Edição 12

Editorial

Nem sempre a atualidade, que tanto nos impõe seu ritmo, nos diversos âmbitos da vida, é capaz de satisfazer nossas inquietudes, que na maioria das vezes correm por outros leitos, devido a fatores mais profundos e serenos, para além da tirania do imediato ou do recente. Uma publicação como a nossa, sujeita a periodicidade mensal, oferece na maioria dos casos conteúdos que poderíamos classificar como atemporais. Isso explica porque sempre recebemos pedidos de números atrasados pela nossa página da web.

A informação cultural que oferecemos mês a mês aos nossos leitores rege-se por algumas regras não escritas que desafiam a temporalidade e as imposições do novo, dos impactos transformados em notícias, dominantes no âmbito impositivo, que tanto condicionam nossa vida em sociedade. Os conteúdos culturais forjam-se na atividade do espírito, que é a essência da cultura e seu motor. Parece-nos que participam dessa atemporalidade característica do espírito e sintonizam-se muito bem com os interesses que se encontram além da curiosidade e suas impressões frente ao chamativo e às vezes até surpreendente.

Todavia, a pseudocultura do insólito e do pitoresco às vezes pretende alcançar certos âmbitos e, para impressionar ou despertar o interesse dos usuários ou consumidores, utiliza esses meios e busca ajustar seus conteúdos a suas implacáveis condições, deformando e convertendo em caricatura propostas interessantes que, tratadas com o devido rigor e racionalidade, poderiam enriquecer a gama de respostas às perguntas que, buscadores do sentido que têm as coisas para além das aparências, nos fazemos. É evidente o desgaste que envolve algumas teorias como a da reencarnação, vulgarizada pelo pseudoesoterismo, com suas seqüelas de adivinhos cartomantes, e pela malversação de toda espécie de simbolismos.

Neste ponto, nossa tarefa consiste em resgatar as confusões reinantes nos tesouros de uma sabedoria atemporal que se tem manifestado em diferentes épocas, com distintos nomes e linguagens, inclusive com uma natureza universal, submetê-las à disciplina da investigação e da análise e comprovar o que é certo ou convincente em tais propostas procedentes do conhecimento muitas vezes esquecido ou tergiversado.

Com a divisão das academias, trata-se de limpar e de dar resplendor e claridade a teorias que formam parte do patrimônio da Humanidade e que podem contribuir com alguma orientação nos labirintos do desconcerto e na confusão tão próprios de nosso tempo. E essa é uma informação cultural que vale a pena elaborar e difundir com a atualidade perene que têm os assuntos do espírito.

Mosaico

De dois pintores

Em certa ocasião, um aficcionado encomendou ao artista Lantara um quadro que devia conter uma igreja. Fiel à sua forma de pintar, criou a paisagem de uma igreja, mas sem nenhuma pessoa na cena. Quando o interessado viu o quadro, achou-o maravilhoso, mas ao não ver nele nenhuma figura humana, disse ao pintor: esqueceu de pôr os personagens. Não senhor — respondeu-lhe o pintor, mostrando lhe a igreja — é que estão todos na missa. — Ah, bem. Então comprarei o quadro quando saírem — afirmou o comprador.

Outro famoso pintor americano, James Whistler, que se encontrava numa reunião londrina juntamente com outros notáveis personagens, comentou que havia nascido em Lowell, uma vila industrial do estado do Massachussets.

Horrorizada, uma senhora exclamou:

— Que horror! Como pôde vir ao mundo em semelhante lugar?

— Como vê, senhora — respondeu-lhe o artista — queria estar junto à minha mãe naqueles momentos.

Fobias

Todos nós temos ouvido falar de fobias algumas muito familiares.

É possível que ainda padeçamos de algumas delas, como a claustrofobia (temor de espaços fechados), a acrofobia (temor de altura) ou a aracnofobia (temor de aranhas).

Todavia, nós seres humanos somos um mostruário muito variado pois a classificação é muito mais ampla. Existem medos mais pitorescos como a dromofobia (temor de atravessar as ruas), mais comuns como a brontofobia (temor de trovões) ou mais elitistas como a númerofobia (temor dos números).

Alguns rejeitam animais como serpente (ofidiofobia), outros elementos naturais como o fogo (pirofobia); alguns temem situações freqüentes como espaços abertos (agorafobia) ou os inevitáveis como a morte (tanatofobia).

Em qualquer caso, é evidente que nós seres humanos somos capazes de ter medo de qualquer coisa. Será que também podemos ser valentes frente a qualquer coisa?

Quem disse que não podemos dormir com um olho aberto?

Os golfinhos são animais inteligentes que, para se comunicar, utilizam complexos sistemas. E quando querem simplesmente relacionar-se com seus congêneres? Usam seus assobios de ondas curtas de freqüência variável. Quando querem orientar-se ou localizar bancos de peixes? Emitem um estalo de ondas compridas como as de radar, que lhes informa a situação, tamanho e velocidade dos objetos. Cada golfinho possui seu assobio característico; nenhum outro golfinho o utiliza.

São capazes de processar informações acústicas numa velocidade surpreendente. Em experimentos de emissão de sons gerados pelo computador, foi comprovado que podem memorizar seqüências complexas de menos de um segundo de duração e responder com a mesma freqüência, mas ao contrário, como uma fita de áudio invertida.

O número de rotações do seu cérebro é maior do que o nosso; mas existe outro aspecto em que levam vantagens sobre nós: os golfinhos não dormem como os demais mamíferos.

Nunca perdem a consciência. Os dois hemisférios do seu cérebro se alternam ao longo do dia em breves etapas de sono; assim, enquanto um hemisfério está descansando, o outro está alerta. Há outro sistema mais prático de nadar e guardar a roupa?

Que linda é esta rã!

A beleza das criaturas da Natureza às vezes pode ser perigosa. A Dendrobates pumilio, mais conhecida por seu nome artístico de rã fresa, ou rã flecha, é um belíssimo exemplar de bratáquio. Suas cores vivas constituem um aviso para os predadores de que sua carne é muito venenosa. Este anfíbio possui uma maravilhosa e chamativa cor laranja intensa, com áreas escuras em algumas partes do seu corpo. Vive em algumas zonas da América e seu veneno foi utilizado por alguns povos indígenas para envenenar suas flechas. As poderosas toxinas que contém sua pele podem causar a morte ou paralisia em pequenos mamíferos que venham a ingeri-la. A sua manipulação descuidada pode trazer graves conseqüências se a mucosidade do animal entra em contacto com feridas e arranhões. Transmite, portanto, uma mensagem clara: ver, mas não tocar.

O asno e porquinho

Invejando a sorte do porquinho,

um asno maldizia seu destino.

“Eu – dizia – trabalho e como palha;

ele come farinha, couve e não trabalha.

A mim me dão pauladas todos os dias;

a ele lhe coçam e adulam a teimosia”.

Assim se lamentava de sua sorte;

mas assim que percebe

que no chiqueiro alguém

avança com guisa de matança,

armado de faca e de panela,

e com manhas de fera

dá ao gordo porquinho fim sangrento,

diz para si o jumento:

“sim, isso é para o ócio e os presentes,

ao trabalho e as pauladas me atenho”.

Félix María Samaniego

A Atlântida na Espanha?

A fixação pelas costas espanholas que sempre tiveram os investigadores levou o pesquisador André Gutscher, da universidade francesa de Western Brittany, a assegurar que na ilha de Spartel, próxima de Cádiz, a 60 metros de profundidade, encontra-se Atlântida.

A base de seus estudos é fosseis de insetos, uma acumulação de grãos entre 50 e 120 cm., que datou com aproximadamente 12.000 anos, tempo este que coincide com a descrição feita por Platão.

Em 2001, o arqueólogo Jaques Collin Girad já propusera o mesmo local, apesar de não ter encontrado estruturas feitas pela mão do homem. Agora, a Universidade francesa se propõe a continuar os estudos na zona gaditana, principalmente onde se situam os Tartessos.

Imagem gerada pela NASA do lixo espacial

Imagem gerada pelo computador da NASA no ano 2000, com o objetivo de mostrar as toneladas de lixo espacial girando na órbita da Terra.

Os resíduos vão desde câmaras, canetas e chaves de fenda, lançados desde que o homem foi pela primeira vez ao espaço há quatro décadas, até fragmentos de foguetes e painéis solares.

Calcula-se que cerca de 100.000 objetos produzidos pelo homem, cujo diâmetro varia entre 70mm e 10cm, giram na órbita do planeta a uma velocidade de 13km por segundo.

Para a estação Espacial Internacional, a centenas de quilômetros sobre a terra, as possibilidades de ser atingida por algum dos objetos que estão na órbita do planeta aumentam na mesma proporção em que aumenta seu número. O projeto prevê uma espécie de escudo ou barreira contra objetos de 50 a 70 mm e tem capacidade para detectar e descartar objetos de maiores dimensões. No entanto, objetos de tamanho maior que o mínimo de 50 mm e menor do que um meteorito, exatamente da mesma categoria dos que aparecem na imagem, poderiam atravessar a estação como uma bala, destruindo tudo o que tocassem.

A idéia para neutralizar esse perigo é desenvolver um raio laser, a um custo aproximado de 200 milhões de euros, que tentará varrer o lixo para o espaço ou atraí-lo em direção à Terra, para que seja destruído ao entrar em contacto com a atmosfera. Devemos mencionar que o trabalho seria “pescar” peça por peça.

José Morales

O peso das crenças

Dois jovens monges foram designados para visitar um mosteiro. Ambos viviam em seu próprio mosteiro desde pequenos e nunca dele haviam saído. Seu mentor espiritual não parava de lhes advertir sobre o perigo do mundo exterior e a cautela que deveriam ter durante a caminhada.

Falava principalmente dos perigos que representavam as mulheres para os monges sem experiência:

— Se virdes uma mulher, apartai-vos rapidamente dela. São todas tentação muito perigosa.

Não deveis acercar-vos delas, muito menos com elas falar, por nada neste mundo as tocai. Ambos os jovens prometeram obedecer às advertências recebidas e com a excitação que supõe uma experiência nova começaram sua caminhada.

Poucas horas mais tarde, quando estavam para cruzar um rio, escutaram uma voz de mulher que se lamentava por trás de uns arbustos. Um deles fez um gesto para se aproximarem dos lamentos.

— Nem penses — interceptou o outro — não te lembras do que falou nosso mentor?

— Sim, me lembro; mas vou ver se essa pessoa precisa de ajuda — respondeu seu companheiro.

Dito isso, dirigiu-se até onde se originavam os gemidos e viu uma mulher ferida e nua.

— Por favor, socorrei-me, uns malfeitores me assaltaram, roubando inclusive minhas roupas.

Eu sozinha não tenho forças para cruzar o rio e chegar até onde mora minha família.

O jovem, ante o espanto do seu companheiro, pegou a mulher ferida nos seus braços e cruzando a correnteza a levou até sua casa situada perto da margem do rio. Ali, os familiares socorreram à assaltada e mostraram grande gratidão para com o monge, que logo retornou ao caminho regressando para junto a seu companheiro.

— Meu Deus! Não só viste uma mulher nua, como também a tomaste em teus braços.

Assim era recriminado, uma e outra vez pelo seu companheiro. Passaram as horas, e o outro não deixava de lembrar o sucedido.

— Hás tomado uma mulher nua em teus braços! Hás tomado uma mulher nua em teus braços! Vais carregar um enorme pecado!

O jovem monge parou na sua frente e disse:

— Eu soltei a mulher ao cruzar o rio, mas tu ainda a levas contigo.

A dificuldade de percepção global

Uma vez chegou um elefante a uma cidade povoada por cegos. Nessa cidade se ignorava o que e como era aquele estranho e enorme animal, assim decidiram chamar os mais eruditos dentre eles para dar um parecer. O primeiro aproximou-se do animal e apalpou cuidadosamente suas patas. Depois de um tempo sentenciou:

— Amigos, não tenho dúvida. Um elefante é como uma coluna.

O segundo também se aproximou do paquiderme e tocou suas orelhas:

— Temo lhes comunicar que meu colega está equivocado. Um elefante é um enorme e duplo leque — disse.

O terceiro, em troca, centrou sua inspeção na tromba:

— Devo dizer — proclamou — que meus dois colegas erraram na sua apreciação. É evidente que um elefante e como uma grossa corda.

Desse modo, cada erudito captou seu próprio grupo de defensores e detratores, iniciando uma polêmica que os levou a disputa corporal. Nisso chegou ao povoado um homem que enxergava perfeitamente e ante aquela confusão perguntou o motivo da disputa. Desordenadamente, cada grupo voltou a defender sua opinião de como acreditava ser um elefante. Escutando a todos, o homem que enxergava tratou de tirá-los do erro explicando que cada erudito havia percebido tão só uma parte do elefante, então lhes descreveu como era na realidade o animal. Mas os cegos acreditaram que aquele homem estava louco. Expulsaram-no do seu povoado e continuaram por séculos debatendo entre eles sobre o que acreditavam ser um elefante.

Conhecemos seu pai

Talvez a todos nos soe familiar o nome de Lord Byron, ainda que não sejamos amantes da literatura. Mas é menos provável que se reconheça o nome de Augusta Ada Byron (ou King, após o seu casamento), condessa de Lovelace, filha do famoso poeta inglês do Romantismo e de sua esposa, a matemática Annabella Milbank. Ainda que hoje esteja injustamente esquecida, essa mulher forma parte do patrimônio da humanidade.

Sua contribuição não se refere ao campo das letras, mas sim ao de programas de computador. De fato, existem linguagens de programação desenhadas nos anos 70 para aplicações aeroespaciais que se chamam ADA em sua homenagem.

Essa pioneira no campo da informática descreveu em 1843 o primeiro computador programável automático da história, o engenho analítico de Charles Babbage. Foi Ada quem o aperfeiçoou até tornar praticáveis os seus programas. Publicou o primeiro artigo científico sobre programação de computadores da história, sendo o único exemplar do seu gênero durante mais de um século. Ada chegou inclusive delinear programas capazes de compor música. Seu trabalho foi esquecido, até que em 1953 Bertram Borden a mencionou em seu livro sobre as histórias dos computadores.

O Pequeno Príncipe (fragmento)

Não era somente um monarca absoluto, mas sim um monarca universal.

— E as estrelas vos obedecem?

— Certamente. Obedecem imediatamente. Não tolero a indisciplina. (…)

— Queria ver um pôr-do-sol… Ordenai ao sol que se ponha…

— Se ordenasse a um general que voasse de flor em flor como uma borboleta, ou que escrevesse uma tragédia ou se transformasse em uma ave marinha, e o general não executasse a ordem recebida, quem estaria em falta, ele ou eu?

— Vós — disse firmemente o pequeno príncipe.

— Exato. Há que exigir de cada um o que cada um pode fazer — replicou o rei.

— E meu pôr-do-sol? — perguntou o pequeno príncipe, que jamais esquecia uma pergunta uma vez que a tinha formulado.

— Terás o teu pôr-do-sol. Exigi-lo-ei. Mas esperarei, com a minha sabedoria de governante, até quando as condições sejam favoráveis. (…) Será esta tarde, às sete e quarenta.

Inventos com história – A máquina de escrever

As máquinas de escrever não se difundiram até o século XX, ainda que a primeira patente para uma máquina dessa categoria tenha sido concedida por volta do ano 1714. A máquina de escrever, que foi inventada por um inglês, não recebeu aplicação prática.

No início, as máquinas de escrever eram patenteadas como mecanismo de ajuda para deficientes visuais. A patente da primeira máquina de escrever que se registrou nos Estados Unidos foi em 1829, por Guillermo A.Burt. Foi chamada de tipográfica, mas nenhum de seus modelos sobreviveu.

Em 1888, o francês Javier Progin inventou uma máquina que utilizava barras de tipos com uma alavanca de teclas para cada letra.

Carlos Thurber, um americano, patenteou em 1848 uma máquina que usava um jogo de barras de tipos, situados ao redor de uma roda de latão. Esta se movimentava em um eixo central, e o tipo com tinta golpeava diretamente o papel colocado debaixo da roda. Seu funcionamento era demasiado lento para que a dita máquina tivesse valor prático. Em 1856, A. E. Beach patenteou uma máquina de escrever na qual empregaram pela primeira vez barras de tipos dispostas em forma de círculos que faziam a impressão sobre um centro comum. No ano seguinte, S. W. Francis apresentou uma máquina de escrever que utilizava um teclado semelhante ao de um piano par ativar as barras de tipos. A primeira máquina de escrever prática e que se podia fabricar em grande escala foi obra de três inventores americanos: Cristóbal L. Sholes, Samuel W. Soule e Carlos Glidden. Com a ajuda pessoal e financeira de Santiago Desmore, Sholes aperfeiçoou sua máquina de escrever até que em 1878 ela adquiriu valor comercial.

Essa máquina apresentava a maioria dos princípios da máquina moderna. Utilizava um jogo de barras de tipos montado em um eixo sobre um anel horizontal, acionadas por uma alavanca conectada, em ordem, por varetas com a alavanca do teclado. Inseria-se o papel ao redor de um cilindro de borracha e os tipos batiam em uma fita com tinta para marcar as letras no papel. Essa máquina tinha caracteres reversíveis para a fita, assim como um carro movível, que podia voltar a seu lugar e terminar de escrever uma linha. Um defeito dessa máquina, dotada só de letras maiúsculas, era que o cilindro estava situado de tal forma que o datilógrafo não podia ver o que estava escrevendo.

Invenções posteriores traziam teclas de troca de maiúsculas, mediante o qual cada uma das barras poderia levar a letra correspondente tanto em caracteres maiúsculos como minúsculos. Para usar uma ou outra bastava elevar ou abaixar o cilindro. Em 1896, Francisco Wagner patenteou a primeira máquina de escrever de ação frontal e visível que estava destinada a revolucionar totalmente a indústria das máquinas de escrever.

Francisco Capacete

Frases

Um erro prova que pelo menos alguém se preocupou em fazer alguma coisa.

Azorin

Se queres ser rico, não te dediques a aumentar teus bens, mas sim a diminuir a tua cobiça.

Epicuro

Ter a sabedoria dos cabelos brancos, mas o coração da infância.

F.von Schiller

Nunca é tarde demais para seres o que poderias ter sido.

G. Eliot

Um comitê é uma forma de vida com muitas pernas e nenhum cérebro.

R. Hein Lein

Só podemos dominar a natureza se a obedecemos.

F. Bacon

O prazer do amor reside em amar.

L. Cohen

A moral nos ensina, não a ser feliz, mas sim a ser digno de felicidade.

E. Kant

Antes eu tinha seis teorias sobre o modo de educar as crianças. Agora tenho seis crianças e nenhuma teoria.

Lord Rochester

Não há vento favorável para quem não sabe aonde se dirige.

A. Schopenhauer

Os problemas do homem e o mundo atual

Leonardo Santelices A.

