagrada do Buda, oferendas de ramos e flores simples, ou miniaturas de jardins em recipientes pesados de bronze. Mas o sentimento que colocavam nestas oferendas  começou a se expressar num melhor posicionamento das flores, numa forma mais harmoniosa: o ramo mais alto e central apontava para o céu; ao lado desse núcleo agrupavam-se os demais galhos à direita e à esquerda de forma simétrica e um terceiro grupo de galhos mais baixo que eram colocados em volta do centro, serviam de suporte para manter a união do conjunto.

Assim, ao lado de sua finalidade religiosa e de meditação, os templos budistas tornaram-se núcleos de cultura, nos quais se incentivava a filosofia, a poesia, a pintura e outras artes.

III – Sua História

Esta primitiva arte de arranjo de flores que os budistas ofereciam como sacrifícios ou como presentes honoríficos nos templos, foi se radicar no Japão, onde foi se desenvolvendo, diversificando suas regras, criando-se novos estilos. Este desenvolvimento se deve ao espírito artístico, à simplicidade do povo japonês em relação ao meio ambiente, às plantas, que são cuidadas e protegidas com muito zelo e respeito, coisa que os japoneses aprendem desde criança. Também contribuiu a imensa variedade de flores existentes neste país, hoje conhecido como o “jardim do mundo”, ou “país das flores”. De tal forma que atualmente, falar de Iquebana á praticamente falar do Japão.

Foi nos inícios do século VII, que esta arte chegou ao Japão através da China e da Coréia,  quase que simultaneamente com o Budismo, quando o príncipe Shotoku Taishi, enviou a primeira missão japonesa à China, que trouxe livros clássicos, obras de arte e ensinamentos sobre a “Cerimônia do Chá”, “Tiro com Arco” e a “Arte Floral”. Também nesta época foi implantada no Japão uma variação do Budismo: o Zen, que segundo a tradição se originou no momento em que Buda se iluminou e daí foi sendo transmitida a 28 patriarcas até chegar ao Bodhidharma, primeiro patriarca chinês do Zen.

Esta Escola se diferencia de qualquer outra religião convencional, por seu estilo em desuso, sua linguagem enigmática e ensinamentos muito peculiares. Não teoriza sem que isto resulte em formação. É uma maneira de viver, buscando o equilíbrio entre a Visão (entendimento) e a Ação (prática), para obter a iluminação, que não é fácil nem rápida de se alcançar. É necessário muito esforço de uma mente madura. Na China, berço desta doutrina, o Zen é conhecido como a “Doutrina Mental”, que busca a total realização da mente, que equivale à superação a mente limitada, para ter acesso aos planos superiores.

Pois bem, esta doutrina  foi a força que praticamente modelou toda cultura japonesa, dando-lhe um toque de pureza e simplicidade e conseqüentemente penetrando no espírito da Arte Floral.

Um  dos personagens mais importantes de toda história do Iquebana, foi o Príncipe Ono-No-Imoko, que abandonou a corte após a morte de seu primo e Príncipe regente, Shotoku Taishi, e passou a viver uma vida monástica numa cabana simples, onde se dedicou dentre outras, à Arte Floral. Aí ele compõe, harmoniza, posiciona, combina galhos e flores e assim começou a nascer o Iquebana tipicamente japonês.

Entre os séculos VI e XV, foram criados inúmeros estilos, como por exemplo o Kenka, cujos arranjos eram oferecidos aos Deuses, ao Buda e aos entes queridos que já não  estavam mais neste mundo. No estilo Kenka estaria se afirmando os alicerces do Iquebana no Japão. Outro estilo marcante foi o Rikkwa, que significa flores eretas, por serem colocadas com muito aprumo, parecendo estarem se elevando ao céu como preces materializadas. Era um estilo pomposo, austero, complicado, em que os arranjos eram feitos em jarrões vindos da China e praticado somente pelos monges e nobres. Servia para adornar os altares e eventualmente os palácios. Um dos estilos mais recentes é o “Sanguetsu”, que foi criado por Mokiti Okada, sendo um dos mais conhecidos no Brasil.

A Arte Floral evoluía paralelamente com a Cerimônia do Chá, tendo ambos o objetivo de levar o homem a se desapegar das coisas transitórias e meditar sobre os valores eternos.

O processo de popularização do Iquebana teve início no século XVII, mas somente nos finais do século XIX é que foram abertas as primeiras academias para ensinar também às mulheres o “Caminho das Flores”, que até então só era praticada pelos homens. É curioso que a partir de então, a mulher só é considerada preparada para o casamento, se souber conviver com as flores, ornamentar os aposentos da casa, adornar o Tokonoma, que é um espaço arquitetônico da casa reservado às obras de arte da família.

