Edição 13

Editorial

Num momento em que a história se encontra pobremente representada nos atuais programas televisivos, estão aparecendo alguns novos que voltam a estimular a imaginação individual e coletiva.  Ressurge assim um insuspeito interesse pela história por meio de magníficos documentários de romances chamados “históricos“, redescobertas ou outros de criação recente.

Entre esses queremos destacar os que em nossa opinião são excelentes obras como os da habilidosa Matilde Asensi, que nos faz viajar por paisagens tão variadas como as do Caminho de Santiago e as da Selva Amazônica do Peru à procura da origem da linguagem e talvez da própria civilização.  Mas, antes de cruzarmos o oceano, busquemos, por um momento, o sentido de um tema histórico explorado, não somente por Matilde Asensi, mas também por muitos outros estudiosos e escritores: o mistério da Ordem dos Templos.

Os templários nasceram da necessidade de proteger os que se dirigiam à Terra Santa, desde as primeiras cruzadas do final no século XI, que atingiram seu apogeu no século XIII quando chegaram a controlar terras e bens que, segundo alguns, constituíam uma quarta parte do capital europeu, sendo destruídos em 1307.  Somente alguns conseguiram sobreviver, trocaram de nome e buscaram refúgio em lugares propícios como as terras de Portugal.

Hoje, a imaginação popular atribui aos templários todo tipo de missão que vai desde a proteção do Santo Graal até a estreita colaboração deles com os construtores das grandes catedrais góticas, cujos trabalhos teriam financiado.  Neste caso, história e lenda se entrelaçam de tal forma que é possível que nós nunca saibamos o que há de verdade histórica por trás de tais representações ou que, embora a descubramos, não estaremos dispostos a abandonar o imaginário medieval que evoca a visão dos templários e seus cavaleiros.

Podemos nos perguntar o que desperta em nós a imagem desses cavaleiros templários reais ou imaginários.

Em um mundo bastante cinza, no qual se fragmenta a solidez moral de valores e princípios compartilhados, a imagem de alguns cavaleiros, que dedicam sua vida à proteção dos demais sem outra recompensa além da que lhes dá sua profunda Fé, aparece como uma fonte de refúgio e ainda uma necessidade crescente.  Esses cavaleiros viajaram pelo mundo e viveram aventuras que somente podemos imaginar, mas que de algum modo necessitamos compartilhar.  A nova Idade Média, quem sabe, necessita de cavaleiros como eles.

Mosaico

Sobre Cascos

É curioso poder mergulhar nos dicionários antigos para encontrarmos curiosas definições que nos ensinam muito sobre as palavras que nós utilizamos freqüentemente sem chegarmos a saber tudo o que elas significam.

Em um dicionário de 1729, chamado de Autoridades, podemos encontrar o primeiro significado de casco: “O osso côncavo que cobre a cabeça e contém dentro dele a massa encefálica e o cérebro”.

Também diz que significa um pedaço de vasilha, cachos de algumas frutas, casca das cebolas, arma defensiva que se coloca na cabeça, peça de montaria, barco sem mastro e sem carga, unhas dos pés e das mãos das bestas cavalares e, usado no plural, cabeça de carneiro e de vaca, sem massa encefálica e sem língua.

Encontramos um último significado que faz referência ao seu sentido figurado que diz assim: “figuradamente falando dos homens, significa o juízo que têm e, normalmente, refere-se a sua parte ruim: assim se diz que fulano tem bravos cascos ou cascos ruins, que significam, um ou outro, pouco juízo”. Se também consultarmos qualquer dicionário moderno, nós encontraremos muitos outros significados, ampliando assim nosso vocabulário.

Pintam a oportunidade calva

Há coisas que nos acontecem uma única vez na vida e, se as deixarmos passar, não voltarão mais.  A sorte, a fortuna, somente sorri àqueles que estão prontos para aproveitar sua oportunidade.

Os romanos tinham um deus chamado Kairós (A Oportunidade), o qual representavam com asas nos calcanhares, com um tufo de longos cabelos na fronte e o resto da cabeça totalmente calva.

Com ele pretendiam expressar o desejo da sorte e o efêmero de sua passagem, a brevidade e o giro da roda da fortuna e a impossibilidade de agarrá-la pelos cabelos, pois passa rápido.

No livro “A Sabedoria das Nações”, Joaquim Bastús diz que esta representação de Kairós é atribuída a Fídias e cita um diálogo, de uma obra de Lysippo, entre o viajante e a estátua do Deus da Oportunidade:

Por que esse tufo de longos cabelos em tua fronte?

É para que seja facilmente pego pelo primeiro que me encontre.

Mas, observo que não tens um só fio de cabelo na parte posterior da cabeça.

É para que nenhum desses que tenham me deixado passar possam me agarrar uma vez que eu já tenha passado.

Outras frases coloquiais tais como “a sorte lhe deu as costas”, “pegar (a oportunidade) pelos cabelos” e “dar de cara com a sorte” fazem referência a esta imagem mítica.

Cantemos unidos

O coro ou canto em grupo é uma forma maravilhosa de se fazer música, pois permite desafinar, desentoar ou inclusive não cantar, e ninguém percebe.  Além do mais cantar é muito bom para conhecer novas pessoas.  Há muitos cantores que se casaram com alguém que cantava no mesmo coral.  E, em países árabes, há cantores que se casaram… com o coral.

Exercícios para cantar em coral:

Coloque-se de pé nas escadas, de forma que possa olhar para frente e ver com clareza o público e, sobretudo, garanta que todos seus convidados vejam você.  Certifique-se quais são os que estão presentes na platéia.  Não cumprimente seus parentes.

Aquela pessoa que está na frente do coral e move os braços é o maestro ou regente.  Tampouco o cumprimente.  Abra bem a boca.  Não emita som, é suficiente que o público acredite que você canta.   Nas passagens fortes franza a testa, como fazem o regente e seus companheiros.  Quando perceber que seus companheiros estão quietos, feche a boca.

Se as mandíbulas estiverem cansadas porque a boca está aberta muito tempo, descanse.  Para isso, aja como se tivesse olhando a partitura na espera de uma nova entrada.  Mova um pouco a cabeça como quando lê.  Aproveite o momento para olhar de soslaio a soprano que canta a poucos metros de você ou o barítono loiro e forte de olhos sonhadores.  Isso sim é da sua conta!

Sorria ao terminar, como se tivesse cantado e não se preocupe, pois as estatísticas revelam que, inclusive nos melhores corais, somente 67% dos participantes do coral cantam.  Se todos cantassem seria um barulho desagradável.

Emoticons ou Smiley

Emoticons é uma concentração de emoções e ícones.

Desde a incorporação do primeiro smiley (rostinhos sorridentes) aos textos escritos no computador – seja nos chats, correios eletrônicos ou textos – muitas coisas mudaram. Aquele rostinho com sorriso reluzente ( :-)) que poderíamos ver virando o rosto à esquerda mudou para uma infinidade de rostos que mostram outros tantos estados de ânimo ou descrições físicas.

Longe de ser algo inútil, revelaram-se num eficaz método de comunicação que permite que o destinatário saiba o estado de ânimo de quem escreve, o que antes não era possível interpretar, por falta de uma linguagem escrita que permitisse saber como está naquele momento o autor da mensagem mesmo sem conhecê-lo.

A ironia, o sarcasmo, a raiva, o aborrecimento, o assombro ou a brincadeira são mostrados de forma eficaz por meio desses rostinhos.

As plantas e aeronáutica

Os desenhistas de aviões ainda não conseguiram construir até hoje uma asa tão eficaz como a que utiliza o cipó de borneo para disseminar suas sementes, mesmo com uma pequena corrente de vento.

O dente de leão, por sua vez, transforma-se em uma esfera com aproximadamente cem sementes dispostas com muita precisão. Cada semente leva um pára-quedas individual incorporado tão eficaz que uma simples brisa a transporta por quilômetros de distância.

Algumas plantas utilizam “helicópteros”, como o falso plátano (acer-pseudoplátano), tendo a sua semente um perfeito equilíbrio entre peso, longitude e largura.

Uma semente ligeiramente mais pesada, mais curta ou mais estreita desmoronaria como uma pedra. Se observarmos, em câmara lenta, o seu movimento em muito nos lembra um arremessador de peso quando está girando antes de arremessar.

O sistema da tristelata africana, que produz uma semente giratória de seis hélices, é uma invenção que ainda não foi copiada. Em outros casos as plantas usam uma propulsão a jato, como o “não-me-toque” do Himalaia, no qual, com um ligeiro toque, as cápsulas de sementes, guardadas em um líquido de alta pressão, explodem e são lançadas.

O mistério dos violinos Stradivarius

Os violinos de Antonius Stradivarius estão retratados em mais mitos do que qualquer outro instrumento musical da história.

Uma nova investigação agora está tentando regatar seus segredos, principalmente o porquê de seu som tão perfeito.

Na Mid Sweden University (Mittuniversitetet) da Suécia, um grupo de investigadores está utilizando tecnologias modernas para descobrir os segredos desses violinos que tanto entusiasmam os peritos.

O italiano Antonius Stradivarius (1644-1737) concebeu uma geometria e um desenho desse instrumento que deu origem aos modelos seguidos por todos os fabricantes de violinos até hoje. Dos 1.100 instrumentos que fabricou, sobrevivem ainda uns 650. O valor extremamente alto desses instrumentos ficou evidenciado em um leilão realizado no mês de abril em Londres.

O Violino Stradivarius ‘Lady Tennant’, vendido nesta oportunidade, bateu o recorde em termos de valor no mundo dos leilões de instrumentos musicais, pois foi arrematado pelo preço astronômico de um milhão e meio de euros.

O trabalho de Antonius Stradivarius (Antonio Stradivari) ainda não conseguiu ser igualado. Mesmo depois de sua morte, poucos conseguiram produzir violinos que chegassem a se aproximar um pouco ao grau de perfeição que caracterizou esse gênio da acústica.

O jovem e as ovelhas

Pastoreando um jovem seu gado,

gritou desde cima de um morro:

“Socorro que vem um lobo, lavradores”

Estes, abandonando suas lavouras,

acodem prontamente

e descobrem que é somente um gracejo.

Volta a chamar, e temem a desgraça

segunda vez os engana.  Linda graça!

Mas, que sucedeu a terceira vez?

Que veio na realidade a faminta fera.

Então o jovem vocifera,

e por mais que bata o pé, chore e grite,

não se mexe a gente escarmentada

e o lobo devora a manada.

Quantas vezes acontece de um engano,

causar ao enganador o maior dano!

Félix María Samaniego

Foi encontrada uma rara cabeça de Medusa no jazigo romano de Romeral (Lleida)

Uma cabeça da mitológica Medusa, que poderia ser da época do Alto Império Romano (entre os séculos II e IV), foi encontrada no jazigo de Romeral, nos limites dos municípios de Albanesa (Lleida).

A peça foi encontrada no último dia das escavações, nas águas termais de uma antiga vila romana, que há vários anos vinha sendo pesquisada.

É uma “descoberta única” no conjunto de esculturas romanas da Catalunha e raríssima no contexto espanhol, assegurou o Prefeito do Município, Antônio Balasch. Além do mais, seu estado de conservação é muito bom, tem somente uns pequenos defeitos nos lábios, causados provavelmente por uma picareta usada para fazer pequenos buracos na sua boca para utilizá-la como fonte, feito esse que a torna ainda mais rara, como explicou, ao Europa Press, o Diretor do Projeto Luiz Marí.

Tudo indica que é uma escultura do Alto Império Romano, dos séculos II até IV, quando o mito da Medusa já não estava tão em voga.  Até o momento não se relacionava a Medusa com o culto da água e seu aspecto formal era simplesmente decorativo, segundo Marí. Além disso, os testes que determinarão precisamente sua datação ainda não tinham sido concluídos.

O mito

Na versão mais conhecida do mito, a Medusa era originariamente uma belíssima mulher que foi deflorada por Poseidón no Templo de Atena.  Esses dois Deuses eram rivais desde os tempos em que competiram para ver quem seria o patrono da cidade de Atenas, episódio em que seus habitantes preferiram a oliveira de Atena à fonte ou aos cavalos de Poseidón.

Após descobrir a profanação de seu templo, Atena castigou Medusa condenando-a a ter a mesma forma de suas irmãs Gorgonas, assim seus cabelos transformaram-se em serpentes e seu olhar tinha o poder de petrificar qualquer criatura viva, tendo sido também desterrada para o submundo.

Enquanto estava grávida de Poseidón, Medusa foi decapitada pelo herói Perseu com a ajuda de Atena e Hermes.  De seu pescoço nasceram seus descendentes, o Cavalo alado Pégaso e o Gigante Crisaor. Perseu usou a cabeça da Medusa para resgatar Andrômeda, matar Polidectes e, em algumas versões, petrificar o titã Atlas.  Depois entregou a cabeça da Medusa à Deusa Atena, que a colocou em seu escudo, como égide, que, a partir de então, se transformou num talismã.

Para pensar

Quando um triunfador comete um erro, diz: “Equivoquei-me” e aprende a lição.

Quando um perdedor comete um erro, diz: “Não foi culpa minha” e responsabiliza os outros.

Um triunfador sabe que a adversidade é o melhor dos mestres.

Um perdedor se sente vítima ante as adversidades.

Inventos com história – O astrolábio

Dados dois pontos de referência e conhecida as suas respectivas posições, pode-se encontrar o ponto de onde se efetua a observação.

Partindo desse princípio do quadrante se confeccionaram os antigos instrumentos de origem incerta, como o astrolábio e o sextante.

Desde a antiguidade, os estudos das constelações se efetuavam com a ajuda da esfera armilar, surgida da necessidade de determinar a posição do Sol e outras estrelas que não tinham posição fixa. Assim se criou uma esfera composta de vários círculos sobre os quais estava marcado o movimento variável das estrelas. Se projetarmos sobre um plano esses círculos, com as colocações da esfera armilar, obtém-se o astrolábio.

Os árabes o aperfeiçoaram. Os antigos navegantes se guiavam pela posição das estrelas, tendo como referência, por exemplo, a estrela Polar, e assim determinavam com exatidão relativa o ângulo formado pela estrela com a vertical traçada desde o ponto de observação, diferente da posição anteriormente medida, para determinar a latitude.

O astrolábio servia para localizar as distintas posições dos astros e também era utilizado para resolver problemas astronômicos mais complexos. É formado por um círculo completo e uma seção de círculos divididos em graus com um braço móvel colocado no centro do círculo. Quando o ponto zero do círculo se orienta com o horizonte, a altura ou azimute de um corpo celeste pode ser medido observando-se o braço.

Alguns estavam unidos a uma bússola e serviam de relógio e calendário.

A sua origem é atribuída aos babilônios, que teriam construído um astrolábio esférico ou armilar. Ptolomeu deu as bases para a realização do astrolábio planisférico. Mas outras investigações demonstram que o primeiro que utilizou o astrolábio foi o astrônomo grego Hiparco de Nicea.

Na Idade Média aperfeiçoaram esses instrumentos, mas esses ainda continuaram imprecisos. No século XVI, o astrônomo Tycho Brahe construiu um astrolábio de três metros de raio, com o qual fez observações com precisão. Pouco tempo depois se inventou o telescópio e os primeiros sextantes (um deles foi inventado por Newton). O sextante baseia-se nos mesmos princípios que o astrolábio e o quadrante em mais dois novos elementos: lentes de aumento e jogo de espelhos, cuja precisão se tornou efetiva depois dos estudos de Newton e outros cientistas sobre óptica.

Francisco Capacete

Frases

Um povo que não conhece sua história é um povo condenado à morte.

M. Menéndez Pelayo

Que mundo harmonioso poderíamos ter se cada pessoa compartilhasse com os outros um pouco de seus dons.

L. Jones

Passar da pobreza à riqueza é simplesmente mudar de miséria.

Johan G. Oxenstierna

Não seja intolerante, mas enfrente a intolerância.

Hippolyte Taine

Um herói é todo aquele que faz o que pode.

Romain Rolland

Os grandes amores são forjas dos grandes equívocos.

Juan de Torres

O homem é mortal por seus temores e imortal por seus desejos.

Pitágoras

Se quiseres testar o caráter de um homem, dá-lhe poder.

A. Lincoln

O futuro é como o céu: todo mundo quer conhecê-lo, mas ninguém quer ir para lá.

J. A. Baldwin

Não podemos adicionar nem um minuto à vida, mas podemos adicionar mais vida a cada minuto.

F. Savater

Assim é a vida…

Um pacífico e tranqüilo agricultor que vivia com seu filho soube, um dia, que seu único cavalo havia fugido do estábulo. Os vizinhos não hesitaram em ir até a casa dele e se compadecerem por sua falta de sorte.

– Pobre amigo! Que azar. Hás perdido tua ferramenta de trabalho. Quem te ajudará agora com as difíceis tarefas do campo? Você sozinho nada poderá, espera-te a fome e a ruína.

Mas o homem somente falou:

– Assim é a vida.

Dois dias depois seu cavalo regressou acompanhado de outro novo e magnífico exemplar. Os vizinhos desta vez se apressaram a felicitá-lo.

– Que boa sorte, agora tens dois cavalos. Hás dobrado tua fortuna sem fazer nada!

O homem sussurrou:

– Assim é a vida.

Poucos dias depois o agricultor e seu filho saíram juntos para cavalgar. Em uma altura do caminho, o cavalo novo assustou-se e derrubou o jovem da cela, que na queda quebrou a perna. E novamente os vizinhos foram à casa do agricultor.

– Mas que azar, pois, se não tivesse vindo este maldito cavalo, teu filho estaria tão saudável como antes, e não com a perna quebrada que só Deus sabe quando se recuperará. O agricultor voltou a repetir:

– Assim é a vida.

Aconteceu também de naquele reino a guerra ser declarada, sendo assim os militares foram até aquela aldeia perdida para recrutar todos os jovens em idade de prestar serviço militar. Todos marcharam ao fronte de batalha, menos o filho do agricultor, que foi rejeitado por sua impossibilidade de caminhar. Os vizinhos foram outra vez à casa dele, nesta ocasião com lágrimas nos olhos.

– Que desgraça a nossa, não sabemos se voltaremos a ver nossos filhos; tu em compensação tens o teu em casa com uma pequena enfermidade!

O homem mais uma vez diz:

Assim é a vida.

Os templários: suas chaves históricas e mistérios

A Ordem do Templo tinha por objetivo salvaguardar os santos lugares. Isso fez com que a lenda a associasse à busca e custódia de relíquias sagradas. De fato, em um de seus primeiros emprazamentos, no que hoje é a mesquita de Al-Aqsa, na esplanada do que fora o antigo templo de Salomão, se encontrava o Sancta Sanctorum em que se guardava a arca da aliança. Suas crenças sincréticas, extraídas inclusive de outras tradições, seus rituais, próprios de sociedades secretas, sobre os quais revelaremos seu sentido, sendo especialmente esclarecedores com aqueles que motivaram sua sentença. Ou, para citar alguns de seus maiores enigmas a imagem de Bafomet, lhes fazia diferenciar-se da ortodoxia católica. Tudo isso, somado à fragilidade teológica que arrastava em origem sua fundação – dada sua natureza de monges e guerreiros, em contradição por tanto, com a mensagem pacificadora e amorosa de Cristo – seria sem dúvida a origem de sua queda.

Uma vez perdida a confiança da Igreja em 1307, Clemente V em conivência com o ambicioso monarca Felipe, o Belo, decidem pôr fim a seus dois séculos de história.

Introdução

Os Templários não entenderam que sua incumbência fora, exclusivamente, a defesa do catolicismo no Oriente, diferenciando-se neste sentido dos cruzados. Sua finalidade em contrapartida do que comumente pudesse parecer, foi salvaguardar a fé religiosa e a proteção dos lugares santos. Porém, tanto das mesquitas e sinagogas quanto dos templos cristãos. O que lhes ocasionou a animosidade da Igreja.

Trabalharam pela aproximação das religiões. De certa forma aspiraram criar as bases de uma religião universal, embora tenham fracassado, pois como projeto sincrético era demasiadamente avançado para a época. Algo assim só pode ser concebido ante uma humanidade que tenha ampliado seus níveis de consciência e alcançado a tolerância necessária em termos sociais e religiosos.

Isso não impediu que mantivessem contatos com o mundo do Islã, especialmente com organizações de mesmo caráter. Como o caso de seu equivalente islâmico, os Assasins, proveniente do termo Assaça (que significa guardião). Os guardiões da luz islâmica, como eram conhecidos. Herdeiros, neste sentido, do esoterismo islamita transmitido por Ismael, o segundo filho de Abraão, de maneira análoga ao que Isaac fora para judeus e cristãos. Deles provém completamente invertido o termo assassino, que originalmente seria interpretado como valentia, especialmente por sua implacabilidade em combate. Assim como os Templários. Formaram uma ordem místico-religiosa que tinha por objetivo a defesa dos lugares santos e com os quais chegaram a manter importantes contatos internos.

Para pôr fim a esta excessiva abertura religiosa, a Igreja francesa chegou a dar instruções à Ordem do Templo para aceitar a admissão de todo católico que a solicitasse, sem levar em conta sua condição nem moralidade. E inclusive se chegou a decretar que todo cristão que fora excomungado poderia redimir-se de suas faltas listando-se na ordem. Conscientes do perigo que tal medida poderia supor, os dignitários mostraram sua desconformidade ao Papa resolveram, reunidos em um conclave na Palestina, desclassificar a todo candidato que houvesse sido admitido segundo as novas diretrizes da Igreja.

