Edição 20

Editorial

Viajar por caminhos apenas transitados, explorar territórios desconhecidos, descobrir ruínas de antigas cidades, buscar vestígios de civilizações desaparecidas… Tal é o anseio que tem movido os viajantes de todos os tempos a deixar os confortos domésticos e submeter-se aos riscos do desconhecido, pondo a prova sua capacidade de resistência, o valor ante os perigos, a imaginação para encontrar soluções frente aos imprevistos. Tais são as emoções que experimentam os aventureiros que compartilham conosco, quando nos oferecem seus relatos, às vezes em forma de caderno de viagem com apontamentos apressados feitos ali mesmo no campo, no meio da viagem. E é como se estivéssemos lá, porque se pode viajar com a imaginação.

A experiência do viajante que pela primeira vez chega a um país diferente, em cultura, em costumes, em História, está registrada em todo ser humano, já que depois de tudo a própria vida é como uma viagem, metáfora muito cultivada por poetas e pensadores de todos os tempos.

Até mesmo o turista de nossos dias, que se encontra pelas ruas das cidades tentando interpretar um mapa, identificar os monumentos e lugares assinalados, no fundo, se sente como um daqueles exploradores das Sociedades Geográficas do século XIX, que tentavam comprovar se os mapas que seus antecessores haviam desenhado eram ou não exatos, quando demarcavam as rotas míticas do comércio e da navegação. Naquela época, quando decidiam descobrir cidades e riquezas em continentes remotos, o mito do descobrimento da América ainda condicionava o subconsciente, empurrando-os às suas proezas, para talvez esquecer que aquelas terras, desconhecidas para eles, abrigavam culturas milenares, recordações de civilizações muito sofisticadas.

Pode-se dizer que nossos viajantes, mais especificamente os colaboradores Juan Adrada, Elvira Solano e Marcos Valenzuela, que vêm contando seu périplo pelas rotas dos Incas, são muito mais humildes que os exploradores do século passado e sabem que não há mais terras para descobrir. Mas isso não os impede de sentir o mesmo chamado para alcançar destinos inacessíveis à maioria de nós e contar a beleza agreste desses lugares aonde chegam graças à sua antiga vocação de exploradores. Com eles e graças a eles, estamos visitando jazidas arqueológicas, sabemos de culturas que mantiveram sua identidade, contemplamos as riquezas naturais, as paisagens ressecadas e as frondosas. Estamos sentindo seu cansaço ao percorrer as grandes distâncias e transitar por caminhos em cordilheiras escarpadas e sua surpresa ao comprovar a beleza dos restos monumentais que milagrosamente se conservam no silêncio e na solidão daqueles espaços sem visitantes.

As rotas que outrora percorreram os Incas durante um período brilhante da História são agora mais nossas graças a eles.

Mosaico

Amplie  seu vocabulário!

Você é aficionado por ampliar seu vocabulário? Então copie o método, muito original, que o escritor Jack London utilizava para aprender palavras novas.

Ele pendurava uma corda de ponta a ponta em seu quarto, como um varal de roupa; quando em suas leituras se deparava com uma palavra desconhecida, a escrevia junto com sua definição em um quarto de uma folha de papel, que pendurava no varal. Depois, nas horas livres, dedicava-se a dar voltas pelo quarto passando em revista o “varal” e aprendia as palavras.

Talvez um pouco complicado, mas divertido.

Milagres sem significado

Um velho mestre mandou seus discípulos percorrerem o mundo com a incumbência de lhe trazerem noticias do acontecimento mais maravilhoso que tivessem contemplado durante sua viagem. Ao final de muitos meses, regressou um deles e começou a narrar o seguinte:

— Mestre, o mais incrível e maravilhoso que contemplei nestes longos meses aconteceu um dia em que estava a ponto de pegar uma barca que cruzava um caudaloso rio. No momento de zarpar, chegou um pobre ancião e pediu ao barqueiro que por caridade o levasse à outra margem, já que não dispunha de dinheiro. O dono da barca negou, enfurecido, e soltou as amarras com toda rapidez, de tal forma que a barca foi levada pela correnteza. Porém nesse momento e ante a surpresa de todos, o ancião fechou os olhos, entrou num estado de êxtase e começou a caminhar sobre as águas, até que atravessou o rio! Não é surpreendente? Isso não é um milagre?

— Quanto custava a passagem da barca? — perguntou o mestre.

— Somente duas moedas — respondeu o discípulo.

— Pois essas duas moedas é todo o valor do milagre que contemplaste.

O mercado da sede – A próxima guerra será por água.

É possível viver sem carros, mas sem o “ouro azul” é inimaginável. O mercado da água é o maior do mundo. Daí que as empresas deste setor se encontram entre as mais poderosas junto às de petróleo, de armamentos e farmacêuticas.

As multinacionais se estendem por todos os continentes animadas pelo crescimento do consumo da água engarrafada, tanto pelas nações mais prósperas quanto pelos países empobrecidos. O preço da água engarrafada pode superar em mil vezes o da água fornecida pela rede pública. Chama a atenção que cada norte-americano consuma, em média, 85 litros de água engarrafada por ano, quando suas redes de abastecimento nunca foram tão confiáveis. Nos gigantes asiáticos, China e Índia, a contaminação dos rios facilita a entrada dessas empresas. Também desembarcaram em alguns países do continente africano, com uma elevada porcentagem de população sem água potável, onde existe o risco de que os governos considerem satisfeita esta necessidade e não invistam na rede pública de água tratada apesar do benefício econômico que teriam por ter água potável.

Os governos se desentendem e deixam nas mãos da iniciativa privada o serviço de um bem indispensável. A privatização, favorecida por organizações internacionais que dizem velar pelo desenvolvimento dos paises, é responsável por que no Quênia um litro de água custe o dobro do de gasolina. A maior parte dos créditos concedidos pelo Banco Mundial para o serviço coloca como condição que este se privatize. Ainda que em algumas nações se tenha conseguido aumentar significativamente a cobertura da rede, seu estado continua sendo deficiente, o que torna pouco aconselhável beber água da torneira. Em todo caso, os interesses das empresas não correspondem às necessidades reais.

A maior parte da população sem água potável se encontra nas zonas rurais ou urbanas de extrema pobreza onde não existem ainda redes de distribuição e não se pode comprar a água comercializada.

A água é um bem fundamental do qual não se deve obter benefício econômico. Para a Organização das Nações Unidas o acesso a ela é um direito de todo ser humano. É preciso outro modelo de indústria em que não se faça um negócio da necessidade, nem tampouco do domínio das riquezas e do mercado. As multinacionais da água se assemelham às do petróleo ao favorecer seus interesses com uma situação injusta, pois oferecem um bem vital a um alto preço em países onde uma porcentagem elevada da população é pobre.

A água sempre foi uma fonte de vida e possibilitou o desenvolvimento das civilizações, como a egípcia às margens do Nilo. Às vezes, é motivo de disputa porque a maioria dos recursos hídricos mais importantes não pertence a um único país.

Daí os conflitos na Bacia do Jordão, do Eufrates, do Tigre, do Nilo e do Zambeze. A população e os recursos hídricos repartem-se na terra de forma desigual.

Um dos grandes Objetivos do Milênio é melhorar o acesso à água potável e às redes de saneamento básico, pois a contaminação provoca 80% das doenças nos países empobrecidos e a cada dia tira a vida de 6.000 crianças menores de cinco anos. A convivência ficar muito comprometida quando milhões de pessoas sofrem conseqüências em sua saúde, e muitas nações são empurradas à pobreza ao perder sua força mais preciosa: a infância. Com seus interesses, essas multinacionais criaram um mercado da sede que só faz prejudicar a quem carece de água limpa e saudável.

Jorge Planelló

Centro de Colaboraciones Solidarias

http://www.portaldelmedioambiente.com

Walt Whitman – CANTO DE MIM MESMO

Creio em ti, alma minha; meu outro eu não deve rebaixar-se ante ti

e tu não te deves rebaixar ante ele.

Entrega-te comigo ao ócio sobre a relva e desembaraça a tua garganta de obstáculos.

Não desejo palavras, música nem ritmo, costumes nem leituras. Nem ainda as melhores.

Só me agrada o arrulho, o sussurro da tua voz suave.

Tenho presente a ocasião em que nos deitamos. Era uma transparente manhã de verão.

Como apoiaste tua cabeça sobre meu colo; como docemente te voltaste para mim,

e me abriste a camisa sobre o peito para descer tua língua até

me chegar ao coração desnudo.

E como subiste até me tocar a barba e baixaste até chegar aos pés.

Com rapidez elevaram-se e estenderam-se em torno de mim a paz e o conhecimento

que estão mais além de toda discussão na Terra.

E sei que a mão de Deus é minha própria promessa

E sei que o espírito de Deus, irmão é, do meu

e que todos os homens que existiram são também meus irmãos

e as mulheres, minhas irmãs e amantes,

e que um dos pilares da criação é o amor

e que não têm fim as folhas dos campos, rígidas ou lânguidas

e que tampouco têm as formigas morenas em seus pequenos poços subterrâneos

nem as crostas mofadas da cerca, as pedras amontoadas, o sabugueiro, a grama, e a erva

daninha.

Física para poetas

A busca da unificação das forças fundamentais sempre foi um dos objetivos da física dos últimos séculos. Esse processo iniciado por Newton com a força da gravitação e por Maxwell ao unir eletricidade e magnetismo foi ampliado com as forças nucleares fortes e fracas. Cientistas do porte de Einstein dedicaram grande parte de seus esforços tentando unir a gravitação e o eletromagnetismo, sem obter resultados evidentes.

Muitas vezes nesses esforços são descobertos aspectos da natureza que não eram esperados e que possivelmente não foram buscados. Nessa situação, encontrou-se Glashow quando propôs uma grande unificação entre as forças eletrodébeis e as forças fortes.

Sua teoria ajusta-se satisfatoriamente com fótons, quarks, léptons e outras partículas elementares que ocorrem em nosso universo. Mas o mais espetacular de sua teoria era que o próton, núcleo do átomo de hidrogênio, e peça fundamental do universo, era instável e se desintegrava.

A vida média do próton pode ser da ordem de 1030 anos, enquanto a vida estimada do universo estaria em torno de 1010 anos. Portanto, por sorte, nos achamos na maravilhosa situação de que os prótons que formam nosso corpo, as paredes de nossa casa, o carro de nosso pai e o pão que compramos na padaria, ainda não se desintegraram.

A instabilidade do próton era um prognóstico tão interessante que desencadeou uma corrida em busca da sua comprovação experimental. Esta poderia ser verdadeiramente desesperadora e improvável na vida de qualquer pesquisador. O que se devia fazer era dispor de uma grande quantidade de matéria que pudesse conter um elevado número de prótons na ordem de 1030, para que a probabilidade de que alguns deles se desintegrassem num tempo razoável não fosse desprezível.

Mas como tê-los tão controlados para poder registrar o sucesso desejado? Não se trata de uma tarefa fácil, já que qualquer contaminação ou qualquer reação provocada por um raio cósmico que incida sobre a grande massa de matéria, poderia causar um sinal parecido. Para evitar isso, é necessário trabalhar com algumas toneladas de matéria pura, o que não é simples, e colocá-la a grande profundidade para que a camada terrestre que a separe da superfície seja suficiente para absorver de maneira eficiente qualquer contaminação por raios cósmicos (com exceção dos neutrinos, para os quais a terra é quase transparente).

Apesar de todas essas dificuldades, foram realizadas diversas experiências em diferentes partes do mundo, utilizando cavidades em minas ou túneis sob montanhas. Todos eles apresentaram resultados infrutíferos; e até hoje não se registrou a desintegração de nenhum próton. E aqui há uma das grandezas de nosso Universo e da Verdade: as coisas são como são, independentemente de que nós o saibamos ou possamos demonstrá-lo! Por dedução, não se pode afirmar que o próton seja absolutamente estável!

Sara Ortiz Reus

Portões de Fogo

Fragmentos extraídos do livro “Portões de Fogo” de Steven Pressfield

Contarei a Sua Majestade, que é um rei. Um rei não fica dentro da sua tenda enquanto seus homens se esvaem em sangue e morrem no campo de batalha. Um rei não ceia enquanto seus homens passam fome, nem dorme quando eles estão em sentinela na muralha. Um rei não ordena a seus homens lealdade por medo de não conseguir comprá-la com ouro; conquista o seu amor com o suor de sua fronte e as dores que suporta por eles. Um rei é o primeiro a apanhar a carga mais pesada, e o último a deixá-la. Um rei não exige o serviço daqueles a quem dirige, mas sim ele os serve!

Silêncio

Só há três coisas dignas de romper o silêncio, segundo Amado Nervo.

A música

A poesia

O amor

Se levássemos em conta aquele que disse que só disséssemos alguma coisa depois de comprovar com certeza de que foi algo bom, justo, belo, útil e necessário, então quem se atreveria a abrir a boca?

Ainda sem abri-la, quanta conversa inútil existe em nosso interior constantemente? Com quantas linguagens fala o nosso ser ancestral, não propriamente humano? Quantos existem dentro de nós que falam constantemente avocando serem nós, falando em nosso nome? Quanta gente pula dentro de nós, falando sem nossa permissão?

Porque se poderia pensar que só falamos com a partir da nossa razão, a partir da nossa mente… Mas por pouco que observemos, constataremos que falamos a partir de muitos lugares diferentes.

Nosso corpo fala: tenho sede, tenho fome, estou cansado, beberia uma cervejinha gelada, quero ir à praia, esta noite saio… e todos os etcéteras que facilmente se poderão agregar.

Fala nossa psiquê: estou irritado, estou nervoso, estou chateado, estou apaixonado, estou abatido, estou entediado, estou aborrecido, estou encantado, estou fascinado, estou passando bem, estou passado mal. Como estou? Como não estou?

Fala nossa mente comum: sou maravilhoso, sou genial, sou um desastre, não tenho remédio, somos amigos, somos inimigos, tenho muitas coisas para fazer, não tenho nada para fazer, gostaria de saber o que pensam de mim, tocar piano, fazer uma viagem…

E quem não fala? Pois evidentemente entre a algazarra, ainda que alguém falasse, não o escutaríamos. E certamente alguém fala. Só que não podemos escutar. Há muito ruído. E os que falam sempre o fazem em voz baixa. Por isso, para escutar é preciso absoluto silêncio.

E quem é capaz de calar?

Vikings na Espanha

Fugindo de suas terras superpovoadas e de seu clima extremo, os Vikings, povos do norte, estenderam-se pela Europa, África (e ao que parece América do Norte) entre os anos 800 e 1050 d.C.

Na Espanha, deixaram rastros. Em 844 d.C. passaram por Portugal, Galícia e Astúrias, invadiram a Andaluzia e saquearam Sevilha. Dez anos depois, regressaram, sesta vez remontando o Ebro desde o Mediterrâneo, destruindo tudo que aparecia na sua frente. E a partir de 968 d.C. seu ponto de mira é a costa galega, remontando a desembocadura do Aroza. Em 970 d.C., entram em Compostela e a saqueiam como fizeram com Sevilha. Os visigodos espanhóis, como se vê, tiveram nos vikings um feroz inimigo.

Patricia Ponce de León

Inventos com história – O barco a vapor

Blasco de Garay, marinheiro espanhol, morto por volta de 1552, foi o primeiro europeu a utilizar o vapor para movimentar os barcos.

Mas somente após a invenção da Máquina a Vapor de Thomas Newcomen, em 1712, apareceriam projetos eficazes para mover os barcos.