Conhecerás os homens,

vítimas dos males que eles mesmos se impõem,

cegos pelos bens que os rodeiam,

que não ouvem nem vêem:

são poucos os que sabem se livrar da desgraça.

Tal é o destino que estorva o espírito dos mortais,

como contos infantis que rodam de um lado ao outro,

oprimidos por males inumeráveis:

porque a Discórdia os castiga sem adverti-los,

sua natural e triste companheira,

a qual não há que provocar,

mas sim ceder-lhe a passagem e fugir dela.

Versos Áureos – Pitágoras

É evidente que vivemos momentos de crise em diversos aspectos. Não apenas temos a percepção de que o tempo acelerou, mas também de que há muitos outros aspectos que sofreram essa alteração, as mudanças climáticas, as desordens sociais, os deslocamentos de pessoas, são alguns dos muitos aspectos que dia a dia adquirem maior velocidade e formam parte disso que chamamos crise.

Durante os séculos XIX e XX, entendeu-se o desenvolvimento como progresso indefinido, em que o anterior era necessariamente inferior ao posterior, e assim se impôs um sentido de progresso muito vinculado à caducidade. Se as coisas mudam mais rápido é porque estamos progredindo.

O melhor exemplo de progresso é a fabricação de artefatos com um período de caducidade cada vez menor. Se algo fica superado pelo que vem, isso é sinal evidente de progresso. Cada novo modelo é melhor que o anterior, e as pessoas devem perseguir, como o burro persegue a cenoura, sempre o último modelo.

A sociedade de consumo

Por isso, não apenas os artefatos têm duração curta, todas as esferas humanas também se contagiaram com isso, esse foi o motor da sociedade de consumo. Desatou-se uma febre de consumo cada vez maior, em que a avidez e a ambição são considerados virtudes.

Um dos objetivos da filosofia dos clássicos sempre foi a obtenção para a pessoa de um estado de equilíbrio emocional através da diminuição de desejos e paixões e de uma fortaleza da alma que permita enfrentar a adversidade. Através dessa ataraxia, buscava-se a paz e a tranqüilidade.

A sociedade de consumo vai justamente no sentido oposto. Se uma pessoa se sente em paz na sua vida e não quer aumentar seus desejos porque sabe que eles não têm limite, isso é considerado um “pecado mortal”, já que é uma pessoa que carece de ambições.

O estado desejável para manter a máquina da sociedade de consumo funcionando é o de pessoas com desejos sem medida, cheias de ambições que surgem de uma grande vaidade, em que tudo o que se tem é considerado pouco. Essas pessoas são as que sempre estão perseguindo o “último”, sem se perguntar se é necessário, se é melhor e, às vezes, nem sequer se é correto.

Esse incremento da velocidade em que nunca chegamos a um porto seguro, mas sempre estamos nos equivocando e nem sequer sabemos se alguma vez vamos chegar a algum lugar, é o que nos traz a percepção da crise.

Há um grave conflito entre a alma humana, que sempre está em busca do permanente, ou pelo menos do mais durável, e esses desejos sem medida que querem mudar sempre. As emoções são passageiras, e os sentimentos perduráveis. As opiniões são passageiras, e os conhecimentos perduráveis. O natural é que se determine e guie a vida do ser humano pelo perdurável, e o transitório seja o colorido da paisagem.

Por exemplo, duas pessoas podem viver o amor sendo um casal ao longo do tempo, isso é um sentimento. Não se descarta que esse sentimento possa ser colorido com diferentes emoções, ao contrário, elas servem para dar mais impulso a uma relação, mas elas são de curta duração. Quando o que governa são as emoções, como é sua própria natureza, acabam-se num curto espaço de tempo e com elas “tudo termina” e começa um caminho na busca por reproduzir as emoções com novas experiências.

Do pleistoceno ao antropoceno

De acordo com a história geológica, os dois últimos períodos do quaternário são o Pleistoceno e o Holoceno.

O Pleistoceno, que teria começado há cerca de 1,8 milhão de anos, foi o período em que se desenvolveram as glaciações e é a época dos grandes mamíferos. É também conhecido como a era do homem, porque é quando, segundo a Antropologia, começa a evolução dos seres humanos. O termo Pleistoceno foi inventado por Charles Lyell para definir o período no qual se encontra um registro fóssil de organismos biológicos modernos. No final do Pleistoceno, os grandes mamíferos se extinguiram, restando a fauna como a atual.

O termo Holoceno significa algo como “totalmente recente”. Como era geológica, esse período teria começado há cerca de 10.000 anos, mas é um período que não está muito claro. Segundo alguns cientistas, é um interglaciário do Pleistoceno. A característica mais relevante dessa época é o surgimento das sociedades humanas e a organização em cidades, o que foi possível graças à domesticação de plantas e animais.

Na atualidade, o termo Antropoceno foi elaborado como aquele em que a incidência do ser humano sobre a biosfera se faz muito forte, desgraçadamente não para melhorá-la, mas o contrário. O consumo desenfreado desatou uma voracidade sobre os ecossistemas que faz o ser humano parecer um tremendo depredador que não tem limite, porque está destruindo suas próprias opções de vida.

Enquanto o ser humano se considerava como um microcosmos, ou seja, parte e reflexo do macrocosmos, havia uma relação harmônica com a Natureza e com a Terra. Mas logo começou a se sentir um ser especial e ver a Natureza já não mais como a expressão de uma inteligência, mas como algo inerte que ali estava para seu uso e abuso. Então se rompeu essa relação harmônica, e já não era um colaborador com a ordem inteligente, mas um depredador e destruidor dessa ordem.

Os problemas mais agudos

Há um pouco mais de um ano, a BBC publicou uma série com título “Planeta sob Pressão” na qual se destacavam seis problemas considerados críticos:

Alimentação: num relatório da FAO se estima que 852 milhões de pessoas no mundo padeceram de subnutrição no período de 2000 a 2002. Essa cifra compreende 815 milhões nos países em desenvolvimento, 28 milhões nos países em transição e 9 milhões nos países industrializados.

Água: embora exista água suficiente no planeta, o problema é o acesso a ela. Em 2005, a estimativa era de que dois terços da população do mundo vive em zonas onde o acesso à água é um problema.

Energia: segundo o informe da BBC, “a produção de petróleo pode chegar ao seu ponto mais alto, e os abastecimentos começarem a decair a partir de 2010”.

Mudança climática: a cada ano que passa se faz mais evidente o fato de estarmos passando por sérios transtornos climáticos.

Biodiversidade: o explosivo crescimento da população humana, mais o consumo desmedido, está provocando a extinção da biodiversidade. “A lista vermelha da UICN de 2006 mostra uma clara tendência: o aumento da perda de biodiversidade, não sua diminuição”, disse Achim Steiner, Diretor Geral da União Mundial para a Natureza.

Contaminação: o informe da BBC disse: “os recém-nascidos mostram indícios de substâncias químicas perigosas nos seus corpos, e se estima que 1 em cada 4 pessoas em todo o mundo está exposta a concentrações insalubres de contaminadores”.

Fora da lista, o informe menciona outro problema de tremendas proporcões: o crescimento da população. Quando iniciou o século XX, a cifra que se vislumbrava no futuro, com excesso, era 2 bilhões de habitantes; finalmente, em 1950, se chegou a 2,5 bilhões; e nos 40 anos seguintes duplicou, chegando em 1990 a 5 bilhões, para terminar o século em 6 bilhões.

Esse crescimento explosivo gera sobre todos os sistemas uma pressão tremenda, e é um fato que já ocorreu. A crescente população, que se espera chegue a cerca de 9 bilhões em meados deste século, significa uma pressão cada vez maior sobre o meio ambiente por pessoas que buscam sua sobrevivência.

Além dos problemas já mencionados, encontramos outros não menores no âmbito social, como a ingovernabilidade, as pestes, os focos de guerras que se multiplicam dia a dia, dentre outros.

Embora os noticiários dediquem seu tempo principalmente aos acidentes e às anedotas, os problemas mais agudos do momento atual são profundos e estruturais. Podemos distinguir um denominador comum: em todos eles está presente o ser humano. Portanto, a raiz desses problemas está nas pessoas e sociedades humanas, e é aí então que devemos buscar a solução, do contrário, estaremos nos centrando nos efeitos e não nas causas.

O desenvolvimento humano

Os mercados, como lugares de intercâmbio social e de mercadorias, existiram desde sempre nas cidades, como parte delas; mas, hoje na alienação materialista, chegamos a considerar que os países são um grande mercado.

O ser humano sempre construiu artefatos úteis para a vida material como vestimenta, utensílios, ferramentas, armas, móveis, e muitas outras utilidades para melhorar a vida material, mas a vida humana vai muito além da simples sobrevivência. Hoje se consideram como mais importantes as atividades de produzir e consumir. A título de exemplo, os anciãos como já não formam parte do maquinário produtivo e consomem cada vez menos, começam a ser relegados paulatinamente, e com isso toda a sociedade perde a experiência acumulada e se faz cada vez mais desumana.

Essa preocupação obsessiva e alienada com a produção e o consumo levou a relegar aqueles aspectos que fazem do ser humano verdadeiramente humano e não simplesmente um animal.

É curioso que se pense que o dinheiro é o motor da sociedade e das pessoas, quando está à vista que qualquer pessoa enferma trocaria sua fortuna por saúde. Quando os pais vêem que algum de seus filhos seguiu um mau caminho, seja porque caiu nas drogas ou no crime, trocaria com gosto sua fortuna por recuperar a virtude de seus filhos, e o mesmo ocorre nos casamentos e outras relações familiares.

Ninguém, salvo um ou outro enfermo, está disposto a dar sua vida pelo dinheiro. No entanto, milhares de homens e mulheres deram sua vida por um Ideal, por uma religião, consagraram sua vida à ciência ou à arte, sem necessidade de que os estivessem motivando a cada momento, porque esses motores são os motores da alma, muito mais poderosos e perduráveis do que a ambição ou o egoísmo.

Há 25 séculos, Platão, em seu diálogo “As Leis”, escreveu que há três classes de bens: os bens da alma, os bens do corpo e o capital. Os três são bens, mas guardam uma relação de hierarquia entre eles. Ao organizar uma sociedade, fazer sua legislação, diz o filósofo há que primeiro tomar em consideração os bens da alma, que são as virtudes, depois os bens do corpo, que é a saúde, e finalmente o capital, que é o crescimento econômico.

Na nossa sociedade, temos feito justamente o contrário, e os resultados nos mostram que erramos o caminho. Temos muitas máquinas, exploramos de forma impiedosa nosso planeta, esquecendo-nos de que é uma biosfera limitada, com alguns recursos renováveis, mas também com outros que são finitos.

Esquecemos dos grandes Ideais: “Esta falta de grandes Ideais e de grandes visões enquadrou o homem nas pequenas trincheiras de ideais pequenos e de visões de pesadelo”. Jorge Angel Livraga

Desconectamo-nos da Natureza e nos desvinculamos dos Ideais. Por isso, há hoje em dia um grande temor pelo futuro, quando uma sociedade ou uma pessoa está forte e sólida, planifica e constrói seu futuro; quando está débil e desorientada, apenas trata de adivinhá-lo e roga para que não seja muito terrível.

“Não se analisa a função do Homem no Cosmos, nem suas relações com a Natureza, mas seus instintos, seus costumes, seus medos e desassossegos espirituais. Não se constrói pensando no porvir, não se elaboram escalões grandiosos para os passos augustos dos séculos, mas suaves colinas de areia que sirvam uns poucos anos. Amanhã… quem acredita, quem sabe se existirá um amanhã?” Jorge Angel Livraga

Atualizando idéias

É evidente que as idéias com que estamos manejando a sociedade já não funcionam. Passados os primeiros entusiasmos de uma crescente sociedade de consumo desaforada, chegou a hora de pagar a conta, e o custo está resultando muito alto: poluímos o ar, os mares, os rios, os bosques, já restam poucos lugares na terra onde não estejamos espalhando sujeira. A passos gigantes, estamos acabando com recursos não-renováveis, os hidrocarbonetos e as fontes de água ao alcance da sociedade humana têm os anos contados. Há milhões de pessoas que morrem de fome a cada ano e muitos mais são os que vivem na miséria. E tudo isso para que?

Há sociedades ou setores delas muito ricos, outros tratando de viver dignamente, muitos apenas sobrevivendo e muitos mais já sob essa linha, para vergonha de todos.

Mas também aumentaram outras formas de contaminação, mais sutis, mas não por isso menos violentas e danosas. A angústia e o desconcerto enchem nossas cidades, todo o mundo corre, mas não está claro para que. Embora seja óbvio que um grupo de pessoas trabalhando juntas possam conseguir feitos portentosos, hoje há uma cultura de que todos competem contra todos, todos buscam ganhar dos demais. A inteligência e a bondade já não são os guias das ações, mas sim a ambição e o egoísmo, e isso esvazia os corações. Por isso, nossa época tem o recorde histórico na quantidade de viciados em álcool, drogas e outros vícios que se contam por muitos milhões.

Não apenas existe esse vazio no coração, mas nos esquecemos até de como preenchê-lo. Alguns tratam de estar sempre entretidos para não senti-lo, outros começam a se medicar para dormir ou sair da depressão e, nos casos mais graves, caem no álcool e nas drogas. Mas nada disso resolve o vazio que se faz cada vez maior.

Chegou a hora de atualizar nossas idéias e de voltar a compreender que a cultura, entendida como a política, a arte, a religião e a ciência, existe para promover o desenvolvimento humano, isto é, das potencialidades latentes, das virtudes do ser humano.

Há muito anos, como sociedade, chegamos a compreender que se queremos construir o futuro necessitamos contar com homens e mulheres sãos, honestos, valentes, fortes e generosos. A época dos enfermos, descarados, covardes, débeis e egoístas teve um custo muito alto e não podemos deixar essa herança para as futuras gerações.

Atualizar as idéias é despertar o filósofo que todos levamos conosco, fazer-nos novamente essas perguntas fundamentais e ter o valor de buscar as respostas, embora isso signifique que devamos mudar e nos modificar, porque nessa mudança está a renovação. Se nos renovarmos constantemente, seremos capazes de construir o futuro e fazer um Mundo que não seja apenas Novo, mas Melhor.

Reencarnação, patrimônio da humanidade

Ao longo de toda a história da humanidade, há algo que preocupou os seres humanos, é o sentido da vida.

Grécia

Na Grécia, os mistérios de Elêusis e de Dionísio devem ter revelado segredos aos iniciados. A teoria da reencarnação provavelmente foi algo completamente natural, a julgar pelas conseqüências que trouxe aos homens de seu tempo. Estes conhecimentos secretos e não divulgados conseguiram civilizar os homens e mulheres durante quase dos mil anos.

Cícero, que foi iniciado nos mistérios de Elêusis, fala deles com fervor: “[…] é o maior bem que Atenas aportou aos homens, porque nos fizeram passar de uma vida selvagem a uma vida mais humana”. Assinala que, ao terem tido contato, homens e mulheres, com certas experiências mistéricas, estas lhes haviam permitido se conhecer na sua parte mais profunda e sagrada.

Lúcio Apuleio também nos fala na sua Apologia da Reencarnação sobre a alma, que habita temporariamente num corpo material. Textualmente disse: “[…] a alma humana, que vem de fora para habitar no albergue transitório de um corpo… que, sem dúvida é imortal e divina.”

Apuleio, que conhece muito bem os cultos religiosos gregos, continua na sua Apologia: “Participei na Grécia das iniciações dos cultos mistéricos. Ainda conservo, com muito carinho, certos símbolos e lembranças de tais cultos, que me foram entregues por seus sacerdotes”.

Órficos

A tradição órfica influenciou a Grécia durante milhares de anos e os restos da sua sabedoria nos falam da natureza dos deuses e da alma humana. Segundo a tradição órfica, a alma está presa num corpo material, e é de essência divina; prisioneira num corpo titânico, em virtude de uma mancha primitiva, condenada a reencarnar sem cessar. O próprio Orfeu desceu aos infernos tratando de resgatar Eurídice (sua alma).

Pitágoras

A tradição pitagórica nos deixou uma total vinculação com a teoria da reencarnação. Segundo Pitágoras, as almas se reencarnam nos corpos, podendo torná-lo em “animais”. A chave a qual se refere Pitágoras é a do caráter da alma, e não com relação a um animal concreto. Hoje dizemos quando vemos um homem valente: “é como um touro”, ou se é muito bruto: “é um animal”. Assim, Pitágoras se refere ao caráter do homem.

Pitágoras lembrava de suas quatro últimas reencarnações – segundo ele, isso se dava por uma virtude de Hermes – tendo sido: Etálitas, Euforbo (combatendo na guerra de Tróia), Hermótimo e Pirro, antes de ser Pitágoras.

Platão

Platão nos fala da reminiscência da alma: sua própria recordação. Segundo Platão, a alma humana é muito velha e encarna neste corpo material para adquirir experiências e se purificar. Em outros diálogos, conta-nos que educação é eduzir o que cada Alma é. Seria como eduzir sua própria reminiscência, seu verdadeiro “ser”, seu “gênio” (A República).

No Fédon, Sócrates, num magistral diálogo, explica a imortalidade da alma e sobre como a morte não existe. Acaba dizendo: “de onde vêm os vivos? Dos mortos, e de onde nascem os mortos? Dos vivos”.

Também Sócrates, na Apologia, com a inteligência que o caracteriza, disse: “Já é hora de irmos, eu morrer, vocês viverem. Qual de nós terá melhor sorte, a todos está oculto, exceto a Deus”.

No mito de Er, Platão começa dizendo que não é um relato de Alcino (um fraco), mas sim de um bravo homem.

Platão nos conta que Er foi morto na guerra. Ao décimo dia, quando foram recolher os cadáveres putrefatos, o corpo de Er permanecia em bom estado. E quando jazia na pira, ressuscitou e contou aos demais o que viu. Er conta que tudo o que fazemos repercute na vida e que seremos julgados por nossos atos. Num lugar, ele viu como algumas almas subiam sobre a Terra e outras voltavam à ela (para reencarnar); as almas que subiam da Terra estavam sujas, e as que desciam, estavam limpas. As que voltavam pareciam voltar de uma longa viagem, marchavam felizes a acampar num prado, e se cumprimentavam entre si. E os que voltavam da Terra perguntavam o que se passava no céu, e as que vinham do céu sobre o que acontecia na Terra. E faziam seus relatos umas às outras, recordando quantas coisas haviam padecido e visto na sua vida na Terra. Enquanto os que procediam do céu narravam seus gozos e espetáculos de incomensurável beleza.

