Edição 16

Editorial

Motivados talvez por nossa concepção holística da cultura como um todo orgânico, em que as partes se relacionam entre si, neste mês trazemos às páginas da Esfinge algumas mostras da atualidade científica. Especificamente, de alguns domínios que nestes momentos captam a atenção dos estudiosos da Física. E o fazemos ainda mais porque temos certeza de que é indispensável colocar ao alcance de nossos leitores as interpretações do mundo que nos chegam de um âmbito que costuma ser hermético e, às vezes, incompreensível para os não versados no conhecimento das ciências chamadas puras, associado quase sempre  com o rigor de seus métodos e o prestígio de suas exposições.

Além do mais ocorre que, provavelmente devido à inércia ou à preguiça mental, muitas vezes utilizamos termos e enunciados pretensamente científicos, mas que em realidade pertencem ao século passado, por não dizer ao século XIX, muito atrás do que os cientistas do século XXI buscam e propõem. É saudável esta aproximação da ciência atual, que vem se acercando à filosofia de maneira notória há algum tempo, proporcionando-nos uma interpretação do mundo cada vez mais audaz, que ao mesmo tempo vai ao encontro dos axiomas dos velhos sábios jônios que deram origem ao pensamento racional sistemático. Esta nova ciência, muito mais livre de preconceitos, menos fechada em paradigmas e servidões, resulta hoje em um caminho recomendável para os que buscam a verdade, que tantas vezes se cobre com os véus das aparências. Uma filosofia da cultura que não considerasse a ciência ficaria limitada e pobre, ao não considerar que os melhores momentos do progresso do Conhecimento, ao longo da História, foram aqueles nos quais a Ciência e a Filosofia deram as mãos e se enriqueceram mutuamente.

Nós, que trabalhamos com os meios de comunicação, temos, por um lado, um dever fundamental  de servir de intermediários entre os cientistas e os  leitores, para aproximar as descobertas dos sábios aos que se interessam pela ciência. E, por outro lado, para que os cientistas se sintam um pouco menos sozinhos, conscientes do interesse que desperta sua esforçada busca por desvelar tantos segredos que a Natureza ainda guarda cuidadosa. É assim que temos compreendido, desde o início, aqui na nossa revista.

Mosaico

O pacote de biscoitos

Uma moça estava esperando na sala de embarque do aeroporto para pegar seu vôo. Como ela tinha muito tempo para esperar, decidiu comprar um livro e um pacote de biscoitos. Depois, procurou por um lugar tranqüilo do aeroporto para poder ler em paz.

Logo, um homem se sentou na cadeira ao lado e abriu uma revista. Entre eles apenas estava o pacote de biscoitos. Quando ela pegou o primeiro, o homem também pegou um. A menina se sentiu indignada, mas não disse nada. Pensou: “Que descarado; se eu fosse mais corajosa, chamaria sua atenção!”.

Cada vez que ela pegava um biscoito, o homem também comia outro.

Aquilo a deixou tão furiosa, que não conseguia se concentrar nem reagir. Quando restava apenas um biscoito, ela se perguntou: “O que esse aproveitador fará agora?”.

Então, o homem partiu o último biscoito e deixou metade para ela. Para a nossa protagonista foi o cúmulo, e ela chegou a ficar ofegante devido à raiva que sentia. Fechou seu livro, pegou suas coisas, e foi à sala de embarque para esperar lá o aviso para embarcar.

Já em pleno vôo, olhou dentro da sua bolsa e, para sua surpresa, lá encontrou seu pacote de biscoitos intacto! Sentiu tanta vergonha… Tinha esquecido que o havia guardado! Só então se deu conta do seu equívoco. O homem compartilhou seus biscoitos sem se sentir indignado, nervoso ou alterado. Mas já não tinha tempo, nem tinha a possibilidade de oferecer àquela pessoa uma explicação ou pedir desculpas. Mas sim, poderia refletir: “Quantas vezes na nossa vida tiramos conclusões precipitadas quando o que deveríamos fazer é observar com mais atenção?”. E lembrou que existem quatro coisas que não podem ser recuperadas:

– Uma palavra, após tê-la dito.

– Uma oportunidade, após tê-la perdido.

– O tempo, uma vez que já tenha passado.

– Uma pedra, após ter sido lançada.

Céu e inferno próximos

Um samurai foi visitar um velho sábio para tirar uma dúvida que o atormentava.

-Senhor, estou aqui porque necessito saber se o inferno e o paraíso existem.

-Quem pergunta? – disse o mestre.

-Um guerreiro samurai.

-Tu, um samurai? – zombou o mestre -. Com essa cara de idiota que tens?

O guerreiro não acreditava no que ouvia.

– Certamente, além de estúpido és um covarde – zombou novamente.

A ira tomou conta do samurai, que desembainhou instintivamente sua espada.

-Agora se abrem as portas do inferno! -gritou o ancião.

O guerreiro logo compreendeu a atitude do mestre e guardou sua espada envergonhado.

-Agora se abrem as portas do paraíso! – exclamou novamente o mestre.

O que o olho não vê

Às vezes, deixamos de ver o que acontece no nosso mundo simplesmente porque ultrapassa  nossos limites de percepção. Se pudéssemos acelerar a velocidade com que acontecem os fatos (o que podemos fazer, graças às técnicas de filmagem), dar-nos-íamos conta de que num tranqüilo jardim de inverno há contínuas lutas pela sobrevivência entre as aparentemente inativas plantas.

Há um arbusto, o silva-de-são-francisco, por exemplo, que não apenas move suas folhas e suas flores, mas que se desloca de um lugar ao outro. Como? Agita seus brotos de um lado ao outro como se buscasse o melhor caminho, e quando o encontra nada o detém. Os espinhos do caule, orientados em sentido contrário ao do avanço, proporcionam-lhe um encaixe sobre quase qualquer coisa. Pode avançar até sete centímetros e meio por dia. Uma vez que dá raízes, não muito depois de iniciar o avanço, instala-se no novo território conquistado.

Esmeralda Merino

Amizade

Ia a caminho de casa pensando nos amigos, na amizade. Mas uma rajada de tórrido levante afastou minha mente desses pensamentos e a levou às minhas árvores frutíferas e às minhas plantas. Este verão foi muito ruim para todas elas (com algumas exceções). Algumas muito queridas morreram, ou pelo menos é o que parece, porque não sei se sobreviverão. A pequena begônia com que me presentearam as freiras, a qual observei por vários meses, impaciente, vendo apenas seu caule desnudo até que produzisse suas duas primeiras folhas, vi-a há alguns dias meio morta, se não morta completamente. As duas sementes de Bonsai, com as quais Inma me presenteou, também foram encontradas secas. E a ameixeira de Yayo, que ainda está num vaso à espera de seu novo lar, estava com suas folhas caídas, e para mim foram quase fisicamente audíveis os seus gritos pedindo por… terra e liberdade!

Pensei em cada uma das àrvores frutíferas e arbustos quando os levei ao campo. Lembro-me da história de cada um dos que lá estão. E também de outras que plantei, cuidei, reguei, adubei… e que por fim, e apesar dos meus esforços, morreram.

Primeiro havia que buscá-las pelos viveiros, pelos melhores viveiros da Bahia. E não qualquer árvore nem qualquer planta, mas as espécies que eu pensava que se adequariam melhor à minha terra. Nem todos são da minha terra e do seu clima. E também eu tinha que tratar de encontrar os melhores exemplares, segundo minha escassa compreensão,  perguntando para todo camponês que cruzava o meu caminho e que merecesse minha confiança.

Quando eu já estava no campo, tinha que procurar o melhor lugar, porque nem todas as plantas necessitam do mesmo. Umas querem muito Sol, outras, pouco, e algumas, nada. Igualmente ocorre com a água, a terra e o ar. Tive que mudar algumas de lugar várias vezes até que no seu novo lugar a encontrava feliz e forte. E no lugar escolhido tinha que escavar um bom buraco, adicionar terra adequada para ela, fazer um cerco ao seu entorno para que nada lhe incomodasse, adubá-la e regá-la abundantemente. Quando terminava o trabalho, sempre a olhava atenta e carinhosamente e no meu íntimo lhe perguntava em silêncio:

– Falta-te algo mais? E se eu a via bem, ia embora pedindo à natureza que a tratasse bem e à planta que fosse forte até que crescessem suas raízes.

Sempre que eu voltava por lá, olhava suas folhas e seus brotos. Compreendia que os parasitas também têm que comer, mas eu sempre gritava com eles, enfadado. Quando não eram os parasitas, eram os fungos ou o tatu-bola, e outras coisas que nem sei o que são, mas que sabia que a prejudicavam.

Nos invernos eu buscava bons adubos, guano ou esterco de cabra, ou o que fosse. Dava-lhes sulfato de ferro, porque fortalece as raízes, e, para algumas, enxofre contra os fungos quando era preciso. No inverno eu também chamava o jardineiro para lhes fazer a poda, porque eu não queria me arriscar, na minha ignorância, a prejudicá-las, e chamava um mestre nessa misteriosa arte.

E quando não estava com minhas irmãs, na cidade, pensava em como estariam, se o levante no verão ou o temporal no inverno lhes teria arrancado algum galho ou derrubado alguns de seus primeiros frutos.

E pensei… tudo isso para mim vale a pena. Acredito que a balança da felicidade, apesar de tudo, inclina mais para o meu lado que para o lado delas. Eu cuidei delas, alimentei e  protegi, mas elas me abençoam com suas flores e seus frutos. Flores e frutos feitos pelos elementos… com a ajuda das minhas mãos e do meu coração.

José Manuel Prats

Física para poetas

A divulgação às vezes um tanto simplista da mecânica quântica levou mal-entendidos à opinião pública. Um deles é a extrapolação na nossa vida diária da probabilidade estatística que rege as leis no mundo atômico e, portanto, uma incerteza no possível cumprimento de ditas leis. Se bem que isto seja certo a nível quântico, na nossa realidade cotidiana os fatos se desencadeiam de outra maneira.

Todas as leis físicas e químicas que desempenham um papel importante na vida dos organismos são de tipo estatístico, mas a partir da cooperação de um número enorme de átomos as leis estatísticas têm comportamento suficientemente exato para podermos lhe outorgar a dignidade de lei.

A precisão aumenta na medida que eleva a quantidade de átomos que intervêm no processo, seguindo a denominada regra da raiz quadrada de x. Por exemplo: Se eu afirmo que um determinado gás, sob determinadas condições de temperatura e pressão, tem certa densidade, e que num dado volume há x moléculas do gás, podemos ter certeza que esta afirmação é inexata, sendo o desvio da ordem de raiz quadrada de x.

Portanto, se o número de moléculas é 100, encontraremos um desvio de 10, ou seja, um erro de 10%. Mas, se o número de moléculas é 1.000.000, o desvio será de 1000 e o erro de 0,1%.

Nosso organismo tem um elevado número de átomos, pois os átomos são muito pequenos. O tamanho real dos átomos, que não possui limites exatos, está entre 1/5000 e 1/2000 da longitude da onda da luz amarela. Esta longitude é igual ao tamanho do menor grão visível com o microscópio. Imaginemos uma gaveta do tamanho dessa longitude de onda; aí caberiam bilhões de átomos.

Assim, embora os átomos estejam afetados individualmente pelos movimentos térmicos e seu comportamento seja estatístico, como nosso gens, neurônios, órgãos e outros componentes vitais têm bilhões de átomos, suas funções se regem por leis estáveis, cujos erros são infinitesimais.

Imaginamos que um organismo que estivesse composto por um número discreto de átomos e fosse sensível ao impacto de um ou alguns poucos átomos com toda certeza não seria capaz de um pensamento ordenado – que é o que caracteriza o ser humano – até o ponto de poder pensar, por exemplo, sobre a idéia de “átomo” e sobre por que os átomos são pequenos. E além do mais, como nossos corpos são muito grandes em comparação com o átomo, não podemos ver, sentir ou ouvir um átomo, e demos graças por isso, porque a quantidade de impactos por nanossegundo que sofreríamos seria uma verdadeira loucura.

Sara Ortiz

Os Girassóis

A primeira descrição do girassol é encontrada num herbário de 1568 feita pelo botânico Rembert Dodoens. Embora este e outros atribuam a origem da planta ao Peru ou América Central, hoje se considera que o girassol surgiu na América do Norte, pelo sudoeste do atual Estados Unidos. A arqueologia encontrou restos de girassóis domesticados e silvestres, datados de 3000 a.C. Os exploradores europeus falam do uso das sementes pelos indígenas, que cultivavam as plantas de um só caule, as de sementes maiores, que são cultivadas. As ramificadas são de uso ornamental.

Os girassóis chegaram à Europa em fins do século XVI, primeiro apenas como ornamento de jardins, e foi na Rússia onde mais se espalharam.

Patricia P.L.

De onde vem a palavra Relatividade?

Desde sempre a Física buscou teorias universais, ou seja, que se cumpram em todo momento e em todo lugar. Estas teorias são as que os cientistas perseguem porque são as que nos revelam os segredos do Universo no qual vivemos.

Einstein deduziu numa série de artigos publicados no ano de 1905 leis válidas para todos os observadores (ou seja, leis que qualquer pessoa pode constatar independentemente da sua posição ou velocidade). A luz foi a pedra angular desta revolução. Sua velocidade, segundo postula Einstein, é sempre a mesma (não é relativa). Se eu, do acostamento, vejo passar um carro que viaja a 100 Km/h, percebo que essa é a sua velocidade. Mas se viajo num carro a 90 Km/h e vejo passar um outro carro que circula no mesmo sentido que o meu a 100 Km/h, terei a sensação de que está à minha frente com uma velocidade de 10 Km/h. Este fenômeno tão cotidiano não ocorre no caso da luz. Por mais que alguém queira correr atrás de um raio de luz, este sempre viajará 300.000 Km/s mais rápido de quem quiser caçá-lo, tanto se o perseguidor correr como se não correr.

Ao mesmo tempo que a velocidade da luz se convertia em universal, as equações de Einstein nos mostravam que o tempo, sim, é relativo: quanto maior seja minha velocidade, mais devagar passa o tempo para mim, com relação a um observador em repouso. Assim, esta nova teoria nos mostra que conceitos considerados universais, como a homogeneidade do tempo, não o são, e outros aparentemente relativos poderiam ser as consolidações da misteriosa linguagem do Universo. Einstein batizou essas hipóteses (na época) como Teoria da Relatividade Especial. A natureza, uma vez mais, mostrou aos seres humanos como seus mais guardados segredos escapam à compreensão e à intuição do comum dos mortais.

David Córdoba

Uma “ferramenta” no mar

Com o nome de peixe-martelo conhecemos nove espécies de tubarões que vivem nos mares tropicais e temperados. O tubarão martelo é um animal muito estranho. É o cúmulo da manobrabilidade. Pode arremeter contra uma moeda ou contra um mergulhador, de forma que, visto que é mais provável que você seja um mergulhador do que uma moeda, se ele  enfrentar um deles, o melhor é deixá-lo tranqüilo.

A musculatura que une sua excêntrica cabeça ao seu corpo é muito delicada. Algumas grandes extensões laterais niveladas lhe dão uma força hidrodinâmica ascensional que lhe permite girar com mais rapidez que outros tubarões. Pode modificar ligeiramente a forma da cabeça e incliná-la, com o que ascende como se fosse um biplano e adquire uma tremenda capacidade de manobra. Seus olhos e orifícios nasais, por se encontrarem em ambos os extremos da cabeça, aumentam sua capacidade para detectar e perseguir suas presas. Vemos que é um animal pensado para ganhar amigos.

Esmeralda Merino

Mosaico: Inventos com história

O telescópio

Não se sabe com certeza a ciência que inventou o telescópio. Em 1.589, Giambattista della Porta escreveu numa revista chamada “Magia Naturalis” as propriedades das lentes de vidro côncavas e convexas. Muitos historiadores atribuem a della Porta o descobrimento das propriedades características do telescópio.

No entanto, um fabricante de lentes holandês chamado Hans Lippershey foi o primeiro a tratar de comercializar este invento, pelo que se supõe que este fabricante foi o verdadeiro inventor do telescópio, embora alguns assegurem que ele copiou de algum outro inventor. Lippershey tentou patentear seu invento, mas James Metius se adiantou e solicitou ao governo da Bélgica que lhe desse dinheiro para elaborar um telescópio melhor que o de Lippershey. Por fim, não conseguiu nem a patente nem o dinheiro e jamais ensinou sua invenção a ninguém. Quem tirou mais proveito do invento foi Galileu Galilei, inspirando-se na idéia de Lippershey. Pela idéia do telescópio Galileu recebeu um aumento de salário de 520 para 1.000 florins. O astrônomo sempre disse que o inventor do telescópio tinha sido um holandês e que ele apenas havia melhorado a idéia.

Francisco Capacete

Mosaico: Renovando os neurônios

1. Qual filósofo moderno enunciou o princípio “penso, logo existo”?

2. Qual filósofo do século XIX ensinava que a ciência era a evolução da filosofia, e esta da religião?

3. O que significa em grego “gnosis”?

4. Qual filósofo francês do século XVIII afirmava a bondade natural do homem, que é pervertido pela sociedade?

5. Qual adjetivo se aplica a tudo que não está de acordo com a doutrina fundamental de um sistema?

Respostas:

1. René Descartes

2. Augusto Comte

3. Conhecimento

4. Juan Jacobo Rousseau

5. Heterodoxo

Mosaico: Frases

Cinismo é uma maneira desagradável de dizer a verdade.