Sob a direção do grande mestre da ordem, Jacques de Molay, as tensões se intensificaram com o papa Clemente V. A França naquele momento era governada por Felipe, o Belo, quem lhes invejava as riquezas, temia por seu enorme poder e não lhes perdoava o fato de ter negado o ingresso a um de seus filhos. Teve então a idéia de condenar-lhes por heresia e práticas blasfemas. Em 13 de outubro de 1307 foram presos numerosos cavaleiros, com a aprovação da Igreja, dando início ao final da Ordem.

As Cruzadas, seu Contexto Histórico

O Oriente Médio, ainda que povoado em sua maioria por árabes, estava sob domínio dos turcos selêucidas. Estes, diferentes dos outros muçulmanos, eram brutais e fanáticos, embora tivessem como meta não só instalar na palestina a supremacia do Islã, mas reduzir a supremacia da Igreja cristã. O restante dos muçulmanos, ao contrário, aceitavam os cristãos, que gozavam de plena liberdade para seguir seu credo, fruto sem dúvida do refinamento da cultura árabe, mais adiantada que a ocidental, tanto nos níveis econômico, cultural e artístico quanto no científico

Por outro lado, os cristãos que viviam na Palestina eram bizantinos – dependentes da Igreja de Constantinopla – e não católicos fruto do cisma religioso de 1054 que cria a Igreja Ortodoxa, separada e confrontada à Romana. Nas vésperas da primeira cruzada, como se pode observar, as tensões na palestina não se limitavam aos confrontos entre turcos selêucidas e cristãos, mas incluíam também as rivalidades entre a Igreja católica e a bizantina.

Em novembro de 1095, a Igreja católica celebrava um concílio em Clermont-Ferrand (França), sob a autoridade do papa Urbano II, com o objetivo de manter a paz entre os diferentes estados da Europa. É então quando se proclama a primeira Cruzada, sob o pretexto dos muçulmanos estarem semeando o terror entre os peregrinos e cristãos da Palestina. Reuniram o povo na praça e lhes incitaram a ir à Jerusalém para expulsar os infiéis e libertar o santo sepulcro de Jesus.

Logo após terminar seu discurso, um pregador menor, Pedro de Amiens, conhecido como o Ermitão, começou a gritar: Deus assim o quer, Deus assim o quer. A expressão subjugou de tal maneira a multidão que acabou se convertendo no lema das lutas dos cruzados.

Homens, porém também mulheres, crianças e inclusive idosos partiam da França, Inglaterra, Alemanha, Espanha e Itália,  com a convicção da causa divina. Guiados por Pedro, o Ermitão e Gauthier Sans Avoir, um cortesão francês, semeiam o terror por onde quer que passem, matando e devastando as regiões que atravessam. Cruzam Constantinopla até chegar a Nicea, então praça turca, onde em poucos dias são, sem dúvida, detidos e dizimados.

No inverno de 1096 uma segunda cruzada se põe a caminho até Israel, desta vez conduzida por cavaleiros formados na milícia, entre eles Godofredo de Bouillon, Raimundo IV, Conde de Toulouse, Boemundo de Tarento e Hauteville. Passam por Constantinopla vencem em Nicea e chegam a Antioquia, onde alguns, após padecer fortes temporais e epidemias, regressam a seus países de origem em barcos genoveses e venezianos. Finalmente, depois de sangrentos combates a expedição toma Jerusalém em 1099.

Quando os cruzados chegaram à Jerusalém a cidade já não estava tomada pelos turcos selêucidas, mas por egípcios mulçumanos que os havia expulsado. Para evitar contendas religiosas, estes, atendendo a seu talante mais tolerante, haviam restabelecido a liberdade de culto. Porém os cruzados acabaram sitiando Jerusalém, convertendo-a em reino cristão.

Nomearam como monarca Godofredo de Bouillon e criaram três principados: Edesa, Antioquia e Trípole.

Observando o domínio cristão, turcos e árabes se aliam para combatê-los. Em contrapartida foram organizadas diversas cruzadas entre os séculos XII e XIII. Isso não impedirá que durante este período surjam espontaneamente outras cruzadas impulsionadas pela exacerbação popular. Em 1212, por exemplo, surgiu a cruzada das crianças, encabeçada por um pastorzinho de Vendôme na França. Uma imensa balbúrdia de 30.000 crianças e jovens embarcavam em Marselha para Jerusalém, porém enganados por mercadores são conduzidos até Alexandria, no Egito, onde serão vendidos como escravos. A cruzada dos pastorzinhos na que participaram de maneira similar milhares de jovens alemães em 1250, perecendo tragicamente em sua marcha até Brindisi, na Itália.

Na Península Ibérica os monarcas portugueses, castelhanos e aragoneses ficaram exonerados das expedições da Terra Santa por considerar que a reconquista espanhola, empreendida contra a hegemonia mulçumana, respondia aos mesmos ideais que salvaguardavam a cristandade. No caso dos templários, destacava a sua presença na rota Jacobéia, configurando Santiago de Compostela, igualmente a Jerusalém, como lugar de peregrinação e lugar santo.

A novena e última cruzada concluiu em 1291 com a perda de San Juan de Acre, onde os cruzados foram exterminados. Os templários, que haviam sido um grande apoio para as forças militares na Terra Santa, se dobram no Chipre, onde permanecem até sua dissolução em 1312. A partir deste momento o oriente caiu progressivamente sob o domínio mulçumano, e o cristianismo, tanto católico quanto ortodoxo, perdeu sua influência nesta parte do mundo.

As Origens do Templo

Por trás da primeira Cruzada, nove cavaleiros franceses decidiram fundar uma Ordem, entre cujas intenções, e à diferença do que acontecia com os cruzados, não estava a de combater sistematicamente os mulçumanos. Tampouco assistiam aos pobres e enfermos, como sucedera com os cavaleiros de São João (mais tarde Cavaleiros de Malta) ou com os Hospitaleiros, criados em 1120, nem ficavam circunscritos a um âmbito territorial de atuação – como no caso dos cavaleiros teutônicos, fundados em 1198 nos territórios do Báltico – mas sim defender os cristãos que peregrinavam aos lugares santos.

Hugues de Payns, que fora realmente o promotor inicial e seu primeiro grande mestre, Geoffrey de Saint-Omer, Geoffrey Bisol, André de Montbard, Payen de Montdidier, Archambaud de Saint-Amand, Gondemar, Rossal e Hugues de Champagne se instalaram em Jerusalém e fundaram a Ordem dos Cavaleiros do templo em 1118. Balduino II, que reinava então na cidade, lhes permitiu estabelecer seus quartéis generais na sala de seu palácio, situado próximo à mesquita de Al-Aqsa, a única na esplanada do que fora o antigo Templo de Salomão e do que por dita razão, tomarão o nome de templários. Cento e noventa e seis anos de vida para uma organização poderosa e igualmente controversa, 22 grandes mestres se sucederam até 1314, quando desapareceram.

Próximo aos seus quartéis se encontrava também a mesquita de Omar, conhecida como a Cúpula da Rocha (Qubbat al-Sakhra). Para a tradução judia era o lugar em que se encontrava o sancta sanctorum – onde supostamente estava a arca da Aliança – do Templo de Salomão, construído por Hiram por volta de 1010 antes de nossa era destruído, no que fora sua primeira construção, pelo rei Nabucodonosor em 587 a.C. E, finalmente, após sucessivas reconstruções, pelo imperador romano Tito no ano 70 d.C. Estava construído sob o monte Moriah cuja cume rochoso alberga e lhe dá nome, e onde conta a bíblia que o anjo pediu a Abraão o sacrifício de seu filho Isaac, detendo-o pouco depois após comprovar a submissão do patriarca. Igualmente importante para os mulçumanos, por outra parte, pois dela ascendeu o próprio profeta após a sua morte. Apresenta além disso, segundo esta tradição, as hipotéticas pegadas de Maomé e da mão do arcanjo Gabriel que apareceu a ele.

A mesquita, construída em 692 é de base octogonal, estrutura que servirá de modelo para numerosas construções templárias. Interessados com estavam pela cabala, davam grande importância à ciência dos números. De fato, este tipo de planta será umas das mais empregadas, dado que o número oito simboliza para eles a harmonia entre o mundo material e espiritual.

Este modelo de construção é característico da cultura mulçumana. Provém da própria cruz templária – basta desenhar seu contorno externo para obter o octógono. Chamada por ele mesmo cruz das oito beatitudes, se bem que o conceito pode encontrar-se generalizado em todo o Islã. Esta relação simbólica, por exemplo, deixando à margem de Omar e buscando outras geografias bem distintas, pode se apreciado da melhor maneira na mesquita de Lotfollah (Isfahan, Irã), na praça de Imã, Naqsh-é-Jahan, uma das mais belas do mundo.

A planta octogonal se sobrepõe progressivamente, segundo observamos, dois níveis de 16 e 32 lados, coroando o alçado com o círculo da cúpula semi-esférica que a cobre. Além de uma solução arquitetônica, há aqui um significado místico, uma progressão ascendente que põe em evidência a quadratura do círculo, a conversão do material – octogonal, como primeiro desenvolvimento do quadrado, a forma – no sagrado, simbolizado neste caso pelo círculo. A plasmação geométrica que resolve a tão desejada formulação matemática dos franco-mações, alquimistas e cabalistas medievais, terra e céu unidos num recinto sagrado.

Além disso, na esplanada em que foram construídas as mesquitas de Omar e Al-Aqsa ficava, todavia, um muro da época do Templo de Salomão, o chamado Muro Ocidental ou Muro das Lamentações, como é conhecido hoje em dia, convertendo-se por isso em um importante lugar de pregações para os judeus. Se a tudo isso acrescentamos que metros abaixo se encontra o santo sepulcro da tumba de Jesus Cristo, segundo a Igreja Católica, está explicado o fato de Jerusalém ser considerada a capital religiosa de judeus, mulçumanos e cristãos.

Retomando suas origens, para dar mais legitimidade à Ordem, os Templários buscaram o reconhecimento da Igreja jurando fidelidade a Teocleto, patriarca de Jerusalém, a que consideravam o 67º sucessor do apóstolo João, outra peculiaridade a mais dos Templários, cuja veneração pelo apóstolo João está ligada a uma visão mais gnóstica dos Evangelhos. Assumiram a regra de Santo Agostinho e fizeram votos de pobreza até o ponto de se fazerem chamar Pobres Cavaleiros de Cristo. Momento a partir do qual se ocuparam da proteção dos cristãos em Jerusalém, seus caminhos e arredores.

No que refere a regra Hugues de Payns se serviu de um de seus amigos com grande influência na monarquia e no clero daquela época, São Bernardo, fundador da abadia de Claraval e pertencente à Ordem do Císter. Uma Ordem que até a fundação do Templo foi refúgio para cavaleiros e trovadores que, cansados dos exemplos cortesãos, decidiam retirar-se para a vida contemplativa. Fundada em 1098 por São Roberto na abadia de Citeaux, França, se propunha a renovação e recuperação dos ideais beneditinos, desbancando a outrora toda poderosa Ordem de Cluny, da que procedia e cuja regra emendava em uma tentativa para regressar à pureza da regra original.

São Bernardo de Claraval seria quem redigiria os estatuto da Ordem do Templo, baseando-se na regra de Santo Agostinho. Animando inclusive a seus familiares – entre eles, os condes de Champagne – para que participassem em sua fundação com doações e legados. De fato seu tio André de Montbard será um dos nove cavaleiros fundadores.

Inicialmente se havia estabelecido questões de consciência perante a idéia de uma militância cristã somente – parecia contraditória com a mensagem pacificadora e amorosa de Cristo. Porém, a defesa acalorada que realizou com seu texto De Laudi Novae Militiae (elogios à nova militância) durante o concílio de Troyes, celebrado na França em 1128, permitiu a Ordem de o Templo obter finalmente o reconhecimento do Papa Honório II. Para afastar qualquer sombra de dúvida, a bula Omne Datum Optimum, publicada em 1139 por Inocêncio II, reconhecia os Templários como defensores da Igreja por expressa vontade divina antes adversários e inimigos de Cristo.

Desde então suas vidas permaneceram perfeitamente regradas, entre eles os votos de celibatos ou de pobreza, a par de seus signos perfeitamente definidos. Seu estandarte, o Baussant, bandeira partida em dois quartéis, um branco e outro preto e onde junto com a cruz templária aparece a divisa da Ordem Non Nobis, Domine, Non Nobis, Sed Nomini Tuo Da Gloriam (não para nós, senhor, não para nós, mas para a glória de teu nome). Os selos, suas vestimentas. Em relação a estas últimas, deve-se saber que, atendendo a um sistema altamente hierárquico da Ordem, o grande mestre, os comendadores e os cavaleiros levavam um hábito branco, os capelães um hábito marrom, os sargentos um hábito cinza, igualmente aos escudeiros que se iniciavam na cavalaria, e os artesãos e domésticos um hábito negro, tentando com isso refletir igualmente uma escala evolutiva. Porém, cobrindo-se todos, ainda que não a levasse de maneira permanente, com uma capa branca como símbolo de pureza. E sobre o ombro esquerdo a cruz vermelha pátea.

Constituía-se então uma Ordem de Monges soldados cujos postulados eminentemente cristãos faziam conjugar a vida monástica com a atividade guerreira. Um ponto que sem dúvida não superará suas reticências iniciais debilitando sua legitimidade futura, dado que quebra em origem a mínima coerência teológica. E é que o conceito cristão de guerra justa em termos de guerra santa – como também acontece com seu equivalente islâmico de yihad – fica pervertido em seu sentido. Na tradição mais purista faz referência a uma atitude pessoal que o indivíduo deve ter consigo mesmo. O crente deve guerrear contra sua própria natureza inferior por expressá-la de alguma maneira, para poder ascender assim aos planos superiores de consciência e espiritualidade. Em contra partida, tomando o conceito em sua literalidade mais expressa, se extrapola em termos de combate físico contra o infiel, caindo no fanatismo religioso que distancia em muito do perfeccionismo espiritual que se busca no crente.

Mistérios e Lendas dos Templários

Logo no início há um fato estranho que questiona o sentido da ordem. Durante os nove primeiros anos não se incrementaram novos cavaleiros nem entraram em combate e, segundo alguns testemunhos, temia-se este momento, pois ainda que tivessem adeptos, não os haviam preparado. Se a isso se soma a mencionada inconsistência teológica, cabe pensar que suas finalidades ou ao menos seus objetivos mais importantes foram outros. Neste sentido não é de estranhar que sua história apareça especialmente ligada às sagradas relíquias: a lança de Longinos, o sudário de Jesus, o Santo Graal,. ou a própria Arca da Aliança.

Algum autor como Charpentier, em Os Mistérios Templários, aventou a hipótese de que os primeiros templários buscaram e encontraram a arca nas cavalariças do que em outros tempos foi o templo de Salomão e onde se alojaram (atualmente a mesquita de Al-Aqsa), sendo escoltada secretamente à França. A Arca da Aliança era um recipiente de ouro, rematado com asas de querubins, onde eram guardadas as Tábuas da Lei, com as que Moisés havia subscrito à nova aliança do povo judeu com Javé

Nos tempos de Salomão foram colocadas, junto à Arca, no sancta sanctorum do templo que mandou construir. Maimónides, filósofo árabe, citava sobre isso, a existência de uma cavidade secreta sob o templo com o objetivo de escondê-lo em caso de destruição, como assim sucedeu, e no qual presumivelmente os templários estiveram escavando.

Com a Arca, indica o autor, deviam encontrar além disso padrões e medidas próprias da geometria sagrada empregada para o Templo de Salomão e que depois utilizariam na construção das catedrais. Atrevida suposição, porém de alguma maneira explicaria por outro lado, a repentina e irrupção do estilo gótico na Europa de 1130, um enigma que a investigação histórica sempre estabeleceu.

Tão distinto do romântico, que lhe precede, o gótico tem um refinamento e uma complexidade que não pode se considerar evolução do romântico e, sem dúvida, aparece de repente, quase sempre nas abadias cistercienses intimamente ligadas à fundação do Templo. Se o romântico chega à sua plenitude depois de múltiplos melhoramentos, a partir do estilo romano e bizantino, o gótico comparativamente muito mais complexo, surge sem dúvida sem solução de continuidade, de golpe, completo e total. Aparece depois da primeira cruzada e especialmente após o retorno dos cavaleiros templários com seu segredo, de se estimar a dita suposição.

Um segredo que teria ligado a utilização de uma geometria sagrada na construção de templos e catedrais. Depositários de uma tradição oculta com seus capitéis e gárgulas, com suas galerias, a altura de suas agulhas, e campanários parece desvelar saberes antiqüíssimos herdados do Templo de Salomão, ou melhor, de Moisés, quem sem dúvida era formado nas técnicas de construção do antigo Egito.

Dali obteriam, seguindo com a hipótese de Charpentier, as relações geométricas que empregariam pouco depois na construção das catedrais. De fato serão encontradas nelas múltiplas inscrições relacionadas aos templários. A catedral gótica de Chartres, por exemplo, muito próximo à Paris, ou as mais tardias Capela da Abadia de Rosslyn, na Escócia, e a Igreja de Saint-Merry contêm inscrições sobre as sagradas relíquias além das relativas à Arca ou a outras expressões iniciáticas e ritualísticas, no pórtico desta última, construída no século XIX, se encontra a representação mais clara que conhecemos do Bafomet.

O fato de que se houvesse levado secretamente à França algum tipo de documento ou objeto, enlaça com um sucesso estranho que aparece séculos depois, em 1885, em uma população do sul da França, Rennes-le-Château. Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln, autores de “O Enigma Sagrado”, trazem à luz uma tradição oculta que se mescla com as lendas do Graal, o culto à Maria Madalena, os Cátaros. A Ordem de Sião e outras que circularam durante o período medieval – agora com presunção histórica e profusamente documentadas – e de cujo segredo eram conhecedores, segundo observam os autores, os templários.

Partem da suposição de que o Graal, a taça da última ceia e na qual José de Arimatéia recolhera o sangue do Cristo crucificado, houvera viajado junto à uma pequena comunidade cristã até a Europa, até o sul da França ou ao País de Gales, Inglaterra, dependendo da tradição do lugar. Em todo caso o significado disso é que como cabeça da incipiente comunidade estava Maria Madalena, quem aparece como esposa de Jesus e em cujo seio levava sua descendência. Os merovíngios, seguindo a linha interpretativa dos autores, reivindicaram esta linhagem, que havia sido preservada ao longo da história pela Ordem do Triorato de Sion. De fato, há os que consideram que a expressão Graal provém de San Greal, sangue real, o qual entroncaria com a própria legitimidade ao trono de Jesus de Nazaré, quem descendia por sua vez do rei David.

Há os que prosseguem, inclusive afirmando que o culto à Maria, professado pelos Templários – os quais cunham de fato em suas catedrais o nome de nossa senhora – se referia à Maria Madalena. Independentemente de que este extremo fora o não-constatável, o certo é que suas virgens negras, por outra parte, ocultam antigos cultos de outras tradições pagãs. Guardam relação neste caso com o culto à Mãe Terra que viva na bacia mediterrânea antes dos cristãos. E aqui nos remontamos ao Egito faraônico, dado que os antigos egípcios identificavam a cor negra – a que tinha o limo do Nilo quando transbordava nutrindo a bacia – como uma prova inequívoca da fertilidade da terra.

Era um culto essencialmente feminino, baseando-se no fato da terra comparada à mulher ser procriadora de vida. Uma explicação que entronca com a que Fulcanelli dava em “Os Mistérios das Catedrais”, quando nos indica que a imagem da deusa Ísis em basalto negro era venerada nas criptas dos antigos templos egípcios. De maneira análoga, suas representações com seu filho Órus no colo passariam a fazer parte da iconografia cristã, convertida agora nas prolíficas cenas de maternidade da virgem com o menino.

O Processo dos Templários

Após os reveses da sétima cruzada, Gregório X desejava integrar às distintas forças religiosas que atuavam na terra santa com o fim de apresentar uma frente única e mais fortalecida ante ao assédio dos muçulmanos. Assim, no concílio de Lion convocado em 1274 se planejou reunir as ordens do Templo e dos Hospitaleiros, porém a negativa dos reis de Castela e de Aragão fez fracassar a iniciativa. A proposta voltou a ser planejada anos mais tarde, durante o pontificado de Clemente V, com a negativa neste caso de Jacques de Molay, grande mestre do Templo neste período. Inclusive o monarca francês Felipe IV – que, além da tática política ou militar em Jerusalém, tentou pôr limites ao poder do Templo – chegou a planejar a integração de ordens militar-religiosas sob o comando único de um de seus filhos.

