Edição 14

Editorial

Esse ano que passou foi pródigo em catástrofes naturais que demonstraram a fragilidade das previsões e submeteram à revisão muitos planejamentos e procedimentos que mostraram sua inutilidade, mesmo nos países de posição vantajosa em termos de técnicas e poder econômico. Mas como sempre, as reflexões foram apressadas, superficiais, sem aprofundar o assunto realmente. De tal maneira, é improvável que se tomem decisões para atenuar os efeitos de novas e previsíveis situações de desastre que, sem dúvida se apresentarão, ainda que não saibamos nem o dia nem a hora.

A primeira reflexão, de caráter filosófico, poderia nos levar a considerar nossa pequenez como seres humanos, diante da potência da natureza e, apesar do orgulho de acreditar que somos capazes de dominá-la e colocá-la ao nosso serviço. O velho orgulho do homen dominador cai por terra ante o poder do vento, da água, inclusive do fogo. Mas, por outro lado, deve-se ter em conta que muitos dos acontecimentos que nos vitimaram com os elementos desatados que se encontram dentro do âmbito de responsabilidade de uma humanidade que está abusando há anos da acolhedora hospitalidade do planeta onde habita. Sabe-se que muitas de tais catástrofes que acabaram com muitas vidas têm sua causa indireta no aquecimento do clima e na falta de consciência e sensibilidade para com o equilíbrio ecológico.

Outras catástrofes tiveram sua causa direta na estupidez e na imprudência humana, quando não no egoísmo mesquinho ou no rancor vil, como é o caso dos incêndios florestais, que arrasaram superfícies, as quais, comparadas com extensões que temos calculadas, causam indignação.

Por outro lado, também ficou evidenciada a necessidade dos governos e organismos internacionais constituírem equipes de resgate e assistência, junto com os necessários sistemas de financiamento que permitam intervenções mais rápidas e eficazes, podendo salvar mais vidas e atenuar no que for possível a dor dos afetados. Devemos dizer que nisso, como em tantas outras ocasiões, a solidariedade e a boa vontade postas em ação, com base na colaboração de milhares de voluntários, conseguiram o que não conseguiram as ações dos organismos oficiais, lentificados por seus aparelhos burocráticos.

Aqui está a parte positiva e reconfortante destes acontecimentos: constatar a força da solidariedade, enfrentada numa luta desigual e titânica sobre a devastação.

Mosaico

Um acelerador de partículas descobrirá os segredos de uma das obras de Arquimedes

Um acelerador de partículas servirá para revelar parte de uma das obras do matemático grego Arquimedes, a qual permaneceu oculta durante séculos por ter sido apagada na Idade Média com a finalidade de poder reutilizar o papel para os textos religiosos de monges cristãos.

Para decifrar os restos dessa obra de 174 páginas, o Stanford Linear Accelerator Center, da Califórnia utilizará raios X de alta precisão num processo que levará pelo menos três anos, segundo o comunicado do próprio centro. A revista Wired dedica mesmo assim um artigo muito interessante sobre o tema.

Acredita-se que esta obra de Arquimedes inclui a única cópia do tratado “Método de Teoremas Mecânicos”, na qual o matemático explicou como utilizou meios mecânicos para desenvolver teoremas matemáticos.

É também a única fonte no original grego de “Sobre corpos flutuantes”, na qual Arquimedes trata a física da flutuação e da gravidade. Também contém diagramas desenhados pelo próprio Arquimedes.

Óleo contra furacões

Um recente estudo confirma a experiência de um antigo ensinamento marítimo que poderia prevenir a aparição de furacões.

Um antigo costume marítimo assegurava que o óleo nivela as ondas. Esse é o motivo pelo o qual os barcos que se aventuravam pelos oceanos tropicais iam abastecidos de barris de óleo, para esvaziá-los no caso de início de um furacão. Grigory Isaakovich Barenblatt, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, juntamente com outros colegas publicou sua simulação matemática na revista especializada PNAS. Segundo este estudo, os violentos tornados tropicais agitam tanto o oceano, que se forma uma capa de gotas de água entre a superfície marinha e o ar. Esta capa de espuma “GISCHT” reduz a turbulenta resistência do ar e acrescenta a velocidade do vento. Esta aceleração pode provocar a aparição de um furacão. Isso confirma o mencionado costume marinho.

“Poderia ser evitar ou pelo menos reduzir a intensidade dos furacões, se aviões convenientemente abastecidos dispersassem sobre a superfície do mar substâncias oleosas, fáceis de dissolver e não prejudiciais ao meio ambiente”, afirmam os investigadores.

FONTE: http://archiv.tagesspiegel.de/archiv/26.07.2005/1953990.asp

Leonardo e seu restaurador

O eminente restaurador Maurizio Seratini, professor das Universidades de Calábria, Florença e Veneza, apresentou este mês no Museu Nacional de Arte de Catalunha, as últimas investigações da obra “A adoração dos Magos” de Leonardo da Vinci. Especialista nas obras de Leonardo, Botticelli, Rubens, Caravaggio. Este restaurador, que radiografou mais de 10.000 quadros em 30 anos, encontrou fascinantes detalhes atrás das camadas de pintura de sucessivas restaurações, assim como os desenhos originais que Leonardo traçou durante a concepção da obra. No horizonte do quadro é possível vislumbrar um elefante e uma manjedoura de madeira os quais se acreditavam inexistentes. Novos descobrimentos inesperados lançam uma re-interpretação do quadro e além disso, permite ampliar o pouco que segundo ele, sabe-se sobre Leonardo.

O professor aproveitou a sessão para reivindicar o papel do verdadeiro restaurador que no seu modelo ideal, deveria ser uma espécie de médico capaz de incorporar ao seu trabalho todos os meios científicos de outras disciplinas; assim como manter um verdadeiro espírito de respeito à história, ao artista e ao público visitante dos museus.

O genoma do chimpanzé

O genoma humano e o do chimpanzé contêm aproximadamente 20.000 a 25.000 genes que codificam proteínas em três milhões de pares de bases de ADN. As seqüências atuais de ambos os genomas são diretamente comparáveis em aproximadamente 96% de sua longitude, sendo estas regiões idênticas em 99%. O que nos torna muito próximos. Onde está a barreira que nos faz diferentes? Em apenas um 1%.

Reciclagem

Reciclar 100 quilos de papel salva a vida de sete árvores.

Reciclar uma tonelada de papel permite economizar 20.000 litros de água.

Reciclar todo o papel que se produz durante um ano equivale a economia de 33% da energia que se necessita para renová-lo.

Reciclar o vidro permite a economia de 32% da energia que se requer para fazer um novo.

Produzir aço novo custa quatro vezes mais que reciclá-lo.

Reciclar o alumínio representa uma economia de 91% da energia que se requer para fabricá-lo.

Reciclar o alumínio evita as altas emanações de gases na atmosfera e com isso se reduz a contaminação do ar.

Como aproveitar o lixo e economizar energia:

Utilizar produtos que sejam recicláveis e separar o lixo em quatro recipientes da seguinte maneira:

a) Papel, b) recipientes (alumínio, plástico, etc.), c) vidro, d) lixo orgânico (cascas de fruta, restos de comida).

Papagaios

Os papagaios são animais muito simpáticos e que divertem a todos. Diz-se que eles são os únicos animais que sabem falar. É certo, dizem várias palavras, mas com uma única condição: que antes as tenham escutado muitas e muitas vezes pelas vozes das pessoas que com ele convive.

Assim é dotado de um órgão fonador muito versátil, embora não tanto logicamente, como o humano; É capaz de articular palavras que são perfeitamente compreendidas por qualquer pessoa.

Pois é, os papagaios falam. O que não temos certeza é se entendem o que dizem, nem se entendam o que lhes é dito. Em muitas ocasiões, não coincide totalmente a articulação de palavras, frases, e inclusive discursos, com a compreensão que o dono dessas palavras tem disso. Em muitas ocasiões basta ter escutado as mesmas palavras muitas vezes para logo repeti-las com o maior descaso – como o papagaio – sem ter a menor idéia do que se está dizendo.

Sim, há muitos seres humanos-papagaios. Mas existe uma grande diferença (a favor do papagaio, logicamente), é que ao papagaio não lhe ocorre pensar nem por um momento se sabe do que está falando, mas os outros estão absolutamente convencidos de que o que expressam é fruto de sua reflexão e experiência, e não repetição mecânica do que escutaram muitas vezes.

Desta maneira, e na falta de um prudente e necessário discernimento, qualquer falsidade pode se converter em verdade. O papagaio nunca outorga a si a autenticidade do que escuta. Se seu dono disse,  por algum motivo será.

Assim, centenas, milhares, milhões de homens e mulheres papagaios fazem circular sua insensatez pelo planeta, porque estabelecer consigo mesmo e com suas próprias armas a árdua batalha de discernir o verdadeiro do falso é tarefa que apenas cabe aos valentes e aos dotados de inteligência humana, capazes de suportar o estado de dúvida que leva à certeza. Já sabemos que um homem sem dúvidas é um homem sem certezas. Suas certezas são sempre emprestadas de outro, o que, chegado o momento crucial não lhe servem para nada em absoluto, porque não são suas. Não foi capaz de atravessar o deserto do “não sei” de Sócrates e, conseqüentemente, nunca chegará por si mesmo a nenhuma certeza na sua vida, o que lhe fará incapaz de atuar baseando-se nas suas próprias convicções. Cai a pessoa ou ideologia que lhe emprestou suas certezas e, logicamente, cai ele próprio. Porque, na realidade, não era ninguém, era apenas um ser-papagaio. A única coisa que leva à certeza é a incerteza. Como disse E. Kant:

“A inteligência do homem se mede pela quantidade de incerteza que é capaz de suportar”.

Miguel Prats

Invenções e história

A palavra plástico está estreitamente ligada à palavra “polímero” que provém do grego “poly” (muitos) e “meros” (unidade). Desde a Antigüidade o homem utilizou polímeros de origem natural como a madeira, sua resina, etc. O americano Hyatt preparou em 1860, o primeiro material plástico propriamente dito, a celulóide, misturando nitrato de celulose com cânfora. O primeiro material polímero totalmente sintético foi a baquelita, e conseguida em 1907 por Backeland. De 1920 a 1940 a investigação foi intensa, sobretudo nos EUA e Alemanha. Em pouco tempo, chegou-se à produção de escala comercial de plásticos como o PVC.

Existem combinações do plástico com uma série de materiais com o objetivo de lhes proporcionar mais consistência e novas características.

O papel é um material barato e relativamente resistente, teve aceitação como material de embalagem, mas sua resistência à umidade é limitada; a caixa de leite denominada “tetra pak” é uma combinação de plástico e papel. Consiste numa cartolina plastificada no seu interior.

Os produtos do petróleo como a querosene, gasolina e óleos, costumam ser envasilhados em latas de chapa metálica, mas este material é suscetível à corrosão; a lata de conserva pode ser plastificada aplicando no seu interior uma capa de plástico. Deste modo, evita-se que a cerveja enlatada adquira “gosto de lata”.

Francisco Capacete

Frases

Contrapor ciência e religião é coisa de gente pouco versada em um e no outro tema.

P. Sabatier

Há algo doce e tranqüilo, e sobretudo de sábio, nisso que as pessoas chamam de se aborrecer.

M. de Unamuno

A consciência não é mais do que outra pessoa dentro de outra.

L. Pirandello

Coloca nas tuas palavras o selo do silêncio, e ao silêncio, o da oportunidade.

Sólon

As idéias não duram muito. Devemos fazer algo com elas.

S. Ramón e Cajal

Não digas: “é impossível”. Diz: “ainda não o fiz”.

(Provérbio japonês)

As modas são epidemias induzidas.

B. Shaw

Quando chega o tempo em que se poderia, passou o que se pôde.

Marie V. Eschenbach

Se por acaso dobrares o bastão da justiça, que não seja com o peso da dádiva, mas sim com o da misericórdia.

Cervantes

O tempo é o melhor autor: sempre encontra um final perfeito.

Charles Chaplin

As horas

Por convencionalismo, os homens dividiram em 12 horas o tempo que a Terra leva para girar sobre seu próprio eixo; mas de onde vem essa divisão?

Os romanos resgataram essa divisão dos antigos egípcios, que tinham um calendário baseado em trinta e seis estrelas que apareciam alternadamente, justamente no pôr-do-sol, a medida que transcorria o ano. No intervalo de uma noite apareciam sucessivamente doze destas estrelas, o que fez com que se dividisse o período de escuridão em doze partes. Por analogia, também fracionaram em doze partes o tempo de luz solar.

A mitologia reflete este fenômeno nas divindades gregas filhas de Zeus e Temis, que serviam aos deuses principais e guardavam as portas do Olimpo. Regiam a ordem da natureza e determinavam a fertilidade da terra. As “doze irmãs”, guardiãs do tempo do dia, são:

Auge, a primeira luz

Anatole, o amanhecer

Música ou Musia, a hora matutina da música e o estudo

Gymnastica ou Gymnasia, a hora matutina do exercício

Nymphe ou Nymphes, a hora matutina dos banhos

Mesembria, o meio-dia

Sponde, as bebidas após o almoço

Elete ou Telete, oração, a primeira das horas de trabalho da tarde

Acte ou Acme, comida e prazer, a segunda das horas de trabalho da tarde

Hesperis, entardecer

Dysis, o pôr-do-sol

Arktos, a última luz

O mundo clássico também adotou, graças à ocupação persa do território que anteriormente pertencia a Alexandre Magno, os estudos astronômicos do povo babilônico. Estes estudos utilizavam o sistema sexagesimal para seus complicados cálculos astronômicos e por isso temos horas de sessenta minutos e minutos de sessenta segundos.

Tut-Anj-Amón também bebia vinhos brancos

Até hoje se acreditava que no Antigo Egito apenas vinhos tintos eram consumidos.

A Fundação para a Cultura do Vinho apresenta no Museu Britânico as conclusões de um estudo sobre o vinho que bebia Tunt-Anj-Amón.

A investigação financiada pela Fundação para a Cultura do Vinho, permitiu identificar restos de vinhos brancos e tintos nas ânforas encontradas na tumba de Tut-Anj-Amón. Desse modo, confirma-se que o shedeh, uma bebida muito sofisticada e apreciada, era também elaborada com uvas.

No estudo das mostras arqueológicas – procedentes do Museu Britânico e do Museu Egípcio do Cairo – utilizou-se um revolucionário sistema de análise que permite a comunidade científica trabalhar com quantidades de mostra mínimas.

O faraó consumia vinhos elaborados com técnicas muito semelhantes às atuais, e as ânforas ofereciam informação relativa ao ano de elaboração, a zona de produção e a propriedade, a qualidade e, também o nome do vinicultor responsável.

O vinho tinha uma importância social e econômica tamanha que estava entre as bebidas mais apreciadas, muito à frente da cerveja, cujo custo era dez vezes menor. O faraó e os templos eram os grandes proprietários de vinhedos.

Na sua viagem ao outro mundo, Tut-Anj-Amón quis ir acompanhado dos melhores vinhos de suas bodegas, elaborados com técnicas praticamente idênticas às atuais. Ao descobrir sua tumba em 1922, Howard Carter encontrou numerosas ânforas de vinho com inscrições relativas a sua qualidade, colheita, procedência e elaborador. O que não se sabia até agora, era se se tratavam de vinhos tintos ou brancos. Tampouco sabíamos se o shedeh, uma bebida a que se faz referência em vários documentos, era propriamente vinho ou estava elaborado a partir de outros frutos como a romã.

Todas estas dúvidas foram agora resolvidas, uma vez finalizado o trabalho de investigação financiado pela Fundação para a Cultura do Vinho e dirigido por María Rosa Guasch, que ao longo dos últimos três anos estudou, utilizando um sistema inédito de análise, resíduos sólidos encontrados no interior das ânforas da tumba de Tut-Anj-Amón, confirmando que no antigo Egito bebiam vinhos brancos e tintos e que o shedeh era elaborado com uvas.

A documentação mais completa e extensa sobre a vinicultura e a elaboração do vinho procede do Egito. A vinha já era cultivada há cinco mil anos no Delta do rio Nilo. Se bem que, apesar da existência de documentos e pinturas que descrevem sua elaboração, o estudo histórico e arqueológico ainda apresenta aspectos desconhecidos. O desenvolvimento das técnicas analíticas, como as empregadas por María Rosa Guasch, coloca agora a disposição da comunidade científica novas ferramentas para resolver as lacunas existentes.

O trabalho, cujas conclusões foram apresentadas no dia 26 de outubro no Museu Britânico, supõe um passo gigantesco no conhecimento da cultura do vinho no antigo Egito e abre novas portas às investigações arqueológicas baseadas na análise dos resíduos sólidos de líquidos. Uma investigação que durou mais de três anos e que foi possível graças ao apoio econômico da Fundação para a Cultura do Vinho, incentivada pelo Ministério de Agricultura, Pesca e Alimentação e as bodegas Julián Chivite, Marqués de Riscal, Codorníu, Vega Sicilia e Rioja Alta, cujo objetivo é promover um maior conhecimento da cultura do vinho e fomentar seu consumo inteligente, através do desenvolvimento de atividades formativas e divulgadoras, encontros profissionais internacionais, publicações e a financiamento de projetos de investigação.

Guia Mágico do Antigo egito

Esse conjunto maravilhoso das pirâmides de Gizé era essencialmente um lugar de passagem, de nascimento em uma nova forma de vida e também um local especial que tinha relação com as estrelas. Este artigo pretende desvelar ao público em geral alguns dos aspectos do Egito Mágico. Mais que um trabalho científico ou escolástico, é um trabalho intuitivo. Não obstante, se servir para guiar os sentimentos e para despertar as intuições mais poderosas e firmes, terá valido a pena o esforço.

É difícil para qualquer um abarcar todos os aspectos da civilização egípcia, e isso se deve ao fato de sua civilização não se limitar ao mundo horizontal dos feitos e acontecimentos diários da “cidade”, mas se expandir e estender em múltiplas direções. Era uma civilização pluridimensional, erguida sobre estratos complexos, sobre elementos etéreos e imperceptíveis para o observador comum, porém sem dúvida rochas solidíssimas para seus fundadores, sobres as quais se estabeleceram todas as suas estruturas sociais e religiosas. Por isso mesmo, sempre falta algo, sempre há uma explicação a mais, um aspecto complementar a partir de qualquer ângulo por que se examine a história e cultura do velho Kem.

GIZÉ, O LUGAR DE TRANSMUTAÇÃO

Neste artigo, serão abordadas algumas das relações com o mundo celeste.

A religião egípcia foi considerada por muitos como a religião estelar. As alusões astronômicas e astrológicas são freqüentes. Desde os primórdios, nos chamados textos das pirâmides, o destino e a boa ventura do Faraó foram identificados com as estrelas, em especial com as ihmu-sek, as estrelas circumpolares, ou seja, aquelas que nunca são destruídas porque permanecem sempre visíveis.

Muito se tem escrito e se seguirá escrevendo acerca do complexo de Gizé, esse maravilhoso conjunto de pirâmides e dos templos e monumentos. Os detalhes abundam, alguns mais ou menos fantasiosos, outros mais acertados e fiéis à realidade. Em todo caso, seu significado fundamental permanece o mesmo; portanto, segundo a interpretação e tradição esotéricas, ou as correntes aceitas pelo mundo científico, esse é um lugar de morte.