Lillian Hellman

Se queres falar em qualquer lugar, amizade, doçura e poesia, leve-as contigo.

G. Duhamel

Há duas coisas infinitas: o universo e a estupidez humana.

Albert Einstein

De querer ser a crer que se é: é a distância do trágico ao cômico.

Ortega e Gasset

A amizade é um empréstimo a fundo perdido.

Antonio Gala

Os políticos são iguais em todas as partes: prometem construir uma ponte onde não há rio.

N. Krushev

A lua-de-mel termina quando ele liga avisando que não vem jantar… e ela deixa um recado dizendo que a comida está na geladeira.

M. West

Há pessoas que começam a falar um momento antes de ter pensado.

J. de la Bruyere

Há tanta contaminação, que se não fosse por nossos pulmões não haveria onde colocá-la.

R. Orben

O mau da imortalidade é que há que morrer para alcançá-la.

Victor Hugo

As consequências das mudanças climáticas

Objetivo deste artigo é contribuir com um pouco de informação ao que atualmente se divulga sobre a mudança climática, com a intenção de começar a orientar as decisões que diariamente tomamos em nossas vidas, que influem de alguma forma nas tão comentadas mudanças climáticas e suas conseqüências.

A mudança climática é um conjunto de modificações que estão se incorporando aos componentes habituais do clima. Quando estas perturbações alcançam magnitudes e freqüências que não são explicadas dentro dos limites “normais” das características climáticas de uma zona concreta, então se fala de mudanças climáticas.

O clima da Terra é o resultado de uma grande quantidade de interações entre múltiplos fatores, que constituem o sistema climático. Este sistema considera-se integrado por cinco componentes: a atmosfera (capa gasosa que envolve a Terra), a hidrosfera (a água em estado liquido, doce e salgada), a criosfera (a água em estado sólido), a litosfera (o solo),     a biosfera (o conjunto de seres vivos da Terra). Com tudo isto, o clima é a conseqüência do equilíbrio que se produz no intercambio de energia, massa e quantidade de movimento entre estes cinco componentes. As condições climáticas estão determinadas por um conjunto de parâmetros variáveis (temperatura, precipitação, umidade, vento, etc.) e a probabilidade que assumam valores característicos de cada clima.

O problema do efeito estufa

Com a idéia de que tudo o que é relativo ao clima é um complexo sistema inter-relacionado de causas e efeitos, é necessário falar do efeito estufa para introduzir os conceitos de mudanças aos quais nos referiremos ao longo deste artigo. A mistura natural de gases na nossa atmosfera permite umas condições térmicas adequadas para o desenvolvimento da vida do jeito que a conhecemos. Quando a radiação solar chega à terra, esquenta sua superfície, que devolve o calor para a atmosfera em forma de ondas longas, que são absorvidas por determinados gases (denominados gases de efeito estufa), provocando o aquecimento da atmosfera nas suas camadas mais baixas e fazendo possível a vida. Este fenômeno é natural e necessário. Se não existisse este conjunto de gases de efeito estufa, o planeta seria muito mais frio. Os gases de efeito estufa são o dióxido de carbono, o metano e o oxido nitroso, aos quais se acrescentam outros, os artificiais chamados de gases fluorados.

O problema surgiu quando o volume destes gases de efeito estufa cresceu a um ritmo não habitual nos últimos cento e cinqüenta anos, e de uma forma especialmente vertiginosa nas últimas décadas. A conseqüência direta e imediata deste incremento da quantidade de gases de efeito estufa é o aumento da temperatura. Por si só este aumento de temperatura é algo que os paleoclimatólogos constataram como relativamente freqüente na história da Terra. O que é completamente insólito é o ritmo acelerado deste incremento. E este ritmo, junto com a taxa de aumento e todas as complexas reações e inter-relações com os diferentes componentes do sistema climático, fazem com que aconteça a tão conhecida mudança.

Hoje não temos dúvidas de que este incremento dos gases de efeito estufa na atmosfera é devido à atividade humana. Desde 1988 há uma agência especializada nas Nações Unidas, denominada pela sua sigla em inglês IPCC (Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática), cujo objetivo principal é realizar avaliações periódicas do estado do clima e da informação cientifica, técnica e socioeconômica relevante para a compreensão das causas e os efeitos da mudança climática.

Desde sua criação, o IPCC já elaborou três Relatórios de Avaliação: em 1990, 1995 e em 2001. Nestes relatórios se enfatiza, de forma cada vez mais conclusiva, a origem humana no incremento de gases de efeito estufa.

O dióxido de carbono (CO2) é o principal responsável pelo aquecimento. Sua emissão é proveniente da respiração dos seres vivos e de todo tipo de combustão. Sua concentração aumentou mais de 30% desde 1750, e três quartas partes destas emissões se produziram nos últimos 20 anos. As concentrações atuais não foram superadas nos últimos 420.000 anos e,  provavelmente, tampouco nos últimos 20 milhões de anos. Os sumidouros de CO2 se encontram nos oceanos e nos solos, que absorvem a metade das emissões produzidas pelo homem, e na fotossíntese realizada pelos vegetais.

O metano (CH4) aumentou mais de 150% desde 1750. Sua capacidade de produzir o efeito estufa é maior que no caso do dióxido de carbono. Mais da metade das emissões é de procedência humana (gado, agricultura, depósitos de lixo).

O oxido nitroso (N2O) tem um poder sobre o efeito estufa maior que o metano. Por sorte, sua concentração é muito menor, havendo experimentado um incremento de 17% desde 1750, do qual uma terça parte aproximadamente tem origem humana (fertilizantes, queima de combustíveis fósseis).

Os gases fluorados são compostos de sínteses, quer dizer, de procedência inteiramente antropogênica. Estão experimentando um forte incremento devido a substituírem os gases carbônicos, destruidores da camada de ozônio. Utilizam-se como propelentes de aerossóis, em sistemas de refrigeração, produção de alumínio e isolantes elétricos. As concentrações são pequenas, mas com um poder extraordinário de efeito estufa.

O IPCC avalia os efeitos do aumento da temperatura sobre o clima mundial utilizando  modelos cada vez mais ajustados à realidade climática, e configurados mediante simulações de diferentes cenários para os próximos 100 anos, considerando as diferentes possibilidades de emissões destes gases  de efeito estufa, e muitos parâmetros vinculados à produção destes gases: população mundial, desenvolvimento de tecnologias limpas, acesso aos recursos naturais, eficiência energética, etc. Contudo pressupõe-se que ao longo do século XXI continuemos sob os efeitos do aumento de concentração dos gases de efeito estufa, porque provavelmente continuará aumentando a emissão de dióxido de carbono  pela queima de combustíveis fósseis; os oceanos e a terra absorverão menor fração deste gás, e ainda que diminuísse a concentração, o incremento da temperatura ainda continuaria durante algum tempo.

O IPCC realizou previsões em seu relatório de 2003, sobre como será o clima no presente século. Para todos os cenários considerados sobre emissões, os resultados mostram que a temperatura global do planeta continuará aumentando e o nível do mar continuará subindo.

Assim, a temperatura global aumentará entre 1,4 e 5,8 °C no período 1990-2100. A área coberta pela neve e pelo gelo diminuirá e o nível do mar subirá entre 0,09 e 0,88 metros entre 1990 e 2100, dependendo dos cenários de emissões considerados.

Outra avaliação realizada neste relatório de 2003 pelo IPCC é que a mudança climática durará séculos, ainda que se reduzam drasticamente as emissões de gases de efeito estufa.

Como se pode comprovar, o panorama é preocupante e necessita de uma atitude mais reflexiva da parte de todos e o suficiente amadurecimento para admitir que as mudanças nos afetarão diretamente. Independentemente das medidas que necessariamente devem tomar todas as administrações públicas em todos os setores mencionados, é imprescindível a participação de todos os cidadãos, limitando a nossa demanda de recursos e energia. Conceitos em forma de lema estão contidos em duas frases muito conhecidas de todos: “Pense globalmente e atue localmente” e “Nada em excesso”.

Precisamos mudar o paradigma da nossa felicidade.

Glossário

-Fenologia: parte da meteorologia que investiga as variações atmosféricas e a sua relação com a vida de animais e plantas.

-Fitoplâncton: plâncton marinho, constituído predominantemente por organismos vegetais, como certas algas.

-Endêmico: diz-se de espécies animais ou vegetais que são próprias e exclusivas de determinadas localidades ou regiões.

-Esclerofilia: espécie de animais viventes de simetria radiada, como pólipos, medusas e ctenóforos que habita os mares intertropicais, de vida isolada, com a sua superfície em formato de folha.

-Dengue: enfermidade febril, epidêmica e contagiosa, que se manifesta com dor nos membros e uma erupção da pele semelhante à escarlatina.

-Malária: febre palustre, produzida por protozoários, e transmitida para o homem pela picada do mosquito anófeles.

-Encefalite: inflamação do encéfalo. Letárgica: variedade infecciosa e geralmente epidêmica de encefalite, caracterizada entre outros sintomas pela tendência prolongada à sonolência.

Bibliografia recomendada e sites:

– Avaliação preliminar dos impactos na Espanha pelos efeitos das mudanças climáticas, em www.mma.es/oecc/impactos.htm

– Mudança climática e biodiversidade, em www.ipcc.ch/pub/tpbiodiv_s.pdf

– Climate Change 2001 (com tradução em espanhol), em www.ipcc.ch/pub/online.htm

– Oficina Espanhola de Mudanças Climáticas (www.mma.es/oecc/index.htm)

– Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática (IPCC), www.ipcc.ch

Manuel J. Ruiz

Maimónides e a vida do universo – Guía para desencaminhados

O distintivo do filósofo é a visão da unidade. Olha um ser humano e não vê uma soma de braços, pernas, tecidos, etc, mas sim aquele que está por traz e usa braços, pernas, estômago… Relaciona-se com outros seres humanos e concebe em sua imaginação a idéia de Humanidade. Olha para o céu estrelado, mar sem margem de luz e intui que é a expressão ou corpo de um Ser Vivo, de uma Idéia ou Logos, submetido, como ele, à Lei. Para um verdadeiro filósofo, a análise é a ferramenta que precede a síntese ou visão unificadora. A filosofia seria, então, o exercício natural da alma que, percebendo as analogias na natureza, entende o que é que une o grande e o pequeno, o próximo e o distante. E existe alguma substância que permita sujeitar todas estas unidades, vesti-las e inserir a unidade menor na maior, fazendo-as partícipes da mesma trama do destino? Para a filosofia tradicional e também para Maimônides, esta substância mãe é a Luz. Portanto, é a luz o seio onde se gera a vida, entendendo-a como movimento. Luz visível ou invisível para o olho humano, mas luz em definitivo. É a luz que transmite as forças e tensões de um lugar a outro do cosmo, tal como o sangue no organismo é quem transmite todas as substâncias químicas. É a luz das estrelas, ou melhor, nas estrelas, diz Maimônides, quem desperta as virtualidades dos seres. Já Aristóteles definiu o movimento como o deslocamento da potência ao ato. Mas é que, para a filosofia oculta e para a física moderna, Luz e Movimento são sinônimos.

Maimónides diz que não há no Universo absolutamente nenhum vazio: é um sólido pleno; por isto os antigos alquimistas o identificavam com uma pedra cúbica, compacta. Tudo está em movimento, é um dos princípios ou facetas da Grande Natureza Una. Maimónides apresenta a Vida como uma alternância do movimento necessário e do violento. Isto, numa chave, relaciona-se com o que na Índia chamaram Dharma e Karma. Maiomónides também faz referência ao lugar natural; cada ser na natureza tem um lugar que lhe é próprio, e onde se encontra em ressonância perfeita com a vida, com a órbita de movimento de um planeta; é seu lugar, é seu número. O movimento circular tenta perpetuar esta posição sem perder o movimento. O movimento linear tenta levar os seres para seu lugar natural, é a gravidade pela qual a pedra se precipita ao solo ou o fogo se eleva ao céu.

Para Maimónides o Universo é um Ser Vivo, estruturado segundo o número Quatro; número que é a base sobre a qual se sustenta tudo que se manifesta. Este número quatro constitui uma base importante. Para Maimónides as forças, as virtudes que mantêm a vida de tudo o que nasce são quatro, em relação com os elementos: a produtora dos numerais, a da alma vegetativa, a da alma vital e da alma racional. A influência que as estrelas vertem sobre o mundo sublunar – a Terra, o Homem – são também de quatro tipos. Toda a atividade das distintas almas ou elementos depende das virtualidades das distintas esferas celestes, mas as esferas às quais Maimónides se refere não são as físicas, mas sim as figuradas: os antigos chamavam as estrelas de figuras, e por figuras devem-se entender as geométricas. Cada figura geométrica tem um poder vibratório que lhe é próprio, e o giro dos astros em relação à Terra traça figuras geométricas. Figuras que se entrelaçam, produzindo harmonia ou dissonância (desarmonia). Os antigos pitagóricos diziam que cada astro é um Número dotado de corpo. Maimónides atribui às estrelas não só os poderes de conservação e reprodução, mas também os de diferenciação de todos os seres.

Este número Quatro é o assento, o suporte de tudo o que vive. Mas se intui o onipresente Sete por traz, simbolizado pela pirâmide de base quadrada. Maimónides relaciona o número 3 com o anjo ou o mensageiro da onipotência divina; este mensageiro, triângulo ou “um terço do universo” é quem comunica a irradiação da unidade, sem limites, símbolo de Deus, com a Natureza (Quatro). É que a estrutura da vida é septenária. A vida não pode ser apreciável em sua última essência, como o heptágono, que não pode ser construído nem inscrito no círculo por procedimentos geométricos (com régua e compasso).

É assim que este filósofo CORDOBÊS se refere:

Em alguns manuscritos tenho lido: Quantas notas tem a escala musical? SETE.

Tal e como O Uno criou o uno, a Vida do Universo é a que logo se expressa nas faculdades de vida das substâncias gasosas (leiamos “químicas”), minerais, vegetais, animais e nos seres humanos. É a mesma Vida que ressoa em cada um de seus átomos. Se devemos identificá-la com a Luz ou o Éter ou que relação tem com ambas, é algo que Maimónides, acredito, não explica. Mas a Vida como uma “eletricidade” que cria, conserva, destrói, renovando assim o ciclo: Existe no conjunto do cosmo uma potência que enlaça umas partes com outras, preserva da morte as espécies e conserva assim os indivíduos, na medida do possível, mantendo do mesmo modo uma parte dos indivíduos do universo.

Esta vida é, para Maimónides, Deus: Assim, no universo há algo que rege o conjunto e põe em movimento seu principal órgão, ao qual comunica seu poder motor, de maneira que serve para governar aos demais; e se alguém imaginar que tal coisa poderia desaparecer, toda essa esfera, tanto a parte dominante como a dominada, deixaria de existir. Isso é o que perpetua a permanência da esfera e de cada uma de suas partes, e é Deus.

Segundo Maimónides este Deus se expressa através da Inteligência, das esferas e dos elementos, pois todos eles executam o mandato soberano. E o termo com que os designa, malak, significa que são os “governadores” que têm autonomia própria, percebem seus atos e usam de liberdade para governar. Ou seja, os astros e as Inteligências que os regem são seres vivos, conscientes e responsáveis; mas se ajustam à Lei enquanto o fazem. Estas inteligências são canais e “cristalizações” da mesma Lei. Regem as leis da natureza, é sua alma consciente. Maimónides as chama de “anjos” – como juízes, governantes ou enviados – e estabelece assim a pirâmide da Natureza: Porque Jehovah, vosso Deus, é o Deus dos deuses – ou seja, dos anjos – é o Senhor dos senhores – ou seja, das esferas e dos astros, que são senhores de todos os demais corpos. Cada Elemento, cada astro, cada reino tem um Deus que lhe é próprio, a mesma coisa ocorre com o Ser Humano, nosso Deus abarca toda a linhagem humana, dominadores e dominados. As “Inteligências separadas” de Aristóteles são os “anjos” de Maimónides. E todo ato divino é executado pelo ministério de um anjo. Daí a denominação de exército celeste; porque cada um deles leva ao ato o poder de Deus. Não deveriam estranhar este ensinamento tão evidente para a intuição. Assim como a ordem no universo é uma necessidade lógica, a alma desta ordem é uma necessidade intuitiva. Quando Newton fala das leis físicas e matemáticas que regem a gravidade, explica que este mecanismo está ativo e ajustado continuamente pela alma da lei da Gravidade, e são inteligências celestes as que regem todo este processo. Como podemos pensar que não existe consciência e vida ali onde existe movimento, mesmo que seja em grau ínfimo?