IV – A Transmissão do Ensinamento

Durante vários séculos esta arte foi transmitida na prática, de Mestre a discípulo, por via oral, com poucas palavras, ou através de gestos mudos. Os ensinamentos eram guardados no mais absoluto segredo, não só o conteúdo espiritual, como também as técnicas especiais, como por exemplo, os diversos meios de prolongar a vida das plantas. No oriente sempre se valorizou a comunicação em silêncio, ou seja, a transmissão de “coração a coração”, com a intenção oculta de não permitir que o discípulo aprenda a lição de cor e sim com o desejo que ele descubra o espírito do arranjo pela sua própria experiência. Pois não há como ensinar o verdadeiro significado por meio de palavras.

Talvez seja esta a razão porque existem tão poucos textos sobre a Arte Floral. Normalmente eles se limitam a ilustrações ou sugestões práticas. No século XVI foi publicado o primeiro livro de Arte Floral, que era praticamente um código no qual se enumeravam as qualidades fundamentais para se aprender o verdadeiro Iquebana: paciência, concentração caráter, serenidade e espírito direcionado simultaneamente para Deus e para a humanidade.

Este sigilo só foi quebrado na atualidade com a publicação de uma volumosa obra ilustrada sobre Iquebana, em 4 volumes, do Mestre D.B. Takeda. Para ele o fato de serem divulgados tais conhecimentos, não prejudicaria o espírito da doutrina. Porém, apesar do seu empenho de expor os fundamentos dos ensinamentos do arranjo floral, ele não conseguiu transmiti-los de maneira que pudessem ser assimilados inteiramente, pois esbarra no limite, lá onde se aproxima da essência, da última instância, naquele ponto em que nada mais pode ser dito, nem ensinado, apenas vivido. Portanto não se pode aprender aquilo que não sentiu, que não viveu. O verdadeiro ensinamento não pode ser expresso com palavras. Dizia Lao-Tsé: “Aquele que fala não sabe, aquele que sabe não fala”.

Isto acontece particularmente com as artes orientais, ou seja, com os arranjos florais, a pintura, a arte dos arqueiros, etc, pois elas pressupõem não apenas o talento artístico, mas principalmente uma atitude espiritual, adquirida através de longos anos de prática de concentração.

Palavras do Mestre Bokuyo Takeda:

“O homem e a planta são mortais e mutáveis; o significado e a essência do arranjo floral são eternos”

“Deve-se buscar a forma exterior a partir do interior”.

“O material usado não é de importância. Só o pensamento correto conduz a Deus, deve-se oferecer sacrifícios tendo isso em mente”.

“A beleza unida à virtude é poderosa”.

“A mera beleza não leva a nada; ela só se completa em uníssono com o sentimento verdadeiro”.

“O correto manuseio das flores aprimora a personalidade”.

“Reine em sua casa com paz, autocontrole e justiça”.

“Siga de modo obediente a autoridade e os pais”.

“Não seja negligente no lar ou na profissão”.

“Cultive a amizade com sinceridade e nobreza de sentimentos”.

V – O Simbolismo das Linhas ou Princípio do Três

O Princípio do Três que constitui a base do arranjo floral, tem suas origens no Budismo, ou seja, essa idéia do três também emigrou da Índia para o Japão através da China.

É um princípio espiritual com um significado cósmico. Este princípio é representado por três linhas-mestras, definidas com galhos ou folhas, que dão a forma do que se quer expressar através do arranjo. Da harmonia e equilíbrio desses três ramos principais, depende a beleza do conjunto.

Existem variações sobre o simbolismo do Três. Uma das versões considera os três princípios:

Tem (Céu, o ramo mais alto)

Jin (Homem, o ramo médio)

Tchi (Terra, o ramo mais baixo)

Segundo esta versão, o homem está posicionado entre o Céu e a Terra; recebe seu alimento espiritual do céu e é sustentado por raízes terrestres. De modo que ao mesmo tempo, ele é uno com o “coração universal” e com o “fundamento primordial”. Ele vive a partir do seu próprio centro, que para ele equivale ao centro do mundo e do Todo. Assim, com sua individualidade ele sintetiza a verdade do céu, a força que faz crescer as flores que é a mesma que conduz a “mão espiritual” no arranjo floral.

O discípulo de Iquebana deve trabalhar até conseguir a harmonia desses três princípios, ou seja: a união do “Coração da flor” com o “coração do homem” e o “coração do universo”, que são uma só coisa. Deste modo, ele vive em comunhão essencial com a planta, e com o universo inteiro.