No esotérico, seria a morte iniciática, ou seja, o lugar de passagem ou transformação, enquanto que para os egiptólogos ortodoxos seriam esses monumentos autênticas tumbas desenhadas para faraós concretos e suas famílias. Essencialmente, eram lugares de passagem, de nascimento de uma nova forma de vida e também centros especiais relacionados com as estrelas. Os textos das pirâmides reforçam a idéia do faraó que sobrevive à morte integrando-se ao mundo estelar. O alinhamento preciso desses monumentos tampouco deixa lugar a dúvidas, há uma preocupação por refletir na Terra um mapa celeste, correspondências específicas. Porém quais são elas?

SESHAT, A DEUSA DA GEOMETRIA SAGRADA

As construções sagradas no Antigo Egito estavam regidas pela deusa Seshat, a contraparte feminina de Thot. É uma forma da própria Maat, já que esta representa a ordem, a medida, o justo, a harmonia, a regra, e esses mesmos conceitos são representados por Seshat dentro de seu âmbito próprio: a matemática, a geometria, a computação dos ciclos e dos anos de vida designados ao faraó. Era também considerada como a patrona das Casas da Vida, lugares especiais onde os escribas mais preparados estudavam e se iniciavam nos conhecimentos mais complexos. Seshat está especialmente relacionada com uma cerimônia que talvez tenha sua origem na partilha e mensuração dos campos de cultivo: “o estiramento da corda”. Com o tempo, se converteu em uma cerimônia inaugural e sagrada muito importante que se levava a cabo por ocasião da fundação de um novo templo ou lugar sagrado. Era presidida freqüentemente pelo Faraó e se pode considerá-la, em alguns aspectos, algo parecido com o que hoje se chamaria “a colocação da primeira pedra”.

Seshat era representada adornada com a pele de um felino, com instrumentos de medição ou escritura na mão, e sobre a cabeça uma flor ou estrela de sete pétalas ou braços. Cobrindo-os aparece um sino, cúpula ou cornos invertidos (não há consenso sobre isso) dividida em duas partes por um acesso central.

O fim da construção sagrada é o estabelecimento de relações concretas com o celeste, é permitir a passagem até o sagrado a partir do lugar sagrado ou templo na Terra. Por isso, a deusa conhece e porta um símbolo em sua cabeça: as sete direções do espaço, ou seja, as seis direções ordinárias mais a sétima ou interior e sagrada. Sem dúvida, para alguns esse símbolo representaria a flor do cânhamo, que possui sete pétalas, e que era o material de que estavam feitas as cordas de medição mencionadas anteriormente. Em todo caso, seja em um ou em outro sentido, se refere à medida, às direções e ao espaço, ou seja, conceitos geométricos e matemáticos.

Essa sétima direção é a que permite o acesso ao celeste, representado justamente no meio da cúpula ou cornos invertidos: uapt pt, “a balança do céu” ou a “abertura da abobada celeste”. Em texto da época de Tutmosis III (1479 a 1425 a.C), é denominada como Sefkhet-Abwy, “a dos sete pontos”, e nos textos dos sarcófagos, capítulo X, se diz: “Seshat abre as portas do céu para ti”.

Suas roupas pontilhadas a relacionam com as estrelas e também com sua função solar, de forma similar às do sacerdote Sem, que também portava uma vestimenta parecida na cerimônia de abertura dos centros sagrados, mais conhecida como “a abertura da boca”.

A intenção de relacionar o terrestre e o céu estrelado aparece de muitas formas em todos os monumentos. Em Gizé, na grande pirâmide, essa relação é marcada por dois pares de condutos que partem da chamada câmara do rei e da rainha, seguindo o alinhamento geral, norte-sul, da pirâmide. Sua forma geral não somente indica um eixo norte-sul, mas também dois triângulos invertidos cujos picos inferiores terminam na própria câmara do rei e da rainha. Seu significado será visto claramente mais adiante.

No extremo norte, o conduto da câmara do rei apontava para a constelação do Dragão nos tempos antigos, concretamente para a estrela Thuban, que era a estrela Polar há vários milhões de anos, e que era identificada também pelos egípcios como um instrumento feito de ferro meteórico, utilizado na cerimônia de “abertura da boca”. No lado oposto, o extremo do outro conduto sul apontava para a constelação de Órion ou Sah, sempre representado como um gigante olhando para trás, já que essa constelação era seguida de perto pela estrela Sírio, a mais brilhante no céu do sul e pertencente à constelação Canis Majoris.

Da Câmara da rainha também partem dois condutos, o que aponta para o norte indicando a estrela Kochab, na Ursa Menor, e outro que aponta para o sul indicando Sírio.

ORIENTAÇÃO DAS PIRÂMIDES

Como foi possível a determinação quase exata da orientação das pirâmides? Tomando um só exemplo, o lado leste da grande pirâmide se desvia somente 3 minutos de arco do norte verdadeiro. Tem-se discutido muito sobre isso com distintas soluções propostas, cada uma com seu próprio inconveniente. A mais aceita nos últimos tempos foi formulada em novembro de 2000 por Kate Spence, uma egiptóloga da Universidade de Cambridge, que publicou um trabalho na revista Nature, em que sugere um método pelo qual os construtores de pirâmides poderiam ter fixado a direção norte-sul. O método proposto pela egiptóloga consistia em escolher duas estrelas situadas em lados contrários com referência ao pólo celeste. Tentou várias alternativas, dado que o pólo varia em sua posição com a passagem dos milênios, até determinar que as estrelas chamadas Mizar e Zeta Osa Mayor pareciam ser as mais adequadas de acordo com o tempo geralmente admitido para a construção da grande pirâmide. Seus raios de rotação ao redor do centro polar eram quase iguais e estavam situados em lados opostos, de tal maneira que uma linha que as unisse passaria quase exatamente pelo centro polar. Quando ambas as estrelas estivessem alinhadas verticalmente, o que ocorreria a cada seis meses, bastaria deixar cair um prumo seguindo a linha vertical entre as duas estrela para determinar assim, sobre o solo, a direção norte.

O método parece engenhoso, porém se sustenta sobre um preconceito: a época de construção da pirâmide. Por outro lado, o prumo a ser estendido até o solo teria que ser bastante grande para que fosse útil, e não se vê claramente como se poderia tê-lo feito. Esse seria então outro dos tantos enigmas não resolvidos, ainda que essa solução possa conter parte da verdade. Mas que importância os egípcios atribuíam a esse lugar, e que concepção simbólica os egípcios possuíam acerca do mapa estelar? Para isso, se deve examinar o conceito de Ra-stau e o calendário de Denderah.

RA-STAU

O Livro dos Mortos começa com uma primeira imagem, nela se pode ver Osíris representado como um pilar. Sobre ele mesmo aparece a cruz da vida eterna, que sustenta com seus braços um sol que surge ascendendo. O pilar foi ladeado por Isis e Neftis, as duas deusas protetoras e acompanhantes de Osíris.

Poder-se-ia dizer que essa imagem inaugural é uma síntese que precede todo o acontecimento do livro dos mortos, ou seja, o processo de osirificação, por meio do qual o Maajeru, ou homem de voz reta, ou seja, o defunto depois de ser defendido no famoso julgamento ou psicostasia do coração, passa através de uma série de obstáculos que tem que transpor para poder se converter em um Osíris, um homem semelhante ao rei dos mortos, ou um iniciado, alguém que já ultrapassou os limites humanos, que morreu como homem e nasceu como um novo ser divinizado.

Isso é precisamente o que mostra essa imagem, pois Osíris, tal como o Livro dos Mortos, diz que não é mais que o irmão gêmeo do Sol na Terra. Osíris, após superar as provas, se converte no próprio Ra. Por isso, dele surge a imagem do Sol, que representa a sua essência solar divina. É como se o Sol, enterrado no interior do homem carnal e mortal, finalmente, após vencer as provas e ser osirificado, terminasse por se manifestar livre de amarras e triunfante. O osirificado se converte assim em um Neter, ou seja, um ser divino. O Livro dos Mortos diz que o lugar onde os homens se convertem em Neteru (plural de Neter) é o Ra-Stau. Esse hieróglifo tem duas possíveis traduções:

Ra: boca, abertura, entrada; Stau: corredores, subterrâneos, covas ocultas. Em outras palavras, seria o lugar de entrada ao mundo secreto dos corredores onde se faziam as cerimônias que convertiam os homens em deuses.

Ra: o deus Ra (ainda que normalmente não se consiga usar esse hieróglifo, mas um disco solar); Stau: extrair, secar, tirar para fora. Ou seja, o lugar onde se extrai, onde se libera Ra de sua prisão, quer dizer, a essência espiritual solar e divina.

Do ponto de vista do significado, em ambos os casos o resultado da tradução é o mesmo. Por outro lado, não é estranho encontrar nos papiros um uso ambivalente dos hieróglifos, contendo assim mais de um significado, como se se quisesse com uma só palavra explicar muitas coisas ao mesmo tempo. É algo que também se pode encontrar no uso dos ideogramas chineses. Daí a grande dificuldade para serem traduzidos, porque não só uma palavra, mas todo um parágrafo, pode ser lido num “tom” ou em uma “escala” determinada ou em outra totalmente diferente, complementando assim o sentido geral da frase.

Onde estava situado o Ra-Stau? Talvez pudessem ter existido múltiplos lugares onde se realizavam cerimoniais iniciáticos especiais, porém o mesmo Livro dos Mortos Egípcio e os estudos arqueológicos demonstram que houve ao menos dois mais importantes: um ao sul, em Abydos, e outro ao norte, no “grande túmulo de Osíris”, que está precisamente na área de Gizé, e que era chamado pelos antigos egípcios pr wsir nb rstaw, ou “a casa de Osiris, senhor de Ra-Stau”. Recentes corredores descobertos na metade do caminho da passagem que une a segunda pirâmide, ou pirâmide de Jafra, com o templo da esfinge, mostram vários níveis que alcançam até cerca de 30 metros de profundidade e datam ao menos de 1550 a.C. Poderiam estar relacionados, segundo os egiptólogos, com a alusão a corredores e câmaras subterrâneas que a palavra Ra-Stau contém.

Em conclusão, a área de Gizé é um LUGAR DE TRANSFORMAÇÃO, lugar dos cerimoniais osirianos que facilitavam a transmutação em um ser superior e divino, um neter.

O CALENDÁRIO DE DENDERAH

Construído por volta de 200 a.C., se pode considerar como fortemente influenciado pela astrologia grega. Contudo, sua concepção geral, as chaves fundamentais, e inclusive os símbolos utilizados para o sistema de decanos, são de raízes puramente egípcia, não encontrando paralelo nos zodíacos gregos ou babilônicos.

Não se pretende aqui discutir os pormenores do significado completo, disposição, etc., dos detalhes desse calendário. Somente se assinalarão alguns feitos que interessam em relação ao tema que concerne nesta ocasião a Gizé e seu significado.

O calendário começa a partir de um eixo fundamental, assinalado pela presença de um cetro sobre o qual repousa um falcão (abaixo na cor anil); este é um dos símbolos de Sírio; a seu lado aparece a representação de Órion (cor violeta), equivalente a Osíris, o caminhante que começa seu périplo iniciático através das constelações, iniciando por aquelas relacionadas com o Norte, as constelações relacionadas com o elemento água: Peixes, Aquário e Capricórnio. Essa passagem pelo elemento água não é arbitrária, mas sim uma correspondência com muitas tradições sagradas: trata-se da purificação prévia do neófito, a passagem pelo lago sagrado antes de penetrar no templo. Esses rituais de purificação prévia e renascimento sobrevivem na cristandade na cerimônia do batismo.

O percurso do caminhante Órion continuará logo de forma espiral através do resto do zodíaco, até coincidir com o seu centro. O começo desse caminho corresponde ao eixo da entrada Sul do zodíaco de Denderah, marcado pelos símbolos de Sírio. Em qualquer mapa astronômico, se verá que nessa direção sul se encontram duas constelações muito importantes, que são as mesmas que assinalam a passagem sul que parte da câmara do rei na Grande Pirâmide: a constelação de Órion (uma forma de Osíris) e a constelação de Cão Maior, que pertence Sírio, a estrela mais importante dessa constelação, a mais brilhante do hemisfério sul e também a mais significativa na mitologia astrológica egípcia. Do outro lado, ao final do percurso marcado pelo zodíaco de Denderah, ou seja, no centro deste, está a constelação de Draco que é representada por um hipopótamo (uma forma feminina de Seth) e a Ursa Maior representada aqui como “a coxa”, que estava também estreitamente relacionada com Osíris. Nas representações desse deus, pode-se ver que seu corpo inteiro se assemelha a uma coxa. Em todo caso, nunca aparece representado com duas pernas. Finalmente, entre essas duas constelações, está um chacal sobre um arado, que representa outra vez Sírio.

Quer dizer que no começo do caminho estão presentes Osíris e Sírio, e no final aparecem outra vez, porém com significados distintos. As constelações representadas ao sul correspondem ao Osíris que inicia seu caminho acompanhado por Sírio, ou ao candidato, enquanto que as que aparecem ao Norte (no centro do zodíaco de Denderah) representam o Osíris perfeito e acabado: a constelação da coxa assim indica, haja vista que em muitas outras representações funerárias e no próprio Livro dos Mortos se pode ver como uma coxa é oferecida ao “defunto” (morto para os homens, e nascido de novo para os deuses) com um texto adjunto parecido com o seguinte: “aqui te trago em oferenda o olho de Hórus, o olho espiritual ao qual se faz equivalente a coxa de Osíris”.

O zodíaco de Denderah representa, portanto, de alguma maneira, o caminho de Sírio, ou seja, o caminho iniciático. Sírio era simbolizado por Anúbis, porém se sabe que havia dois Anúbis, um do sul, chamado Uapuauet, e outro do norte, chamado Anpu, o primeiro associado ao solstício de verão e o segundo ao solstício de inverno. Em astrologia clássica, o solstício de inverno (capricórnio), relacionado com o norte, foi chamado de “porta dos deuses”, e o solstício de verão (câncer) relacionado com o sul, “a porta dos homens”.

Esta é precisamente a mesma idéia presente no complexo de Gizé que de certa maneira é semelhante ao Teotihuácan mexicano, a cidade onde os homens se convertem em deuses. O eixo norte-sul, assinalado pelos dois pares de condutos que atravessam a câmara do rei, indica a porta de entrada e de saída, enquanto que a câmara corresponde ao lugar de transformação.

No calendário de Denderah, o chacal no centro, que se apóia sobre um arado, corresponde a um hieróglifo que tem vários significados: Mery, “o vértice de um triângulo”, ou Meryy, “crocodilo”, em alusão à constelação do dragão e a outras constelações egípcias com forma de crocodilo, situadas no pólo. O vértice do triângulo pode ser visualizado melhor no gráfico superior, onde Anúbis do norte e Anúbis do sul têm como centro o vértice simbólico comum a Sírio (síntese do Anúbis do sul e do norte).

Esse vértice superior tem também como imagem o reflexo invertido na parte inferior, outro vértice constituído pelo triângulo formado pelos dois pares de condutos norte e sul e que tem como centro a câmara do rei.

Assim fica explícito e geometricamente claro o papel de Gizé como lugar de transformação, relacionado com as estrelas. Quer seja essa transformação de uma morte iniciática ou de uma morte física, quer se tenha uma visão esotérica ou ortodoxa acerca da egiptologia, em todo caso, o que, como já dito, permanece evidente é que se trata de um lugar de passagem e de transformação, um lugar de alquimia, tal como o símbolo dessa ciência indica: o Caminho de Ouro de Anúbis.

Juan Martin Carpio

Inundações catastróficas

As mudanças mais significativas no nível do mar desde que a humanidade existe têm sido relacionadas com a glaciação do Pleistoceno. Baseado nisso pode se dizer que esta inundação deixou uma impactante recordação na “História do Homem”: talvez a do Dilúvio?

É possível que há uns 5000 anos, devido a um processo de dissecação, o Mar Negro tenha ficado isolado do Mediterrâneo e se convertido em um lago. Posteriormente, e de forma brusca, abriu-se novamente a comunicação entre ele e o Mar Mediterrâneo por meio do Bósforo e, sendo assim, as águas alagaram uma grande extensão das costas daquele efêmero lago provocando uma inundação catastrófica.

Segundo os últimos descobrimentos científicos, é certo que o Mar Negro – O Ponto Euxino dos antigos – era um lago, mas há divergências sobre se ele é o resultado da dissecação de um mar.

No ano de 2000, a imprensa veiculou as investigações que ali estavam sendo realizadas e nas quais estava presente a National Geografic Society. O protagonista era Robert Ballard, aventureiro-investigador que ficou famoso por ter efetuado o resgate do Titanic. Nas profundezas do Mar Negro, ele buscava navios antigos que, por causa do oxigênio existente nas águas dele, supunha estarem bem conservados.

No comando do projeto arqueológico estava Fredrik Hiebert da Universidade da Pensilvânia. Tanto Fredrik como Ballard ficaram surpresos ao constatarem que, a grandes profundidades, os fósseis encontrados eram de água doce – com uma idade aproximada de 7500 anos – enquanto que, mais superficialmente, os fósseis eram de água salgada. A datação desses últimos era de aproximadamente 6500 anos.

Se acontecer a dissecação de um mar, como se pode comprovar no processo ininterrupto do Aral, ainda que seja denominado “lago”, continuará sendo de água salgada, nunca de água doce. Segundo essa teoria, compartilhada por gente que tem muita bagagem acadêmica, faz uns 7500 anos que o atual Mar Negro era um lago e, como tal, de acordo com seus fósseis, de água doce.

Devido a um cataclismo, que sem dúvida teve lugar há uns 7000 anos, o Mar Negro foi invadido por uma formidável avalanche de água salgada que deixou, como resultado, o mapa histórico da Região, incluindo o Bósforo ao Sul e o Mar de Azov ao Norte. Logicamente, a avalanche provinha do Oceano Atlântico invadindo o Mar Mediterrâneo, que, por sua vez, se derramou por onde pôde. Em função disso invadiu inclusive as áreas das planícies que rodeavam aquele lago pré-histórico, que são as atuais Bulgária, Romênia, Ucrânia, Rússia e, em menor proporção, as costas da Geórgia e da Turquia. Mas qual foi a origem te tanta água? Pela época aproximada, pode se dizer que foi o degelo da última glaciação.

Segundo a geóloga Dorothy Vitalino, inventora do termo “geomitologia”, em seu livro Lendas da Terra, parece que as geleiras glaciais iam se derretendo pouco a pouco, quase da mesma forma como se originaram. As mudanças mais significativas no nível do mar, desde que a humanidade existe, estão relacionadas com a glaciação do Pleistoceno, mas sem ter um grande efeito no que podemos chamar de “A História do Homem”. A teoria mais aceita é que, se os mares aumentaram com a água dos degelos, a falta de pressão glacial sobre a terra a fez ascender – o que recebe o nome de elevação isostática –, com o que se manteve o equilíbrio.

Seja como for, o fato é que esta inundação pode ter deixado uma lembrança impactante na “História do Homem”: talvez a do Dilúvio?

Hiebert e Ballard descobriram também, a 100 metros de profundidade, estruturas habitáveis e construídas com pedra, talhadas pelo ser humano. Essa descoberta representa a primeira evidência concreta da ocupação das costas do Mar Negro, anteriores à sua inundação. Essas declarações foram feitas pelo arqueólogo da Universidade da Pensilvânia e, por certo, se referia a povos totalmente civilizados, dedicados à pesca e à agricultura, que se viram varridos pela inundação.

Anteriormente, dois investigadores da Universidade de Columbia, William Ryan e Walter Pittman, levantaram a hipótese de que há mais de 7000 anos o Mediterrâneo, a raiz do degelo das glaciações européias, teria se precipitado sobre o que até então havia sido um lago de água doce, dando origem ao Mar Negro. Plasmaram essa idéia em um livro denominado “A inundação de Noé”.