Inclusive os menores elementos do universo, até a formação dos membros dos animais, tal e como são, foram feitos por intermédio dos anjos, uma vez que todas as aptidões são angelicais. Para a filosofia Platônica e Pitagórica, as primeiras Inteligências ou Anjos são os Números. E por acaso não são os Números os que regem os mínimos detalhes da vida, do universo? Os Números determinam as órbitas eletrônicas e as formas das mesmas, as combinações do DNA no desenho da vida, as propriedades dos elementos químicos, as formas de relação e aproximação dos seres humanos, etc. Para os pitagóricos, tão respeitosamente mencionados por Maimónides, são os Números os únicos seres vivos de um modo perene. O tecido de suas inter-relações é o suporte da vida em seus inumeráveis modos. Matemática é a linguagem com a qual Deus fez o Universo; e as letras são os números. É o mesmo ler número ou anjo; o importante é entender a que se refere Maimónides quando diz: Deus pôs no sêmen uma força formativa que modela e estrutura esses membros, e isso é o anjo, ou o bem, que todas as estruturas procedem da ação do Intelecto ativo, e este é o anjo e o príncipe do mundo; ou quando explica que os anjos são as forças ativas em alguma coisa.

Falamos de Vida, mas como podemos nos referir a ela se não sabemos de onde vem e para onde vai? Qual é o último objetivo do universo? E, todavia, como das águas de um rio, da vida não percebemos sua oculta fonte, nem seu último descanso, mas somente seu movimento perpétuo, seu sentido. Isto é o que nos ensina Maimónides. A mente humana é limitada e não pode compreender a causa final do Universo. E o Homem não é a causa final da vida, é só um de seus degraus intermediários. Sabemos que vem de Deus, mas não podemos entendê-lo; sabemos que vai até Deus, mas não sabemos nada de Deus, só a contemplação do fluxo de sua vida, seu incessante movimento; o que na Índia chamaram sadhana, o SENTIDO DA VIDA.

O que conhecemos, conhecemos pela contemplação dos seres; por esta razão nossa ciência não abarca nem as coisas futuras nem o infinito.

José Carlos Fernández

10 razões para visitar: Lisboa

1 – Alfama e Mouraria

Uma das áreas mais antigas de Lisboa. Sobre um terreno íngreme e sinuoso se estende um labirinto de ruas estreitas e calçadas nas quais encontraremos os encantos mais autênticos: os velhos edifícios, a roupa estendida nas sacadas, as tascas e a tênue iluminação noturna.

2 – Castelo de São Jorge

De provável origem visigótica, foi conquistado pelos árabes em 1147, como se pode apreciar no pouco que sobrou da Cerca Moura. Rodeado de vielas e jardins, próximo ao excepcional mirante de Santa Luzia de onde se pode desfrutar de uma visão espetacular da cidade.

3 – Catedral Sé

Mandada construir por Afonso Henrique, primeiro rei de Portugal, em 1150, sobre a principal mesquita de Lisboa. De estilo gótico, ainda restam vestígios de sua construção românica original. Nas recentes escavações arqueológicas de seu claustro se podem ver restos arquitetônicos da época romana.

4 – Bondes

A melhor forma de conhecer a capital portuguesa é percorrer Lisboa com os atraentes bondes. O melhor trajeto é o da linha 28, que corre entre São Vicente e os Jardins de Estrela, passando pela Rua da Conceição, em plena Baixa. Também é interessante a linha 12 que vai de São Tomé ao largo Martim Moniz.

5 – Baixa e Chiado

Estes dois bairros constituem o centro comercial de Lisboa. O traçado neoclássico se deve à reforma urbanista do famoso Marquês de Pombal após o terremoto de 1744. A animação diurna está garantida em suas numerosas ruas para pedestres onde encontramos comércio, café e belas livrarias.

6 – Elevadores

Uma das figuras emblemáticas da cidade são os Elevadores, um elevador e três bondes que transladam à Lisboa do início do século XX. São úteis para subir aos bairros altos da cidade. Destaque para o Elevador de Santa Justa e o Elevador da Glória, que oferecem uma vista espetacular.

7 – Bairro Alto

Certamente sempre um favorito dos amantes da vida noturna. Aqui podem-se encontrar bares e restaurantes que ficam abertos até tarde da noite. O Bairro Alto oferece também opções culturais como o Instituto do Vinho do Porto, os Museus de História Natural e da Ciência, e o Jardim Botânico.

8 – Torre de Belém

Construída na era das Descobertas pelo rei D. João II, quando a defesa da cidade era de extrema importância, em homenagem a São Vicente, patrono da cidade. Um dos melhores exemplos da arquitetura manuelina eleva-se orgulhoso junto à desembocadura do Douro, no bairro de Belém.

9 – Mosteiro dos Jerônimos

Também no bairro de Belém, este grandioso edifício de estilo manuelino foi construído no século XVI graças às riquezas geradas pelos descobrimentos. A Fachada do Meio-Dia é verdadeiramente espetacular. No interior do templo conservam-se os sepulcros de Vasco da Gama e Luiz de Camões.

10 – Áreas Ribeirinhas

Constituídas pelos antigos cais, mais conhecidos como Docas. Atualmente se converteram em uma das regiões mais animadas de Lisboa, onde podemos encontrar muitos bares e restaurantes. As casas de Fado, onde as pessoas podem saborear a excelente cozinha local e escutar música de Lisboa, são únicas.

Juan Adrada

Do fundo da História – Animais de pedra de Ávila

Pertenço à tribo vetona dos abulenses, e nasci na Idade do Ferro. Tenho muitos irmãos, em Salmántica, Toletum e Pacis, vigiando os campos, cuidando das pastagens.

Alguns de nós guardam os templos nos seus alicerces, outorgando-lhes sua força.

Eu tenho a imensa honra de entregar minha força à base de uma torre das muralhas de Abula. Já não me lembro, depois de tantos anos, se nasci aqui, se estas pedras são as primeiras que meus olhos viram. Talvez não. Talvez me deram vida em outro lugar e depois me trouxeram aqui para desempenhar o meu propósito. Acredito que não foi assim, acredito que nasci na muralha, que me talharam na mesma pedra da que ela está feita, que tenho o mesmo destino da eterna fortaleza. A ela me entrego: afundo meu rochedo em seu seio duro e maternal, e durmo. E sonho.

Sonho com correr pelos campos vetones, com sentir a sua terra embaixo dos meus cascos e comer seus frutos. Que sou carne, não pedra, e tenho olhos que podem contemplar as pastagens e a meus irmãos. Meus irmãos, os porcos e os touros, que de ambos tenho traços, como vês pelos meus chifres, porque assim queria o simbolismo dos deuses vetones. Sonho que elevo à Lua minhas defesas e me banho na luz noturna de minha terra.

Depois, séculos depois, os homens edificaram sobre mim, e no meu entorno. As ruas medievais, as muralhas medievais. Elas me ocultaram a todos e me sumi na obscuridade. E sonho.

Sonho-me guardião de torres, de fortalezas. Sonho com a passagem das legiões romanas, com suas batalhas com meus vetones. Os contemplo, minhas patas cravadas na pedra, sem poder correr atrás deles, testemunho impávido da derrota dos meus criadores.

Foi então quando virei a cabeça e fundi na rocha da muralha, para não ver o sangue dos guerreiros, para que meus próprios gemidos de dor não se escutassem fora.

Não me fica, daquilo, mais que o cumprimento do meu dever. Seguirei sustentando a torre, enquanto seus blocos permanecem unidos, enquanto Abula tem muralhas, trocando nossas forças, sendo umas no outro, pedra na pedra, alma na alma, mineral no mineral.

Desde a Idade do Ferro.

Mª Ángeles Fernández

O que Platão nos ensina sobre o amor?

A que chamamos amor? O amor é o desejo sexual? É algo mais? É a mesma coisa amar os pais, os filhos, os amigos, o nosso companheiro ou companheira? E o amor ao nosso cachorro, ou ao gato, ou ao periquito? E o amor a nós mesmos, é só egoísmo?

O amor é um dos aspectos mais importante da nossa vida e está presente em nossas conversas. Há incontáveis filmes, canções sobre amores felizes e infelizes, e muitas vezes as lágrimas ou a emoção nos tomam por causa do amor. Porém, o homem e a mulher do nosso tempo não concebem isso como um assunto que está para ser resolvido, como algo para aprender, mas, sim, como um sentimento espontâneo: o namoro ou o desejo sexual. Mas percebermos que nas consultas com psicólogos as perguntas mais habituais sobre o amor fazem referência a como nós podemos ser amados, e nunca como podemos aprender a amar.

O tema é muito mais vasto do que nos parece a primeira vista. Diz Platão que o céu se move por amor. É por acaso que Dante tenha argumentado como Platão dizendo que era o amor que movia o Sol e as estrelas? Significa a mesma coisa amar uma pessoa e amar o trabalho, ou a própria terra? E o amor à justiça, à ciência, à arte? E o amor a Deus?

Eros, o Amor, é o tema do diálogo “O Simpósio”, mais conhecido como “O Banquete”, obra do grande filósofo que foi Platão. Platão nos situa em um banquete grego típico, com duas partes: primeiro a comida e depois a bebida a serem servidas que marcava o momento para o anfitrião oferecer um entretenimento de caráter estético como o canto, a dança, a música, ou um diálogo de idéias, com suas discussões e reflexões. Nesse caso se tratava de um banquete em que os convidados de Agatón, poeta que havia triunfado no último concurso literário, propuseram um elogio ao Amor.

Como o grupo de admiradores estava satisfeito, visto que havia suscitado o elogio de Agatón, Sócrates se exime humildemente de pronunciar sua fala por não poder competir com os demais. Disse: “Eu acreditei tolamente que é mister dizer a verdade sobre o que é louvado, mas pelo visto não é desse modo, e vocês só se importaram em acumular elogios excessivos, atribuindo ao amor tudo de maior e mais belo que se pode encontrar, sem se preocupar se é verdade”.

Com seu diálogo, Sócrates faz Agatón reconhecer que as suas palavras eram bastante ocas, pois escondiam contradições dentro de sua beleza e persuasão. Agatón disse que o amor era belo, bom, que ansiava, queria, tendia ao belo, mas todo o desejo representa busca de algo que não se tem e que interessa ter, mas que não sabemos se amanhã estará conosco. Então, se Eros aspira ao belo, não pode ser ele mesmo belo, mas carente de beleza. E, então, não é um Deus, porque não é possível um Deus sem beleza.

Essa réplica pode parecer mordaz, mas Sócrates a profere com humildade e confessa que com ele aconteceu a mesma coisa, pois acreditava que o amor era belo e bom, e foi Diotima, uma sacerdotisa, que respondeu a suas inquietudes:

Se o amor não é belo nem bom, será feio e mal? Certamente não. O não ser nem belo nem bom necessariamente não implica ser feio e mal, como o não ser sábio necessariamente não implica ser ignorante. Entre beleza e feiúra – bondade e maldade – como entre sabedoria e ignorância, há termos intermediários, e esse é o caso do amor. Por isso não tem que lhe considerar, como faz a opinião comum, como um grande Deus, já que não podem ser negadas aos deuses a beleza e a bondade.

Não é um Deus nem um mortal, é um grande Daimon, um intermediário entre deuses e humanos. A idéia é simples, o amor é o caminho, o nexo de união com isso que nós chamamos perfeito, divino, formoso serve como conexão e comunicação que enchem o vazio que existe entre o visível e o invisível. Por amor somos capazes de fazer e viver aquilo que o corpo biológico não pode conceber; isto é, o heroísmo. Por amor, alguém é capaz de deixar sua tranqüilidade e conforto e entregar sua vida a serviço dos demais, curando doentes ou ensinando crianças. A atitude de serviço pode começar por varrer um chão, ou saber escutar, ou resolver um problema ecológico, social, ou trazer um pouco de beleza e de cortesia. São diretrizes da consciência, do coração, que não vêm do egoísmo, mas do amor.

Em seguida Diotima passa a descrever um mito sobre o amor. Quando Afrodite nasceu, os deuses celebraram um banquete e, entre outros, estava também o Deus Poros, o filho de Inventiva cujo nome significa “o que tem recursos, abundância”. Penia, a pobreza, veio implorar para participar do banquete. Poros, embriagado de néctar, o licor dos imortais,

saiu para o jardim para dissipar a embriaguez, dormindo. Deitado estava quando Penia o avistou e pensou que o melhor a fazer seria aproveitar a oportunidade e ter um filho de Poros: Eros. Gerado nesse dia do nascimento de Afrodite, o amor sempre está no cortejo da Deusa. E por ser Afrodite supremamente bela, corresponde ao amor ser amante do belo.

De sua mãe tem, em primeiro lugar, o andar sempre apressado e sua aparência, não é, ao contrário do que a maioria pensa, delicada e bela. Pelo contrário, anda sempre faminto, descalço, dormindo ao relento sem outra cama além do chão, dos caminhos ou dos umbrais das portas. Não o acharemos nos palácios, nem nos bancos, nem nas caixas-fortes, porque não precisa de dinheiro, visto que é humilde. Do seu pai, por outro lado, tem o andar sempre à espreita do belo e do bom que não possui, sabendo ser valoroso, perseverante e arrojado, apaixonado pela inteligência, fértil em recursos incomparavelmente mágicos. Quem não reconhece nestas qualidades a força que o amor desperta em nós?

O amor também anseia possuir um bem com a intenção de que dure para sempre. O amor tem apetite pela imortalidade. Como adquire isso? A resposta não tem grandes pretensões moralizantes nem metafísicas, mas é arrancada completamente do processo natural do amor físico. A natureza alcança a perpetuação com a procriação, com os filhos. A procriação é o único caminho da Natureza para se perpetuar; as rosas não são eternas, mas em todas as primaveras nós temos o seu perfume, limpo, jovem. Platão fundamenta essa mesma lei para a natureza espiritual: o anseio da geração não se limita ao corpo, mas tem sua analogia na alma. E, além disso, a fecundidade da alma é muito superior a do corpo e, se manifestado, principalmente, em obras de pensamento, arte, poesia e invenções de todas as espécies. As pessoas dotadas desta fecundidade de acordo com a alma se prendem ao belo – é o amor de um artista por sua criação ou de um mestre por seu discípulo – e por amor alguém se esforça em conduzir uma pessoa, uma pedra ou uma idéia à perfeição, desenvolvendo todas as suas possibilidades latentes. É a idéia do amor como uma paideia ou atividade formativa.

Deste momento a conversa alça vôo e começam a soar as palavras de alta tensão: “Mistério”, “Iniciação”… Há uma via a seguir para chegar à contemplação do belo em si. Mas se requer uma iniciação, uma ascensão por etapas dialéticas: primeiro nasce o amor à beleza corporal, por meio de uma educação estética. Ama-se um corpo e pouco a pouco se vê que o belo não está circunscrito em um só corpo. A beleza de alguém é irmã gêmea da de outro, e não somente os seres humanos são belos. Há beleza em tudo, na Natureza: animais, montanhas, nuvens.

Fica em segundo lugar o amor à beleza das almas, à beleza moral, ao comportamento, e é uma beleza muito mais preciosa. Deste modo, a pessoa prefere uma alma bela a um corpo belo, um bom caráter a uns olhos verdes, um coração sábio a umas longas pernas. Existe uma beleza interior e esta é mais estimada do que a física. Quando já é capaz de reconhecer a beleza em todas as atividades e leis, e se desenvolve o amor ao conhecimento: amor às projeções do espírito, às ciências, às artes e chegar ao supremo: o amor ao belo, que é oferecido logo após ter percorrido o caminho anterior.

De repente será visto, como um raio, uma beleza de natureza maravilhosa. A iniciação foi lenta e gradual e a revelação, por outro lado, instantânea. Platão somente disse: Beleza que existe eternamente, e não nasce nem morre, não mingua nem cresce; beleza que não é bela por um aspecto e feia por outro, nem bela por um momento, nem tampouco bela em um único lugar, nem bela para uns e feia para outros. Nem se poderá representar esta beleza como se representa, por exemplo, um rosto ou umas mãos, ou outra coisa qualquer que pertença ao corpo, nem como uma fala ou como uma ciência, mas que existe eternamente por si mesma e consigo mesma. Disse a sacerdotisa que este é o momento da vida em que, mais que outro, o homem deve viver: a contemplação da beleza em si. Já não é possível, pois pertence à ordem do êxtase místico, descrevê-la; alguém transcende, sai de sua pequenez, e se rende ao imenso mar do belo.

A Filosofia é o caminho de retorno à reconquista de nossa natureza: uma vida harmônica e o amor à sabedoria conduzem ao triunfo do melhor que há em nós. A Filosofia é uma “loucura divina” e é amor à sabedoria. O filósofo está possuído por um deus, em estado de entusiasmo perpétuo buscando o Belo, o Bom e o Justo e por isso ele rejeita muitos outros projetos os quais outros se aplicam com tanto zelo, como dinheiro, fama ou poder. E pela mesma razão são tidos como loucos, porque, para a maioria, passa despercebida a posse divina, o amor por todos, por tudo e pela vida. O conhecimento não é em Platão jogo frio, racionalista de conceitos. A metafísica de Platão é a metafísica de Eros.

Eros, como a alma e como o filósofo, pertence a essa linhagem de seres intermediários entre o mundo das idéias e o das coisas materiais, cuja missão consiste em pôr em comunicação ambos os mundos. Por amor platônico se entende até hoje o amor espiritual, o amor que transcende. É o amor impossível, como dizem, mas na realidade é exatamente o amor que torna possível o impossível e que nos faz sentir irmãos acima das diferenças.