O primeiro a conseguir foi Claude François, marquês de Jouffroy d’Abbans, fazendo navegar o Pyroscaphe, um pequeno vapor com rodas, em 1783, e mais tarde com um segundo barco equipado com a máquina de Watt.

Seus projetos demonstraram a viabilidade da navegação a vapor.

Nos Estados Unidos, em 1787, fabricou o primeiro barco a vapor com propulsão por hélices.

Os barcos imortalizados por Mark Twain em suas histórias do Mississipi eram os criados por Robert Fulton, e, dentre os muitos inventos que patenteou, estava o famoso “Nautilus”, um submarino.

A partir da publicação dos trabalhos do físico francês Sadi Carnot, em 1824, a aplicação da máquina a vapor na navegação se generalizou.

Esse tipo de força motriz multiplicava a energia de propulsão de um navio, permitindo comunicações rápidas.

Também diminuía os perigos das viagens, ao manter um rumo seguro nas manobras e nas tempestades.

Francisco Capacete

Provérbio

1.- Rezo diariamente para que Deus exista.

(F. Arrabal)

2.- A estupidez é uma doença extraordinária: não a sofre o doente, mas sim os demais.

(F. Voltaire)

3.- Não se conta o dinheiro ganho; já se perde bastante tempo ganhado-o.

(G. B. Shaw)

4.- Acreditas que tua vida começará quando chegues a Ítaca; não entendes que na realidade a vida é a viagem.

(Atenea)

5.- Cada um chama de idéias claras as que têm o mesmo grau de confusão que as suas.

(M. Proust)

6.- O amor é como a lua; se não cresce, míngua.

(M. Callas)

7.- O desalento é o suicídio do coração.

(J. P. Richter)

8.- Para a nossa cobiça, o muito é pouco; para a nossa necessidade, o pouco é muito.

(Quevedo)

9.- Quem não serve para servir, não serve para viver.

(Madre Teresa)

10.- Um amigo é a pessoa com a qual se pode pensar em voz alta.

(R. W. Emerson)

A escravidão

A escravidão sempre acompanhou a humanidade. Ao menos desde que a história é registrada. Só no século XIX começa a se vislumbrar uma saída para essa desgraça moral de que sempre se padeceu, mas ainda hoje existem lugares no planeta onde se mantêm escravos de modo mais ou menos encoberto, sob muitas diferentes formas. Inclusive o sistema social produz injustiças constantes e servidões que, infelizmente, continuam se assemelhando muito com a escravidão.

A tradição religiosa do chamado mundo ocidental é a cristã. Portanto “Os filhos de Noé” são os povoadores da terra após o cataclismo do Dilúvio. Aqueles para quem a Gênese é a palavra de Deus, não há dúvidas a respeito, embora aceitem que o relato é simbólico. Os brancos descendentes de Jafet, os semitas de Sem e os negros de Cam.

Segundo a genealogia deste último, entre seus filhos estava Cus ou Cush, que era o mais velho, e Canaã, que era o mais novo. Cam sofreu a maldição de Noé devido ao episódio da embriaguez que obteve ao “inventar” o vinho, tornando-se, juntamente com seus filhos, escravo de seus tios, e seus filhos dos filhos de seus tios, e assim por diante.

Parece que esse era um tipo de maldição empregada pelos hebreus que não se limitava a quem havia feito a ofensa, mas também a seus descendentes. Supõe-se que esse episódio bíblico foi o que causou a escravidão, sobretudo nas pessoas de cor, algo aceitável e inclusive tolerado pela divindade, que não afetava em nada a caridade do cristianismo posterior.

Existe um midrásh — escrito (ou escritos) rabínico que tenta explicar a obscuridade de certas passagens do Toráh — no qual se detalha a maldição de Noé: “Como me tens desgraçado por fazer coisas feias na escuridão da noite, os filhos de Canaã nascerão feios e negros”.

Essa explicação, em vez de esclarecer, pode deixar as coisas ainda um pouco mais obscuras, se nos limitamos à versão atual da Bíblia. A maldição torna-se algo desmedido como castigo pelo simples fato de ver o pai nu, ou inclusive rir por sua nudez.

O que acontece é que numa versão originária do Torá, Canaã, ao ver o avô dormindo embriagado, o castra. Esta parece ser uma passagem tomada do episódio “politeísta” da castração de Urano por Cronos, que se tratou de fazer desaparecer ao canonizar oficialmente os diferentes escritos que comporiam o Pentateuco.

Mas o midrásh continua: “Além do mais, porque voltaste a cabeça para ver minha nudez, os cabelos de teus netos serão encaracolados e seus olhos avermelhados; e porque teus lábios zombaram de minha desgraça, os deles se incharão; e porque tu descuidaste minha nudez, eles andarão desnudos e seus membros viris se alongarão vergonhosamente”.

Porém, se ainda existe alguma dúvida, o midrásh acrescenta que “os homens desta raça serão chamados negros”. Na realidade, a palavra utilizada na época foi “Kemi”, o nome que designava o Egito. Nos salmos se identifica a Kem como Cam. Seus filhos também eram “Mizraim”, que também era Egito. Claro que foram incorporados os negros da costa Somali, Punt, e de Kush, Núbia — miticamente os cuchitas descendentes de Cush — cujos negros eram importados na Palestina como escravos.

A idéia de que os negros estavam condenados — pelo mesmo Deus através de Noé — a servir aos homens de cor mais clara, foi algo gratamente aceito pelos cristãos medievais, já que por causa da peste escasseou a mão-de-obra barata, e por isso foi restabelecida a escravidão. Mais tarde, venderiam os habitantes dos países descobertos pelos navegantes europeus.

Mas o autor do escrito rabínico deve ter pensado que não havia deixado suficientemente esclarecida sua explicação, na qual acresce ainda: “a estes negros, seu antepassado Canaã lhes ordenou que amassem o roubo e a fornicação, que se unissem no ódio a seus amos e que nunca dissessem a verdade”. Há ainda um outro escrito rabínico que acresce ao anterior a sodomia.

Este comentário não só ajusta as contas históricas do período no qual os hebreus estiveram dominados, mas tem a finalidade de justificar a histórica escravidão dos cananeus por parte do povo hebreu, assim como por todos os pagãos. De passagem, voltou-se a introduzir a idéia de “maldade” numa humanidade já purificada, em teoria, pelo dilúvio. Não obstante, os hebreus escravizaram aos próprios hebreus e aos estranhos, libertando os compatriotas depois de seis anos de serviço. O Templo de Salomão foi construído por mão-de-obra escrava.

A escravidão, deixando de lado os diferentes mitos, era uma realidade. Existem dados que remontam ao quinto milênio e provêm do povo sumério. Aparentemente, eram os assombros de seus contemporâneos, já que tornavam escrava sua própria raça, e não aos que venciam nas conquistas, como era o costume.

Escravizavam-se os criminosos para que purificassem suas culpas quando estas eram graves, e se um cidadão tivesse dívidas, mais ou menos vultosas, deveria garantir seu pagamento com sua própria pessoa, considerando-se escravo até que a saldasse. Os sumérios foram os amos menos cruéis do mundo antigo, pois proporcionavam aos seus submetidos alimentos, vestimentas, alojamento e assistência médica.

Protegiam-nos dos maus tratos e lhes permitiam ter propriedades, pedir empréstimo e comprar sua própria liberdade. Podiam inclusive recorrer aos tribunais em disputas questionando a própria venda. Recuperavam a liberdade com a morte de seus donos. As mulheres escravas eram concubinas de seus amos e, se estes morriam, também recuperavam a liberdade de seus filhos.

Todas essas regras estavam compiladas no Código de Hamurabi, mas haviam sido copiadas das antigas leis sumérias.

No Egito, a escravidão foi rara, já que a mão-de-obra nativa era abundante e barata, e era mais econômico contratar trabalhadores do que ter sua posse, pois não teriam que alojá-los, alimentá-los nem protegê-los.

Em geral, os escravos eram criminosos, prisioneiros de guerra, aos quais se enquadrava na milícia ou se enviava às pedreiras ou ainda eram designados aos templos.

Os escravos na antiguidade eram inimigos conquistados nas batalhas. Assim foi entre os sunitas, xiitas, persas e hindus, dentre outros. Os assírios vangloriavam-se de escravizar cidades inteiras, por isso tinham grande quantidade de escravos, eram amos essencialmente cruéis, não só no tratamento. Matavam por qualquer coisa e o castigo mais freqüente era a mutilação. Os traficantes mais famosos da época eram fenícios. Eles empregavam os escravos na exploração de suas minas espanholas e na construção de cidades.

Na China e no Japão, havia poucos escravos, que eram como criados domésticos, considerados membros da família. A relação do escravo com seu amo era como a do homem com os deuses. Geralmente não eram maltratados, embora a morte pudesse ser o castigo por sua desobediência.

Os gregos e os romanos também seguiam a tradição escravagista; há relatos de que os helenos chegaram a empregar a pirataria para consegui-los. Os romanos os obtiveram por meio de guerras, do comércio e das dívidas. Tanto na cultura grega quanto na romana foram a base da economia, distribuídos entre a indústria, o comércio e todo tipo de trabalho. Os serventes, cozinheiros, barbeiros, músicos, agricultores e os gladiadores em Roma eram escravos.

Sobretudo em Roma, o comércio de escravos foi muito lucrativo e abundante. Havia tantos escravos que se chegou a pensar em uniformizá-los, mas a idéia foi rejeitada por medo de que se vendo tão numerosos, estes poderiam revoltar-se contra seus amos. De qualquer forma, isso chegou a ocorrer em três ocasiões. Foram as chamadas “guerras servis”. A última foi a encabeçada pelo trácio Espartaco. Alguns historiadores relatam que os romanos acabaram dependendo tanto de seus escravos, relaxaram tanto, que esta pode ter sido uma das causas da queda do Império.

As invasões “bárbaras” puseram fim à escravidão mais ou menos “civilizada”, já que os vencedores retomaram a crueldade dos assírios para com seus escravos. Precisamente, a atual palavra “escravo” provém de “eslavo”. Estes e os tártaros foram os amos mais tiranos e cruéis da história.

Entre os primeiros cristãos, a escravidão não foi muito importante, mas pouco a pouco foi-se impondo no sistema romano. Com o passar do tempo, transformou-se em servidão medieval. Esta perdurou até a expansão naval “moderna” e o desenvolvimento do comércio internacional, sobretudo com o sistema de plantações na América.

Desde o final do século XV e início do XVI, o comércio de escravos caiu na mão de europeus, voltando-se à “tradição bíblica” sobre Cam e seus descendentes de cor escura. Foi no século XIX que começou o movimento abolicionista, não chegando a sua total culminação senão no primeiro quarto do século XX, ao menos dentre os povos civilizados.

Rosa Torres

DA PROFUNDIDADE DA HISTÓRIA – Um muro no deserto

Já sou apenas alguns adobes mal encaixados, mas faz 2600 anos que resisto a todos os ventos do deserto.

Fui construído por Justiniano, como um quartel vigiando o Eufrates. Abriguei as tropas romanas que protegiam a fronteira e fui testemunha de batalhas, de longas rondas da guarda e de suspiros dos homens que recordavam suas famílias tão distantes.

Guardei armas e armaduras, medos e exaltações, dores e risos, reuniões de guerreiros bebendo ao redor da fogueira, bem como de irmandades de espadas e escudos.

Passaram sobre mim as estrelas, as luas e os sois do deserto que ardiam contra minhas paredes e meu teto.

Fiquei vazio. Sem os soldados, sem os ruídos das armas. Apenas o vento. Só a companhia de alguma caravana, que voltava a ascender uma fogueira, deixava-me ouvir os sons das vozes humanas.

Resta tão pouco de mim… Pergunto-me, e pergunto aos gênios das areias, quanto tempo tardarão para se desfazerem os adobes que me restam, tão instáveis, tão deformados, tão mal apoiados uns sobre os outros.

Nem eu mesmo sei como ainda agüento. Penso que me mantenho porque aqui absorvi, como água da chuva, o espírito dos guerreiros que me habitaram. Eles, feridos, se mantinham em pé até que a última sombra nublasse seus olhos.

Com o corpo transpassado por espadas, ainda eram capazes de brandir a sua e de morrer quase de pé.

Estou seguro de que o valor desses guerreiros está em minhas paredes, e isso me ensinou a resistir, a não cair, a manter-me firme como uma rocha.

O que me resta. Em pé.

Velho quartel de Justiniano, eu também sou soldado, eu resisto, aprendi. Quando meu último resto se desmoronar, serei um monte de escombros.

E entre eles, um espírito ainda deixará ouvir sua voz:

“Eu pertenço à História”.

“Eu sou um velho guardião da fronteira”.
Mª Ángeles Fernández

Música celta

A cultura celta se identifica geograficamente e historicamente com certos países ou lugares que são chamados conjuntamente de “keltia”; ao Noroeste da Espanha, bem como na Irlanda, Inglaterra, Escócia, Bretanha Armoricana, e as colônias em parte descendentes desses povos, como Canadá, EUA e Austrália.

A música celta como um ser vivo está em constante evolução, ao encontra-se relegada à memória humana e dado que em épocas antigas não havia meios para registrá-la, acabou esquecendo em grande parte sua origem ancestral, não só quanto a melodias, mas também quanto à composição de seus típicos instrumentos musicais.

Um passo fundamental que fez ressurgir em nossa história mais recente a música celta foi o fenômeno chamado Renascimento Celta, que aconteceu no início do século XX nas Ilhas Britânicas.

Até então, a música celta, entre outros muitos aspectos desta cultura, estava se esfumaçando. As tradições clássicas não eram transmitidas dos mais velhos a seus descendentes, os quais se mudavam para as grandes cidades em busca de modos de vida mais factíveis e inovadores.

Tudo o que era celta era considerado como “cultura residual”. O único válido era o novo, pois se acreditava que dos antigos ensinamentos não se podia extrair nada válido. No entanto, algumas pessoas conscientes de que o essencial não depende de modas para enriquecer o ser humano promoveram, a partir da Irlanda, o regaste dessa herança ancestral.

Assim surgiu um ponto de partida que se estenderia por todo o território celta: druidas, bardos, Deuses, poesias, épica, canções e instrumentos antigos retomaram seu lugar. A arte renascia e, com ela, muito timidamente, a música.

Ao redor dos anos quarenta foram recompiladas canções ancestrais para difundi-las em estações de rádio dublinesas. Este foi um árduo trabalho, pois, sendo música tradicional, poucos eram músicos instruídos no pentagrama. Como se fosse um costume indireto, os descendentes celtas transmitiam letras e melodias que sabiam de cor, de instrutor a instruído, o que fez com que muitas canções antigas se modificassem ao longo do tempo.

Na década de oitenta é quando a música celta se arraiga e cresce por toda a Europa devido a pequenas associações e pessoas desinteressadas que a fomentam.

Nos anos noventa, a música celta já não é desconhecida. Na Espanha os precursores foram os galegos.

Modas como a New Age deram um enfoque diferente, com sintetizadores, aos sons ancestrais.

Hoje em dia existem inúmeros estilos musicais, que nem sequer são conhecidos popularmente devido ao seu grande número. Eles não costumam durar muito nas listas de moda. Vêm e vão transitoriamente, trazendo um sentido lúdico a seus ouvintes.

A cultura musical clássica celta nos traz, desde milênios atrás, ensinamentos relacionados com a forma com que o ser humano se perguntava acerca dele mesmo e da Natureza que o rodeava.

Esse fato de enriquecermos interiormente e exteriormente com a música é um fato de que se fala em todos os povos antigos, que chegavam a relacionar o som com a coesão que mantem e cria todas as formas de vida. Assim eles se colocavam em contato com a harmonia da Natureza.