O rechaço da fusão por parte dos Templários deixava o campo livre para os inimigos, que tentaram a partir desse momento lhes debilitar. As primeiras acusações, servindo-se de simples rumores infundados, se apresentaram no Conclave de Perúgia de 1305, na região de Agen, por um personagem anônimo até então, Esquiú de Floyrano. A partir desse momento, buscaram-se testemunhas de peso entre os que foram excluídos ou expulsos da ordem e inclusive foram introduzidos espiões, tudo isso sobre a instrução de Guillaume de Nogaret, arcebispo de Narbona e homem de confiança do monarca francês. Os motivos do processamento dos Templários, como já temos adiantado, provinham fundamentalmente das desconfianças geradas por seu enorme poder e riqueza. Quando Felipe IV informou ao Papa Clemente V, obteve de imediato a autorização. Na manhã da sexta-feira 13 de outubro de 1307 – data que a partir de então começa a ser considerada fatídica pela superstição popular – os soldados conduzidos por emissários do rei se apresentaram em todas as encomendas templárias para arrastá-los curiosamente, sem oposição alguma de sua parte. Requisitaram seus bens e fizeram públicas suas acusações.

É evidente que se se dispusessem dos arquivos das diversas encomendas, se faria rapidamente luz sobre seu processamento. Sem dúvida não apareceu nada neste sentido, o que faz suspeitar que a maior parte dos papéis tenha sido destruída. Falta dizer que o procedimento carecia de qualquer garantia, para não dizer de qualquer presunção de veracidade, dado que não havia intenção de esclarecer os fatos, mas sim a de submeter e por tanto condenar um movimento política e religiosamente muito influente. Não obstante, a investigação histórica coincide em assinalar os seguintes pontos de condenação:

Na celebração da missa, os capelães da Ordem não consagravam a hóstia, convertendo-a em uma cerimônia pagã.

Os templários estavam autorizados e até eram estimulados a praticar a sodomia e outras perversões sexuais.

A cerimônia oficial de admissão à Ordem era seguida de outra secreta, durante a qual o postulante era convidado a cuspir na cruz e a renegar Cristo.

Nos rituais secretos, seus dignitários adoravam uma cabeça que tinha aspecto diabólico e à que denominavam Bafomet.

Desde o mais simples sentido comum, não cabe pensar que pessoas que entregavam seu patrimônio e ofereciam sua vida pela defesa de ideais acabaram realizando práticas contraditórias com o seu credo. Talvez pudessem existir abusos localizados, porém em todo caso não deixariam de ser a exceção que confirma a regra. Inclusive entre os mesmos apóstolos, noutra ordem de coisas, se produziram feitos pontuais que minariam a coesão do grupo. Pedro, por exemplo, negou Jesus por três vezes e Judas o traiu. Porém, nem por isso se invalida a atuação dos apóstolos, nem sequer a de Pedro, considerado ao contrário cabeça da própria Igreja.

Sem dúvida suas práticas ritualísticas iam além da literalidade de suas acusações. Já é difícil entender que pudessem generalizar-se tais práticas assim entendidas, porém muito menos que estivessem instituídas na ritualísticas da ordem se não tivessem um sentido mais profundo e distinto do que se deu para lhes condenar. Cabe entender melhor que guardavam um caráter simbólico – lógico em um contexto cerimonial como este – do que, ao contrário nunca se falou para seu desencargo.

Em relação ao primeiro ponto mencionado a fórmula empregada na consagração ao comungar é um assunto de pura liturgia e não tem nada a ver nem questiona em absoluto a fé de seus praticantes. A seguinte suposição, o rito que consiste em cuspir na cruz, mencionado em segundo lugar, sem dúvida se torna mais controvertido. Porém, representava uma maneira explícita e atrevida, sem falsos olhares, de negar o Cristo crucificado, demasiadamente presente dentro da dogmática católica e inclusiva, dentro da arte, na própria iconografia cristã – em favor de um Cristo ressuscitado e glorificado. Era uma maneira de recuperar a dignidade cristã, que do contrário podia ser interpretada em termos de fraqueza e de fracasso.

Se a prédica de Cristo estava confinada ruidosamente ao fracasso, na medida em que era incapaz de transformar a atitude dos mandatários e de uma sociedade que majoritariamente o condenava, poderíamos nos basear em que exemplo de vida a seguir se converteu seu testemunho. Certamente não é este o sentido que se deve dar- à sua mensagem, porém sem dúvida, acreditemos ou não, tal desmerecimento está profundamente arraigado na mentalidade cristã.

Fixar-se na crucificação é ficar a meio caminho. Certamente, a morte de Cristo, além da morte vem representar a morte do ego. Pressupõe em algum medida atenuar, dominar nosso comportamento primário e inclusive nossa mais refinada personalidade, facilmente entregue a banalidades de diversos tipos, como por exemplo a busca de status, o reconhecimento, a ostentação de poder, etc. Porém, o último propósito não é este – ainda que em semelhante contexto se deva passar por isso – mas a ressurreição em outros termos, aspira à luz do conhecimento renascendo em amor.

Recordemos a passagem do novo testamento em que Jesus respondia a uma indicação que lhe faziam em relação à sua mãe e irmãos, aqueles que lhes esperavam na porta. Respondeu então que sua família era a daqueles que ouviam a palavra de Deus e a seguiam. Quer dizer, que a autêntica irmandade de Cristo, o que podemos entender como verdadeira cristandade, é a daqueles que escutam sua voz interior – para empregar uma expressão mais contemporânea, e a seguem. A favor, por tanto, segundo seu próprio testemunho de uma vontade de serviço e de realização distinta da que se tem assim como simples centro de satisfação egocêntrica, certamente, porém também distinta, de quem a entende como caminho de cruenta mortificação e sofrimento.

Por outro lado, a crucificação tão pouco tem o sentido católico que normalmente lhe atribuem: sofrer em vida para após a morte obter a glória eterna. Um dos ecos mais referidos em nossa cultura religiosa. Jesus mesmo, sentindo a aproximação de seu martírio podia ter dado um passo atrás e inclusive ter utilizado seu próprio poder para salvar a situação. Sem dúvida não o fez, esteve tentado, certamente recordemos como, antes de ser apressado, passou sua noite escura em Getsemaní. Enquanto orava rogou que lhe fosse afastada esta prova, desse cálice, como expressou. Se bem que de imediato retificou: Que não seja minha vontade, senhor, mas sim a tua.

A mensagem de fundo que se translúcida altera completamente o sentido da crucificação. A vida pode não valer a pena ser vivida, não porque a mortificação tenha um valor de salvação em si, mas quando atraiçoa a fé, seus ideais inclusive, para repetir em expressões mais contemporâneas, seus sonhos. A crucificação de Jesus, portanto, tem um sentido distinto além do puramente explícito. É uma mensagem de fé, de força, de vontade, de determinação que arroja para longe de si qualquer medo, qualquer dúvida sobre o caminho de realização pessoal – o segundo se expressava então, de salvação. Inclusive ainda que nele se vá nossa vida.

Ademais, Cristo com seu exemplo não só percorreu, mas traçou um mapa, desenhou um itinerário espiritual com marcos e conquistas de desenvolvimento pessoal. Redimiu-nos na medida em que seu testemunho, por efeito de ressonância, impregnou a filogenia de nossa espécie. Abriu uma brecha, facilitando-nos o caminho. A nós não é estranho portanto que, nos Templários, houvesse uma tentativa para desviar sua mensagem da crucificação e pôr o acento na glorificação e sua ressurreição. O resto das atuações – presumivelmente condenatórias, por serem certas, como a sodomia ou as perversões sexuais – deverão ser explicadas igualmente, como viemos fazendo, à luz do simbolismo próprio do cristianismo primitivo e dos mistérios iniciáticos antigos, demarcado o caráter gnóstico. Inicialmente, as acusações vieram pelo ciúme da ordem, a bula moldada em chumbo e prata, e na que se representava um cavalo montado por dois cavaleiros Templários. Sua origem se remonta aos momentos da fundação, quando Balduíno II lhes ofereceu seu palácio próximo das ruínas que foram o antigo Templo de Salomão. Então receberam o apelido de Pobres Soldados do Templo de Salomão, pois careciam de patrimônio – coisa que mudaria pouco tempo depois.

Sua modesta inicialmente era manifestada ao compartilhar um só cavalo, como aparecia no selo, também tinham a intenção passar o significado de irmandade. Os dois cavaleiros representavam a dualidade do mundo manifestado, porém unida por laços de amor e fraternidade. Frente à iconografia triunfante do cavaleiro sobre seu cavalo, próprio das representações eqüestres posteriores, a simbologia do selo implicava na unidade da ação de um coletivo humano em um mesmo espírito de serviço quer dizer, queriam mostrar a idéia de uma irmandade ou de uma fraternidade propriamente dita.

Longe de entender desta forma, Felipe IV insinuou que os dois cavaleiros sobre uma só montaria demonstravam um ato de sodomia. Preferiu empregar a difamação ao objeto, não trazer clareza ao processo, mas minar e desprestigiar a legitimidade do templo. Uma interpretação que acabou se impondo sobre a origem de seus fundadores ao somar a ambigüidade de outras práticas empregadas em suas cerimônias. Retiradas de seu contexto ritualístico, interpretadas tendenciosamente em termos de uma moralidade distorcida, não deixa dúvidas que acabariam sendo controvertidas para a época.

Nas recepções por exemplo, o comendador dava o beijo da paz na boca do aspirante, e inclusive, em algumas outras cerimônias, lhes beijava a parte inferior da escápula (omoplata) com objetivo de abrir seu plexo ou centro energético – o Mulhadhara Chackra dos orientais. Longe de toda conotação sensual, significava a transmissão do alento sagrado que nos faz lembrar o episódio do Gênesis, quando o criador, após moldar o homem de barro, Lhe insufla o rosto com seu próprio sopro, o alento da vida. É equivalente também as cerimônias de unção, próprias do cristianismo, para receber um sacramento ou a imposição de mãos características dos rituais de iniciação das escolas mistéricas, mediante as quais se transmitia ao neófito um legado ou um dom especial da tradição em questão.

Porém, sem dúvida, um dos segredos mais enigmáticos foi o do Bafomet, cuja decifração dá em cheio no seu sistema de crenças. Tratava-se de uma cabeça que, segundo a instrução do processo, teria um aspecto diabólico e a qual seus dignitários supostamente adoravam.

Novamente retirado de seu contexto ritualístico, foi qualificado como ídolo, chegando a figurar entre suas principais acusações.

Significado do Bafomet

Diversas interpretações  tem sido dadas a este respeito. Desde considerá-lo como a representação do próprio Cristo, extraída do Madylion ou pano em que seu rosto foi enxugado na via sacra até o gólgota, ou a do próprio Maomé baseando-se etimologicamente em uma presumível adulteração do nome do profeta, Mahomet, com o que se poria de manifesto da influência islâmica.

Parecem-nos mais própria as que o emolduram dentro de um contexto iniciático. O escritor sufi Idries Shah acertadamente o interpretava como uma corrupção da palavra árabe Abufihamat, pronunciado bufihamat, que significa mestre de entendimento. Representa para o sufismo o estado mental que o homem chega após passar por um processo de purificação. Segundo outras teorias, igualmente afortunadas, poderia vir também da combinação das palavras gregas Baph e Metis, cuja tradução é bautismo de sabedoria. Uma hipótese que poderia explicar o fato de que se os templários venerassem alguma cabeça, como parece suceder, esta seria a de João Batista, decapitado por Herodes.

Hugo Shonfield, um dos primeiros investigadores dos manuscritos do Mar Morto e bom conhecedor da história dos templários, o interpreta em termos cabalísticos.

Considera que a palavra Bafomet está escrita em código Atbash, código hebreu que combina a primeira letra do alfabeto, Aleph, com a última, tau, a segunda com a penúltima e assim sucessivamente. Ao fazer as substituições se obtém a palavra grega Sofia, que significa sabedoria.

Estas últimas sem dúvida, e independentemente  estão de acordo ou não com a origem do termo, dão conceitualmente a chave. O Bafomet como abertamente expressa Iacobus em seu opúsculo sobre Rituais Secretos dos Templários, é o guardião do umbral, figura chave nas cerimônias ritualísticas de iniciação das escolas de mistérios. Tinha neste caso o aspecto de carneiro, próprio das representações demoníacas da iconografia cristã. Porém, vinha representar sem dúvida, as tentações a serem enfrentadas pelo candidato antes de passar a cavaleiro. Vinha nos recordar que somente um ser purificado pode entrar no templo da sabedoria. Esta representação tão controvertida, para quem interpreta externamente, muda no momento em que é associada, como vemos em seu contexto.

Nos mistérios egípcios o papel de guardião do umbral estava representado pele esfinge, que estabelecia para o neófito um enigma com objetivo de comprovar sua capacidade e determinação. Sua passagem para os ensinamentos superiores dependia da resposta. O próprio Jesus, sem ir mais longe, no âmbito de nossa tradição judaico-cristã, teve que conquistar seu próprio merecimento superando as tentações que o diabo lhe impôs no deserto, quem assumia neste momento o papel de guardião dos mistérios.

A leitura se torna clara, é a representação do aspecto psíquico do homem imerso na matéria. O guardião do umbral representava assim, em um contexto cristão como este, o diabo pessoal que o aspirante deve vencer em sua busca iniciática de aperfeiçoamento e sabedoria. Isto supõe vencê-lo ao ponto de transmutar suas dúvidas por determinação, sua ignorância por sua latente sabedoria, despertando o discernimento e a intuição para poder ouvir a voz interior é necessário poder seguir e vencer os presumíveis obstáculos que vão aparecer no caminho de aperfeiçoamento e purificação.

Logo após, quando chegar o momento, deverá se confrontar e vencer o diabo coletivo, Lúcifer, Satanás, Iblis ou Ahriman, dependendo do contexto religioso que nos encontremos. Sua dimensão coletiva ou social, neste último caso, vem dada pela turva criação humana, a sujeira ou poluição psíquica derivada de seus maus desejos e pensamentos. Da exploração indiscriminada, não só da natureza, mas de seus congêneres humanos, da riqueza em detrimento da pobreza dos demais, e principalmente de sua desarmonia com a natureza, da qual deveríamos ser defensores.

Porém, nem tudo está perdido. O Bafomed levava na fronte uma esmeralda luminosa em forma de octógono, ou seja, encerrava em si mesmo a alma e seu despertar, a luz, a verdade. O guardião portanto, tange não mais que as paixões humanas e prova nossa capacidade de superação e determinação. Dessa maneira o homem, mesmo caído envelhecido na matéria, é portador igualmente – simbolizado pela pedra preciosa – de uma esperança latente que lhe permite retornar novamente a Deus.

O Final da Ordem

Alguns se retrataram e juraram sua inocência, outros confirmaram as acusações. Ante as dúvidas que pesava a tudo que ponderava, e sob a pressão de Felipe o Belo, Clemente V convocou em 1311 o Concílio de Viena, onde embora não se condenasse a ordem, poria fim às suas atividades. Quanto a seus bens, com exceção dos que o rei francês já havia confiscado, seriam devolvidos aos Hospitaleiros, cujas atividades se limitavam a atenção de pobres e enfermos.

De acordo com as decisões tomadas no concílio, os templários que confirmaram sua confiança na presença do Papa, foram perdoados e liberados. Os que não se retrataram foram acusados de perjúrio e heresia, sendo condenados à fogueira. Faltava resolver o caso dos altos dignitários da Ordem, Jaques de Molay, Gran Mestre, Hugues de Pairaud, Visitante da França, Geoffroy de Charnay, Preceptor da Normandia, e Geofroy de Gonneville, Preceptor de Aquitânia. Durante seu processo público foram condenados a prisão perpétua. Porém, quando foi anunciada a sentença, Jacques de Molay y Geoffroy de Charnay se levantaram e se retrataram, afirmando que seu único crime consistia em fazer uma falsa confissão para salvar suas vidas. A partir desse momento, ficaram destinados à fogueira.

Em 18 de março de 1314, foi erguida uma fogueira em Paris, próxima à ponte nova. Os condenados subiram nela nessa tarde. Após girar o rosto para Notre Dame, Jaques de Molay gritou mais uma vez sua inocência e a da Ordem. Conta-se que exclamou: “Não somos culpados dos crimes que nos são impostos. A regra do Templo é santa, justa e cristã, porém eu mereço a morte porque traí a Ordem para salvar minha vida. É certo que vou morrer, porém logo cairá a desgraça sobre os que nos condenaram sem justiça. Tu Clemente e Tu Felipe, traidores da fé cristã, os convoco ante o tribunal de Deus! A ti, Clemente em quarenta dias, e a ti, Felipe no decorrer do ano.”

Certamente, assim ocorreu; O Papa morreu devido a uma enfermidade um mês depois, enquanto que o Rei morreu no mesmo ano, em 29 de novembro de 1314, em um acidente de caça.

Bibliografia

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Nicolás Martín y Mateo

As fraternidades dos construtores de catedrais

O que é uma catedral?

A catedral surge inicialmente da necessidade de reformar as antigas Igrejas e basílicas para dar espaço a mais fiéis. Não se deve esquecer que, conforme se vai superando a etapa do período Medieval de isolamento, começa-se a favorecer a vida em pequenos núcleos urbanos e a centralizar a atividade econômica e social nos principais povoados. A cultura rural cede terreno em favor da corte e como necessidade de engrandecer o que se oferecia como obra a Deus as igrejas são reconstruídas, ainda maiores, como catedrais.

A revitalização da fé dá lugar à Cruzada das Catedrais, e em meados do século XII se estende por toda a Europa a febre de construir belas igrejas, em estilo gótico, considerado ainda como a maior contribuição ao mundo da arte e da arquitetura.

Esse estilo foi uma evolução do românico, ainda que não em todos os lugares da mesma maneira nem ao mesmo tempo; o processo foi lento e acidentado, combinando ingenuidade, inspiração e força muscular, para criar monumentos dignos da sua fé. Na medida em que a construção ganhava em altura, fazia-se mais necessário adaptar os conhecimentos e a técnica construtiva.

Nas palavras do professor Auguste Choisy: “Assim é, no que diz respeito ao sistema geral de equilíbrio, a economia de nossas grandes construções góticas: o essencial do mecanismo estático se reduz às nervuras que permitem dirigir os estímulos e os arcobotantes que os anulam à distância. Graças a esses membros auxiliares, o construtor se apodera dos estímulos desenvolvidos pelas abóbadas e consegue reduzir a construção nas suas partes ativas ao livrá-lo de suas massas inertes. Privado de meios poderosos, o artista os supre à força de combinações”.

Ajudam de maneira eficaz o processo de expansão das construções as pugnas entre os bispos das diferentes dioceses para construir a maior e mais ricamente decorada catedral, roçando o anedótico o fato de que disputavam os melhores Mestres Construtores da época, que aproveitaram a oportunidade para melhorar sua posição social.

No estudo pormenorizado dos monumentos que chegaram quase intactos até os nossos dias, podem-se observar todas as combinações possíveis, desde as que refletem genuinamente o estilo, como é o caso das catedrais de Chartres, Notre-Dame e Bourges, na França, até as que se limitam a construir o exterior refletindo o estilo gótico, mantendo integralmente no seu interior o estilo românico, como é o caso da catedral de Peterborough, na Grã Bretanha. Há ainda catedrais cujos muros são totalmente absorvidos pelos vitrais, o que supõe o ganho de luz, como é o caso da catedral de Sainte-Chapelle, em Paris, com construção ordenada pelo Rei Luis IX entre 1239 e 1246.

Da robustez e sobriedade da construção românica se passa à grandiosidade de pilares que se erguem ao céu, rematados por arcos e abóbadas que querem tocar o firmamento, aproximando as estrelas, enquanto a magia da luz se projeta através dos maravilhosos vitrais, alcançando com seus raios até o último canto, dando vida aos símbolos alquímicos que esperam a oportunidade de serem despertados pelo peregrino que habita dentro de todos nós.

Anatomia construtiva

Paradoxalmente, o aspecto mais importante na construção da catedral não está nas suas partes visíveis.

É sabido que existe um tipo de geografia sagrada, em que se localizam determinados lugares como pontos energéticos de uma especial carga positiva ou espiritual. Esses lugares, eleitos desde o início dos tempos e marcados por lugares de culto e templos, foram sobrepostos em cada cultura ou civilização que os ocupou até os nossos dias. É por isso que construir um templo num lugar determinado não é fruto da casualidade, mas da causalidade que determina esse lugar como especial; é o Espaço Sagrado. E assim sobre templos pagãos se construíram as primeiras igrejas e sobre elas as catedrais conformando uma figura mágica que se projeta no firmamento, sob o olhar do Grande Arquiteto.

Na forma física das Catedrais, se observam três partes fundamentais:

– Subterrânea, que se refere ao corpo físico e é composta da cripta, galerias e passadiços. Esse mundo subterrâneo não é um inferno, mas o Céu ao revés, lugar onde radicam as forças telúricas, onde se enterra a semente para que possa germinar, relacionado com o culto às virgens negras veneradas nas criptas, lugar sombrio e úmido. Lugar de ressurreição e transmutação, representa a matriz da vida e primitivamente o culto à Deusa Mãe. A cripta guarda os segredos da vida e da morte.

– Terra e atmosfera, que se referem à Alma. É do rés do chão até a primeira altura, onde se encontra a parte principal do culto, o abside, o pavilhão, os pavilhões laterais, os cruzeiros, deambulatórios e capelas. Esse é o meio em que se desenvolve a vida, montanhas, rios, vento e chuva, simbolicamente; alimento, energias, animação e movimento conformam este habitat do horizontal, onde cresce e floresce um mundo de dualidade às vezes representado por alternância de ladrilhos negros e brancos. É um espaço governado pelo ritmo das estações que marcam os ritos e celebrações e as horas do dia, como um micro-ciclo mágico em que se alternam sol e trevas.