Platão insiste que é necessário aprender a amar. É necessário voltar a estender a mão e oferecer algo para comer, para sobreviver e, além disso, para sonhar um Ideal. É necessário um amor que nos faça vencer o medo de dar generosamente o melhor que temos, uma carícia, um sorriso, atenção, tempo, fé, confiança. Necessitamos do amor que nos limpe do barro do materialismo.

Há que se descontaminar, e ao dar e esvaziar-nos entrará novamente não somente o canto dos pássaros e dos rios, mas as vozes dos que sofrem. É necessário o amor que permite ao outro viver em liberdade. Há guerras porque esquecemos de Amar com letra maiúscula, amar as esperanças, as nossas e as dos outros. O amor nos faz sentir e encontrar novamente a Deus.

Bibliografia:

O banquete. Platão.

Os seis tópicos da filosofia de Platão. Antônio Gómez Grove.

Magia, religião e ciência durante o terceiro milênio. Eu levo II. Jorge Ángel Livraga.

Paideia. Werner Jaeger.

Sara Ortiz Reus

Os direitos humanos

Não foi porque celebraram o 57º aniversário em dezembro passado que se enfraqueceram os ecos dos direitos humanos e sua decidida importância para o desenvolvimento da convivência.

Mas, uma vez mais, devemos enfrentar as incoerências da vida diária. Quanto mais se tenta focar os direitos – e os deveres – que todos temos, parecem surgir novas fórmulas que tendem a esmagá-los. Refiro-me neste caso à difamação.

Nos últimos tempos é habitual comprovar que, em todos os níveis, se emprega a difamação, mais ou menos sutil, para manchar a imagem de personagens de destaque. Com isso não pretendo converter em santos àqueles que não são, porém o mal é que, se continuarmos por essa via, ninguém será, não somente santo, mas nem sequer bons, e muito menos aceitáveis.

No plano político internacional os exemplos são tão abundantes, enchem tantas páginas de jornal, revistas, livros, ocupam tantas horas no rádio, no cinema e na televisão, que não vale à pena deter-se neles. Em poucas palavras: ninguém mais vale nada, sobretudo quando é um enfrentamento com um adversário em termos de idéias e posições políticas.

Assombrou-me ver que a crítica destrutiva não somente afeta as estrelas do cinema e do teatro, cujas existências estão nas mãos e nas bocas de todos, mas também salpicam naqueles artistas que fazem somente trilhas sonoras ou músicas que enchem nossos raros momentos de tranqüilidade. A conhecidíssima violoncelista, já falecida, entrou novamente em cena, não por uma gravação desconhecida, mas por um livro no qual são contados seus vícios ocultos, suas paixões, enfim, sua má reputação indigna da fama merecida na arte. Um escritor que triunfa verá tão logo como sua imagem será destruída em alguma biografia recompilada por lá se sabe quem. Assim, o velho historiador que fez as delícias de nossas horas de investigação se torna um sátiro indomável.

O filósofo quem admiramos desde nossa juventude e que viveu há vários séculos aparece hoje ante os olhos da informação exaustiva como um depravado que somente visava ao seu próprio prestígio e benefício. O pintor que enche as melhores pinacotecas do mundo é um degenerado incorrigível. E o pior é que esses mesmos vícios são aplaudidos em outras pessoas que não pintam, não escrevem, não fazem música, nem brilham nas telas dos cinemas…

Creio que deveríamos dar lugar ao direito à inocência, ou ao menos à presunção de inocência, a tudo que se possa demonstrar  – e não em um artigo ou um livro montado, baseado em recortes e cópias requentadas – o contrário. Estes tempos querem passar à história como os mais liberais, os de maior informação, os de máxima valorização da vida humana e de respeito pela natureza, só que o resultado de tudo isso é uma liberdade que está nas mãos da desinformação, que macula a Terra diariamente e faz a humanidade passar por um período de atrocidades que deixariam horrorizados os maiores tiranos míticos e reais. A medida que prevalece parece ser: quem se destaca um milímetro na sociedade, algo de mau há de ter. Precisamente nos interessa dar cabida ao direito oposto, o de pensar que todo mundo tem de ter algo de bom, sendo uma figura destacada, ou não, e, sobretudo, que se destaca por seu próprio mérito. Se não somos capazes de pôr uma gota de benevolência em nossos julgamentos, será muito difícil celebrar com dignidade um novo aniversário desses direitos tão necessários e tão escassos – e deveres – humanos.

Delia Steinberg Guzmán

Saber amar

Os poetas, os filósofos e todo o ser humano, cuja alma está viva, sempre falaram do amor. No amor se tem visto o mais nobre e grande sentido que se possa dar à vida. Mas o que é o amor? Qual é a sua essência? Todos nós experimentamos amor, mas o que é exatamente?

As formas por meio das quais os seres humanos experimentam o Amor ao longo da vida são múltiplas. Nós sentimos amor por aqueles que são mais novos e mais frágeis do que nós e a quem pudemos dar o melhor de nós mesmos. Nós sentimos amor por aqueles que são mais velhos e que deram o melhor de si mesmos. Nós sentimos amor pelos que são nossos iguais, os amigos de alma e os parceiros com os quais crescemos. Devemos amar a nós mesmos. E também amamos o grande e o eterno, amamos a Natureza que nos envolve, o Mistério do qual fazemos parte, e as respostas do ser humano para ele mesmo: as ciências, as artes, a mística e a filosofia.

Para responder às perguntas mencionadas sobre o amor iremos recorrer a Platão. No diálogo do Banquete ele pôs nos lábios da sacerdotisa Diotima um belo mito que nos aproxima à essência do amor:

Quando Afrodite (Deusa Grega da Beleza) nasceu, os deuses celebraram isso com uma grande festa. Entre eles se encontrava Poros (símbolo da abundância). Depois do jantar, Penia (símbolo da pobreza) se apresentou pedindo algumas migalhas, sem ousar passar da porta. Naquele momento Poros, embriagado de néctar, saiu da sala e entrou no jardim de Zeus, onde o sono não tardou a fechar suas pálpebras cansadas. Penia então, instigada pela sua pobreza, teve a idéia de ter um filho de Poros; deitou-se ao seu lado e foi mãe de Eros (o Amor). Por isso Eros é o companheiro e servidor de Afrodite, visto que foi concebido no mesmo dia em que ela nasceu e também porque ama a beleza, sendo Afrodite bela. Como filho de Poros (a abundância), teve como herança ser encantador, valente, perseverante, engenhoso e generoso. Como filho de Penia (a pobreza), sempre está procurando algo para suprir o que lhe falta, pois o amor também é expressão de carência.

O mito nos ensina que o amor é uma força intermediária entre o mundo de seu pai, o mundo do eterno, do perfeito, dos arquétipos onde não só reside, para Platão, o Belo, mas também o Bom, e a Sabedoria, e o mundo de sua mãe, do que é passageiro, mutável, carente, imperfeito no qual nos movemos. O amor é então um laço que une o grande e o pequeno, o perfeito e o imperfeito, o diferente, de um modo geral. A própria essência do amor é a de ser intermediária, ponte entre os diferentes, o que está simbolizado no mito pela sua dupla origem.

Amor é União

De um ponto de vista mais geral, sempre que dois elementos estão unidos, não é incorreto dizer que existe amor entre eles, que se buscam, que se complementam. Por isso pensadores como Dante explicaram que o amor é que move o Sol e as estrelas. Por isso no Egito seu símbolo era o da Deusa Ísis, a Deusa do Amor e da Vida, o laço, a força, a ligação que mantém unida todas as coisas e todos os seres.

A relação que Platão faz entre o amor e Poros, a abundância, não nos surpreende, porque todos nós sabemos que o amor é generoso, valente, que para ele não existem limites. Mas, por outro lado pode nos surpreender o parentesco do amor com Penia, a pobreza. Mas é muito certeira essa explicação porque realmente amamos, procuramos, o que não temos, o que não possuímos. Sentir amor é ser consciente de nossas carências, do que nos falta. Amar é procurar a própria completude. Deixar de querer crescer é banir o amor de nossas vidas.

Mas há um terceiro elemento no mito que é fundamental. Eros sempre acompanha Afrodite, a Deusa da Beleza e da Harmonia. O amor sempre procura o Belo, o Bom, o Justo, o sublime, e por isso a conseqüência imediata do amor é a transformação, o crescimento, porque é uma força, um vetor que aponta para cima, para as estrelas.

O Amor é uma união com ansiedade do céu. O fruto do verdadeiro amor é o crescimento. Por isso o querido Julián Marías, discípulo de Ortega e Gasset, define o amor como transformação. O amor não é propriamente transformação, ele é união com sentido ascendente, mas a transformação é seu produto inevitável, portanto é muito bela a identificação do amor com seu fruto, com sua flor.

Quando pensamos que uma relação é de amor, perguntemo-nos: existe verdadeira dação generosa? Existe recepção? Existe crescimento, transformação? Se for assim, estamos ante um verdadeiro laço de amor, senão só estamos ante a sua sombra.

O amor pelos mais novos

Amar uma criança ou alguém com necessidades é fundamentalmente educá-lo. Educar não é introduzir uma infinidade de dados na cabeça da criança, é educire, tirar dela suas qualidades latentes, é ajudá-la em seu próprio processo de transformação e crescimento. Educar é basicamente ensinar a frear o egoísmo para que as virtudes possam ter seu espaço vital. Uma criança a quem não é ensinada superar o seu egoísmo lhe custará muito a aprender a amar porque não saberá olhar além do seu próprio umbigo. A uma criança que não é ensinado a disciplina de conter-se a si mesmo e superar sua preguiça lhe faltará força para conquistar qualquer meta que requeira esforço contínuo, que seja uma ciência ou uma arte. Quem não domina a si mesmo não pode dominar nada externo a si mesmo.

Há uma falsa idéia relativa ao amor de que este sempre tem que ser algo “doce” que, quando existe amor, nunca há momentos de tensão. Não, o amor é uma grande força que une, mas que tem uma direcionalidade clara: crescer e transformar-se. O crescimento não só precisa de calor, mas de retidão quando ainda não é suficientemente forte. É como uma pequena planta trepadeira que precisa do calor e da luz do sol, mas também precisa de alguns tutores para poder ir elevando-se até desenvolver sua própria força vertical. As pessoas que pedem em troca pelo que deram, não amam, negociam. O pai que não sonha ver seus filhos “voarem”, mas que sempre quer que dependam dele, tampouco ama, é realmente um egoísta. Os filhos são companheiros em uma fase da vida, portanto não devemos projetar neles nosso sentido existencial, ou seja, não devemos evitar nossas próprias lutas e conquistas individuais, tendo eles como desculpa.

O amor pelos mais velhos

Quem recebe amor, corresponde naturalmente com amor. Isso é o que sentimos pelos nossos pais e também por todas aquelas pessoas que nos ajudam a descobrir nossos próprios sonhos da alma, nosso próprio destino. Assim amamos, ou nos lembramos com carinho (outra expressão do amor) daquele professor da escola que nos fez despertar amor à física, à poesia, à história ou à matemática. Aquele que não se preocupou em dedicar seu tempo fora do horário, que nos fez descobrir que aquelas idéias nos entusiasmavam e abriram assim outro campo de amor para ser cultivado em nosso coração.

O amor é um elemento vital para qualquer ser humano. Uma vida carente de amor é uma vida carente de crescimento e, então, deixa de ser vida. Mas existem muitas formas de dar e de construir. Personagens como Leonardo da Vinci, Botticelli, Michelangelo, Gaudí e Newton não tiveram filhos, biologicamente falando, mas suas obras e seus discípulos foram a forma em que seu amor floresceu por se aproximarem da beleza eterna ou das leis da natureza. Se a “lei” do amor aos mais novos se baseia em fortalecê-los de forma que um dia possam estender suas próprias asas e voar, a “lei” do amor aos mais velhos, a todos aqueles seres humanos que contribuíram para o nosso despertar, que nos servem de guia, que nos fazem crescer, é de aproveitarmos ao máximo seus exemplos, suas obras, e de transmitirmos, por sua vez, o ouro que temos recebido deles.

Se o primeiro amor do qual falamos, o que se experimenta dando, é filho de Poros, da abundância, o segundo tipo de amor que se experimenta recebendo desses que são mais velhos faz parte desse Eros, filho de Penia, da pobreza: aquele que ama o que ainda não possui.

O amor entre iguais

O amor entre iguais abarca a amizade, o amor ao cônjuge e a si mesmo. Amamos a um amigo de alma, amamos porque crescemos junto com ele, mas também fundamentalmente porque com ele podemos ser nós mesmos. Quando temos vários amigos, com cada um deles floresce um sentimento particular em nossa alma. Um amigo é quem nos conhece tal como somos e nos aceita desse modo. Um amigo sabe escutar sem nos julgar, sem querer nos mudar. Saber escutar é uma expressão fundamental do saber amar, e não se escutam só as palavras; quem sabe escutar sabe ver basicamente como estão os seres humanos com os quais se convive, sem necessidade de que haja palavras.

Em um verdadeiro amor não se quer mudar o ser amado, precisamente já é querido pela beleza que já vemos dentro de sua alma; amamos seu coração, sua felicidade, sua generosidade, sua força, seu valor, sua inteligência profunda,… o queremos por suas próprias características que são diferentes, afortunadamente, das nossas. Quando se quer mudar alguém não se ama de fato, se quer satisfazer o desejo egoísta de que essa pessoa orbite ao redor de nossa comodidade. O verdadeiro amor ama o que há de bom e belo em cada ser humano e quer que essas sementes cresçam: por isso Eros, o Amor, sempre acompanha Afrodite, a Deusa da Beleza e da Harmonia. Amar alguém é amar a beleza que esse alguém possui mais além de seus defeitos.

O amor no casamento

Quanto ao amor que nós chamamos de romântico, habitualmente ele confunde o estado de enamoramento com o verdadeiro amor. O enamoramento é um preâmbulo maravilhoso, mas nem sempre leva ao Amor com letra maiúscula, que é um sólido laço que se constrói ao longo de toda uma vida, quando se põe em jogo muito respeito, compreensão, fé e também inteligência. O verdadeiro amor se constrói quando se superam muitas dificuldades, quando as pessoas crescem juntas. É habitual aparecer como símbolo do amor um casal jovem de mãos dadas, mas seria muito mais real se fosse um par de idosos cujos corações se sentem plenos quando olham para trás e vêem tudo que construíram juntos. Os maiores amores são os que são conquistados com vontade e com inteligência, com verdadeiro desejo de compreender-se e amar-se, de crescer.

Não se pode viver bem como casal se primeiro não se é indivíduo, se primeiro não se aprendeu a viver por si só. É importante aprender a viver contando somente com nossas próprias forças, para poder viver bem com outro ser humano. É importante que o amor dê a mão à inteligência: escolhamos primeiro nossos sonhos e vejamos logo se podemos compartilhá-los. Um casal não pode se relacionar bem se ambos não olham, como meta de suas vidas, para a mesma estrela ou para estrelas muito próximas.

O amor por si mesmo

É ter fé em nós. É termos paciência e nos alegrarmos com nossos pequenos êxitos, porém ao mesmo tempo termos capacidade de nos autocorrigir para crescer.

É ver as próprias virtudes e desenvolvê-las, ver os próprios defeitos e combatê-los. Quem é demasiadamente autocomplacente deve se exigir mais. Quem é demasiadamente exigente deve se alegrar por suas conquistas, pelo que tem conseguido, e não se angustiar tanto pelo que lhe falta. Amar-se é apreciar-se na justa medida, aquele que se vê perfeito e crê que nunca se equivoca não pode crescer. Quem somente vê as suas limitações, imperfeições e erros acabará odiando-se, porque o amor busca o belo, o bom. Amar a si mesmo é aperfeiçoar-se constantemente.

Viver com amor

O desejo é passivo, é o que se converte em um centro que quer atrair para si o objeto ou o ser amado, sem aspirar a nenhum tipo de crescimento. O amor é ativo, expansivo, é a contínua transformação ascendente em si mesmo e no objeto ou no ser amado. Saber amar implica conhecimento, reflexão e muitíssima ação.

Amar começa por olhar para fora, para além de nosso pequeno e interessante mundo egoísta. Talvez sintamos falta do amor em nossas vidas porque deixamos de buscar apaixonadamente tudo que é bom, belo e justo. Platão do diálogo do “Crátilos” ou da “Exatidão das Palavras” nos recordava que os heróis, os seres humanos que se esqueceram um pouquinho de si mesmos, buscando o que é melhor para todos, são filhos de Eros. Os grandes artistas, os grandes cientistas, os grandes mestres da humanidade, são filhos do amor, o herói que vive em Eros. Há que ter muito amor na alma para sonhar baixar os eternos ideais a esta terra, para não descansar até que haja um pouco mais de fraternidade e beleza. O ser humano é como uma flecha lançada da Terra até o Sol, não somente sonhamos em aperfeiçoar-nos, em crescer, mas em viver crescendo tanto individual como coletivamente, pois só assim vamos encontrar a felicidade. Parece que o segredo de viver com amor é viver sempre inspirado pela busca da “Afrodite de Ouro”, pela busca dos eternos ideais.