No antigo mundo celta havia uma figura encarregada de tal missão: o bardo. Eram poetas e guerreiros. Encarregados de transmitir os conhecimentos sagrados, eram os que abriam as cerimônias, pois se portavam como mediadores entre o mundo do além e este, e tampouco hesitava em fazer uso da espada na batalha. Representavam perante os demais o fogo que fazia a coesão e união do clã, como o fogo no lar.

A música e sua origem sempre tiveram relação com o mágico, com o mundo dos deuses, dos heróis, com realidades superiores. Esta é uma constante na história do homem e da música. A música como Arte é um elemento unificador, pois nos faz sonhar, chorar, rir ou nos animar quando a escutamos sobre a mesma batuta.

Assim entenderam os antigos povos celtas e refletiram em seus instrumentos musicais. Quem sabe, entre todos eles, o que simboliza melhor essa cultura é a harpa.

Até nós chega a imagem da harpa, sempre ligada ao bardo, que efetivamente jamais se separava dela. Mas onde surge realmente esse instrumento? A representação mais antiga que se conhece é datada de 3000 a. C., em esculturas gregas das ilhas Cícladas. Também sabemos que em 600 a. C. os celtas tocavam uma pequena harpa parecida com a lira, que na Irlanda se chama Clairséach.

Entretanto, César, na Guerra das Gálias, relata-nos como os celtas galícios tinham harpas gigantes de até dois metros de altura que colocavam em lugares estratégicos, como em cima dos montes, para amedrontar os romanos invasores com seu som.

Durante centenas de anos, de 1200 a 1500 d. C., os harpistas britânicos em geral desfrutavam do respeito e da admiração de todos, até que em 1603 a Rainha Isabel I da Inglaterra ordenou enforcar todos os harpistas e queimar suas harpas como medida de repressão política durante a invasão inglesa na Irlanda.

O certo é que a harpa que chega até nós sofreu numerosas aventuras e transformações; originalmente, o número de cordas da harpa bárdica oscilava entre 28 e 34, feitas de metal, tocadas com as unhas. Desapareceu faz duzentos anos. As atuais têm cordas de nylon ou de tripa de animal, que lhe dão um som mais atrompetado. É mais larga por baixo para ter maior ressonância.

A harpa também chegou no Sul da América, levada por conquistadores espanhóis. É a harpa chamada Índia.

A partir de 1700 a influência da música veneziana renascentista se deixa sentir em grande medida em todo o mundo.

O violino é chamado fiddle na irlanda. Chegou à Europa Ocidental aproximadamente em 1700, da Itália, guiado pela mesma corrente renascentista que inspirou os harpistas, e passou a ser reconhecido como o instrumento de festa celta por excelência.

A flauta é um dos instrumentos celtas mais antigos. Originalmente era de madeira, com buracos de diversos tamanhos. Isto lhe dava um característico som oco, inclusive se ouvia o ar circular dentro do instrumento.

Foi popularizada em 1800, começaram a construir em metal com 6 buracos e seu som já não é o mesmo.

Quanto à gaita, tampouco está clara a sua origem. Os celtas a adotaram de alguma outra cultura. Há historiadores que nos contam que já se usava o antecessor da gaita em Esparta, à frente dos exércitos, os quais a haviam herdado do Egito, e esta, por sua vez, da Mesopotâmia.

Também passou por Roma este antecessor da gaita; era a tíbia utriculares, destinada ao papel bélico, como a corneta ou clarim, que reunia a cavalaria.

Hoje em dia existem muitos modelos de gaitas. As escocesas são mais sonoras. A irlandesa, chamada Uillean Pipe, é similar, mas tem um peculiar zumbido ou vibração. Na Inglaterra está a chamada Northtumbrian small pipe ou “pequena gaita do Norte”.

Na Bretanha se toca o Binou. Na Espanha, nas regiões celtas (Galícia, Astúrias, Cantábria…) se chama às vezes Cornamusa, e são muito parecidas com as escocesas.

Em Aragon é conhecida a antiga gaita de fole, usada como acompanhamento em bailes tradicionais. Em Huesca elas eram fabricadas pelos pastores com pelo de cabrito e madeira de cerejeira, e como elemento mágico as adornavam com pêlo de cobra.

O instrumento que marca o passo das melodias é o Bodhrán, que significa “surdo” na Irlanda. É um tambor feito de pele de carneiro, que logo se expandiu para outros lugares. Usado antigamente com motivos rituais, costumava acompanhar as gaitas.

Em épocas mais recentes foram acrescentados outros instrumentos, como o acordeom, em 1800. O que é usado geralmente para a música celta é a concertina, que tem teclados de ambos os lados em formato hexagonal.

Também há o banjo, da mesma época. Nasceu na África, mas se desenvolveu na América do Norte junto aos colonos britânicos.

Quanto à percussão, encontramos os tambores gigantes da Irlanda do Norte, os ossos, as colheres…

As últimas inovações em instrumentos musicais, graças aos avanços técnicos, são os sintetizadores, o violino e a gaita elétrica.

Ao longo da história, este rico estilo musical teve épocas de esplendor e de sombras. Sabemos que está presente em diferentes paises e que em cada um deles tem passado por uma evolução diferente. Entretanto, como se estivessem dotados de vida, como as mãos que lhes arrancaram suas melodias, dizem-nos repetidas vezes que a mensagem que passa através de seus corpos tem sido uma mensagem de conhecimento e harmonia para todos.

Claudia Amador

10 Razões para visitar Tarragona:

1 – Torre Romana

Herança da original Tarraco, uma das cidades mais impressionantes do Mediterrâneo antigo. Integrada ao atual Museu Arqueológico, é um bom ponto de partida para conhecer a evolução urbanística da cidade desde suas origens romanas, passando por sua expansão medieval até sua configuração moderna.

2 – Muralhas Romanas

O passado histórico de Tarragona está presente em cada canto da cidade. Um belo exemplo do correr dos anos constitui o chamado passeio arqueológico ao redor de suas muralhas romanas, que na realidade só tem de romanas as suas bases. Sobre elas se fizeram construções dos séculos XIV e XVIII.

3 – Varandas do Mediterrâneo

Ainda que de pequenas dimensões, este passeio marítimo oferece uma bela vista panorâmica sobre a costa, que recorda o caráter eminentemente mediterrâneo e portuário desta cidade recentemente declarada pela UNESCO Patrimônio da Humanidade. O Sol e a brisa marinha deste lugar fazem maravilhas com o espírito.

4- Circo Romano

Construído no século I, foi o emblema da cidade e de sua importância como capital romana. Sepultado durante séculos sob as construções urbanas, as escavações trouxeram à tona construções grandiosas e em bom estado de conservação. Impressiona percorrer a galeria subterrânea e imaginar lá fora a gritaria da multidão.

5 – Anfiteatro

Também construído pelos romanos no século II, está situado em um lugar esplêndido, de frente para o mar. Até o final de seus dias serviu de divertimento com suas lutas de gladiadores. Uma infeliz construção visigótica do século VI e uma igreja românica recordam o martírio do bispo Frutuoso.

6 – Zona histórica medieval

Sem a monumentalidade dos edifícios romanos, destaca-se a Catedral Gótica e seu claustro, edificados entre os séculos XII e XIV. Também convêm visitar o antigo hospital, com sua entrada românico-gótica, o antigo mercado medieval, integrado em um moderno edifício, e os arcos góticos, vestígios do bairro judeu.

7 – Necrópole Paleocristã

Ainda que este tipo de lugar seja único no mundo, será uma ingrata surpresa  descobrir que suas instalações estão fechadas ao público e podem ser vistas apenas de uma grade distante. Para te consolar, poderá pagar uma entrada exorbitante para visitar uma única sala com pobres restos arqueológicos e umas fotografias.

8 – Museus

Ainda que não sejam muitos, a maioria está montada com bastante imaginação. O palácio da família Castellarnau, do século XIV, conserva decorações e mobiliário de até o século XVIII. Também merecem uma visita a coleção de armas antigas, com exemplares dos séculos XVII a XIX, e o histórico do Porto de Tarragona.

9 – Fora da cidade

Os restos romanos se estendem por toda a província. O mais famoso é o aqueduto de Lês Ferreres, conhecido como A Ponte do Diabo, mas também são visitas imprescindíveis a vila e termas de Centcelles, a Torre funerária dos Escipiones, a vila de Altafulla, o Arco de Bará e as pedreiras do Medol.

10 – Espaços Naturais

Quase todos situados na costa, merecem atenção suas agrestes praias. A mais famosa talvez, a de Salou, popularizada pela construção em suas imediações do parque temático Port Aventura, não é entretanto das mais belas. Não deixe de visitar o delta do Ebro, um verdadeiro ecossistema cheio de vida.

Juan Adrada

Os Três Mosqueteiros

Empunhem o florete, cruzemos este umbral e adentremos umas vidas de lendas.

Recordo que em minha mais terna infância eu já sonhava com cavaleiros e mosqueteiros. Em minha imaginação infantil corria mil e uma aventuras em defesa de princesas e em luta contra inimigos. Com um galho de oliveira, que previamente me cortava com esmero no campo, protegia-me em luta sangrenta contra galinhas e gatos, únicos inimigos que encontrava a minha disposição. Os anos se passaram, a vida também, mas é uma boa lembrança que eu guardo como um tesouro. O mais interessante de tudo isso é que tudo aquilo que provocava e incentivava a minha imaginação de certa forma era histórico.

A célebre obra de Alejandro Dumas está baseada em personagens e feitos reais.

Corria o ano de 1600 quando o rei Enrique IV da França fundou um corpo de guarda cujo fim era sua proteção. Este grupo era armado de carabinas e recebeu o nome de carabineiros. Posteriormente, Luis XIII os rearmou com mosquetes e os integrou dentro de uma unidade maior de lanças. Receberam então o nome que tanta fortuna teve: Os Mosqueteiros do Rei. Sua vida foi frustrada; dissolvidos e incorporados em várias ocasiões, desapareceram finalmente em Waterloo. Seu número poucas vezes superou 150 homens. Evidentemente a importância histórica deste grupo é insignificante, e se se transformou em um dos grupo militares mais famosos do mundo, isso se deve a histórias de aventuras de seus membros, narradas pelo genial Dumas. Ainda que, se devemos ser justos, não foi Dumas o primeiro que narrou os feitos desses valentes espadachins. Em 1700 apareceram publicadas em Colônia e Amsterdã as Memórias de M. Dartanhã. Obra realizada por um escritor chamado Gatien de Courlilz de Sandras. O certo é que Gatien teve uma interessante e agitada vida, pois foi realmente mosqueteiro. Encarcerado na Bastilha, escreveu uma série de novelas, inventando biografias. O interessante destes escritos fictícios é que estavam baseados em experiências reais vividas pelo próprio escritor e contadas por companheiros de armas.

Os leitores ficam presos pelas histórias habilmente tecidas por Gatien, que mistura seu conhecimento real da vida de soldado profissional e a ficção de aventuras. Alejandro Dumas, em 1848, quis manter a ficção e apresentou a novela como feitos verdadeiros. Dartanhã nunca existiu, mas sim o personagem em que se basearam os dois escritores, e o Dartanhã real se chamava Charles Batz, ainda que, depois de herdar do pai umas terras em Castelmore, seu sobrenome se modificou e ele passou a ser chamado de C. Batz-Castelmore.

Como seu irmão mais velho, o jovem Charles foi mosqueteiro por volta de 1638-1640; Dumas o faz existir em Paris 20 anos antes. Os companheiros da novela também existiram; assim, Aramis foi um cavaleiro chamado Henry d’Aramitz, dedicado ao sacerdócio laico na companhia de mosqueteiros, e que era sobrinho do chefe dos Mosqueteiros, o senhor Treville.  Armand de Sillegue, senhor de Athos, também existiu e morreu em um duelo anos antes da chegada de Charles Barz (o Dartanhã da novela), e o terceiro mosqueteiro se chamava Isaac de Portou (o Porto de Dumas). Sigamos com os personagens e seu reflexo histórico e real: Milady era na realidade a condessa de Carlisle, e, sim, foi um agente secreto de sua Excelência o Cardeal Richelieu, cuja missão mais famosa foi o roubo dos diamantes do Duque de Buckingham. A realidade nos depara estas surpresas.

Charles Batz foi muito querido entre seus companheiros e mostrou sempre uma coragem e temeridade lendárias. Era impetuoso e já na primeira saída como mosqueteiro regressou ao quartel com vários orifícios de bala na roupa e no chapéu. Um tipo com sorte apesar de tudo, distinguido nas ações de guerra nos anos 1642 e 1640. Depois de uma das dissoluções dos mosqueteiros em 1646, entrou para o serviço do Cardeal Richelieu e, depois da morte deste, ficou sob a direção do também cardeal Mazarino. Morreu em 1673, em uma idade considerável, na sede de Mastrich.

Fermín Castro

PESQUISA CIENTÍFICA – Que culpa tem o tomate?

Nesta ocasião nos referimos a uma recente notícia científica que nos parece interessante: uma equipe de pesquisadores alemães e israelenses descobriu nos tomates silvestres fragmentos de DNA que poderiam permitir o desenvolvimento de melhores tomates cultivados.

Efetivamente, todos comentam que os tomates que consumimos atualmente “já não têm sabor como os de antigamente”.

Inclusive, temos um amigo ou conhecido que possui uma pequena horta e que algumas vezes nos dá tomates com um sabor mais diferenciado. Achamos que este tomate não tem fertilizantes químicos, ou que são recolhidos já maduros da mata e não verdes para amadurecerem a base de conservantes. Mas, claro, o custo do cultivo destes tomates é muito elevado e não se poderiam produzir em massa como os que compramos nos supermercados. E o tomate se converteu em um produto de elevado consumo. Em 2004 se colheram mundialmente 120.000 toneladas de tomates, e todos os anos este número aumenta.

Esta planta, originária da América, é um importante nutriente para os humanos. Numerosos estudos médicos têm mostrado o valor que os tomates têm para nossa saúde. O licopeno ou caroteno vermelho, o pigmento que dá essa cor aos tomates, é antioxidante e pode prevenir enfermidades do coração e do sistema circulatório. Os tomates fortalecem nosso sistema imunológico e são ricos em vitaminas C e E. Mas depois de séculos de cultivo para obter a forma, a cor e demais traços que o fazem idôneos como alimento, nossos tomates atuais de horta são de pouca diversidade genética, em comparação com os tipos silvestres. Isso acabou afetando seu sabor e seus benefícios para a saúde.

Pesquisadores do Instituto Max Planck de Fisiologia Molecular das Plantas, em cooperação com cientistas da Universidade Hebraica em Jerusalém, identificaram os fragmentos de DNA que os fazem saudáveis e saborosos. Os pesquisadores cruzaram os tomates silvestres com os cultivados, e depois analisaram os constituintes e a composição genética do híbrido.

Para levar a cabo a investigação, mudou-se a composição genética tecnologicamente. Começaram por estudar as variedades de tomates criadas pelo cruzamento de tipos cultivados e silvestres para identificar a composição bioquímica dos frutos e determinar que fatores controlam seu desenvolvimento. Utilizando uma combinação de espectrometria de massas e cromatografia de gases para a análise da composição de amostras biológicas, puderam analisar rápida e simultaneamente os aminoácidos do fruto, assim como seus ácidos orgânicos, vitaminas e açúcares. Estes constituintes têm uma grande influência no sabor dos tomates.