– Céu, que se refere ao Espírito e é formado das zonas mais altas da Catedral, as abóbadas e as torres. Como o mais elevado ponto de união do terrestre e do celeste, sede da luz e das potências solares que se expressam através dos reflexos que se projetam nas abóbadas, pontos de coesão da construção onde se repartem entre as colunas as forças e cargas através da pedra chave. A construção simula uma barca invertida, como barca que sulca o céu.

Nessas três partes se divide também o Universo e o próprio homem, já que nele está essa divisão vertical representando os três estados fundamentais como Seres Humanos encarnados. Dessa forma, o Mundo, o Templo e o Homem estão criados com o mesmo modelo.

Na planta, se encontra o presbitério, o cruzeiro e a barca.

No vertical, a cripta, o solo e a abóbada com sua agulha no centro do cruzeiro.

Na fachada, as portas, os vitrais, as rosáceas e as agulhas.

Para que se constrói uma catedral?

Exaltação da fé

As catedrais, historicamente, “serviram para unir o povo em torno de uma causa em comum, a causa da fé”, nas palavras de Abad Suger, promotor e Mestre de Obras da reforma da Igreja de Saint-Denis, primeira construção gótica no ano 1140.

Promovia-se a arrecadação popular com procissões às relíquias do Santo local, que dera lugar a tão magníficas construções como característica comum e servira para manter o clero somando as doações dos nobres. Esses fatores foram devidamente canalizados pelos poderes fáticos da época, num período de enorme instabilidade e de guerras permanentes pela manutenção do poder nas distintas casas reais, com o poder da Igreja agindo como catalisador.

Uso leigo das catedrais

Também foram utilizadas para as grandes reuniões das diferentes confrarias e grêmios, em que discutiam seus problemas particulares e se organizavam; em troca, doavam um vitral. Além do mais, a Igreja teve de fazer determinadas concessões, como no caso da utilização das catedrais para reuniões, celebrações, assembléias civis, festas e teatro, atuando como verdadeiros centros cívicos.

Registra-se o caso curioso da catedral de Laon, onde uma vez por ano, na festa dos Santos Inocentes, as crianças do coral dirigiam os ofícios religiosos e com zombaria cantavam uma réplica da santa Missa, sendo proibida a entrada de membros do clero nessa celebração. A essa festa se somava outra sátira ainda maior que era a da festa dos tontos, onde o “Tonto” do povo era nomeado papa e presidia um concílio; o carnaval terminava com a procissão dos “Ociosos”, na qual, parodiando as procissões do alto clero, os mais esfarrapados e sujos do povo ocupavam a posição mais proeminente. O clero era consciente de que se não tivesse sido por essas concessões, não haveria contado com a vontade popular para levar a cabo as construções e conseguir as doações necessárias que os arrecadadores de impostos não conseguiam a força.

O ato mágico da criação

Paralelamente a isso, no plano esotérico, os Mestres Construtores foram deixando na obra todo um compêndio de conhecimentos que aproximavam o homem da sua transmutação interior.

O homem Cósmico dá lugar ao plano da Catedral, cada parte deste guarda relação com uma parte do corpo Humano, como uma necessidade de que se crie uma sintonia entre o Homem e o Cosmos, como uma simpatia vibratória entre os órgãos do corpo humano e esses outros órgãos superiores que conformam o Corpo do Cosmos. Desse modo, a planta da construção se assemelha a um homem com os braços abertos, seus pés são a entrada e a fachada da Catedral, suas pernas e tronco os pavilhões, seus braços os dois cruzeiros centrados no coração e o círculo da abside, a cabeça.

A entrada ao templo representa a entrada ao corpo do homem: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses”.

À semelhança dos três níveis do Universo, há três ciências divinas que ordenam o mundo:

– o Número qualifica o Espírito;

– a Geometria, a Alma;

– a Arquitetura, o corpo.

A Catedral sintetiza a Idéia, a Forma e a Substância.

A Catedral transmuta o homem profano em homem sagrado, esse é o sentido fundamental da Catedral e a Alquimia que se encerra em seus muros.

Sua forma de navio invertido lhe dá o sentido profundo da navegação por um estado especial da consciência, um tipo de Pátria Celeste em que se comunica o que há de mais elevado no Homem com o mais elevado no Universo.

O sentido do vertical valoriza a Luz como expressão mais perfeita da presença de Deus; a magnificência das formas e os espaços belamente ordenados aproximam a percepção quase arquetípica da harmonia da Natureza, feita de pedra, desafiando os séculos.

A Alquimia da Criação

As fases da construção reproduziam as etapas Bíblicas da Criação do Mundo:

1. A escolha do lugar.

2. Determinação do eixo vertical.

3. Orientação do espaço ou quadrado do Céu.

4. Quadratura do círculo primitivo ou quadrado da Terra.

5. Construção.

6. Consagração da construção terminada.

7. Descanso.

As fraternidades dos construtores de catedrais

É na conjunção entre o monge e o artesão que se gera o construtor, abarcando desde o Mestre de Obras até o peão, como último escalão da cadeia construtora.

E é na Escola-Catedral que nasce a Loja iniciática na qual a Teologia, a Gramática, a Geometria, a Aritmética, a Astrologia, a Alquimia e outros conhecimentos tradicionais se canalizam de maneira magistral para dar lugar à criação, imitando o Grande Demiurgo.

A loja dos construtores

O Mestre de Obras é o homem fundamental na construção física da catedral e geralmente era o Grande Mestre da Loja local. Esse homem, que com o tempo e a experiência passou de um bom pedreiro a arquiteto, é o encarregado de delimitar o espaço sagrado que forma a planta da Catedral e é quem dirige os grêmios dos carpinteiros, entalhadores, canteiros, pedreiros, vidraceiros e todos os seus peões. O trabalho da construção de uma catedral implicava toda a população do lugar e em muitos casos demandava a contratação de mão-de-obra vinda de outras localidades.

Uma jornada de trabalho

Algumas marteladas ao amanhecer dão início à jornada quando apenas despontam os primeiros raios do Grande Regente. Os monges iniciam suas orações e em procissão vão chamando os operários em seus lugares de descanso nos dormitórios, celeiros, sob as carretas ou em pleno campo no verão.

Após as orações, no ponto de reunião, são passadas as ordens do dia e os trabalhos são distribuídos. Toma-se o café-da-manhã e começam os trabalhos.

O trabalho se desenvolve em silêncio, unicamente interrompido pelo som das ferramentas e pelas ordens do capataz e do pedreiro; isso porque nos primeiros 50 anos a atividade era de caráter monástico e seguia suas regras.

A jornada era de sol a sol e às vezes se trabalhava com tochas após o anoitecer. Deve-se ter em conta que no período de inverno o trabalho era diminuído pelas inclemências do tempo.

Após um bom jantar, entretenimentos e alguns jogos, os trabalhadores regressavam ao seu lugar de descanso no dormitório, no celeiro, na carreta ou sob as estrelas, para dormir.

Organização na construção

Alcançar o grau de pedreiro na Idade Média era equiparável à profissão de Arquiteto atualmente, já que na Loja se ensinava a conhecer todos os detalhes da construção, desde a elaboração de projetos, planos, pressupostos, até os últimos detalhes no processo de acabamento da obra.

Mas nem todos estavam capacitados para chegar a esse grau e, por isso, na construção se estabelecia uma escala de atividade em ordem hierárquica com o seguinte desenvolvimento:

– Primeiro estava o Mestre Pedreiro, ou Mestre de Obras, que era auxiliado por um oficial e vários capatazes.

– O oficial, ou intendente, se ocupava dos detalhes administrativos, calculava o pessoal, materiais e períodos para cada etapa da construção.

– Os capatazes eram os encarregados das obras e se lhes imputavam os erros que os trabalhadores pudessem cometer, pois estes não deveriam trabalhar além de suas possibilidades.

– Os peões cortavam a pedra e a colocavam.

– Os canteiros talhavam a pedra branda para a moldura de portas e janelas; isso incluía os vãos onde se instalavam os vitrais e as rosáceas.

– Os entalhadores trabalhavam em pedra dura e alabastro, lapidavam estátuas e relevos ornamentais; eram os escultores.

– Outras sociedades, como as dos carpinteiros, ferreiros, curtidores, pintores, tecelões e outros artesãos viajavam com seus utensílios de obra em obra.

Quando um membro da Loja viajava para outra localidade, não tinha que levar dinheiro nem ferramentas. Considerando a insegurança dos caminhos na época, sendo provável que fosse assaltado perdendo todos os seus pertences e inclusive a vida, estabeleceu-se um sistema de proteção, de maneira que após os sinais de reconhecimento, cuidadosamente guardados por seus membros, ao “Companheiro” visitante era proporcionado trabalho, ferramentas e o dinheiro necessário para seu estabelecimento por conta de seus honorários pelo trabalho a realizar. E se nesse lugar não havia trabalho para ele proporcionavam-lhe o necessário para continuar sua viagem informando-o de outras possíveis obras na comarca.

Nos seus deslocamentos, aproveitavam para conhecer e memorizar os planos de construção das obras que visitavam e ofereciam novos detalhes e planos à loja visitada, criando toda uma corrente de informação e de formação que aproveitavam com avidez.

Os canteiros normalmente realizavam seus trabalhos no recinto da Loja ou na obra, mas se tinham que economizar tempo trabalhavam na pedreira onde se cortavam as pedras, e os últimos detalhes faziam depois na construção.

No início, a construção da Loja apenas dispunha de uma oficina; com o tempo, se complementou com habitações e espaços especiais de reunião. Os canteiros cobravam por peça finalizada e marcada. Um capataz a revisava e voltava a marcá-la, e se o pedreiro que fazia o último controle encontrava algum defeito, o capataz era penalizado na sua remuneração.

O pior erro que se podia cometer era deformar uma pedra durante a sua colocação, depois de ter sido aprovada. Isso podia parar a construção, o culpado era multado, e a Loja impunha que a pedra fosse levada em procissão, coberta com um pano negro, acompanhada pelo canteiro culpado, também coberto de negro, até o “ossuário” ou “cemitério”, onde era enterrada a pedra. Depois, a comitiva regressava à Loja onde o culpado era chicoteado pelos seus companheiros. Enquanto os demais dormiam, ele tinha que polir uma nova pedra, e se no dia seguinte estivesse devidamente ajustada, era perdoado e tudo era esquecido, prosseguindo o trabalho.

Entre canteiros e peões existia a figura do servente: eram trabalhadores com sorte que tinham chamado a atenção do canteiro por suas qualidades e serviam de ajudantes, desbastando a pedra, preparando o concreto e conservando afiadas e em bom estado as ferramentas. Após um aprendizado de 7 anos com práticas de talhado simples, alcançava o grau de companheiro. Era submetido a uma prova: realizar um trabalho por si mesmo. Se os Mestres da Loja aprovassem seu trabalho e habilidade, lhe concediam o grau de mestre. Isso era celebrado presenteando-se cada capataz com um par de luvas e uma festa para toda a Loja.

A Loja dos Companheiros Construtores imprimia alguns conhecimentos tão profundos da essência das coisas, ordem, disciplina, idéia de grupo, companheirismo e eficácia, que é apreciável na magnificência e beleza que produz o fato de observar a obra acabada, como na obra alquímica se passa do grosseiro ao sutil e belo, após um sério e sistemático trabalho de purificação interior e exterior que se transmuta em harmonia e sentimento de identidade com o Universo.

Joaquín Palomo Robles

Nas nuvens…

Depois de vários dias fora do país, e quase sem oportunidade de receber notícias atualizadas, finalmente regresso num avião, em meio a grossas nuvens, com uma imensa franja luminosa por cima delas.

Estou nas nuvens… tal como se interpreta essa expressão, encontro-me um tanto fora da realidade cotidiana, ou no lugar onde eu gostaria de me esconder de vez em quando para me distanciar da opressão que se converte em rotina, sem se dar conta.

Nas nuvens me sinto flutuar na beleza da paisagem atípica, da qual emergem, de quando em quando, alguns picos erguidos, ou o brilho do amplo mar. Deixo-me levar pelas minhas músicas preferidas através de fones de ouvido que me isolam ainda mais. E, por fim, cedo à leitura de um jornal…

No início, leio sem entender, como se me encontrasse diante de uma linguagem completamente desconhecida e ilógica. Custa-me concentrar-me e aceitar que o que tenho diante de mim é o reflexo – ou pretende sê-lo – da realidade. A princípio me esforço por seguir nas nuvens. Mas em pouco tempo, quase dolorosamente, mergulho na leitura do que sei que é meu, que é parte da minha vida.

Ainda antes de o avião aterrissar, deixo de estar nas nuvens. Sinto a realidade antes de tocar a terra. Retomo o fio das mil lutas enlouquecidas que açoitam a minha terra e todos os cantos da terra, dos mil diálogos de surdos em que entender um ao outro não tem importância, das mil ambições que sacodem as pessoas, das palavras vazias e das frases feitas, de ansiedade por estar à frente ainda que seja por um curto espaço de tempo.

Volto a olhar através da estreita janela do avião para recuperar minha leveza anterior, para estar nas nuvens, mas já não posso. Estou na “realidade”, uma dura realidade com suas exigências.

Acreditar? Em todos e em ninguém.

Em todos, porque cada um tem algo para dizer e talvez tenha suas razões. Em ninguém, porque todos parecem utilizar a mentira descarada, a tergiversação, a manipulação de fatos e idéias, e isso é alarmante.

Amar? Todos e ninguém.

Amar a ninguém, porque nos ensinam, consciente ou inconscientemente, a desconfiar de todos. Amar a todos, porque ninguém está à margem dessa Humanidade que formamos em conjunto, apesar de tantos ódios, tanto separatismo e tantos crimes absurdos.

Fazer? Tudo e nada.

Nada, por momentos, quando nos sentimos impotentes ante a magnitude do que nos espera e nos incumbe, quando nos assalta o desejo de fugir. Mas para onde? Tudo, porque ainda que pese o desejo de evasão, sabemos que cada grão de areia que possamos aportar é importante quando se tem de construir um grande edifício.

Agora que aceitei a realidade, mergulho outra vez nas nuvens, no puro, sutil e luminoso, como uma respiração para os pulmões cansados da poluição diária. Brinco com as figuras etéreas das nuvens, brinco em colocar olhos e mãos nelas e sorrir com elas.

Dentro de algumas horas, seguirei o rumo de tudo que se move na superfície da terra: tormentas, dor, fome, medo e também algum sorriso. O mesmo sorriso, cheio de esperança, que lanço a você, que me lê agora que já não estou nas nuvens…

Delia Steinberg Guzmán

Novembro e os costumes populares

“Novembro, mês ditoso, que começa com o dia de Todos Santos e acaba com o de Santo André”; assim o verso popular marca o nono ano do calendário romano.

Já perdido o verão de São Martín, entrevê-se o ainda distante inverno e começa uma fase agrícola importante, na qual o porco, panacéia da economia campesina aragonesa, tomará um protagonismo especial. Em Aragão, sempre se aduba utilizando esterco e antes de os adubos sintéticos impregnarem as pessoas que recolhem o esterco, chamados “femeros” ou “femateros”, é o momento de se ver se foi bem cumprida a providência de retirada do esterco, que fica em montes nas torres e estabelecimentos agrícolas. É corriqueiro o fato de as “femeras” disputarem nos currais a duvidosa honra de recolher os excrementos dos habitantes, que enriqueciam assim o esterco futuro. E dizia-se para quem estava comendo abundantemente e com voracidade, com ar de brincadeira: “Puxa, que bom, já podes cagar para uma ‘femera’”. “Femateros” e “femateras” eram partes inevitáveis de uma economia agrícola. Eram atividades coletivas: “espigar” na sega, recolher folhas para os coelhos, espantar os pássaros dos campos semeados, levar a comida ao campo quando fosse necessário, enquanto se aprendia o trabalho dos “maiores”. As terras necessitam de adubo, nossos lavradores sabem disso, sem necessidade de recorrer a Virgílio, que nas tantas vezes citadas “Geórgicas” já selecionava novembro como época adequada para o adubo, aconselhando os lavradores com seus inspirados versos latinos.

Neste período de nevoeiros, ainda não haverá geleiras; mas com elas diminuirá a temperatura, aumentará a umidade e iniciarão os riscos de geadas. Por conseguinte, serão temidas e se buscará sua causa nos maus espíritos. Em Aragão, não se utiliza um drástico e efetivo sistema para expulsar a névoa, o que deveria existir em Zaragoza, onde as persistentes névoas do Ebro apenas encontram antídoto na ação violenta e benéfica do aquilão, que alguém chamou “noivo da cidade”, e até se poderia dizer que parecem aqueles namorados que demonstram seus sentimentos com gritos e até com pancadas. Em troca, conserva-se um modo concreto que parece pitoresco no Montseny catalão, que talvez proceda das ilhas do Mediterrâneo central, onde é de conhecimento geral. Quando a neblina se condensa até cobrir as terras e o céu e impedir a visão, basta que uma moça lhe mostre suas nádegas para que a névoa corrida e envergonhada desapareça. Caráter universal, entre os povos que recordam a fibra e o tecido como atividades diárias, existe a crença de que quando sai o sol, e a névoa se desfaz, é que a Virgem está tecendo e tira algumas fibras que, com atenção, se verão luminosas no ar enquanto voam e saem das mãos e da roca de Nossa Senhora, a quem o povo apresenta como uma boa dona de casa, lavando fraldas do Menino, fiando e tecendo.

E em todas as partes não há nada melhor para expulsar o nevoeiro e seus nocivos efeitos que ameaçá-lo com todo tipo de instrumentos cortantes ou incisivos. Há centenas de anos, era freqüente ver nas portas de suas casas ou oficinas, barbeiros ou sapateiros, empunhando armas pontiagudas, sovelas, navalhas ou os utensílios próprios de seu ofício com os quais desenham enérgicos movimentos debaixo para cima para amedrontar os incômodos espíritos que moviam a névoa. Em contrapartida, são escassas, ou pelo menos não se conhecem nestas terras, as canções e cantigas infantis destinadas a afastar a névoa. Amades trouxe uma muito curiosa, catalã, “Boira feste enllá, si no el llop se’t menjará“, com a curiosa adaptação de um mito europeu, no qual o lobo comia a névoa, convertendo-se em um animal benéfico. No Oriente Próximo, dizia-se há mais de mil anos que a névoa brotava das raízes do pasto e que poderia ser combatida arrancando os brotos ou removendo o solo, de modo que saísse fugindo ao se ver descoberta e inerme, favorecendo que os animais selvagens a comessem sem lhe dar a oportunidade de chegar ao céu, para onde se dirige. As pessoas de Valcamonica, nos Alpes italianos, dão sua versão sobre a densa “nebbia” que açoitou cinco dias Monte Campione. Nascia do fundo do vale, de onde saía rápido, para se agarrar às montanhas esperando autorização para passar ao céu. Essas pessoas, desde tempos pré-históricos, explicam a presença em seu vale, uma frente à outra, de duas montanhas, uma masculina, o Pizzo Badile, solitária e pontiaguda, e a Conca Arena, suave e feminina; seus amores originaram o vale e as culturas, e apenas faltava ao panteísmo dos montes que o sol saísse a cada dia por detrás do Pizzo Badile, ornando-o com um resplendor sacro. Resulta que as milhares de gravuras rupestres desse lugar não fazem outra coisa senão sacralizar montanhas, névoas e neves.

Em muitos lugares, especialmente nas montanhas, podem aparecer as primeiras nevadas, que são cumprimentadas pelos lavradores com gratidão e aplauso. “Ano de neves, ano de bem”, reza o refrão, próprio das terras secas, sempre ávidas de umidade, que no caso da neve se aproveita integralmente. Em toda a Europa, desde a Idade Média, mantém-se a idéia de que a neve é sinal evidente de uma festa que se celebra no céu, e os seus flocos são as plumas dos gansos que se desplumam para a ocasião. A idéia é tão velha que quando Heródoto explicava porque não se podem habitar as terras dos Escitas, fundamentava a explicação no fato de que caíam sempre muitas plumas do céu a dominar a atmosfera, privando-a de sol.

A mitologia da neve se perdeu totalmente em Aragão, e os tempos atuais a relacionam com os esportes ou com as comunicações e as dificuldades do trânsito nos portos. Mas houve um tempo em que era recolhida nos “poços da neve”, “do gelo”, quando não existiam frigoríficos que o fabricassem, primeiro vendendo-o em barras conservadas entre serragem. Hoje, essas operações de há poucos anos foram convertidas em atividades obsoletas sob o reino do frigorífico e dos congelamentos. Mas há pouco mais de meio século, quando nevava, não apenas se declarava oficialmente a alegria das crianças ao saírem das escolas e fazer jogos com os bonecos de neve e as batalhas com projéteis brancos, mas também tomava-se a neve, polvilhava-se com canela e se convertia em apreciados sorvetes. A medicina popular a misturava com azeite e a utilizava para curar as queimaduras. E a má idéia de alguns bárbaros fazia com que as inofensivas bolas de neve se convertessem em temíveis projéteis mediante o arbítrio de esconder sob a imaculada e branda capa um pedregulho que traduzisse suas más intenções. Mais inofensivas eram as artimanhas literárias dos vates que indeclinavelmente cumprimentavam as primeiras nevascas com a figura poética do “branco sudário”. É o tempo dedicado pelos lavradores à semeadura, pelos oleicultores à colheita da azeitona no fim do mês, sem que as geadas impregnem os frutos. Essa atividade é realizada com muitos costumes populares, cantos e até bailes, por coincidir na tarefa homens e mulheres, e saudações das pregadoras da Virgem e santos das capelas quando voltam do trabalho e passam pela porta das capelas.