Pilar Luis

Buscar a Arte – Auto-retrato de Artemisia como alegoria da pintura

Artemisia Gentileschi, St. James Palace, Londres

Artemisia é filha de Horácio Gentileschi, o grande pintor renascentista romano, e essa circunstância lhe permite dar asas a seu gênio artístico, superposto no barroco, sem se ater às convenções sociais da época para o feminino. Ainda que aceitássemos a idéia de que nem sempre o pintor põe em sua obra uma carga psicológica de simbologia oculta, nesta tela isso está tão claro que não resistimos em escolhê-la para comentá-la. A primeira coisa que “salta aos olhos” é a postura forçada de Artemisia. Como é muito difícil pintar tão longe da tela (está sentada a grande distância), ela precisa esticar muito ambos os braços. Sem dúvida, algo quis nos dizer com essa posição: que linha forma corpo e braços? Uma meia lua crescente. A lua, a mulher. Crescente, como ela se vê, como quer se ver, como na realidade está conseguindo ser. Sabe ser artista, assim se retrata e assim crescerá. Porém também sabe ser mulher e formosa, pois faz incidir a luz em seu rosto e, sobretudo, em seu peito, ou seja, que sua feminilidade não fique oculta pelo “trabalho de homem”.

Não obstante, em seu pescoço há uma corrente, e da corrente (casualidade?) pende uma cabecinha masculina.

O rosto, de semblante complexo, está absorto em sua tarefa. É muito belo e afirma a idéia de que quer formar uma lua crescente. Seus olhos não olham o pincel, como seria lógico, mas, à frente. Por quê? Porque se olhassem o pincel não os veríamos, a cabeça teria de girar mais um pouco. E, se baixasse o pincel ao nível dos olhos, desapareceria a linha da meia lua. A cor é fria, somente ocres e verdes, exceto a da luz. Não importa o entorno, o cenário não existe, nem há nada nele para ser destacado salvo ela mesma: a formosa pintora, a contracorrente de seu tempo, lua crescente, Artemisia Gentileschi.

Mª Ángeles Fernández

O LAÇO E O NÓ

Todo aquele que se aventura pela trilha da Filosofia à Maneira Clássica tem a oportunidade de abrir os olhos e ver coisas grandiosas tanto nas pequenas quanto nas grandes manifestações da Natureza.

O filósofo, o eterno aprendiz, é capaz de ver os laços que unem um átomo a outro átomo, e ver que assim se formam as grandes estruturas, desde as pequenas uniões, desde os pequenos núcleos que se irmanam e se apóiam uns nos outros mas, na justa medida, oferecem, cada um,  generosamente, o que têm de melhor e não apenas o que lhes sobra.

Este laço que está presente entre os pequenos átomos também une o “Grande Átomo” que é o Sistema Solar, cujo núcleo é o Sol e cujos elétrons são os planetas. Este mesmo laço que une os átomos e com eles forma os corpos vivos e ativos também une e anima o Universo.

“Assim em cima como embaixo”; eis o ensinamento hermético.

O amor é o grande laço que une todos os seres, todos os reinos, todos os homens, todos os corações. Se imaginarmos cada coração como uma pérola, o amor é o fio luminoso que une todas estas contas e com elas constrói um extraordinário colar. Sem o amor, sem o fio luminoso, estas contas se perdem no meio do lodo, no fundo do mar. No fundo de um mar de egoísmo, de ostracismo, de solidão e de isolamento. A ausência deste fio gera a desconfiança. Neste ponto surgem os nós, surgem os excessos, surgem as carências, surgem as relações desarmônicas, desconexas, desumanas. O laço é voluntário, o nó é compulsório.

O laço une, embeleza, vivifica, não limita, não estanca, não agride, não aprisiona.

O verdadeiro laço, qual espada luminosa, rompe num só golpe o nó da ignorância que submete o ser humano a uma vida mesquinha, medíocre, miserável. O nó impede que a energia circule, que se renove, evolua.

É feliz o homem sábio que porta esta espada luminosa, conhece-a e a domina. É feliz quem encontra um homem como este e pode chamá-lo de Mestre, de Amigo, de Irmão. É feliz quem procura esta união, e não somente procura, mas encontra este grande laço chamado Amor.

Gerson Rodrigues de Miranda

O Caminho do Inca – Uma aventura arqueológica

O Editorial Nova Acrópole e a Revista Esfinge patrocinam, juntamente com outras prestigiadas empresas, a expedição “O Caminho do Inca”, um projeto pessoal de dois de nossos principais colaboradores, Juan Adrada e Elvira Solano, que forma parte de um vasto plano de grandes expedições por todo o mundo que esse casal, castelhano por adoção, vem realizando desde 1993. Com a recente incorporação de nosso corresponsável Marcos Valenzuela, completa-se a equipe de expedicionários que realizaram essa aventura no mês de março de 2006.

Com “O Caminho do Inca” nossos três protagonistas solitários, equipados somente com o que puderam transportar eles mesmos, realizem uma longa viagem de mais de quinze mil quilômetros através da América do Sul, percorrendo estradas,  pistas de montanha, navegando em canoa, a pé e a cavalo uma variedade de ecossitemas que variam entre deserto, selva e as grandes cordilheiras montanhosas, e que abarcam oitenta por cento dos tipos climáticos do planeta.

A motivação de semelhante empreendimento é fundamentalmente cultural e arqueológica. Pretendemos criar um laço de união entre nações e povos diferentes que compartilham suas influências hispânicas e indígena e uma história comum cuja origem são as grandes culturas e civilizações que se desenvolveram antes da unificação cultural e social do império incaico.

Estar em contato com alguns dos grandes especialistas em arqueologia pré hispânica e documentar através de fotos as ruínas dos grandes monumentos e as jazidas arqueológicas mais importantes das civilizações passadas são os objetivos fundamentais desta expedição, que terá como resultado a recompilação do material didático e gráfico que servirá para a realização de audiovisuais, publicações de artigos, exposições fotográficas  e conferências, e será divulgado em uma página  web especializada que narrará a experiência da expedição passo a passo: http://www.estudiosgeograficos .org.

O Império Inca ou Tawantinsuyu foi uma autêntica revolução social e cultural que teve sua origem nas conquistas do quinto Inca, Capac Yupanki, e que chegou a abarcar uma extensão de terreno ainda maior que a do Império Romano, unificando territorialmente culturas e civilizações muito desiguais entre os anos 1200 e 1532 d.C. A importância das comunicações para manter harmônico um império de proporções   tão gigantescas deu origem  a uma vasta rede de estradas conhecidas com o nome de O Caminho do Inca ou Capac Ñan, que atravessava férteis vales, desertos inóspitos e cumes andinos, chegando até os confins mais remotos.

Na atualidade, ainda se pode percorrer muitos destes velhos caminhos de pedra, cujos fragmentos se conservam em ótimas condições, sobretudo em locais montanhosos e selvagens,  afastados da civilização moderna, a maioria dos quais só se pode chegar em veículos terrestres, por rio, a pé ou a cavalo. O Caminho do Inca se estendia ao longo de dez mil quilômetros de estradas pavimentadas de pedra que abarcavam desde o norte do Equador até o Estado  de Concepção no Chile Central. Este elo de união entre as diversas culturas pré-hispânicas que pretendemos  percorrer e documentar com esta expedição.

A fim de poder aproveitar o melhor clima possível nos quatro países que abarcam atualmente o território do antigo Império Inca – Equador, Peru, Bolívia e Chile-, e tendo em conta que grande parte da expedição se estenderá pela selva amazônica, os desertos de Ocucaje e Atacama, e por zonas de altas montanhas na cordilheira andina, a época mais propícia  para esta viagem é o início do outono, que no hemisfério sul coincide com nossa primavera.

A expedição sairá da Espanha até Santiago do Chile ao final deste mês de março de 2006, para retornar, depois de quarenta e cinco dias de viagem, no início do mês de maio. Um total de quinze mil quilômetros percorridos que nos servirão para documentar fotográficamente as ruínas da civilização Inca, suas culturas predecessoras e a posterior colonização espanhola.

Desde o mês de outubro de 2005 foram iniciadas todas as ações previstas, imprescindíveis para começar a viagem. Foram providenciados mapas e guias de todos os países, foram contactadas as embaixadas dos diferentes países da Espanha para conhecer os trâmites necessários em cada fronteira: vistos, permissões de circulação do veículo, seguros, vacinas, etc. Também se adquiriu informação adicional através das redações de várias revistas dedicadas a viagens e com pessoas conhecedoras dos diferentes países.

Conseguir vistos, passagens de avião, documentação e permissão para o veículo, carteira de habilitação internacional, seguros, vacinas contra a febre amarela e malária e certificado internacional de saúde, carteiras de investigadores, licença de publicações, fotografias de carné, cambio de divisas e cartões de crédito são alguns dos trâmites que se tem levado a cabo nestes últimos meses.

Com relação ao equipamento, contactamos a agência de aluguel de veículos National Car Peru para poder dispor de um veículo terrestre que foi transladado a Santiago do Chile antes do início da expedição. Também foi necessário equipar-se com reserva de provisões, galões de água, galões metálicos para gasóleo, mapas e guias de estradas, ferramentas…

A equipe de trabalho está composta por máquinas fotográficas digitais de alta resolução, lente objetiva, tripés e acessórios, sistema de orientação GPS via satélite, computador portátil e telefone celular. Algumas destas ferramentas já estavam em poder de nossos expedicionários e outras tem sido fornecidas pelas firmas patrocinadoras, principalmente Tiendras U.P.I. União Profissional Informática, que também colaboram econômicamente. O equipamento se completa com toda o equipamento pessoal necessário: roupas, equipamento de limpeza, equipamento de camping, redes,  equipamento de cozinha, caixa de primeiros socorros, purificação de águas,  equipamento de orientação e sobrevivência, e um longo etecétera.

Nossos aventureiros contam com a ajuda de prestigiosas empresas que tem prestado seu apoio e com outras que lhes tem facilitado equipamentos, serviços e apoio econômico. Lan.com e suas filiais Lan Chile, Lan Peru e Lan Equador forneceram as passagens de avião desde Madrid, necessárias para fazer a ligação com o continente americano e realizaram o transporte aéreo de todo equipamento.

A agência National Car Peru de aluguéis de veículos proporcionou um veículo terrestre e se encarrega de seu transporte ao ponto de partida e também do ponto de chegada, assim como a documentação necessária para os trâmites alfandegários em cada país.

A Loja U.P.I. União Profissional Informática lhes proporcionou equipamento fotográfico, de informática e de telefonia com os quais poderão estar em contato com os meios de comunicação constantemente e transmitir periodicamente textos e fotografias para a página da expedição na internet., além de uma importante ajuda financeira.

O principal aporte econômico provém das empresas Eberlin Spa & Wellness, pioneira em técnicas de balneoterapia e instalação de SPA; Viagens Terra Nostra e seu portal de viagens www.viajarporelmundo.com; e nossa própria empresa editorial NA Edições e a revista cultural Esfinge, que se encarregará da publicação de fotografias, entrevistas, artigos e materiais de investigação.

As grandes lojas especializadas na venda de livros, discos e filmes FNAC, com sedes em toda Espanha, cedeu seus salões de Madrid para a apresentação de exposições e publicações relacionadas com o projeto. Nestes salões tem lugar em meados de fevereiro o círculo da imprensa que tem dado a conhecer os preparativos da expedição aos meios de comunicação em geral.

Quanto a nossos protagonistas, o casal Juan Adrada e Elvira Solano residentes em Chinchilla de Montearagón, em Albacete, de onde se mudaram depois de um longo periplo por Sevilla, Cáceres, Barcelona, Valladolid e Madrid. Ambos gozam de uma ampla experiência em esportes de aventura como montanhismo, submarinismo e espeleologia, e na organização de viagens longas, em condições difíceis, que lhes tem levado aos cinco continentes.

Com formação militar profissional, Marcos Valenzuela foi o último a se incorporar na equipe de expedicionários. Excelente informático, master em administração de redes Microsoft e Novell, foi coordenador de informática do Destacamento JECONTAIR do Exército do Ar destinado a Kabul, Afeganistão, onde participou na missão de ajuda humanitária. Viajante incansável,  sua necessidade de ajudar  aos mais necessitados lhe tem vinculado recentemente ao grupo GEA de busca e resgate,  primeiro grupo espanhol treinado para atuar em situações de catástrofe, com o qual colabora ativamente. Na atualidade trabalha como corresponsável de nossa revista.

Educador, escritor e investigador, Juan Adrada é colaborador habitual da revista Esfinge, tendo mais de uma centena de artigos publicados e muitas fotografias, produtos de suasviagens. Viaja desde os dezesseis anos,  primeiro pela Espanha e Europa, e mais tarde por todo o mundo, às vezes em condições muito difíceis e sempre de maneira independente.

Elvira Solano é empresária. Dedicada inicialmente ao mundo da moda, sua paixão pelas viagens a levou a optar há algum tempo pelo turismo e as viagens como profissão, primeiro como organizadora logística no desenvolvimento de viagens de aventura pelo Oriente Médio, África e América Latina, e mais tarde como guia turística. Na atualidade é diretora de Viagens TerraNostra e proprietária de um dos portais pioneiros na venda de pacotes turísticos pela Internet na Espanha.

Ambos tem protagonizado muitas aventuras parecidas com esta, entre as que cabe destacar a “Expedição Mare Nostrum”, patrocinada pelo Consórcio Cultural Albacete e os hipermercados Eroski. Durante mais de 3 meses a expedição percorreu doze países na bacia mediterrânea a bordo de um veículo terrestre para documentar fotograficamente as ruínas das grandes civilizações que deram origem a cultura ocidental.

Espanha, França. Itália, Grécia e Europa, atravessando os Dardanelos para chegar a Asia Menor e percorrer a Turquia, Síria, O Líbano, Jordânia e Israel, regressando pelo norte da África cruzando pela península do Sinai e o canal de Suez até o Egito,  atravessando depois Líbia e Túnez, onde embarcaram rumo a Marsella, e, por fim, de novo a Espanha. Uma aventura cheia de peripécias  com mais de vinte mil quilômetros percorridos por estradas e caminhos, que lhes levaram a visitar jazidas arqueológicas tão famosas como Pompéia, Pestum, Tróia, Éfeso, Hatusa, Gordiom, Palmira,  Petra, Qumram, Jericó, Mênfis, Tebas, Cirene, Leptis Magna ou Cartago. No total, mais de cem lugares conhecidos por sua importância histórica e arqueológica, que são a origem da nossa civilização mediterrânea.

Em 1 de Março inaugurou em Madrid a exposição “Culturas do Mediterrâneo”, da que daremos toda a informação em nosso próximo número, e na que se exibirão os melhores trabalhos fotográficos surgidos desta expedição. Outras expedições destacadas deste casal de aventureiros foram a “Expedição Pakal”, onde percorreram a Mesoamérica ao longo de nove mil quilômetros; a “Expedição Rapa Nui”, na famosa Ilha de Páscoa, no Pacífico Sul; o “Abaixo do céu de Nut”, um longo trajeto percorrido pela estrada desde Alexandria, na costa mediterrânea, até próximo da fronteira com o Sudão na Alta Núbia, e que lhes levou até o coração da milenária civilização egípcia.

Entre seus próximos projetos está o de percorrer a “Rota da Seda”, sua mais ambiciosa expedição, prevista para 2007. Seguindo o exemplo de Marco Polo e dos comerciantes da antiguidade, a expedição partirá de Veneza, navegando pelo mar Mediterrâneo até Estambul, como fizeram os navios que buscavam as aprecidadas especiarias do Oriente. E daí até Pequim em um veículo terrestre que cruzará o continente asiático de um lado a outro atrvés da Turquia, Irã, Turkmenistão, Uzbequistão, Afeganistão, Taikistão e toda a China de leste a oeste.

Todos os interessados em manter contato com nossos expedicionários ao longo de sua viagem por “O Caminho do Inca”, o podem fazer constantemente através da web www.estudiosgeograficos.org , onde obterão informações exatas sobre os acontecimentos da viagem. Ao longo de toda a expedição serão publicada na internet fotografias e textos com os pormenores atualizados periodicamente desta aventura, e nossos viajantes manterão contato direto com seus leitores mediante um chat incorporado na própria página, através do qual será possível falar com eles em determinadas horas previamente notificadas, em qualquer lugar do mundo. Também podem escrever à direção eletrônica info@estudiosgeograficos.org com o qual manterão correspondência todos os dias da expedição.

Como em ocasiões anteriores, uma vez finalizada a aventura ao longo de todo ano de 2006, nossos expedicionários darão palestras e conferências, organizarão novas exposições e participarão em numerosas atividades culturais por toda Espanha, divulgando assim todo o material didático e fotográfico que tenham recompilado.

Do fundo da história – A nave da rocha

por Mª Ángeles Fernández

mangelesfdez@yahoo.es

Tantos séculos ancorada na montanha, sem poder navegar…

Tantos séculos com minha proa apontada para um vão por onde poderia escapar ao mar aberto, sem poder ir até ele…

Sou um trirreme grego, da ilha de Lindos.

Há quase dois mil anos quiseram que Poseidon se sentisse dono das costas, que bendissesse os escarpados que beijam o Helesponto.

E mandaram os sacerdotes que alguns artistas me talhassem grande, muito grande, de cinco metros de comprimento. Como se realmente pudesse navegar.

A meu lado, uns degraus levam a um pequeno templo ao deus do mar.