O Dr. Alisdair Fernie, diretor da equipe de pesquisadores, descobriu que havia 880 variações na composição dos constituintes dos descendentes produzidos mediante o cruzamento de tomates de horta e tomates silvestres. Assim se puderam identificar partes dos genomas dos tomates, responsáveis pelas mudanças bioquímicas. Os resultados desse estudo poderiam tornar possível no futuro cruzar tomates silvestres com tomates de cultivo de uma maneira especificamente dirigida para obter variedades mais nutritivas. Quem sabe estes pesquisadores alemães se inspiraram em algumas de suas viagem em Almeria pelo sabor do famoso tomate “raf”? Serão capazes de devolver este sabor , como era antes, quando as verduras e as frutas tinham sabor mais acentuado? Esperemos que consigam o mesmo com os pêssegos, as melancias, as cenouras, etc.

Mais informações no site do Instituto Max Planck: http://www.mpg.de

Khalil Gibran e Mayy Zidayeh

“Senhora Falcão” no século XX

Não sou daqueles que encontram momentos desocupados em seus dias e suas noites, e os enchem de passatempos amorosos, nem daqueles que minimizam os segredos de seus espíritos e os mistérios de seus corações, e os espalham ante qualquer vento que sopra. Preocupo-me muito, como todos os homens que têm muitas preocupações. Anseio o grande, o nobre, o belo, o puro…

Carta de Gibran à Mayy, 1923

Poeta libanês falecido em 1931 e mundialmente conhecido por seu livro “O Profeta”. Queremos prestar uma homenagem ao amor que presidiu sua vida, e que recorda de algum modo uma bela lenda transmitida pelo cinema em 1985. Dirigida por Richard Donner e protagonizada por Michelle Pfeiffer, “Senhora Falcão” ou “O feitiço de Áquila” conta a história de um casal paixonado, vítimas de um feitiço e condenados a nunca mais se verem: ela, transformada em falcão durante o dia, acompanha de maneira inseparável o cavalheiro, mas ao chegar a noite, ele se transforma em lobo, justo quando a dama recupera sua aparência feminina.

Algo semelhante ocorreu com Khalil Gibran e Mayy Ziyadeh. Quando Gibran publica em 1912 seu romance “Asas Partidas”, Mayy lhe envia uma primeira carta, contando sua admiração pelo livro. Ele se apressa em responder e assim se inicia uma correspondência que durou quase 20 anos, até o final da vida do poeta.

O fato de eles nunca terem se encontrado é algo que nos chama a atenção, e nos leva a pensar que a distância da amada foi o fogo que alimentou constantemente a obra universal do artista, dando lugar as suas melhores criações. Como ele próprio afirma em uma de suas cartas: O amigo ausente pode estar mais próximo do que o amigo presente. A colina não é mais impressionante e de mais clara aparência para aquele que marcha pela planície do que para aquele que vive nela?

Ele, o Lobo. Deixou sua pátria pela última vez em 1903, (como ele desejou a volta!), mas as circunstâncias, sempre à espreita, obrigaram-no a permanecer nos Estados Unidos. E, apesar de ter dedicado grandes esforços à revitalização da cultura árabe, Gibran se considerou consagrado à causa da Humanidade, e une a sua magnífica personalidade de escritor, com a de pintor e desenhista, deixando refletida na sua obra todo o encanto do Oriente e do Ocidente, com traços românticos e clássicos, eminentemente simbólicos e idealistas.

Entre suas obras mais conhecidas se destacam “O profeta”, “O jardim do profeta”, “O louco”, “A Procissão”, “As ninfas dos vales”, “Areia e espuma”, etc. Ela, o Falcão. Nascida na cidade de Nazareth, de aguda inteligência, com inclinação à ciência e com grande memória, falava pouco devido a sua tendência natural à reflexão.

Quando sua família se mudou ao Egito já conhecia vários idiomas e em 1911 ingressou na Universidade do Cairo, sendo a primeira mulher árabe da Faculdade de Letras. Além de ter sido famosa como oradora em diversas capitais árabes, assim como por suas salas literárias: durante aproximadamente quinze anos, todas as terças-feiras à tarde, abriu sua casa para receber escritores e poetas, pois o fato de conhecer perfeitamente cinco idiomas lhe permitia ser anfitriã de uma grande quantidade de personalidades, tanto árabes como estrangeiras.

Por que não chegaram a se encontrar? Em uma época na qual quase a totalidade das mulheres árabes viviam veladas, com exceção de uma minoria, ela, Mayy Ziyadeh, a jornalista liberal, a ousada escritora e oradora, viveu prisioneira da educação conservadora de então, que censurava o fato de uma jovem declarar seus sentimentos. E ainda quando Gibran lhe revela em suas cartas o belo e puro sentimento que sente por ela, sua alma feminina oscila entre avançar e retroceder, sem poder se livrar das correntes que lhe atam.

As cartas

O conjunto das cartas que o poeta escreveu à mulher que amou, e que ela se atreveu a publicar após sua morte, constitui uma maravilhosa literatura epistolar que nos revela um Gibran íntimo e sincero. Também nos faz sentir saudade dessa prática tranqüila e quase perdida da “velha arte de escrever cartas”, nas quais – frente à superficialidade das comunicações atuais – tinha cabida a expressão da alma, já que na distância trata-se de evitar o vulgar para aproximar-se do melhor de si mesmo.

11 de junho de 1919

Minha querida senhorita Mayy:

Volto de uma prolongada viagem ao campo e estou com suas três cartas. Deixei tudo que estava me esperando neste escritório, para passar o dia atento as suas palavras…

(No entanto, a linguagem escrita dificulta às vezes o entendimento entre ambos) (…) Amiga minha, coloquemos nossas diferenças – a maioria das quais são verbais – num Cofre de Ouro, e lancemo-las ao Mar dos Sorrisos. Se já há sete mil milhas que nos separam, não acrescentemos nem um palmo a mais a esta enorme distância, melhor: tentemos encurtá-la através do anseio da fonte e da sede de eternidade. (…) Quando comentas sobre os desenhos do meu livro, como podes dizer: “Vocês, os artistas…”? Tu, Mayy, és uma de nós e estás entre nós. Tu te encontras entre os filhos e filhas da arte, como a flor está entre as folhas. Do contrário, diz-me, Mayy, diz-me como aprendestes tudo que sabes, e em que mundo se reuniram esses tesouros da tua alma, em que época viveu teu espírito antes de chegar ao Líbano. No espírito há um segredo mais profundo que o da vida…

25 de julho de 1919

Desde que te escrevi até agora, a tive presente comigo. Passei longas horas pensando em ti, falando contigo, interrogando teus mistérios e me informando sobre teus segredos. E é assombroso o fato de, freqüentemente, eu sentir a presença da tua essência etérea neste escritório espiando meus movimentos, dirigindo-se a mim, rodeando-me, manifestando sua opinião sobre minha conduta e meus atos.

Uma vez me dissestes: “Entre as mentes não se dá uma conversação e não se produz um intercâmbio entre as idéias, que a apreensão sensorial não possa efetuar?”.

Ultimamente, tem sido evidente para mim a existência de um vínculo intelectual sutil, vigoroso, diferente, cuja natureza e influência diferem das de qualquer outro, pois é mais intenso, sólido e permanente; não comparável aos laços de sangue, biológicos ou morais. Nem um só dos fios deste laço está tecido pelos dias e noites que passam entre o berço e o sepulcro, pois entre duas pessoas pode acontecer o que nem o passado nem o presente fizeram e que quiçá nem o futuro fará.

Neste vínculo, Mayy, a alma guarda um oculto entendimento mútuo, algo como uma profunda canção tranqüila que ouvimos na calmaria da noite e que nos traslada para além do dia, do tempo, da eternidade…

9 de novembro de 1919

Passei os meses de verão em uma casa isolada, erguida como um sonho entre o mar e o bosque…

(…) Eu ouvi, desde o mar e pela primeira vez, a conversação do Tempo, quando eu tinha oito anos e ficava perplexo comigo mesmo. Então, revestia-me da minha vida e começava a enfrentar a paciência da minha falecida mãe com minhas muitas perguntas. Essa é a voz que escuto hoje, perguntando as mesmas coisas, mas à Mãe total, que me responde sem palavras e me faz compreender coisas que, cada vez que tentei manifestá-las aos demais, transformavam-se em profundo silêncio ao ser proferidas pela minha boca. Hoje, estou sentado à beira-mar, olhando o ponto mais distante do horizonte azul e fazendo igualmente mil e uma perguntas. Haverá alguém nesta terra que as responda? Abrir-se-ão as portas do tempo, ainda que seja apenas por um segundo, para que vejamos os segredos e enigmas que existem por detrás delas?…

28 de janeiro de 1920

Permita-me dizer-lhe, novamente, que eu odeio a ironia, sutil ou não, entre amigos, e a hipocrisia e a falsidade em todas as coisas, e odeio porque vejo nisso as conseqüências da civilização das máquinas, que anda sobre rodas porque está sem asas…

(…) No entanto tu, Mayy, és uma das filhas da nova manhã. Por que não despertas os adormecidos? A garota dotada ocupou e ocupará o posto de mil homens capacitados. Não duvido de que se chamas essas almas perdidas, perplexas e escravizadas, com a força da constância despertará nelas a vida, a determinação, o desejo de subir a montanha. Faça isso e confie no fato de que quem alimenta com azeite uma lâmpada enche a casa de luz…

21 de maio de 1921

(…) Tu, Mayy, és um dos tesouros da vida e, agradeço a Deus o fato de que sejas de uma nação a qual eu pertenço, e vivas num tempo no qual eu vivo. Cada vez que te imagino vivendo no século passado ou no futuro, ergo minha mão e a agito no ar, como querendo dissipar uma nuvem de fumaça diante do meu rosto…

5 de outubro de 1923

Não, Mayy, não temos que nos censurar, mas sim nos entender. E isso não é possível se não falamos com a simplicidade das crianças. Tu e eu sabemos que amizade e “redação” não concordam facilmente. O coração, Mayy, é simples, e as manifestações do coração são elementos simples. Mas escrever é um composto social, o que dirias se deixamos a “redação” por uma palavra simples?

“Vives em mim e eu vivo em ti; sabes disso, e eu o sei”.

O que nos impedia de pronunciar estas palavras no ano passado? A vergonha, o orgulho, os convencionalismos ou o quê? Desde o princípio sabíamos esta verdade básica, por quê, então, não a manifestamos com a sinceridade dos crentes autênticos e livres? (…) Digo, Mayy, e te afirmo ante o céu e a terra e o que há entre ambos, que não sou daqueles que encontram momentos desocupados em seus dias e suas noites, e os enchem de passatempos amorosos, nem daqueles que minimizam os segredos dos seus espíritos e os mistérios de seus corações, e os espalham ante qualquer vento que sopra. Preocupo-me muito, como todos os homens que têm muitas preocupações. Anseio o grande, o nobre, o belo, o puro, como alguns homens, e sou um estranho solitário e selvagem como outros, apesar de meus setenta mil amigos e amigas. Como alguns homens também, não me inclino por essas acrobacias sexuais conhecidas pelas pessoas com bons nomes e epítetos ainda melhores. Eu, Mayy, como teu próximo, amo Deus, a vida, as pessoas, sem que até agora, os dias tenham exigido que eu desempenhe um papel inadequado aos nossos semelhantes.

Mas te escrevi e me respondeste receosa… Ai, se soubesses quão cansado estou do inecessário! Se soubesses o quanto necessito da simplicidade! Se soubesses a nostalgia de absoluto que sinto, de um absoluto branco, do absoluto na tempestade, do absoluto sobre a cruz, do absoluto que chora sem verter suas lágrimas, que ri sem se envergonhar do seu riso! Se soubesses, se soubesses!…

8 de Outubro de 1923

(A carta contém duas fotografias, escritas no anverso).

Diga-me, já vistes em tua vida dois rostos mais belos do que estes? Eu acredito que são a mais elevada manifestação da arte grega, quando a arte grega estava no ápice. Sempre que visito Washington, vou ao Museu e me encaminho diretamente à Sala Grega. Sento-me um pouco diante dos dois rostos, e logo saio sem olhar nem para a direita nem para a esquerda, para não perturbar a visão desta beleza sagrada com outra.

Deus faça feliz a manhã do doce e belo rosto.

Em 10 de abril de 1931, tão-somente duas semanas antes da partida definitiva de Gibran ao Absoluto que almejava, o correio entregou em mãos de Mayy uma última carta contendo um desenho e uma simples dedicatória: À Mayy, de Gibran, afirmando-lhe que essa chama azul de ambos jamais se apagaria.

Na segurança de que sua luz ilumina desde então milhares de corações, extraímos de um de seus maravilhosos livros as palavras do próprio Gibran, que trazem às nossas consciências lembranças do futuro:

Vim dizer uma palabra e a direi agora. E, se a morte se opõe, será pronunciada pelo Amanhã, porque o Amanhã nunca deixa um segredo no livro da Eternidade.

Vim viver na glória do Amor e à luz da Beleza, reflexos de Deus. Aqui estou, vivo, e não hei de ser destronado do domínio da vida, porque através da minha palavra vivente viverei na morte.

Vim aqui para ser de todos e estar junto de todos, e o que faça hoje na minha solidão repercutirá amanhã nos ecos da multidão.

O que digo agora com um só coração será repetido amanhã por milhares de corações.

Bibliografia

Obras completas de Khalil Gibran. Edicomunicação S.A., Barcelona

Obras Seletas, Gibran. Ed. Mateos

Cartas de amor. Kahlil Gibran. Edições de Bronze

Chama Azul. Cartas inéditas à Mayy Ziyadeh. Instituto Hispano-Árabe de Cultura. Madri.

Mª Teresa Cubas

Buscar a Arte – O carro de feno

Jerônimo Bosch

Museu do Prado, Madri

Este quadro é a primeira pintura de Jerônimo Bosch, para o qual se inspirou numa frase de Flandes que diz: “O mundo é um monte de feno onde cada qual pega o que pode”. O pintor diz que o que se pode tomar do mundo são desastres.

O carro, o feno, que são os bens materiais, ocupam o centro da tela. No lado direito está o inferno e um grupo de seres monstruosos arrastam o carro a ele, com grandes focinhos depredadores, possivelmente personificações dos pecados. O carro, simbolizando a riqueza, não hesita em destruir tudo que está em seu caminho, assim como o homem que atropela com a roda dianteira. Uma multidão lhe segue, e os que podem arrancam punhados de feno, com as mãos, com ganchos, tentando subir com escadas, lutando por poder se aproximar. Atrás, impassíveis, mas no rastro, vão os poderosos: o Papa, o Imperador, o Rei e seus séquitos. Não importam as religiões: também há um muçulmano no grupo, e um homem no meio tenta detê-lo.

Sobre o carro há um anjo e um demônio: da sua maneira, lutam, um com a oração, outro com tentações, um para distanciar os homens da riqueza, outro para aproximá-los. Entre eles, o Ócio e a Luxúria.

Na zona inferior, um grupo de mulheres estão acompanhadas por um porco, não são santas precisamente, apesar das suas vestimentas decentes. Um monge roliço, que se dispõe a beber e ante o qual há sacos cheios de feno que são oferecidos por uma freira a um gaiteiro…

No lado esquerdo está o Paraíso, onde nasceu o pecado que arrasta o Carro de Feno: o anjo expulsa Adão e Eva a esse mundo.

Tecnicamente, como toda a obra de Bosch, é de um preciosismo impressionante, de uma minuciosidade extrema e um colorido explosivo. Cada um dos personagens exige um bom tempo, para analisá-lo, em suma, para disfrutá-lo. É fascinante o inferno com suas ruínas no fundo, o paraíso con seus estranhos insetos voadores.

Um sonho para se analisar num espaço muito maior.