É tempo de que o café da manhã se resuma a um bom prato cheio de farinha, farinha de milho, bem espesso, com pouco pão e menos toucinho, com o indispensável azeite, comidas que dão água na boca, perfilando o prato em círculos concêntricos de fora para dentro, sem deixá-las esfriar, porque não apenas eram alimento mas também calor.

Na Europa medieval, especialmente nos países germânicos, situava-se no fundo dos “pokale” ou bocks uma medalha com a imagem de Cristo, e se devia apurar o conteúdo de um trago, ou seja, “até te ver, Jesus meu”, embora essa expressão se tenha convertido em trabalhar até cansar de dor. Em Paniza e outros povoados aragoneses, bebe-se sem parar enquanto os demais cantarolam ou se finge o som de uma bomba.

Antonio Beltrán

A tragédia dos cátaros

O povo simples chamava-os de “Os Homens Bons”.

Eles diziam de si mesmos que, distante da Igreja de Roma, eram os verdadeiros descendentes de Cristo e de seus apóstolos. Atualmente, nós os conhecemos como cátaros.

Antecedentes de uma cruzada

Estamos em Languedoc, a antiga terra de Oc. Durante séculos esta Região foi habitada por povos que deixaram sua pegada indelével nas suas tradições e lendas, na sua história mágica e nos seus indecifráveis enigmas.

Em que pese a existência do feudalismo próprio de terras francesas e do norte da Europa, em Languedoc, no século XII, havia uma sociedade mais aberta e plural, com uma burguesia economicamente mais poderosa e algumas cidades zelosas pela sua independência e por seus foros. Aquela foi a terra onde os trovadores exerceram sua arte e cantaram os ideais platônicos sobre o amor.

Por seus caminhos, viam-se, naquele tempo, alguns estranhos personagens que, sob a ótica do campesino comum, bem que podiam ser confundidos com os sacerdotes da Igreja Romana. Caminhavam sempre em duplas, homens ou mulheres indistintamente, e iam vestidos com um hábito negro apertado por um simples cordão à maneira dos franciscanos.

Podiam ser encontrados pregando nos mercados e nas praças públicas, ajudando os campesinos a ararem seus campos ou os artesãos a trabalharem no seu tear, enquanto lhes instruíam nas suas doutrinas. O povo simples chamava-os de “Os Homens Bons” e de “Os Perfeitos” e ante aqueles “Bons Homens” e “Boas Damas” dobravam o joelho em sinal de cumprimento cada vez que os encontravam pelos caminhos ou nas suas casas de retiro. Diziam de si mesmos que, longe da Igreja de Roma, a qual qualificavam como criação do Satã, eles eram os verdadeiros descendentes de Cristo e de seus apóstolos. A História os designou como “albigenses“, “patarinos” ou “tecelões”. Atualmente, nós os conhecemos como cátaros, palavra que alguns autores dizem derivar do grego, cujo significado seria “Os Puros”.

Pouco sabemos de suas doutrinas originais, dado o seu sectarismo e o desaparecimento de seus escritos, embora seja muito provável que provenham do Maniqueísmo vindo dos albanos e bogomilos.

Ensinavam sobre a existência de dois princípios universais e eternos. O primeiro era Deus, de onde provinha todo o bem, e o outro era Satanás, de onde provinha todo o mal. O universo era uma criação de Satã, por isso tudo o que existe nele não poderia ser bom. Esses dois princípios também existem no homem. Segundo suas crenças, um dia Satã invadiu o espaço divino e seduziu uma parte dos Anjos de Deus, arrastando-os à Terra para aprisioná-los em corpos de carne. Compadecido de seus Anjos, Deus enviou  Jesus Cristo para indicar o caminho de libertação das almas, mas, ao contrário das doutrinas de Roma, eles sustentavam que Jesus Cristo, sendo obra de Deus, nem era igual a Ele nem poderia ter  tido um corpo de carne, tendo sido uma espécie de corpo espectral que nem sofreu nem morreu na cruz. Longe de santificar o corpo, como defendiam as doutrinas do cristianismo romano, os cátaros ressaltavam sua corrupção e a necessidade de se libertar dele. Desse modo, negavam a ressurreição da carne. Rechaçavam o batismo de água, assim como os demais sacramentos instituídos pela Igreja de Roma. Asseguravam que o único batismo outorgado por Jesus Cristo era o “Batismo de Fogo”, cerimônia que eles denominavam “Consolament”. Apenas quem recebia o “Consolament” se convertia em “Perfeito”, ou seja, em membro da Igreja de Jesus Cristo, o que implicava assumir os votos de castidade, pobreza, abstinência de carne e uma vida de pregação e serviço absoluto a Deus. Os simples crentes apenas tinham a obrigação de ouvir o que pregavam os Perfeitos, embora, se na hora da morte pedissem o “Consolament” ou batismo de salvação a algum “Perfeito”, outorgavam-lhe.

A Igreja Cátara não se estabeleceu apenas nas classes humildes, mas também nas famílias nobres, nas quais teve uma grande adesão das mulheres, como a grande Esclarmonde Foix, irmã do próprio Conde de Foix, que foi uma das principais figuras femininas do Catarismo.

Mas Languedoc e o Catarismo tiveram inimigos difíceis, pois a Igreja de Roma, por causa disso, não somente perdia seguidores, mas também o que mais lhe doía: direitos e poder. Sendo assim, os Reis da França estavam sempre no aguardo de uma oportunidade para submeter a nobreza sempre livre e rebelde do País de Oc.

No ano de 1145, o ideólogo do “Temple”, Bernardo de Claraval, parte para Languedoc para pôr em prática sua idéia de que a fé é uma obra de persuasão, mas não de imposição. Mas nem sua privilegiada mente nem seu poderoso verbo conseguem fazer adeptos no país. Ao final, regressou ao seu mosteiro enviando uma livre sentença a Roma: “Nada há de repreensível na vida dessas pessoas”.

Onde não vale a persuasão, prevalece a rédea curta

Essa foi a lúgubre e triste frase pronunciada por Domingo de Guzmán, monge espanhol fundador da Ordem dos “Domini Cane“, os monges dominicos, e que já predizia as negras nuvens de fogo e de horror que se cingiriam sobre Languedoc e os cátaros.

Em 1198, Inocêncio III é eleito Papa, condena a heresia dos cátaros e se propõe a castigá-los. Escreve ao Rei da França para que intervenha contra Raimond VI, Conde de Tolosa, que era  considerado o principal defensor dessa heresia, mas, como o Rei Felipe Augusto estava ocupado com outros assuntos, não tomou nenhuma atitude. Em 1205 é enviado a Languedoc o legado papal Pierre de Castelnau, cuja primeira ação é excomungar o Conde de Tolosa e incitar seus súditos à rebelião. O Conde, talvez tentando evitar a tormenta que se aproximava de seu povo, teve que aceitar as duras condições impostas por Roma: foi obrigado a passear quase nu pelas ruas de Tolosa com um círio de penitência. Além disso, na igreja, é açoitado publicamente antes de ser perdoado. Mas, em 1208, um estranho cavaleiro atravessa com sua lança o emissário Pierre de Castelnau enquanto cruzava o Ródano. Roma já tem sua “Casus Belli“!: é convocada uma Cruzada contra os hereges cátaros e quem os apóie.

O Pároco de Citeaux, Arnaud Amalric, lança os Monges de Císter nos caminhos de Languedoc e ele mesmo se dispõe a dirigir a cruzada militar que, num primeiro momento, encaminha-se em direção a Tolosa, mas o Conde Raimond VI atua rápido e pede para professar os votos religiosos e com isso os cruzados  ficam sem objetivo para o ataque. Mas, quando um animal faminto de sangue morde uma presa, é difícil que a solte. As armas se dirigem agora contra Raimond Roger de Trencavel, Visconde de Carcasona e Beziers, que se nega a entregar aos cruzados qualquer um de seus cidadãos que figuravam na lista de mais de 200 “hereges”.

Os cruzados cercam Beziers, e a população é massacrada. A multidão enlouquecida se refugia em templos e igrejas. Conta-se que os cruzados ajudam Arnaud de Amalric, informando-lhe que os “hereges” se misturaram com o resto da população e não sabem como distingui-los. O Pároco lhes dá a ordem: “Matar todos, Deus reconhecerá os seus”. Foram mortos entre 17.000 e 20.000 em Beziers, sem se levar em consideração se eram homens, mulheres, crianças ou idosos.

As tropas cercam Carcasona, que começa a ser atacada. O Visconde Raimond Roger de Trencavel, jovem de 24 anos e vassalo do Conde de Tolosa e do Rei de Aragón, sozinho e sem os esperados reforços de Tolosa, cujo Conde se encontra agora no campo dos cruzados, entrega-se, junto com cem de seus cavaleiros, com a condição de que se respeite a vida de seus cidadãos. Contra todas as regras da guerra e da honra, Raimond Roger de Trencavel é aprisionado com grilhões nos calabouços de seu próprio castelo, onde morreria, três meses depois, envenenado. Com ele morreu a honra e a beleza da terra dos trovadores.

Simón de Monfort

Arnaud de Amalric distribui como pilhagem de guerra os títulos do Visconde falecido, mas nem o Conde de Nevers nem o de Borgonha querem aceitá-los. Dizem que, com lágrimas nos olhos, o Conde de Tolosa abandona o campo dos cruzados. Apenas um nobre francês, Simón de Monfort, aceita os títulos e com isso fica encarregado da cruzada.

O Papa excomunga novamente o Conde de Tolosa e Simón de Monfort parte contra ele. Lá, para ajudarem o Conde Raimond VI, o Conde de Foix e Pedro II, Rei de Aragón, defendem também Tolosa com mil de seus cavaleiros e milhares de infantes. Conhecendo o que os romanos chamavam de “Devotio Ibérica“, Simón de Monfort determina que matem o Rei. Procuram-no e, quando lhe encontram, matam-no sem piedade, não só ele, mas também os melhores da casa de Aragón. O exército do Rei é destruído. As milícias tolosanas, quando cruzam, fugindo de Garona, deixam para trás 20.000 mortos. O Conde Raimond VI e seu filho são mandados para o exílio. Em 1213, o Concílio Ecumênico de Letrán declara Simón de Monfort herói e defensor da cristandade e lhe outorga o título de Conde de Tolosa.

Simón de Monfort não perde tempo para assegurar seus domínios arrasando seus novos territórios a sangue e fogo. A Fortaleza de Lavaur é destruída e sua valorosa castelhana Giralde, ardente defensora dos cátaros, é arremessada nua e viva num poço e é apedrejada até parar de gritar. Seu irmão Amery de Montreal e os seus sessenta cavaleiros são dependurados e degolados.

Mas as milícias de Narbona se negam a servir Monfort. O povo de Tolosa se revolta e o Conde de Foix lhe ataca. O Conde Raimond VI e seu filho Raimond VII iniciam a reconquista de seus territórios. Simón de Monfort morre em Tolosa com a cabeça amassada por um projétil de pedra. O povo de Tolosa clama pela entrada de Raimond VI e de seu filho. O filho de Simón de Monfort, Amaury de Monfort, sozinho e arruinado, foge e vende ao Rei da França o título herdado de seu pai.

Com a morte de Raimond VI, em 1222, Luis VIII, aconselhado por sua esposa, Blanca de Castilla, reclama seus direitos sobre o Condado de Tolosa ao jovem Conde Raimond VII e começa a última fase da guerra contra Languedoc, uma guerra na qual os exércitos franceses se limitaram a destruir cultivos e gados, além do pouco que restava de uma terra já arrasada pelos longos anos de luta, tendo sido fácil rendê-la pela fome. Em 1229,  Raimond VII se rende sem lutar e com isso termina a última página da terra livre de Oc. A Igreja de Roma recupera todos os seus direitos e patrimônios perdidos e fica com as mãos livres para exterminar definitivamente a heresia cátara. Calcula-se que, durante a Cruzada, mais de 1.500 cátaros foram queimados vivos em fogueiras coletivas.

Montsegur, o longo caminho de fogo

No ano 1230, a Igreja de Roma cria uma nova instituição destinada a perseguir e a castigar definitivamente a heresia em Languedoc: a Inquisição, alimentada inicialmente por dominicos e franciscanos, começa uma sangrenta perseguição que dizima rapidamente a Igreja Cátara, fazendo com que os perfeitos se refugiassem em cabanas e grutas dos profundos bosques e montanhas de Languedoc. Em 1252, é introduzida a tortura nos interrogatórios, mas como derramar sangue era delito canônico, limitavam-se a afogá-los e a quebrarem seus ossos.

Eram longos meses de solidão na prisão, interrogatórios e torturas e logo o medo, a loucura e as delações. Ninguém estava seguro naquele reinado de terror tão grande como o ódio que despertavam os inquisidores, pois, no final, todos os culpados que não se retratavam eram condenados à fogueira. Até os mortos eram tirados de suas tumbas para serem queimados se fossem declarados culpados. Os últimos perfeitos refugiados nos bosques e nas montanhas continuavam saindo para pregar ou para atender os moribundos. Já não vestiam seu hábito negro, mas um simples cordão de lã por cima da camisa. A Igreja dos Cátaros parece estar próxima do seu fim.

Em 1204, foram os cátaros que pediram para Ramón de Perella, Senhor de Montsegur, que reedificasse o velho castelo situado numa inexpugnável colina do Condado de Mirepoix, na qual a Igreja Cátara conseguiu se manter e se organizar nos últimos anos.

Esta imponente fortaleza foi desde os tempos imemoráveis um lugar habitado e as suas tradições atribuem a sua construção ao gigante Gerión que lutou com Hércules. Desde lá os cátaros enviavam pessoas a todos os lugares da comarca e continuamente recebiam e formavam novos perfeitos.

No ano 1242, chegam à Avignotet onze inquisidores procedentes de Lavaur, onde tinham queimado várias pessoas, mas Pierre Roger de Mirepoix, comandante da Praça de Montsegur, com uma pequena tropa, dirige-se à Avignotet e mata os inquisidores. Essa foi a chispa que incendiou a última fogueira. Os franceses, dispostos já a dar cabo daquele assunto, ordenam ao senescal Huges Desarcis cercar e acabar com os defensores do castelo e com os hereges que o defendiam.

Em Montsegur se refugiavam uns 200 perfeitos e perfeitas cátaras, junto com uma pequena tropa sob o comando de Pierre Roger de Mirepoix e o Senhor da Fortaleza, Ramón de Perella. Auxiliados pelos provincianos, puderam resistir ao cerco durante nove meses, mas, em abril de 1244, negociam sua rendição.

Contrariamente ao que se esperaria, os franceses, talvez já cansados daquele assunto, aceitaram todas as condições dos sitiados, inclusive permitiram que eles regressassem para casa com suas armas, para isso apenas teriam que se apresentar ante o inquisidor e declarar a renúncia das suas crenças.

A última noite de Montsegur foi de despedidas e de lágrimas: alguns defensores pediram o ingresso na Igreja dos Bons Homens e se dispuseram a morrer com eles. Inclusive a jovem filha de Ramón de Perella aceitou o martírio.

Na noite de 16 de maio, depois que os defensores abandonaram a Fortaleza, as 215 pessoas que não tinham renunciado a sua fé foram brutalmente empurradas para a base do monte onde a fogueira já lhes estava esperando, no ainda chamado Campo dos Queimados.

Conta uma lenda que, quando a jovem Esclarmonde, filha de Ramón de Perella, morria queimada, sua alma se converteu numa pomba branca que ainda pode ser vista, por vezes, voando pelas solitárias ruínas do castelo.

José Alberto García

Os trovadores

A história atribui o nascimento do trovador à imitação do jogral, e este por sua vez é o sucessor dos bobos da corte que alegravam os romanos durante os banquetes.

Quem eram os trovadores?

Herdeiros dos bobos da corte, os jograis – músicos ambulantes, acrobatas, malabaristas, saltimbancos, domadores e titereiro – são os autênticos antecessores dos trovadores.

A solidão do bosque é interrompida pelo som de um instrumento musical que serve para acompanhar o relato de velhas histórias e de antigas façanhas. Os muros dos castelos contemplam a narração de vidas heróicas e de amores impossíveis, e as lajes de pedra cantam sob os cascos do cavalo. Um pequeno estribilho, um fugaz resplendor e os pássaros de cores vivas, já desde o amanhecer, encontraram um rival que os desafia a cada dia. É a inspiração poética que nasceu e que vive entre os homens, e que foi engendrada nas entranhas do obscuro século XI.

Mas, quem é o causador de tais fatos? Quem é o viajante que reúne na praça todas as pessoas do povo, fazendo com que abandonem seus arados, suas casas, seus negócios e comércios? Quem é o que fala assim de terras, além mares, de aventuras na Terra Santa, de princesas, de dragões e de vales?

Esse personagem, cantor da vida, do amor e da guerra, ficou conhecido com o nome de trovador, e seus passos deixaram uma profunda pegada em toda Europa medieval, sacudida, até então, por uma férrea moral cristã.

Origem dos trovadores

Todos os maiores cavalheiros andantes da idade passada eram grandes trovadores.

Dom Quixote

Os histriões

Antes de tudo, temos que reconhecer que a História atribui o nascimento do trovador à imitação do jogral, e que este por sua vez é o sucessor dos bobos da corte que alegravam os romanos durante os banquetes.

Em seu rigoroso sentido latino, histrião significa “aquele que representa disfarçado em comédias ou tragédias”. Mas, por extensão, costuma-se considerar também o malabarista e o ilusionista que diverte o público com seus jogos e disfarces. O histrião latino era um tipo de pessoa oriunda da Etrúria e o termo significava “tocador de flauta, flautista”.

Em Roma, representavam dramas que foram o início da comédia e da tragédia, e o nome de histrião foi genérico para todos os atores, trágicos ou cômicos. Pelo visto, tiveram muitos problemas com a legislação romana, pois esta não lhes concedeu os direitos de cidadão já que, originariamente, tinham sido escravos. Em troca, os atores das atelanas (farsas cômicas populares) – embora este gênero tenha sido muito inferior à comédia e à tragédia – eram considerados cidadãos porque na sua origem foram representados por jovens de boas famílias. No entanto, a sociedade livrava dos rigores da lei os histriões de talento e os cidadãos mais notáveis não sentiam vergonha da amizade deles, como ocorreu com Cícero e Quinto Róscio.

Os jograis

Herdeiros dos bobos da corte, os jograis músicos ambulantes, acrobatas, malabaristas, saltimbancos, domadores e titereiro – são os autênticos antecessores dos trovadores. Os jograis da época medieval, como os trovadores, compunham contos, poemas e apólogos que cantavam nas cidades, nos torneios, nos castelos, abadias, campos, florestas, praias, unindo o canto do homem ao canto do céu, da terra e do mar.

Costumavam recitar ou cantar, acompanhados de um instrumento, fragmentos de cantigas de gesta na época heróica e, posteriormente, canções de amor. A maioria se contentava em cantar passagens de obras compostas por outros e que tinham aprendido nas escolas de jograis, as quais concorriam na Quaresma (período no qual a Igreja lhes proibia de exercer seu trabalho) para ampliar e modernizar seu repertório.

Na França, se denominaram também operários e constituíram uma espécie de classe civil. Conta-nos a história que viviam num mesmo bairro e que deram seu nome à igreja de San Julián dos Menestréis, da qual foram fundadores em 1331 os jograis Hugo el Lorenés e Jaime Grure.

Posteriormente, parece que se denominou jogral todo homem que gosta de aventuras, de galanteios na escuridão, de disputas e de desafios. Houve um tempo em que se chamavam jograis aqueles fidalgos indescritíveis dos séculos XV a XVII, os quais, nem para dormir tiravam a espada do cinto; que disfarçavam o desejo da fome com a paixão dos amores; que rondavam as cortes dos príncipes; que imploravam para morrer honrosamente nas batalhas. Falando na linguagem daqueles séculos, pode se dizer que Miguel de Cervantes e Luis de Camões foram dois jograis do seu tempo.

É curioso assinalar que em certos lugares da América dá-se o nome de jogral aos adivinhos das tribos indígenas, especialmente quando exercem a Medicina.

Voltando ao tema, vemos que o jogral tem com o trovador relações de dependência. O jogral nas cortes é quem, tocando um instrumento, canta os versos do trovador, ou quem com sua música acompanha-o com o canto. Assim, veremos Giraldo de Borneil viajar pelas cortes levando ao seu serviço dois jograis. Outras vezes o jogral viajava sozinho, seja por sua conta, seja por conta do trovador, sempre pedindo auxílio a este através de uma canção para ganhar a vida.

Não obstante, existiram certos jograis com muito talento para acrescentar coisas de sua própria produção ao repertório que se lhes havia ensinado. Até houve quem tivesse renunciado as trovas e palhaçadas habituais e se dedicou a compor poemas, com letra e música próprias. Tal é o caso dos jograis gascões muito conhecidos, como Cercamón (Buscamundo), que trovou pastorelas como era de costume, e seu discípulo Marcabrúa, que cultivou a poesia histórica e se mostrou indócil às convenções da galantaria.