Er explica como todas as injustiças cometidas são mais claras para a alma nesse estado e nos narra a dor de muitos, principalmente dos tiranos. De volta à Terra, conta-nos que passaram pelo rio Leteo (do esquecimento) e que as almas bebiam água, e quanto mais bebiam, mais esqueciam. Apenas os que bebiam pouco poderiam lembrar de algo, mas que não lhe permitiram beber, para poder explicar o que ele havia visto.

Er comenta nesse amplo “Mito” todo o processo da Alma que desencarna, que vive nos estados celestes e inferiores, e sobre sua volta à Terra, por uma fase de necessidade de experimentação. Fala das parcas “filhas da necessidade”: Laquesis (passado), Cloto (presente) e Átropo (futuro), que são as que tecem o destino dos homens, de acordo com seus atos.

De maneira um tanto enigmática e através do mito, Platão nos fala da complexidade e dos passos da alma pelo outro mundo; cada uma tem uma sorte diferente, segundo seu karma.

Platão nos relata magistralmente que a alma humana é imortal, mas para chegar a ter consciência disso, há muitas reencarnações.

Egito

Para os egípcios antigos, o mundo terrestre é uma sombra do celeste. Para eles, a palavra “morte” não existia: ou se vivia no Nilo Terrestre ou no Nilo Celeste. A alma que desencarnava do mundo terrestre nascia no celeste e a que encarnava num corpo material vinha do mundo celeste.

No Egito, a matéria era uma prisão para as almas, e uma de suas grandes ciências era a de libertá-las de sua prisão carnal através do processo da mumificação. É na Terra onde as almas se perdem pela escuridão de seu veículo corporal.

O Egito é a pátria da imortalidade, da espiritualidade por excelência. Tudo na vida tem um sentido; a vida física depende da metafísica, o mundo terrestre é a sombra do celeste. Assim, o que o homem deveria descobrir aqui é o seu sentido na vida, seu caminho, e reger-se pela lei de Maat.

Mas no Egito são muitos os símbolos que nos falam sobre o outro lado das coisas e como esta vida é um passo para a outra.

Nas tumbas do Vale dos Reis, em numerosas cenas se observa a desintegração do corpo e a viagem da alma ao Nilo Celeste; também há cenas que representam a “colheita” da passagem pela Terra. No Nilo Celeste os familiares também trabalham e se encontram, como se observa na tumba de Sennedjen, no vale dos artesãos.

Também são numerosas as cenas da pesagem do coração. A alma, uma vez que deixa seu corpo, é conduzida ao juízo de Osíris. O deus preside o juízo, no qual, se coloca o coração do morto num prato da balança e a pluma de Maat no outro; o peso está de acordo com a sua vida na Terra. Ao lado de Osíris está Set, que devora tudo o que for inútil, e o que fica é conduzido ao Amenti.

Os livros de Hermes Trimegisto, o “Corpus Hermético”, nos fala sobre como as almas reencarnam, que umas nascem mulher e outras homens e as causas disso.

Mas, o mito que melhor representa a condição humana no seu estado atual, talvez seja o mito de Osíris, no qual ele próprio representa a humanidade. Esse mito nos fala do longo processo e das provas pelas quais se deve passar.

O deus é morto pelo seu irmão Set, que o despedaça e reparte seus membros pelo mundo. Mas Ísis, sua mulher, a grande maga, senhora do conhecimento, reúne esse pedaços e devolve a vida ao seu falecido esposo. Apenas não encontra uma parte, seu membro viril. No seu retorno à vida é osirificado. O deus, neste aspecto, encarna a vontade espiritual e no aspecto humano, o futuro da humanidade. Ele é o “nascido duas vezes”. Ísis representa o conhecimento na parte profunda da vida.

Roma

Em Roma, a reencarnação também foi uma realidade aceita e integrada, pois já desde os tempos antigos se reconhecia a imortalidade da alma humana e suas provas sucessivas na vida. Roma soube manter os cultos do conhecimento mistérico, em que homens e mulheres da época se educaram, até a chegada dos bárbaros.

Mas, provavelmente, quem melhor o descreva seja Virgílio na “Eneida”. Enéas desce aos infernos e superando algumas provas reconhece seu pai, e relata a condição imortal da alma humana.

Plotino, nas suas “Enéadas”, nos fala sobre a condição imortal da alma humana e sobre como ela se purifica pouco a pouco, até chegar à sua pura divindade.

Outro personagem um tanto misterioso é Apolônio de Tiana. Grande filósofo, mago e taumaturgo, recordava-se das suas vidas anteriores. Para Apolônio isso não era uma teoria, mas a mais pura realidade, como demonstrou na sua alongada vida.

Apolônio, em uma carta à Valério sobre a perda do seu filho, disse: “Ninguém morre, apenas na aparência, da mesma maneira que ninguém nasce, isso só ocorre aparentemente”. A passagem da essência à substância, é o nascimento; assim como a morte é a substância à essência. Na realidade, ninguém nasce e ninguém morre.

Filostrato relata que havia um jovem cético gritando para que Apolônio aparecesse para ele, zombando sobre a imortalidade da alma. Apolônio aparece, e lhe fala em verso:

A Alma é imortal,

mas não é sua propriedade,

pertence à providência.

Quando o corpo está esgotado,

semelhante a um corcel veloz

que vence a carreira,

a alma se lança e se precipita

no meio dos espaços etéreos,

cheia de desprezo pela triste

e rude escravidão que sofreu.

Cristianismo

A doutrina da reencarnação foi aceita nos primeiros séculos como algo completamente natural, sustentada por gnósticos cristãos como Simão o Mago, e os Padres da Igreja como Orígenes. Não em vão, os padres da Igreja se educaram nos mistérios antigos confundindo os ensinamentos à moda de sua seita. Até que no concílio de Constantinopla, um grupo de bispos no século VI (543) decretaram herético tal ensinamento, proibindo falar dele.

Na Bíblia se fazem alusões à essa doutrina, em Mateus 27, 12-13; Marcos 6, 14-16; João IX 122 etc. Hoje existem bons estudos de investigação histórica que demonstram o fato de que o cristianismo primitivo sustentou esse ensinamento.

Seitas hebreu-cristãs e muçulmanas não erradicaram este conhecimento da alma humana, que constitui um patrimônio natural e não uma crença.

Atualmente, tal doutrina é negada dentro da hierarquia. No entanto, um grande número de cristãos crentes a consideram como algo real, acreditam ainda que isso vá contra a sua Igreja, como demonstram as pesquisas modernas.

Apesar de considerar a reencarnação como algo pagão, muitos dentre os cristãos consideram a alma encarnada prisioneira de um corpo, que viveu em estados mais sutis. Cabe destacar Calderón de la Barca, ordenado sacerdote em 1651 e nomeado capelão dos Reis, quando nos fala do sonho no qual estamos imersos, na sua obra “A Vida é Sonho”.

Índia

Na Índia, desde a mais remota Antigüidade, aparecem textos sagrados que tratam da doutrina da reencarnação das almas, mas eles a consideram fruto da sua própria imperfeição. Por isso, a ciência das diversas escolas existentes de filosofia é a de liberar pouco a pouco a alma das suas ataduras passionais e terrestres para sair da roda das reencarnações.

No coração do Mahabarata, no capítulo do Bhagavad-Gita, narra-se como a alma humana pode superar todas as provas da matéria.

No Bhagavad-Gita, narra-se a luta de Kuravas e Pandavas. Os Kuravas, (a parte inferior do ser, as paixões) são muitos, constituem um numeroso exército, mas têm que lutar contra seus parentes, os Pandavas, (a parte divina da alma) pela supremacia da cidade de Hastinapura. O príncipe Pandava Arjuna, ajudado por seu mestre Khrisna (a divindade), decide junto com os demais príncipes enfrentar o numeroso exército Kuru. Khrisna narra nesta epopéia o conhecimento interior, e a luta que Arjuna terá que travar, se quer conquistar a si mesmo.

Mas, a luta é inevitável. Apenas depende de Arjuna o fato de se enfrentar e sair vitorioso, conquistando o céu e a terra, ou postergar o inevitável, com as conseqüências negativas de tal decisão.

Khrisna fala da reencarnação como o longo caminho da alma para o conhecimento de si mesmo: “Assim como a alma que reside no corpo material passa pelas fases de infância, juventude, amadurecimento e velhice, assim também, no seu devido tempo, passa a outro corpo e em sucessivas encarnações voltará a desempenhar uma nova missão sobre a terra. Isso é sabido por quem conhece a doutrina interna e não se preocupa pelo que ocorre neste mundo transitório”.

Também nos Yogas do Rama-Yana, no Yoga Vâsishtha, comenta-se sobre a reencarnação, na natureza ilusória da vida: “Apenas vive realmente aquele que se esforça por conquistar o autoconhecimento, que é a única coisa valiosa que podemos alcançar nesta vida e o que põe fim ao cruel ciclo das reencarnações”.

A doutrina da reencarnação é sustentada por todas as escolas, tanto as ortodoxas – como os Vedas e os livros sagrados – como as heterodoxas – como o budismo ou o jainismo. Ainda que a nível popular, estes antigos ensinamentos degeneraram em superstição, como a crença de que a alma pode reencarnar em estados já superados, como em animais. Os sábios, diferentemente, mantêm esta doutrina na sua prístina pureza.

Culturas pré-colombianas

As culturas pré-colombianas acreditavam que os homens eram filhos dos deuses e que a alma humana era imortal, condenada a reencarnar. No entanto, a condição divina da alma tende a se elevar aos deuses, como demonstram os textos ainda conservados.

Tanto as culturas clássicas como os povos anteriores a elas, acreditavam na condição divina da alma e na longa peregrinação pela Terra. O pesquisador Dick Edgar comenta sobre os Cashibo, (antiga tribo do Peru) que demonstravam nas suas crenças a conexão entre o céu e a terra: “Entre o centro do céu e o da terra existe uma escada, Catapuekao, que conecta ambas as portas cósmicas. Por ela sobe o espírito do xamã quando necessita falar com Deus, e por ela sobe também o espírito dos mortos. No extremo dessa escada, há uma gigantesca cruz. Ao pé da escada há outra cruz onde se reúnem os mortos antes de subir ao firmamento. Cantam antes de começar a viagem ao outro mundo. Essas cruzes celeste e terrestre dividem os planos cósmicos em quatro partes iguais”.

O mesmo investigador nos conta que outra tribo anterior às culturas clássicas, os Tehueches ou Patagões, viam a alma como viajante do tempo, passando da vida à morte sem cessar: “Acreditavam na transmigração da alma e que as almas dos que morrem passam aos que nascem na família desta forma: aquele que morre velho transmigra a alma sem detenção e, por isso, não se chora nem se lamenta, porque dizem que aquela alma melhorará de posto. Mas aquele que morre jovem e robusto, fica detido sob a terra, sem destino, até que cumpra o que falta para ser velho”.

Nas culturas clássicas, o conhecimento da alma é uma ciência e existe um desenvolvimento da consciência e a evolução das almas. Entre os astecas existiam escolas chamadas Calmecac, e os jovens ingressavam nelas para superar uma série de provas, conhecendo desta maneira e de forma direta, sua condição divina.

O conhecimento sobre a reencarnação estava tão integrado, que surpreende ver como eles viam a vida, segundo comenta Séjorné na tradução de poemas náhuatl: “Por mais que eu chore, por mais que eu me aflija. Por mais que meu coração não queira, não terei de ir à região do Mistério? Aqui na Terra dizem nossos corações: Oh! Amigos meus, que bom se fôssemos imortais. Oh! Amigos, onde é a Terra em que não se morre? Será que irei até lá? Será que minha mãe vive lá? Meu pai vive lá? Na região do mistério”.

Vimos para nascer, vimos para viver na Terra. Por um breve tempo é a glória daquele por quem tudo vive. Vimos para nascer, vimos para viver na Terra.

Apenas viemos para dormir. Apenas viemos para sonhar. “Não é verdade, não é verdade que viemos para viver na Terra”.

Conta-se que quando uma mulher vai dar à luz, outras mulheres se encarregam de recitar umas palavras, dizendo: “Alegra-te, terás um ser especial, um ser constituído por pedra preciosa e plumas de Quetzalcoatl.” (Referindo-se à alma e ao corpo).

A imagem simbólica mais poética talvez seja a descrição onde os astecas representavam a morte e o nascimento. Faziam-na através da representação de uma árvore, na qual, por seu interior desciam as almas que nasciam e subiam as que morriam. Nas copas existiam alguns anjos que tomavam como pais os que morriam e nas raízes existiam outros pais para os que nasciam.

“Saibam todos que nosso senhor fez misericórdia, porque colocou nesta senhora, jovem e recém casada, uma pedra preciosa e pluma nobre, posto que a jovem já está grávida”.

As parteiras dirigiam alguns versos aos recém-nascidos:

“Filho meu, muito amado e muito terno, saiba e entenda que não é aqui a tua casa. Esta casa onde nascestes é apenas um ninho, é uma pousada onde chegastes, é a tua saída para este mundo; aqui brotas e aqui morres, tua própria Terra é outra”.

Oh, Pedra preciosa! Oh! Pluma nobre. Fostes formada num lugar onde estão o grande Deus e a grande Deusa. “Chegastes de longe a este mundo, miserável e exausta”.

A religião Nahuatl indica dois nascimentos: o nascimento natural, próprio de todo ser e o espiritual, o nascimento da vida interior. Segundo o mito, Quetzalcoatl “o que conhece o segredo de todos os encantos”, ao final, o inicia nos mistérios da vida interior que o libera da solidão desamparada da existência pré-individual.

Estes são duas vezes nascidos: nascer fisicamente e nascer por vontade da alma ao mundo interior.

Época atual

Numa época mais próxima encontramos também pensadores, poetas e inclusive cientistas que nos falam da reencarnação. Foram realizados muitos estudos sobre a reencarnação e muitos especialistas nos demonstraram com seus trabalhos que os renascimentos formam parte dos ciclos da natureza. Foram escritos livros sobre a reencarnação, que nos contam experiências de pessoas que se recordaram de outras vidas. Ou pessoas que através de regressões hipnóticas, puderam tomar consciência de anteriores existências em outras cidades, países, com outros nomes; em alguns casos, inclusive, falavam de pessoas que teriam vivido em um tempo e lugar determinados, comprovando-se posteriormente, sua certeza. Também se contam casos que durante a hipnose as pessoas eram capazes de dizer palavras em outro idioma totalmente desconhecido pelo paciente. Mas, tampouco é necessário seguirmos a hipnose, também são muitas as pessoas que realmente viveram a morte, que após um grave acidente tiveram uma “morte clínica” e todos coincidem em dizer que saem do seu corpo e vêem perfeitamente tudo o que os rodeia, inclusive os pensamentos dos que estão presentes. Podem se mover rapidamente de um lugar ao outro, não nos falam de medo, mas sim de prazer e paz. Após ver rapidamente toda sua vida, como se fosse num filme, alguns falam de luzes, outros de música. Mas sua hora ainda não chegou e para essas almas é dada a possibilidade de voltar à vida física, e todas coincidem em dizer que voltam por amor. Assim, voltam a habitar o corpo que tinham deixado, voltam à sensação da dor que havia desaparecido por completo.

Assim como passamos do dia para a noite, também os seres da natureza passam da “vida” à “morte” e vice-versa. Mas, atualmente, o tema da reencarnação é ainda tabu e temos muito arraigadas as idéias do inferno, do céu, do purgatório. Mas podemos pensar, são meras divagações as opiniões dos grandes sábios do passado como Pitágoras, Platão, Plotino, Cícero, Virgílio, Ovídio, ou nas grandes culturas como a dos germanos, astecas, maias, egípcios, hindus, gregos ou movimentos espirituais como gnósticos, maniqueus, antigos cristãos, órficos, ou renascentistas como Campanella, Paracelso ou Giordano Bruno, inclusive modernos pensadores como Voltaire, Goethe, Balzac, Schopenhauer, Herder, Fichte, Kant ? Todos eles nos falaram da reencarnação, da natureza da alma humana. Poder escutar os sábios que, com seus mitos, seus poemas e seus belos escritos nos falaram desse renascer da alma humana, e ter uma mente mais aberta, nos dá a possibilidade de nos aproximarmos de nós mesmos.

O poeta Amado Nervo, em uma de suas poesias chamada “A Eutanásia”, diz:

“Entramos na vida chorando; entramos furiosos e gritando; dir-se-ia que o país de onde viemos é tão prazeroso e luminoso que por contraste aqui apenas há escuridão, dor e tristeza…”

Em seu escrito “A tragédia dos berços”, em que nos relata o que um “amigo seu” lhe fala da tragédia da vida e a liberação da morte:

“Chamas de fortuna o nascimento?

Ah! O berço é apenas

um ataúde ao revés

e o féretro é um berço.

A diferença consiste

em que o berço, meu senhor,

é um ataúde risonho,

e o féretro, um berço triste”

O poeta, através da boca de um amigo teósofo, fala sobre a reencarnação de uma alma, e com grande beleza nos leva a imaginar uma alma que desencarna, de um homem sábio, nobre e bom. Compara essa alma com uma bela mariposa que, um pouco aturdida, mas cheia de sensação de liberdade, move-se com a rapidez do pensamento, já livre das ataduras do seu corpo e se eleva aos planos superiores. Conta-nos como essa alma se livra dos sofrimentos da vida.

“Mas ainda lhe faltam algumas perfeições não adquiridas no encadeamento de suas existências; tem que esgotar seu karma, polir ainda algumas facetas do seu diamante.” “Certamente, certamente te digo que ninguém pode ver o reino de Deus se não voltando a nascer” (São João, 3,3)”.

“Deve nascer novamente”.

“Uma voz interior, voz mais espantosa que todos os infernos, diz à alma: “Desce à Terra uma vez mais! Desce à Terra, ou melhor, envolve-te outra vez na miséria, ata-te ainda com as horríveis ligaduras da carne, volta a ser escravo da necessidade, a arrastar um pobre corpo dolorido, a afundar-te na prisão dos ossos, músculos, nervos, tecidos, tão espessa e sombria, que até esquecerás que fostes livre dela alguma vez, que alguma vez tivestes asas”

“É preciso renascer…”

“Há aqui uma hora de angústia mais temível que a da morte. Na realidade, a morte não é senão a liberação dos laços carnais, a entrada em uma vida mais livre, mais intensa. A encarnação, ao contrário, é a perda desta vida de liberdade, uma diminuição de si mesmo, o passo dos claros espaços à escura prisão, a descida ao abismo de sangue, de lodo, de corrupção, no qual o ser será submetido a necessidades tirânicas inumeráveis.”

Assim o poeta descreve a triste condição da alma humana aprisionada num corpo de matéria, como um pássaro dentro de sua jaula, e a liberação da alma após a morte.

Então, se reconhecemos a possibilidade de que após a morte venha outra vida e após outra morte, outra vida e outra morte, e assim, até que cheguemos a esgotar nosso karma, como nos diz Amado Nervo, deveríamos pensar o que fazemos com nossa vida.