Mª Ángeles Fernández

A dor

Por que os homens sofrem?

Por que existe a dor?

Há uma pergunta que, silenciosamente ou em voz alta, costumamos nos formular várias vezes por dia, muitas, demasiadas vezes na vida. Por que os homens sofrem? Por que existe a dor?

Esta pergunta assinala uma realidade, da qual nos é impossível escapar. Todos sofrem; por uma ou outra razão, todos sangram em seu coração e tentam inutilmente apressar uma felicidade concebida como uma sucessão ininterrupta de prazeres e satisfações.

Lembro-me de uma parábola do budismo que sempre me impressionou; aparece nos livros sob o nome de “O grão de mostarda”. E, em síntese, reflete a dor de uma mãe que perdeu seu filho e que, no entanto, espera voltar a vê-lo em vida graças às artes mágicas do Buda. Este não desanima a mãe. Apenas lhe pede que, para ressuscitar seu filho lhe consiga um grão de mostarda obtido de uma lar onde não se conheça a desgraça…

O final da parábola é evidente: o grão de mostarda, esse grão tão especial, jamais aparecerá, e a dor da mãe se verá mitigado, em parte, ao comprovar quantos e quão grandes são também os sofrimentos de todos os demais seres humanos. Porém, o fato de que todos os homens sofram, não tira nem explica a realidade do sofrimento. E outra vez nos perguntamos, por quê?

Velhos ensinamentos – mais velhos ainda que a parábola citada – nos ajudam a penetrar no intrincado labirinto da dor.

Em geral, diz-se-nos que o sofrimento é o resultado da ignorância. Assim, somamos dor atrás de dor, ou seja, aos fatos dolorosos em si, somamos o desconhecimento das causas que motivaram esses fatos: não somos capazes de chegar até as raízes das coisas para descobrir a procedência profunda daquilo que nos preocupa. Simplesmente ficamos na superfície da dor, lá onde mais se sente, e lá onde mais se manifesta a impotência para sair da armadilha. Ignoramos a causa do que nos sucede, e nos ignoramos, somando uma dupla incapacidade de ação positiva.

Também desconhecemos outras leis fundamentais da Natureza e, mais uma vez, por ignorância, acrescentamos nossa dor. Deveríamos saber que nenhuma dor é eterna, que nenhuma dor se mantém ante o embate de uma vontade construtiva. Nada, nem dor nem felicidade, pode durar eternamente no mesmo estado. Há que aprender, pois, a jogar com o Tempo para encontrar uma das possíveis saídas do labirinto.

A dor do porvir não tem cabida no presente, já que é um sofrimento inútil, antes do tempo e, talvez, sem razão de ser. É verdade que no presente já se está gestando o futuro, mas também é verdade que o temor do futuro é gérmen de futuros males; enquanto que a vontade firme e positiva dá lugar a circunstâncias mais favoráveis que também podem se gestar no presente.

A dor das coisas passadas é como tentar manter o cadáver de um ser querido em nossa casa, repetindo constantemente que não morreu, olhando mil vezes a irrealidade de um corpo que não existe e desconhecendo a outra realidade espiritual que, sim, existe.

E quanto à dor do presente, é apenas uma pontada que em breve se afunda no passado, para dar lugar ao futuro.

Por isso, um sábio dizia que nós, seres humanos, somos capazes de sofrer três vezes pela mesma coisa: esperando que aconteça, enquanto acontece e depois que aconteceu. Assim, reforça-se a tese da “ignorância como mãe de todos as dores”.

Para os orientais, seguindo com a tônica da parábola budista, “A DOR É VEÍCULO DE CONSCIÊNCIA”, o que equivale a dizer que todo sofrimento encerra um ensinamento necessário para nossa evolução.

A dor nos obriga a nos determos e a nos perguntar sobre as coisas. Sem a dor, jamais diríamos, como tantas vezes o fazemos: “Por que comigo?”, para advertir em seguida que não é “comigo” somente… Sem a dor, não nos proporíamos a indagar sobre as leis ocultas que movem todas as coisas, fatos e pessoas.

Por pouco que busquemos, encontraremos sofrimento: sofre a semente que brota para dar lugar à árvore, sofre o gelo que se derrete com o calor ou a água que se endurece com o frio, e sofre o homem que, para evoluir, tem que romper as velhas peles do seu cárcere de matéria.

Contudo, por detrás de todos estes sofrimentos, esconde-se uma felicidade desconhecida: a plenitude da semente, da água, da alma humana, que descobrem, em meio às trevas, a luz segura do seu próprio Destino.

Delia Steinberg Guzmán

César versus Vercingetorix – A batalha final da Gália

Decorria o ano 53 a. C. e Júlio César, após seis anos de batalhas que tiveram um saldo positivo frente aos gálios, havia reunido a suficiente riqueza e glória para voltar à Roma. Após árduos esforços, conseguiu pacificar a Gália, depois de dividir algumas tribos, aliar-se a outras e a outras, simplesmente eliminar, aproveitando sempre a maior debilidade dos gálios: sua falta de coordernação interna.

A guerra da Gália começou em 58 a. C, quando uma tribo Gália, aliada à Roma, os héduos, foi atacada pelos helvécios, tribo que havia sido expulsa das suas terras pelos germanos. Os héduos pediram ajuda a César, que rapidamente os ajudou expulssando os helvécios. Porém, César decidiu ficar com suas seis legiões. Isso começou a provocar inquietude entre as tribos gálias, de modo que começaram as lutas com os romanos. Lutas que foram vitoriosas para César que sempre se impôs, algumas vezes usando a força, e outras a diplomacia. A debilidade dos gálios até o ano de 53 a.C. se devia sobretudo à divisão de suas cidades, incapazes de se unir entre elas.

Entretanto, isso mudou com Vercingétorix, da tribo dos arvernos, cujo nome significa “o grande chefe dos guerreiros”, homem jovem e de grande energia, pertencente a uma das famílias mais nobres, que foi o único chefe tribal que soube convencer uma parte dos chefes gauleses sobre a necessidade de se unir sob o seu comando para enfrentar Roma. César já estava na Itália quando se viu obrigado a voltar rapidamente, atravessando os Alpes em pleno inverno, para eliminar esta nova revolta. Mas não seria tão fácil.

Com grande presteza, César foi subindo ao norte, aparecendo onde os gauleses menos o esperavam e destruindo cidades e sufocando focos rebeldes. Mas isso era o que Vercingétorix queria. Ele empregava a tática da terra queimada, que consistia em atrair César com tudo que fosse possível, evitando o combate frente a frente a todo momento, – no qual os legionários romanos seriam superiores – ao mesmo tempo que queimava e destruía cidades e campos com o objetivo de impossibilitar o sustento de César e debilitá-lo. O problema de Vercingétorix era que ele não governava um exército profissional como o de César, mas uma aliança de tribos na qual não contava com um poder total. Um primeiro problema surgiu quando uma tribo não aceitou queimar sua cidade, Avarico, mas que se obstinou em defendê-la. Enquanto isso, Vercingétorix, que sabia que isso era um erro, escondeu-se em zonas pantanosas e densas próximas da cidade. Avarico contava com uma poderosa fortificação composta de pedras e vigas de madeira, impossível de tomar segundo os gálios. A madeira evitava o ataque dos aríetes, máquinas militares para derrubar muralhas, e as pedras impediam os incêndios. Porém, os romanos não se preocupavam com isso, pois estavam acostumados a cercar. Desse modo, começaram a construir uma plataforma para atacar a praça. Enquanto isso, os gauleses não deixavam de fustigar e acabavam os alimentos para César, que necessitava do abastecimento que havia dentro de Avarico.

César capturou alguns gauleses e lhes obrigou a confessar onde se escondia Vercingétorix. César decidiu atacá-los de surpresa, a noite – se bem que o surpreendido foi ele – quando acabou com as legiões numa enrascada na qual não havía rastro dos gauleses. Haviam-no enganado. As legiões, cansadas e cabisbaixas, por vingança, destruíram a cidade de Avarico. De 40.000 pessoas, restaram apenas 800, que acudiram em socorro de Vercingétorix, quem demostrou estar com a razão desde o princípio.

Longe dos gauleses se abaterem ante o massacre de Avarico, o fato os fez unirem-se todos contra César, que se viu obrigado a dividir seu exército, mandando quatro legiões ao norte, enquanto ele perseguia Vercingétorix com outras seis legiões pelo sul. Júlio César esperava que os gauleses atacassem cara a cara, mas estes evitavam isso a todo momento, pois lhes interessava o desgaste dos romanos. Os dois exércitos estavam próximos, cada um em uma margen do rio Allier, cujas pontes haviam sido destroçadas pelos gauleses. Se César cruzasse, os gauleses aproveitariam para atacar. Os dois exércitos avançavam ao sul, cada um por seu lado do rio. Os gauleses marchavam orgulhosos, fazendo ressoar suas trompetas e batendo suas lanças com os escudos.

Porém, Júlio César agiu com inteligência, e um dia escondeu duas legiões, enquanto a coluna principal continuava avançando ao sul. Vercingétorix continuou os seguindo pela outra margem. Uma vez que partiram, as duas legiões que permaneciam escondidas, cruzaram e o rio, e se aproximaram perigosamente de Vercingétorix pela sua retaguarda, obrigando-o a fugir ao sul e se retirar em Gergóvia, uma grande fortaleza situada num altiplano natural com terrenos muito acidentados em três dos seus lados.

Para assediá-la, César quis enganar Vercingétorix novamente; fez sua cavalaria avançar pela parte mais vulnerável da fortaleza, fazendo com que o gaules concentrasse seu exército nessa zona, enquanto que o resto da legião romana atacava pelo lugar mais inesperado: uma das zonas mais inclinadas do planalto. Porém, Vercingétorix percebeu a tempo a artimanha, e mandou um reforço para fechar a brecha aberta por César. Este ordenou a retirada, mas já era muito tarde. Da sua posição vantajosa no planalto, os gauleses infringiram uma dura derrota aos romanos. Morreram aproximadamente 700 homens, entre eles 50 centuriões de elite. Esta foi a primeira derrota séria de César e um duro revés para os romanos. Vercingétorix se tornou mais forte e mais tribos se uniram a sua causa. A batalha da Gergóvia foi um ponto de inflexão; agora eram os gauleses os que ameaçavam os romanos.

César reagrupou as legiões marchando ao norte. No total, contava com aproximadamente 50.000 homens. Mas agora estavam trancados na Gália. As linhas de abastecimento estavam cortadas. A moral estava baixa entre as tropas. Alguns oficiais sugeriram a César uma retirada, mas isso era algo impensável para ele. Neste ponto, Vercingétorix equivocou-se novamente, pois os gauleses, ávidos por vitória, atacaram César de frente com sua cavalaria, o que os fez acreditar que batia em retirada. Grave erro lutar de frente com os romanos, que os venceram. Vercingétorix se retirou à Alésia, onde seria o combate definitivo.

Alésia era um planalto de 1500 x 1000 metros e 150 metros de altura, um fortim natural muito parecido com a Gergóvia. Ante a dificuldade de tomar Alésia, César decidiu isolar os gauleses refugiados nela, e fazê-los capitular por fome. Não quis se apressar como na Gergóvia, fazendo um assédio rápido. Desse modo, ordenou seu exército para que se pusesse a cavar e construir. Os romanos fecharam toda possível saída dos gauleses, com um sistema de trincheiras de 16 quilômetros de perímetro, que rodeava o planalto da Alésia. Esta formidável fortificação construída pelos legionários constitui uma das manobras mais engenhosas e efetivas da história militar de todos os tempos.

Escavaram duas valas de 3 metros e meio de largura e profundidade. Uma delas tinha  água desviada de dois rios próximos. A outra, foi feita em formato de V, de maneira que não se pudesse colocar o pé no fundo. Com a terra das valas, foi levantado um muro de 4 metros de altura, com torres de madeira de 24 metros, sendo que o desnível da terraplanagem e a vala somavam 7 metros e meio. Ainda fizeram toda uma teia de armadilhas com buracos ocultos, madeiras pontiagudas, barras de ferro, buracos camuflados com estacas pontiagudas no fundo, etc. Em apenas 13 dias, levantaram tudo isso.

César tinha cercado Vercingétorix. Porém, César estava cercado pela Gália, pois Vercingétorix esperava um numeroso exército de socorro, que atacaria César pela retaguarda, exigindo que este tivesse que dividir seu exército novamente em duas frentes. Para se defender do exército de fora, César não hesitou em mandar construir outra paliçada semelhante à primeira, com aproximadamente 21 quilômetros de perímetro, com a qual os romanos ficaram entre as duas defesas. César ficou enclausurado na sua própria armadilha? A situação era difícil para ambos. Vercingétorix tinha comida para apenas 30 dias. Desse modo, tomou a dura decisão de expulsar de Alésia, todos aqueles que não pudesecm lutar, para economizar alimento e com a esperança de que César os fizesse escravos, com o que mulheres, crianças e incapacitados morreram de fome, pois tampouco César podia se permitir alimentá-los.

Por fim, chegou o momento que Vercingétorix esperava. Um exército de aproximadamente 240.000 gauleses se aproximava de César, que foi pego por eles por fora, e por dentro pelos 80.000 gauleses que havia em Alésia; no total 320.000 gauleses, frente a 50.000 romanos. Era o momento da verdade. Num primeiro instante, os romanos tomaram a iniciativa, pois era fácil rechaçar os gauleses em ambas frentes, já que estes estavam incomunicáveis, e não se coordenavam entre si. Não obstante, apesar de não romperem as linhas de César, descobriram qual era o ponto fraco da defesa, o ponto pelo qual era mais fácil atacar os romanos. Desta vez, as duas frentes gaulesas, atacaram ao mesmo tempo, forçando César até o limite. Os dois exércitos estavam esgotados após horas de luta. César devia decidir se esgotaria as últimas reservas com as quais contava. E arriscou todas as suas forças. Vestido com sua inconfundível capa escarlate de comandante-em-chefe, presidiu, ele mesmo, o ataque final. Era o impulso que necessitavam os legionários que, gritando de alegria, lançaram-se num esforço final contra os gsulese, sobre os quais caiu o pânico, fugindo em debandada. César havia triunfado, e com ele, a romanização da Europa ocidental.

A aliança entre os gauleses se rompeu, e não foi difícil para César submeter as tribos ficaram. Agora sim, poderia voltar à Roma para continuar realizando grandes façanhas, entre elas, transformar a República em Império.

Vercingétorix se apresentou ante César com suas melhores roupas, tirou a armadura, deitou as armas ao chão, e prostrando-se disse: “Habe, fortem virum, vir fortissime, vicisti”, “Aqui estou, um homem forte, derrotado por um ainda mais forte”.

Bibliografia

-National Geographic. Documentário Júlio César. A guerra das Gálias.

-História do mundo. O legado do Mundo Clássico. Larousse.

-Revista Esfinge nº 50. Dossier Legiões Romanas.

Antonio Jurado

Saúde e Enfermidade de acordo com a Naturopatia

Há um novo modelo de medicina natural

Entrevista com o Doutor Manuel Villaplana

Doutor em Naturopatia e Psicologia. Diretor da clínica Cea Nature em Valência

Professor e diretor dos cursos a distância CCC de Naturopatia em nível nacional.

Especialista em terapia de Florais de Bach e Reflexologia Podal.

Autor de “Alimentação psicotrônica”, “Os biorritmos humanos”, “101 substâncias naturais” do editorial Obelisco.

A Revista Esfinge teve a oportunidade de entrevistar o professor Manuel Villaplana por ocasião de duas conferências de naturopatia realizadas na cidade de Córdoba.