Anteriormente Alexandre Moreau de Jonnés, investigador-humanista dos séculos XVIII e XIX (1778-1870), desenvolveu no livro “Os Tempos Mitológicos” a teoria da existência de colônias formadas por povos já civilizados, que se estabeleceram na zona norte do Mar Negro, onde há extensões de terras férteis. Levando em conta que a Revolução do Neolítico – a “domesticação da agricultura” – aconteceu há uns 10.000 anos, essa pode ser a data das suas colônias hipotéticas.

Seus integrantes teriam sido os criadores das religiões organizadas que hoje chamamos de “mitologias”. Moreau de Jonnés aponta que todas elas parecem ter se originado de um ponto comum que indicam períodos sucessivos de uma mesma história referente à infância dos povos. Todos teriam como cenário uma mesma região, seguindo o mesmo cânone.

Segundo sua teoria, esses povos e seus descendentes podem estar hoje separados por consideráveis distâncias e por profundas diferenças em termos de língua e costumes: também é possível que alguns tenham desaparecido, mas certamente viveram nas suas origens em lugares próximos e tiveram uma existência análoga formando uma estrutura social parecida e sofreram as mesmas vicissitudes e calamidades. Por afinidades recíprocas, a Filologia guarda o parentesco entre os povos, mas não explica como ele foi estabelecido. Moreau tinha claro que esse parentesco tinha sido obtido por meio da zona norte do Mar Negro.

Seus colonos procederiam do Egito, Líbia, Cuch – o Kuch –, Summer (que no tempo de Moreau ainda não havia sido descoberto) e seguramente haveria indo-europeus e asiáticos. Nessa zona se encontrariam e se misturariam com os indígenas brancos, os citas e todos eles conviveriam, relativamente em paz, superando um ou outro “cataclismo geológico”. Dessa mistura, segundo ele, surgiram novas raças como a etíope e a semita.

Um “cataclismo geológico” definitivo poderia ter sido ocasionado pelo afundamento de uma das ilhas do Mar Negro, devido à abertura de uma cratera embaixo das águas.  Pode ter acontecido há mais ou menos 7000 anos… Se isso tivesse coincidido com a avalanche de águas que formaram o atual Mar Negro e o Azov, já teríamos definido e catalogado o mítico Dilúvio universal. Como indica Dorothy Vitalino, em seu livro, aconteceram todas as circunstâncias de uma lembrança indelével para a Humanidade.

Vulcões submarinos em erupção, terremotos, maremotos e também o que atualmente chamamos de tsunamis engoliram os povoados e seus habitantes. Realmente, ali desapareceu um mundo e uma humanidade. Os poucos sobreviventes puderam salvar-se em barcas, porque relativamente próximo deles havia cordilheiras de altos cumes.

Dispersaram-se pela face da terra em distintas direções, transmitindo aquela história. Alguns, apesar do tempo transcorrido, voltariam à sua terra natal e outros buscariam novos lugares. Ali estavam os antepassados dos gregos – os pelasgos –, dos distintos povos celtas, dos babilônios… Como em sua simplificação diz a Bíblia, jaféticos – os japétidas dos gregos –, camitas e semitas.

As investigações de Ballard, Hiebert, Ryan e Pittman, assim como as elucubrações de Moreau, demonstram-nos, mesmo que pareça uma lenda, um mito, que foi possível, pois atualmente sabemos que é possível.

Como exemplo, no dia 26 de dezembro de 2004, vimos quase ao vivo, pela televisão, como é possível que “um mundo” desapareça: a catástrofe do Índico, segundo as manchetes dos jornais “A perda do Paraíso”, “Uma catástrofe sem precedentes”, ocorrida em apenas uns minutos, umas horas. E quanto à população? Quase 300.000 pessoas! Esta quantidade não era “uma humanidade” no início do século XXI, mas poderia ter sido há 7000 anos. Como se poderia avaliar naqueles tempos a quantidade de mortos e desaparecidos, quando somos incapazes de fazê-lo hoje na Indonésia?

É um fato recente e todo mundo o conhece. Fala-se dele e se falará por muito tempo – não sei se durante 6000 anos – porém hoje o que poucos se lembram são de outras catástrofes históricas similares. Uma delas ocorrida também na Indonésia e que supostamente causou o desaparecimento de outro mundo: uma erupção vulcânica ocorrida no dia 27 de agosto de 1883, na qual desapareceu a Ilha de Krakatoa localizada no Estreito de Sonda entre Java e Sumatra. Segundo comentários, foi a explosão mais poderosa da história, 30 vezes mais intensa do que a da maior bomba termonuclear.

Certamente, também se considerou o acontecimento natural mais catastrófico registrado na história da civilização. Slobodan Lekic publicou a notícia, no dia 18 de maio de 2004, do renascimento de um novo vulcão, “Anak Krakatoa” – filho de Krakatoa –, que cresce a um ritmo de 4,5 metros por ano desde 1930, no mesmo lugar em que desapareceu “seu pai”. Já alcançou uma altura de 400 metros e em seus períodos de atividade entra em erupção de 20 a 30 vezes por dia.

A explosão do Krakatoa foi ouvida na Austrália e na Birmânia e a nuvem de rochas e cinzas que formou a erupção circundou o planeta durante um ano. Segundo alguns, o resplendor da pintura “O Grito” de Munch, 1884, reflete o céu escandinavo tingido pelos rastros que deixou a destruição daquela Ilha. Também as condições climáticas foram alteradas durante vários anos por causa disso.

Uma onda gigante de aproximadamente 40 metros de altura inundou uma centena de aldeias por ambos os lados do estreito e matou umas 37.000 pessoas. Quanto à Ilha, ela desapareceu junto com a maioria dos seus habitantes, restando apenas uma pequena ilha. No mesmo lugar no ano 416 a.C. ocorreu outra enorme explosão, a de um vulcão que os cientistas denominaram proto-Krakatoa e que conectava Sumatra a Java. Ao explodir criou o Estreito de Sonda, deixando um rastro de ilhas menores, incluindo Krakatoa. Sobre o terrível fato, o britânico Simon Winnchester escreveu o livro denominado “KraKatoa: o dia em que o mundo explodiu”.

Com um título parecido, “O dia em que o mundo desapareceu”, os também britânicos Gordon Thomas e Max Morgan-Witts tratam de outro desastre ocasionado pelo Vulcão Mont Pelée da Ilha Martinica – no arco das Pequenas Antilhas, entre o Caribe e o Atlântico –, no qual a água tomo a forma de grandes tormentas, transbordamentos de rios e um formidável tsunami, ocasionado pela terrível avalanche de lama e lava que se precipitou no mar. Este se retraiu, recuou um tempo e retornou com toda sua fúria: a cidade de Saint Pierre ficou totalmente destruída.

A diferença é que, deste cataclismo, podem ter se salvado umas 30.000 pessoas – 15% da população – os demais foram sepultados embaixo das ruínas ou morreram afogados, pois a erupção começou numa sexta-feira, 2 de maio de 1902, e não terminou até quinta-feira, 8 de maio. A pouca importância que a princípio lhe deram seus habitantes e a desídia das autoridades foram a principal causa de uma tragédia que poderia ter sido atenuada, se não tanto em termos materiais, mas, pelo menos, em termos humanos.

Dilúvios universais, finais de mundo, locais paradisíacos, ou não, levados ao fim pela Natureza, por sua conta ou com a ajuda do homem, por fatalidade ou por negligência… todos foram os mais catastróficos, os mais definitivos, o pior que se tem lembrança na história, sem nos darmos conta que o horror este sim é “universal”, e não tem limites. A única diferença é que hoje somos capazes de racionalizar.  Quem sabe talvez amanhã sejamos capazes de preveni-los ou evitá-los.

Rosa Torres

Sobre a vida e a morte

Como estamos acostumados a conceitos estanques e excludentes, os de vida e morte constituem-se em motivo de preocupação com suas causas específicas.

Em princípio, a morte produz mais repulsão e medo, já que entra em planos desconhecidos para nós, e muitas vezes a consideramos como um infinito vazio, um nada sem conteúdo. Dessa maneira e por comparação, a vida torna-se mais aceitável, mesmo trazendo problemas que nos afetam diariamente e que, em casos extremos, podem nos levar ao suicídio se este for considerado como solução para os problemas da vida.

Sendo assim, a vida tem suas complicações e a morte foi relegada a um plano em que a ciência certamente ainda não sabe se é melhor ou pior do que a vida.

Seja como for, vida e morte apresentam-se como irreconciliáveis, principalmente para  aqueles cujas crenças religiosas vêm na morte outro tipo de realidade ou de “vida”. E é precisamente essa aparente falta de correlação a mais problemática, uma vez que uma das maiores aspirações dos homens de todos os tempos têm sido a de unir a vida e a morte, ultrapassando essa barreira tão escura e pesada que foi estendida entre uma e outra.

Embora todos queiram saber alguma coisa a mais sobre a morte e muitos queiram saber alguma coisa a mais sobre a vida, o interesse é ainda muito superficial, muito geral, pois há uma crença de que temos tempo suficiente para vivermos a vida e nos informarmos pouco a pouco dos seus porquês.

Todavia é bom lembrarmos que as coisas nem sempre foram assim. É verdade que ao longo do tempo havia pessoas cujas preocupações estavam longe deste jogo da dualidade, mas a história nos mostra também momentos em que diferentes civilizações delinearam o binômio vida-morte sem maiores traumas, conjugando-o como uma unidade vital sobre dois aspectos. Vida e morte não eram mais que duas faces de uma mesma moeda e ambas eram compreendidas e assumidas desde os primeiros anos de vida com os primeiros ensinamentos.

Houve povos – e recorremos mais uma vez ao exemplo dos egípcios – para quem a morte era o acesso à verdadeira Vida, enquanto que a passagem pela terra constituía uma preparação para ascender a esse outro estado mais perfeito, mais intenso e espiritual que permitiria o contacto direto com os Deuses. Também para eles a morte era passageira já que cada ser humano deveria regressar ao mundo terrestre para viver novas experiências nesta dimensão material e concreta.

No caso dos egípcios e de muitos outros povos da antiguidade (hindus, iranianos, sumérios, assírios, babilônios, gregos, romanos, germânicos, celtas e povos de culturas americanas pré-colombinas, além de outros), não era tão marcante a obsessão sobre a possibilidade de haver contato entre os vivos e os mortos. Sabia-se que a porta entre um mundo e outro não era infranqueável e que, em todo caso, se não existia um contato regular era para que cada um pudesse continuar trabalhando em sua esfera sem interferências desnecessárias.

Séculos de mudanças de idéias e de várias controvérsias religiosas (nas quais interferiram interesses políticos e também econômicos) foram abrindo um abismo cada vez maior entre a vida e a morte o que gerou uma confusão crescente entre os humanos. As religiões, de uma forma ou de outra, tentaram tornar-se donas das vidas e regentes da morte, determinando comportamentos na terra que valeriam prêmios no além, distribuindo castigos e indulgências aos moldes dos tribunais ordinários.

Conceitos associados

O acervo tradicional próprio da maioria das religiões não concebe a idéia da morte como um novo estado da alma nem se refere necessariamente a idéias como pré-existência da alma, imortalidade, ressurreição, reencarnação, transmigração, palingenesia, metempsicoses e outras similares.

Bem, de qualquer forma, o certo é que havia – e há – que assumir certas definições sobre alma, espírito humano, sobre o que morre e o que permanece e sobre quais são as condições para que perdure e permaneça.

Sem tecer considerações sobre a natureza espiritual do homem e quais são os princípios que regem a morte do corpo, faremos um breve estudo sobre as idéias mais comuns a respeito.

Aceitar que depois da vida haverá outras vidas permanentes, felizes ou atormentadas, segundo os méritos acumulados, equivale a ter que aceitar a pré-existência da alma, pois seria absurdo pensar na permanência de algo que nunca existiu antes de aparecer. Sua qualidade de permanecer depois tem de ter vindo antes, se não for assim deveríamos aceitar os infinitos caprichos ou ações divinas incompreensíveis para os seres humanos. A imortalidade da alma foi a base para muitas religiões e filosofias distintas. A reencarnação, ou seja, o fato de vivermos várias vezes na terra com diferentes aparências como humanos é análoga ao modo que a Natureza inteira se renova ciclicamente sem morrer definitivamente em cada uma das estações do ano.

Sobre isso há várias teorias: uma única ressurreição, não na terra, mas sim no céu, recuperando o mesmo corpo que se tinha para usufruir assim uma paz eterna uma vez que Deus tenha julgado todos os homens após o fim do mundo. Assim, haverá os que ressuscitarão para viverem eternamente no céu, outros o farão no inferno e outros ficarão em um estado intermediário purificando seus erros, pois não são tão grandes que os faça merecer o inferno e nem tão pequenos para permitir-lhes o acesso ao paraíso.

Na Índia, o termo sânscrito “Samsara” serve para designar a “Roda da Vida” que gira constantemente, tocando às vezes o mundo manifestado e passando em outros pontos pelo mundo sutil no qual se encontram os que vulgarmente chamamos mortos. Esta roda está em movimento pelas ações dos homens: como cada ação gera uma reação, é impossível deter o giro da vida e da morte, até quando a consciência se eleve e promova ações sem egoísmo, libertadas de todos os desejos pessoais, generosas e serviçais para com todos os seres. Então se deterá a roda, mas isso não ocorrerá amanhã…

Os termos gregos “palingenesia” (palin, outra vez de novo; gênesis, origem) e “metempsicoses” (metem, troca; psiquis, alma) mostram idéias similares às da reencarnação, sendo conceitos aceitos pelos povos da antiguidade. Por diferentes razões que mais ou menos coincidem com a necessidade da alma de recompor-se, de recuperar a consciência de sua natureza, de desprender-se dos excessos e coações da matéria, o homem deve voltar à vida terrestre, regressando da morte, e, como os corpos físicos são falíveis, a morte chega como um repouso ou parênteses antes de um novo começo.

O que nos parece totalmente defasado e mal interpretado é o conceito de transmigração que explica a possibilidade da alma humana reencarnar em qualquer uma das formas viventes, seja uma pedra, uma árvore ou um animal, contradizendo com isso qualquer princípio lógico de evolução e fazendo da existência um caos absoluto onde nada tem lugar nem meta.

O temor da morte

A partir do século VI, após o sínodo celebrado em Constantinopla pelo Imperador Justiniano para anatematizar algumas obras e ensinamentos do filósofo Orígenes, tudo referente à pré-existência da alma e à reencarnação – que pertenciam à doutrina cristã tradicional – foi relegado ao silêncio do proibido.

Para o nosso mundo ocidental essas idéias converteram-se em tabus e foram postas de lado todas as antigas religiões, filosofias e psicologias que haviam desenvolvido essas doutrinas durante séculos e séculos. Da mesma forma, os pensadores e escritores que eram da linha mística, filosófica ou científica que abordaram tais temas foram afastados de seus estudos, desgastaram-se devido a tantas explicações ou foram qualificados como loucos.

Todo um passado rico em experiências e prodígios que demonstrou significativa sabedoria ficou na escuridão à mercê das novas idéias que viriam substituir “os velhos erros”, e não faltaram aqueles que atribuíram esses erros como obra do diabo, dedicado a tentar os homens com ilusões e falsidades para pôr à prova seu discernimento.

Por quase dois séculos os livros sagrados e compêndios filosóficos dos melhores autores “deveriam” ser lidos no sentido literal, como se o simbolismo e a linguagem cifrada nunca tivessem existido. Todavia é bem conhecido que toda obra tem mais de um significado, que os símbolos sempre existiram e que é próprio do desenvolvimento espiritual estar mais perto do profundo significado das palavras e que as parábolas simples servem como primeiros passos para ascender às primeiras explicações.

Para não cair nos exemplos orientais, que podem parecer alheios a nossa forma de viver e pensar, citaremos alguns grandes literatos, artistas e filósofos ocidentais que, desde a época grega até hoje, não tiveram dificuldades em aceitar a imortalidade da alma e a possibilidade natural de que essa passe por diferentes vidas para adquirir diferentes experiências. Começaremos pelo conhecido Pitágoras, para continuar com Heráclito, Empédocles, Platão, Aristóteles, Cícero, Virgílio, Ovídio, Plutarco, Plotino e os neoplatônicos, em geral, o Imperador Juliano entre outros gregos e romanos.

A Idade Média estendeu um véu sobre o pensamento ocidental que voltou a reaparecer com toda a sua força no Renascimento sob a pena de Dante, Marsílio Ficcino, Pico da Mirandola, muitos dos grandes aristocratas que exerceram a função de mecenas de artistas e movimentos filosóficos tais como o do neoplatonismo, do pitagorismo, da cabala, do hermetismo, da alquimia e da maçonaria.

Continuamos avançando no tempo com o surgimento de Paracelso, Giordano Bruno, Shakespeare, Tomás Campanella, John Milton, Espinoza, Leibniz, Voltaire, Benjamin Franklin, David Hume, Kant, Lessing, Herder, Goethe, Schiller, Fichte, Hegel, Schopenhauer, Thomas Carlyle, Balzac, Victor Hugo, Emerson, Edgar Allan Poe, Tension, Kierkegaard, Flaubert, Dostoievsky, Tolstoi, Visen, Mark Twain, Bernard Shaw, Gustav Mahler, Rudyard Kipling, Yeats, Romain Rolland, Rilke, Hermann Hesse, Kahlil Gibran, D. H. Lawrence, Priestley, Aldous Huxley e tantos outros que comporiam uma lista interminável. O certo é que nenhum deles teria fundamento suficiente para expor as suas crenças ou idéias filosoficamente consolidadas, se elas não tivessem sido reforçadas por conhecimentos científicos.

Religião e ciência

Nos dois últimos séculos levantou-se uma nova barreira entre a vida e a morte, além da que já estava estendida pela débil compreensão da Natureza. A oposição entre a ciência e a religião aprofundou mais as diferenças de conceitos e, se ficou algum resquício de liberdade espiritual, a ciência se encarregou de ridicularizá-la sobre um novo anátema: “nada disso pode-se comprovar”, “não temos provas científicas dessas afirmações”…

Tratava-se de demonstrar com meios materiais realidades abstratas. Tratou-se – e obteve-se por um tempo – de reduzir a vida psicológica, intelectual e espiritual à mera secreção de distintas glândulas. Tudo se reduziu ao funcionamento orgânico do corpo e, portanto, não haveria mais de uma vida, que é esta, sendo a morte, por conseqüência, o fim de todas as coisas.

Mas a ciência não está separada dos homens e foi a inquietude humana que fez a ciência derivar para novos campos, para novas investigações, para novas formas de interpretar a realidade. Assim nasceram numerosos “para” que são os fenômenos paranormais, parapsicológicos, parafísicos e outros similares que tentavam explicar o que, aos olhos de fatos concretos, necessitava sem dúvida alguma explicação por mais absurda que fosse.

Lamentavelmente, junto às investigações sérias e encaminhadas para encontrar a verdade apareceram – como sempre continuariam aparecendo – farsantes que aproveitaram da novidade para fazer bons negócios com ela. Espíritas de última hora, magos de meia tigela, videntes de araque e uma infinidade de interlocutores com o além fizeram seu pé de meia em detrimento de uma via de conhecimento que poderia abrir-se com maior rapidez e clareza.

Não obstante e apesar do emaranhado de charlatões, a necessidade de saber, e saber bem, continua existindo. Hoje são cada vez mais os trabalhos em que se relatam casos considerados curiosos ou impossíveis até pouco tempo, mas que se vai conhecendo à medida que desaparece o medo de revelá-los.