Estamos dedicando nossa existência a alimentar um pouco nosso espírito e nossos ideais, ou apenas alimentando nosso corpo físico e nossos caprichos?

Não depende de nós voltarmos a nascer fisicamente, isso é produto da natureza; mas, depende de nós despertarmos nossa parte mais nobre, mais verdadeira, poder nos melhorar dia a dia. Realmente este também seria um verdadeiro renascimento, dar à nossa alma o que ela merece, ou seja, aproximá-la um pouco mais do divino.

Porque, como nos diziam os antigos filósofos, isso é o que a nossa alma busca, “unir-se à parte divina”.

A Vida é sonho

Sonha o rei que é rei, e vive

com este engano mandando,

dispondo e governando;

e este aplauso que recebe

escreve no vento;

e em cinzas lhe converte

a morte; forte infortúnio!

E há quem tente reinar,

vendo que tem de despertar

no sonho da morte?

Sonha o rico na riqueza

Que mais cuidados lhe oferece;

Sonha o pobre, que padece

Sua miséria e sua pobreza;

Sonha aquele que começa a prosperar,

Sonha aquele que se fatiga e deseja,

Sonha aquele que irrita e ofende

E no mundo, enfim,

Todos sonham o que são,

Ainda que ninguém entenda.

Eu sonho que estou aqui

Destas prisões carregado,

E sonhei que em outro estado

Mais lisonjeiro me vi.

Que é a vida? Um frenesi.

Que é a vida? Uma ilusão,

uma sombra, uma ficção,

e o maior bem é pequeno;

que toda a vida é sonho,

e os sonhos, sonhos são.

Desde o fundo da História – O pente de marfim

A beleza das pequenas coisas, dos objetos simples, de cada dia, os que se utilizam com freqüência. Tudo ao nosso redor deve ser belo. Como eu o sou, um pequeno pente de marfim, com o qual uma dama etrusca fez com que sua criada penteasse seus cabelos, e que a acompanhe na sua tumba para que seguisse bela ao Além. Fabricaram-me em Vetulônia, e sou muito caro: não há marfim na Itália. Talharam-se com delicadeza: o relevo de duas esfinges afrontadas, e sobre mim dois felinos que hoje estão quebrados. São delicados os dentes do pente que desembaraçavam os cachos. Encontraram-me na necrópole de Marsiliana d’Albegna, e hoje descanso diante de olhares no Museu Arqueológico de Florença.

Mª Ángeles Fernández

Hans Christian Andersen

As chaves que os contos contêm nos aproximam ao mundo dos Símbolos Universais. Estes são valores que sempre existiram ao longo do tempo, superando barreiras de espaço; e apesar de passarmos por cima deles no dia a dia, eles permanecem imutáveis.

Era uma vez um nublado dia na ilha de Fionia (Dinamarca). Nasce Hans Christian Andersen em 2 de Abril de 1805.

Seu pai era sapateiro e sua mãe uma humilde dona de casa, embora dissessem que procediam de uma aristocrática família desaparecida há muito tempo. Contaram a Hans que seu berço de madeira havia sido construído com as madeiras nobres do ataúde de algum antepassado ilustre.

A sua vida não era um conto de fadas e embora tenha crescido num difícil ambiente de pobreza e de trabalho duro, os dias eram recompensados, entre o cheiro de couro e o som das ferramentas da pequena oficina familiar, quando escutava de seu pai contos, lendas e histórias antigas que lhe cativaram.

Seu pai foi sua primeira influência no mundo dramático e literário; desde seu nascimento, sussurrava ao pequeno Hans um mundo imaginário onde havia esperança, valores e ideais que enobreciam o homem e o transportavam a poder realizar seus próprios sonhos.

Deste modo, ia moldando seu mundo; construiu um pequeno teatro com as sobras da talhas de tamancos que seu pai fazia, e os animais fantásticos que talhava seu avô lhe serviam de inspiração.

Pouco depois, seu pai decide ir à guerra com o exército napoleônico, falecendo em 1816. De modo que Hans, que contava então com onze anos, se viu com a responsabilidade de manter seu lar. Embora sua mãe tenha voltado a se casar, ele foi à Copenhague para trabalhar num fábrica.

O jovem artista tinha tímidos contatos com o mundo do teatro, compunha alguns roteiros, poemas e inclusive algumas canções que rivalizavam com as outras canções obscenas que cantavam seus companheiros de trabalho, o que lhe garantiu que fosse vítima de suas gozações e violentas brincadeiras. Pouco depois, sua mãe lhe obrigou a deixar a fábrica.

Assim foi que passou a mendigar pelas ruas de Copenhague, subsistindo duramente. Mas, apesar de tudo, nunca renunciava seu amor pela arte e continuava criando pequenas obras teatrais.

Um dia, apareceu, como por magia, J. Collin, diretor do Teatro Real, e lhe doou uma bolsa que lhe permitiu fazer em 1822 alguns estudos regulares.

Hans passou mais vinte anos criando poemas e roteiros com escasso êxito, embora tenha lhe servido para poder se manter e inclusive fazer algumas viagens. No entanto, continuava no anonimato. Suas primeiras obras, como “O Improvisador” (1835), não passavam de mais uma obra entre a vida intelectual dinamarquesa. Inspirado por suas lembranças de infância, decidiu escrever breves histórias.

Com estes contos, carregados de melancólica ironia, logo cativou os leitores. O Isqueiro Mágico, A Princesa e a Ervilha, voltavam à sua mente como se seu próprio pai os tivesse sussurrando no ouvido.

Em 1843 escreveu seu famoso “Contos para crianças”, que foi acolhido pela literatura escandinava a tal ponto, que lhe davam o mesmo valor que suas próprias lendas e contos míticos, o que lhe fez também ser admirado pelo resto do mundo.

Até 1843, Hans compôs um total de cento e setenta e oito contos, todos eles inspirados no estudo e conhecimento profundos da Mitologia escandinava.

Isso demonstra sua maestria, ao poder fundir num mesmo relato várias interpretações; não eram apenas contos dedicados à doce mentalidade infantil, mas também são canais pelos quais flui a simbologia antiga. Cada personagem de seus contos (Polegarzinho, A sereia, O novo traje do Imperador, O escaravelho, O sapo, O Soldadinho de Chumbo, Os cisnes selvagens, A Pequena Vendedora de Fósforos, O último sonho do velho carvalho), representa uma reflexão filosófica, uma idéia, que basicamente se resume em alcançar uma meta idealista. O herói ou a heroína vive uma infinidade de aventuras ou provas até chegar à sublimação e à vitória final, podendo ser esta um tesouro, uma princesa ou príncipe prometido ou um lugar.

As chaves que os contos contêm nos aproximam ao mundo dos Símbolos Universais. Estes são valores que sempre existiram ao longo do tempo, superando barreiras de espaço; e apesar de passarmos por cima deles no dia a dia, eles permanecem imutáveis.

Podemos ler um conto e desfrutar do seu simples e divertido conteúdo, mas dentro deste se mantêm “escondidos” diferentes níveis de interpretação (histórico, mítico, psicológico, etc.) ordenados num mesmo relato. Para perceber estes planos de interpretação, temos que ir mais além de uma leitura “horizontal” do texto, para descobrir outra “vertical”.

Jung defendia que estas imagens-símbolo, não sendo algo objetivo ou material, pertenciam mais a imagens contidas na alma humana, em algum lugar do inconsciente, que permanece no esquecimento cotidianamente.

Os contos são então um canal de expressão destes arquétipos que necessitavam “encarnar” ou se fazerem presentes. Chegar a compreendê-los radica na capacidade de cada um de elucidar as mensagens secretas que contêm esses relatos.

Talvez nisso resida sua magia, aquela que cativou Hans. Seu significado é parcialmente acessível, permanecendo sempre uma parte escondida como um tesouro encantado para nossa consciência.

Hans visitou numerosos países do Oriente e Ocidente, sem que sua criação diminuísse, até que faleceu em 1875. Legou aos grandes e pequenos a beleza de um mundo de imaginação criativa e mensagens que transluzem esperança e ideais para aquele que, como uma criança, se aventure a viajar pelo reino antigo da magia e do simbolismo.

Jorge Marqués

Esoterismo e Religião

Seus discípulos se aproximaram dele e lhe perguntaram: Por que lhes fala com parábolas? Ele lhes respondeu: A vocês foi concedido o conhecimento dos mistérios do reino dos céus e a eles não. Evangelho C. XIII, Versículo  X-XVIII.

Infelizmente essas duas palavras estão tão altamente manipuladas que os conceitos originais, os verdadeiros, foram contaminados com poluição mental e emocional de cada momento histórico. E o que nos cabe viver não foge a esta alienação, mas sim que, por estar os entendimentos e as vocações espirituais deformadas pelo peso do materialismo, as imagens correntes estão se tornam confusas e freqüentemente estéreis, quando não malignas.

Assim vulgarmente se aceita que o esoterismo é um conjunto desorganizado de práticas mórbidas, ajudadas por drogas e manobras estupidisantes de loucos e tiranos, alheios a toda norma ética e estética.

No melhor dos casos se pensa que o esoterista é um recompilador de todas as superstições e falsas crenças que se tem acumulado no decorrer dos séculos. E que por esoterismo se deve entender tudo aquilo que, com grave risco da saúde da alma e do corpo, afasta os humanos do bem e da justiça, precipitando-os em crenças absurdas e criminosas.

Em suma, um diluído de tudo o que é cultura e civilização.

Um câncer escondido e obscuro que carcome os indivíduos e a coletividade. E logo, a antítese de tudo autenticamente religioso.

No melhor dos casos recorreu à religião em suas distintas formas e matizes.

Ninguém que se considere de “vanguarda” aceita a religião como outra coisa que não seja o “ópio dos povos”, opondo-se constantemente com a ciência, e adaptando-se como camaleão aos descobrimentos e constatações da razão e da experiência.

Vêem-na como um consolo para os covardes, que temem as características evidentes da morte e da vida. E aos autenticamente religiosos, como simples frustrados e impotentes que buscam mentiras que lhes compensem as inevitáveis dores da existência.

Nossa sociedade de consumo aceita como normal que cinemas e supermercados estejam abertos até altas horas da noite, assim como bares e bordéis, enquanto que igrejas, sinagogas e mesquitas abrem suas portas umas poucas horas por dia.

Em contrapartida, os religiosos vêem nos esoteristas inimigos mortais e vice-versa. Assim torna o jogo fácil para os ateus e materialistas, quem numa e noutra posição, infiltrados, intercambiam suas cargas de demolição na fé em Deus, na alma imortal e em tudo aquilo que, por estar em abundância, supera seus mitos que colocam o homem na cúspide da evolução animal, ou seja, no mais animal de todos.

Para desgraça de uns e de outros, tanto os que se dizem esoteristas como os que se intitulam religiosos, têm fornecido exemplos pouco construtivos.

Os primeiros, conformando todo o tipo de seitas envilecidas que achatam a condição humana, e somando em seu haver histórico exercícios necromantes, bruxarias e feitiços que levaram a loucura e a morte inúmeros credos, de reis a mendigos.

Os segundos, fazendo festejando um fanatismo irracional e excludente que constitui o maior “racismo espiritual”. Seu passado está tristemente iluminado pelas fogueiras de todas as inquisições, e no sagrado nome de Deus se tem cometido mais crimes e infâmias do que nossos jornais são capazes de publicar. Os elementos de tortura empregados contra os ímpios, e suas perseguições, superam as fantasias das novelas de terror.

Porém podemos nos perguntar, não ignorando as falhas próprias de todos os mortais: Isto é esoterismo? Isto é religião?

São a mesma coisa? Que têm em comum? E se não são, o que as diferencia?

Sob a luz da filosofia, que tão somente busca a verdade e que não possui donos, podemos responder a estas perguntas.

As opiniões negativas que a maioria das pessoas têm sobre esoterismo e religião surgem em função da ignorância, e no fato de nunca se ter pensado seriamente no tema.

Assim como não rechaçamos a ciência por haver engendrado as bombas atômicas, tampouco podemos rechaçar o esoterismo baseados no que se sabe e se crê saber sobre as seitas; nem a religião, fundamentados nos pecados humanos – que conhecemos ou cremos conhecer – de suas confrarias.

O homem, desde seu mais remoto passado, se diferenciou dos animais, nem tanto por sua inteligência ou bondade, mas pela possibilidade de perceber, de alguma maneira, a presença de Deus e a dos seres invisíveis, porém sensíveis aos nossos sentidos mais sutis, em circunstâncias especiais. O homem, da idade da pedra, seja primitivo ou o remanescente de desaparecidas civilizações, fabricou primeiramente instrumentos de trabalho, junto a altares e pinturas de intencionalidade metafísica, mágica, ainda que sem por isso deixarem de ser utilitárias, já que propiciava a boa caça e a proteção das forças naturais, que eles intuíam como expressões de espíritos da natureza.

Homens sábios ou seres com aparência humana – e que não temos que supor, vindos numa nave espacial – lhes ensinaram, segundo todas as tradições, a agricultura e a pecuária, lhes deram conhecimentos astronômicos e astrológicos, técnicas e expressões faladas e escritas, símbolos e normas higiênicas, medicinais e formas de atravessar rios, abismos e montanhas.

Estes conhecimentos, somados a muitos outros, foram transmitidos verbalmente, considerando-os secretos, pois sua má utilização poderia trazer mais mal que bem. Isto somente pode ser feito entre uns poucos homens que haviam superado ou controlado seus instintos de forma segura. Herdeiros da “Magna Ciência”, a Magia, foram os primeiros esoteristas.

Houve outros homens que, estimulados pelas necessidades do momento e pelos diferentes lugares, que inicialmente seu nomadismo os levou, recolheram os reflexos destes ensinamentos secretos, tendo que ir adaptando-os constantemente ao tempo e ao espaço. Estes foram os religiosos. Em contato direto com o povo, tinham que pintar, para os que viviam próximos aos pólos, um inferno gelado e um paraíso quente; e para os das zonas tórridas e temperadas, um inferno quente e um paraíso fresco e ameno, montado sobre brancas nuvens.

No princípio, estes religiosos, possuidores ainda de elementos verdadeiros e secretos, em íntimo contato com os esotéricos, deram a seus povos um consolo simples, ao alcance de sua capacidade de compreensão, tendo consciência de que se dirigiam a eles com exemplos mais ou menos simples, contos e parábolas, em busca de um maior entendimento e uma maior vivência das virtudes imprescindíveis para o progresso espiritual e material. Em pouco tempo, como no mito da Torre de Babel, os religiosos começaram a não se reconhecerem e a se combaterem ferozmente. Então a piedade de Deus fez com que, periodicamente, encarnasse entre eles algum Messias, Avatar, Salvador, ou como queira chamar-lhes, para conduzi-los de volta à verdade, promovendo reformas que geralmente receberam de momento somente o repúdio dos religiosos estagnados e de seus povos.

Os esoteristas mantiveram, graças ao segredo e as muitas garantias que exigiram dos “iniciados”, um mesmo ensinamento e conduta através dos milênios. Estes eram e são iguais na Ásia e Europa, na África e na América.

Os religiosos se adaptaram para benefício dos povos e sem faltar com as verdades básicas, assim, o ensinamento foi pacifista em Buda, militante com Cristo e bélico com Maomé.

Esoterismo e religião não são a mesma coisa nem se opõe, e sim se completam, como faz o eixo do carro que gira sobre si mesmo, e a ampla roda que recolhe, em grandes voltas, os poeirentos caminhos. A aro da roda às vezes fica coberta de areia e outras de água. O eixo permanece sempre no mesmo lugar em relação ao solo. A roda sem eixo seria um artefato perdido, e eixo sem roda, uma abstração inútil.

Todos os grandes mestres religiosos tiveram seus discípulos diretos aos quais transmitiram as verdades que possuíam, e outros mais afastados do conhecimento das coisas sagradas, ainda que não estivessem de seus corações, que os seguiram levados por fenômenos impactantes e por narrações claras, fáceis de entender e por sua vez suficientemente atrativas para serem lembradas.

Todos os verdadeiros esoteristas formaram núcleos de discípulos aos quais transmitiram os antigos ensinamentos, para que estes por sua vez promovessem as ciências as artes, a filosofia, a política e até mesmo as religiões.

Como todas as coisas manifestadas, uns e outros se desviaram e corromperam mais de uma vez , dando origem a confrontações, perseguições, seitas e inquisições.

Porém este mal inevitável não deve ser confundido com tudo de bom que foi conservado, tanto no esotérico ou mistérico, como no religioso. O erro não é dos mestres; o erro é dos homens e isso está magnificamente simbolizado na “última ceia” do Cristo, com Judas traidor atrelado a sua bolsa de moedas.

Confundir e pôr no mesmo saco religião e esoterismo é um grave erro. As religiões passam, e hoje milhares de turistas transitam pelos restos dos templos egípcios perguntando sobre as características e nomes de representações teológicas que há milhares de anos eram conhecidas até pelo mais simples dos camponeses. Mas o espírito interno que alentou os mistérios no Egito não foi perdido e ajudou a levantar muitas outras culturas e civilizações.

Sei que se algum fervoroso crente de qualquer religião ler estas páginas dirá a si mesmo: “minha religião é a verdadeira; as demais caíram porque eram falsas, a minha prevalecerá”… Este é um argumento que foi usado também por outros homens no passado, acreditaram na religião de Osíris, de Istar, de Quetzalcoatl, de Nailamp. Hoje os visitantes dos museus olham suas imagens e perguntam: quem são esses?

Isso não desvaloriza a religião como ponte entre os homens e a divindade; simplesmente é necessário diferenciar as etiquetas da garrafa e a garrafa de seu conteúdo.

Daí que a mescla tão em moda entre os mestres religiosos e os filósofos esoteristas seja artificial e uma amostra a mais da contaminação e confusão que impera. Pois há os que se perguntam: Acaso um Buda ou um Moisés não eram iniciados? Evidentemente, de alguma maneira sim, porém também, de alguma maneira, eram religiosos e místicos um Raimundo Lulio ou um Paracelso. Pois não há nada absolutamente separado nesse universo que tende à unidade, que seja Deus, acima de todas as formas. Mas no momento, e enquanto dure o tempo, a maçã continuará sendo maçã e a rosa, rosa. E ambas caibam harmonicamente no jardim cultivado pelas mãos de Deus.

Seria belíssimo se todos entendessem isso e que, sem negar sua forma de fé ou de acesso ao conhecimento das idéias sagradas, se preocupassem mais em vivê-las que em criticá-las, e deixassem, como nos recomendou o Cristo, de ver cisco no olho alheio e não em seu próprio olho.