Mas os escultores não se deram conta de que, ao esculpir-me, ao dar-me a vida que têm as obras saídas das mãos do homem, me deram também um sopro de vida.

E a vida de um barco é navegar.

Não sentir sua quilha aprisionada pela rocha, e sim beijada pelas ondas.

Não roçar a pedra com a curva de sua proa, e sim cortar o vento em seu percurso.

Não viver imóvel, e sim dançar na maré. Não estar seguro, e sim navegar na tormenta.

Não devem roçar-me as patas dos animais da terra, e sim as asas das gaivotas.

Eu sei que produz tristeza a minha visão. A tristeza que produz todo ser acorrentado, todo destino quebrado, todo sonho não cumprido. Eu sei que os caminhantes que se aproximam de mim roçam meu casco com seus dedos, admirados de minha beleza; talvez espantem alguma aranha que tenha feito ninho em minhas frestas.

Mas não quero sua admiração, nem sua compaixão. Quero que Netuno se apiede de mim e um dia faça chegar suas águas ao meu costado. Que me arranque da montanha e me permita navegar, uma vez ao menos, ainda que breve, como pedra que sou, me afunde para sempre no mar. Este seria um nobre destino: a tumba de um navio que nunca pode navegar.

Por favor, Netuno… estou há quase dois mil anos prisioneiro…

Os princípios da massagem

A massagem é algo mais que um simples gesto ou conjunto de manobras terapêuticas manuais, é uma forma excepcional de se comunicar sem palavras e de transmitir através das mãos sensações agradáveis, prazenteiras, energias curativas e relaxamento psicofísico.

Miguel García Arroyo

Ao princípio a palavra se associou ao exercício. Le Gentil a utilizou pela primeira vez no século XVIII (ano 1799) em sua “obra” médica. É provável que qualquer um dos vocábulos mencionados no quadro da página seguinte seja o que deu lugar à palavra francesa amasser (amassar, massagear), mas referindo-se já em concreto aos exercícios manuais de uma pessoa (terapeuta) sobre outra (paciente), em clara referência aos exercícios de amassar a pele com suavidade.

Trata-se de uma série de atuações e movimentos das mãos do terapeuta sobre a superfície corporal do paciente com fins terapêuticos e calmantes. Movimentos mais ou menos intensos, rítmicos e profundos, com finalidades fundamentalmente analgésicas, relaxantes e sedativas.

Expressando em termos mais científicos, poder-se-ia definir a massagem como: “A ação de suprimir ou diminuir a sensibilidade dolorosa por meio de ações manuais sobre a sensibilidade superficial (corpúsculos de Meissner) e a sensibilidade profunda (corpúsculo de Golgi e Paccini)”.

No princípio a massagem estava mais ligada a higiene corporal. Posteriormente se situou em um plano mais terapêutico (similar à atual).

História das massagens

O livro de Kong Fou, dos budistas, discípulos de Lao Tsé, possui as primeiras recomendações práticas conhecidas e indicações da massagem e do exercício respiratório com fins terapêuticos. O livro leva o título “O Kong Fou de Lao Tsé”. O mítico HOUNG-TI ou “O Imperador Amarelo” escreveu o Nei King, tratado de Medicina Interna ou “Doutrina do Interior”. O livro, escrito em forma de perguntas e respostas entre o imperador e seu primeiro médico e ministro CH’I-PO, abriga todos os campos da medicina. Está dividido em duas partes: ELOSU-WEN (fisiologia, patologia e higiene) e o LING-CHOU, que trata dos meridianos, acupuntura, sangria e massagem.

O AYUR-VEDA (“Ciência da vida”, 1800-1500 a.C.) da INDIA, com fins curativos, dentro de um amplo contexto de normas dedicadas à Medicina, trata as zonas dolorosas com fricções.

Em algumas tumbas egípcias, pertencentes a famosos médicos faraônicos, foram encontrados desenhos que representam diversas cenas terapêuticas, dentre elas exercícios de massagens.

Hipócrates de Cos, pai da Medicina (460-380 a.C.), se refere a diversas atuações sobre a pele, músculos e vísceras que atenuam a dor corporal e facilitam certas ações fisiológicas, manipulando e friccionando os tecidos. Sugere movimentos no sentido ascendente, até o coração.

Nas grandes termas romanas, havia estâncias distantes onde se praticavam técnicas de massagem por meio de azeite de oliva e diversas substâncias e ungüentos. Eram administradas pelos traclatores, massagistas provavelmente precursores de nossos atuais fisioterapeutas.

Galeno, nascido em Pérgamo (129-199 d.C.), que exercia a medicina em Roma, chegou a ser médico do Imperador Marco Aurélio e contribuiu de forma notória para importantes avanços do saber médico na época. Infelizmente muitos de seus escritos se perderam, mas seus conhecimentos seguiram vigentes durante toda a Idade Média e inclusive na Idade Moderna. Galeno utilizava a massagem para favorecer e relaxar a musculatura dos gladiadores. Em uma de suas obras escritas, de título Gimnastica, estabelece diversas normas, com noções claras e concisas, sobre exercícios de massagem e o exercício com fins curativos. Seu avançado estudo da massagem (nos poucos livros que dele se conservaram) o levou a realizar várias classificações qualitativas e quantitativas. Não obstante, naquela época a massagem era realizada com azeites e essências. Acreditava-se que os efeitos terapêuticos se deviam a essas substâncias, aos exercícios físicos e aos movimentos manuais.

Na Idade Média, com o predomínio do Cristianismo, as técnicas de massagens entraram em decadência como conseqüência das transformações de mentalidade próprias da época, ao considerar estes e outros contatos corporais como pecaminosos. Isso trouxe como conseqüência um atraso nos avanços científicos, especialmente na Medicina.

No Renascimento (final do século XV, princípio do XVI), surge a preocupação das pessoas em revisar os tratados antigos. Como conseqüência dessa tendência, diversos autores revisaram aquelas técnicas duvidosas e esquecidas que utilizaram os clássicos gregos e romanos, dentre elas a massagem e a ginástica, como medidas curativas de diversas enfermidades e do fortalecimento corporal.

O termo ou palavra massagem, todavia, não se introduziu definitivamente na maioria das línguas indo-européias até o século XIX. No princípio, era chamado exercício passivo, manipulações terapêuticas, mecanoterapia manual. No Journal de Paris do dia 6 de maio de 1785, o Sr. Albert elogiava as técnicas de banhos medicinais e admitia le masser, que consistia em “amassar as carnes com suavidade”.

Dessa forma, chega-se ao princípio do século XIX com a figura mais destacada e que definitivamente consegue o reconhecimento científico da Cinesiterapia e a massagem. Trata-se do sueco Peter Herink Ling. Apesar de Ling não ter sido muito prolífero escrevendo, o foram seus numerosos discípulos.

É importante ressaltar que os trabalhos e aportes de Ling foram realizados devido a uma longa viagem pela China, país em que conheceu vários métodos de massagem. Desde meados do século XX, têm surgido as escolas de quiromassagem, impulsionadas por seu primeiro criador na Espanha, Dr. Vicente Lino Ferrándiz (1893-1981), médico naturista.

Classificação da Quiromassagem:

Quiromassagem Geral: quando se atua sobre todo o corpo; e Local quando só se atua sobre uma parte do corpo.

Ação fisiológica da Quiromassagem: consta de seis ordens ou partes relacionadas umas com as outras, todas necessárias para o bom funcionamento do organismo, e são: mecânica, reflexa, metabólica, estimulante, sedante e restauradora.

A Ação Mecânica: Os músculos do paciente permanecem em situação passiva quando recebe as manipulações do massagista, ativando toda a circulação sanguínea e linfática, e colocando órgãos deslocados em sua condição normal.

A aplicação da Quiromassagem nos problemas venosos ou arteriais, assim como a caída de algumas vísceras abdominais (o estômago, o útero e os rins flutuantes) consegue extraordinários resultados.

Ação Reflexa: Ação que se efetua sobre os filetes nervosos e se transmite ao sistema Grão Simpático e Cérebro-Espiritual, de onde partem novas vibrações que favorecem as condições da vida fisiológica.

Ação Metabólica: Influencia extraordinariamente na transmutação de todos os alimentos em substâncias nutritivas para o organismo.

Ação Estimulante: Influencia o sistema nervoso Grão Simpático ou vegetativo, o sensitivo e o vago, mediante manipulações efetuadas sobre as terminações nervosas que existem na pele e nos músculos. Também se atua diretamente sobre os troncos nervosos, que transmitem novas impressões aos nervos periféricos e aos centros nervosos relacionados com esses troncos. A fricção estimula os nervos fracos. Por outro lado, a percussão forte tensiona o nervo até a astenia ou perda da força física.

Ação Sedativa: O choque ou fricção de um ponto dolorido acalma a dor ao interromper a sensibilidade do nervo tratado. A fricção em sentido contrário ao da circulação sanguínea diminui o sangue no cérebro e é excelente contra as hemorragias deste, pois tem efeito sedante.

Ação Restauradora: Aplica-se sobre toda a musculatura, a qual é regada por grande parte do sangue circulante, de forma que restaura toda a força muscular, e, por conseguinte, todo o organismo é beneficiado.

Quando a musculatura está inativa, recebe pouco sangue arterial e venoso, mas quando se põe em movimento ativo recebe mais sangue para realizar sua função. Por esse motivo, a massagem na musculatura é extraordinária para a sua recuperação de atrofias, reumatismo muscular e dores musculares provocadas por diversas causas. A massagem bem aplicada acelera a influência do sangue arterial na musculatura porque renova o tecido muscular.

Viver sadios – Os Terçóis

Por Isabel Pérez Arellano

Clinicamente este volume é conhecido com o nome de hordéolo e é uma infecção localizada que pode afetar aos folículos pilosos das pestanas (terçol externo) ou as glândulas de MEIBOMIO (terçol interno) e que provoca a formação de um abscesso.

Com relação às pálpebras, os dois transtornos oculares mais comuns são as blefarites e o terçol. Este último, que é uma infecção, pode ser conseqüência do primeiro, que consiste em uma inflamação. As pálpebras são finos vincos da pele ficam sobre o olho com o fim de protegê-lo de qualquer golpe ou de uma luz muito intensa. Anatomicamente, na parte interna da pálpebra, existem glândulas que desembocam no olho chamadas glândulas tarsales ou glândulas de meibomio, cuja função é segregar um líquido oleoso, componente fundamental das lágrimas, que as pálpebras a deslizar sobre o olho sem fricção. Ademais, na margem da pálpebra existem duas fileiras de pestanas, estruturas córneas com função protetora, e cada uma delas contém sua própria glândula sebácea.

As pestanas são pêlos duros que podem medir até um centímetro de comprimento, cuja raiz se fixa profundamente na pele da pálpebra, acompanhada por terminações nervosas que registram qualquer movimento ou a mais ligeira pressão. Esses cílios permitem que seja detectado qualquer dano que possa sofrer o olho antes que o cérebro o registre e respondem fechando automaticamente as pálpebras em questão de milisegundos. Aproximadamente duzentas pestanas rodeiam cada olho, sendo sua vida média de quatro meses. Os folículos pilosos são os encarregados de fabricar os novos pêlos e contêm glândulas sebáceas para lubrificar a haste da pestana e proteger a pele contra as bactérias e os fungos. Como mencionado, a blefarite é a infecção das pálpebras, que pode se originar tanto nos folículos pilosos das pestanas como nas glândulas de meibomio, como conseqüência de uma hipersecreção de óleo ou da fabricação de um óleo com maior densidade, o que provoca a obturação das glândulas. A inflamação também pode ser desencadeada por dermatite seborreica, por alergia, ou, em crianças, pela presença de piolhos em suas pestanas. Os sintomas são pálpebras vermelhas e irritadas, com escamas na base dos cílios, ardor, e ter os cílios grudados pela manhã. A blefarite pode ser tratada com uma limpeza cuidadosa das pálpebras duas ou três vezes ao dia, com a ajuda de uma haste de algodão molhada em desengordurantes suaves, como shampoos para crianças diluídos ou água com bicarbonato de sódio. Se há presença de caspa, pode-se inclusive lavar os cílios com um shampoo anticaspa. Os desencadeantes desta enfermidade podem ser o stress, uma enfermidade subjacente, ou a exposição a poeira e poluentes do ambiente.

A partir desta inflamação as pálpebras podem ficam infectadas secundariamente como resultado de friccioná-las, por bactérias da pele, os estafilococos, desenvolvendo-se um terçol.

Clinicamente este volume é conhecido com o nome de hordéolo e é uma infecção localizada que pode afetar aos folículos pilosos das pestanas (terçol externo) ou as glândulas de meibomio (terçol interno) e que provoca a formação de um abscesso.

O terçol pode produzir edema em toda a pálpebra. Em geral, são inofensivos apesar de seu aspecto ameaçador. Provocam vermelhidão, dor, e algumas vezes sensibilidade à luz e os olhos lacrimejantes. Normalmente, os terçóis duram de três a sete dias. Primeiro, os olhos se enchem de pus, logo inflamam espontaneamente e finalmente se curam quando a infecção é drenada. A dor e a inflamação desaparecem enquanto a pressão se alivia. Quando o terçol estoura, pode-se ajudar a drenagem estirando e retirando a pestana infectada, e lavando o olho cuidadosamente. Pode ser necessário realizar uma drenagem cirúrgica, quando não rompe por si só, mas nunca se deve apertar um terçol, já que o que ocorre é que a infecção se estende.

Às vezes se confunde um terçol com um calacio, que é uma glanuloma indolor, quer dizer, uma massa glanulosa formada nas glândulas de meibomio, que aumenta pouco a pouco e que em geral desaparece após várias semanas. É como um tumor, mas nos casos em que não se cura sozinho, é conveniente extirpá-lo.

Para os terçóis, o remédio mais usado consiste em aplicar na pálpebra afetada compressas quentes quatro vezes ao dia, durante dez minutos. O motivo é que o calor aumenta o aporte de sangue ao olho e ajuda os glóbulos brancos a lutar contra a infecção. O médico pode receitar também gotas ou cremes antibióticos para os casos reincidentes. Costuma-se associar a recorrência de terçóis à ingestão insuficiente de vitamina A ou betacaroteno, que precisamente tem um papel vital não só na visão, mas em manter a integridade das membranas mucosas. Pode-se conseguir um aporte extra dessa vitamina com a ingestão de frutas e verduras alaranjadas, amarelas e de folha verde. A vitamina A é encontrada também no azeite de fígado de bacalhau, antigamente muito receitado para as crianças. Outros remédios incluem infusões de ervas aplicadas aos olhos, especialmente de eufrásia, chá, camomila ou salsinha. A cultura popular recorre ao uso de argila para acelerar o processo do terçol, e de mel uma vez aberto. Também se tem relacionado a presença de terçóis com a carência de zinco, um mineral que se encontra em alta proporção nos olhos, favorece a ação da vitamina A e é necessário para o bom funcionamento do sistema imunológico. Podemos encontrá-lo na carne, ovos, pescado e marisco.

Além disso, os terçóis recorrentes podem ser devido a uma condição debilitada do organismo — caso em que é necessário tomar complexos vitamínicos — ou como sintoma de diabetes.

Como medidas de prevenção, menciona-se lavar as mãos freqüentemente e evitar tocar ou esfregar os olhos, não compartilhar toalhas nem maquiagem, e ser cuidadoso com a higiene das lentes.

A vocação nossa de cada dia (XVII) – DETERMINAÇÃO VOCACIONAL

Em geral, os seres humanos não gostam dos problemas, esperam que as coisas não mudem muito e na medida do possível torcem para não ter muitas dificuldades. Essa atitude, apesar de ser muito comum, não permite o crescimento vocacional.

Todo método educacional de boa qualidade deve promover e fomentar a busca de soluções, estimulando a resolução de conflitos e situações críticas.

Todo educador deve encorajar nos alunos todas as atitudes e iniciativas que vão ao encontro dos desafios, da superação dos limites e dos esforços para o aperfeiçoamento. Isso na área vocacional é denominado “determinação vocacional”. A determinação vocacional é uma atitude de busca do crescimento. Do mesmo jeito que as plantas buscam a luz, a vocação busca os desafios. Como fazer tal coisa? Como melhorar tal outra? Como melhorar um procedimento? Essas perguntas e outras da mesma natureza vão ao encontro do desenvolvimento do potencial de um ser humano, da sua inteligência, da sua imaginação, da sua memória, atenção, concentração, discernimento, etc. O educador deve fornecer material e ferramentas para o aluno achar a forma concreta de responder a todas essas perguntas, acreditar que ele é capaz de desenvolver projetos e objetos de boa qualidade, não permitindo que os seus alunos se contentem com pouco. Isso pode ser feito sem estresse, sem cobranças por parte do educador, já que na determinação vocacional pode ser integrada a mentalidade lúdica de fazer as coisas aceitando os desafios como um jogo e até como uma brincadeira. É interessante observar que muitas performances são melhoradas em momentos de descontração e brincando. De qualquer forma, quando se realizam trabalhos e atividades relacionadas com a vocação a tendência é a de aceitar desafios, como problemas sem solução, melhoramento de método e de qualidade. A educação voltada para o desenvolvimento da vocação deve desenvolver testes que exijam do aluno novas respostas, originalidade, inovação, em detrimento as formas convencionais de realizar as coisas. É extraordinário observar e medir a capacidade do ser humano de achar novos caminhos para o desenvolvimento do conhecimento. Quando se incluem testes para canalizar tal desenvolvimento, criam-se laboratórios de experiências que não só aceleram o crescimento mas consolidam a criatividade como forma de ação quotidiana.