Médicos e psiquiatras, amparados pelo rigor da sua profissão, vêm tratando muitos casos concretos em que as lembranças trazidas por pessoas em estado de transe hipnótico, que só poderiam pertencer a épocas anteriores a sua atual existência, não têm nenhuma possibilidade de serem um mero truque ou engano premeditado. Outras observações foram feitas no campo dos doentes terminais, ou em estado de coma profundo, que chegaram a ser dados como mortos e que, entretanto, conseguiram “regressar” outra vez a seu corpo, à “vida”, em que relatam com maior ou menor clareza suas experiências enquanto estiveram no “além”.

As coincidências nos relatos nos permitem supor que seria muito difícil que milhões de pessoas de diferentes lugares, diferentes formas de educação e crenças repetissem a mesma história por meio de um prévio acordo. Parece que nos encontramos ante a possibilidade de abrir caminho no meio de uma fronteira que sempre nos pareceu temível e intocável, pelo menos desde que certos tabus sobre a morte converteram este acontecimento, natural e lógico no transcurso da pretendida e desejada evolução, como algo terrível e doloroso.

Novamente, e com roupagens modernas, aparece Satanás como indutor dessas experiências, quando não tentamos mostrá-las como simples efeitos de droga ou, em todo caso, como o produto da efervescente imaginação de alguns alterados.

Embora tudo isso, a pujança de certas vivências profundas faz com que o caminho não se feche, mas sim deixe passagem para novas postulações.

É inegável que existe nos seres vivos um “instinto” chamado de eternidade. Tudo o que vive resiste à morte, seja em atos simples e reflexos, seja sob a forma da angústia que aflige dolorosamente os homens obrigados a deixar a existência enquanto estão ativos seus sonhos e esperanças.

Segue vigente o desejo de não morrer, de não deixar as coisas inacabadas ou de ter novas oportunidades para continuar. Segue vigente o desejo de não perder definitivamente os seres que amamos; é duro resignar-se e pensar que nós partiremos e deixaremos tantas pessoas queridas sem poder mais nos comunicarmos com elas, ou que essas pessoas irão partir antes de nós para um mundo escuro – se é que é um mundo – onde já não poderão nos contactar. É duro pensar que viremos à vida só uma vez, que teremos muito poucos anos para aprender tudo o que necessitamos para amadurecer e que, após essa breve – feliz ou triste – experiência, não restará outra saída que um paraíso um tanto sem graça para os mais ativos ou um inferno para os que não chegaram a compreender de verdade o valor de um erro.

Mas além das dificuldades e das proibições, da incredulidade e do desespero, são muitos os que tentam, por um meio o outro, ultrapassar a barreira intransponível. Depois de tudo, nos faz falta voltar a tocar ou escutar quem tenha morrido para “sentir” que está próximo, sendo que podemos percebê-lo em mais de uma ocasião, pois existem relações psicológicas, afetivas, mentais, morais e espirituais permanentes. Depois de tudo é bem possível que quem esteja do “outro lado” também faça esforços para chegar até nós, se não todos os dias, mas em momentos especiais, como é na vida cotidiana em que nem sempre estamos necessariamente uns ao lado dos outros para nos entendermos e nos comunicarmos.

A vida adquire maior sentido se considerarmos a morte como um descanso natural, como um sonho que nos ajuda a digerir mil e uma circunstâncias antes de voltar a despertar. E a morte tem sentido enquanto concebemos a Vida Una que se expressa de um e do outro lado da barreira.

Vida e morte se apóiam e se complementam. Se agora estamos vivos, por semelhança e analogia, viemos de alguma outra forma de vida e nos dirigimos para um outro aspecto da vida também. Por que fazer sofrer a humanidade com esse terrível instinto de supervivência? Por que dar lugar no sentimento e na razão a algo que não existe?

Interessante mesmo seria converter esse desejo de supervivência em uma clara consciência da imortalidade, fazendo com que cada minuto da nossa existência tenha o valor de um passo à frente, de uma experiência útil para sempre, de uma união constante com quem vai pelos mesmos caminhos que nós. É possível que assim cessem de uma vez as intermináveis discussões sobre a vida e a morte para podermos em troca estarmos acordados e ativos tanto na vida como na morte, tanto de um lado como de outro de uma porta que se torna cada vez menos tenebrosa e temível: como é a porta da nossa casa, para entrar e sair.

Delia Steinberg Guzmán

A busca da arte – Paisagem arquitetônica em ruínas

François de Nomé. Museu do Ermitage, Moscou.

Este pouco conhecido pintor de nome Nomé, a quem chamavam “Monsú Desiderio”, nos deixou, em 1620, esta impressionante paisagem arquitetônica que em todo o Barroco do século XVII renova o que é próprio da natureza, muitas vezes como um símbolo de morte. Com o início da ciência arqueológica, a ruína se libera do véu de decadência que a acompanhava e passa ao primeiro plano de interesse cultural, agora com um alento de magia, de mistério.

Neste soberbo quadro, produzido com somente duas cores, branco e preto e suas nuances, a protagonista absoluta é a ruína clássica, a coluna corinto ainda embutida em um resto de fachada, sobre desgastados montículos de terra. Uma figura encapuzada descansa neles. A coluna ocupa o centro, dentro de uma sombra, a do passado, que só ela recebe. Atrás há um céu nublado, que ilumina com sua luz de tempestade a arquitetura atual, a do momento em que se realizou a pintura: dois núcleos, um catedrático e outro palaciano.

A catedral de esbeltas agulhas e traços góticos parece inacabada. É difícil imaginar sua planta, porque se a fachada, como é lógico, é a que olha para coluna, flanqueada por torres e com galerias de santos, não há espaço para a nave, não sendo a obrigatória cruz latina. O oratório lateral poderia ser o transepto (braço menor da cruz), mas por trás dele se vêem os arcos fajones, sem muro. Está inacabado e o coreto está desviado.

É tão-somente um sonho. Um maravilhoso sonho. No fundo, o bloco palacial, uma estranha mistura de colunas solitárias, uma torre circular com capitéis, uma grande torre de defesa, dois oratórios clássicos, um deles com estátua. Tudo isso irreal.

As figuras humanas, estáticas, não acrescentam vida ao quadro. A paleta, monocromática e fria, contribui para essa atmosfera onírica, de certo modo ameaçadora, que nos sobressalta; a água é um elemento impossível, pois não se pode construir uma catedral às margens de um rio, mar ou lago.

É o aprisionamento de um sonho. O passado e o presente, a água do renascer, a sombra que oculta a luminosidade estranha.

É o profundo desejo de penetrar na impossível catedral inacabada.

Mª Ángeles Fernández

Há muitos séculos…

Vivia na cidade de Haffa, segundo um manuscrito do século XIII recentemente descoberto na Espanha, um Rabino com fama de santo e que tinha a peculiaridade de habitar uma casa completamente vazia, sem móveis.

Um dia passou pela cidade um comerciante muito rico que conhecia o Rabino desde menino. Cansado pela travessia do deserto inóspito e desejoso de visitar seu antigo companheiro de infância, foi vê-lo e, depois das cortesias e reverências iniciais, o comerciante perguntou:

-Diga-me… Por que não vejo nenhum móvel?

-E os teus?… Tampouco os vejo.

-Homem!…Não queira que no meio de uma viagem, estando eu de passagem, estivesse carregando móveis, que só me atrapalhariam.

O Rabino sorriu e lhe disse:

-Por que então te espantas com o fato de eu não ter móveis?… Também estou no meio de uma viagem… de passagem como estamos todos na vida.

Dizem que o bom comerciante não esqueceu jamais aquele ensinamento e que, logo que organizou suas finanças neste mundo, saiu peregrinando por lugares sagrados para viver junto à santidade.

Jorge Ángel Livraga

Página de Internet

Há quase três anos, na edição original em espanhol desta Revista, escrevíamos que o melhor endereço da web sobre o Egito era: “Amigos da Egiptologia” www.egiptologia.com. Naquele momento era o primeiro grande projeto para difundir a Egiptologia em língua espanhola e ainda hoje continuamos pensando que é a melhor página sobre esse tema. Nascida na onda da página anterior existe www.tierradefaraones.com ou “Projeto Dinástico”, em que são disponibilizadas informações sobre personagens do Antigo Egito cuja existência se situa entre o Pré-Dinástico e o Período Ptolemaico.  E também www.egiptologia.org ou “Terra de Faraós” de conteúdo similar ao do primeiro endereço, embora a originalidade do primeiro fosse devido ao seu enfoque em relação à divulgação de notícias, às salas de bate-papo, à lista de distribuição, a um canal próprio em IRC, etc.

Embora superar a página anterior fosse uma tarefa bastante difícil, encontramos um novo endereço na web que tem algo diferente: é feita no Egito por egípcios e em espanhol. Como diz no rodapé da página: “Editada no Egito, o conteúdo desta página é de divulgação, não depende de nenhuma instituição oficial, nem disponibiliza informação turística”.

A página da web em questão, www.egipto.com, enfatiza especialmente o Museu Egípcio do Cairo. Tem um fórum para troca de opiniões e recomendações sobre o Egito, que é bem animado e no qual se pode fazer muitos amigos que compartilham nossa paixão pelo Egito.

Também podemos encontrar música egípcia moderna em formato MP3, receitas da cozinha egípcia e árabe em geral, fotos históricas do Cairo, desenhos de viagens, cartões postais e até vídeos sobre o Egito. Naturalmente em outros sites podemos encontrar toda a informação que necessitamos para planejar uma viagem ao Egito, incluindo ofertas de viagens, hotéis, guias, etc. E também histórias e lendas do longínquo Egito.

Também existe um agradável teclado no qual podemos escrever nosso nome com hieróglifos egípcios. Mas a parte mais importante é a dedicada à arte e ao simbolismo do Antigo Egito, sendo uma fonte quase inesgotável de leitura apaixonada sobre o misterioso e fascinante Egito.

Recomendamos o percurso pelo Museu do Cairo, com uma boa seleção de peças e o glossário completo de deuses egípcios, com seus nomes, atributos, representações, etc. Destacamos também a seção dedicada a grandes personagens da história egípcia e aos egiptólogos que conseguiram manter esses tesouros até nossos dias.

Portanto, o conteúdo é bem diversificado e completo que pode ser um complemento extremamente útil para os leitores da Revista Esfinge.

Juan Carlos del Río

Alexandria

Alexandria foi fundada por Alexandre Magno, que a planejou para ser a melhor cidade do mundo. Após sua morte, Ptolomeu I herdou o Egito, e Alexandria foi a capital de seu império. Quando Hipátia nasceu (370 d.C), o Museu de Alexandria estava funcionando havia sete séculos. O cristianismo, que acabava de se converter na religião oficial, estava a ponto de acabar com o museu, pois ele representava o centro mais importante do saber grego, o que para os cristãos era sinônimo de “saber pagão” que deveria ser perseguido e exterminado. Nesse contexto, aparece Hipátia. Era filha e discípula do filósofo e matemático Teon, que ela adorava. Segundo os historiadores, Teon queria que Hipátia fosse um ser humano perfeito. Em uma época em que as mulheres dispunham de poucas opções e limitado acesso ao conhecimento, desenvolveu-se livremente e sem se afetar pelos domínios tradicionalmente masculinos. Os historiadores concordam em dizer que ela era de uma grande beleza e que teve muitos pretendentes, mas rechaçou todas as propostas de casamento. De acordo com a educação grega, Teon queria que Hipátia cultivasse tanto sua mente quanto seu corpo, por isso lhe deu uma formação baseada na ginástica para o corpo e música para a alma. Hipátia se dedicou durante vinte anos a investigar e ensinar Matemática, Geometria, Astronomia, Lógica, Filosofia e Mecânica no Museu, ocupando a cátedra de Filosofia Platônica, motivo por que seus amigos e companheiros a chamavam de “a filósofa”. No ano 400 d.C., seu conhecimento era tal, que foi nomeada diretora do Museu, ao qual pertencia a famosa Biblioteca. Escreveu um tratado “Sobre o Canon Astronômico de Diofanto”, texto de leitura obrigatória para os astrônomos de sua época em que se fala sobre equações de primeiro e segundo grau. Entre suas conquistas, se destacam várias invenções, como o astrolábio (instrumento usado para determinar o movimento e posição das estrelas), a esfera plana e o aerômetro (instrumento que mede a densidade do ar ou outros gases). Mas Hipátia estava no centro de poderosas tensões sociais. Cirilo, o bispo de Alexandria, a desprezava pela estreita amizade que mantinha com o governador romano e porque era um símbolo de cultura e de ciência, que a primitiva igreja identificava em grande parte com o paganismo. Os acadêmicos do Museu foram perseguidos, obrigando-os a se converter ao cristianismo se não quisessem morrer. Hipátia se negou a essa conversão e, apesar do risco pessoal que isso supunha, negou-se a renunciar ao conhecimento grego, à filosofia e à ciência.

Continuou ensinando e publicando, até que em março de 415 d.C., quando se dirigia à Biblioteca para trabalhar, caiu nas mãos de uma multidão de paroquianos de Cirilo. Arrancaram-na da carruagem, rasgaram suas roupas e, armados com conchas marinhas, esfolaram-na arrancando sua carne dos ossos. Seus restos mortais foram queimados, suas obras destruídas, seu nome esquecido. Cirilo foi nomeado santo. A destruição da Biblioteca veio pouco tempo depois, precipitando-se a negra Idade Média sobre o Ocidente, com suas seqüelas de ignorância e de dor.

O martírio de Hipátia implicou na morte da mais notável filósofa e matemática da sua época. Mas seu exemplo de vida iluminou o caminho de muitos buscadores da verdade, como farol que guia na escura noite os navegantes.

Julián Palomares

Uma ponte chamada Amizade

Quando lançamos um olhar sobre a forma de vida adotada nas grandes cidades, nos grandes centros urbanos, identificamos uma dificuldade no estabelecimento de laços sociais fortes e duradouros, mas, para que uma sociedade se desenvolva, evolua e se perpetue, é necessário que ela se erga sobre alicerces firmes e resistentes. Quando cada grupo social, cada família, cada pessoa passa a dar mais ênfase aos comportamentos competitivos, conflitantes e desarmônicos, pode-se afirmar que existe uma tendência à formação de abismos, entre as pessoas que compõem esse grupo social, ao invés de pontes, pois cada uma passa a velar por seus próprios interesses, suas próprias conveniências, e não pelo bem comum. Assim como numa grande cidade é necessária a construção de caminhos e pontes que aproximem e beneficiem a sociedade, também é necessária a construção de trilhas que aproximem as pessoas e pontes que superem os abismos emocionais gerados por uma excessiva necessidade de competir, de criticar e de desconfiar. Para o ser humano, construir pontes é o mesmo que resgatar e viver o verdadeiro valor da Amizade, visto que ela é uma das mais belas expressões do Amor. O Amor é tudo o que une, como dizia o filósofo Platão, e cabe aos seres humanos colocar tudo aquilo que une sobre o que divide, enfraquece e separa. Um sábio chinês chamado Confúcio ensina que a verdadeira Amizade não exige que todos sejamos iguais, e sim complementares e harmônicos. Todos nós podemos observar a harmonia presente na natureza e como ela se expressa por meio de seres diferentes e complementares. Assim, ainda que se trate de um jardim composto só de rosas, não é difícil observar as características próprias de cada uma delas, suas diferenças, suas cores, seus perfumes, mas, sobretudo, como compõem, juntas, um belo roseiral. Entre os seres humanos a diferença de cor, de raça, de credo, de condição social tem sido motivo de conflitos, guerras, preconceitos e separações. Mas os grandes filósofos ensinam que não é difícil observar que essas diferenças poderiam ser a causa e a fonte de nossa força e de nossa beleza, ao invés de ser o motivo de nossas desavenças e de nossos atritos. Foi preciso mais de uma cor para que Da Vinci pintasse a Monalisa, mais de um instrumento para que Beethoven compusesse as magníficas sinfonias. Há um profundo laço de amizade entre os diferentes instrumentos de uma orquestra. Ouvir uma sinfonia é como presenciar um belo diálogo entre bons amigos.

Um filósofo chamado Epicteto ensina que a verdadeira Amizade está presente entre aqueles que praticam as virtudes, quais sejam: a honradez, a retidão de caráter, a justiça, a bondade, a generosidade, a confiança, a lealdade, pois são essas virtudes que nos convertem em bons cidadãos, bons filhos, bons pais, bons educadores e sobretudo bons Amigos.

É muito importante saber que, em qualquer tempo e em qualquer reino da natureza, todo ser só pode oferecer aquilo que tem, de modo que aquele que quer oferecer o ódio, a ira, o egoísmo, vai ter que, antes, abrigá-los em seu coração, possuí-los e assim será o primeiro a sofrer seus terríveis efeitos. Somos os primeiros a beber do cálice onde vertemos o veneno que destinamos a outrem. Felizes são os homens sábios que levam em seus corações, não o veneno das baixas paixões, mas o bálsamo dos grandes sentimentos. Igualmente felizes são aqueles que tomam esses grandes homens como exemplos de vida, como verdadeiros Mestres e Educadores, sim, são felizes os eternos aprendizes que trilham a senda das virtudes, que buscam no cotidiano aprender a serem verdadeiros construtores de uma divina ponte chamada Amizade.

Gerson Rodrigues de Miranda

Andrés Bello, o Humanista da América (2ª parte)

por Leonardo Santelices A.

Em 1824 o Governo do Chile nomeia Mariano Egaña como ministro plenipotenciário na Inglaterra. Ele não tinha uma boa relação com Antonio José de Irisarri, guatemalteco, ministro do Chile em Londres, pois havia nomeado Andrés Bello como secretário interino da legião, em 1822. A princípio esta situação o afeta, mas depois é estabelecida uma boa relação com Mariano Egaña, que tinha entre suas missões contratar professores, industriais e fomentar a imigração até o Chile. Um desses contratados será Andrés Bello.

Chile na época de Bello

Desde a renúncia de Don Bernardo O´Higgins em Janeiro de 1823 até o advento de um regime autoritário em 1930, o Chile passou por um período chamado por alguns historiadores como  período de Anarquia e ensaios políticos.

Esta é uma época de grande inovação e criatividade, na qual se buscava uma nova organização política para recomeçar o que se manteve durante todo a época colonial sob o domínio Espanhol.

Em 17 de abril de 1830 teve lugar a batalha de Lircay com a vitória dos conservadores. Começa o período chamado República Autoritária. Encontramos em um parágrafo escrito por um de seus mais influentes protagonistas, Diego Portales, algumas idéias que prevalecem nesta época:

“A Democracia que tanto pregam os iludidos, é um absurdo nos países como os americanos, cheios de vícios e onde os cidadãos carecem de toda virtude, fator que é necessário para estabelecer uma verdadeira República. A Monarquia não é tampouco o Ideal americano: saímos de uma terrível para voltar a outra e o que ganhamos? A República é o sistema que há que adotar, mas sabe como eu a entendo para estes países? Um governo forte, centralizador cujos homens sejam verdadeiros modelos de virtude e patriotismo, e assim guiem os cidadãos pelo caminho da ordem e das virtudes. Quando se houver moralizado, poderá vir o governo completamente liberal, livre e cheio de Ideais, onde tenham parte todos os cidadãos.”

A chegada de Andrés Bello ao Chile

Ele parte de Londres em 14 de fevereiro de 1829, e chega a Valparaíso em 25 de junho, a bordo do navio Inglês Grecian, com a idade de 47 anos e em companhia de sua família. Neste Chile que começava uma nova etapa de sua história, é onde Andrés Bello se tornará um protagonista importante deste processo, aportando no jurídico, educacional, político e literário.