Uma Experiência Pessoal

Há muitos anos, quando o autor deste trabalho estava em sua primeira juventude, e descobria, através da filosofia à maneira clássica, as fontes da vida e suas expressões, abriu a porta de sua casa para uns predicadores de uma forma religiosa que não vem ao caso mencionar. Mostraram-me um livro e me disseram, sentencialmente, que nele estava toda a verdade, e não somente isso, mas que unicamente neste livro se encontrava Deus. Estavam se baseando, evidentemente, num princípio de fé, de credo a prova de tiros de canhões. Citaram-me parábolas e ensinamentos. Escutei respeitosamente e lhes disse que o que me ofereciam não constituía, para mim, uma verdade, pois noutros livros e através de outros personagens históricos se havia dito mais ou menos a mesma coisa desde a proto-história. Ficaram escandalizados. Ameaçaram-me com o inferno eterno; e tanto insistiram que, com juvenil impaciência lhes perguntei se Deus era onipotente e onipresente. Responderam que sim. Então lhes perguntei se Deus estava nos assentos em que estávamos sentados. Alarmados com minha ousadia, negaram. E à luz da lógica mais elementar, lhes disse que se Deus não estava nuns assentos, estes o limitavam e, portanto, Deus não era onipotente, que eu concebia um Deus onipotente e onipresente, logo poderia estar tanto em um assento como em um livro, em uma oficina como em um altar. Ainda recordo o estupor pintado em seus rostos; talvez nunca tivessem pensado nessa problemática devido à força da repetição diária da mesma ladainha. Balbuciaram algumas palavras iradas, se levantaram e se vão. Hoje, que sou mais velho e um pouquinho mais sábio, os tivesse deixado com sua fé, pois jamais devemos despojar alguém de um apoio, por ridículo que seja, sem oferecer-lhes outro mais sólido para sustentar-se, ou melhor, ensinar-lhe a andar sem muletas. Porém há pessoas que podem andar sozinhas e outras que necessitam de bengalas. Isso, só aprendi mais tarde.

Fernando de las Casas

Mitos e Simbolismo em Sidarta de Hermann Hesse

Neste breve artigo realizaremos uma homenagem a uma das obras literárias mais lidas no século XX e que seguramente continuará sendo lida neste novo século XXI. Trata-se da novela Sidarta do prêmio Nobel de Literatura de 1946, o escritor alemão Hermann Hesse.

Esta novela foi publicada no ano 1922, quando o autor tinha 45 anos de idade e já se havia consagrado como literato reconhecido graças as suas obras Peter Camenzind (1904), Sob a Roda (1906), Kanulp (1915) e Demian (1919) entre outros.

Hermann Hesse sempre se definiu como um buscador, como um homem que queria se aprofundar constantemente no significado da vida, no destino, nas profundezas da alma humana. Aí reside precisamente a sua força, no fato de saber aproximar-se do atemporal, das perguntas inerentes à condição humana. Por isso, apesar de passado um século praticamente, desde a publicação da primeira obra que o fez famoso, seu Peter Camenzind, suas obras continuam sendo lidas com a mesma admiração de antes.

É importante mencionar que o interesse de H. Hesse pela filosofia e a mística da Índia era em realidade um interesse familiar, que tanto o seu avô materno, o famoso sanscritista Gundert, como seu pai Johannes Hesse, haviam sido missionários pietistas na Índia. Em seu lar estava tão presentes as concepções cristãs-protestantes como as hinduístas-budistas. De fato Hermann Hesse sempre assinalou que Sidarta era obra de seu próprio credo. Todos os personagens de suas novelas foram uma parte importante de sua própria alma rebelde e incansável, buscadora de valores perduráveis e comuns a toda a humanidade.

A Trama da Novela

Sidarta, o protagonista da novela, é um destacado filho de Brâmanes que não encontra por meio da religiosidade regulamentada, formas de satisfazer seus anseios pela verdade, de encontrar a causa primeira das coisas. Tanto é assim, que decide abandonar seu lar familiar contra vontade de seu pai. O faz em companhia de seu amigo Govinda, que o acompanha.

Em busca de verdades mais diretas e desprendidas de formalismos vazios, se une a um grupo de samanas, nome que recebiam os ascetas que viviam nas montanhas afastadas dos convencionalismos sociais, realizando longas meditações e sacrifícios corporais. O objetivo destas estritas austeridades era alcançar, superando os personalismos, o “Atman”, a causa primeira, a unidade que tudo abarca.

Porém tão pouco junto aos samanas do bosque consegue seu anseio de verdade, e entende que não poderia nunca encontrar toda a verdade da vida anulando uma parte dela, seu próprio corpo, suporte de sua existência. Junto com seu amigo abandona os samanas e empreendem uma viagem em busca de Buda (s.VI a.C.), Gautama, cujo nome quer dizer “o vitorioso na Terra”, dizia-se dele que precisamente havia conseguido essa segurança, esta harmonia, esta plenitude na vida.

Quando os dois rapazes se encontram com o Buda histórico ficam realmente impressionados com o que este homem emanava de si mesmo: efetivamente, essa serenidade, esse saber estar no justo meio, esse saber entender além das aparentes contradições da vida. Govinda decide ficar na ordem do Buda, o Shanga, como monge. Porém Sidarta, ainda na certeza de que o Buda havia chegado a sua ansiada meta, entende algo que o próprio Buda ensinava; as doutrinas são bastões que podem ajudar a levantar-nos em direção ao conhecimento, porém somente o esforço individual de cada ser humano pode levar-lhe finalmente à perfeição sonhada. As doutrinas são um meio e não o fim.

Regressa à cidade na busca de seu próprio caminho de perfeição. Torna-se discípulo de uma bela cortesã, Kamala, que lhe ensinou todos os segredos do amor. Também torna-se discípulo de Kamaswami, que era o mais rico dos comerciantes da cidade. Passa vinte anos com eles para entender, baseado na sua própria experiência, que tanto a busca do prazer que experimentou nestes vinte anos como a extrema austeridade que havia praticado com os samanas, nunca lhe levariam à Atma, à perfeição, a entender o sentido profundo da vida, sonho que lhe havia movido há tanto tempo atrás, e que estava a ponto de esquecer.

Abandona a cidade, sua amante e um filho que estava por nascer sem ele saber. Finalmente se une ao barqueiro Vasudeva, com quem já havia cruzado em outra ocasião e que naquele momento não o soube reconhecer como instrutor. O barqueiro o iniciará na arte de entender a linguagem do rio no qual navegavam, que não é mais que uma metáfora do rio do sentido da vida. Finalmente Sidarta conquista, a custa de seu próprio esforço, à compreensão profunda da linguagem do rio da vida e a ajuda de todos os seres humanos com os que se encontrou ao longo de sua intensa trajetória, e conquista a fusão com o todo, com o “Atman”, estrela dourada que o havia alentado desde sua juventude.

Os Personagens

A obra Sidarta está plena de conceitos de filosofia hinduísta e budista, tão importantes como o karma, o nirvana ou a roda de sansara, porém neste breve artigo nos centraremos no simbolismo e nos mitos que aparecem na obra.

Todos os que o têm lido sabem que deixa sabor, beleza e profundidade na alma. Hesse sempre dominou a arte de elevar-nos ao plano do mito, ao mundo dos símbolos, das realidades universais, válidas para todos os seres humanos. Ao ler uma obra de Hesse é inevitável não identificar-se com algum de seus personagens.

A bela cortesã Kamala e o comerciante Kamaswami, são personagens dominados em suas vidas pelo que Platão chama a parte concupiscente da alma humana, aquela que gosta dos objetos sensíveis, que apetece de forma desmedida bens materiais, aquela que nunca se conforma com o que tem e sempre quer mais. Mais posses externas, maior segurança, maior comodidade, maior prestígio social.

Segundo a etimologia ambos têm a mesma raiz, Kama, que precisamente quer dizer desejo em sânscrito, a antiga língua dos brâmanes. Literalmente, Kamala significa a desejada, representa o viver para satisfazer os sentidos, sem preocupar-se com até onde possa levar-nos essa corrente de sensações. Kamaswami quer dizer “o mestre dos desejos”, aquele que sabe tornar realidade seus desejos materiais porém, que tem medo de perder aquilo que com tanto esforço conseguiu.

O barqueiro Vasodeva representa o homem sábio, aquele que já encontrou o fim de toda busca, o sentido profundo da vida. Curiosamente Hesse deu a esse personagem o nome do pai de Krishna, um dos grandes sábio da humanidade inspirador da grande obra épica da filosofia bramânica, o Bhagavad Gita.

Vasodeva, como encarnação do homem sábio é um ancião, símbolo de experiência das provas superadas na vida. Sua virtude principal é que possui a arte de saber escutar a vida e aos seres humano, sem preconceitos, sem opiniões. Por esse motivo, pelo valor que se dá no Oriente à virtude de saber escutar, de interpretar o significado da vida, na iconografia Oriental as imagens dos Budas são representadas com grandes orelhas.

Sidarta é símbolo dos seres humanos que estão a meio caminho entre a sabedoria e a ignorância, entre aquele que tem deslumbrado o sentido profundo da vida, da existência, e aqueles que tomam por sentido da vida a acumulação de bens e honras. Sidarta também tem desejos, como Kamala e Kamaswami, mais seus desejos não são de posse mas de conhecimento. Representa o filósofo, o amante do conhecimento, o guerreiro do espírito que quer superar seus limites e ignorância para alcançar as realidades perenes da vida.

Govinda quer dizer em sânscrito “a parte minguante da lua”. Daí que na obra Sidarta chame, em alguma ocasião, seu amigo “a sombra”. Govinda também representa o homem que busca porém sem deixar de assumir a sua própria responsabilidade sem riscos. Quer caminhos já feitos, por isso em vários momentos da obra o que faz é escutar Sidarta em suas decisões, fazer-se de sua sombra.

Hesse tem a genialidade de fazer-nos sentir que os seus personagens são encarnações de parcelas da alma humana. Todos temos algo de Kamala, buscamos prazeres e reunimos as dores, sem pararmos para refletir onde nos levará essa roda sem fim. Por que cada prazer tem a semente de dor. Sofremos para conseguir o que amamos e sofremos quando o possuímos pensando em seu fim. Todos temos algo de Kamawuami enquanto nos preocuparmos em ter certa estabilidade e segurança na vida. Todos temos dentro um Vasodeva, e quando o escutamos recordamos as coisas pelas quais de verdade vale a pena lutar na vida. Porém sobretudo Hesse nos faz viver, sonhar, experimentar, com Sidarta, que somos viajantes, eternos buscadores das causas da vida para além de medos e limitações.

O Mito

O sentido de fundo do romance é precisamente o da vida humana, o anseio de querer encontrar o sentido. Entender porque nascemos, porque morremos.

Este mito da busca encontramos em todas as culturas: no mito de Teseu e Ariadne grego, no Bhagavad Gita da Índia e no mito de São Jorge, o dragão e a princesa.

Como parte deste mito de busca da perfeição na novela podemos falar de duas viagens. A primeira é evidente pelo mundo externo e a segunda por seu próprio mundo interno. A odisséia externa provoca uma Odisséia ou perigo interno muito mais apaixonante. Sidarta vai se transformando, vai mudando ao longo da obra. Ele anseia o conhecimento, porém tem dois véus sutis, mas reais, que não o deixam ver: é demasiadamente inteligente (é o mais inteligente dos filhos de Brâmanes) o mais diligente na hora de fazer as coisas, o  mais atento, tem toda a erudição dos versos sagrados; já sabe muito, que vai aprender? E tem um orgulho que não lhe deixa aprender plenamente com os outros. A primeira vez que encontra com o barqueiro Vasodeva, antes de ir a cidade, o toma por um homem néscio, quando este possui sabedoria que lhe transmite ao final de sua obra.

Sidarta teve que perder-se nos prazeres da vida e nas ânsias de poder, para conseguir vencer este orgulho, para sentir-se como os demais homens e rompe este véu que o separava dos demais. O segundo véu lhe permitiu ver em Kamala: Sidarta, tu és incapaz de amar. Era incapaz de entregar-se, de dar tudo por outro ser humano e isto era, somado ao seu orgulho, o que o limitava. Porém a vida lhe dá um filho orgulhoso e desrespeitoso. Ele quer e deseja facilitar-lhe tudo porque é seu filho. Por ele vai cometer todas as loucuras e despertar o amor. Mas a vida o faz entender uma lição sintetizada de forma genial que o poeta libanês Kalil Gibran em sua obra O Profeta, nossos filhos não são realmente nossos. Os pais somente são arcos que servem à vida para que essa flecha, que são os filhos tomem seu próprio caminho, seu próprio destino.

O filho o abandonou. Sidarta olhou o rio, e este ria lhe recordando sua imagem e a imagem de outro ser, que ele, em outros tempos, havia respeitado e inclusive temido. Era a imagem de seu pai, e ele então lembrou do dia em que partiu e nunca mais voltou e, quem sabe, aquele homem que tanto o havia amado, tivesse morrido sem nunca mais voltar a ver seu filho. O rio ria, sua vida e sua história não eram mais que a história repetida de seu pai.

Estes eram alguns dos velhos ensinamentos da Índia, como o do Karma, que Vasudeva lhe havia falado a primeira vez que se encontraram, porém ele era demasiadamente orgulhoso para entender. Porque quando chegaram à outra margem, Sidarta lhe disse que não tinha dinheiro para pagar; o barqueiro lhe disse que não importava, pois já estava contando com isso. Disse também: tudo na vida volta, fará o pagamento em outra ocasião.

O rio mostrará sua imagem entrelaçada com a de seu pai, com a de seu filho, a imagem de Kamala, a de Govinda, e a de todos que havia conhecido na vida, cada imagem buscando uma meta, um fim, com ansiedade e com dor. E a conquista dessa meta era o começo de outra busca, de outra meta, de outra ansiedade de outra dor. A água do rio também buscava sua meta, que era chegar ao mar, onde se evapora para voltar a formar nuvens que voltariam a produzir chuvas e por sua vez formariam novos rios, novos arroios, novas torrentes.

Sidarta segue olhando o rio e vai escutar todas as vozes: de alegria de tristeza, de dor de gozo. Quando escuta atentamente o rio e não faz sua nenhuma dessas vozes. A soma de todas elas formam um único som, a perfeição. Então Sidarta deixa de lutar contra o destino, entendo o sentido da corrente da vida nesse momento, entende que a sabedoria é a consciência da unidade das coisas, é saber ver por trás de todas as ansiedades, de todas as lutas. É saber pensar e sentir e viver em cada momento da unidade.

O Credo de Hermann Hesse

Hermann Hesse afirmou em alguma ocasião que Sidarta era a obra em que expressava seu credo. Em uma de suas cartas escreve: Não creio em nossa ciência, em nossa política, nem em nossa maneira de pensar, e não compartilho de nenhum dos ideais de nosso tempo, porém não careço de fé. Creio nas leis milenares da humanidade, e creio que sobreviverão a toda confusão de nossa época atual… Creio que, apesar de seu aparente absurdo, a vida tem um sentido.

Bibliografia

Meu Credo, H. Hesse, Ed. Bruguera

Sidarta, H.Hesse, Ed. Mexicanos Unidos.

Hermann Hesse, José Maria Carandell, Ed. Barcanova.

Pilar Luis

Quando a Filosofia é Arte – O Profeta, de Khalil Gibran

Acerca da generosidade “pouco dás se somente dás de vossos bens, dás de verdade somente quando dás de vós mesmos”.

Até o ano 1923, o escritor libanês Khalil Gibran publica “ Profeta”, Nesta obra será não somente a de maior êxito, mas a mais madura de todas que escreve.

Filósofo e poeta, Gibran passou muitos anos pensando no livro e esperando sempre momentos especiais. “Este livro é somente uma pequena parte do que tenho visto e do que vejo cada dia, uma pequena parte das muitas coisas que anseiam expressar-se nos silenciosos corações dos homens e em suas almas. O poeta é somente a primeira letra de uma só palavra”.

Quando algumas pessoas lhe perguntaram como havia sido escrito respondeu: “o livro escreveu a mim”.Ele se vê como transmissor de um ensinamento universal que é patrimônio da humanidade.

O Profeta foi seu segundo nascimento, e tomando como primeiro o biológico, o segundo é o nascimento da consciência.

Apresentando-se com o nome de Almustafá, o profeta, antes de partir do povo de Orfalase, a instancia de Almitra, a sacerdotisa, se dirige aos habitantes para dizer-lhes: “de que outras coisas lhes posso falar senão do que vejo vibrar em vossas almas?”

É então quando nos aproximamos dos aspectos mais importantes com os que toda pessoa encontra em sua vida. Nos fará refletir sobre isso, revisar nossas idéias, nossos sentimentos e nossas atitudes. Nos abre a porta para encontrarmos um verdadeiro ser humano, aquele que se esconde sob as aparências, o que pode emergir se soubermos esculpi-lo.

Acerca do Amor: “o amor somente dá de si e nada recebe senão de si mesmo”. Acerca da amizade: “quando vosso amigo se cala, vosso coração continua escutando seu coração”. Descobrindo o que é alegria e a tristeza, “juntas chegam e quando uma vem sentar-se em vossa mesa, recorda que a outra, adormecida, os espera em vosso leito”. Acerca do trabalho de cada um: “trabalhar com amor é estar unido conosco mesmos, e com os outros e com Deus”. Aprofundando sobre a verdadeira liberdade, “e se é um temor o quereis dissipar, o centro deste temor está em vosso coração e não na mão que comeis”. Acerca da generosidade, “pouco dás se somente dás de vossos bens, dás de verdade somente quando dás de vós mesmos”.

Por trás de todo o percorrido, afastando em cada giro um véu a mais descobrirá os mistérios da vida e da morte com sua linguagem intimamente poética e carregada de significado.

“E que é cessar de respirar senão liberar o alento de seus mares agitados, a fim de que se levante e se expande e busque a Deus livremente? Almustafá partirá do povo de Orfalesse, porém sua marcha não é sinônimo de vazio, se converteu em guia para que cada um reconheça seu próprio ser interior e possa viver sua própria vida de acordo com sua natureza imortal que têm arraigado no mais profundo de seus corações. “Vós não estareis encerrados em vossos corpos, o que sois habita acima das montanhas e vaga no vento…”

Khalil Gibran deixa constatada a importância que tem “O Profeta” no livro e na vida real. É a figura do mestre, do homem de conhecimento, quem guarda a semente da sabedoria para aquele que queira buscá-las. Para suprir a necessidade de aprender que tem o ser humano se necessita daquele que ensina, alguém com essa capacidade tão pouco comum de ver além da superfície e aprofundar através das máscaras da vida; e esse alguém nos pode descobrir algo que naturalmente todo ser humano necessita, porque devolve a magia de saber-se humano e a possibilidade de viver de acordo com nossa nobres aspirações.

Yolanda Garcia

Buscar a Arte – Cenas de Carroças

Claude Guillot – Museu do Louvre

Este pouco conhecido pintor do século XVII-XVIII, comparado a Watteau e outros muitos artistas da época se interessou pelo teatro e em particular pelos tipos de comédias italianas, como nos deixa constância neste quadro.