Essa capacidade de trovar (além de “compor trovas”, antigamente significava “encontrar”) por si mesmos suas canções, é uma das características que distinguem os jograis dos trovadores. Estes últimos são normalmente colocados muito acima, tanto social como intelectualmente, dos primeiros.

Os trovadores

Por volta do século XI, alguns poetas que de seu país foram se expandindo por toda Europa cantando os louvores dos grandes homens, tanto mortos como vivos, foram chamados de trovadores por suas excelentes descobertas ou invenções.

Estes primeiros poetas cultos da Idade Média tiveram sua origem em Provença, região que, enriquecida pelo comércio, dotada de uma situação privilegiada e conservando múltiplos restos da sociedade municipal romana, teve a sorte de permanecer durante dois séculos sem experimentar invasões estranhas, nem ter que passar por guerras internas, sendo governada por príncipes nacionais que apenas pensavam em fomentar a indústria e em dar esplendor à corte.

Nessa cidade, o latim não havia conseguido a preponderância que o fazia preferido na Itália como idioma do vulgo, e utilizado em tudo o que se escrevia, mas conservava a influência suficiente para que a língua do país fosse gramatical e culta. Foi nesta língua que os trovadores começaram a versificar, compondo poesias líricas na sua maior parte, nas quais celebravam as damas, os cavalheiros, as armas, os amores e a cortesia, cuja forma de expressão avantajava o conceito.

Na sua maioria, as trovas desses poetas músicos eram o produto de felizes inspirações; daí que “trovar” passou a significar “fazer versos”. Suas excursões pelas principais cortes e palácios da Europa inspiraram o gosto pela poesia dos magnatas e senhores mais poderosos, contribuindo numa grande medida para suavizar os costumes daquela época.

Em Castilha, a arte de trovar foi chamada antigamente de “gaya sciencia” (“a ciência alegre”), segundo consta no famoso livro escrito por Dom Enrique de Villena.

Mas, já é hora de conhecer o mais antigo dos trovadores de que temos noção: Guillermo IX, duque de Aquitânia e conde de Poitiers.

Guillermo de Aquitânia

Era um cruzado que, logo em seguida da morte de seu pai, possuía mais propriedades do que o rei da França. Foi excomungado várias vezes, tanto por seus conhecidos adultérios como por suas repetidas usurpações das propriedades da Igreja, e antes de morrer escreveu um poema dizendo adeus ao mundo e à glória cavalheiresca.

Agora, há uma pergunta que, de certo modo, não deixa de ser um pouco “chocante”: por que o “enganador de mulheres” que havia sido antes, converteu-se tão rápido num amante cortês, e sob quais influências? E por que, a partir dele, toda a poesia amorosa se orientou, de forma genérica, à concessão de uma espécie de primazia do amor do coração sobre o amor físico?

Influências

É evidente que, na época de Guillermo de Aquitânia, duas eram as forças culturais que dominavam a Europa.

Por um lado estava o Cristianismo, religião na qual Guillermo IX foi educado; mas recordemos que, desobedecendo as leis desta religião, Guillermo era manifestamente adúltero, além de ter sido amaldiçoado em repetidas ocasiões.

Por outro lado, a bandeira da meia lua ondulava triunfante no ocidente europeu; mas o Islã não veio sozinho, trouxe consigo as filosofias aristotélicas e platônicas que tanto influenciaram esse mundo medieval, muçulmano ou cristão. Recordemos que as divisões em três partes do amor, inspiravam-se no três graus da amizade aristotélica, assim como é indiscutível que a dialética platônica do amor se assemelhe a dos trovadores.

Mas muitas outras causas – literárias e sociais – manifestaram-se ao mesmo tempo em que o ressurgir tímido das letras antigas: fez-se patente o feitiço exercido pelos cantos de igreja e seus ritmos neolatinos, e apareceu o cristianismo platônico dos filósofos da escola de Chartres. Ademais, pelo que diz respeito aos determinismos sociais que se exerciam no marco dos vínculos de vassalagem, muitas vezes eles estavam penetrados de ritualismo como por exemplo, as irmanações de sangue, primeiro reservados ao sexo masculino e logo convertidos pouco a pouco aos casais, como símbolo da troca de corações.

Guillermo acreditava que era admirável que um grande senhor se humilhe por amor ante uma dama, princípio que devidamente especificado, apenas se encontra na literatura árabe. As formas externas da galantaria árabe – os emires se inclinavam ante as damas – foram o que Guillermo IX e seus amigos observaram primeiro. Concretamente, no que Guillermo se refere, sabe-se com certeza que recebeu a influência dos filósofos da escola de Chartres, e provavelmente também a de seu compatriota Gilberto de la Porrée, estudioso de Platão e Aristóteles.

Resta clara a dupla influência cultural que se expandiu pela Europa nestes séculos. Os árabes fizeram as vezes de brilhantes transmissores do saber clássico e tradicional, sem perder de vista que eles mesmos nos legaram um variado folclore e ricos costumes. Estas influências árabes, no que constituiu o fenômeno trovadoresco, ficam mais claras ao estudar a música própria destes séculos, como veremos mais adiante.

Conclusão

Vimos os aspectos mais importantes deste imenso complexo poético-cultural que criou formas artísticas muito diferentes das da Antigüidade, e que ergueu contra a moral cristã um sistema de valores baseado quase exclusivamente na exaltação e idealização da amizade intersexual. Esta nova ética correspondia talvez a uma espécie de desquite da “outra Europa”, a dos bárbaros, dos pagãos e dos hereges, que com a riqueza de seus mitos, o esplendor de sua magia, suas peripécias dramáticas e as aventuras heróicas ou loucas nas quais seus heróis se enredam, constituíam um tipo de protesto contra o mundo católico e romano.

Se temos em conta a mudança súbita de Guillermo de Aquitânia, conde de Poitiers (e sobretudo, as influências que recebeu), a importância do espírito trovadoresco nas leis e na sociedade (em 1323, por exemplo, as leys d’amors fazem coincidir as regras poéticas com as leis morais e unem sob o mesmo conceito de amor a urbanidade, os bons costumes e a virtude) e a aparição de várias escolas de trovadores e jograis em toda a Europa, não podemos crer que já sabemos tudo sobre os trovadores, e menos ainda que seu surgimento à luz do dia obedece a uma simples e fácil casualidade.

Tudo isso não faz mais do que manter vivo o enigma que rodeia tão excelsos personagens de alma poética e espírito sonhador, que mantiveram acesa a chama artística e filosófica de antigas civilizações já desaparecidas, iluminando com ela a ante-sala do Renascimento. O mágico fio que transpassa todas as idades e todas as formas habitou no corpo do trovador e este o levou às praças dos povos, aos muros dos castelos, aos bosques e aos mares. Seu canto foi raptado pelo vento, e sua figura estética se uniu à História para, num tempo futuro, voltar a ensinar a humanidade as regras do amor e da cortesia, os feitos heróicos e a necessidade do progresso indefinido ao soberano Bem.

A língua de oc e a língua de oil

A língua de oil constitui o estilo épico. O cultivo da língua de oc, o estilo lírico, abarca mais de dois séculos. Até 1210, estende-se a época do seu apogeu, começando logo a decadência inevitável, apesar dos esforços que em 1323 a escola erudita realizou tão celebrada com o nome de Jogos Florais de Toulouse.

Que tristeza produz ver como são as coisas quando se sabe como foram!

Aimeric de Pegilhan

A língua de oil

A língua de oil constitui o estilo épico, a poesia de romance cavalheiresco e mágico que se desenvolveu no norte da Europa. Compõe-se principalmente da matéria de Bretanha, a que os trovadores aludem desde muito tempo e onde se enquadram os romances de Chrétien de Troyes. Aparecem o Tristán e Iseo, Jaufré e Blandín de Cornuales, que são poemas meridionais do ciclo bretão, pertencentes aos romances da Távola Redonda.

Foi, sobretudo, com Chrétien de Troyes que se expandiu a mitologia bretã na França e no Ocidente, especialmente as lendas do Graal. As mulheres têm um importante papel nestes novos romances: entregam-se, acorrentam os homens, às vezes são abandonadas por eles, mas também se mostram capazes de suscitar o heroísmo e a devoção masculinos até a superação de si mesmos na morte.

A língua de oc

O cultivo da língua de oc, o estilo lírico, abarca mais de dois séculos. Além de Guillermo de Poitiers existiam em fins do século XI outros trovadores, que desde sua época até 1150 conformam o primeiro período da lírica cortesã dos provençais. A este período pertencem, entre outros, Ebles III de Ventardorn, Girandó lo Ros de Toulouse e Pedro de Alvernia.

Desde esta segunda data até 1210 se estende, sem dúvida, a época do seu apogeu, começando logo a decadência inevitável, apesar dos esforços que em 1323 a escola erudita realizou tão celebrada com o nome de Jogos Florais de Toulouse.

Trovadores famosos

Ao chegar a segunda metade do século XII, a presença dos trovadores torna-se mais freqüente. Vamos mencionar os mais célebres entre os principais.

Bernardo de Ventardorn (1140-1195), educado na escola poética de seus senhores, ascendeu por seu talento à nobre hierarquia. Ora perseguido, ora protegido nas diferentes cortes que visitou, sua vida agitada e aventureira terminou num claustro.

Jaufre Rudel (1140-1170), príncipe de Blaya, dirigiu seus cantos à condessa de Trípoli (que não conhecia) e embarcou para prestar-lhe pessoalmente sua homenagem, encontrando a enfermidade e a morte como término da sua transbordante paixão. O trovador mal chegou ao porto, morreu nos braços da condessa Odierna, esposa de Raimundo I; esta o fez sepultar com grande solicitude na Casa dos Templários.

Guiraldo de Borneil (1175-1220), tido como mestre dos trovadores, o modelo da mais perfeita poesia e da canção, exerceu sua profissão com muita dignidade e legou seus bens à Igreja da sua pátria e aos pobres.

Pedro Vidal de Tolosa (11754-1215), o dom Quixote da poesia, é célebre por suas muitas composições, que não carecem de mérito, e por suas extravagâncias. Passou sua vida percorrendo a Espanha, a região meridional da França e o norte da Itália. Visitou também a Terra Santa e a ilha de Chipre, onde se casou com uma grega, pelo que acreditou ter direitos ao Império do Oriente; fez preparativos de conquista e tomou o título de imperador. Em honra de uma dama chamada Loha se disfarçou de lobo e se fez perseguir pelos cães.

Bertrán de Born (últimos anos do século XII) é uma notável figura que esqueceu a História e cuja memória os anais literários conservaram. De caráter violento, Dante o coloca no inferno com a cabeça cortada do tronco e suspensa na mão à guisa de lanterna, por ter dividido a família real da Inglaterra.

No período da decadência encontramos Bonifácio de Castellana, último defensor com versos e armas da nacionalidade catalã provençal contra a preponderância francesa, e Giraldo Riquier de Narbona (1250-1294), poeta de profissão, muito produtivo, com um pouco de teórico e de erudito, espécie de transição entre a anterior poesia, feudal e cortesã, e a douta escola tolosana e catalã dos séculos seguintes.

Os Jogos Florais de Toulouse

No início do século XIII, Ramón Vidal já se queixava da indiferença com que se começava a tratar o cultivo da sua arte. Talvez tenha caído na monotonia de alguns gêneros e os jograis e trovadores tenham se multiplicado muito. Além do mais, parece que alguns senhores perderam a inclinação à hospitalidade cortês e se entregaram à avareza e ao isolamento. Mais tarde, na guerra contra os hereges albigenses, mesclaram-se a ambição, a ferocidade dos tempos e o ódio nacional dos que viviam ao norte e na região meridional. Isto interrompeu as ocupações poéticas das cortes da língua de oc, algumas das quais foram desaparecendo pela ocupação (ou melhor, agregação) de vários Estados à monarquia dos Capetos. No início do século XIV, a poesia dos trovadores ambulantes e feudais já havia cessado, mas não desapareceu completamente toda a tradição poética nos países de Occitânia e a vemos surgir na instituição dos Jogos Florais.

Estes jogos consistiam num concurso literário, geralmente poético, que teve sua origem em Toulouse. Em 1323, um grupo de cavaleiros tolosanos se constituiu em Sobregaya companhia dels set trovadors de Tolosa ou Consistori del Gay Saber, para estimular o cultivo da poesia provençal mediante um concurso que ocorria anualmente no dia 1º de maio nessa cidade. Os atos eram presididos por uma “rainha” – eleita entre as damas de maior estirpe – e eram arbitrados por sete encarregados, que compunham um jurado para premiar a melhor composição com uma violeta de ouro e para submeter algumas obras ao juízo dos demais concursantes. Desse modo, os Jogos Florais foram celebrados pela primeira vez em Toulouse em 1324, e o premiado foi Amaut Vidal.

Em 1328, Guilhem Molinier redigia um preceituário com o título “Leis de Amor”, que serviria de pauta aos encarregados pela arbitragem e aos poetas concursantes. Desta forma, acentuava-se o caráter acadêmico e conservador da instituição, que não obstante se viu obrigada a admitir em concurso, cada vez em maior proporção, composições na língua francesa. Mas os chamados a início de Jogos Florais continuaram se transformando, e chegado o século XVI o Consistori del Gay Saber passou a se denominar College de la poesie latine, grecque et française, onde, à medida que passava o tempo, foram premiadas composições francesas de autores como Voltaire e Chateaubriand.

A poesia dos provençais – disse Menéndez Pelayo – cujo valor estético pôde ter exagerado, mas cujo valor histórico ninguém duvida, foi como uma espécie de disciplina rítmica que transformou as línguas vulgares e as tornou aptas para a expressão de todos os sentimentos. Desenvolveu nelas a parte musical e o poder da harmonia, criando pela primeira vez um dialeto poético diverso da prosa, com todas as vantagens e todos os inconvenientes anexos a tal separação. Há, sem dúvida, muito de monótono, de trivial e incômodo na lírica dos trovadores; mas bastariam os nomes de Giraldo de Borneil, de Bernardo de Ventardorn, de Bertrán de Borno, de Pedro Cardenal, de Giraldo Riquier, representantes de muitos diversos gêneros, para compreender quanto de sincera inspiração houve naquele despertar do estilo lírico moderno, naquela gentil primavera poética que, precisamente por ter se antecipado a florescer, durou o que duram as rosas prematuras.

O amor trovadoresco

Diziam os árabes que aquele que ama, morre para si; e se não é amado, ou seja, se não vive no ser amado, morre duas vezes.

O tema preferido da poesia provençal foi plasmar nos seus versos a beleza e as virtudes das damas, pois a própria concepção daqueles poetas lhes impulsionava a amar e, o que para eles era a mesma coisa, cantar seu amor. Se o cavalheiro pertence incondicionalmente ao seu senhor, quem em troca lhe outorga ajuda e proteção, o trovador pertence, incondicionalmente a sua senhora, quem igualmente o ajuda e o protege em troca dos seus serviços amorosos. E para ele será um sorriso o melhor “guerredón” (dom de guerra), a melhor recompensa, a que bastará para dar a quem obtenha essa alegria de amor, que o torna capaz de tudo, contanto que se comporte bem e siga merecendo o amor da sua dama.

Há nos poemas algumas pegadas de antigas crenças que atribuíam ao corpo feminino poderes curativos e benéficos, e que desde a Antigüidade havia se estendido no folclore e se mantinha na literatura. No Parzival de Wolfram von Eschenbach conta-se que a mulher amada protege seu amigo nos combates, mais eficazmente que as pedras mágicas. Isto se transforma (a magia na mulher) na força que inspira os homens bem nascidos o gosto pela cortesia, pela poesia e pelas nobres ações heróicas.

Segundo a velha dialética platônica, o amor tem o poder de conduzir o amante do objeto amado até o amor supremo. Um progresso indubitável na depuração e espiritualização do amor o constitui no chamado “amor à distância” e a lenda da “princesa distante” (recordemos Jaufre Rudel que se apaixonou sem nunca ter visto sua amada).

Se examinamos o texto das suas canções de amor, veremos que aqueles amantes apaixonados e tímidos, afetuosos e devotos, se atêm exatamente às regras do amor cortês, tal como as expôs André le Chapelain. Certo é que, dentro de cada literatura, o amor não é tratado da mesma maneira: com freqüência apresenta tendências divergentes, ora predominando um certo realismo ou tom picante, ora elevando-se até a pureza platônica quase absoluta, ora exaltando o matrimônio, ora excluindo do terreno erótico.

Se amam, pelo menos têm a delicadeza de atribuir toda sua felicidade à dama. Se têm talento, se chegam ao êxito poético desejado, é a ela que o ofertam em homenagem, pois é nela que recai todo o mérito. Na sua humildade ante sua dama, os trovadores não têm medo de exagerar; medindo a distância que os separa dela, proclamam ser indignos de agradar, portanto se conformam com pouco, um sorriso, um olhar… E já alcançam a mais alta felicidade.

Embora infelizes no seu amor, guardarão para sua dama uma constância a toda prova na devoção e submissão. Amando ainda que sem esperança, preferem a alegria de sofrer próximo dela à ventura que poderiam encontrar em outra. É sua dama, sua senhora, a quem eles se consagraram até a morte e para a qual prometeram a mais completa discrição, razão pela qual falam de suas damas com nomes hipotéticos (quando se referiam a sua amada, empregavam muitas vezes o termo “meu senhor”).

Quando a dama havia aceitado, enfim, seu adorador como servidor (obediezn), recebia dele, no transcurso de uma pequena cerimônia íntima, sua homenagem amorosa: “Minha senhora – dizia-lhe, ajoelhado e com as mãos unidas -, concede-me poder te servir sem reserva, como vosso homem lígio”. Ela recebia este juramento de fidelidade e o selava com um beijo que geralmente era o primeiro e o último.

Há que se dizer que as damas impunham aos amantes uma série de provas que, na época de Guillermo IX, poderia proceder tanto das terríveis “geis” célticas (onde se associava o amor com o heroísmo viril, com o valor e a morte), como dos costumes muito parecidos praticados pelas princesas visigodas ou francas: “Minha dama – escreve Guillermo IX- tenta-me e prova-me (m’assai’ em prueva) para saber de que maneira a amo”.

Aos fins do século XII, inventou-se o ensaio probatório na cama, o assag. A dama era a que tomava a iniciativa de convidar seu namorado para passar uma noite com ela (a princípio, apenas uma). Fazia-lhe jurar – antes de deitá-lo na sua cama – que não faria mais do que apertá-la em seus braços, beijá-la e acariciá-la. O ato carnal estava proibido, assim como qualquer tipo de violência. O assag era, sobretudo uma série de provas morais, no curso das quais, a dama julgava as qualidades corteses de seu amigo: a discrição, a maneira de cumprimentar e a forma de servir e honrar.

Do que se chamou “amor cortês”?

Por própria definição, este amor é aristocrático, no sentido de que apenas convém a uma elite que freqüenta as cortes, já que tanto as damas como os cavalheiros devem a si mesmos um amor distinto ao do povo.

Todo o amor cortês se fundamenta no axioma de que não pode haver “bom amor verdadeiro” no matrimônio. Entre marido e mulher, ou seja, entre dois seres ligados por razões de riqueza, de feudos ou interesses antes que por razões de coração ou caráter, pode existir amizade, ou no máximo afeto e ternura. Não existe esse sentimento mais delicado que empurra espontaneamente um ao outro, a dois seres que se buscam, nem essa comunhão de almas, próprias do amor. O Código de amor é preciso no seu artigo 16: “Á vista súbita de sua amada, o coração de um amante deve estremecer”.

Da posição sempre inferior do amante resulta sua submissão perfeita, sua fidelidade absoluta, sua timidez e seu perpétuo temor de perder o objeto de seus desejos; embora, logicamente, sempre acredite que finalmente seu amor triunfará. Uma coisa pelo menos é certa, haja efetivamente recompensa final ou não haja: o objetivo constante de uma dama é fazer valer seu cavalheiro, fazer de tudo para que ele seja sempre melhor.

“Do amor procede, diga-se o que se quiser, tudo aquilo que possui algum valor”, dizia Miraval. O amor assim concebido é o único capaz de levantar as águas baixas da vida e fazer com que seus adeptos cheguem à exaltação, que é fonte de todas as belezas: o amor faz do fraco, corajoso, do avaro, pródigo, do triste a ser alegre novamente, etc. Dessa forma, nos encontramos com a joy de que falam os trovadores é a alegria de amar, mais além da finalidade sexual. É a exaltação sentimental que, sem ser estranha ao desejo, o transcende, o espiritualiza, e eleva ao seu beneficiário por cima do comum.

Os trovadores exigiram da dama ideal tantas, se não mais, qualidades intelectuais como encantos físicos. Era necessário que uma mulher do mundo soubesse reter seus hóspedes, depois de haver-lhes acolhido com amabilidade, eliminando da sua conversação as disputas, as querelas e a maledicência: não devia falar mais do que amor, generosidade, de belas façanhas. Por sua parte, os homens bem criados, “os valentes”, estavam obrigados a honrar todas as damas e a cumprimentá-las, pois se supunha que elas encarnavam o joy. As qualidades que os trovadores exigiam deles repousavam essencialmente no respeito e na humildade; tinham que falar com as damas num tom de doçura amável e empregando tão-somente expressões escolhidas: aquelas cujo modelo os trovadores lhes ofereciam.