Em 13 de julho de 1829, o presidente Francisco Antonio Pinto nomeia Bello como oficial maior do Ministério da Fazenda, com um salário de dois mil pesos anuais. Ele não exerceu este ministério, mas sim o de Relações Exteriores, ocupando o cargo que corresponderia hoje ao de subsecretário.

Em 1830 se inicia no Chile o chamado Regime Portaliano, que compreende, durante a vida de Bello, os governos de Prieto, Bulnes, Montt e Pérez, também chamados “dos decênios”. São nestes anos que se consolida uma organização institucional, se experimenta um renascimento cultural, e se vive, ao final desta época, um avanço econômico. Mas o aspecto mais destacável é a estabilização institucional, é o período onde se dá forma ao devir Republicano. Trata-se de um período de construção nacional, em que o Chile se integra e se consolida como uma unidade política, onde das necessidades materiais mais básicas se erguem às necessidades intelectuais e científicas; onde se busca construir um Estado que se projeta ao futuro consolidando o processo de independência.

Em 1830 é nomeado Reitor do Colégio de Santiago, e neste mesmo ano é fundado o periódico oficial “O Araucano”. Bello foi encarregado da redação das seções estrangeira e cultural e foi o principal redator até 1853. Para a nascente República era fundamental contar com um periódico oficial que expressasse a maturidade intelectual e política alcançada, daí a relevância do trabalho de Andrés Bello.

Como humanista Andrés Bello se depara com uma triste herança da época da Colônia: a censura de livros. Para poder publicar livros tinha que solicitar autorização às autoridades eclesiásticas que eram regidas pelo índice elaborado pela Inquisição. Enraivecido, Andrés Bello reclamou desta situação em “O Araucano”, de maneira particular pela apreensão de alguns livros na Aduana, argumentando o direito contra as arbitrariedades daqueles que se sentem possuidores da verdade.

Em 1832 é nomeado membro da Junta de Educação e em 15 de outubro, como resultado de sua brilhante, importante e transcendental contribuição nos variados campos, no congresso do Chile, ele é naturalizado chileno, com a plenitude de direitos de um cidadão chileno.

Em 1834, passa a desempenhar o cargo Maior do Ministério de Relações Exteriores, posto que ocupará até 1852.

Em 1837 é eleito Senador da República e reeleito em dois períodos sucessivos, até o ano anterior ao de sua morte. No exercício parlamentar aportou com sua visão muito bem informada sobre as necessidades do país em todos os seus âmbitos e seus sólidos fundamentos humanistas.

Andrés Bello o Jurista

Em 1831 começa sua atividade como professor particular em sua própria casa e em 1832 publica em Santiago “Princípios de Direito Humano”,que em uma versão corrigida e aumentada se transformará em 1944 nos “Princípios de Direito Internacional”, publicada em O Mercúrio e impressa em Valparaiso. Neste livro já se encontram os conceitos relativos a proteção de uma zona marítima exclusiva. Tendo como base estes conceitos, o Chile foi o primeiro país do mundo a proclamar, em 1947, sua soberania e jurisdição sobre uma zona marítima de 200 milhas, que se projeta até o Oceano Pacífico. Posteriormente, estes mesmos conceitos deram origem a Comissão Permanente do Pacífico Sul.

A obra de Bello se adianta a sua época e contém claras indicações sobre o direito marítimo, em alguns parágrafos podemos apreciar sua perspectiva:

“Como meio de segurança, basta o domínio daquela pequena porção de mar adjacente, que não pode ser de todo livre, sem que este uso comum nos incomode a cada passo, e que possamos apropriar, sem fazer inseguro o território dos demais povos e embaraçar sua navegação e comércio.”

E sua visão do mar como uma fonte de recursos que devem ser protegidos, visão de mais de 170 anos, tem uma atualidade assombrosa:

“Mas, sobre outro aspecto, o mar é semelhante a terra. Há muitas produções marinhas que se encontram limitadas a certos locais: porque assim como as terras não dão todas os mesmos frutos, tampouco todos os mares fornecem os mesmos produtos. O coral, as pérolas, o âmbar, as baleias não se encontram senão  em limitadas porções do oceano, que se empobrecem diariamente e ao fim se esgotam. As baleias freqüentavam em outro tempo o Golfo de Vizcaya; hoje em dia devem ser perseguidas até as costas da Groelândia e de Spitzberg; e por maior que seja em outras espécies a fecundidade da natureza, não se pode duvidar que a concorrência de muitos povos faria mais difícil e menos lucrativa sua pesca e acabaria por extingui-las, ou ao menos eliminá-las de uns mares a outros. Não sendo, pois, inesgotáveis, parece que seria lícito a um povo apropriar-se dos locais em que se encontram e que não estejam atualmente possuídos por outros”.

Outro do imenso aporte de Andrés Bello foi a preparação do código Civil do Chile, e sobre ele comenta o professor Luis Riveros, Reitor da Universidade do Chile:

Nos modernos Estados europeus se havia demonstrado os benefícios da codificação, que gerava corpos de leis coerentes, preparados de forma racional e sistemática, por sobre o Direito comum, vago e cheio de normas contraditórias.

Partidário desta modernização, Andrés Bello sustenta a idéia de respeitar as peculiaridades do direito vigente, ordenando-o com técnicas de codificação. Iniciou este árduo trabalho em 1840. O Código foi publicado em 31 de maio de 1856 e entrou em vigência em 1857. Por sua clareza, exatidão e coerência, foi fácil de aplicar. Assim mesmo, foi adotado em diferentes países hispano-americanos. Equador e Colômbia o promulgaram com muito poucas modificações e serviu de fonte para os códigos de outras nações do continente.

No Projeto do Código Civil, publicado em O Araucano em 1841, Andrés Bello disse: Nos encontramos incorporados em uma grande associação de povos,cuja civilização é um resplendor a nossa. A independência que temos adquirido nos tem posto em contato imediato com as nações mais adiantadas e cultas; nações ricas de conhecimentos, de que podemos participar, basta querermos. Todo o povo que tem representado antes de nós no palco do mundo tem trabalhado para nós.

Andrés Bello e a Universidade do Chile

Em 1842 o projeto da lei orgânica da Universidade do Chile foi aprovado pelo Conselho de Estado e remetido ao poder legislativo, a Universidade seria inaugurada em 1843 e Andrés Bello foi seu Reitor honorífico. Dada a sua importância, hoje a Universidade do Chile é também conhecida como a Casa de Bello.

A noção do que deveria ser a Universidade é expressa por Bello no periódico O Araucano, nos seguintes termos que, todavia conserva toda sua vigência:

“Não se trata daqueles estabelecimentos escolásticos ou de ciências especulativas, destinados principalmente a fomentar a vaidade dos que desejam um título aparente de suficiência, sem vantagens reais ou imediatas para a sociedade atual… Se deseja satisfazer, em primeiro lugar, uma das necessidades que mais se tem sentido desde que com nossa emancipação política pôde abrir a porta aos conhecimentos úteis, lançando as bases de um plano geral que abrace estes conhecimentos, enquanto alcancem nossas circunstâncias, para prolongá-los com fruto em todo o país e conservar e adiantar seu ensinamento de um modo fixo e sistemático, que permita, sem embargo, a adoção progressiva dos novos métodos e dos sucessivos avanços que façam as ciências”.

Junto com a promulgação da Lei Orgânica da Universidade do Chile, como parte deste pequeno renascimento, se funda a Escola Normal de Preceptores para a formação de professores primários e a Escola de Artes e Ofícios. Este impulso e o trabalho de Bello na Universidade do Chile foi o que se refletiu na maturidade e qualidade que teve a educação chilena no final do século XIX e início do século XX.

Na apresentação atual da Universidade do Chile se pode ler: Desde o começo a Universidade do Chile se define como garantia da cultura clássica, humanista e secular. Esta é sem dúvida a estampa de seu primeiro reitor, Dom Andrés Bello, para quem o saber é uma questão social, intimamente ligada ao progresso  material e cultural de uma nação. Como dizia o sábio venezuelano: “todas as verdades se tocam – na área do conhecimento – se chamam umas as outras, se encadeiam, se empurram”. Bello associava a Universidade com as necessidades nacionais: “Todas as sendas em que se propõe dirigir as investigações de seus membros, o estudo de seus alunos, convergem em um centro: a pátria” [1]. Às portas da revolução industrial, cujos ecos começavam a serem ouvidos desde a Europa, e em pleno apogeu das idéias liberais, a Universidade devia estar a serviço do país. Como uma nova instituição educacional, devia desprender-se de velhas práticas e tradições, assim como da submissão a algum credo determinado ou a idéias absolutas, em respeito as quais a nova Universidade começaria a refletir.

A Gramática para o Americanos

No mês de abril de 1847 é publicada a primeira edição da gramática Castelhana destinada ao uso dos americanos. No prólogo da obra Amado Alonso a descreve nestes termos: A Gramática da língua castelhana de Andrés Bello, escrita há mais de um século, segue hoje sendo a melhor gramática que temos da língua espanhola. Este é um feito que mostra justamente a nossa admiração. Tem-se progredido na análise e conhecimento de muitos materiais idiomáticos; se tem posto mais rigor (ainda que as gramáticas escolares não tenham chegado a isso) na interpretação das categorias gramaticais; mas, todavia não tem aparecido um livro, uma gramática, que possa substituir com proveito a obra magistral de Andrés Bello em seu duplo ofício de repertório de modos de falar e de corpo de doutrina.

Bello escreve a Gramática para os americanos: Não tenho a pretensão de escrever para os castelhanos. Minhas lições se dirigem aos meus irmãos, os habitantes de Hispano-América. Julgo importante a conservação da língua de nossos pais em sua possível pureza, como um meio providencial de comunicação e um vínculo de fraternidade entre as várias nações de origem espanhola derramadas sobre os dois continentes. Andrés Bello – Prólogo.

O Humanista vê que a dispersão do idioma entranha um grave perigo: Mas o maior mal é aquele que se não se detém nos priva das inapreciáveis vantagens de uma linguagem comum, é a avenida dos neologismos de construção, que inunda e distorce muito do que se escreve na América, e alterando a estrutura do idioma, tende a convertê-lo em uma multidão de dialetos irregulares, licenciosos, bárbaros; embriões de idiomas futuros, que durante uma longa elaboração reproduziram na América o que foi a Europa no tenebroso período da corrupção do latim.

Por isso ele escreve a Gramática para preservar o idioma, não deteriorar este magistral instrumento que permite às novas repúblicas anuir às ciências, as artes, o direito, em síntese as humanidades, a aquilo que nos leva a exercer nossa condição de seres humanos. Chile, Perú, Argentina, México, falariam cada um sua língua, ou melhor dizendo, várias línguas, como acontece na Espanha, Itália e França, onde dominam certos idiomas provinciais, mas vivem a seu lado vários outros, opondo dificuldades a execução das leis, a administração do Estado, a unidade nacional. Uma língua é como um corpo vivente: sua vitalidade não consiste na constante identidade de elementos, e sim na regular uniformidade das funções que estes exercem, e de que procedem a forma e a índole que distinguem ao todo.

Esta condição de seres humanos se expressa com maior propriedade na linguagem, daí a importância de preservar a pureza idiomática, mas aceitando que é algo vivo e suscetível a modificações e agregados: Sendo grande ou não o perigo, ele tem sido o principal motivo que me induziu a compor esta obra, sob razões superiores a minhas forças. Os leitores inteligentes que me honrem lendo-a com alguma atenção, verão o cuidado que tenho em demarcar, por assim dizer, os limites que respeitam o bom uso de nossa língua, no meio da dissolução e liberdade de suas rotações, assinalando as corrupções que se propagam hoje em dia, e manifestando a essencial diferença que existe entre as construções.

Andrés Bello, e sua visão da América

Na cultura atual se tem imposto um falso antagonismo entre a especialização e uma visão geral. Porém, sempre existiu a especialização nos ofícios. Neste sentido, uma pessoa não pode ser especialista em mais de alguns ofícios, salvo as exceções. Contudo, se uma pessoa possui uma especialização, isto não a impede de ter uma visão global, universal, um critério que permita ir incorporando novos conhecimentos: A noção de Universidade é precisamente aquela de formar pessoas com uma visão universal que lhes permita integrar-se de forma harmônica à sociedade e à natureza. O contrário, que é o que encontramos em demasia na atualidade, são pessoas especializadas em uma área específica e que quer ver toda a realidade social e natural desde essa única e excludente perspectiva. Assim temos chegado, por exemplo, a conceber o ser humano como um animal, a sociedade como um mercado, a natureza como uma simples fonte de recursos, e os resultados destas visões parciais estão se tornando cada vez mais evidente.

Uma das características de Andrés Bello foi esta visão global que tinha como principal preocupação, consolidar o feito político da emancipação das novas repúblicas americanas na conformação de Repúblicas completas com um adequado desenvolvimento cultural, e por isso se preocupou com a difusão das ciências, das artes e da cultura em geral. Fomentar a sã convivência social através do Direito. Fazer uso cabal da linguagem como meio de comunicação e desenvolvimento dos seres humanos. Todo esse fecundo trabalho levou Francisco Bilbao a dizer que Andrés Bello foi “a árvore majestosa transplantada na zona tórrida do Chile” e sintetiza naquilo que é a base fundamental de desenvolvimento das pessoas e dos povos: a Educação, e, mais além de suas múltiplas atividades, Andrés Bello foi sempre um educador.

Andrés Bello morreu em Santiago do Chile em 15 de Outubro de 1865 há mais de 140 anos. Hoje vivemos uma alienação econômica e cremos que o destino da sociedade é o desenvolvimento, e estamos dispostos a pagar um custo social pelo crescimento da economia, mas nunca um custo econômico pelo crescimento da sociedade. Hoje que cremos que a política é a disputa entre interesses mesquinhos e partidários. Hoje vivemos em uma sociedade imediatista onde os meios justificam a difusão da sujeira e a linguagem inculta sobre a cômoda desculpa dos níveis de audiência. Hoje, os ensinamentos e fecundo trabalho de Andrés Bello cobram grande atualidade e vigência para recuperar um verdadeiro desenvolvimento para um país, isto é, a convivência civilizada entre seres humanos que o são por suas virtudes e não por suas ambições ou temores.

Esta antiga terra da América que abrigou grandes civilizações, que está cruzada pela Cordilheira dos Andes e franqueada pelos Oceanos Pacífico e Atlântico, que limita ao sul com a Antártica e que tem em seu coração esse pulmão do planeta que é a selva amazônica, até agora não tem podido encontrar seu rumo histórico e suas próprias vias de desenvolvimento, por isso temos passado de países em vias de desenvolvimento a países de terceiro mundo, quer dizer, cidadãos de terceira classe, por aí é claro que nunca chegaremos. Todavia, se voltamos nossa visão a este ideal que perseguia Andrés Bello e outros humanistas de sua época, que compreenderam que fazer uma verdadeira República e alcançar uma real emancipação é possível pelo caminho da cultura e educação, poderemos encontrar novos caminhos mais próprios e, sobretudo, mais humanos. Não basta construir edifícios, há que elevar a consciência; não é suficiente construir estradas, há que estabelecer vias de sã convivência na sociedade; não basta prosperar economicamente, há que fazer pessoas melhores, mais criativas e mais felizes.

Educação Natural – Aprender a viver

Esse é um tema muito amplo e que envolve vários aspectos, cuja diversidade não se pretende esgotar neste artigo.

Diante dos insucessos de um sistema educacional meramente informativo e materialista, bem como dos problemas e fragilidades decorrentes da forma de vida atual, hoje as pessoas buscam meios alternativos para restabelecer a ordem bio-psíquica-espiritual em si mesmas e em seus filhos.

Faz-se necessária uma Educação Natural, que coloque o ser humano novamente em contato consigo mesmo e com a natureza, e que lhe permita viver com mais fluidez.

Há uma ordem no universo, uma harmonia inteligente onde todas as coisas se complementam e se beneficiam mutuamente. O ser humano faz parte disso e precisa reconhecer-se como tal. Perceber o que está ao seu redor e compreender as leis gerais que regem essa grande harmonia universal, para ele poder atuar de forma livre, como alguém que conhece a direção dos ventos e das correntezas e navega com segurança para chegar ao seu destino.

Depressão, violência, desordem, fraqueza, corrupção, problemas ambientais, enfim, todos os problemas que vivemos hoje em dia são frutos das escolhas erradas que temos feito e da forma de vida artificial que temos adotado. Ao invés de nadarmos no fluxo natural do rio, temos escolhido o caminho das pedras.

Vejamos alguns exemplos:

Infância

As crianças têm uma curiosidade natural e uma imaginação fértil que são fontes ricas de criatividade. Manifestam interesse por todas as coisas, gostam de se sentirem úteis e sentem-se honradas ao receberem responsabilidades. Percebem o mundo através dos sentimentos e têm um encantamento natural que torna a vida cheia de graça. São sinceras e espontâneas.

A falta de tempo e paciência impede os pais de participarem desse mundo infantil. Para compensar, costuma-se presentear às crianças com brinquedos modernos, os quais se podem, quando muito, apertar alguns botões e ficar observando. E ainda ficamos indignados quando as crianças resolvem experimentá-los para descobrir o que têm a mais e acabam estragando-o. Além disso, exercitar a curiosidade envolve riscos e exige mais presença e atenção; opções mais fáceis são a televisão e o computador, que mantêm as crianças entretidas e “a salvo”, dentro de casa.

Crianças precisam de movimentos. Por isso ficam agitadas quando estão muito tempo paradas. Pular, correr, cair, subir, descer, rolar… Os movimentos estabelecem conexões cerebrais fundamentais. Sobretudo se as canalizarmos através de atividades lúdicas, promovendo seu desenvolvimento em vários aspectos. Jogos e brincadeiras que contemplem regras e pequenos desafios, com metas que vão se tornando mais elaboradas, à medida que vão sendo cumpridas. A isso devemos agregar a música, com ritmos danças e expressões corporais. Além de muita alegria, as crianças tendem a manifestar um grande respeito por aquele que as conduzem por esse canal, que para elas é tão natural. Através dessas atividades se desenvolvem a atenção, a memória, a sociabilização, a auto-confiança, a coordenação motora, a ordem, a inteligência, etc..

Por pena ou super proteção, costumamos poupar as crianças e fazer tudo por elas. Impedimos que tenham experiências, que aprendam com seus erros e acertos. Deixamos de dar-lhes pequenas tarefas e nem tampouco permitimos que nos ajudem quando estamos fazendo algo. Sem estímulo, elas vão perdendo o interesse e o encantamento pelas coisas. O mundo dos adultos passa a ser algo sem graça e distante, e a medida dessa distância será a dimensão do vazio que irá demarcar a próxima fase.

Juventude

Uma infância bem vivida conduz a uma juventude forte e saudável. O Amor que nutre a alma humana e que está naturalmente presente desde a concepção da vida, torna a criança segura para enfrentar as dificuldades desse período de transição.

Os encantos dos contos, a grandeza dos sonhos, os mistérios da natureza e a beleza de suas formas, levam a criança a crescer em busca de aventuras. E assim nasce o jovem disposto a enfrentar a si mesmo para viver grandes emoções. Sedento de experiências, de conhecimentos e superações. Sua essência o impulsiona ao contato com a natureza, a querer escalar montanhas, mergulhar, saltar, acampar, navegar, voar, cavalgar, lutar e vencer. E, quando perder, terá uma grande oportunidade de aprendizado.