Trata-se uma cena de comédia, a feira de Saint German, na que se enfrentam dois cocheiros em uma representação espetacular: se traçamos uma linha divisória vertical que corresponderia quase exatamente com a esquina da casa central há dois blocos, um espelho do outro: as rodas que cerram as laterais; as varas que quase chocam entre si; os arcos dos assentos; as mãos avariadas de dois dos personagens; os braços dos cocheiros, cujos rostos quase não se tocam, coisa que se fazem os tricórnios, um prolongação do outro; suas pernas na mesma posição; a postura avançada dos viajantes, que além do mais fazem convergir, entre a paleta escura geral, a mancha branca de seus turbantes.

Esta situação especular e sua união no centro criam, sem que seja um ponto de fuga, e sim um de atenção imediata aos olhos do espectador. É um exemplo de “desvio do óbvio”, porque, se bem o estranho turbante branco seja como um feixe de luz que deveria chamar-nos, são os rostos dos condutores o que primeiro nos solicita. Consegue-se assim centrar-nos no argumento da cena, a discussão – e possível peleja – que sem dúvida é a base da comédia representada.

É, portanto, um quadro “psicológico”, ainda que se custe chegar à conclusão. Nos distraímos nos resto dos elementos, porém inevitavelmente chegamos à ela.

O cenário, os sombrios edifícios, fecham todas as saídas. Bloqueiam toda escapatória. Fecham-nos com os personagens e sua violência, nos escurecem tudo que não sejam eles e suas discussão.

Sejam quem forem os ocupantes da carroça, o ignoramos. Porém, ainda em sua estranha monstruosidade, como o da direita, os vemos aproximar-se de nós: uma peleja de tráfego.

Há algo mais cotidiano, três séculos depois?

Maria Ángeles Fernandez

Outubro e o outono

Outubro é o oitavo mês do calendário romano e conserva seu nome como para setembro, novembro e dezembro, os de sétimo, nono e décimo. É o mês do outono por excelência no hemisfério norte e se caracteriza pelo vinho e pela colheita de uvas. É um mês de transição e, embora Amades o defina como o mais triste e pobre em costumes de todo o ano e ainda diga que durante o seu decorrer não haja nenhuma festa marcada nem dia excepcional ou notável, apresenta todas as etapas transicionais que, para um humanista, são de grande interesse. E este interesse aumenta se se acrescenta que é a etapa da vindima e do vinho.

O vinho e o pão, a água e o azeite são os alimentos elementais básicos da humanidade pelo menos desde o Neolítico. Ou seja, desde os tempos que o caçador e colheitador dos primeiros tempos se converteu em agricultor e pastor e trocou seu errante nomadismo pela estadia em povoados. Ou dito de outra maneira, quando o depredador que se limitava a aproveitar o que a natureza oferecia começou a produzir seus próprios alimentos e a diminuir o que era natural para introduzir artificialidades. Tanto é assim que as religiões os sacralizam e tanto servem para comunhões e batismos quanto para se converter no sangue e na carne de Cristo na Eucaristia ou em qualquer outro costume do mundo oriental. Os peregrinos de Santiago dizem que com pão e vinho se anda o caminho, e o  bordão com a abóbora que continha porções do reconfortante líquido seriam seus símbolos. E logo se aplicou o dito a todos os caminhos. Por conseguinte, pão e vinho apareceram entre os símbolos de forma especialmente destacada e formando parte de máximas, refrões e frases feitas.

O vinho seria sinal de vida e força, mas também, no seu exagero, de vício e mal. E se lhe opôs à limpeza e pureza da água. Uma fonte que emana constantemente ornando o Passeio Arqueológico de Tarragona diz Bibe e fonte salute e vives, embora não saibamos se este futuro alude de forma demasiado otimista esse ambíguo líquido que brota dos torneiras tarraconenses. Não sabemos se se acrescentava algum letreeiro às fontes de vinho tinto, rosé ou água que se alçavam nos pátios da Aljafería, em Zaragoza, com motivos de festas reais ou as que as pessoas de Cariñena montavam às margens do caminho real quando Carlos I passava por ele para viajar à Zaragoza desde a corte com objetivo de que todos pudessem beber ao seu livre-arbítrio, imaginamos que até a embriaguez.

E peço perdão aos leitores por uma digressão sobre esta situação e a infinidade de nomes eruditos e populares com os quais se relaciona. A embriaguez tem tantos e variados nomes populares como tem o cerdo ou a mulher da vida, com perdão. O que é sinal, como dizia um mestre, da sua singular importância ou, pelo menos, da sua constante presença na vida dos homens.

Voltando às máximas, um antro de bebidas de Tréveris, no século II, aconselhava “bibe dum vivas” dentro dos aforismos dos bebedores, sorrindo diante dos conselhos da água límpida e pertence a uma centena de bebedores que originariam frases engenhosas como a descrita numa taça para vinho do Museu de Maguncia, do século IV, onde o ceramista escreveu: vivat qui me plenet, com desejo de ver tão cheio o recipiente como sonhavam outros em vê-lo vazio pela sua mudança. Beber até morrer ou enquanto estejas vivo é conselho sobre excessos, e os “sem graça” da nossa terra e de outras muitas comentaram: a água… para as rãs. O costume de adornar os copos destinados a conter o vinho ou a água com inscrições e máximas e até com curiosas e úteis indicações vem de um antigo viajante. Ele era de Cádiz e queria chegar a Vicarello, na Itália e gravou nos copos os nomes das cidades do percurso e a distância em milhas entre elas, deixando-nos um pintoresco guia da estrada que seguiria na sua peregrinação lançando os copos às águas, como oferenda de gratidão, em homenagem às divindades protetoras e curativas que, sem dúvida, curaram seus males e provocaram seu ex-voto. Porque o mundo antigo selecionou os deuses e seres superiores como protetores do vinho e da água, quando não buscou personagens míticos para relacioná-los à invenção do vinho. E se foi Noé no Antigo Testamento, entre os gregos e romanos foram deuses ou heróis ordenadores do caos que inventaram o vinho desde Teseu ao multifacético Dionísio.

Contarei sobre o significado de uma frase já esquecida entre nós, mas de uso habitual há aproximadamente meio século e que certamente a maior parte dos nossos leitores desconhece. Dizia-se, para indicar que se tinha chegado até o último extremo da resistência e indicar o propósito de não interrompê-la, “Até ver-te, meu Jesus ou apurar o cálice até as fezes” tal como figura nas Escrituras e se colocou na boca de Jesus nos seus sofrimentos no Monte das Oliveiras. Do episódio e frase do Testamento deriva seguramente a adaptação de princípios dos tempos modernos. No caso das “fezes” o termo era claro porque o vinho poderia sedimentar no seu fundo as impurezas conseqüentes da sua manipulação. Mas, o de “Jesus meu” é assunto numismático, quando nos “münzpokale” de ouro, prata ou outro metal, adornados com moedas, que usavam os bebedores, colocava-se no interior do seu fundo uma medalha com a imagem de Cristo e se bebia o conteúdo até que pela larga boca se vislumbrasse a imagem que indicava que o vinho terminava.

Claro que tudo estava em relação com os cantos de taberna, como o estudantil Gaudeamus igitur, iuvenes dum sumus, agora hino cantado e escutado com respeito, com permissão de Brahms, eliminadas estrofes pouco dignas da seriedade com que se executa como a de Vivant omnes feminae, fáceis, belas… numa curiosa transmutação das licenças báquicas às solenidades acadêmicas.

Deixemos, de momento, o vinho, ao que já dedicamos alguns artigos, e voltemos ao outubro que pode ser símbolo do outono no hemisfério norte. Temos suportado súbitos frios e ansiadas águas do céu que fecharam o verão deste ano e mostram a brusca transição outonal. No campo é ou era do tempo do lavrador, como em Aragón se denomina ao agricultor, com o arado como símbolo, e desde logo da vindima, tal como aparece em todos os lunários medievais e inclusive nos mosaicos romanos. É curioso anotar que os espaços quadrados ou com quatro ângulos requerem da iconografia temas com quatro possibilidades de expressão. Assim como nas quatro pechinas das nossas igrejas parece lógico que apareçam os quatro Evangelistas, nos mosaicos romanos se buscava uma estação para cada esquina de um quadro, e o outono é sempre uma imagem coroada de pâmpanos quando não a de um jovem com um cacho de uvas na mão, como no fabuloso mosaico de Centcelles, do século IV, tumba real do imperador Constante, cujo nome se perpetua no povoado vizinho de Constantí.

Outubro é, portanto, o mês de preparação da semeadura e, portanto, de arranque de todo um ciclo que terminará com a colheita. Partir-se-á de ritos propiciados para rechaçar espíritos malignos e atrair condições favoráveis. Muitos dos bailes agrícolas podem ter raízes pré-históricas; assim, os bailes dos dançarinos aragoneses com bastões, quando golpeam vigorosa e freneticamente o chão com eles, estão penetrando a terra para obrigá-la a engendrar e ser fecunda.

Outro elemento muito antigo é o da associação da Lua com as celebrações agrícolas da preparação da terra. A de outubro dominava as sete seguintes e profetizava como seriam. Aproveitemos para dizer, deixando o tema para outro momento, que as fases lunares provocaram a aparição do sete como número cabalístico. A disposição do tempo em semanas e até a criação do mundo pelo Ser Supremo em sete dias, embora o sétimo fosse de descanso. Brindemos aos nossos leitores até o próximo artigo.

Antonio Beltrán

O jogo do GO, filosofia sobre um tabuleiro

Nos países ocidentais se costuma acreditar que não existe nenhum jogo de maior inteligência que o xadrez. Isso se deve ao fato de que ainda não se conhece suficientemente o go.

O go é um jogo de inteligência no qual não intervém o azar. É, sem dúvida, o mais antigo e fascinante de todos os jogos de mesa e de estratégia que atualmente se conhecem e se praticam.

Veio do Oriente, onde nasceu há mais de 4.000 anos, a sua origem está diretamente relacionada com a educação, pois conta uma lenda chinena que foi inventado pelo mítico imperador Yao para instruir seu filho.

Serve para desenvolver a imaginação, a criatividade, a capacidade de concentração, a capacidade de discernimento, o sentido da harmonia, da proporção e da estética. Por isso, na antiga China, foi uma das chamadas quatro artes, junto com a pintura, a caligrafia e a música.

Talvez seja difícil de entender o que é o go porque, realmente, não se parece com nenhum outro jogo. O go é um jogo natural, abstrato, sutil, cheio de lógica e de sentido comum. É também uma via para perceber o efêmero da existência, e tomar consciência de uma realidade diferente, mais além do tempo e do espaço. Por isso, não é casual que esses seres tão especiais do taoísmo chamados Imortais, apareçam em muitas representações jogando o go. E a idéia de imortalidade está presente sobre o tabuleiro: quando um grupo de pedras está vivo, significa que é indestrutível, invulnerável…, ou seja, imortal.

Para jogar o go apenas é necessário um tabuleiro e pedras. O tabuleiro deve ser quadriculado e ter 19×19 linhas, e as pedras ou fichas devem ser redondas, 180 brancas e 181 negras. Apesar da sua simplicidade, estes elementos constituem uma profunda linguagem simbólica. O quadrado representa a matéria, o mundo material, a Terra. E o círculo representa o espiritual, o Céu. O círculo sobre a intersecção representa a roda com seu centro, que por sua vez é o centro da cruz: o quinto elemento, a consciência. O negro e o branco representam a dualidade, como no símbolo do Yin e do Yang, par que a partir do qual tudo nasce.

A imagem de um tabuleiro cheio de pedras sugere também as formas da natureza, a chamada geometria fractal, na qual dentro de um aparente caos se escondem regras matemáticas muito precisas.

O go desenvolve a visão de conjunto, a visão global, e permite comprovar que o excessivo “bairrismo”, particularismo ou egoísmo, conduzem ao fracasso. Cada nova pedra muda a situação sobre o tabuleiro, e o jogador deve aprender a reconhecer e valorizar constantemente as mudanças.

O go integra a atividade de ambos os lados do cérebro, o esquerdo, que põe em jogo a capacidade analítica, e o direito, a capacidade criativa, constituindo além do mais uma autêntica prevenção contra as doenças mentais.

O tipo de inteligência que exige o go coloca em jogo as qualidades humanas: prudência, valentia, tenacidade, serenidade… Por isso não existem programas informáticos, que joguem bem o go; nem tão pouco um ser humano pode jogar bem de forma mecânica. O go é, portanto, um jogo claramente humano, que equivale a uma conversa na qual ambos jogadores mostram sobre o tabuleiro inclusive os aspectos mais íntimos de sua personalidade. Por isso no Japão o chamam de “shudan”, que significa: linguagem sem palavras, entender-se sem palavras, “falar sem falar”.

O adversário deve ser tido em conta sempre, pois de certo modo, o jogo do go é uma construção na qual dois oponentes, ainda que sem se propor a isso, cooperam na produção de uma obra que pode satisfazer tanto o ganhador como o perdedor.

De certa forma, o go é um extraordinário laboratório de aprendizagem. O jogo nos ensina a ser audazes e ao mesmo tempo prudentes. A conduta muito atrevida ou ambiciosa é tão perigosa como a muito temerosa ou conservadora. Não se pode atacar tanto que por isso tenha que se descuidar da defesa; no entanto, o excesso de precaução não permite ver as oportunidades quando elas se apresentam e ocasiona a perda de iniciativa no jogo. O go nos ensina a ser perseverantes no desenvolvimento de um projeto, mas também a saber mudar a tempo de estratégia; não se deve atuar rigidamente insistindo em idéias que perdem validez ao mudar uma situação; não há que seguir lutando pelo que está perdido, mas ao mesmo tempo não há que abandonar nunca a luta até que não se tenha esgotado a última esperança.

E esse aprendizado auxilia sempre a busca pelo equilíbrio. As pedras não devem estar nem muito concentradas nem muito dispersas. Muitas vezes, quem está cercado pode cercar; o morto, vivo e o vivo morto. Finalmente, a vitória pode ser obtida pela acumulação de pequenas vantagens, ainda que às vezes seja necessário arriscar tudo numa batalha decisiva. É insuspeitável a beleza deste dinamismo, e emocionantes suas transformações.

O go apaixona e cativa porque é algo que cada um vai descobrindo à medida que o pratica. Mas passado certo tempo, produz-se um descobrimento surpreendente: o go e a vida se parecem. Como a vida, o go é dinâmico, profundo e misterioso. Mostra-nos que sempre há algo mais além que ainda não vemos, mas que podemos descobrir. Por isso acrescenta o sentido filosófico, o sentido nato de busca em todos os seres humanos. Busca pelo equilíbrio e harmonia, busca pela beleza abstrata que se oculta por detrás de todas as formas, busca pelo conhecimento. E, tanto sobre o tabuleiro como na vida, esse conhecimento é o que nos fará verdadeiramente livres, pois será ele que nos permitirá escolher corretamente nossos movimentos e atos.

Desta forma, o go se converte também numa via de aperfeiçoamento moral, consistente na eterna busca pela melhor jogada, pelo mais correto, pela melhor maneira de atuar.

A difusão do go no Ocidente é cada vez maior, e a beleza do jogo serviu de inspiração à literatura e ao cinema. Alguns livros que falam sobre o go são conhecidos: Shibumi, Jian, A jogadora do go, Chung Kuo… E existem também alguns filmes nos quais aparecem o go: “Pi, fé no caos”, e “Uma mente brilhante”, baseada na vida de John Nash, prêmio Nobel em 1994. No filme, é chamativa a complexa reação de Nash quando perde uma partida de go.

Pouco a pouco é maior o número de ocidentais que aceitam este legado do Oriente. No entanto, ainda está pendente a recuperação do valor que tradicionalmente teve no passado: seu valor cultural, artístico e filosófico. Um valor que permitirá ao homem ocidental utilizar o jogo como via de superação pessoal, um valor do qual os japoneses falam do Kido: “a via do go”.

Ter atravessado os séculos com algumas regras de jogo muito simples e quase que invariáveis, outorgam-lhe o sabor do clássico: velho e novo ao mesmo tempo, não estando sujeito às modas, sempre atrativo… Se é certo que vivemos na chamada “civilização do ócio”, com muitas horas de tempo livre à nossa disposição, o go se nos apresenta como uma extraordinária alternativa de ócio, para qualquer pessoa de qualquer idade; alternativa barata, limpa e ecológica. Adequado para os que não se conformam com as diversões passivas habituais, mas que buscam o ócio com qualidade, em que se possa por à prova nossas capacidades e desenvolvê-las. Uma preciosa alternativa contra programas de televisão depreciativos, o consumismo, a delinqüência e tantos outros problemas do nosso tempo.

Por tudo isso, podemos afirmar que o go é algo mais do que um jogo. Algo oculto, misterioso e atrativo… Isso que enfeitiça, isso que todo ser humano busca ainda que sem sabê-lo, não é outra coisa que o conhecimento, mas não um conhecimento meramente acadêmico, mas o conhecimento profundo das leis da Vida e da Natureza, o conhecimento universal que todo ser humano, de qualquer época e lugar, necessita e quer aprender. Esta é a natural relação do go com a filosofia – esta entendida no seu sentido tradicional e etimológico: amor à sabedoria – e esta relação produz o verdadeiro descobrimento do jogo, que nos mostra seu aspecto mais profundo e sua magia. Magia que, definitivamente, foi o que motivou a sobrevivência do go durante milhares de anos, e que garante sua existência no futuro.

Bibliografia

– O Go, um jogo oriental milenário. Editorial NA, Miguel Ángel Antolinez, 1998

– O Cercado, de Ambrosio Wang An-Po, 1970.

– Introdução ao Go. Hilario Fernández Long e Adalberto Moderc. Edições La Isla. Buenos Aires, 1983

Miguel Ángel Antolínez

Investigação Científica – Novamente a energia nuclear

Quem se lembra dos anos 80 e do nascimento dos movimentos ecológicos modernos, com aquele famoso slogan com um sol e a legenda “Nuclear não, obrigado”, vai se assombrar com o fato de que se está considerando a energia nuclear como uma fonte alternativa à crescente demanda de energia no mundo. Já não é apenas a suposta limitada duração dos combustíveis fósseis, mas também a contaminação produzida e o descumprimento dos acordos de Kyoto, e sobretudo a crescente alta dos preços energéticos. Inclusive alguns ecologistas estão começando a apoiar, timidamente, uma energia nuclear, sempre mais segura, pois já se passaram os tempos de Chernobyl.

Repassemos alguns dos dados a ter em conta:

A energia nuclear não emite gases que produzem o efeito estufa na atmosfera, evitando o aquecimento global.

Evita a dependência dos combustíveis fósseis de limitada duração.