Os mistérios da água

Tanto a ciência como a mitologia reconhecem a origem da vida na água. Mas

a água é tão simples como aparentemente a consideramos, ou é algo mais complexo?

Mª Ángeles Castro Miguel

Parece claro que a água não apenas dá origem à vida, mas que além disso, protege a vida. Nesta proteção devemos incluir as condições necessárias para seu desenvolvimento e a capacidade de purificar e curar, que é também uma forma de proteção.

A influência da água na vida do nosso planeta é profunda e determinante. A Terra é singular entre os planetas do nosso Sistema Solar, principalmente devido aos seus enormes oceanos de água. Se aparecerem formas de vida em outras partes do Universo, é improvável que se assemelhem às da Terra, a menos que sua origem seja também um lugar em que existam grandes quantidades de água líquida disponível.

Propriedades físicas

A água possui várias propriedades físicas pouco habituais, o que a torna muito adequada para ser o meio no qual se desenvolva a vida. Estas propriedades estão diretamente relacionadas com sua estrutura molecular.

A molécula de água (H2O) está formada por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio. Tem uma geometria quase tetraédrica devido à forma dos orbitais externos do oxigênio, que formam um tetraedro (orbitais híbridos sp3 ). Não obstante, dois destes quatro orbitais contêm um elétron procedente do oxigênio e outro do hidrogênio, que se compartilham, enquanto que os outros dois contêm dois elétrons, sem compartilhar, auxiliados pelo oxigênio. O átomo de oxigênio se encontra no centro desse tetraedro e, ao ser mais eletronegativo que o de hidrogênio, atrai para o seu núcleo o par de elétrons compartilhados com este, de maneira que dois dos braços do tetraedro são mais curtos. Isso faz, além disso, com que a molécula de água seja polar, de forma que o ângulo formado pelo átomo de oxigênio e os dois átomos de hidrogênio seja de 104,5º, ao invés dos 109,5º que lhe corresponderiam se fosse um tetraedro perfeito.

A molécula de água é, pois, um dipólo cuja carga negativa se encontra sobre o átomo de oxigênio, enquanto que a positiva está sobre os átomos de hidrogênio. Isso possibilita que um dos pares de elétrons, sem compartilhar uma molécula de oxigênio, atraia um átomo de hidrogênio (com densidade de carga positiva) de outra molécula distinta, formando uma ligação que se denomina “ligação de hidrogênio” ou “ponte de hidrogênio”. Esta ligação é mais fraca que a ligação covalente que se estabelece entre o oxigênio e o hidrogênio dentro da mesma molécula de água e se rompe (ou se forma) com facilidade.

Não obstante sua relativa debilidade, entre as moléculas de água se forma um grande número destas ligações, o que estabiliza as macromoléculas; isto é, estas ligações ordenam a água em agrupamentos de moléculas que se rompem e se formam constantemente quando a água é líquida, enquanto que ficam fixas quando é sólida, formando verdadeiras redes cristalinas. A capacidade das ligações de hidrogênio de se formarem e de se romperem dota as moléculas de água da flexibilidade necessária para que se produza o fluxo rápido de informação que tem lugar nos seres vivos. Ademais, as pontes de hidrogênio são a causa de algumas das propriedades físicas extraordinárias que a água apresenta.

O ordenamento quase tetraédrico dos orbitais ao redor do átomo de oxigênio permite que cada molécula de água forme ligações de hidrogênio com até quatro moléculas de água vizinhas. No entanto, na água líquida à temperatura ambiente e à pressão atmosférica, as moléculas de água estão em movimento contínuo, de forma que cada uma delas forma pontes de hidrogênio com uma média de apenas outras 3,4 moléculas. No gelo, pelo contrário, cada molécula de água está fixa no espaço e forma pontes de hidrogênio com outras quatro moléculas de água, dando lugar a uma estrutura reticular regular.

A ruptura de um número de ligações de hidrogênio suficiente para desestabilizar a rede cristalina do gelo requer muita energia térmica, o que explica o ponto de fusão relativamente elevado da água, com relação ao que corresponderia à sua estrutura e peso molecular. Esta mesma explicação pode ser aplicada também ao seu elevado ponto de ebulição e constitui a causa de a água ser líquida à temperatura ambiente.

Quando o gelo se funde ou quando a água evapora, absorve-se uma grande quantidade de calor por parte do sistema, o que possibilita a regulação de temperaturas, tanto nos seres vivos (através da transpiração) como nas zonas da Terra que se encontram próximas ao mar. Pois a água tem uma capacidade calorífica anormalmente alta, o que provoca a necessidade de uma quantidade relativamente elevada de calor para aumentar um grau da sua temperatura, e isto tem como conseqüência o resfriamento do ambiente. Este é o mesmo fenômeno que ocorre quando, no verão, regamos o solo: a água que se evapora absorve calor no processo e, como conseqüência, o ambiente fica mais fresco.

Ao se formar o gelo, estrutura-se totalmente a rede cristalina, e ele aumenta de volume, diminuindo sua densidade, o que faz com que o gelo flutue na água, quando deveria ser mais denso ao se solidificar, como ocorre com outras moléculas que não apresentam o sistema de pontes de hidrogênio da água. A capa de gelo que flutua na superfície serve como isolante do frio exterior e, ao mesmo tempo, o calor que se desprende na sua formação mantém a temperatura da água e possibilita a vida em mares e lagos gelados.

O alto grau de coesão interna da água líquida, devido às pontes de hidrogênio, é aproveitado pelas plantas como meio adequado para transportar nutrientes dissolvidos das raízes até as folhas durante o processo da transpiração.

Por outro lado, a água é um solvente biológico ideal, já que dissolve com facilidade uma grande diversidade de constituintes dos seres vivos, devido a sua polaridade e a sua capacidade de formar pontes de hidrogênio, o que favorece os intercâmbios. Sua incapacidade para dissolver moléculas apolares torna possível a formação de estruturas supramoleculares como, por exemplo, as membranas e numerosos processos bioquímicos, dentre eles a duplicação das proteínas. Uma propriedade que a água também apresenta é que se é deixada fluir livremente por um plano inclinado, forma um caminho em espiral. Lembremos que mais de 70% do peso da maioria dos organismos vivos é água.

A memória da água

Alguns cientistas lançaram a hipótese de que a água pode registrar na sua estrutura toda a memória da vida sobre a Terra em forma de radiações eletromagnéticas. Esta hipótese da memória da água tem seus defensores e seus detratores. A menos que se possa falsificar uma grande quantidade de dados, existem fatos que provam a existência dessa memória.

Um exemplo disso é a homeopatia e os “Florais de Bach”. Ambas as técnicas funcionam com níveis de diluição extremos. No entanto, seus efeitos foram experimentados por uma grande quantidade de pessoas. E não apenas isso, mas também houve experiências com animais, onde se elimina o possível efeito devido à sugestão.

Como não é possível um efeito físico-químico devido à ausência total de substância, temos que pensar num efeito energético ou eletromagnético.

Jacques Benveniste, doutor em Medicina, diretor de investigações do INSERM, afirma que a água pode armazenar informação eletromagnética e biológica. A mensagem molecular, que é de natureza eletromagnética, é transmitida e memorizada pela água polarizada. Em um de seus experimentos, o Dr. Benveniste conseguiu projetar sobre a superfície da água a imagem luminosa, eletromagnética (sua freqüência de vibração) do curare (veneno neurotóxico). No seu laboratório, esta água foi dada para algumas ratas beberem, e elas, em pouco tempo, morreram com os sintomas próprios de envenenamento por esse composto. Além do mais, no ano 1995, Benveniste conseguiu gravar o sinal molecular num ordenador, e em 1996 esse sinal gravado pôde ser transmitido de Paris a Chicago. Quando este sinal transmitido se difundiu na água, foram provocadas as mesmas reações biológicas que quando a molécula emissora estava fisicamente presente.

O cientista japonês Masaru Emoto realizou milhares de fotografias de cristais de gelo provenientes de águas submetidas a diferentes circunstâncias ambientais, e comprovou que:

– Quando a água provém de zonas limpas, como por exemplo dos glaciais alpinos, a cristalização se produz em formas harmônicas e de grande beleza.

– O mesmo ocorre quando a água se submete ao som de música clássica.

– Este efeito positivo acontece também ante o som de palavras como gratidão, amor, etc.

– No entanto, quando os sons procedem de música como “heavy metal”, a água cristaliza em estruturas amorfas e caóticas.

– O mesmo ocorre quando a água que se solidifica procede de ambientes contaminados, como, por exemplo, do fundo do rio Ganges.

– Este mesmo comportamento se observa quando a água se submete ao som de palavras como ódio, egoísmo, etc.

No Centro de Estudos de Flocos de Neve da Califórnia, reconhece-se que nenhum floco de neve é igual a outro, porque, ao cair das nuvens, nenhum percorre o mesmo caminho.

Certamente, se a água pode guardar memória do bom, também poderia guardar do mau, o que indicaria que estamos recebendo constantemente uma influência negativa devido ao nível de contaminação física, psíquica e mental que a humanidade produz.

Propriedades terapêuticas

Alguns procedimentos curativos se baseiam na semelhança da composição do plasma sangüíneo e da água do mar, como os elaborados por René Quinton. Ele chegou a demonstrar que algumas enfermidades poderiam ser curadas através de banhos na água do mar, ingerindo-a em pequenas doses ou substituindo o plasma sangüíneo por ela, devidamente tratada.

Mas, quanta água do mar resta sem ser contaminada? Esta analogia entre a composição dos seres vivos e a água marinha parece dar razão àqueles filósofos que pensam que todos nós formamos parte de um imenso organismo vivo chamado Universo.

A água em boas condições é a melhor medicina preventiva. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a cada dia morrem mais de 300.000 pessoas em todo o mundo devido a enfermidades hídricas. Além do mais, nos países pobres do terceiro mundo, 80% das enfermidades são devidas à carência de água ou à sua contaminação.

A capacidade que a água tem para acumular informação em forma de energia permite-lhe armazenar diversos tipos dessa energia: cósmica, sonora, luminosa, elétrica, magnética, cinética…

Desta forma, obtêm-se diversas águas terapêuticas, como a “água ativada”, magnetizada, mesmerizada, irradiada cosmicamente, energizada, solarizada, sonorizada.

Estas águas apresentam notáveis efeitos terapêuticos para numerosas enfermidades, motivo pelo qual são utilizadas em muitos hospitais, o que é uma mostra de sua eficácia. Vários investigadores adquiriram um grande prestígio neste terreno, como Peter Gross, Felicísimo Ramos, Jacques Benveniste, Johan Granders e Feydoon Batmanghelidj, entre outros.

Simbolismo

No Egito, concretamente em Heliópolis, acreditava-se que todos os deuses haviam sido gerados pelo caos Nun, uma espécie de oceano primordial. Era representado como um ser com meio corpo submergido nas águas primordiais, sustentando com seus braços a barca que carregava todos os deuses. Naturalmente, os deuses davam nascimento aos demais seres da Natureza. O Nilo também foi divinizado como origem e portador da vida do Egito a nível terrestre e celeste.

O simbolismo complexo da água também passa pela Grécia e Roma. Para os gregos, Poseidón, que em Roma foi chamado de Netuno, era o deus do mar, das ilhas e das costas. Gobernava seu império com uma calma imperturbável. Desde o fundo dos mares, onde era sua morada, sentia tudo o que ocorria na superfície das ondas e restabelecia a ordem se sua região era perturbada pelas tempestades. Às vezes recorria à metamorfose, mas sob seus diferentes aspectos, quase sempre conservava seu caráter de força  e impetuosidade. As águas também são fortes e podem destruir os materiais mais duros, e também elas transformam constantemente a paisagem, de forma que nada que esteja submetido a sua influência permaneça igual.

Anfitrite era a esposa de Poseidón. Geralmente, era representada passeando numa concha sobre as águas, arrastada por golfinhos ou cavalos marinhos. Além do mais, portava um cetro de ouro como emblema de sua autoridade sobre as ondas do mar.

Para os romanos, a “Fons” é a personificação da divindade das fontes e das “águas vivas”, onde habitam as ninfas. Desde muito tempo, em Roma teve muita importância o culto às fontes. As “águas vivas” eram consideradas purificadoras e eram utilizadas em ritos e cerimônias. Os romanos as colocavam em pias, um pouco antes da entrada aos templos.

Os ritos do batismo têm um duplo sentido: de morte e de ressurreição, de purificação e de cura. Este rito já é encontrado nas cerimônias dos antigos caldeus, no Egito (acredita-se que o sarcófago fazia as vezes da pia de batismo) e também em Elêusis, onde eram realizados nos reservatórios do Templo. É o rito purificador que Juan, o Batista, realizava no rio Jordão e que continua na liturgia cristã.

O cristianismo consagra as fontes e mananciais aos santos e virgens. Daí as invocações à Virgem da Fuensanta, ou à Virgem das Águas-Santas, por exemplo. Estas virgens sempre estão relacionadas com curas, proteção contra secas, inundações e outros perigos, como mortes em batalha, mas sempre protegendo a vida, como a água faz. No entanto, quando se realiza a análise da água, não se encontra nada significativo na sua composição. Isso parece reforçar a idéia de um componente energético que registra e transmite a informação.

A água, como fonte de vida, também é relacionada com a maternidade e, portanto, com o feminino. Desta forma, quase todas as deusas dos distintos panteões estão relacionadas com essas duas características que se fundem entre si. Os antigos gregos chamaram Gea à Mãe Terra, e nela vivemos graças a sua matriz aquática. Nós também nos desenvolvemos e nascemos imersos na água salgada e cálida, no ventre materno, no nosso pequeno mar individual, porque Gea é tão generosa que nos dá a imensidão do oceano a cada um.

De que forma respondemos a isso?

Mensagens da água.

A beleza oculta da água.

Autor: Masaru Emoto.

Ed. La Liebre de Marzo. Barcelona 2003.

Mensagens da água é o resultado dos trabalhos de análise da água de diversos países e procedências através da utilização de ressonância magnética.

Isso permite a observação do HADO (energias sutis relacionadas com a consciência) e nos mostra, com magníficas imagens da água cristalizada, obras de arte, como ela é influenciada por diversos fatores como a música ou a consciência das pessoas.

A obra evidencia que os pensamentos e as emoções podem alterar a estrutura molecular da água e nos fazem compreender a forma tão íntima em que estão conectados os seres humanos e o Universo.

Buscar a arte – A escuridão ardente

Nicholas Roerich

Roerich Museum. New Cork

por Mª Ángeles Fernández

mangelesfdez@yahoo.es

Sem dúvida, este pintor russo da primeira metade do século XX possui o segredo da cor. Com uma paleta limpíssima, de cores puras, e poucos traços de desenho, Roerich nos remete a um mundo de sonhos, quase de ilustrações de contos infantis. Seduzido pelo mundo oriental, enche suas telas de montanhas solitárias, templos, monges e guerreiros, tudo como se estivesse suspenso numa fantasia silenciosa. Porque, por alguma misteriosa razão, seus quadros sugerem silêncio. Contemplação. Neste “Oscuridad Ardiente” utilizou uma única cor: o azul. Nem sequer com muitas tonalidades: mais claro, mais cinzento, mais violeta. As sombras não são negras, mas um pouco mais escuras; não há profundidade, não há ponto de fuga, o céu é uma extensão cromática das montanhas, que se desenham nele com uma leve linha negra, que contribui com a sensação plana de algo incorpóreo. Os cumes, totalmente áridos, desnudos, sobressaltam e entristecem.

No meio, a única luz. Brota magicamente do cofre que porta uma figura: um mahatma, seguido de outros dois, os três com coroas em suas cabeças. Detrás, discípulos; um deles, de barba longa, foi identificado como um estranho auto-retrato do pintor.

O mahatma porta a Luz. Sai de algum lugar oculto, de alguma cova nas montanhas, e leva o cofre luminoso talvez para os homens, talvez para deixá-lo em algum desconhecido monastério.

Não importa. Mas o que vemos, o que nos impacta, é esse mistério azul e desnudo que Roerich nos mostra.

Arqueoastronomia – O código do cosmos

A Arqueoastronomia é uma disciplina relativamente jovem. No entanto, é muito interessante por tudo o que já descobriu. Investigando os conhecimentos de Astronomia de nossos antepassados longínquos e os aspectos astronômicos e de contagem do tempo dos monumentos antigos, demonstrou-se que nosso passado guarda não apenas riquezas artísticas, mas também riquezas de conhecimento.

Equipe de investigação da Esfinge

… Nos lugares onde não existem dados escritos, como no caso dos megalitos pré-históricos, a Arqueoastronomia se converte na voz desses monumentos silenciosos, confirmando que seus construtores tinham grandes conhecimentos de Astronomia. Nos lugares onde há dados escritos, os calendários demonstram que as civilizações antigas tinham conhecimentos de Astronomia, o que é um grande motivo para que nós comecemos a analisar seriamente suas lendas sobre as épocas interminavelmente longas da história humana.