De caráter otimista e entusiasta e tudo que proporcione a melhora da saúde corporal, psíquica e espiritual do ser humano, com um discurso firme e crítico, despertou nosso interesse para a importância da medicina natural em nossos dias e sua convivência com a medicina oficial ou alopática.

A prevenção baseada na melhora de nossos hábitos de vida e tratamento da enfermidade com base na sua verdadeira causa (e não só atuando sobre os sintomas) foram alguns dos aspectos mais interessantes que pudemos captar de um dos pioneiros da naturopatia em nosso país, e que poderíamos atribuir a máxima estóica que diz: “ nada que é humano me é alheio”.

Doutor Villaplana, o que é a naturopatia?

A naturopatia é o estudo das leis que regem a saúde humana e a aplicação destas leis para equilibrar a saúde e enfermidade nas pessoas, através de mecanismos e técnicas naturais como a dietética, a fitoterapia, a massagem, a reflexologia podal, os florais de Bach, etc.

Poderia nos indicar a situação atual da Naturopatia na Espanha?

O momento atual é de expansão. Há aproximadamente trinta anos, praticamente não existiam naturopatas neste país e havia pouquíssimos estabelecimentos de herbodietética que se dedicaram a produtos integrais e naturais para a saúde. Atualmente, pelo contrário, muitas farmácias têm uma seção dedicada à dietética, às plantas medicinais e inclusive em muitos colégios médicos existem cursos de medicina natural ou naturopatia.

O que distingue a medicina natural da medicina alopática?

A distinção é importante. Em princípio, na medicina natural nos dedicamos a descobrir a causa que produziu o desequilíbrio chamado enfermidade. Uma vez descoberta e localizada a verdadeira causa, se tratam não só os sintomas e sim as causas e então os sintomas como conseqüência desaparecem por si mesmos. Também tem um papel fundamentalmente preventivo e outro papel que compartilha com a medicina alopática, que é curativo. Não são excludentes e ambas as metodologias podem ser combinadas, a alopática e a naturista. Mas a principal característica que as diferencia é que a medicina natural busca a verdadeira causa e não ataca os sintomas, não utiliza meios artificiais, sintéticos ou químicos, e restabelece progressivamente a saúde melhorando as condições de vida do indivíduo, já que toda enfermidade tem como causa viver contra as leis da natureza.

Que papel pode desempenhar a naturopatia em nosso mundo atual com uma medicina tão avançada tecnicamente?

O avanço técnico da medicina oficial ou alopática é surpreendente. Este avanço não é somente executado por médicos, e sim por técnicos de aparatologia, biólogos, químicos… Mas considero que isto sem a contrapartida que é prevenir e restabelecer de um modo harmônico a saúde, é insuficiente. Portanto ambas as medicinas têm que ser complementares e os enfoques da cura e a enfermidade devem conviver.

A medicina natural tem efeitos secundários?

A princípio não. Mas como ocorre na própria natureza, pode haver plantas e substâncias que possam ser nocivas em determinados casos. Certamente o naturopata deve conhecer quais plantas ou substâncias são suscetíveis de criar algum tipo de patologia.

Você acredita que a civilização atual tem se afastado da natureza?

Isto é evidente. Uma prova disto é que há muitas crianças que não conhecem os animais que eu ou outras crianças de minha idade conheciam em minha época. E ademais, o isolamento das cidades, o tecido dos vestidos com fibras artificiais, dos sapatos com solas sintética, etc., tem isolado as pessoas da radiação terrestre, provocando numerosas enfermidades e o enfraquecimento de nossa raça. Dizem que vivemos mais anos e as enfermidades têm se erradicado. Não é verdade, e isto se vê claramente com as epidemias generalizadas. Cada vez há mais pessoas gripadas, cada vez há mais enfermos, e os hospitais estão saturados. Aí está justamente o aporte da naturopatia, não se esqueçam de nossa mãe terra e a nossa mãe natureza, e ser ecologistas em ação. E não só ecologistas no sentido geral, com a natureza, e sim ecologistas em nosso interior. Não podemos continuar colocando em nosso corpo tantos alimentos artificiais, esquecendo de adquirir alimentos frescos e saudáveis. Por outro lado, o cultivo de maçãs, laranjas, hortaliças, apresenta cada vez pior qualidade. Assim, é muito promissor que a agricultura ecológica se desenvolva em maior nível, assim como as terapias naturais.

Que referência tem nossos leitores para formarem-se a nível profissional em naturopatia?

As referências são de estabelecimentos privados. Podem se formar com estudos de dois, três ou quatro anos mediante diversas escolas que existem em nosso país. Aqueles que não podem assistir às aulas podem realizar a sua formação à distância, mas é sempre recomendado que assistam a seminários presenciais. Nós em Cea Nature realizamos cursos a distância e cursos presenciais em Valença. E eu dirijo os cursos à distância de CCC de Naturopatia em nível nacional, realizando seminários pelas cidades mais importantes de nosso país.

Em que situação legal se encontra esta profissão?

Hoje em dia existe um vazio legal, já que temos o reconhecimento oficial da profissão de naturopatia, mas se encontra na mesma situação que outras profissões que não estão regulamentadas academicamente, mas estão autorizadas e legalizadas. Assim, qualquer cidadão pode se converter em osteopata, quiropata, acupunturista ou naturopata, mas não pode aplicar seus ensinamentos em um hospital público ou se formar através da universidade.

Em outra ordem de coisas: que nível de assistência se dá na Espanha a este tipo de consulta?

Não existe uma estatística totalmente confiável, mas existem indícios de que 15 a 35-40% da população recorre habitualmente a uma consulta naturista ou de terapias complementárias e quase 80 ou 90% das pessoas alguma vez assistiu a esse tipo de terapias.

O senhor acredita que é possível prevenir enfermidades mudando determinados hábitos de vida?

Certamente. Este é um dos princípios fundamentais da naturopatia, posto que quando eu como em excesso ou como alimentos que não devo, posso ficar enfermo. Assim, pois, a prevenção é muito importante e fundamental do ponto de vista da cura natural.

Em que tipos de enfermidade a naturopatia é mais eficaz?

A naturopatia é mais eficaz nas enfermidades crônicas. Nas enfermidades que os tratamentos convencionais fracassaram. E é mais eficaz porque, como regenera o organismo, este pode por fim solucionar seu problema e melhorar, já que a medicina alopática administra muitos medicamentos, mas não melhora a saúde de maneira integral.

Em Córdoba o senhor proferiu umas conferências sobre iridologia e reflexologia podal. Por quê?

Escolhi este tema porque considero que um aspecto importante e pouco conhecido da naturopatia é o diagnóstico. E considerei que através da íris e da terapia reflexa podal, o naturopata e qualquer profissional da saúde tem instrumentos técnicos e de grande precisão que podem ajudar a compreender o que está ocorrendo no organismo do enfermo.

Posteriormente o senhor fez outra conferência sobre terapia floral do Dr. Bach

Através desta conferência quis demonstrar que não só curamos enfermidades de tipo físico, como reumatismos, artroses. E sim que hoje em dia um naturopata pode curar uma depressão, uma ansiedade, um xixi na cama; que tradicionalmente não tem sido próprios da medicina natural.

Como é possível que as flores possam produzir efeitos terapêuticos?

A explicação de porque as flores podem produzir efeitos terapêuticos se fundamenta em que o mundo vegetal está ainda por ser descoberto. Por exemplo, há plantas na Amazônia que produzem efeitos surpreendentes na psique, e se as plantas produzem esses efeitos também podem curar ou reproduzir a patologia que tenha a pessoa. Em concreto, na terapia floral, ao dissolver as folhas das flores em uma solução de água pura expostas ao sol, se produz uma espécie de infusão solar, ficando esta água impregnada das características ou efeitos psíquicos, anímicos ou emocionais em função da flor que se trata. Há por exemplo, uma planta que se chama Mimulus que pode curar pouco a pouco o medo de falar em público, ou outra planta que é a Genciana que pode curar ou ajudar a reconduzir uma depressão exógena causada por padecimento ou trauma de tipo exterior. Tradicionalmente em Valência, se tem dado essência de azahar para aquelas pessoas que acabavam de sofrer um desgosto, fato que nos indica que estes remédios têm funcionado há séculos e que não estamos descobrindo nada.

Em sua opinião qual é a maior enfermidade do mundo atual?

A meu ver é o egoísmo. O terrível egoísmo e materialismo que tem impregnado nossa sociedade a nível social, familiar, laboral e de todo o tipo. Para ganhar dinheiro as pessoas são capazes de passar por cima dos demais. As pessoas não levam em conta a opinião dos outros, não valorizamos o interesse alheio. Porém, em civilizações anteriores, como a cultura maia e inclusive seus irmãos tão distantes, os nossos próprios avós, tinham outros princípios nos quais se dava uma grande consideração aos demais. A valorização do “tu” se perdeu. E só se vive o “eu”. E isto para mim é a mais grave enfermidade que sofre a humanidade.

O que resgata da história para a aplicação atual na naturopatia?

Resgataria da história o culto à saúde, e a harmonia do corpo e do espírito que tinha a civilização grega, ateniense, e que acreditou numa formosa civilização da qual logo os romanos tomaram a parte que lhes interessou e esqueceram a outra parte para realizar-se com o mundo, com o qual destruíram os efeitos benéficos da civilização helênica. E também resgataria os hospitais hindus, a medicina ayurivédica. Não esqueço tampouco da medicina tibetana, que trata a alma e o espírito e que ainda estamos a anos luz de entendê-la e menos ainda de praticá-la.

Por último, qual seria sua visão idealista de um hospital?

A de um hospital do qual ninguém quisesse ir. Normalmente quando entramos em um hospital, o que queremos é logo sair dali, para não adoecer, para não ver as misérias, as tristezas e as coisas tão mal feitas que se realizam nos hospitais. Em meu hospital ideal o enfermo estaria desfrutando do período em que estivesse ali e certamente, a família participaria neste espetáculo maravilhoso de regeneração, do corpo, a alma e o espírito.

Manuel, muito obrigado por sua atenção.

Antonio Manuel Cantos Prats

Co-responsável da Esfinge em Córdoba

O efeito Mozart (V)

Era previsível concluir esta série de artigos sobre a obra de Mozart escrevendo sobre o réquiem, e, ainda que já tenha dedicado um artigo questionando se é mozartiano, não podia deixar de expor algumas idéias para concluir esta homenagem.

Em verdade vou deixar que uma aluna escreva, pois há pouco pedi, em uma de minhas aulas, um trabalho sobre esta obra e a recompilação das notas de minha aluna Anja que me pareceu clara, sincera e, sobretudo, bela, a reescrevo com algumas correções.

Esta obra de Mozart é muito emotiva e dramática. O Réquiem é famoso tanto por sua qualidade como pela lenda que existe a respeito da morte de Mozart. O grande maestro não chegou a terminar o réquiem, morreu sem terminar a “Lacrimosa”. Süssmayer, seu discípulo a terminou. Contudo existem vários autores atuais que tem criticado a obra de Süssmayer e alguns tem feito sua própria versão da parte inacabada de Mozart.

Devido a uma encomenda muito bem paga, Mozart começou a compor o réquiem em Ré Menor. Quando compôs as duas primeiras partes desta obra, deixou o trabalho para estrear a “Flauta Mágica” no teatro. Ao voltar seguiu trabalhando, mas necessitou a ajuda de um aluno seu, Franz Xaver Süssmayer, já que quase não podia escrever de tão enfermo que estava. A história do Réquiem tem sido fonte de muitas lendas falsas, mas o certo é que ele morreu sem terminá-la. Ainda que afortunadamente resultou um trabalho belíssimo que tem ganhado merecidamente os qualificativos de obra monumental. As missas do Réquiem são cantadas em latim. No de Mozart cada uma delas impressiona de uma forma ou de outra. É fundamental, assim que deveis escutá-la porque não os deixará indiferentes.

No último ano de sua curta vida, 1791, apesar de estar enfermo e cheio de dívidas, decidiu escrever partituras, mesmo febril. Após estrear a Flauta Mágica e a Clemência de Tito (30 e 6 de setembro respectivamente deste ano), Mozart começou a trabalhar em uma encomenda que uma pessoa desconhecida lhe havia pedido: Um Réquiem. Aparentemente foi o conde de Walsseg que encomendou às escondidas para poder estrear como sua mais tarde. Contudo, Mozart morreu em 5 de dezembro de 1791, deixando a que chegaria a ser uma das mais belas composições da história sem terminar. Seu discípulo Süssmayer foi encarregado de completar a partitura. Mozart foi enterrado em uma sepultura comum, sem que ninguém apoiasse no seu enterro.

Na época Romântica se desenvolveram certas lendas em torno da morte e a última obra do músico de Salzburgo. A lenda em torno do Réquiem surge como uma encomenda feita por um misterioso senhor vestido de negro ou cinza (segundo as distintas versões) que não revela sua identidade e pede a Mozart discrição e rapidez.

A verdadeira história é que esta encomenda não foi um total mistério, e sim que foi feito pelo secretário (o intendente A. Leitgeb) disfarçado do conde Fraz Von Walsegg zu Stuppach, cuja esposa havia falecido em 14 de Janeiro de 1791, na qual tinha a vaidade de fazer-se passar por compositor, copiando as partituras de músicos famosos de seu próprio punho e letra e entregando-as depois para a orquestra de seu castelo de Stuppach. O Réquiem seria homenagem que renderia à sua jovem esposa falecida (tinha 21 anos). Esta missa de defuntos foi interpretada como tal em 14 de Dezembro de 1793, na igreja Paroquial de Neustadt, onde o conde dirigiu a orquestra e o coro.

Foi tocada novamente no aniversário da morte, em 14 de fevereiro de 1794, na igreja de Santa Maria Schultz de Semmering. Depois não foi interpretada mais vezes, salvo uma adaptação que se fez para um quinteto de corda.

Como já mencionamos, Mozart recebeu esta encomenda em Julho de 1791 e sua própria morte em 5 de Dezembro do mesmo ano impediu que o finalizasse por completo. Ante esta circunstância sua esposa (Constance Weber) pôs o Réquiem em mãos dos alunos de seu esposo para que o finalizassem da melhor maneira possível e pudesse cobrar pela encomenda feita pelo conde. Assim, em 21 de Dezembro J.L.Eybler se encarregou do manuscrito, mas ante sua incapacidade de terminá-lo com êxito, a obra passou às mãos de F.X. Süssmayer, aluno que finalizou o Réquiem na primeira metade do ano de 1792.

Das doze partes do Réquiem, Mozart havia escrito integramente o Introitus com o Kyrie e as partes seguintes até a Lacrimosa, segundo o modo detalhado de suas habituais preparações pela partitura, com todas as vozes cantantes e com muitas partes de instrumentos em pontos importantes. O manuscrito se interrompe no oitavo compasso da Lacrimosa (“Homo reus”).

Mozart solicitava que fossem cantados os movimentos esboçados do Réquiem ante a presença de seu aluno Süssmayer. Segundo Hildesheimer, Mozart tentou ensaiar o Réquiem junto a uns amigos 10 horas antes de sua morte, fato que demonstra que o final de sua obra não deve estar longe do que o próprio Mozart teria previsto para ela.

Paumgartner disse que quando Mozart terminava uma parte do Réquiem tinham que cantar em seguida e o maestro acompanhava tudo ao piano.

Süssmayer optou para o final da peça a repetição da fuga do Kyrie até as palavras “cum sanctis” para assim “dar à obra maior uniformidade”. Esta era uma prática generalizada neste período (ej. Mozart: Missa K.317).