Frente a outras energias renováveis e limpas, como a solar ou a eólica, uma planta de energia nuclear requer muito menos espaço para produzir a mesma energia.

Seu volume é muito compacto: 1 kg de urânio produz tanta energia como 3 milhões de kg de carbono, sendo apropriado para veículos como submarinos ou aviões.

Atualmente, 16% da energia consumida no mundo é proporcionada por algum dos 440 reatores nucleares distribuídos em 31 países. Os E.U.A estão em um dos primeiros da lista, com um total de 104 reatores nucleares que proporcionam 20% da energia. No entanto, é a França que está melhor abastecida, com 78%, devido aos 59 reatores existentes.

Uma planta nuclear é basicamente uma planta de vapor alimentada por um elemento radioativo como o urânio. O urânio é colocado no reator e aí se produz a fissão ou separação dos átomos individuais, produzindo uma grande quantidade de energia que é usada para aquecer água que se transforma em vapor. O vapor faz funcionar algumas turbinas que movem cilindros de corda que interatuam com um campo magnético gerando uma corrente elétrica.

A explicação da liberação de energia durante a fissão se baseia na famosa fórmula de Einstein: E=mc². Em determinadas condições, um átomo de urânio se divide em dois átomos menores, desfazendo dois ou três nêutrons no processo. A energia é liberada em forma de raios gama, similares aos raios X, que podem produzir queimaduras, câncer ou mutações genéticas nos seres vivos. Podem conter grossas paredes de concreto ou de chumbo.

Os resíduos nucleares são os restos do urânio, altamente radioativos. Na França ou no Japão se reutilizam, mas nos Estados Unidos se armazenam desde a década de 70 na montanha Yucca no deserto de Nevada.

Outro tipo de combustível nuclear recentemente utilizado é o tório, uma substância mais abundante e que produz menos resíduos radioativos.

As bombas atômicas e as centrais nucleares são essencialmente diferentes. As bombas requerem, para explodir, a união rápida de duas peças de urânio-235 metálico quase puro. Um reator nuclear típico utiliza urânio cerâmico (normalmente em forma de óxido), no metálico, com um conteúdo de urânio-235 de no máximo 3%; o resto do urânio é 238, que não provoca fusão no reator nuclear da central.

Juan Carlos del Río

Convite à música – O requiem que Mozart nunca escreveu

“Não consigo me desprender da imagem do desconhecido, o vejo por todas as partes e me roga impaciente que realize o trabalho”

W. A. Mozart

Provavelmente quando os leitores leiam o título deste artigo pensarão que há um erro, pois o requiem de Mozart é a missa fúnebre mais conhecida, a mais vendida, a que todos temos em nossas estantes e utilizamos em momentos íntimos ou meditativos.

Sim, com certeza, é uma música extraordinária e sua história é mais extraordinária ainda, pois se pode perceber a capacidade de transmissão que tinha Mozart e também fala dos discípulos que o gênio de Salzburgo deixou.

Esta obra superou todas as listas de vendas quando o filme Amadeus estreou. Deste modo, milhões de pessoas a conheceram; estranho paradoxo, pois desde que foi concluída em 1791, ninguém a escutou e poucos souberam da sua existência até meados do século XX. Caprichos do destino…

No filme, esta partitura aparece como o foco dos últimos dias de Mozart. Incumbida por um estranho e obscuro personagem, com ela o compositor teria se preparado piedosamente para a morte segundo a liturgia católica. Aí vemos o genial Mozart fazendo esforços inauditos para ditar à Salieri a orquestração das últimas partes. É sua obra póstuma, uma submissa súplica de misericórdia ante Deus após uma vida de libertinagem e povoada de excessos. É o que diz o roteiro do filme, mas será essa a verdade?

Sem dúvida alguma Mozart teve que ser uma pessoa alegre, às vezes desmedida, mas também foi um filantropo, um idealista que buscava o bem da humanidade e, além do mais, um incansável operário da música. Sua correspondência, seus amigos e seus biógrafos assim o testemunham. Suas relações com a igreja católica, ao longo da sua vida, não foram digamos… muito fluidas. No entanto, sua vinculação com a maçonaria da época e sua militância ativa, sobretudo na última parte da sua vida, foi notável. Sabemos que escreveu música para a loja maçônica a qual pertencia, que dirigiu suas obras nas reuniões secretas e que incitou outros compositores a formar parte desse movimento filantrópico.

Nos últimos anos Mozart escreveu muitas obras com caracetrísticas esotéricas, mas foi no último ano que dedicou quase todos os seus esforços a este tipo de obra. A Flauta Mágica, o concerto para clarinete e orquestra e a cantata maçônica em Dó Maior chamada “Elogio à Amizade” entre outras, estiveram escritas ou foram acabadas nesse ano. E é precisamente nesta cantata maçônica na qual faz seus irmãos cantarem sobre o Amor, o trabalho e a Fraternidade Universal, para terminar com a palavra Luz. Uma autêntica despedida filosófica, invocando a concórdia entre os homens.

Dito isso, como se inserir o requiem neste ano, o ano da sua morte? Na realidade, esta obra tem pouco de Mozart. Ou seja, o manuscrito demonstra que apenas uma pequena parte foi escrita por ele (até o compasso 8 da lacrimosa); o resto, com possíveis indicações do Mestre, pertencem a Sussmayr e a Eybler, ambos discípulos seus.

Ademais, o encargo de uma missa fúnebre não deve ter obtido muito interesse por parte de Mozart. Primeiro porque sua mística estava focalizada para outro horizonte. De fato, entre o momento do encargo e o da finalização do requiem, Mozart deixou terminadas muitas obras maçônicas, postergando continuamente a finalização do requiem. Em segundo lugar, porque receber um encargo de um desconhecido induzia a pensar que alguém poderia estrear a obra como sua, coisa muito habitual na época e que neste caso realmente ocorreu. O conde Walsegg, uma vez que Mozart já havia falecido, estreou a missa de requiem como sua. Foi ele quem encarregou a obra através do seu mordomo, e graças a umas cartas deste último, encontradas no início do século XX, sabemos quem realizou o encargo. Se a isso somamos o pouco que há na obra de próprio punho de Mozart, começa-se a pensar que para alguém foi interessante fomentar a imagem de um Mozart arrependido e religioso que chega aos nossos dias.

Com tudo isso, não pretendo induzir que pensem que o requiem seja uma obra menor, muito pelo contrário, é uma música maravilhosa que, ademais, faz refletir sobre um aspecto pouco conhecido de Mozart: seus próprios discípulos. Discípulos que devem ter sido muito bons músicos, mas que,  ante uma luz tão cega como a de Mozart, ficaram na sombra. Nomes que continuam sendo desconhecidos, mas cuja música está em quase todas as nossas casas. E é esta, a meu ver, a extraordinária mensagem desta obra.

Sebastián Pérez

Viva Sadia – Aloe vera, a planta das queimaduras

Desde a mais remota antigüidade se utilizou a Aloe Vera por suas virtudes medicinais e cosméticas. Conta-se que os chineses foram os primeiros a usá-la, sendo conhecida também na Índia e no Egito. O papiro Ebers, conservado na Universidade de Leipzig, e datado de 1500 a.C. fala de seus valores curativos.

Deste modo, ficaram-nos documentos históricos dos romanos, entre eles Plínio o velho e Galeno, que provam que a aloe formava parte de sua drogaria terapêutica. Dioscórides também comenta amplamente esta planta em seu livro Matéria Médica, escrito no século I d.C.

Após anos de esquecimento, novamente a aloe começa a ser recuperada em nível popular, se bem que em alguns casos, devido ao afã comercial, a propaganda costuma exagerar seus efeitos benéficos.

Por seu aspecto carnudo, a planta pode se confundir com um cactus ou com uma pita. No entanto, pertence à família das liliáceas, junto com o alho, a cebola, a tulipa ou o aspargo. Suas folhas se dispõem em grandes rosáceas, com pequenos espinhos nas bordas. Duas circunstâncias desfavoráveis para seu crescimento são o excesso de água e o frio abaixo de 0º C. Como tem origem nas zonas tropicais, necessita lugares ensolarados, cálidos e com muita luz.

Da aloe se extraem dois produtos totalmente diferentes: o gel e o látex (também chamado acíbar no espanhol). Enquanto que o primeiro é inócuo e se emprega sobretudo por via tópica, o segundo se ingere, tem um efeito laxante muito potente e em doses elevadas pode inclusive ser mortal. Por isso, o que encontramos em lojas e herbanário são os produtos derivados do gel, estando o aloés submetido a restrições legais na maioria dos países.

Acíbar

A partir do corte transversal das folhas frescas sai um líquido de cor amarelo escuro, gosto amargo e cheiro nauseabundo. É o látex, produzido na camada das células de secreção que se encontram justamente debaixo da superfície externa das folhas. Este excedente se condensa devido ao calor, obtendo-se ao final um produto solidificado de cor marrom, cujos princípios ativos são as antraquinonas, principalmente a aloína. Costuma se incorporar pulverizado a preparados farmacêuticos laxantes. Sua dose tem de ser precisa devido ao seu efeito drástico. À doses baixas se utiliza como digestivo, enquanto que à doses maiores se comporta como laxante e inclusive purgante. Se se usa em excesso produz quadros diarréicos, cólicas intestinais, desequilíbrio eletrolítico e dependência de laxantes. Seu uso é desaconselhado para crianças, pessoas com hemorróidas e gestantes, por promover as contrações uterinas.

Gel de aloe

Contam que foi Aristóteles que aconselhou Alexandre Magno a conquistar a ilha de Socotora, no sul da Arábia, e assim utilizar os aloés que lá cresciam para tratar as feridas dos seus soldados. E o aloe, conhecido popularmente como a planta das queimaduras, fundamentalmente se utiliza para tratar problemas da pele, como bolhas, cortes e irritações. O gel provém da parte interna das folhas e tem um aspecto gelatinoso e transparente. Os que têm a planta em seu jardim, quando precisarem, podem cortar a folha e extrair esta gelatina ou sujeitar a folha diretamente sobre a ferida com uma faixa após ter cortado seu canal. A partir do gel se preparam também produtos concentrados, em extrato ou a base de óleos para uso externo e sucos de aloés, de uso interno. Os princípios ativos do gel são os polissacarídeos mucilaginosos, embora contenha uma série de aminoácidos, ésteres, taninos, vitaminas e outras substâncias como o ácido salicílico, que lhe dão suas propriedades antisépticas, regeneradoras e antiflamatórias.

A eficácia do gel varia dependendo da espécie utilizada (a adequada é Aloe barbadensis miller), a idade da planta (entre três e cinco anos), se a folha está sã e o processo que o produto sofreu.

O processo de separação mecânica entre o acíbar e o gel nem sempre é total, e embora o gel não deva ter antraquinonas, em preparos caseiros ou naquelas não muito rigorosas pode ser que fiquem alguns restos. Isso não tem muita importância para seu uso externo, mas sim nos sucos ou dissoluções do gel que se utilizam por via oral.

Além de seu uso em queimaduras domésticas, produzidas por tocar num ferro ou num forno quentes, ou por salpicar óleo, utiliza-se para refrescar a pele no caso de queimaduras solares. Serve como filtro solar contra os raios ultravioletas, diminui as manchas da pele a longo prazo, melhora os eczemas e irritações locais, elimina as bactérias e depósitos de gordura que obstruem os poros e alivia a pele após a barbeação ou depilação. Pode-se inclusive usar no couro cabeludo, para tratar a caspa ou o cabelo oleoso. E há quem a recomenda em enxágües bucais para melhorar as gengivas sensíveis. Os benefícios do seu uso por via interna não estão provados cientificamente.

Isabel Pérez Arellano

O processo dos Templários

As primeiras acusações, baseadas em rumores sem fundamento, apresentaram-se no Conclave de Perugia em 1305. A partir desse momento, buscaram-se testemunhas dentre os que foram excluídos ou expulsos da Ordem, e inclusive se introduziram espiões sob as ordens de Clemente V e Felipe o Belo.

Walt Disney. Sua filosofia secreta

No século XX, convulsivo e caótico, descobrimos um esplendor de beleza, como o claro olhar da estrela d’alva, lutando para sobreviver, confundido na sua massa de metal, ígnea e incandescente: ouro puro em meio as sombras e a escória. É a arte de Walt Disney. Arte que se destaca no meio de “outras” que se precipitam na irracionalidade, no vulgar e no vil. Arte que defende, como espada flamejante que combate as sombras, os únicos ideais que podem ter ressonância na alma humana: O Bem, a Verdade, a Beleza e a Justiça.

A missão da arte é, por meio da beleza, mudar o mundo, dignificá-lo. A arte que não “cristaliza” a beleza, que não eleva a alma, que não a torna melhor, amável e compreensiva, essa arte que não verte sobre a alma um respingo de beleza e mistério, fazendo-a encantar-se, tem de arte apenas o nome, ou, no melhor dos casos, a aparência.

O dom de Walt Disney foi o de educar por meio da beleza. As crianças ficam encantadas – esta é a magia da Disney – e sua alma aprende naturalmente verdades imperecíveis, verdades que são como estrelas no nosso firmamento moral. Para as almas sensíveis, para quem longos anos de longas caminhadas aderiram o pó de mil caminhos, o efeito de suas obras é de renovação, de retorno, não à infância, mas ao que é puro, ao não contaminado, ao recinto secreto dos desejos impossíveis e dos sonhos intactos. E para os que tiveram a maravilhosa oportunidade de estudar as chamadas “ciências herméticas”, as obras de Disney são uma expressão originalíssima e fiel de seus conhecimentos milenares.

Walt Disney expõe com singular maestria – e o que é melhor, chega a dar vida à nossa imaginação – ensinamentos sobre a natureza da alma humana; ensinamentos sobre o fogo mental que faz de uma marionete de madeira uma alma consciente e, portanto, responsável; ensinamentos sobre a vida dos Quatro Elementos (Terra, Água, Ar e Fogo) e os espíritos que os regem; ensinamentos sobre o poder combinado de sons, ritmos e imagens; ensinamentos sobre os arquétipos – no sentido platônico – e as evocações que permitem atrair seu benévolo poder; ensinamentos sobre os limites do tempo e as armas mágicas que permitem ir mais além dele; ensinamentos sobre a arquitetura matemática da vida e o poder dos números; ensinamentos sobre a origem da vida e a origem da consciência, o despertar e o sonho da natureza; ensinamentos sobre o amor como a incansável gravidade das almas e dos corpos; e também ensinamentos sobre os reis, os verdadeiros reis, educados por magos e abençoados pelo céu. Tudo se ordena, tudo se harmoniza, a vida interior acha um leito natural, o mais elevado e certo dentro de nós diz um sim e outorga sua natural aprovação quando – como ocorre com toda a arte verdadeira – deleitamo-nos com as obras de Walt Disney.

Quem leu e amou a obra mestra de Mathila Gyka (1881- 1965), “Geometry of Art and Life”, e logo viu os dez minutos em que Disney expõe a quinta-essência deste livro, em seu documentário “O Pato Donald no País da Matemática”, pôde se descobrir ante o gênio criador. Aqui se percebe muito bem o metal do qual está feito Disney: leu e entendeu o livro – tarefa que não é nada fácil –, penetrou nas suas idéias fundamentais, eliminou todo o acessório, e lhe deu uma forma mestra, bela, fácil de entender, divertida, cheia em seus detalhes de significados profundos.

Queremos chamar a atenção sobre alguns elementos secretos da filosofia presentes nas suas obras. Por exemplo, Pinóquio é uma alegoria de homem de madeira que se converte no que Platão chamou “homem de metal”, ou seja, daqueles que são como marionetes, sem consciência real e sem motor próprio, naqueles que sua consciência é fogo que os impulsiona e os ilumina. O mesmo nome Gepetto, o “pai” carpinteiro (1) que fabrica Pinóquio, lembra o Japeto da mitologia grega, pai de Prometeu, que entregou o fogo mental aos filhos da terra, humanizando-os, divinizando-os. A deusa e estrela a quem invoca é, sem dúvida, Vênus, tão vinculada, em todas as civilizações antigas, à consciência da humanidade. Sobre isso recordemos, por exemplo, as tradições astecas e maias ou as dos Manasaputras, “os Pais da Mente”, na Índia. Segundo as tradições, a dádiva de Vênus, como um aporte “eletroespiritual” na economia do Cosmos, é o que teria dado à Humanidade a capacidade de idealizar, imaginar e criar, a capacidade de plasmar os sonhos, de raciocinar estabelecendo comparações e encontrando um sentido para elas, dando origem, portanto, à linguagem. É este “fogo mental” que teria criado uma separação abismal entre os macacos e os homens. Para Walt Disney este ensinamento deve ter sido tão definitivo para entender a natureza-raiz do ser humano, que, algumas vezes, o incluiu como alegoria, e, em outras, o inclui de um modo mais claro em várias de suas obras. Por exemplo, em “O Livro da Selva”, na famosa cena em que o menino Mowgly e o macaco Louie dançam, este quer saber o segredo do “fogo” e lhe implora que revele aquilo que lhe permitirá ser mais do que o rei dos macacos, o mais humilde dos seres humanos. As tradições esotéricas hindus afirmam que os macacos (mais especificamente os macacos antropóides) são – por não terem conquistado o fogo mental próprio da alma humana – como um lótus que fecha suas pétalas, ou seja, que sua evolução chegou a um ponto, não podendo ir mais além, ficando à espera de um novo ciclo evolutivo. Este é o drama de Louie e assim lhe suplica pelo “the man’s red fire”. Esta cena se desenvolve em meio a uma dança que na Índia sempre foi símbolo de evolução (2).

Em “A Bela Adormecida” as três Fadas, Flora, Fauna e Primavera, significam, numa chave, as três Parcas da religião grega, que tecem o Destino das almas. Mas também são as Três Graças, porque cada uma delas outorga uma benção.