O aspecto astronômico e matemático dos calendários

O fundamental para todos os calendários, desde os mais antigos até nosso calendário moderno, é o movimento dos astros ou, melhor dizendo, seu movimento aparente como o observamos da Terra. Antes de mais nada, referiremos-nos aos distintos aspectos do movimento complexo do Sol e da Lua e, também, ao movimento dos planetas e das estrelas.

De acordo com o corpo celeste de que depende, o calendário pode ser:

Calendário árabe ou lunar

Do ponto de vista da Astronomia, este calendário segue as fases da Lua ou o mês sinódico, que tem 29.53059 dias. Trata-se de um calendário natural porque, depois da mudança entre dia e noite, a mudança das fases da Lua é o fenômeno mais forte da Astronomia.

Como um mês civil tem que constar de um número inteiro de dias, é necessário definir os meses de maneira que o calendário concorde com as fases da Lua.

Um exemplo de calendário lunar muito preciso é o calendário hebreu. No ciclo de 253 meses civis, segundo algumas regras prescritas, alternam-se meses de 29 e 30 dias para que a média de duração de um mês civil seja aproximada à duração do mês sinódico.

Calendário solar

Este calendário segue o ciclo das estações do ano trópico de 365.24220 dias. Tem um valor muito prático; auxilia-nos a determinar o tempo em que começam os trabalhos agrícolas.

Aqui também, segundo as regras do calendário, o ano civil pode se ajustar de maneiras diferentes do ano trópico.

Nosso calendário moderno é, na realidade, um calendário romano reformado e é exemplo de calendário solar relativamente bom. Um ano tem 365 dias e às vezes se intercalam anos bissextos de 366 dias. Num período de 400 anos, 97 são bissextos (cada quarto ano é bissexto, exceto três anos). Então, a média de duração de um ano é de 365,2425 dias. É preciso mencionar aqui que existiam civilizações que usavam calendários solares muito mais exatos que o nosso.

Calendário astral

O calendário astral (estelar) segue o movimento aparente do Sol pela esfera celeste, e por isso é um calendário verdadeiramente astrológico. Um ano sideral –365,25636 dias – é o tempo transcorrido entre duas passagens aparentes consecutivas pelo mesmo ponto com relação às estrelas.

O princípio do ano

A precessão causa a diferença de duração entre o ano sideral e o ano trópico. Como esta diferença é muito pequena, é impossível saber apenas a base da duração do ano civil se se trata de calendário solar ou astral.

É possível sabê-lo pela definição do princípio do ano: se o início é determinado pelo ponto de saída do Sol no horizonte – como no caso de alguns monumentos megalíticos – trata-se de calendário solar, e se o início é determinado pela saída helíaca das estrelas – como no caso da saída helíaca de Sírio no Egito – trata-se de calendário astral.

Os ciclos

O calendário ideal deveria unir de uma maneira prática os três fenômenos básicos: a fase lunar (a Lua), a estação do ano (o Sol) e o movimento da esfera celeste. Como estes fenômenos têm períodos distintos, a harmonia pode ser obtida apenas em ciclos longos.

O ciclo metônico

A maioria dos calendários antigos, na realidade, combinavam o tipo lunar e o tipo solar de calendário. O mês civil tentava seguir o período sinódico da Lua e o ano civil tentava seguir as estações do ano. No entanto, um ano de doze meses sinódicos é muito curto; são aproximadamente 354,367 dias. Para compensar esta diferença, segundo o princípio de intercalação, interpõem-se às vezes anos de treze meses.

O ciclo metônico de 19 anos é um exemplo de como se pode ajustar o calendário lunar com o calendário solar. Num período de 6.940 dias há aproximadamente 235 meses sinódicos de 29,53059 dias (235 * 29,53059 = 6939,7), ou 19 anos trópicos de 365,24220 dias (19 * 365,24220 = 6939,6). Dos 19 anos deste ciclo, sete têm treze meses. Ao terminar um destes ciclos, as fases da Lua voltam a ocorrer nos mesmos dias do ano.

O ano de Platão

Como a diferença de duração entre o ano trópico e o ano sideral é  muito pequena, necessita-se de um tempo maior para fechar um ciclo; 9421035,6 dias (25974 anos trópicos ou 25973 anos siderais). Este período se chama “Ano Grande” ou o “Ano de Platão”. Depois de um ano de Platão, na mesma data do ano trópico, o Sol volta à mesma posição na esfera celeste. A direção do eixo de rotação da Terra com relação às estrelas determina as eras astrológicas.

O ciclo de Saros

É um ciclo dos eclipses do Sol e da Lua. O eclipse ocorre quando o Sol, a Terra e a Lua estão aproximadamente alinhados. Do ponto de vista da Astronomia, este ciclo une o mês sinódico e o mês nódico. Transcorridos os 6585,3 dias (223 meses sinódicos ou 242 meses nódicos ou ainda 19 anos nódicos) do ciclo Saros, os eclipses do Sol e da Lua se reproduzem na mesma ordem.

O ciclo chio-shi-chou

Há distintos ciclos que abarcam a periodicidade dos fenômenos astronômicos com mais ou menos êxito. Os chineses conhecem o ciclo dos eclipses que têm 135 meses sinódicos. Chama-se de ciclo chio-shi-chou. Depois deste ciclo, repetem-se na mesma ordem 23 eclipses do Sol e da Lua. Yang Wei, por volta do ano 390 a.C. conseguia prever se algum eclipse ia ser parcial ou total.

Tzolkin

Uma curiosidade dos calendários da América Central é o ciclo tzolkin, que tem 260 dias. Ainda que não pareça ter nenhum vínculo com o movimento dos corpos celestes, pode-se notar o seguinte:

a) 4*260 = 1040 e 3 * 346,62 = 1039,62 = 1040. Isso quer dizer que Tzolkin abarca o ciclo de eclipses.

b) O ciclo de 20*260 = 5200, com uma correção simples, une o mês sinódico com o mês nódico: 176*29,53059 = 5197,4 e 191*27,21222 = 5197,5.

c) 3*260 = 780, que corresponde com o período sinódico de Marte.

A orientação astronômica

Além dos calendários e de seus ciclos, um fenômeno que também nos interessa são dois tipos de construções cuja característica principal é sua função de calendário.

As construções do primeiro tipo são as que têm aberturas especiais construídas de maneira que os raios do Sol, numa determinada data do ano, passam por elas e iluminan o interior da construção.

As edificações do segundo tipo são uma espécie de observatório. De um lugar escolhido especialmente para este fim, observa-se a saída e a chegada do disco solar. Também pode-se colocar pontos específicos na função de marcadores.

Há oito pontos principais no horizonte, determinados pelo movimento aparente do Sol pela esfera celeste. São o leste e oeste dos dois equinócios, os pontos onde o Sol sai e onde se põe no dia de solstício de inverno, os pontos onde o Sol sai e se põe no dia de solstício de verão, e os pontos do norte e do sul que determinam a passagem do Sol pelo meridiano de certo lugar.

Os observatórios antigos deste tipo também estão orientados aos pontos de saída e de chegada da Lua e alguns outros planetas, especialmente Vênus.

Megalitos

O complexo megalítico em New Grange na Irlanda tem por cima da entrada uma “janela” construída de maneira que, durante o solstício de inverno, o Sol matutino ilumine a parede do fundo da câmara central. Enquanto o complexo não era usado, esta “janela” estava fechada com um bloco de pedra.

Em Bellocinroy, na península de Kyntyre, encontram-se alinhados três blocos grandes de pedra. Se alguém olha um lado da pedra central, a uma distância de trinta quilômetros, pode ver a ilha de Jura. O auge desta ilha é o ponto onde o Sol se põe no dia do solstício de verão.

Muitos exemplos desses foram estudados pelo professor Thom, um dos pioneiros da Arqueoastronomia. Há que notar especialmente o fato de que todos estes monumentos estão orientados de forma muito precisa. Para as atividades agrícolas do homem neolítico (no caso de que as tivesse desenvolvido bem) teria bastado uma orientação aproximativa. Teria sido suficiente observar os pores-do-sol do centro de seu povoado. Por outro lado, a construção de alguns monumentos megalíticos como Stonehenge exigia um esforço enorme e aparentemente desnecessário.

O templo de Amón-Ra em Karnak

O eixo principal do templo está orientado ao ponto de saída do Sol no dia do solstício de inverno. Dentro do templo existia uma câmara especial com uma janela e um lugar determinado para fazer sacrifícios. No dia do solstício de inverno, o raio do Sol entrava pela janela e passava por cima desse lugar destinado aos sacrifícios.

Teotihuacán

Todo o complexo cerimonial de Teotihuacán está organizado ao redor de dois eixos básicos. O eixo principal que está traçado quase na direção norte-sul (com o meridiano forma um ângulo de 15,5 graus ao leste) se chama “Caminho dos Mortos”. Este nome foi dado pelos astecas porque acreditavam que as colinas ao longo deste caminho eram tumbas dos reis antigos de Teotihuacán. O eixo aponta para a montanha sagrada chamada de “Cerro Gordo”.

O segundo eixo forma um ângulo reto com o Caminho dos Mortos, e sua ponta ocidental vai ao lugar no horizonte onde se põe o cúmulo estelar chamado de Pléyades. As estrelas tocam o horizonte em cima da montanha chamada Cerro Colorado. Estas direções tinham tanta importância que até mesmo o curso do rio San Juan foi mudado de acordo com elas.

Debaixo da Pirâmide do Sol se encontra uma gruta misteriosa. A entrada da gruta está ao lado das escadas da pirâmide e pode-se entrar uns cem metros ao centro da pirâmide. Aí se abre um espaço com quatro vãos.

As investigações demonstraram que esses vãos eram conhecidos inclusive antes da construção da Pirâmide do Sol e que podem ter determinado sua construção. A escada de fora segue o corredor de entrada da gruta. A fachada do templo, em cima da pirâmide, dava a oeste, ao Cerro Colorado, como o corredor da gruta.

Uma prova de que a orientação astronômica de Teotihuacán não é apenas uma teoria inverossímil inventada pelos “teotihuacanistas” imaginativos, é o descobrimento dos marcadores em forma de cruz ou circunferências concêntricas. Eles não foram traçados com linhas contínuas mas com séries de perfurações alinhadas em pedra.

O primeiro marcador foi descoberto pelo arqueólogo americano Oliver G. Ricketson no ano de 1937. No território da América Central – do norte do México à Guatemala – foram descobertos aproximadamente setenta marcadores. O mais complicado, chamado de Cruz Tripla, foi encontrado ao oeste do Caminho dos Mortos, na frente da Pirâmide do Sol.

O engenheiro americano Harleston, que havia uma década estudava os mistérios de Teotihuacán, concluiu que os marcadores eram pontos de onde se observavam determinados fenômenos astronômicos, especialmente o movimento aparente do Sol (as saídas e ocasos do Sol, os dias de solstício e equinócio, e as passagens do Sol pelo zênite).

A confirmação disso chegou com o descobrimento de um marcador. Foi encontrado na colina de Chiconauatl (a 14 quilômetros da Pirâmide do Sol), seguindo os cálculos de Harleston sobre o lugar onde provavelmente se poderia encontrar. Observando-se desse marcador, o Sol que sai no dia do solstício de verão realmente aparece justamente em cima da Pirâmide do Sol.

Os construtores de Teotihuacán obtiveram a harmonia completa entre a Terra, o céu e o tempo.

Caracol

São poucos os monumentos dos maias que têm uma planta circular. Um dos monumentos extraordinários deste tipo é a torre do observatório Caracol em Chichén Itzá. Suas janelas estão orientadas aos pontos principais no horizonte e a alguns pontos do pôr de Vênus.

Igrejas e catedrais medievais

As construções sacras da Idade Média estão definidas por dois eixos cruzados: decumano e cardo. O decumano está determinado pelos pontos da saída e do pôr-do-sol, é o eixo leste-oeste. Pode existir diferença entre a verdadeira direção leste-oeste e este eixo como, por exemplo, no caso da catedral de Notre Dame em Paris, cujo eixo está determinado pelo ponto de saída do Sol em 15 de agosto (o dia da consagração). O cardo está determinado pela sombra de um pilar (o símbolo do eixo vertical) no momento em que o Sol está no ponto mais alto da sua elevação sobre o horizonte, é o eixo norte-sul.

As igrejas antigas na Croácia

Entre os séculos IX e XII na Croácia, por toda a costa do mar Adriático, foram construídas pequenas igrejas de pedra.

Suas plantas têm formas geométricas de quadrado, retângulo ou círculo, mas quase não existem lugares em que essas formas tenham sido perfeitamente traçadas. Também há irregularidades na parte vertical destas construções: os arcos das janelas normalmente estão fora do eixo de simetria, os contornos interiores e exteriores das aberturas são diferentes.

À primera vista parece que estas pequenas igrejas representam coleções de irregularidades. Durante muito tempo este fato era atribuído à incapacidade dos construtores que, pela primeira vez na sua nova pátria, trabalhavam com pedra, material que antes não conheciam.

No entanto, estranha o fato de que, em três séculos de domínio deste estilo arquitetônico, os construtores não obtiveram destreza para construir exatamente segundo o projeto, porque as igrejas do período posterior têm a mesma irregularidade de construção, enquanto os artesãos faziam ornamentos perfeitamente geométricos.

A igreja de Santa Cruz em Nin, na Croácia, é deste tipo. Parece que nada tem uma forma regular. O desenho da planta circular é muito inclinado a uma lado, a cúpula central é elíptica porque foi construída sobre uma base trapezóide e não há sequer uma janela construída na parte mais destacada do abside.

Mas, se tivermos em consideração que a organização da vida nos monastérios dividia o dia em seis partes – três partes até o meio-dia e três partes da tarde – segundo as quais foram determinadas as horas de oração, podemos ver que por trás de toda esta irregularidade está escondida a harmonia. As investigações confirmaram isso.

Ao redor dos ângulos mais acentuados desta igreja se pode traçar um quadrado perfeito, o que é muito importante para a organização de toda a construção. Sobre a reta da base do quadrado está a linha da fachada, e os três lados restantes da igreja formam com os outros lados do quadrado ângulos iguais ao ângulo que existe entre o oeste verdadeiro e o leste.

A diagonal da superfície debaixo da cúpula está exatamente sobre a linha norte-sul pelo meridiano local. A parede que leva o abside do meio corresponde à passagem do primeiro raio de Sol no dia do solstício de inverno, e a diagonal do quadrado descrito ao redor da igreja corresponde ao primeiro raio do equinócio.

O interior da igreja também foi construído de maneira que facilita a determinação das horas de oração. Nos quatro dias característicos do ano, os equinócios e os solstícios, as horas de oração podem ser determinadas com pontualidade apenas olhando o lugar onde estão os raios do Sol que passam pelas aberturas nas paredes.

Esta construção é uma espécie de dado astronômico; um calendário de pedra. A destreza com a qual seu construtor conseguiu unir o conjunto dos raios de Sol com as formas simples de geometria – quadrado, cruz e circunferência – é maravilhosa. Todos os detalhes que parecem irregularidades trazem uma mensagem oculta.

Epílogo

Os exemplos apresentados aqui apenas constituem uma pequena parte do que foi descoberto nas investigações.

A orientação astronômica das construções é um princípio, e não, um capricho dos construtores. Civilizações de todo o mundo, distantes entre si no tempo e no espaço, sempre prestavam muita atenção em certos fenômenos astronômicos, principalmente ao solstício de inverno, mas também aos fenômenos que parecem irrelevantes e estranhos, como o movimento de Vênus. Tudo isso abre uma variedade de perguntas sobre os fundamentos dos construtores da Antigüidade.

A bibliografia de astronomia ainda contém muitos estereótipos como os que atribuem o desenvolvimento da Astronomia na Mesopotâmia ao céu espaçoso nessa parte do mundo. Os investigadores sérios rechaçan semelhantes teorias porque o vale dos rios Tigre e Eufrates não tinha as atuais condições climáticas. Notemos que a maior parte da observação astronômica está relacionada com a linha do horizonte (as saídas e as chegadas dos corpos celestes), e o horizonte, como sabemos, atmosfericamente é a parte menos desejável do céu para fazer observações.

As ciências materialistas nos oferecem explicações sobre o princípio da Astronomia, ou a Astrologia, mas essas explicações têm o mesmo caráter da sua fonte: são materialistas e utilitárias; vamos no ritmo da Natureza apenas para assegurar a produção de alimentos, apenas para sobreviver.

Com o nascimento da psicanálise, somaram-se a isso as explicações ritualistas que acentuavam o papel do psicológico na vida humana e da sociedade. A vida psicológica se projeta ao céu e os corpos celestes se convertem em símbolos dos processos psicológicos.

Apesar de tudo isso, o campo do oculto não diminuiu, mas, ao contrário, tem crescido. A ciência de hoje está apegada cegamente ao seu ponto de vista, certa de que o saber de hoje abarca todos os conhecimentos e todo o saber que sempre existiu. Por isso, não pode nos dar nenhuma resposta, nem sequer pode entender o que realmente importa.

Somente os estudos comparativos de disciplinas tradicionais de todo tipo, não apenas astronômicas, podem nos aproximar um pouco mais da revelação do mistério da Natureza.

Próximo número:

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