Outra versão, adotada pela Academia Sanguetsu de Vivificação Floral, quanto ao simbolismo do Três, é a seguinte:

Jitsu (Sol, o ramo mais alto)

Guetsu ( Lua, o ramo médio)

Tchi (Terra, o ramo mais baixo)

VI – O Ambiente e os Requisitos

No ambiente onde se executa a arte das flores, é mantida uma rigorosa observância da ordem e limpeza, do silêncio e da quietude, pois em sua origem o recinto em que se faziam os arranjos florais eram sagrados, conceito que se mantém até os dias de hoje. Por mais simples que seja o recinto, ele fica consagrado através do Arranjo Floral, se este for feito com o “verdadeiro espírito”. Cada ruído desnecessário, ou movimentos bruscos são evitados; a plantas e as ferramentas são manuseadas num silêncio quase absoluto.

Como o principal requisito é a união com o coração da flor, é natural que não se converse durante o trabalho e toda agitação seja proibida, assim o principiante é estimulado a prestar mais atenção ao “coração da flor”.  Em primeiro lugar para tocar a flor de forma correta, em segundo lugar para viver com naturalidade em seu próprio coração que deve se assemelhar ao coração da flor.

Também a concentração é condição indispensável para que se aprenda a dispor as flores com calma interior. Além disso, o discípulo deve aprender a ser humilde e aceitar  quantas vezes forem necessárias a recusa do trabalho realizado, pelo Mestre, pois só assim ele terá consciência dos seus erros e possibilidade de ir se aperfeiçoando paulatinamente. Aliás, a concentração é fundamental em qualquer arte japonesa, como por exemplo Teatro No, o Tiro com Arco, ou a Cerimônia do Chá.

Enfim, fazer Iquebana constitui uma prática cerimonial, desde a entrada no recinto, a forma de manusear as flores e as ferramentas, a postura interior, o ambiente, tudo isso produz um estado de elevação da alma, ao encontro do Ser.

VII – A Técnica

Os métodos mais antigos do arranjo floral, como por exemplo o Rikkwa, que eram plantas moldadas em caixas de areia e colocadas nos salões ou jardins dos templos, foram se modificando e se aprimorando com o decorrer dos tempos.

Hoje a forma triangular vem sendo mantida como o padrão básico, permitindo em estágios mais avançados, a técnica de simplificação que utiliza apenas duas linhas: o Jitsu (Sol) e o Tchi (Terra). Na etapa de aperfeiçoamento o arranjo floral vai se tornando cada vez mais simples, podendo ser feito somente com uma flor.

Dentro do modelo básico temos as seguintes variações de formas: Moribana e Nagueire.

Moribana: Esta é a forma de Iquebana que utiliza vasos baixos e largos, com suporte para fixar as flores (hanadomê).

Algumas  regras básicas da Academia Sanguetsu, para a prática do Iquebana:

Vivificar com naturalidade: isto é, não forçar as flores jamais, realçar as suas características e obedecer a natureza de cada planta. Usar de preferência as flores da época.

Vivificar imediatamente: após o corte das flores, manuseá-las o mínimo possível, para não perderem a vitalidade.

Vivificar as flores pensando na harmonia: fazer o arranjo, considerando o locar onde ele será colocado, os móveis, a cor das paredes, etc. A flor, o vaso e o ambiente devem estar em harmonia para realçar o valor artístico do Iquebana.

Como toda verdadeira arte, também a Arte floral tem dois aspectos: o metafísico e o prático, o supra-racional e o racional.

A técnica do Iquebana consiste na escolha das flores, do vaso, no manuseio das ferramentas, nas proporções do arranjo e do vaso, nos ângulos de inclinação, etc. Mas a mera maestria da técnica não satisfaz, não nos permite penetrar no mistério da arte, no nosso próprio mistério. Isso está muito além da técnica.

A própria vida é uma arte, sejam quais forem as circunstâncias que tenhamos de viver. Todos queremos torna-la melhor e para isto não basta uma boa técnica do bem viver, é necessário compreender o seu significado, o seu mistério, que é o próprio mistério do homem. Nas profundezas de nossa consciência há algo a ser descoberto: o SER. É para onde nos leva “O Caminho das Flores”.

Zelma D. costa

Bibliografia:

O Zen na Arte da Cerimônia das Flores

Gusty L. Herrigel – Ed. Pensamento

Apostila de História da Filosofia Oriental

Jorge Angel Livraga – Ed. Nova Acrópole

Revistas Especializadas de Iquebana

Academia Sanguetsu

Apostila do Curso Básico de Iquebana

Academia Sanguetsu

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