Conclusão

Basta conhecer os graus estabelecidos no serviço de amor para se dar conta de que cada passo requer, conforme vai se ascendendo, uma maior entrega e um maior desenvolvimento das virtudes que as damas exigiam de seus amantes. Estes graus eram:

fenhedor (no qual o tímido amante não se descobre);

– precador (no qual o amante se atreve a suplicar);

– entendedor (no qual a dama consente em escutá-lo);

drutz (o amante satisfeito e completo).

O precador, e de certa forma o fenhedor ascenderam ao estado de namorado, gozando do joy e da inspiração poética; tinham o direito e o dever de fazer canções! O drutz, o amante carnal, era o que havia sido admitido no assag probatório, ao que nos referimos anteriormente.

Outros países

Ao campo, dom Nuño, vou,

Onde provar espero

Que, se vós sois cavalheiro

Cavalheiro também sou.

A influência de troveros (língua de oil) e trovadores (língua de oc) não cessou nos séculos XII e XIII, mais além das fronteiras da França e Occitânia, nos países vizinhos: Espanha, Portugal, Alemanha e Itália. A poesia dos trovadores se prolongou, não sem se modificar profundamente no seu estilo e espírito, e conheceu assim uma vida nova na Itália com a escola do Dolce Stil Nuovo, e na Catalunha com Jordi de Sant Jordi (século XV); também, a influência do valenciano Ausias March se deixou sentir na poesia castelhana do século XVI.

Itália

Na Itália, os poetas do Dolce Stil Nuovo retomaram em muitos pontos concepções filosóficas – o platonismo ou o averroísmo – que a universidade de Paris havia posto de moda. A dama é uma pura abstração e continua sendo a fonte de todas as virtudes, mas já não tem nenhum vínculo com a Terra. Converte-se numa espécie de anjo, cuja missão é revelar aos homens a pura beleza, mostrar o último estágio do amor celestial, a passagem do desejo carnal ao amor purificado.

Quase todas as damas do Dolce Stil Nuovo morrem jovens, entre os vinte e os vinte e seis anos, à primeira hora do dia, e se convertem em anjos do terceiro céu, sem outra tarefa além de guiar seus amantes na peregrinação mística que realizam pelos três reinos do mundo até a luz.

Ela supera o Sol, esfera de virtude,

E as estrelas e a Lua, e qualquer outro brilho…

… seu belo rosto claro parece a Estrela do Oriente.

É assim que Bonagiunta Orbicciani canta a mulher e a natureza metafísica do amor, um poeta que viu na feminilidade a alma do mundo, a Virgem Maria ou a Flor – a misteriosa rosa – pela qual o mundo se mantém.

Alemanha

Na Alemanha do século XII e XIII, com os grandes minnesänger imitando os trovadores, vemos como aspira a constituir um novo humanismo, bastante diferente do que suscitou o Renascimento. Aparecem os goliardos, poetas medievais de vida vagabunda que geralmente são clérigos ou estudantes. Sua poesia reunida em manuscritos em latim e em alemão, está contida no Carmina Burana (cantos do século XII), que se conserva na abadia de Benediktbeuren. São cantos que, exaltando os prazeres da vida e satirizando as personalidades políticas e eclesiásticas, anunciam uma arte e um humanismo secular.

Na Alemanha existiu um minnesänger que se chamou Tannhäuser ou Tannhuser; alguns dizem que ele foi um cruzado na Terra Santa, outros dizem que ele fugiu de algum monastério e estivesse percorrendo o mundo como um boêmio goliardo. O certo é que o minnesänger real logo se confundiu com um personagem de lenda: tinha vivido junto com a “Dama Vênus”, que o hospedou muito tempo e não queria nunca deixá-lo partir, mas por fim lhe deu sua autorização. Tannhäuser foi à Roma suplicar ao Papa que lhe perdoasse seu pecado. Mas este, apontando para o seu bastão, disse-lhe: “Obterás o perdão quando esse pau seco dê rosas. Vês! Estás condenado”. Desesperado, Tannhäuser decidiu voltar junto a Dama Vênus, que era mais clemente, e se pôs a caminhar. No terceiro dia, o bastão se cobriu de magníficas rosas: o céu lhe havia outorgado sua graça pelo seu amor de Vênus!

Este é um fiel reflexo da mensagem da época medieval alemã: o homem não pode ser salvo mais que pelo eterno feminino em Deus (o eterno que nos atrai ao céu). Basta recordar o Parzival de Wolfram Von Eschenbach e, mais tarde, ao restituído Fausto de Goethe.

Espanha

Ao se dispersarem os trovadores provençais devido à cruzada de Simón de Monfort, as Cortes espanholas, não apenas a de Aragón, mas a de Castilha e a de Portugal os acolheram e honraram à porfia, sendo esta época a de maior apogeu da influência provençal na Espanha.

Os reis de Castilha (de Castilha-León desde 1280) acolheram muito bem os trovadores. Alfonso X o Sábio, principal mecenas da poesia trovadoresca, juntou-se com Bonifácio Calvo, Atde Mous e Guirant Riquier, a quem se considera como precursor da escola tolosana. Alfonso X, apaixonado pela Astronomia e preocupado por difundir ao seu entorno a cultura humanista, restaurou a universidade de Salamanca, promulgou o primeiro código (as Sete Partidas) e fez redigir as tábuas astronômicas chamadas Tábuas Alfonsinas. A pedido de Guirant Riquier esteve a ponto de estabelecer uma severa distinção entre os jograis e os trovadores, e de criar para os mais dotados destes últimos o título de “dom doutor de trovar”. O consistório tolosano tomou esta idéia sob outra forma, distribuindo flores de ouro ou prata aos poetas laureados.

O resultado mais importante e duradouro da influência provençal na Espanha foi a criação de uma nova escola de trovadores na parte central e ocidental da península. Esta escola, qualquer que fosse a comarca natal de seus autores, não empregava como instrumento a língua castelhana, mas outra que se estimava de superiores condições musicais e era preferida por isso para todas aquelas poesias sagradas ou profanas que se destinavam ao canto. Esta língua se amolda de tal forma à imitação dos provençais que adotou grande parte de seu vocabulário, garantindo a rica variedade de sua métrica. Mas, juntamente com a tradição artística e cortesã dos provençais, penetrou nesta escola galaico-portuguesa todo o riquíssimo caudal das lendas piedosas e a tradição hagiográfica as quais já havia dado forma a musa francesa e castelhana de Gautier de Coincy e de Gonzalo de Berceo.

Com relação à Catalunha, antes que sua língua e sua cultura se emancipassem por meio da prosa, a literatura catalã é a mesma que a de Provença, e em provençal escrevem um bom número de poetas catalães. Os Jogos Florais de Toulouse tiveram imediata repercussão na área cultural catalã, de maneira que, em 1393, Juan I de Aragón nomeou os preceptores Jaume March e Lluis d’Averço como encarregados dos Jogos Florais de Barcelona, que se celebrariam seguindo o mesmo estilo que os de Toulouse. Esses jogos se prolongaram até o século XVI, época em que, finalmente, desapareceram.

A música dos trovadores

Contemplando alguns dos instrumentos que os trovadores utilizavam para acompanhar seus poemas e canções, vamos entrar em outro enigma que rodeia tão singulares personagens: sua música.

Isso já constitui uma parte de grande interesse por si só, pois ainda quando a documentação musical autêntica de trovadores e troveros é relativamente abundante, figurando entre os mais nutridos e seletos os cancioneiros franceses de Saint-Germain e do Arsenal, assim como os manuscritos que se conservam na Biblioteca Nacional de Paris, ainda não existe um método seguro e prático para decifrar com completa certeza a até hoje misteriosa escritura dos poetas músicos medievais.

Foram vários os métodos críticos históricos seguidos para revelar o verdadeiro sentido da enigmática escritura trovadoresca: a dos que acreditam que a melodia dos trovadores tem de ser interpretada com arranjo ao canto eclesiástico, considerado como origem da música moderna; a dos que acreditam que a chave dessa melodia é a predominância do ritmo; a dos que aconselham o sistema de investigação baseado no canto genuinamente popular; e por último, a mais recente, do acadêmico e musicólogo espanhol Julián Ribera, que nas suas obras “A música das Cantigas e a música andaluza medieval nas canções de trovadores e troveros” opina que a música trovadoresca pode ser interpretada satisfatoriamente com arranjo ao sistema musical que convivia na Europa durante a Idade Média com o canto eclesiástico, ou seja, o da música ficta ou falsa, que admitia o cromatismo e, que por sua natureza complicada não deve ter sido invenção do povo, mas dos teóricos e músicos árabes andaluzes, cuja influência se faz sentir em todas as nações européias.

Há de se recordar a vinda e estadia na Espanha de numerosos trovadores e jograis desde o século XI que, ao se colocarem em contato com a arte popular musical árabe, tão expandida na Espanha pelos mouros andaluzes, sem dúvida sofreriam a inevitável influência (transmitindo-a logo ao seu país de origem) que confirmaria a aparição na Europa do ars mensurabilis ou música medida – cujos modos rítmicos correspondem quase exatamente com os gêneros rítmicos da arte oriental. A introdução na Europa do uso de instrumentos árabes como a rabeca, o alaúde, violão mourisco e outros, e, por último, a existência de formas fixas que, como o rondó e a balada, têm a mesma estrutura técnica que as canções andaluzes dos séculos VIII ao X.

Também é certo que a tradição trovadoresca nunca cessou no Oriente e que, se nos nossos dias se tenta reencontrar o personagem do trovador indo de povo em povo com seu instrumento, há que ir buscá-lo no Oriente. Tampouco há que esquecer o papel que desempenharam as Cruzadas, porque se durante o século XIII, o Islã ocupa a Península Ibérica, já a partir do século XII, as regiões muçulmanas é que foram invadidas pelos europeus pelo motivo das Cruzadas. Estas interpenetrações permitiram a civilização greco-romana (esquecida nas trevas da Idade Média, mas cuja lição foi conservada pelo mundo islâmico) franquear os Pirineus: as ciências medievais, liberando-se progressivamente de um ensinamento dominadas por um controle demasiado rígido da Igreja (é sabido que durante muito tempo esteve proibido de traduzir Aristóteles), tiraram destas tradições greco-árabes seu interesse pela Alquimia, álgebra, aritmética, Astrologia, Literatura e Música.

Bibliografia

– Trovadores e troveros. René Nelli. Barcelona, 1982.

– História universal. César Cantú. Barcelona, 1891.

– Dicionário enciclopédico hispano-americano. Barcelona, 1890.

– Dicionário geral etimológico da língua espanhola. Madrid, 1883.

– Trovadores e cortes de amor. Jacques Lafitte-Houssat. Buenos Aires.

– La restauraçio dels jocs florales. J. Miracle. Barcelona, 1961.

– Enciclopédia universal Espasa-Calpe. Barcelona, 1932.

J. Carlos Adelantado Puchal

Andrés Bello, o Humanista da América (1ª parte)

por Leonardo Santelices A.

“Andrés Bello não pertence somente à Venezuela, que lhe deu o ser,

nem ao Chile, que lhe deu a segunda pátria,

mas sim a toda América Espanhola, desde o México até Buenos Aires.

Isso é indiscutível. E Bello não é apenas uma magna figura nas letras da América, é o gênio da cultura hispano-americana no século da independência. E se Bello pertence a toda América Espanhola, também pertence à Espanha”.

Ramón Menéndez Pidal

A segunda metade do século XVIII e a primeira metade do século XIX foram tempos de convulsão e esperança na América Latina. Um momento quando se começa a consolidação do que seriam os futuros países que se transformariam mais tarde em repúblicas com todos os seus atributos. É aqui que florescem todos os chamados Pais da Pátria. E é neste tempo agitado e prolífero que vive um de seus grandes protagonistas, Andrés Bello.

“Na segunda metade do século XVIII, Caracas viu nascer três grandes homens representativos da América, para empregar a insubstituível expressão emersoniana: o Precursor, o Visionário, foi assim chamado Miranda pelo seu biógrafo chileno; Bolívar, o Libertador; e Bello, o Educador”( Pedro Lira Urquieta em seu livro Andrés Bello).

Andrés Bello nasceu em Caracas, Venezuela, no dia 29 de novembro de 1781. Seus pais foram Bartolomé Bello, advogado e músico, e Ana Antonia López. Sua vida se desenvolve em três grandes cenários: Caracas do fim do século XVIII e princípio do XIX, que foi uma das cidades mais cultas do império espanhol na América; Londres, que estava se convertendo na capital de um novo império mundial; e, finalmente, no extremo austral do continente, Chile, onde desenvolveu grande parte de sua obra.

O humanista chileno Miguel Luis Amunátegui o descreve assim: “contextura débil na aparência, feições delicadas e expressivas, um caráter sério, freqüentemente meditabundo, às vezes algo melancólico e com entendimento precoce, vigoroso e perspicaz”.

Concorre para suas primeiras letras à escola que, com o nome de Academia,era dirigida em Caracas por Dom Ramón Vanlosten. Freqüenta o convento das Mercedes, onde aprende latim com o Padre Cristóbal de Quesada, grande conhecedor da língua e literatura latinas, que sedimentou o humanismo clássico na alma do menino Andrés Bello. Quando da morte deste (1796), Bello traduzia o livro V da Eneida.

Em 1796, Bello ingressou no Seminário e na Universidade de Santa Rosa de Caracas. No dia 14 de junho de 1800, recebeu o grau de bacharel em artes. Esses estudos lhe deram um excelente domínio do latim e do idioma castelhano e despertaram sua inquietude pela filosofia, ciências e letras. Aprendeu, além disso, por conta própria, os idiomas inglês e francês.

Entre 1797 e 1798, deu aulas particulares a Simón Bolívar, que era um ano e meio mais novo que Bello, e se referiu a ele nestes termos: “Eu conheço a superioridade deste caraquenho contemporâneo meu. Foi meu mestre, quando tínhamos a mesma idade e eu o amava com respeito”.

No fim de 1799, conheceu Alexander von Humboldt, a quem acompanhou em 1802 na ascensão do Monte Ávila. Assim iniciava-se uma amizade peculiar, sendo, para alguns críticos, notável a influência de Humboldt na visão da natureza que expressa Bello em suas poesias, assim como em seus ensaios, traduções e, fundamentalmente, em sua obra de divulgação científica.

Suas obras em Caracas

Em 1807, Bello foi nomeado pelo capitão geral interino, Juan de Casas, secretário político da junta da vacina. Desde o século XVI, a Venezuela vinha sendo atacada pela peste da varíola, isso deu uma enorme evidência à vacina e a Andrés Bello, que,cheio de entusiasmo juvenil por este acontecimento, compõe um longo poema denominado À Vacina, do qual seguem alguns poucos versos:

Carlos manda; y al punto una gloriosa

expedición difunde en sus inmensos

dominios el salubre beneficio

de aquel grande y feliz descubrimiento.

Él abre de su erario los tesoros;

y estimulado con el alto ejemplo

de la regia piedad, se vigoriza

de los cuerpos patrióticos el celo.

Él escoge ilustrados profesores

y un sabio director, que, al desempeño

de tan honroso cargo, contribuyen

con sus afanes, luces y talento.

¡Ilustre expedición! La más ilustre

de cuantas al asombro de los tiempos

guardó la humanidad reconocida;

y cuyos salutíferos efectos,

a la edad más remota propagados,

medirá con guarismos el ingenio,

cuando pueda del Ponto las arenas,

o las estrellas numerar del cielo.

Que de polvo se cubran para siempre

estos tristes anales, donde advierto

sobre humanas cenizas erigidos

de una bárbara gloria los trofeos

Em 1808, surge em Caracas a primeira imprensa, e o governo começa a publicação de um jornal local chamado A Gazeta de Caracas e, por seu prestígio, Andrés Bello é nomeado seu primeiro redator.

No final de 1809, elabora o Calendário Manual e Guia Universal de Forasteiros na Venezuela, contendo o resumo da história da Venezuela, no qual serão mostradas as qualidades da prosa de Andrés Bello, como se pode ver neste parágrafo:

As vantagens que prometia o País dos caracas haviam chegado à Corte, talvez pelas relações de Sancho Briceño, Deputado da Província da Venezuela, para estabelecer a forma de governo mais conforme ao estado de sua população, pois, que tendo vindo a governá-la, D. Pedro Ponce de León lhe deu especial encargo de que concluísse a redução do Vale de Maia. A honra de fundar nele a capital, que os heróicos trabalhos de sua conquista prometiam a Fajardo, estava reservado a Diego Losada, a quem confirmou Ponce a nomeação que lhe havia dado seu antecessor para ser intendente da redução dos caracas. Ofereceu-se para acompanhá-lo Juan de Salas, seu íntimo amigo, com cem índios guayqueríes, que tinha na Margarita e, ao mesmo tempo que saiu Salas para buscá-los, partiu Losada do Tocuyo em 1567 e chegou até Nirgua, desde onde, encarregando o mando a Juan Maldonado com ordem de que o esperasse no Vale de Guacara, dirigiu-se a Borburata em busca de Salas, cujo atraso já era prejudicial à sua derrota. Depois de esperá-lo em vão, durante quinze dias, voltou a se incorporar com os seus, que se encontravam no Vale de Mariara, onde se deteve a passar revista em seu exército, que era composto de cento e cinqüenta homens, dentre eles vinte a cavalo, oitocentos índios auxiliares, duzentas bagagens e um grande rebanho de gado.

Durante sua juventude, Bello se destacou como poeta, com um estilo que responde aos cânones neoclássicos, em voga em seu tempo. Como exemplo, seguem umas poucas estrofes de seu poema À Nave, inspirado em Horácio.

¿Te llevarán al mar, oh nave, nuevas olas?

¿Qué haces? ¡Ay! No te alejes del puerto.

¿No ves cómo tus flancos están faltos de remos

y, hendido el mástil por el raudo Ábrego,

tus antenas se quejan, y a duras penas

puede aguantar tu quilla sin los cables

al cada vez más agitado mar?

No tienes vela sana, ni dioses

a quienes invocar en tu auxilio,

y ello por más que seas pino del Ponto,

hijo de noble selva, y te jactes

de un linaje y de un nombre inútil.

Nada confía el marinero, a la hora del miedo,

en las pintadas popas. Mantente en guardia,

si es que no quieres ser juguete del viento.

Tú, que fuiste inquietudes para mí

y eres ahora deseo y cuidado no leve,

evita el mar, el mar que baña

las Cícladas brillantes.

Horacio

¿Qué nuevas esperanzas

al mar te llevan? Torna,

torna, atrevida nave,

a la nativa costa.

Aún ves de la pasada

tormenta mil memorias,

¿y ya a correr fortuna

segunda vez te arrojas?

Sembrada está de sirtes

aleves tu derrota,

do tarde los peligros

avisará la sonda.

¡Ah! Vuelve, que aún es tiempo,

mientras el mar las conchas

de la ribera halaga

con apacibles olas.

Presto erizando cerros

vendrá a batir las rocas,

y náufragas relíquias

hará a Neptuno alfombra.

Andrés Bello

Também começou em Caracas suas investigações sobre o idioma castelhano, escreveu a monografia Análise Ideológica dos Tempos da Conjugação Castelhana, «o mais original e profundo de seus estudos lingüísticos», segundo Menéndez Pelayo e a Arte de Escrever com Propriedade, composto pelo Abate Condillac, traduzido do francês e recuperado para a língua castelhana.

A estadia em Londres

No dia 10 de junho de 1810, na corveta inglesa General Wellington, parte para Londres acompanhando a missão diplomática enviada ante o governo britânico, formada por Simón Bolívar e Luis López Méndez. Quando foi para Londres, aos 29 anos, Bello já tinha fama de ser um homem de letras. Sua estadia em Londres deveria ser por pouco tempo, no entanto, os acontecimentos políticos modificaram esses planos.

Em 1812, restabeleceu-se o regime colonial na Venezuela, com o que Andrés Bello começou seu período de auto-exílio.

Entre 1812 e 1822, não teve trabalho estável. Ocupou-se em transcrever os manuscritos de Jeremias Bentham e deu aulas particulares de francês e espanhol. Graças às gestões de José María Blanco y Crespo, conhecido como Blanco White, escritor e polemista espanhol exilado na capital britânica, recebe auxílios do governo inglês e foi mestre dos filhos de William Richard Hamilton, nesse momento, subsecretário de Relações Exteriores.

Em maio de 1814, casou-se com Mary Ann Boyland, de 20 anos, que lhe deu três filhos. Mary morreu em 9 de maio de 1821. Bello casou-se novamente em fevereiro de 1824, com Elizabeth Antonia Dunn, também de 20 anos, que o acompanhou até o fim de seus dias. Este matrimônio gerou 12 filhos: três deles nascidos em Londres e os demais no Chile.

Relaciona-se com Antonio José de Irisarri, guatemalteco, Ministro do Chile em Londres, quem o nomeia secretário interino da missão diplomática em 1822.

Durante sua estadia em Londres, completa sua formação e faz amizade com importantes personagens europeus e latinoamericanos, entre eles Francisco de Miranda. Bello viveu em sua casa de Grafton Street até 1812 e trabalhou na magnífica biblioteca que ocupava todo um andar da residência.

Bello trabalhou nas magníficas bibliotecas públicas da capital britânica: a do British Museum e a London Library. Ali leu os clássicos gregos e latinos e dispôs de impressos e manuscritos de extraordinário valor para seus estudos filológicos, tendo trabalhado na reconstrução do Poema del Cid.