No entanto, se as coisas não são como têm que ser, se a vida não segue seu curso, surgem tristes aberrações: velhos de dez, doze, quinze, vinte anos de idade, que na verdade são crianças e jovens que deixaram de sonhar, que são incapazes de acreditar, imaginar ou realizar coisas de valor. Simplesmente paralisam diante dos obstáculos da vida, os quais se transformam em muralhas instransponíveis diante de suas fraquezas. Seus corpos, também envelhecidos, perderam a pureza, o frescor, flexibilidade e a saúde. Sentados diante de seus computadores, aprisionam-se a realidades virtuais, comunicam banalidades mal escritas, recebem passivamente todo tipo de informação desqualificada – publicações feitas sem responsabilidade alguma – e permanecem inertes, vulneráveis.

Sua necessidade de viver grandes emoções é substituída pelo entorpecimento. Evadem-se em viagens psíquicas provocadas por alucinógenos. O percurso, que vai da euforia à depressão, desemboca sempre numa vida sem graça e sem sentido da qual só lhes resta continuar fugindo.

Não, este não é o jovem e esta não pode ser a descrição da juventude. Pois não foi assim que a concebeu a grande inteligência que rege a vida. Na natureza, a água parada se densifica, apodrece, escurece, intoxica. A imagem de uma criança que chega ao esplendor de sua juventude se assemelha ao movimento de um rio. Em sua nascente, a água pura jorra como expressão de alegria. Esse pequeno córrego segue o seu curso potencializando-se cada vez mais, vencendo as pedras com energia e dando vida a tudo em sua volta. O rio serpenteia por montanhas, vales, florestas e percorre lugares diversos, mas sempre com a certeza do destino de suas águas: a plenitude do mar, senhor de si mesmo. O jovem torna-se adulto e, sem deixar de ser jovem, torna-se grande.

Destino

Uma educação natural é fruto do conhecimento da essência do ser humano. Temos a faculdade de compreender a natureza e viver livremente de acordo às suas leis. E não há liberdade maior do que viver de acordo ao que necessariamente sucede; ao que é natural. Estamos presos aos nossos problemas porque estamos vivendo de forma artificial e buscando soluções artificiais.

Se o homem é dotado de razão, não o seria para viver como os animais, guiado por seus instintos e apenas para satisfazê-los. Há algo muito maior que devemos conquistar. Seguindo o exemplo dos grandes homens e mulheres da história, podemos chegar a desenvolver todo nosso potencial humano. Por isso somos humanos e nascemos com esse potencial. Temos que fazer prevalecer a inteligência sobre os instintos e então dominá-los. Esse é nosso objetivo e nossa vitória.

Para que se realizem na vida, homens e mulheres, jovens e crianças, precisam da experiência de ter feito algo de valor. Não nos basta possuir bons meios de vida, por isso são meios e não fins. “Todo homem tem direito a um pouco de honra e um pouco de história” (1). A verdadeira felicidade que reside na satisfação de poder dizer eu fiz isso e fiz bem, e isso faz diferença.

É isso que nos cabe dentro dessa grande harmonia universal, onde cada coisa cumpre sua função. Disso depende não só a nossa própria realização, mas o sucesso de toda humanidade em seu destino.

(1) Professor Jorge Angel Livraga Rizzi – Educação informativa X Educação formativa.

DIA DA FILOSOFIA

A filosofia tem dia para ser celebrada e principalmente revivida no cotidiano. Há alguns anos, a UNESCO declarou o dia da filosofia. Um dia especial para que as pessoas possam refletir sobre a importância do estudo e vivência dos ensinamentos folisóficos.

Há aproximadamente 2400 anos, em Atenas, na Grécia, andava pelas ruas um homem muito especial que buscava despertar em todos o conhecimento interior. Esse homem era Sócrates. Seus diálogos levavam até os mais sábios a uma profunda avaliação sobre o homem, o mundo, o universo.

Saía às ruas interpelando as pessoas e fazendo perguntas, seus questionamentos tinham tamanha profundidade que fazia que homens comuns conseguissem despertar a sabedoria interior. Ele se autodenominava parteiro de almas, pois tinha a mágica habilidade de levar o homem a entender temas profundos sobre a natureza e a alma. Como grande mestre que era, fazia da filosofia uma ferramenta prática que permitia a participação de todos aqueles que buscassem respostas, ensinava seus discípulos a observar a natureza tanto fora quanto dentro de si. Destinou sua vida para a reflexão e aproximação ao conhecimento. Teve vários discípulos, dentre os quais o mais conhecido foi sem dúvida Platão, que o imortalizou em seus escritos.

Sócrates ensinou o mundo a refletir, a abrir seus horizontes e a despertar a sabedoria interior. Ele foi considerado o homem mais sábio da Grécia, porque ia às ruas solucionar os problemas do mundo e utilizava a mais nobre das artes, a maêutica, para eduzir (extrair de dentro) de seus discípulos a verdade. Uma das frases mais célebres que marcaram sua história foi: “Só sei que nada sei”. Como bom filósofo, reviveu os ensinamentos de Pitágoras, que depois de peregrinar pelo Oriente durante dez anos, ao retornar, disse aos seus discípulos que havia encontrado homens tão sophos, tão sábios, que ele era apenas um filosophos: um amante, um buscador da sabedoria.

Para reviver esse espírito de buscadores do saber, filósofos da natureza e do mundo, celebra-se o DIA DA FILOSOFIA, como um dia para homenagear e também para trazer a filosofia para o cotidiano. Para poder viver melhor e de forma mais completa como seres humanos.

A UNESCO comemora essa data pelo nascimento de Sócrates, na terceira quinta-feira do mês de novembro. Isso é um marco para o processo de valorização da cultura do homem e o despertar da sabedoria.

A NOVA ACROPOLE, como escola de filosofia à maneira clássica, comemora nessa ocasião, em todas as suas sedes, a SEMANA DA FILOSOFIA, para que o período dos dias 11 a 18 de novembro seja destinado a reunir e favorecer o estudo, a reflexão e a vivência da filosofia no cotidiano. É um momento especial para todos aqueles que têm questionamentos e estão em busca de respostas, querendo se descobrir de maneira prática e direta.

Não devemos esquecer a máxima de Sócrates: “Filosofia é a busca da verdade como medida do que o Homem deve fazer e como norma para a sua conduta”.

A alma e a beleza em Plotino

“Nós, que não temos o costume de olhar o interior das coisas e que, portanto, não o conhecemos, perseguimos tão-somente o externo e desconhecemos que o interno é o que nos move”.

“Jamais um olho poderia ver o Sol se não fosse de alguma maneira semelhante ao Sol, nem uma alma poderia ver o belo se ela mesma não fosse bela”.

Os ensinamentos sobre a beleza que estão expostos nas obras de Platão, como Fedro ou O Banquete, são as migalhas de uma festa mística: a da Iniciação nos Mistérios do Amor e da Beleza. Proclo, o último Iniciado neoplatônico, não mente quando afirma que os livros de Platão estão delineados e escritos segundo uma estrutura musical e que não há uma só imagem, idéia ou palavra que não dance, como as notas de uma partitura, ao som da verdade una que se quer expor em cada diálogo. Desse modo, a República seria uma música de idéias inspiradas ao redor do fogo da Justiça, Fedro ao redor da beleza e Timeu ante o altar do verdadeiro.

Mas a ignorância faz que não percebamos essa harmonia de idéias. É difícil para a alma se abrir como um lótus à luz de seus ensinamentos, é necessário alguém que comente sua arte, que nos inicie na sua música de idéias.

Quando a Academia, fundada por Platão, perdeu seu amor à sabedoria, quando nela se deu mais importância aos banquetes que à própria investigação da verdade, surgiu um personagem cheio de mística e pureza que deu novo impulso aos ensinamentos platônicos. Um sábio de cultura helena e de sangue egípcio, Plotino, nascido em Licópolis no ano 204 d. C. Sua biografia é conhecida porque um discípulo seu, Porfírio, fez menção a ela. Aos 28 anos viajou a Alexandria, foco cultural do mundo de então. Entretanto, os ensinamentos que recebeu de matemáticos, músicos, gramáticos, etc., não lhe foram suficientes. Até que encontrou Amônio Saccas, a quem reconheceu como seu mestre, e com quem estudou durante onze anos. Amônio Saccas era um estranho personagem que ganhava seu sustento carregando estátuas no porto de Alexandria e para quem a tradição deu o nome de “Teodidactos”, o ensinado pelos deuses. Mestre de um brilho da grandeza de Plotino, ou de Orígenes, Amônio fundou uma escola eclética que encontrava a síntese e quintessência dos distintos movimentos filosóficos e religiosos.

Terminado o seu aprendizado, Plotino alistou-se nas tropas de Gordiano rumo à Pérsia, talvez com o oculto desígnio de viajar à Índia para lá encontrar a milenária Fraternidade de Sábios. Após a derrota na Mesopotâmia, e apenas salvando sua vida, retornou a Roma, com 40 anos, onde abriu uma Escola de Filosofia, animada pelo mesmo espírito eclético do seu mestre Amônio.

O calor de seus ensinamentos reuniu centenas de jovens e importantes damas e cavalheiros da sociedade romana. Amélio e Porfírio destacam-se como discípulos. Amélio, dotado de inclinações artísticas e de uma grande sensibilidade ante a beleza, escreveu mais de cem tratados comentando distintos aspectos da obra de Plotino, embora nenhum tenha sobrevivido ao obscurantismo medieval. Porfírio, que conheceu Plotino quando este tinha já 59 anos, havia-se tornado um dos personagens mais eruditos de seu tempo. Estimulou seu mestre a escrever sobre o aspecto filosófico dos ensinamentos esotéricos, que ele próprio ordenou por temas em séries de nove tratados cada um, que foram chamadas de Enéadas.

Primeira Enéada: Sobre o homem e a moral.

Segunda Enéada: Sobre a física e o mundo.

Terceira Enéada: Sobre a Providência.

Quarta Enéada: Sobre a Alma.

Quinta Enéada: Sobre a Inteligência.

Sexta Enéada: Sobre o Ser, o Uno e o Bem.

Após uma frustrada tentativa de levantar uma cidade regida por sábios, distante da companhia dos homens por força de uma doença que feria sua pele, faleceu aos 66 anos. No final, liberado da sua prisão de carne e de sangue, sua alma se elevou à mesma esfera luminosa e inteligível que tantas vezes ainda em vida visitara e descrevera.

O primeiro tratado que escreveu versa, precisamente, “Sobre o Belo”, uma obra de juventude. Novamente, desenvolve o tema que ocupa outro de seus estudos: “Sobre a beleza inteligível”.

Não é fácil ler Plotino. Não é fácil porque a natural elevação de sua alma lhe permite penetrar e ver aquilo que normalmente dificilmente se pode imaginar. A leitura de Plotino e de outros neoplatônicos também é difícil porque eles usam ensinamentos e imagens puramente platônicas, inspiradas, mas embutidas de uma linguagem aristotélica. Linguagem que limita e, de certo modo, aprisiona essas intuições, tornando a leitura mais enfastiante para quem não esteja muito familiarizado com os conceitos de matéria, forma, substância, causa, etc… A genial H.P. Blavatsky afirmou que o neoplatonismo perdeu protagonismo histórico e sentenciou sua prematura morte ao se apoiar numa terminologia aristotélica, muito categórica e quadriculada. Pouco eficaz para se converter em morada de luminosas intuições.

No entanto, é importante tentar seguir o rastro de seu poderoso vôo, ou pelo menos, de sua sombra na terra, lembrado e concordando com os sábios egípcios quando diziam que é difícil para uma tartaruga seguir a sombra de uma águia…

Plotino inicia dizendo que a percepção da beleza é da alma, mas que esta alma ao estar oculta e aprisionada no corpo, pode respirar a beleza apenas através dos sentidos, fugazmente. Que a beleza não depende da simetria e das proporções, embora estas possam ser o fundamento, o “molde” harmônico dessa mesma beleza. A beleza é a luz que projeta a idéia, é a própria idéia, e ainda a força mística que irradia da fonte do Bem. Tudo que vive nesta esfera sublunar — diriam os filósofos medievais, nosso mundo —, onde vivemos e morreremos, é belo na mesma proporção de reflexão da alma, o fulgor da idéia que encarna aqui e agora, portanto, rastro dessa idéia e da forma que lhe é consubstancial.

Que anjo, que graça, nos torna amáveis ou dá encanto ao que nos rodeia? Quem será tão insensível de não amar ou deixar de amar o belo? Mas o belo é como uma chama que se deve vigiar muito cuidadosamente, pois, segundo Plotino, há um caminho muito longo desde o mundo das Grandes Labaredas ao das belezas inefáveis. Por que um rosto belo logo deixa de sê-lo, para retornar novamente à sua luz, uma vez mais? É que a beleza, aqui embaixo, é como a luz que reflete um espelho no interior de uma caverna: se está dirigido ao “lugar de fuga”, de onde provém a luz, ilumina-se. Uma prova de que o barro deste mundo cega a verdadeira beleza é que nos sonhos, por exemplo, se podem perceber belezas que aqui chegam amortecidas.

Mais belas são as virtudes, a matemática estrutura das ciências, a retidão nos costumes, a face da justiça e da prudência. Mais belas ainda — diz — a estrela matutina e Vênus. Mais bela ainda a própria alma imortal. A Beleza é tal que causa uma “agitação interior, um dionisíaco entusiasmo e o anseio ardente de conviver na intimidade e de recolher em nós mesmos, desdenhando inteiramente nossos corpos”.

E, como disse Plotino, mais bela que a luz da manhã é “a grandeza de alma, a valentia de um rosto enérgico, a dignidade e o sentimento de pudor que se apodera de uma alma serena e imperturbável, e ainda acima dessas coisas a resplandescente inteligência tão semelhante aos deuses.”

Sendo a beleza da alma, é percebida apenas com o olho interior. Platão, na República, disse que a finalidade da educação é abrir esse olho e não somar conhecimentos. Tudo que se ensine ao jovem deve buscar abrir esse olho, único capaz de perceber o verdadeiro. A educação da alma, essa abertura se faz acostumando-o a ser cada vez mais brilhante, e segundo Platão, fazendo-lhes perceber cada vez mais e de um modo mais nítido a vida dos números que regem a Natureza e a própria alma, se essa mesma alma não for um número. Plotino diz que se deve acostumar a alma, primeiro, à beleza das ocupações. Depois, às belas obras, que são — segundo ele — não as executadas por meios artísticos, mas as que são realizadas pelos chamados homens de bem. E, depois disso, há que se observar a alma de quem realiza obras belas, até chegar à luz única de onde surge toda a beleza, se ela mesma não for toda a beleza. Essa fonte incomparável é o Bem, que derrama a luz seguindo o leito que determina a Inteligência, luz que é essência ou alma do Mundo.

E esse “olho”, que alguns investigadores identificaram no corpo — não sem razão — com a glândula pineal, é ainda mais importante na alma. É a própria alma. Marco Aurélio diz, em suas “Meditações”, que a forma ou beleza real do ser humano não é a que os nossos sentidos percebem. Que o homem no mundo mental é uma esfera, ou melhor, um ovóide luminoso que quer se converter numa esfera perfeita. A Alma Luminosa, que em seu próprio mundo assume a forma de uma esfera, é esse “olho”, talvez o mesmo a que se refere Plotino. A Alma deve chegar a ser, se quiser ver e ser a beleza suprema, como um sol, pois “apenas esse olho vê a grande beleza” e “é necessário, acima de tudo, que o olho que vê seja afim e parecido com o objeto visto”.

Onde buscar o caminho da verdadeira beleza? Não a pé, nem de carro, nem de navio. Não fugindo para algum lugar, nem da terra, nem da psiquê, mas tornando puro o habitáculo do Eu Interior, pura a jóia no lótus: “mudando a maneira de ver e despertando essa faculdade que todos possuímos, mas da qual apenas alguns poucos fazem uso”.

É uma batalha interior, como a do Bhagavad Gîta, “a maior e mais importante luta à qual se devem entregar para que não deixem de participar da melhor das visões, uma visão de felicidade”.

Compara-se, também, ao trabalho do artesão, mas ao daquele que talha a própria estátua da alma, daquele que se conhece e forja a si mesmo:

“Como se poderá contemplar a beleza de uma bondosa alma? Há uma resposta para isso: volta-te sobre ti mesmo e olha, e, se ainda não vês a beleza em ti mesmo, faz o que o escultor tem que fazer para uma estátua chegar a ser bela: pega uma parte, esculpe-a, pole e limpa de tal maneira que consegue arrancar do mármore uma forma bela. Desse modo, tu também tiras tudo o que é supérfluo, endireitas tudo que está torto e limpas tudo que está obscuro até torná-lo brilhante, e não cesses antes de modelar tua própria estátua, até que se manifeste em ti o divino resplendor da virtude e consigas ver a moderação assentada sobre um trono sagrado”.

José Carlos Fernández

A árvore do pão – Entrevista com o autor Desiderio Vaquerizo

Professor de Arqueologia e Comissionado para a Gestão da Qualidade e dos Programas de Inovação, Vice-reitor da Universidade de Córdoba. Pesquisador e especialista do mundo funerário romano de Córdoba.

Uma reflexão profunda em busca da identidade perdida do ser humano e um canto de amor à extraordinária Córdoba romana.

Desiderio Vaquerizo mostra, através de seu discurso afável e desconflituado, o amor que sente por descobrir restos arqueológicos e como faz disso uma arte: a de recuperar a memória e testemunho do que algum dia ocorreu. Desse modo, o passado se faz presente. O velho se torna novo, e as pedras voltam “a falar e a resgatar o perfume de tempos esquecidos”. Não nasce de outra forma esse romance arqueológico, no qual o autor transmite a paixão vital que surge do grande jogo de opostos: o amor e o desamor, a memória e o esquecimento, a solidão mais extrema contrastada com o entorno generoso de um amor pleno, a vida e a morte; e, frente a todo caos possível, o autor mostra ao mesmo tempo aquilo que é imutável e inseparável ao coração do homem, aquilo que permanece e que não pode ser levado pelos ventos da história e que está simbolizado no título do livro.

Como nasce este romance?

A idéia nasceu há muito tempo, desde quando eu estava escavando a Necrópole de Almedinilla, no ano de 1990. Eu já tinha em mente a figura de um arqueólogo que, de alguma maneira, enamorava-se de um cadáver e perdia seu equilíbrio psíquico. Esse foi o embrião, mas o nascimento real deste romance foi a partir das conversas com o editora Plurabelle, já que me estimularam a fazer um romance histórico sobre a Córdoba romana. A partir daí, me animei e nasceu quase como um parto sem dor.

Pode-nos relatar brevemente a trama que move este romance arqueológico?

Você denominou bem, já que é um romance arqueológico e não um romance histórico, nem pretende sê-lo em sentido estrito, já que o romance nasce num marco atual. A trama se baseia numa equipe de arqueólogos da Universidade de Córdoba, dirigida por um professor da mesma universidade e que se encontra escavando um monumento funerário na necrópole nororiental da cidade. A partir daí surgem duas histórias paralelas nas quais eu estabeleço uma grande metáfora sobre o círculo da vida, esse grande círculo estaria composto por pequenos círculos que são nossos próprios feitos vitais. Daqui surgem duas histórias com uma série de concomitâncias, mas ao mesmo tempo com um grande jogo de opostos. Eu brinco permanentemente com a concomitância e com os opostos, como no caso do amor e do desamor, a memória e o esquecimento, a solidão mais extrema com o entorno generoso de um amor pleno. Portanto, essas duas histórias vão confluindo e se entretecendo. Os dois círculos antes mencionados formam, então, um só círculo, mostrando o inseparável da vida, aquilo que permanece, o que apesar das distintas épocas e dos dois mil anos que nos separam não mudou, que é muito. Apesar de outros elementos fisicamente imutáveis, como é o que dá o título ao livro.