O primeiro que fez o discípulo foi recompilar o manuscrito para ocultar as marcas das contaminações; completando logo as partes inconclusas seguindo os apontes e indicações deixadas pelo maestro.

Da partitura inicial foram feitas duas cópias:

1.- o manuscrito original foi entregue ao cliente

2.- a primeira cópia foi enviada a um editor de Leipzig, para que o Réquiem fosse publicado, o qual pegou de surpresa o suposto autor da obra, o conde Walsegg.

3.- a Segunda cópia foi conservada para copiar as partes. Foi interpretada pela primeira vez em benefício da viúva, nos salões Jahn (Viena), por iniciativa de G. van Swieten, em 2 de Janeiro de 1793.

A missa de falecimento é distinta às obras sacras de Mozart, como a missa em dó menor.

Entre essas obras só há uma peça religiosa: o “Ave Verum”. Ambas as missas permitem apreciar a influência de J. S. Bach e de Haendel (ex. as fugas do “Kyrie”).

O Réquiem de Mozart fala do amor salvador, da esperança em um mundo melhor.

Todas as partes, por muito sombrias e tristes que possam parecer, se convertem rapidamente em luminosas, cheias de esperança e aspirações futuras, para além da dúvida e da condenação ao inferno.

É a idéia da morte entendida como “a verdadeira e melhor amiga do homem”.

Isto se aprecia em diversas partes, como por exemplo, no “Confutatis”, onde o contraste entre as vozes graves e as agudas é tremendo, sobretudo em seu caráter e ritmo.

Nestes momentos do final de sua vida, Mozart não perdeu a serenidade nem seu caráter bondoso e amável. Só esteve cheio de melancolia, o qual influenciou tremendamente no Réquiem.

Sebastián Pérez y Anja Geyer

O caminho do inca – A crônica da aventura. 1ª parte

Nossa viagem chegou por fim a um bom término, ainda que, como era de esperar, as dificuldades sobre o terreno variaram consideravelmente as previsões iniciais. Apesar da valiosa ajuda prestada pelo pessoal da Lan Airlines e da Viajes TerraNostra, empresas patrocinadoras da expedição e que tem solucionado todas as nossas necessidades de translado e alojamento, imperativos do transporte aéreo até o continente americano nos obrigaram a começar nossa aventura pelo norte do Peru em direção ao sul do país, e continuá-la posteriormente até a Bolívia e finalmente Chile, que tivemos que descartar quase desde o princípio a etapa que iria se desenvolver nas terras do Equador.

Começamos pela etapa correspondente ao litoral norte do Peru, que se converteu assim em primeira, com visitas às cidades de Trujillo, Huanchaco, Chiclayo e Lambayeque, e aos lugares arqueológicos de Chan Chan, a pedra do Arco Íris, a pedra Esmeralda, as pedras do Sol e da Lua, as pirâmides de Tucume e do Senhor de Sipan, com seus fabulosos tesouros de ouro e jóias maravilhosas. Terras que foram em tempos os domínios das culturas Moche e Chimu.

Em seguida nos dirigimos a Serra, iniciando uma das rotas mais complicadas desde Huaraz ao lugar arqueológico de Chavin de Huantar, acessível unicamente por pistas de terra em péssimas condições devido às recentes chuvas.

No princípio, a previsão era que, na data de nossa viagem, a estação de chuvas já houvesse terminado, mas os meses de janeiro e fevereiro foram muito secos e em meados de abril ainda se desejava sentir as fortes chuvas. Não nos molestaram excessivamente durante nossos trajetos e visitas, mas deixaram as estradas em um estado lamentável, situação que iria complicar muito nossa viagem ainda que nós não soubéssemos.

No meio do caminho de Chavín visitamos a laguna de Querococha, uma magnífica paragem natural isolada entre montanhas nevadas a 3.980 metros de altitude, onde entramos em contato pela primeira vez com os quechuas, que viviam em pequenas palhoças de adobe junto à laguna, pastoreando seus rebanhos.

A cultura Chavin é considerada a mais antiga de todas as civilizações sul-americanas, e o complexo arqueológico que lhe serviu de centro cerimonial é um dos mais espetaculares. A peça mais importante é o chamado Lanzón, um monólito de mais de quatro metros de altura em forma de faca, que permanece cravado entre o teto e o solo, em uma encruzilhada de corredores subterrâneos construídos com enormes blocos de várias toneladas. Devido às agressões sofridas no passado, o Lanzón atualmente está protegido por uma grade que impede a passagem. Graças à ajuda inestimável do senhor Eduardo Eugênio Granados Fernandez, diretor do complexo arqueológico, pudemos superar o obstáculo para observar mais detidamente esta jóia da arqueologia mundial e tirar fotografias detalhadas da mesma.

Nossos passos se dirigiram depois até o chamado Beco de Huaylas, entre as Serras Negra e Branca, esta última com o topo de mais de seis mil metros de altura. Aqui pudemos percorrer um dos trechos míticos do Caminho do Inca, o conhecido como o Sendeiro de Maria Josefa, devido à uma lenda popular sobre o lugar, e que chega até as lagunas de Llanganuco, ao pé do pico Huascarán, o segundo mais alto da América depois do Aconcágua. As Serras Negra e Branca devem seu nome a um estranho fenômeno meteorológico que faz a primeira nunca tenha neve devido à influência do ar cálido do Pacífico, ainda que a segunda, protegida por esta da influência marinha, está permanentemente coberta pelas neves perpétuas.

Uma das visitas mais surpreendentes nesta zona foi a que fora a cidade de Yungay, hoje desaparecida debaixo da terra devido a um cataclismo que ocorreu em mil novecentos e setenta. Segundo contam aqueles que recordam o trágico acontecimento, às três e vinte e três da tarde do dia trinta e um de maio, enquanto os habitantes da cidade visitavam o mercado dominical, um terremoto de enormes proporções provocou uma avalanche de milhões de toneladas de neve e rochas que caíram de cima de Huascarán até a cidade ao longo de quatorze quilômetros, sepultando-a completamente em poucos segundos sem que ninguém tivesse a menor oportunidade de reagir. Na atualidade o lugar foi convertido em um gigantesco cemitério onde mais de vinte e cinco mil yungainos vítimas da tragédia ainda permanecem sepultadas junto à suas casas, suas ruas e praças a oito metros de profundidade. O mesmo terremoto destruiu completamente a cidade próxima de Huaraz, onde nos alojamos, seus efeitos devastadores foram sentidos em todo o Peru.

O caminho mais difícil foi o percorrido da Serra até a Amazônia. Pouco antes de empreender a rota havíamos visitado a cidade de Cajamarca, nosso ponto de partida, uma bela cidade de arquitetura hispânica que recorda em cada esquina o passo dos conquistadores espanhóis. Durante nossa visita pudemos documentar um lugar arqueológico tão emblemático como os Banhos do Inca, onde pudemos recuperar energias provando suas águas termais e seus serviços de balneário, com propriedades terapêuticas conhecidas e exploradas desde tempos históricos. Um interesse especial nos movia a conhecer este lugar, já que um de nossos patrocinadores, a firma Eberlin Spa & Wellness, empresa pioneira na Espanha na instalação de spas e centros de balneoterapia para instituições hoteleiras, nos havia incumbido especialmente a documentação dos lugares arqueológicos conhecidos desde a antiguidade pela sua utilização como balneários e águas medicinais, o que levou nossas pesquisas a lugares tão interessantes como Aguas Calientes no Peru ou os Baños de Puritima no Chile.

Continuando com nosso trajeto pela Serra, outros lugares conhecidos por sua importância histórica foram as ventanas de Otuzco, uma antiga necrópole da cultura Cajamarca onde eram enterradas ossadas de seus defuntos em nichos escavados nas encostas das montanhas, e o famoso Quarto do Resgate, que os incas encheram de ouro e prata para alcançar a libertação do Inca Atahualpa das mãos de Pizarro.

Uma vez finalizada a visita de Cajamarca demos início à viagem até a Amazônia seguindo a rota original pelo Celendín e o rio Maranhão, fronteira natural entre esta região e a bacia amazônica, e aqui começaram as complicações. Após oito horas de caminho, em um veículo todo terreno perfeitamente equipado, por estradas de terra completamente enlameadas e com alguns barrancos de oitocentos metros, um huaico, como dizem os nativos, quer dizer um corrimento de terras à altura de Casas Velhas, uma vez atravessado o Rio Maranhão, nos obrigou a dar meia volta e regressar, já que a pista havia desaparecido completamente embaixo da terra e lodo e não seria consertada em vários dias. Chegamos a Cajamarca pela noite, com o corpo dolorido devido as quinze horas de percurso, mas contentes com a experiência de ter saído vivos.

A Segunda tentativa de chegar à Amazônia foi de Chiclayio, um desvio de mais de treze horas seguindo o curso do rio Huancabamba de novo até o Maranhão, e desde aqui até a aldeia do Tingo seguindo o desfiladeiro do rio Uctubamba, já em plena Amazônia. Uma vez alcançado nosso objetivo, e de novo por pistas de barro entre barrancos de centenas de metros de altura, pudemos chegar até a mítica cidade de Kuelap, fortaleza de incríveis dimensões construídas há mil anos por uma das civilizações mais enigmáticas do Amazonas, os Chachapoyas, artífices também de outros lugares arqueológicos surpreendentes como a Cidade dos Mortos ou Carajía, onde pudemos observar seus sarcófagos ocultos nos abrigos dos desfiladeiros, aos que o só se pode chegar com cordas do alto dos barrancos.

Apesar dos esforços de Tiendas U.P.I. União Profissional Informática por nos equipar com as últimas tecnologias em comunicação, a precária situação das instalações peruanas nos fez desistir finalmente de nossa intenção original de manter uma comunicação aberta periodicamente por chat através de nossa página web com todas as pessoas que tem seguido nosso percurso, a quem em troca temos atendido mediante envio de correios eletrônicos.

Uma vez finalizada esta etapa amazônica colocamos na internet as primeiras notícias e fotografias da expedição que foram visitadas por um bom número de entusiastas seguidores, a quem desde já agradecemos seu interesse, e os ânimos, que nos tem presenteado em todos os momentos.

Em poucos dias chegaríamos à Lima, capital do Peru, de onde partimos rumo à costa sul do Pacífico, para encontrarmos o deserto de Ocucaje, a península de Paracas e a planície de Nazca. E até Cuzco, coração do império incaico, para visitar lugares míticos como Sacsahuamán, Pisac, Ollantay-Tambo ou a cidade perdida de Machu Picchu.

No próximo número continuaremos com o relato de nossas aventuras. Entretanto,  não deixem de nos visitar em www.estudiosgeograficos.org, onde encontrarão completamente atualizada a página com todas as fotografias, reportagens e entrevistas de nossa expedição.

Juan Adrada

Junho: São João e São Pedro

Não é necessário insistir sobre o sentido maravilhoso que a noite de São João tem nas crenças populares em todo o mundo, e tampouco a relação direta de tais festas com outras romanas e medievais que adotaram as mesmas celebrações formais. A proteção que o fogo, a água ou as plantas traziam no dia de São João às pessoas, se estendiam também aos animais. Colocava-se “ramos” nos currais, e entre os pastores era freqüente crer que o gado que comia o pasto na véspera de São João se imunizava contra ataques de lobos, e nos currais dos porcos uma flor de São João outorgava melhor sabor aos pernis de animais que ali se alojavam.

Velhos costumes, como a busca do trevo de quatro folhas, adquirem especial significado na noite de São João. Em Cantabria e Astúria eram colocados “ramos” nas janelas das noivas nas noites de São João e de São Pedro. Podem-se acrescentar também crenças sobre o valor de determinadas árvores; fala-se das propriedades do carvalho para curar a hérnia, mas, em contrapartida, a nogueira era nociva, como castigo porque ofereceu de sua madeira para a cruz de Jesus, pelo que sua sombra é maligna e deve ser batido para que produza frutos, pois de seu próprio esforço não as daria. Outro tanto se diz da figueira, maldita porque em seus galhos foi pendurado o traidor Judas.

Um sentido especial tem as predições a respeito dos namorados. As moças, valendo-se de distintas flores ou sementes e através de diferentes ritos, podiam conhecer a fortuna ou as condições de seus namorados, e inclusive dos teóricos maridos a quem ainda não conheciam. Em numerosos lugares as donzelas que queriam saber como seria seu marido colocavam debaixo da cama, ao ir dormir, três favas, uma descascada, outra meio descascada e a terceira com casca; no dia seguinte, a primeira que pegavam aleatoriamente lhes indicava riqueza, pobreza ou meio termo de seus esposos, dependendo se pegassem a completa, a meio descascada ou totalmente limpa.

Para saber o nome do futuro marido, colocava-se três papéis com nomes escritos (um deles forçosamente João) em seguida, mergulhava-se na água e o que flutuasse mais tempo, era o nome do futuro marido. Em Aragon, conhecemos outras adivinhações, pelo modo de abrir as flores ou sementes em recipientes com água. Na zona do Baixo Ebro, em Aragón e Catalunha, se fazia uma bola de miolo de pão e se escondia nela um grão de trigo; era partida em três pedaços, um escondido debaixo da cama, o outro colocado na janela e o último sobre a entrada da casa; no dia seguinte se abriam os pedaços e se o grão estivesse no da cama, a pessoa se casaria no mesmo ano, se no da janela, tanto podia casar-se como não, e se estivesse no da porta, não se casaria. Voltando a São João e seus ritos, a véspera era o momento adequado para “obter riquezas e conquistar tesouros”. Nas curiosidades numismáticas que temos recolhido em diversos lugares, há um costume que chamam de “criar a moeda”, que consistia em pegar uma moeda (não sabemos se devia ser de um valor determinado) no ano em que a véspera de São João caísse numa sexta-feira, colocá-la na parte mais alta da casa e mantê-la ali durante sete sextas-feiras consecutivas, sem tocá-la. Asseguraram-nos que os lucros econômicos eram maiores quanto mais alto se colocava a moeda e quanto maior era seu valor.

Na zona de Ribagorza e Urgel existia a crença que uma de cada dez mil galinhas colocava um ovo no período da madrugada sacralizado na véspera de São João; dentro dele havia um anel maravilhoso que proporcionava a fortuna. Se não se tomava o ovo antes da saída do Sol, desaparecia, mas se alguém o possuía lhe dava a fortuna para sempre.

Dizem também que todo o metal que se encontra abaixo do subsolo é propriedade do diabo, que o utiliza para tentar o homem e fazer-lhe mal. O dinheiro é excremento do demônio.

O infernal personagem se preocupa muito que ninguém possa arrancar metal das entranhas da Terra, mas na noite de São João anda muito ocupado assistindo às assembléias de bruxas, que as celebram por todas as partes, e quem estiver atento às circunstâncias pode apoderar-se dos tesouros; mas convém que o faça como uma tocha acesa na mão, cuja chama com seus movimentos indicará a distância do tesouro e se apagará de repente ao chegar ao lugar certo. Em Maiorca se acrescenta que deveriam ser recitados parágrafos de um livro enorme que contém as coisas que produzem e que deveriam ser suportadas sem estremecer.

Diziam também que as maiores festas do céu eram as de São João e o Natal, a de verão e de inverno, respectivamente. O dia de São João celebrava o Sol com a Lua (Sin) masculino e de maior categoria que o Sol (Samash); todas as mitologias posteriores declararam papel viril e predominante ao Sol e feminino à Lua, e a conjunção astral de ambos está na base da origem dos mais fecundos mitos criadores, representados por emblemas do astro coberto por um crescente. As boas pessoas do povo diziam que naquela noite se acendia uma grande fogueira no céu e dominava o Sol, que não se punha totalmente, quiçá como conseqüência de que a noite de São João era a mais curta de todo o ano.