Bello foi redator de duas grandes revistas publicadas em Londres por uma sociedade de americanos, das quais são alma Andrés Bello e Juan García del Río (1794-1856). Apareceu em 1823 a Biblioteca Americana, uma miscelânea de literatura, artes e ciências. Nesta publicação Bello traduz ou extrai diversos artigos sobre magnetismo terrestre, teoria das proporções definidas e tabela dos equivalentes químicos, cultivo e benefício do cânhamo, entre outros.

Em 1826 -1827, aparece em O Repertório Americano, com a publicação de “Alocução à poesia”, na qual se “introduzem os elogios dos povos e indivíduos americanos que mais se destacaram na guerra de independência”.

Em o Repertório, aparecem traduções ou resumos seus sobre temas também diversos como: História da Doutrina dos Elementos dos Corpos, Introdução aos Elementos de Física do Doutor Arnott, Descrição da cochinilla misteca de sua criação e seu benefício, o Ensaio político sobre a Ilha de Cuba por Humboldt, Descobrimento de um Novo Remédio contra a Papeira, etc.

Esta prolífica estadia de Bello em Londres, às vezes cheia de penúrias econômicas,  compartilhadas com personagens europeus e americanos, será um período de uma importante produção poética, como A Agricultura da Zona Tórrida que segue:

¡Oh! ¡los que afortunados poseedores

habéis nacido de la tierra hermosa,

en que reseña hacer de sus favores,

como para ganaros y atraeros,

quiso Naturaleza bondadosa!

romped el duro encanto

que os tiene entre murallas prisioneros.

El vulgo de las artes laborioso,

el mercader que necesario al lujo

al lujo necesita,

los que anhelando van tras el señuelo

del alto cargo y del honor ruidoso,

la grey de aduladores parasita,

gustosos pueblen ese infecto caos;

el campo es vuestra herencia; en él gozaos.

¿Amáis la libertad? El campo habita,

no allá donde el magnate

entre armados satélites se mueve,

y de la moda, universal señora,

va la razón al triunfal carro atada,

y a la fortuna la insensata plebe,

y el noble al aura popular adora.

¿O la virtud amáis? ¡Ah, que el retiro,

la solitaria calma

en que, juez de sí misma, pasa el alma

a las acciones muestra,

es de la vida la mejor maestra!

¿Buscáis durables goces,

felicidad, cuanta es al hombre dada

y a su terreno asiento, en que vecina

está la risa al llanto, y siempre, ¡ah! siempre

donde halaga la flor, punza la espina?

Id a gozar la suerte campesina;

la regalada paz, que ni rencores

al labrador, ni envidias acibaran;

la cama que mullida le preparan

el contento, el trabajo, el aire puro;

y el sabor de los fáciles manjares,

que dispendiosa gula no le aceda;

y el asilo seguro

de sus patrios hogares

que a la salud y al regocijo hospeda

(fragmento)

Mudanças tecnológicas mostram uma importante mudança de mentalidade.

por Leonardo Santelices A.

À intempérie

o vento vai se infiltrando

até minha alma

Matsuo Basho

A noção da arquitetura tradicional

Estamos tão acostumados a escutar que o ser humano é um animal e muitas vezes fomos nos convencendo de que é assim logo atuamos como conseqüência deste postulado. No entanto, é claro que nós humanos temos algumas diferenças fundamentais com os animais, entre elas, o fator cultural.

Por isso a sociedade humana não vive num espaço natural selvagem, ao invés disso, vive em um espaço cultural com qualidades e significado.

As qualidades são de diversas índoles, físicas, energéticas, psicológicas e inclusive espirituais. A valorização do espaço para os humanos não é um problema de preço ou valor material sendo fundamentalmente um problema de significado, sendo que o significado é o que faz variar o custo comercial de um terreno ou de uma casa, por exemplo.

Para a estética japonesa uma paisagem é um pedaço do Tao, o Sentido e a Trilha Universal, e através desta paisagem, na medida em que se compreenda o Kami ou o Espírito que lhe habita, pode integrar-se ao Tao. Sendo assim, a relação com o espaço natural é fundamentalmente através de seu significado, como nos mostra o haiku de Basho que colocamos no início deste artigo.

As pessoas da comunidade japonesa, para viverem em um lugar natural, intervém primeiramente nele, ou seja, transformam-no e outorgam-no qualidades e significado. Por isso o espaço humano propriamente dito é também um espaço arquitetônico.

No século I a.C., Vitrúvio fixou as três condições básicas da arquitetura: Firmitas, Utilitas, Venustas (resistência, funcionalidade e beleza). Além da distância temporal e de mentalidade, estes três princípios conservam em grande parte sua vigência, mesmo sendo poucas as obras que os cumpram.

As obras arquitetônicas devem cumprir com uma determinada perfeição técnica que lhes assegure uma adequada Firmitas (resistência).

Toda obra arquitetônica, desde uma cidade até uma casa, deve cumprir cabalmente com a função para a qual foi desenhada, ou seja, cumprir com a condição de Utilitas (funcionalidade).

Nós, seres humanos, também necessitamos de beleza, harmonia e estética, por isso toda a obra arquitetônica também deve possuir Venustas (beleza).

Atualmente, com o rumo que tomaram as coisas – em relação à deterioração crescente ao meio ambiente, que é produto das atividades humanas – resta claro que rompemos o vínculo entre a sociedade humana e a natureza, e isso fez com que o tríptico arquitetônico se deformasse completamente.

Não nos referimos somente à arquitetura, mas também à atividade humana em conjunto. Firmitas é agora o uso indiscriminado de materiais em que o maior produto gerado é o lixo, muito do qual necessitará de milhões de anos para ser regenerado. A Utilitas foi substituída pela rentabilidade comercial, já não se pensa se uma atividade é útil, mas se é rentável. Venustas já não é a busca pela beleza, foi substituída pelas modas estéticas de corte intelectual, que nem sequer levam em conta a beleza como busca.

Como chegamos a isso?

O domínio da Natureza como mentalidade

A burguesia, ao longo de seu domínio de classe, que conta apenas com um século de existência,

criou forças produtivas mais abundantes e mais grandiosas que todas as gerações passadas em conjunto.

A submissão das forças da natureza,

a utilização das máquinas, a aplicação da química, à indústria e à agricultura,

a navegação à vapor, o trem, o telégrafo elétrico, o aproveitamento para o cultivo de continentes inteiros, a abertura de rios para navegação, populações inteiras surgindo por encanto,como se tivessem saído da terra.

Em qual dos séculos passados eu poderia suspeitar que tais forças produtivas

dormitassem no seio do trabalho social?

Manifesto do Partido Comunista – Marx e Engels

É evidente a relação estreita que existe entre o ser humano e a natureza e sempre existiu, entretanto nem sempre se viu esta relação da mesma forma.

Para o pensamento tradicional não há conflito entre a natureza e a cultura. Entretanto no pensamento moderno, cultura e natureza já não são uma unidade, chegando inclusive a serem colocadas como uma relação antagônica.

A natureza passou a ser vista como algo afastado e diferente do humano – assim como na definição da urbs como aquele que é diferente ao rus, entendia-se o humano como sendo diferente do natural – e isto foi provocando primeiro uma distância e logo um antagonismo.

O método científico era entendido como uma capacidade de observar através da inteligência humana, os fenômenos de uma natureza mecânica e dessa observação foram surgindo sistemas de interpretação da natureza.

Após estabelecer estes sistemas que explicam os fenômenos e as forças da natureza, entendeu-se o desenvolvimento da civilização como sendo a capacidade de dirigi-las e submetê-las em benefício do ser humano.

A relação entre o ser humano e a natureza se transformou então em uma luta, na qual, o objetivo era conquistá-la. Em um livro de divulgação científica podemos ver em dois parágrafos, exemplos desta postura:

“O investigador não deve desenhar ou fotografar insensivelmente os fenômenos isolados; deve esforçar-se para dominá-los, submetê-los à sua vontade. O novo investigador não deve ser um artesão em seu laboratório, senão um forjador de novas idéias nascidas na luta com a natureza para a conquista do mundo”.

“Diante dos nossos olhos acontecem grandes conquistas do pensamento químico e inúmeros exemplos nos demonstram como os entusiastas da ciência vencem a natureza”.

Então, a idéia era lutar contra a natureza para vencê-la. Uma simples comparação de magnitudes entre as obras humanas e as da natureza nos demonstram o absurdo desta mentalidade, mas foi este o motor que propiciou a idéia de desenvolvimento durante alguns séculos e que, ainda continua imperando em grande parte da cultura vigente.

A Revolução Industrial

“Manjares de plástico, sonhos de plástico.

É de plástico o paraíso que a televisão promete a todos e a poucos outorga.  A seu serviço estamos.

Nesta civilização onde as coisas importam cada vez mais e as pessoas cada vez menos, os fins foram seqüestrados pelos meios: as coisas te compram, o automóvel te dirige, o computador te programa e a TV te assiste”.

Eduardo Galeano

Para Claude Fohlen as causas da chamada Revolução industrial podem ser classificadas em fatores endógenos e exógenos, entre os primeiros estão:

1- Tecnologias e invenções aplicadas à indústria entre as quais podemos destacar as inovações na indústria têxtil e a máquina a vapor.

2- Acumulações de capitais, na indústria o capital tem um papel mais relevante que na agricultura.

3- Função dos empresários ou empreendedores que são aqueles que estão dispostos a investir o capital nas inovações.

Entre os fatores exógenos estão:

1- A revolução agrícola consistente na supressão da rotação trienal e no desaparecimento dos barbechos e a extensão de terras cultiváveis.

2- O crescimento da população, mesmo que alguns considerem que seja uma conseqüência ao invés de uma causa do processo de industrialização.

3- A ação do Estado para apoiar o crescimento industrial.

Com a mesma mentalidade “objetiva” utilizada no método científico, analisa-se a Revolução Industrial como um fenômeno, neste caso econômico e social. Sem tirar a importância destes aspectos, não há como esquecer de que os acontecimentos da sociedade obedecem a uma determinada mentalidade.

Em seu livro Pneumatics, Heron de Alexandria do séc. I a.C. descreve e detalha uns 80 experimentos diferentes realizados com vapor. Fazia os pássaros cantarem, fazia os instrumentos musicais tocarem, mover figuras e outros engenhos.

Entre estas invenções estava a “eolípia” cujo nome provém de Eolo, deus do vento. Esta é a primeira máquina a vapor que possui registro escrito. Consiste num globo ou esfera oca colocada sobre uma plataforma, de maneira que pudesse girar ao redor de um par de varetas, sendo uma delas oca. Por esta o vapor d’água sobe, o qual escapa do globo para fora por dois tubos dobrados orientados tangencialmente em direções opostas e colocados nos extremos de um diâmetro perpendicular ao eixo do globo.  Ao ser expelido o vapor, o globo reage a essa força e gira ao redor do seu eixo. Este sistema, no qual os jatos de água atuam como força motriz no lugar do vapor, é o que atualmente se utiliza nas regas por aspersão.

Utilizando o mesmo mecanismo, Heron fez uma máquina que abria e fechava automaticamente as portas do templo.

É evidente que na máquina de Heron contava-se com elementos suficientes para fazer uma máquina à vapor e aplicá-la à indústria. No entanto, não havia a mesma mentalidade e, por conseqüência, os inventos de Herón tinham um caráter que para nós parecem jogos, mas que possivelmente aos gregos helenísticos era algo sério e importante. Tal como ocorreu com as pessoas da idade média, para as quais era muito importante e fundamental a construção de catedrais. A mentalidade própria de cada época outorga importância a determinados aspectos da sociedade.

Então, devemos considerar também como uma causa da chamada revolução industrial a mentalidade de domínio da natureza, que foi a que prevaleceu durante todo esse tempo. A indústria foi a expressão mais concreta do domínio das forças da natureza que, ao perder seu valor sagrado, transformou-se numa fonte inesgotável de recursos que poderiam ser transformados, graças à indústria, numa grande quantidade de bens de consumo que trariam um crescimento constante à economia.

Para produzir cada vez mais, é necessário consumir mais matérias-primas e mais energia. Por isso, há não muitos anos atrás, media-se o nível de desenvolvimento de um país de acordo com o seu consumo de energia e entendia-se que quanto mais consumo havia, maior era o desenvolvimento. Hoje sabemos que os recursos são limitados e que a economia não pode cresce sempre, pelo menos não a prazos médios ou longos. Por isso, hoje se entende o desenvolvimento não como incremento, e sim como desenvolvimento sustentável.

Numa mentalidade em que a natureza é vista como uma inimiga que deve ser conquistada, a sociedade demonstrava suas invenções e engenhos que lhe permitiam contradizer a natureza, porque tudo isso mostrava até onde havia chegado a conquista.

Na arquitetura vernácula vamos encontrar sempre desenhos que buscam estar em harmonia, por exemplo, com o clima. Assim, nos climas tropicais se desenham lugares que provém da sombra e que gerem correntes de ar com o objetivo de neutralizar o calor e a umidade.

Este desenho que busca criar as condições adequadas ao clima, é considerado para a mentalidade de conquista da natureza, uma subordinação do homem à natureza, sente-se como numa batalha perdida. Ganhar a batalha é fazer uma construção, já não buscando a utilitas (funcionalidade) de se adaptar aos diferentes climas, mas uma versão deformada de venustas (beleza), que é fazer o que lhe dita a moda do momento por mais absurda que seja. Para permitir isso, utilizou-se diferentes engenhos entre eles o ar condicionado, que nasceu para uma função industrial.

O ar condicionado

Os primeiros antecedentes do ar condicionado podem ser encontrados nos trabalhos do engenheiro francês Sadie Carnot. Em 1824, ele estudou a eficiência das diferentes máquinas térmicas que trabalham transferindo calor de uma fonte à outra e concluiu que as mais eficientes são as que funcionam de maneira reversível.

Para isso desenhou uma máquina térmica totalmente reversível que funciona entre duas fontes de calor de temperaturas fixas. Esta máquina é conhecida como a máquina de Carnot e seu funcionamento é chamado de ciclo de Carnot que se define com um processo cíclico reversível que utiliza um gás perfeito e que consiste em duas transformações isotérmicas e duas adiabáticas. Este ciclo vai exercer um papel fundamental nos fundamentos da termodinâmica atual.

Em 1852, James Prescott Joule e William Thomsom (Lord Kelvin) descobriram que a temperatura de um gás desce quando se expande através de uma parede porosa até uma região de pressão mais baixa. Ambos investigadores deixaram expandir um gás por uma placa porosa, de uma pressão constante à outra, controlando a diferença de temperatura produzida por efeito da expansão. O sistema estava isolado de forma que o processo era adiabático, e observaram que a temperatura era inferior na zona de baixa pressão e que a diferença de temperatura era proporcional à diferença de pressão aplicada. Este fenômeno é conhecido como efeito Joule-Thomson e serve de base à refrigeração e aos sistemas de ar condicionado.

O ar condicionado, como conhecemos atualmente, deve-se à criatividade do engenheiro Willis Haviland Carrier. Em 1902, Carrier foi contratado por um editor do Brooklyn para controlar a umidade e a temperatura no seu escritório, que o impediam de conseguir uma boa qualidade em seus trabalhos.

Carrier encontrou a solução, e assim foram criadas as bases de uma invenção revolucionária, o ar condicionado. Rapidamente chegaram pedidos de companhias que estavam afetadas pelo mesmo problema, e foi assim que o sistema desenvolvido por Carrier permitiu que uma grande quantidade de indústrias melhorassem seus produtos: fábricas têxteis, de navalhas, de películas de celulóide, de cápsulas farmacêuticas, processadores de tavaco, confeitarias, embaladoras de carne, fábricas de sabão, de munições, entre muitas que outras foram beneficiadas pelo novo sistema.

O primeiro “aparelho para tratar o ar” foi registrado por Carrier em 1906, e no ano seguinte já chegava seu primeiro pedido vindo do exterior, uma fábrica de seda de Yokohama, no Japão. Nos primeiros anos, este sistema que permitia controlar a umidade e a temperatura, estava focado à indústria, às máquinas mais do que para às pessoas.

Isto mudou em 1924, quando fez sua inauguração numa loja de Detroit, na qual as vendas caíam no verão devido ao calor. Já no verão de 1925, o cinema Rivoli de Nova York refrigerava sua sala e divulgava fortemente seu “fresco conforto”. No dia da inauguração do local refrigerado, poucos lembraram do filme, mas ninguém esqueceu a sensação de conforto que se desfrutou naquela sala.

As máquinas de ar condicionado se sustentam no ciclo de refrigeração que é um ciclo fechado, composto por quatro processos básicos que funcionam de forma eficiente, graças às propriedades dos gases refrigeradores e seguindo o Ciclo de Carnot.

Como é um circuito fechado podemos explicá-lo começando por qualquer parte dele.

O primeiro passo é quando o gás refrigerador passa pelo processo de Compressão no qual, de acordo com a lei dos gases, o incremento de pressão faz com que a temperatura aumente, o gás superaquecido e a alta pressão se descarregam no processo seguinte.

O Condensador, no qual o calor restante é evacuado a u xpansvai a uma va temperatura de saturaçremento de pressulquer roporconava dido utos?:m ar mais frio e a temperatura do gás desce a uma nova temperatura de saturação, tornando-se líquido; este líquido vai a uma válvula de Expansão, onde ao se expandir o gás, a pressão é reduzida e, por conseqüência, a temperatura também.

A partir deste ponto, vai ao Evaporador, onde o líquido evapora a uma temperatura e pressão constantes, enquanto a energia necessária para o fornecimento de calor latente de evaporação passa das paredes do evaporador ao líquido que está evaporando. Todo o refrigerado se evapora no evaporador e isto faz com que o calor do meio ambiente passe para o evaporador.

O ciclo de refrigeração é uma engenhosa aplicação das propriedades físicas, sendo um circuito fechado, produz um intercâmbio de calor, coloca calor pelo condensador e absorve pelo evaporador. Mas todo este processo consome uma grande quantidade de energia.

Paulatinamente, o ar condicionado foi trazendo conforto às pessoas e hoje são milhões de máquinas de ar condicionado que funcionam no mundo, desde os pequenos aparelhos individuais até grandes centrais que são capazes de abastecer um edifício.

Edifícios confortáveis sem ar condicionado

As atividades nos prédios comerciais consomem um sexto de toda a energia que o mundo ocidental consome. Se o ar condicionado fosse eliminado, economizar-se-ia mais de um terço deste consumo energético, segundo o comunicado do Instituto Tecnológico de Massachussets emitido em junho de 2006.

O problema é que ninguém quer trabalhar em um ambiente sufocante e para isso se faz imprescindível o uso destes sistemas. Perante este desafio, os investigadores do MIT estão desenvolvendo uma nova ferramenta informática que ajude os arquitetos a desenhar edifícios que se refresquem utilizando correntes de ar naturais.

Outras investigações sobre o efeito dos íons na saúde demonstram que o ar natural é mais confortável e saudável que o ar condicionado. Portanto, um desenvolvimento neste sentido permitiria poupar tanto com relação à energia quanto à economia e ainda com maiores benefícios para a saúde.

Não há como pretender que se elimine completamente o ar condicionado, sobretudo nas indústrias, mas nos ambientes onde trabalham as pessoas, um desenho mais inteligente em que se diminuam as cargas térmicas externas e internas e seja aumentado o fluxo natural de ar, vai permitir prescindir ou ao menos diminuir o uso do ar condicionado.

Além dos benefícios que estes desenhos podem trazer, é interessante constatar que cada vez mais se está criando uma nova mentalidade, ainda no âmbito tecnológico. A natureza já não é mais vista como inimiga que deve ser conquistada, mas como nosso próprio ambiente com o qual devemos manter relações harmônicas, e isso é possível se trocarmos este enfoque bélico por um enfoque de convivência.

As mentalidades também obedecem a ciclos, não são ciclos fechados, e sim abertos que vão conformando espirais. Mas, estamos paulatinamente retornando àqueles perenes postulados da filosofia clássica de ver o cosmos como uma ordem inteligente e inteligível e o ser humano como um microcosmo, que forma parte integral do cosmos e está regido por essa mesma ordem inteligente.

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Ano-Novo à  Reis, tradições e ritos

Continuando com o tema das tradições espanholas, este é o mês indicado para conhecer os costumes natalinos dos povos que souberam mantê-los e desfrutá-los desde tempos muito remotos.

Guia mágico do antigo Egito

Para caminhar pelo Egito com os olhos e a alma desperta, é necessário ter um bom guia, e, se for mágico, ainda melhor: conhecer Giza como lugar de transmutação, a orientação das pirâmides, a situação do calendário de Denderah. Apenas assim não nos perderemos pelos caminhos trilhados para o turista.

A Grande Pirâmide

Os estudiosos continuam se perguntando como e quando foi construída, quem a impulsionou e para que serviu.

Os viajantes continuam contemplando sua suntuosidade e sentindo sua magia.

Seu exterior demonstra um grande desafio, seu interior um enigma não resolvido. Ninguém que a tenha visto fica indiferente a ela.

Hipatia de Alexandria

É pouco o que se pôde resgatar da vida e da obra desta matemática, mas isso nos basta para conhecer a sabedoria desta grande mulher do mundo clássico.

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