Sim, mas o homem, na realidade, não mudou tanto…

O homem como ser humano, como ser que enfrenta a natureza e a si mesmo, e aos dois grandes fatos que fundamentam sua existência, que são a vida e a morte, não mudou totalmente.

O homem avançou em tecnologia, em ciência, mas… vocês pensam que moralmente estamos mais maduros e evoluídos do que nosso antepassados? Eu diria que perdemos ingenuidade no caminho, perdemos pureza e frescor. Tudo isso está muito presente no livro, nesse jogo de opostos de que eu falava. De alguma maneira, neste romance eu vejo a antigüidade com nostalgia, com essa melancolia própria daquele que é consciente de que perdemos pelo caminho o melhor de nós mesmos, a essência e a pureza, o propriamente humano.

Que sentido tem a morte para o homem atual e que sentido tinha para um romano?

Hoje, ocultamos a morte, a levamos aos cemitérios, fechamos as portas, não queremos os mortos nas nossas casas, os maquiamos… Por outro lado, na época romana vivia-se a morte, a morte era parte substancial da vida. Essa é uma das grandes diferenças com a nossa sociedade atual.

O que pretende o livro?

Este livro foge um pouco da história. Não pretendo manter a atenção do leitor a todo custo através de jogos de artifício. Eu convido o leitor a refletir sobre si mesmo e, sobretudo, a que enfrente muitos de seus problemas pessoais. Tudo depende da idade e da experiência vital do leitor. Gratamente estou recebendo cartas nas quais me agradecem pelos sentimentos que lhes despertei.

Qual é o perfil psicológico do protagonista?

Marcos, o arqueólogo e professor que já mencionamos, tem um perfil psicológico extraordinariamente complexo. Ele é um homem com uma excelente formação cultural e muito inteligente, mas é um homem que arrasta uma série de traumas; o primeiro deles é a própria relação com seus pais, que o levou a fugir de Córdoba. Marcos, na realidade, é um cadáver ambulante, mas ele não sabe. Isso o leva a viver uma vida que não lhe apetece. E a cometer uma série de despropósitos, como por exemplo, um matrimônio falido e ter uma atitude muito egoísta com relação aos demais. Mas, ao final, quando acaba se enfrentando com um fato determinante, uma enfermidade grave, reflete e toma decisões muito drásticas que têm como consequência seu primeiro ato de generosidade e amor desde que morreu há trinta anos. E o faz por amor a outra pessoa, para evitar sua condenação.

É um morto vivo que talvez possa refletir muito dos cidadãos, dessas pessoas que andam com o olhar perdido e cabisbaixo?

Eu acredito que existem muitas pessoas como Marcos, bloqueadas emocionalmente, desencantadas pela solidão e incapacidade de lidar com os demais, num mundo tão cheio de gente. Penso que os sentimentos que Marcos transmite são reconhecidos por muitos leitores.

Que aspectos reflexivos e filosóficos podemos extrair deste romance?

É um romance profundo, que não trata de dar mensagens, mas de provocar reflexões e transmitir sentimentos. Marcos é uma pessoa dolente, que vagabundeia pelo mundo quase como um fantasma que arrasta suas correntes. Eu não dou mensagens através deste romance porque sempre estabeleço opostos. Por exemplo, se descrevo uma situação que exemplifique princípios morais, logo delineio outra que expresse o contrário. Então, há uma perspectiva existencialista que marca nostalgia da idade de ouro.

O que é a morte para um arqueólogo? E a vida?

A vida não é outra coisa senão o suceder da morte, algo tão simples como isso. Vivemos para morrer, e morremos porque vivemos.

Platão dizia que os vivos nascem dos mortos, e que os mortos nascem dos vivos…

Então, efetivamente, acredito que a morte para um arqueólogo é tudo; através da morte captamos o reflexo do que foi e tentamos reconstruir vidas. Nesse sentido, que você apontou muito bem, insisto que é um romance arqueológico, para provocar no leitor uma reflexão sobre como funciona o pensamento arqueológico, ou seja, de como a partir de determinados restos, a partir de determinados argumentos, somos capazes de reconstruir uma história. Desse modo, este romance pode se converter numa lição de arqueologia, mas não porque eu pretenda dogmatizar, mas simplemente trato de mostrar como o pensamento arqueológico bem documentado e contrastado é uma fonte de história de primeira mão. A morte é, para nós, um elemento fundamental para recriar os vivos, e ao mesmo tempo, a morte tem uma grande importância para os vivos.

Fale-nos sobre a lembrança para um arqueólogo.

A vida passa, as coisas permanecem; o rastro que fica é da memória daqueles que lhe recordam. Os romanos tinham uma verdadeira obsessão pela memória, e há muitas inscrições romanas que dizem literalmente algo assim: “escuta, caminhante, tu que passas por diante da minha tumba, lê e diz meu nome em voz alta, porque se o disseres significará que estou vivo”. Eu creio que vivemos na mesma medida em que se lembram de nós. Ovídio, em “A arte de amar”, quando foi exilado, disse para ninguém se preocupar com ele, já que viveria; que seu nome viveria sempre nos seus livros. Penso que todos nós seres humanos, no fundo, buscamos a imortalidade, cada um da sua maneira. Uns a buscam tendo filhos, outros plantando árvores e outros a buscam escrevendo livros. Estamos buscando viver na lembrança dos outros.

Qual a sua opinião sobre o imperador Marco Aurélio? Você acha que ele foi um motor da história?

Sim, sem dúvida alguma. Marco Aurélio, o filósofo, foi um homem muito particular, muito complexo, que se enfrentou com uma situação histórica muito complexa, desde o governo de Lúcio Vero, que, diz-se, mandou matá-lo, até seu matrimônio com Faustina, que lhe foi muitas vezes infiel, sobretudo com um gladiador famoso. Foi uma pessoa que, apesar de seu otimismo filosófico e de sua grande formação, teve que vivenciar uma situação de governo muito difícil. Foi um imperador chave entre o alto e o baixo império, entre o momento de esplendor de Roma e o momento de sua decadência. Marco Aurélio foi o último de uma época, é ele quem encerra a dinastia dos imperadores béticos.

Como você imagina que foi a Córdoba romana, como vê a atual e como gostaria que fosse?

Esta foi uma das perguntas mais bonitas que me fizeram, mas ao mesmo tempo uma das mais difíceis de responder. Eu diria que a Córdoba antiga, a Córdoba romana, não pode ser valorizada de forma unívoca, nem sincrônica, já que às vezes esquecemos que durou oito séculos. E em oito séculos acontecem muitas coisas. Essa é uma chave que às vezes esquecemos. A Córdoba romana teve seu máximo esplendor na época de Augusto e precisamente de Marco Aurélio. Uma Córdoba extraordinariamente monumental, uma Córdoba tão romana como a própria Roma. Uma capital de província com nível de capital de império e sempre belíssima, sem dúvida alguma. Creio que a Córdoba atual é uma Córdoba que quer e não pode. É uma Córdoba que se sente prisioneira de si mesma, que não encontrou o caminho, uma Córdoba que continua com tendências populistas, sem abordar a raiz dos problemas que novamente volta a encontrar como numa encruzilhada. Está na conjuntura de abordar um futuro diferente, e eu temo que não consiga. Eu gostaria que a Córdoba do futuro fosse uma Córdoba que reagisse, sem perder sua idiossincrasia. O que eu realmente gostaria que se dessem conta é de que Córdoba poderia ser uma das capitais culturais do ocidente, porque o foi ao longo de muitos séculos de sua história e porque conta com os mecanismos e elementos para isso.

Qual sua opinião sobre a perda de patrimônio que Córdoba sofre devido ao conflito que surge com seus restos arqueológicos?

Aproveitando a pergunta anterior, entre outras coisas, há que se compreender que sua riqueza monumental, patrimonial e particularmente arqueológica é um dos argumentos fundamentais de que dispõe. E que no último século, mas principalmente nos últimos vinte anos, dedicaram-se a destrui-la sistematicamente. Atualmente, Córdoba, diferentemente, por exemplo, de Mérida ou de Tarragona, não dispõe nem sequer de um conjunto arqueológico para visita. Estamos tentando vender uma Córdoba relembrando o seu passado, mas acabamos vendendo apenas fumaça.

O que há de autobiográfico no romance?

Nada. O que tem de meu no romance é a faceta como arqueólogo, a atitude ante a arqueologia. Mas aí terminam as coincidências. As vicissitudes vitais desse personagem não são minhas, felizmente para mim.

Pode explicar-nos o simbolismo do título da sua obra?

Este romance começou com muitos e diferente títulos… Mas no final ficou “A árvore do pão”, como elemento de imutabilidade nessa grande metáfora da vida. Frente a tudo que acontece, há um elemento que permanece imutável, que é, neste caso, a árvore. De alguma maneira, brinco com essa possibilidade e deixo entrever que frente a todas as pessoas que passaram no tempo, a árvore permaneceu. Há um elemento de imutabilidade frente ao que é instável na vida. Além do mais, escolhi uma castanheira por outros muitos motivos, já que a árvore do pão é uma árvore tropical, muito freqüente no Caribe, que dá frutos extraordinariamente grandes, de dois quilos, e que são comestíveis. Remontando-nos à época romana, quando ainda não se havia popularizado o pão, os romanos utilizaram a castanha como base da sua dieta alimentícia e por isso a chamavam popularmente de árvore do pão. E também escolhi a castanheira por suas implicações no mundo funerário. A castanha é um fruto que se consome em festas funerárias. Ainda hoje é consumida em todo o mediterrâneo, em lugares da Grécia, Itália e Espanha.

Antonio Manuel Cantos Prats

Correspondente da Esfinge em Córdoba.

Convite à música – O efeito Mozart (I)

O Efeito Mozart. Assim a imprensa americana denominou os resultados que a Universidade da Califórnia obteve após numerosos experimentos, cujo núcleo foram as reações psico-mentais dos indivíduos ante a música de Mozart. Após contrastar a resposta de um número de alunos que escutavam Mozart com a de outros que escutavam outra música ou simplesmente nada, a conclusão foi que quem escutava a mensagem musical de Mozart obteve um considerável acréscimo nos índices de seu coeficiente de inteligência. Se bem que todos os estilos musicais ativam as zonas do cérebro associadas com as emoções, a de Mozart atuava também sobre áreas que processam o raciocínio.

Embora esses experimentos se tenham baseado na audição de uma de suas sonatas para dois pianos, a KV 488, não se poderia deixar passar a ocasião de escrever sobre as obras mais difundidas que não deveriam faltar na coleção de qualquer aficionado pela música de Mozart, não apenas por seus efeitos, mas pela maravilhosa companhia que ela supõe.

Primeiramente, a “Pequena serenata noturna” (Eine kleine Nachtmusik) KV 525. Essa obra é, talvez, a mais interpretada e conhecida de toda a obra Mozartiana. No entanto, não há uma só palavra, nota ou carta, que ajude a conhecer sua gênesis, salvo a do catálogo pessoal do autor, no qual escreve a data de composição (10 de agosto de 1787), e o molde instrumental. Uma lembrança das plácidas músicas noturnas de Salzburgo?

As sinfonias também são um gênero a se destacar. Mozart escreveu nada menos que 41 sinfonias. Desde a de número 1, KV 15, escrita em Londres quando tinha 8 anos, até a de número 41 (Júpiter), escrita em 1788 quando tinha 32 anos, há um longo período de tempo e experiência. Provavelmente a sinfonia nº 40 KV 550 seja a mais difundida. Foi escrita, junto com a 39 e a 41, no incrível intervalo de dois meses, numa casa próxima a Viena, na qual ficou durante uma época turbulenta. Einstein achou essa obra fatalista, Berlioz a considerou cheia de graça e delicadeza. Schuman achou a obra plena de agilidade e encantos gregos.

Com relação aos concertos para diversos instrumentos, deve-se dizer que o gênio Mozart escreveu música para todos os instrumentos possíveis, inclusive para aqueles que começavam a ter um lugar no quadro orquestal, como foi o caso do clarinete.

Mozart escreveu vários concertos para violino. Embora lhe atribuam pelo menos 8, apenas 5 deles são autênticos. Foram compostos em Salzburgo entre abril e dezembro de 1775, quando Mozart tinha apenas 19 anos.

Mozart era um extraordinário violinista, embora não fosse seu instrumento predileto, preferia aparecer nos concertos como solista de piano. De fato, tocou primeiro violino (concertino) enquanto esteve a serviço do arcebispo de Salzburgo. Depois, deixou o violino “pendurado”, como escreve seu pai. Os cinco concertos são belíssimos, embora provavelmente seja o concerto nº 5 em Lá Maior KV 219 uma das mais célebres graças.

Quanto aos seus concertos para piano e orquesta, Mozart escreveu 27, o último concluído no mesmo ano da sua morte. Talvez o mais conhecido seja o nº 21 KV 467, especialmente seu andante. Esse concerto foi finalizado em Viena em março de 1785 e estreado no dia seguinte, sendo o próprio Mozart o intérprete. Em janeiro desse ano, o pai de Mozart, Leopoldo, viajou de Salzburgo a Viena para visitar seu filho. Na noite em que ele chegou, Wolfgang estreou “um novo concerto muito belo”. Era o concerto nº 20 KV 266, que Mozart havia terminado no mesmo dia da estréia e que, como de costume, não teve tempo de ensaiar. No entanto, Leopoldo escreveu para sua casa dizendo: “o concerto foi incomparável, e a orquesta tocou esplendidamente”.

No dia seguinte, Haydn foi visitar Mozart e Leopoldo e lá escutou um dos quartetos para cordas que Mozart tinha terminado recentemente e que pretendia dedicar-lhe. Ao acabar, Haydn disse a Leopoldo: “Digo-lhe ante Deus, como homem honesto, que seu filho é o maior compositor que conheço, pessoalmente ou de nome. Tem bom gosto e, além disso, o máximo conhecimento em composição”. Em 9 de março, um mês depois da estréia do concerto nº 20, Mozart havia terminado o concerto nº 21 em Dó Maior KV 467, que foi estreado no dia seguinte com grande êxito. É o apogeu da reputação de Mozart como compositor para piano e como virtuoso do piano. Muitos jovens músicos o admiram e buscam seus conselhos. E é também um momento de fervor e militância ativa na maçonaria. Em 26 de março, se inicia no grau de companheiro e um mês depois no grau de Mestre. Em 11 de fevereiro, participou da iniciação no grau de aprendiz do seu mestre e amigo Josef Haydn, e antes que seu pai voltasse a Salzburgo, fez gestões para a adesão deste à sua loja.

Sebastián Pérez

Protagonistas da história – Howard Carter, por detrás dos rastros de Tut-Anj-Amón

Em 4 de novembro de 1922, a descoberta da tumba de Tut-Anj-Amón impressionou o mundo, e a fascinação que causou continua viva. O homem que levou isso a cabo foi Howard Carter, arqueólogo tão teimoso quanto entusiasta. Ele buscou Tut-Anj-Amón por todos os cantos do Vale dos Reis, com a certeza de que lá se encontrava sua tumba, contra a opinião majoritária dos seus colegas de que o vale estava esgotado.

Howard Carter nasceu em 9 de maio de 1873 na cidade inglesa de Kensington. Era o caçula de 11 irmãos, e seu pai, que era um pintor reconhecido na Inglaterra, relacionou seu filho com uma família de aristocratas, amantes da cultura do antigo Egito, os quais lhe transmitiram o interesse por esse país. Assim nasceu sua paixão pela egiptologia.

Com essa influência, além da sua facilidade para o desenho, e após passar por um curto período de formação de três meses no Museu Britânico, começou sua aventura no Egito.

Em 1892, ajudou o egiptólogo britânico Flinders Petrie na escavação do Tell el-Amarna, onde se destacou por seu bom trabalho. Depois foi designado como inspetor chefe do Departamento de Antigüidades do governo egípcio. Sua missão era proteger os monumentos da destruição e dos ladrões, assim como facilitar o acesso dos visitantes aos monumentos.

Numa ocasião, diante de problemas entre um grupo de arqueólogos franceses e seus trabalhadores, apoiou estes últimos. Carter sempre fazia o que acreditava ser justo, sem ter em conta o que se esperava dele. Após o incidente, renunciou ao cargo e se dedicou à pintura e a ser guia de turistas pelo território egípcio.

Três anos mais tarde, conheceu o quinto conde de Carnarvon, nobre inglês que se havia iniciado na arqueologia como mero aficionado. Em 1903, Lord Carnarvon contratou Carter como o homem mais adequado para levar a cabo uma escavação financiada por ele.

Embora seu sonho fosse o Vale dos Reis, tiveram que esperar até 1917 para escavar lá, pois a concessão era do americano Theodor Davis. Esperavam encontrar alguma tumba intacta, já que nunca se havia descoberto alguma, e Carter sabia que faltava encontrar a tumba de Tut-Anj-Amón.

Mas, após vários anos infrutíferos, nos quais Carnarvon esteve a ponto de desistir, em 4 de novembro de 1922, seus esforços deram o resultado desejado: a entrada da tumba foi descoberta. Dezesseis degraus que conduziam às profundidades. Após descer os degraus, Carter se encontrou numa antecâmara. Atrás dele estava Lord Carnarvon. Ao atravessar a porta, tiveram que desocupar todo um corredor de escombros, chegando até outra porta. Carter a esburacou e com sua lanterna olhou para dentro. Por vários minutos permaneceu imóvel vendo os maravilhosos tesouros que voltavam a brilhar depois de quase 3.500 anos.

— Bem… vês alguma coisa? — perguntou Lord Carnavon, no cúmulo do nervosismo. Carter mexeu a cabeça afirmativamente.

— Sim, vejo coisas maravilhosas… — sussurrou, emocionado.

Tratava-se de uma antecâmara repleta de objetos pessoais e rituais: vasos de pedra, carros de guerra, imagens de deuses…, detrás se ocultava a câmara funerária, onde se encontrava a múmia do rei, dentro de três espetaculares sarcófagos, o último de ouro maciço com um peso de aproximadamente 100 quilos. O trabalho foi enorme e difícil de realizar devido sobretudo ao espaço pequeno, mas a recompensa foi muito grande: o corpo intacto do faraó, coberto de jóias e seu rosto oculto por uma bela máscara de ouro.

Milhares de turistas curiosos chegaram ao Vale dos Reis de todo o mundo querendo entrar na tumba. Isso fazia que Carter tivesse que manter contínua vigilância, noite e dia. Também o governo egípcio o pressionava para obter o controle da operação, a ponto de lhe retirarem a permissão para escavar.

Mas o maior incidente para Carter enquanto realizava a escavação foi a morte de seu amigo e mecenas Lord Carnarvon, que sucumbiu por uma infecção após a picada de um mosquito… Acabava de nascer a lenda da “maldição” de Tut-Anj-Amón.

No entanto, para a egiptologia, a tumba de Tut-Anj-Amón sempre foi considerada uma autêntica benção, já que é o único enterro real do Vale dos Reis que se manteve a salvo dos saqueadores.

Talvez a grande maldição da tumba de Tut-Anj-Amón foi que não tenha resolvido vários dos enigmas que ainda giram em torno desse rei-criança: como ascendeu ao trono, quem era seu pai, como terminou sua vida… Como disse Howard Carter, “o mistério da sua vida continua escapulindo, as sombras se movem, mas a escuridão nunca se dispersa”.