Em relação aos mitos solares há um conhecido na comarca de Ripoll Cataluña, do qual não conhecemos semelhante em Aragon. A lã que era fiada na noite de São João mudava de cor tomando um tom dourado, à semelhança de fios de ouro. A relação com as lendas relativas ao Sol era incontestável e quiçá também com o mito do “Velocino de Ouro”.

A idéia maia aceita é de que na noite de São João há mais estrelas que em nenhuma outra do ano e ninguém deve tentar contá-las, pois se o logra mudará de sexo, ou, no melhor dos casos, cairá no chão e apenas poderá se reincorporar, ou se verá acometido por irremediável e constante necessidade de urinar.

No dia 24 de Junho se celebra o nascimento de São João Batista e durante a manhã continuam os ritos da véspera, com o claro significado de intervenção dos aspectos solares que não são produzidos durante a noite e madrugada anteriores, até o ponto em que os primeiros raios solares terminam com as maravilhosas possibilidades da noite. Dentro das crenças populares está que para São João crescem e aumentam as coisas e as pessoas, sobretudo as crianças. Na maior parte dos lugares onde as festas pagãs cristianizadas da véspera se celebravam de modo particular era costume assistir a primeira missa, entrando no dia do santo com plenas garantias. As festas em toda a Corona de Aragón eram muito variadas e recolhiam velhos antecedentes, como o de São João Pelós de Mallorca e suas danças, ou a cavalgada de Ciudadela.

No dia 28 de junho era celebrada a véspera de São Pedro, acontecendo parecido a de São João, acendendo fogueiras e presenteando a todos com tortas e pastas. Se o significado inicial da festa é a de uma simples continuação do solstício de verão, a cristianização somando a especial consideração de “És Pedro e sobre esta pedra edificarei minha igreja”, que anunciou Jesus acerca do primeiro papa. Por esta razão diziam que o ano religioso, começava neste dia, tal como anunciavam com seu canto os galos de todo o mundo, aludindo às três vezes que este animal cantou para recordar as negações de Pedro, ainda que outros asseguravam que matando a ave se ganhava a simpatia do santo.

Antonio Beltrán

Protagonistas da história – Marsílio Ficino

Propiciou uma profunda mudança na sociedade européia. Dele e de sua Academia todo o Renascimento se nutriu intelectual e espiritualmente.

Filósofo, filólogo, médico, músico e sacerdote, recordado como o outro Platão, por haver protagonizado em Florença o renascimento do pensamento platônico, é o arquétipo do homem humanista. Propiciou uma profunda mudança na sociedade européia. Dele e de sua Academia todo o Renascimento se nutriu intelectual e espiritualmente. Nasceu em Figline Valdarno, um centro provinciano de Toscana, em 19 de outubro de 1433. Seu pai, Diotifeci, era o médico pessoal do Cosme de Médici e foi quem orientou Marsílio na medicina, estudando na universidade de Bolonha. O interesse e habilidade de Ficcino pela medicina nunca lhe abandonaram. Os Médici procuravam-no em primeiro lugar quando necessitavam de conselhos médicos, como faziam também seus amigos, a quem sempre tratou sem cobrar. Seus “Três Livros sobre a Vida” estão dedicados à preservação da saúde, em especial a daqueles que praticam a filosofia. Com seu característico humor sugere que não adianta muito que um estudante decida dedicar sua vida à filosofia, se perde a vida que pretende dedicar.

Mas a influência mais decisiva na educação de Ficino foi através de Cosme de Médici, governante de Florença e um dos homens mais ricos da Europa, que aspirava recriar em Florença as glórias culturais do passado clássico, reunindo em seu redor o círculo de homens mais dotados em relação às artes e a filosofia.

O grande sonho do Cosme de Médici era recuperar para a Itália, o quanto antes, a filosofia de Platão. E escolheu Ficino por suas qualidades, quando ainda era jovem, para que revivesse o estudo de Platão, não como um exercício escolástico, e sim como uma filosofia prática. Cosme disse ao pai de Ficino que ele havia sido enviado para curar corpos, mas que seu filho Marsílio havia sido enviado do céu para curar almas, e que ele o proveria de tudo generosamente.

Fiel a sua palavra, Cosme deu a Ficino em 1462 uma pequena propriedade muito próxima de sua própria vila em Careggi, que se transforma paulatinamente na famosa academia Platônica onde se reúnem sob sua influência o grupo de almas mais brilhantes que já existiu na Europa.

Esses homens foram os que impulsionaram o Renascimento: Lorenzo de Médici, Alberti, Poliziano, Landino, Pico de la Mirándola. Diretamente inspirados por Ficino se encontravam os grandes artistas do Renascimento: Botticelli, Miguelangelo, Rafael, Tiziano, Dürero e muitos outros.

É difícil entender a poderosa atração que exercia Ficino sobre os grandes espíritos de sua época, tanto pessoalmente como por correspondência. A Academia de Ficcino em Careggi chegou a ser um lugar de peregrinação para os maiores intelectos e espíritos durante sua vida e após sua morte.

Ficino traduziu do Grego para o latim o Poimandres, manuscrito atribuído a Hermes Trimegisto. Obra de grande importância, pois supunha para ele o Cosme de Médici que as principais tendências da cultura européia, a filosofia grega e a religião judaico-cristã, tinham como fonte última Hermes (ou Thot, como o conheciam no Egito). Ficino pensava que Hermes havia instruído não só a Moisés, mas também a Orfeu, que por sua vez havia inspirado uma linhagem de filósofos, incluindo Pitágoras e culminando com Platão. Ante a divisão entre a filosofia e a religião que caracterizou grande parte da Idade Média, Ficino escreveu, sem temor de contradição, que “a legítima filosofia não é diferente da verdadeira religião, e que a legítima religião é o mesmo que a verdadeira filosofia”.

Exteriormente, a vida de Ficino não foi muito acidentada e apenas saiu de Florença. Contudo, sua vida interior era muito ativa. Não contente em traduzir todos os Diálogos de Platão e escrever comentários sobre eles, começou a traduzir e comentar os principais filósofos neoplatônicos também, incluindo Plotino, Jamblico, Porfírio, Proclo e Psellus.

Duas de suas obras importantes foram a Teologia Platônica e a Religião Cristã, onde expôs sua idéia de reconciliação da filosofia de Platão com a religião Cristã. Mas sua visão de unidade era muito mais ampla: considerava todo o universo como uma manifestação do Uno, do Bem, de Deus. Para ele esta era a única realidade. Como músico, seu objetivo era elevar a alma mediante a beleza dos sons, no qual era verdadeiramente efetivo. Interpretando os Hinos de Orfeu com a lira encantava sempre seus ouvintes e lhes aportava os elementos anímicos de que necessitavam: força, valor, serenidade, etc.

Em 1473 foi ordenado sacerdote. Mas era tão profunda sua admiração por Platão que propôs firmemente que o filósofo grego deveria ser lido nas igrejas.

Considerava a ressurreição do Platonismo uma verdadeira intervenção da Divina Providência, já que o mestre grego ensinava a não cair nas causas imediatas, e sim elevar-se à primeira fonte, Deus.

É conhecido o grande amor que sentia por seus compatriotas florentinos e o amor que estes teriam por ele, e até pouco antes de sua morte, em um de outubro de 1499, gostava de caminhar por Florença, como Sócrates em Atenas, conversando com os jovens, que ficavam fascinados com seus ensinamentos.

A leitura de Ficino é um convite a voltar a considerar aquelas áreas de nossa vida que temos descuidado; como essas palavras que recolhemos de sua carta 19: “Só posso considerar como o mais insensato dos atos o que muita gente com grande diligência alimenta uma besta, isto é, seu corpo, um animal selvagem, cruel, e perigoso; mas permitem eles mesmos, isto é, a alma, a morrer de inércia”.

Julián Palomares

Viver Sadios – Defeitos da Visão

O olho realmente não vê, e sim o cérebro que nos aporta uma reprodução visual da realidade. A informação que recebe através dos dois olhos, que olham de distintos ângulos, é conjugada e compensada no quiasma do nervo ótico, onde os objetos recuperam sua aparência verdadeira.

O olho é uma espécie de globo aquoso, na sua parte frontal situa-se os elementos óticos e na parte posterior compõe-se a imagem. Está formado por três camadas: esclerótica, úvea e retina. A mais externa é a que forma o chamado “branco do olho”. É transparente denominando-se córnea.  A córnea, por sua vez, está protegida pela conjuntiva, membrana que recobre a superfície interior das pálpebras.

A capa intermédia, úvea, contém muitos vasos sangüíneos, nervos e células pigmentadas. A parte dianteira forma a íris e os músculos ciliares que sustém o cristalino, deixando uma abertura redonda que conhecemos como pupila, enquanto a parte posterior se chama coróide e nutre a retina. Finalmente, a capa mais interna contém as células fotossensíveis. Há uns seis milhões de cones, localizados fundamentalmente em uma pequena zona de uns 0,3 mm de diâmetro chamada fóvea. Estes cones são responsáveis pela visão diurna, aguda e cromática, e se distinguem dos cones que correspondem à luz azul, os que fazem a luz verde, e os que registram a luz vermelha, formando o espectro de cores por combinação de estímulos destes três tipos. Os bastões se encontram repartidos por toda a retina em um número aproximado de 120 milhões, e são capazes de registrar intensidades de luz muito baixas. São utilizados na visão noturna, mas como não são especializados em captar distintos tipos de comprimento de onda, permitem apreciar tão somente as tonalidades acinzentadas. O daltonismo, assim denominado pelo físico e químico britânico John Dalton, de que padeceu da doença e a estudou, é um transtorno hereditário ligado ao sexo, sofrido na sua maioria pelos homens, caracterizado pela impossibilidade de distinguir determinadas cores e que é produzido por falta de um dos três tipos de cones.

O olho funciona como uma câmara fotográfica, mas de maneira muito mais precisa. A pupila atua como um diafragma, regulando instantaneamente a quantidade de luz que entra no olho, fechando em ambientes luminosos e abrindo em zonas sombreadas. Ademais, o olho focaliza automaticamente os objetos para assegurar a nitidez da imagem. Esta acomodação visual é realizada por meio do cristalino, lente situada detrás da pupila que se curva ou se estira por ação dos músculos ciliares, em função de que o objeto que queiramos ver esteja próximo de nós. À diferença das lentes fotográficas, o cristalino não é rígido e sim flexível, portanto tem um poder de refração variável. Mas ainda temos outra lente natural que é a própria córnea que desvia e concentra a luz até o interior do cristalino.

Os defeitos mais comuns da visão têm a ver com a refração, isto é, com o modo de desviar a luz que chega ao olho para fazê-la convergir em um ponto determinado da retina.

Na hipermetropia a imagem se projeta atrás da retina, ou pelo cristalino ser mais curvado que o normal, ou pela córnea ser excessivamente plana ou o olho muito pequeno. O hipermetrope vê bem a longas distâncias, mas não enfoca adequadamente objetos próximos, por isso os hipermetropes conseguem ler somente tendo o objeto aproximado do olho. O cristalino deve aumentar sua curvatura inclusive para enfocar objetos mais próximos, assim, o músculo ciliar não está completamente em estado de relaxamento, o que se traduz em cansaço, sono, e enrijecimento dos olhos. Esse efeito é corrigido por meio de lentes convexas, espessas no centro e finas nas bordas. Em algumas crianças a hipermetropia pode vir associada ao estrabismo.

Na miopia a imagem se forma diante da retina, porque o cristalino ou a córnea estão demasiado curvados, ou porque o olho é excessivamente grande, mais ovalado que redondo. Os míopes vêem melhor próximo ao objeto que longe, por isso coloquialmente são chamados “de vista curta”. Quando a miopia está se desenvolvendo numa pessoa, os sintomas que se notam são: dor de cabeça após longos períodos de leitura, tendência a piscar os olhos para enfocar melhor os objetos distantes e aproximação excessiva aos livros e cadernos enquanto se lê ou escreve. Como o míope tem um excesso de poder convergente necessita de uma lente côncava, fina no centro e espessa na borda.

No astigmatismo, a superfície da córnea ou do cristalino não são perfeitamente esféricas, com o qual não se enfocam corretamente os objetos em determinados ângulos de visão. Mover os olhos mais rápido que a cabeça ou virar esta para o lado, focando o olhar podem ser indícios de desenvolvimento deste defeito visual, cuja solução consiste no uso de lentes esféricas ou tóricas. Todos os olhos têm um certo componente astigmático.

A presbiopia ou vista cansada aparece geralmente a partir dos 45 anos de idade, e consiste na perda da elasticidade do cristalino, que não enfoca bem nem os objetos distantes, nem os próximos, porque perde seu poder de adaptação. Como o cristalino tende a se tornar rígido na posição de mínima curvatura, os objetos que o olho pode enfocar ficam com o passar dos anos, cada vez mais distantes. A solução é o uso de lentes bifocais, com duas zonas de distintas graduações.

Estes problemas de visão podem ser corrigidos mediante o emprego de óculos, de lentes de contato ou por meio de cirurgia, utilizando o laser que atua exclusivamente sobre a córnea, modificando sua espessura ou suas imperfeições.

Para proteger a vista há recomendações gerais tais como: evitar nas crianças os maus hábitos tais como assistir televisão durante muito tempo e/ou com a luz apagada, ou aproximar demais os livros ou cadernos do olho.

O cansaço que muitas vezes observamos ao trabalhar diante do computador se deve a que quando olhamos fixamente para a tela, o olho está relaxado, porém quando olhamos para objetos próximos, os músculos ciliares se retesam. Os olhos devem focalizar e convergir na tela ao mesmo tempo, o que exige um esforço que se nota após várias horas de trabalho. Somado ao agravante de ter que focalizar várias distâncias: monitor, teclado, impressora, etc. Pode-se prevenir preferindo um monitor de boa resolução, que gere pouca eletricidade estática, situando-o debaixo da linha dos olhos e a uns 50 cm de distância em posição perpendicular à janela, para evitar reflexos da luz. Também se recomenda utilizar um apoio para os documentos, trabalhar com texto negro sobre fundo branco, não abusar das cores, e se necessário, aumentar o tamanho da letra. Convém fazer pausas para relaxar nosso sistema visual, fechando os olhos ou enfocando coisas distantes durante alguns momentos.

Isabel Pérez Arellano

Próximo Número

Frida Kahlo

A vida atormentada da pintora mexicana, enferma desde a infância, sempre cheia de dor, sempre perseguida por um destino difícil, mas que soube encontrar forças no amor de Diego Rivera, sobretudo, em seu próprio gênio pictórico.

Richard Wagner

Seus sonhos eram grandes e os transmitiu em suas obras. Seus dramas romperam o marco musical projetando-se em orquestras monumentais como o “O Anel dos Nibelungos”, e foi inspirado pelo entusiasmo que os gregos chamaram “En Theos”, pelo que aprofundou em raízes procedentes da Mitologia e a Mística.

Os alquímicos jardins de Bomarzo

No Sacro Bosco de Bomarzo encontram-se referências que nos permitem identificar estes jardins com o itinerário simbólico que segue Polifílio em seus sonhos. Abandonados por um tempo e logo redescobertos, Dali se entusiasma com eles e Mújica Laínez se inspira em sua vivência onírica para escrever “Bomarzo”.

No aniversário de Robert Schumann

Completam-se 250 anos da morte do músico. É o mais representativo, junto com sua esposa Clara Wieck, do período Romântico da História da Música. Sua categoria humana e os problemas que tiveram      que vencer para alcançar sua missão, nos mostra um dos mais belos exemplos de paixão pela música.

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