Carter continuou por mais cerca de sete anos no projeto, descobrindo e catalogando numerosos objetos. Após o fim da escavação, regressou a Londres, onde se dedicou a trabalhar com antigüidades e dar conferências. O governo britânico nunca valorizou nem recompensou seu trabalho.

Howard Carter, longe de ser um egoísta caçador de recompensas, foi um magnífico egiptólogo a quem no final todos abandonaram. Faleceu em 2 de março de 1839 na companhia apenas de sua sobrinha. Mas, certamente, foi ao Egito celeste tendo cumprido seu sonho, e isso é algo por que vale a pena viver.

Julián Palomares

Educação da agressividade

ENTREVISTA COM ROSÁRIO ORTEGA, CATEDRÁTICA EM PSICOLOGIA DA UNIVERSIDADE DE CÓRDOBA

“Ante a violência, tolerância zero” é o lema da campanha dirigida por Rosário Ortega, na América Central. Escritora infatigável em revistas de âmbito nacional e internacional e especialista em relações interpessoais, educação para pais e prevenção da violência, Rosário Ortega, que também é diretora do departamento de educação, investiga há muitos anos a violência e a agressividade no ser humano. As linhas que se seguem nos convidam a refletir sobre que alternativas para a violência são o diálogo, a negociação dos interesses de um com respeito aos interesses do outro e, definitivamente, uma resposta inteligente do sujeito ante a agressão do exterior, o que se consegue mediante a modulação das emoções, que possibilita um controle da conduta agressiva e um comportamento socialmente adaptado.

O que é a agressividade e como se manifesta?

A agressividade é um padrão básico de conduta herdado, o que significa dizer que o ser humano veio ao mundo com uma predisposição para ter respostas emocionalmente agressivas, impetuosas, de escape, de defesa. Também esse padrão de conduta está predeterminado para a adaptação ao ambiente, que pode ser hostil. A psiquê está preparada para enfrentar situações de adversidade. E desgraçadamente também está preparada para provocá-las. Esse padrão deve ser transformado baseado numa moderação que gere um comportamento socialmente adaptado, isto é, um controle da conduta agressiva. Assim, pois, não se deve confundir a agressividade com a violência em sentido estrito.

A agressividade está determinada por bases biológicas ou é produto das condutas?

Está predeterminada por padrões básicos biológicos. Sem dúvida, como todos os padrões de conduta herdados, são submetidos ao aprendizado desde o nascimento, por isso há oportunidade de modificar os esquemas básicos de comportamento por meio dos processos de aprendizagem, que neste caso são os de socialização da conduta, modulação das emoções e construção de um repertório de condutas socialmente adaptadas.

Tem, então, uma função de adaptação ao meio?

Efetivamente, uma vez que se aprende a modular os impulsos agressivos através da aprendizagem e da educação.

Pode-se falar de agressividade contra si mesmo, em comportamentos psicopatológicos, como pode ser o caso de uma jovem com anorexia?

Sim, muitos especialistas consideram que se pode falar de um tipo de violência que se dirige contra si mesmo. De fato, historicamente, a teoria psicanalítica descreveu com muitos detalhes uma sorte de pulsão de morte (thanatos) que se pareceria muito com a agressividade injustificada e neurótica contra si mesmo, uma conduta não sempre consciente e não sempre autolesiva, mas sim que pode pôr em risco a saúde e a vida da pessoa. Na realidade, pensando bem, condutas como fumar, beber álcool ou qualquer outro tipo de comportamento de vício não deixam de ser formas que tem o ser humano de causar-se dano. E finalmente, o suicídio é evidentemente um ato violento da máxima severidade.

As condutas violentas têm algum aspecto positivo?

Nunca têm nada positivo. Digamos que sempre há uma conduta não violenta que é a idônea frente a uma violenta. Outra coisa é perguntar a agressividade, que é um conceito mais geral e como tal não evitável, dado o seu caráter básico.

Porém, voltando à violência, quando se pode resolver um conflito pela via do diálogo, e se faz um ato violento, na verdade se está pervertendo o equilíbrio que se deveria ter conseguido através da conversão da agressividade em uma conduta adaptativa. A violência é o uso injustificado e cruel do comportamento agressivo, seja físico, psicológico, social ou moral. Pode-se dizer então que a agressividade como adaptação ao meio é uma resposta positiva de manifestar-se o indivíduo, mas a violência eticamente não é correta…

Não há por que julgar se é positivo ou não o padrão agressivo, simplesmente existe, assim é, assim são as pessoas, mas há diferença entre agressividade e violência; vivemos em mundo hostil (tem sido sempre assim) que se faz necessário que se ponham em jogo respostas assertivas, e em grande medida de uma certa agressividade, que permite ao sujeito adaptar-se a uma condição que não sempre cobre diretamente as variadas necessidades humanas. Em contrapartida, a violência é o uso injusto e injustificado da força, do poder ou da superioridade, para o próprio benefício ou simplesmente para danificar o outro, o que supõe uma falha em aprendizagem social. Porque não nos esqueçamos de que se aprende a ser violento; ninguém nasce violento, se nasce com uma certa predisposição à agressividade e não à violência. O aprendizado e a educação devem lograr modular os impulsos agressivos, para aprender a resolver de forma pacífica os conflitos.

Sêneca diz que a ira é a mais forte de todas as paixões. O que a provoca?

A ira, tal como o medo, a alegria ou a tristeza, são o que os psicólogos chamam de emoções básicas. A ira é a forma concreta em que se manifesta a agressividade, quando esta não é moderada, não é contida. Todas as pessoas sentem ira, porém a pessoa bem educada em suas emoções pode moderá-la socialmente. Por exemplo, a injustiça pode indignar e levar a certos estados de tristeza ou de ira, porém é possível dar vazão a essas emoções não necessariamente com atos agressivos, mas com dedicação a ações de correção da injustiça. Enfim, o ser humano aprende a canalizar as emoções básicas e fazer delas estados de ânimo úteis para os fins que persegue.

Mas Sêneca em algum sentido tinha razão. A ira é uma paixão, quer dizer o sujeito com ira, ou em estado emocional de ira, não se contém, não encara a vida com a tranqüilidade necessária. A ira é, pois, negativa, exceto quando utilizada em estado puro e para o que seguramente está aí como parte básica do equipamento emocional: as emoções básicas estão a serviço da sobrevivência.

Quando em perigo, as emoções de medo e ira permitem uma resposta rápida, ainda que pouco reflexiva. Porém, em situação de grande risco, é necessário atuar de forma rápida, e as emoções fortes estimulam a isso.

O que é uma verdadeira paz? É sinônimo de ausência de conflito?

Não, a paz tem distintas dimensões; a paz pessoal ou psicológica, a paz entre as pessoas e a paz mundial. A paz psicológica ajuda a conhecer a si mesmo, saber respeitar-se e definitivamente estar em paz consigo em termos das exigências que cada um faz a si mesmo e as conquistas que quer obter.

A segunda dimensão seria a das boas relações interpessoais, o criar uma capacidade de relação suficiente para resolver adequadamente os conflitos. Não se trata de não tê-los, mas enfocá-los de uma maneira dialogada consigo mesmo e com os demais.

A paz mundial, por último, é a macro dimensão que conecta as pessoas com o fato de serem cidadãos. Isto tem a ver com a justiça social, que tem uma dimensão muito importante para o ser humano, sentir que transcende sua própria personalidade para estar unido com os outros no bem comum. O ser humano pacífico busca a harmonia com os demais e com o universo. Nesse sentido as idéias de civismo, de bondade e de intercâmbio dos bens são princípios vitais para guardar o equilíbrio. São princípios transcendentes que fazem o sujeito superar sua própria individualidade, compartilhando com os demais este mundo que nos toca viver.

É possível em um mundo tão conflituado como o nosso ter paz interior?

Sim. O ser humano é muito plástico, muito flexível e sabe distinguir o interno do externo, e ao mesmo tempo há uma vinculação íntima entre ambos. Se se aprende a estar em paz consigo, a se dominar, é possível controlar as circunstâncias exteriores e evitar que afetem tanto as interiores.

Os meios de comunicação fomentam a agressividade das pessoas?

Os negócios e a bondade não estão muito irmanados. Os meios de comunicação têm que vender, desgraçadamente buscando o mórbido através de títulos que mexam com as paixões e que nem sempre são verdades. Às vezes, há mensagens que são de puro maniqueísmo, provocações, falsidades, incorrendo então os meios de comunicação em verdadeira perversão de sua função. Isso ocorre principalmente quando tentam manipular a verdade e criar uma opinião que responda a interesses concretos no afã sensacionalista.

Quando vê duas pessoas violentas, o que pensa?

Ante a violência, tolerância zero. Violência não, conflito sim. Abordemos o conflito e pratiquemos a contenção visceral. Com a violência nos desqualificamos e deixamos de ser exemplos.

A sociedade atual é mais ou menos violenta do que em outros momentos da história?

Agora há outro tipo de violência, por exemplo, o perigo de uma guerra nuclear. Porém na vida cotidiana a situação não é mais violenta do que há dois mil anos. O que há é uma maneira mais sofisticada de se ser agressivo e violento. Agora o soldado que mata o inimigo não o vê, são guerras tele-dirigidas. Isso é terrível. Talvez as pessoas não sejam mais violentas do que antes mas o mundo certamente é violento.

Uma sociedade violenta pode ser justa?

Não, numa sociedade injusta, com pessoas que vivem numa situação de injustiça, com freqüência há mais em risco de provocar e de receber violência.

Os modelos atuais de desenvolvimento geram violência?

Claramente, há uma agressão ao meio. As condições de vida são muito difíceis, aprisionam as pessoas em minúsculos pavimentos, com dificuldades consideráveis para estabelecer amizade, em horários de trabalho que são agressivos. Há, pois, muitas coisas que são passíveis de melhora; porém não se pode dizer que no passado os modelos de vida foram melhores.

Há quem diga que a massa é o monstro das mil cabeças, em que não se percebe nenhum rosto. O chamado fenômeno de massas — que já apontaram Ortega e Gasset — provoca violência coletiva?

Esta pergunta está relacionada com a forma em que as ciências sociais compreendem os problemas de nossos tempos. Os grandes agrupamentos tomam às vezes terríveis decisões negativas, como por exemplo os exércitos nas guerras; porém também existem as grandes marchas pacifistas, as atuais ONGs de pessoas que se agrupam com uma idéia filantrópica, otimista. Os grandes agrupamentos humanos não necessariamente são terríveis, desde que não percam sua integridade e não se despersonalizem. A idéia da maldade intrínseca das massas era uma das muitas crenças do final do século XIX e princípio do XX. Hoje se compreendem esses fenômenos com mais detalhes a respeito de sua complexidade e se pode interpretá-los com maior rigor.

Há que se deve a tão atual violência de gênero? Sempre existiu?

Existiu sempre. As mulheres sempre foram consideradas como figura de segundo nível. O mundo é machista desde sempre e isso é muito cruel e injusto. Essa é uma das formas de violência do sistema, uma forma de violência que gera mais violência e que além disso, em termos de vítimas, é mais extensa do mundo: 50% da população foi historicamente — falando nesses termos gerais — vítima de sociedades machistas em que a mulher foi relegada de múltiplas formas e foi molestada desde a dignidade e auto-estima até de forma mais direta e cruel. Não de pode esquecer que ainda há muitos paises e sociedades onde a mulher não tem direitos ou onde é objeto de assassinato por razões que não se podem controlar, como a suposta honra do marido, do pai ou do irmão.

Pode-se ser competitivo sem gerar danos ao outro?

Ser competitivo significa competência e por competência os psicólogos entendem saber fazer bem as coisas. Não há problema nisso. Se por competência se entende a rivalidade com outro, a lei do mais forte ou o lutar pelo beneficio próprio, sem levar em conta que todos têm direitos e deveres, aí sim há um verdadeiro problema.

A falta de cortesia é uma forma de violência?

Seria uma forma de violência menor ou diminuída, porém sim é violência. É um dever ser amável com os outros, ainda que não se seja amigo, porque isso significa, em sentido estrito, reconhecer os outros como iguais em direitos e deveres.

Qual é seu aporte para formar um homem menos violento?

Meu aporte vem através de meu trabalho. Durante mais de dez anos, investiguei sobre a potencialidade transformadora das brincadeiras infantis e contribuí para que a atividade lúdica fosse vista como um cenário social de construção de conhecimento e afeto. Agora nos últimos quinze anos, investigando e prevenindo a violência nas escolas, tanto em países desenvolvidos quanto em paises pobres, tratando de transferir conhecimento e ferramentas de investigação para a prevenção da violência; creio que também contribuo com minha participação cidadã e com minha forma de ver o mundo enfocada na paz e no cumprimento efetivo dos direitos humanos. Tento ser coerente com o que penso sinto e vivo.

Por fim: agrada-lhe o mundo em que vivemos? O que mudaria?

O mundo em que vivemos me encanta, porém ao mesmo tempo transformaria muitas coisas. Parece-me bem este mundo, sobretudo por uma questão pragmática: é o único que conheço e a mim interessa vivê-lo da maneira mais intensa e feliz possível, amando aos meus, respeitando e fazendo-me respeitar.

Antônio Manuel Cantos Prats

Co-responsável da Esfinge em Córdoba

Investigação Científica – Lenta, porém constantemente, “caminhar” na busca de energias renováveis

Permita-me o leitor o pouco engenhoso jogo de palavras do título, que me sugeriu a leitura da notícia da criação de uma mochila que gera eletricidade ao andar. A utilidade dessa mochila consiste em proporcionar suficiente energia — 7,4 watts — para fazer funcionar simultaneamente um reprodutor de música mp3, uma agenda PDA, um equipamento de visão noturna em 3d, um GPS, um decodificador de imagens e um telefone móvel. Também pode servir para alimentar um computador portátil ou uma lanterna.

Nossa reflexão nos levou a pensar que todos esses objetos estão ao alcance apenas da sexta parta da humanidade, ainda que precisamente esse mundo rico seja o que consome (e esbanja) enormes quantidades de energia elétrica, seguramente em prescindíveis necessidades artificiais.

Tratando de buscar um sentido mais positivo, gostaríamos que esse invento servisse para andar mais e recarregar as pilhas de todos os nossos aparelhos eletrônicos utilizando menos os automóveis e as baterias contaminantes. Seu inventor disse que também servirá para aumentar a autonomia de exploradores e soldados em zonas remotas.

Cientificamente nos interessa a geração de energia a partir do movimento que se realiza ao andar. A investigação foi levada a cabo pelo doutor em biologia Lawrence C. Rome, dirigindo uma equipe da Universidade da Pensilvânia na Filadélfia (EUA). Esse biólogo é especialista em estudos dos sistemas musculares de locomoção, o movimento dos ossos a partir das atividades musculares, em particular nos casos dos peixes e rãs.

Até agora se havia investigado a obtenção de energia a partir de mecanismo na sola das botas, porém, segundo o Dr. Rome, é mais eficiente obter energia com o movimento vertical, os “pequenos saltos” que realizamos ao andar. Quando andamos o quadril se desloca verticalmente cerca de 5 cm a cada passo, na mesma direção vertical da mochila. O aproveitamento dessa energia é conseguido mediante o preparo da mochila para transformar a energia mecânica da passada em energia elétrica que pode ser usada enquanto se caminha ou que pode ser armazenada em baterias para utilização posterior, o que serviria para recarregar outros tipos de baterias mais pesadas.

A mochila é formada por uma espécie de armadura rígida que, em lugar de se fixar no quadril, se conecta a este por uma placa que registra os movimentos através de “molas”. A placa se desloca por “trilhos” que transmitem o movimento a um gerador que produz a eletricidade. A quantidade de energia gerada depende do peso da mochila e da rapidez com que se anda. Segundo os investigadores, carregando cerca de 25kg (o peso típico da mochila de um militar ou de um explorador) se poderia gerar constantemente uma potência de 7,4W, quantidade suficiente tendo em vista que os telefones celulares ou os óculos de visão noturna consomem apenas 1 watt.

Um sistema de molas faz com que seja mais cômodo levar a mochila e o peso das baterias, pelo qual se reduz o custo energético da caminhada.

“Metabolicamente falando”, diz o Dr. Rome, “temos encontrado que o resultado é mais barato do que pensávamos: a energia que se requer para transportar o gerador é a mesma que o transporte de um tênis, que não é nada comparado com o peso de uma carga extra de baterias.

Juan Carlos del Río

Do Fundo da História – Ouvindo o Mar

Poseidon me presenteou com um caracol. E nele escuto o som do mar. Conta, com sua voz profunda, feita de ondas e rebentações, a história de seu mundo. Conta-me como ouve em seu seio a vida primitiva, diminutos seres que por eras percorreram seus solos e suas fossas. Descreve os estranhos seres, cegos habitantes de um mundo sem luz; as estrelas-do-mar que se aposentam na areia; os hipocampos que galopam nas águas.

Conta-me dos barcos naufragados desde que o homem aprendeu a sulcar as ondas. Dos carregamentos de cerâmicas, jóias, perfumes, estátuas. Dos esqueletos vestidos de corais, ainda aferrados às suas espadas. Dos deuses fundidos, belíssimas formas enterradas nos areais, perdidos para sempre aos olhos dos homens.

Conta-me que tem visto galopar, entre as cordilheiras submersas, os cavalos de Poseidon. Sua beleza é única com suas crinas de espuma ondeando atrás deles. Quando isso ocorre, quando abandonam sua caverna, a terra treme. Porque Poseidon é o senhor dos terremotos, e sua cólera é terrível como foi com Ulisses, como foi com Laocoonte e seus filhos, que duvidaram do seu poder. O caracol também me conta. Sua música é um retumbar de profundidades, um sussurrar de marolas, um rumor de ondas nos escarpados. Em sua música são mescladas vozes dos golfinhos, o grito rouco dos ciclones, o fragor das tormentas, os lamentos dos afogados.

Porém não somente a mim Poseidon, senhor do mar, deu esse presente. Tem também para ti. Aproxima a orelha de seu reino, entre as rochas, em longínquas praias. Busca um caracol nacarado e o aproxima de teu ouvido: escutarás o que te disse. Conhecerás a história do mar.

A voz das sereias.

A chamada de Scila e Caríbdis. Deixa-te levar.

Maria Ángeles Fernandez

Próximo Número

Especial: 250 anos do nascimento de Mozart

Quando o gênio se faz homem

O gênio de Mozart reside especialmente na universalidade da sua música: dá felicidade aos namorados da elegância e da sutileza, assim como às almas para as quais a inspiração e a arte não estão separadas dos mais altos questionamentos da vida.

W. A. Mozart e a Maçonaria

Esta é uma importante faceta mozartiana que tem sido manipulada e distorcida com o fim de deformá-la aos olhos do público. Nos referimos à relação que Mozart teve com as correntes de pensamento do século XVIII, e em especial a sua relação com a Franc-Maçonaria.

Simbolismo da Flauta Mágica de Mozart

A Flauta Mágica é um dos mais maravilhosos testamentos musicais que nos deixou como  legado o filósofo-músico. Nesta ópera excepcional, o apolíneo, a iluminação do divino, e o dionisíaco, a transmutação do humano, vão de mãos dadas.

Mozart: todo um clássico

Considerado como o maior exímio representante do Classicismo na História da Música, entendendo como “clássico” esse conjunto de qualidades arquetípicas dignas de serem imitadas, que se propuseram como modelo no Renascimento, tratando de recuperar os valores de proporção, harmonia e ordem.

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