Recordemos as Três Graças, sempre juntas nas suas espiraladas danças, Aglaé, Eufrosina e Talia, que são Alegria, Beleza e Entusiasmo, abençoando os filhos do Céu. A palavra “Fada” vem do latim “Fatum”, “Destino”, e esta vem de Hathor, o nome da Deusa do Amor, na sua face benévola, e do karma (3), na sua face ainda mais benévola. As sete Hathor, representadas por Sete Vacas – Hathor é o fértil espaço que nutre almas e corpos, a grande “Vaca Cósmica” -, aparecem em quase todos os templos egípcios e eram as que protegiam o nascimento das crianças. Representam os Sete Poderes que regem o Cosmos manifestado. Maléfica, outra “fada”, é o poder do tempo e também outorga seu dom, que é o das limitações e dificuldades que permitem o desenvolvimento das virtudes latentes da alma humana. Evidentemente, nunca é convidada nem bajulada, mas está sempre presente, como a imagem da morte nos banquetes medievais ou como o sarcófago de Osíris para os egípcios. O curso do tempo é a imagem de uma morte sempre presente, porque, como dizia Sêneca, começamos a morrer desde o momento em que nascemos. Na representação, Maléfica, o Tempo, porta seus atributos, que são os de Saturno (a cor negra como vestimenta e a cor verde como alma e como chama), pois, tal como é expresso nos antigos tratados de magia, a cor esotérica de Saturno é o verde. O corvo como mensageiro, o anel de ônix negro – que é a pedra de Saturno – e sua vista de um amarelo pálido, que é o brilho e a cor que o planeta Saturno exibe no céu. Saturno é o “Krura Lochana”, “Olho Maléfico”, e sua cor amarela foi símbolo de enfermidade desde os tempos mais remotos. A mesma raiz da palavra “amarelo” provém do latim “amaro”, que significa “amargo, triste, enfermo”. A roca, com que é ferida Aurora, é também símbolo do tempo e do seu giro incessante. A idade de 16 anos que a Princesa Aurora tinha quando é ferida pelo fuso da roca, adormecendo, é o número e a idade da deusa Hathor, tal como explica Horapollo em sua Hieroglífica. As dificuldades que deve superar o Príncipe Felipe são as da Iniciação, nas quais deve enfrentar as Provas do Tempo. De fato, Maléfica lhe afirma que lhe permitirá sair da prisão em que se encontra para se casar, já ancião, com a Bela Adormecida (4). Mas, ela permanecerá sempre jovem, pois está mergulhada num sonho parecido com a morte e também porque Aurora (um dos nomes da estrela d’alva, Vênus) representa a Alma Imortal, a Eterna Amada. E ainda os mesmos caminhos do tempo permitirão o reencontro da alma com a sua divina inspiração, com a fonte de sua luz e bondade. Mas o príncipe, o cavalheiro, o candidato à Iniciação aspira por mais, então, pela pureza de seus desejos, ele é abençoado pelas três Fadas, que simbolizam a Alma da Natureza. Elas lhe outorgam as Armas Mágicas, que são o Escudo da Virtude e a Espada da Verdade, e com elas poderá vencer os poderes do tempo, que foram desafiados. Foi assim que os sábios descreveram a Iniciação como uma aceleração do tempo psicológico; a conquista, pela vontade, pelo amor e pela inteligência, daqueles tesouros que o tempo reserva aos seres humanos ao término de cada ciclo e mais ciclos sem fim. Para o investigador não preconceituoso, a relação de Walt Disney com a Filosofia Secreta é evidente. Uma de suas primeiras obras foi “A Deusa da Primavera” na qual é representada, de um modo humorístico, claro, a cena principal dos Mistérios de Elêusis, a descida de Perséfone aos infernos e sua mística união com Hades, o Rei da Morte e dos Iniciados. Perséfone é a alma da natureza – a Deusa da Primavera – e é também a alma humana. O nome romano do Hades grego é Plutão, precisamente o nome do cão amigo e inseparável de Mickey, Pluto. No filme, Pluto corresponde ao rei dos infernos. Mas, o admirável é que Pluto é um cachorro, o animal símbolo de Anúbis, guia dos mortos e Iniciados nos caminhos do Invisível. Portanto, essa representação liga o Deus Anúbis com o Rei das profundidades, tal como entenderam os gnósticos egípcios. Anúbis aparece também representado no dintel da porta de entrada da Montanha Proibida, a morada de Maléfica, em “A Bela Adormecida”. Não foi em vão que Anúbis foi chamado, conforme os Mistérios de Ísis e Osíris, de Plutarco, o Senhor do Tempo, ou seja, o Senhor da Iniciação. Anúbis era o Guardião da Montanha do Ocidente e chamavam-lhe “o Grande Solitário da Montanha Ocidental”, a pirâmide de sombras na qual se submerge o Sol no ocaso. As três Fadas que ajudarão na “Iniciação” de Felipe devem entrar através de sua boca e todo aquele que penetre nesta Montanha Proibida o faz ante seu olhar e aprovação. Da sua boca pende uma corrente – a áurea corrente dos Mistérios Gregos, símbolo das almas de todos os heróis e sábios, elo a elo, que mantém unidos céu e terra? –, corrente que sustenta a ponte que permite a passagem pela “Porta da Iniciação”.

Em muitas das obras de Walt Disney os protagonistas são animais, mas é a alma desses animais que se quer representar, isto é, sua virtude e, portanto, as distintas características humanas. Apenas assim podemos entender sua declaração: “Os animais dos contos não são realmente animais. São seres humanos com forma de pássaros ou de bestas”. Desde sempre ele se identificou com Mickey Mouse, a quem outorgou, em falsete, sua própria voz. Assim, é fácil compreender porque Mickey fora premiado pela Sociedade das Nações, em Paris, 1935, como Símbolo Internacional da Boa Vontade. Porque Walt Disney era um homem de Boa Vontade e de poderosa eficácia, um místico da arte.

O legado de Walt Disney é uma fonte de águas salubres, mas não é possível aprofundar sua filosofia no breve espaço de um artigo. Por isso, voltaremos ao tema em artigos posteriores numa seção da revista a ele dedicada.

Minha gratidão e, certamente, a de todos os seus leitores, pelo excelente trabalho de Ana Maria Rierola Puigderajols, que, na sua tese universitária “A linguistic study of the magic in Disney Lirics”, expõe o uso mágico que Walt Disney faz da linguagem. Figuras, ritmos, estruturas sintáticas, texturas (timbres dos distintos idiomas) e canções criam o ambiente psicológico e a evocação para atrair a vida e o poder de suas espiritualíssimas idéias, ou seja, o fulgor de uma estrela na noite do materialismo no qual vivemos.

(1) Num sentido filosófico “Cristo” representa desse modo a consciência da Humanidade e é também “filho de carpinteiro” e Agni é, na religião Védica, o fogo ou quinta-essência espiritual da alma humana e é também “filho” do Deus Carpinteiro, Vishvakarma. Ainda que verdadeiramente seu “pai celeste”, como em Pinóquio, seja uma estrela, a estrela dos magos, a estrela Savanagraha.

(2)       Recordemos o Shiva Nataraja, ou Shiva Dançante, que representa a evolução do Cosmos, por meio da renovação das formas já caducas. Shiva, Deus da Destruição, é o complemento de Vishnu, Deus da Conservação de tudo o que vive, ou seja, da alma de tudo que vive. Shiva é o tempo que faz dançar tudo que existe, impulsionando para frente por meio das mudanças.

(3) A deusa Hathor-Sekhmet é a Deusa Leoa que libera, às vezes de um modo violento, as almas de suas limitações e de sua paralisação. É, como Shiva, o amor que liberta, não o amor que protege. Um amor, na nossa ignorância, nem sempre bem-vindo nem aceito.

(4) Há um poema de Amado Nervo (1870- 1919) que com uma doce ternura expressa esta verdade psicológica. Este poeta mexicano soube, como poucos, penetrar nos mistérios da alma e do tempo. É, por antonomásia, o poeta-filósofo do século XX. Este poema leva, precisamente, o nome de “A Bela do Bosque Adormecido”. E diz assim:

– Diga-me, nobre anciã, por vossa vida: jaz aqui a princesa que está adormecida, esperando há dois séculos um cavalheiro?

– A princesa de quem falas sou eu…! Mas, não vês? Estou muito velha. Ninguém mais me procura e não espero mais ninguém!

– E eu que naveguei uma tempestade de pranto… Eu que venci montes e rios por você!

-Ah, cavalheiro! Que desilusão! Mas não foi em vão, sofreste tanto por me ver que teus cabelos estão brancos como os meus!

Olhe no espelho desta fonte, Oh, pobre cavalheiro…Vieste tarde!

Mas ainda posso te amar como uma irmã. ‘Posar en mi regazo tu mente cana. Y entonar viejas coplas cuando estés triste…’

Algumas contribuições de Walt Disney para o mundo:

1. Maior compreensão, ternura e bom trato com os nossos animais domésticos.

2. Estende ao mundo inteiro contos infantis de grande valor pedagógico.

3. Diante da precipitação de valores morais e da descida do homem à sua condição animal, defende a verdadeira cortesia, aquela que nasce da alma e está dirigida à alma.

4. Frente ao mais cruel materialismo, torna natural o olhar de adultos e crianças a um mundo de fadas, duendes e espíritos da natureza, que, certamente, não existem apenas no mundo dos contos.

5. Frente ao dogmatismo dos distintos credos e Igrejas, torna evidente uma religiosidade natural, o natural vínculo e aproximação da alma às fontes de onde brotam a fortaleza, o bem e a justiça.

6. Defende a magia como habitat natural da alma humana, como a ciência que outorga ao ser humano sua verdadeira dimensão.

Louie: Agora sou o rei,

O V.I.P da selva,

Alcancei o cume e agora vou parar.

É isso que está me consumindo.

Eu quero ser um homem, um cachorro-humano

E dar um passeio erguido pela cidade

E ser exatamente como os outros homens,

Já estou cansado da minha vida simiesca.

Oh, oobie-do

Quero ser como tu,

Quero andar como tu,

Falar como tu.

Vês? É verdade?

Um macaco como eu

Pode aprender a ser

Humano também.

Mowgli: Bolas, primo, você está realmente bem.

Louie: Agora, aqui está a tua parte do contrato, primo.

Deposita em mim o segredo do fogo vermelho do ser humano.

Mowgli: Mas eu não sei como fazer o fogo.

Louie: Vamos, não tentes me enganar, cachorro-humano.

Eu fiz um trato contigo.

O que eu desejo é o fogo vermelho do ser humano

Para tornar meus sonhos reais

Agora me diga o segredo, cachorro-humano.

Vamos lá, dá-me uma pista sobre o que fazer.

Dá-me o poder da flor vermelha do homem

Para eu poder ser como tu.

Bagheera: Fogo! Então é isso o que este canalha perseguia.

José Carlos Fernández

A doença do medo

O medo é uma terrível garra que se fecha sobre os pensamentos, os sentimentos e a vontade, tirando do ser humano toda possibilidade de ação inteligente.

Várias vezes já dissemos, e não será demais repetir: o homem está doente de medo e as conseqüências dessa enfermidade se manifestam em novas e piores doenças que aparecem dia a dia.

O medo é uma terrível garra que se fecha sobre os pensamentos, os sentimentos e a vontade, tirando do ser humano toda possibilidade de ação inteligente.  A vitalidade apenas é canalizada para se defender, escapar de tudo, evitar responsabilidades, evadir definições, se esconder para “não chamar atenção”. O cinza e o opaco hoje são os mais apreciados e essas são precisamente as características do medo que também é opaco e cinza.

Surge nessas circunstâncias uma especial modalidade a do “anti”, que é opor-se a todas as coisas, significando a menor determinação pessoal. Todas as coisas são “más”, pois os defeitos são os primeiros que aparecem, ao mesmo tempo em que o medo crescente acarreta a perda de toda oportunidade de reconhecimento das virtudes.

Estar contra tudo – que é o mesmo que não estar a favor de nada – é a nova expressão patológica derivada do medo. O único que se sustenta como bom é o próprio benefício, a própria sobrevivência, ainda que para isso tenha que se destruir todo o demais, que é o que se segue imediatamente ao se estar contra todo o demais.

Trata-se, como é evidente, de uma aberrante forma de egoísmo, no qual o “eu” se auto-afirma na medida em que despreza todo o circundante. Não se trata de cada um se elevar, mas de degradar o que está ao seu redor para que possa destacar sua própria estatura… Não se trata de superar os males que afetam o mundo, mas ao contrário, pois é por temor que negam e denigrem as ações, ao mesmo tempo em que escondem a cabeça sob as asas da inação.

O Filósofo deve erradicar o medo e, com ele, todas as suas seqüelas. Deve aprender a distinguir o bom do mau, deve sustentar suas idéias e diferenciá-las daquelas outras que lhe são opostas, mas sempre com a vontade e a ação postas em jogo. Não se pode ser simplesmente “anti”, pois há que se ter ideais firmes e autênticos para poder se opor a alguma outra coisa. Antes de rechaçar, há que aceitar; antes de negar, há que saber.

O Filósofo pode encontrar erros e descobrir defeitos nos diversos aspectos da vida; mas não se conforma em assinalá-los ou temê-los, mas trabalha ardentemente para melhorar tudo aquilo que esteja nas suas mãos, começando naturalmente por ele mesmo.

O Filósofo adverte desse modo que, para além do mal, sempre existe o bom e o positivo, só que às vezes isso está dormindo ou sepultado sob as ondas do temor e da inércia.

As virtudes, como toda boa planta, devem ser atendidas e cultivadas até conseguirem o seu maior desenvolvimento.

O Filósofo não vai contra, mas sim a favor da vida, aceita suas correntes traiçoeiras e trabalha para alcançar uma claridade ideológica que lhe permita transitar pelo mundo.

Os “antitudo” terminarão por se tornar “anti-homens”, mas o Filósofo, ao contrário, valoriza a condição humana que é o fator indispensável para a construção do nosso ansiado Mundo Novo e Melhor.

Delia Steinberg Guzmán

A Amizade segundo Arístóteles

Aristóteles, filósofo grego, discípulo de Platão, nasceu em Estagira no ano 384 a.C. Um dos mais importantes filósofos de todos os tempos. O texto abaixo foi extraído de sua obra “Ética a Nicômaco”.

Assim como os motivos da amizade diferem em espécie, também diferem as respectivas formas de amizade. Existem três espécies de amizade e igual número de motivações do afeto, pois na esfera de cada espécie deve haver “afeição mutuamente reconhecida”.

Aqueles que têm amizade desejam o bem do amigo de acordo com o motivo da sua amizade. Desse modo, aqueles cujo motivo é a utilidade não têm verdadeira amizade um pelo outro, mas apenas na medida em que recebem um bem do outro.

Aqueles cujo motivo é o prazer estão em caso semelhante, isto é, têm amizade por pessoas de fácil graciosidade, não em virtude de seu caráter, mas porque elas lhes são agradáveis. Assim aqueles cujo motivo da amizade é a utilidade amam seus amigos pelo que é bom para eles mesmos; aqueles, cujo motivo é o prazer, o fazem pelo que é prazeroso para si; ou seja, não em função daquilo que a pessoa estimada é, mas na medida em que ela é útil ou agradável. Essas amizades são circunstanciais, pois que o amigo não é amado por ser a pessoa que é, mas pelo que fornece de vantagem ou prazer, conforme o caso.

Tais amizades são de fato muito passíveis de dissolução se as partes não permanecem iguais, isto é, os outros cessam de ter amizade por eles quando deixam de ser agradáveis ou úteis. Ora, a natureza da utilidade não é de permanência, mas de constante variação. Assim, quando o motivo que os tornou amigos desaparece, a amizade também se dissolve; pois que existia apenas em relação àquelas circunstâncias.

A perfeita Amizade é a que subsiste entre aqueles que são bons (virtuosos) e cuja similaridade consiste na bondade, pois esses desejam o bem do outro de maneira semelhante, na medida em que são bons. E são especialmente amigos aqueles que desejam o bem sem qualquer outro interesse, porque assim se sentem em relação a eles e não por uma mera questão de circunstâncias. De modo que a Amizade entre esses homens permanece enquanto eles são bons e a bondade traz em si um princípio de permanência.

São poucas as probabilidades de Amizade dessa espécie porque os homens assim são raros. Além disso, pressupõem-se todas as qualificações exigidas. Essas Amizades exigem ainda tempo e intimidade, pois, como diz o provérbio, “os homens não podem se conhecer até que tenham comido juntos a quantidade de sal necessária”. Nem podem, de fato, admitir um ao outro em sua intimidade, muito menos serem Amigos, até que cada um se mostre ao outro e dê provas de ser apropriado para a Amizade.

Aqueles que iniciam apressadamente uma troca de ações amigáveis demonstram que querem ser amigos, mas não o são, a menos que sejam também apropriados para a Amizade e se reconheçam mutuamente como tal, ou seja, o desejo de Amizade pode surgir rapidamente, mas não a Amizade propriamente dita.

Os Índios Hopi

Segundo as tradições dos índios Hopi, a história da humanidade está dividida em períodos a que chamam “Mundos”. São ao todo sete, agora estamos no quarto. O nome com o qual se conheceram os aborígenes do Novo Mundo, após o erro inicial de Colombo, ao pensar que o território aonde havia chegado era a Índia, foi o de “índios americanos”. Foram classificados por muitos nomes e adicionados a muitas culturas, porém quase todos os antropólogos são de opinião que sua origem é asiática, que a maioria chegou cruzando o estreito de Bering e que sua migração começou provavelmente desde o final do Pleistoceno.

Esse foi um período da era quaternária que sucedeu ao Plioceno da terciária. É o período geológico mais recente, e se considera, geralmente, que durou aproximadamente um milhão de anos. Foi caracterizado pelas grandes variações climáticas e a extensa glaciação do hemisfério norte, o que fez a humanidade afetada migrar durante milhares de anos. Supõe-se que teriam levado consigo toda a sua cultura, superior apenas à existente na idade da pedra.

Essas pessoas que pertenciam ao tronco mongol geralmente tinham o cabelo negro e liso, rosto arredondado, nariz muitas vezes proeminente, incisivos em forma de pá, uma cor de pele que varia do avermelhado ao moreno e não costumavam apresentar muito pêlo no rosto e no corpo. Um dos componentes desse gênero são os chamados índios Hopi.

Atualmente, vivem em uma reserva, das originadas no final do séc. XIX e início do XX, pelo governo norte-americano, em um território na costa do Pacífico que compreende o norte do Arizona e parte do Novo México, lugar que combina um deserto árido com um trecho de frondosa vegetação que circunda a costa. Antigamente, ocupavam a meseta central dos Estados Unidos.

Pode-se englobar os Hopi como um povo ameríndio pertencente ao grupo Shoshón, da família lingüística yuco-asteca e membro integrante dos denominados “índios Pueblo”. Em suas terras semiáridas cultivam milho, feijão, abóbora e tabaco, tudo isso auxiliado pela caça, pesca e pela colheita de frutos silvestres como nozes e sementes, sempre dependentes da chuva, o que se reflete em suas práticas religiosas, caracterizadas por um alarde de simbolismo e rituais vinculados com irmandades ou sociedades semi-secretas.

Antigamente, o único animal que regularmente teriam domesticado era o cão, ainda que também enjaulassem aves, muito apreciadas pela beleza de suas penas. Vestiam roupas de algodão silvestre fabricada por eles mesmos. Os homens eram e são grandes tecedores. Fabricam o tecido utilizado por todas as tribos do Novo México para a confecção de seu traje tradicional, com faixas de desenho geométrico, trançadas ou bordadas.

São regidos por um sistema de clãs e possuem um excelente sistema de governo municipal. Surpreendentemente, são os únicos que ainda não tiveram seus costumes contaminados pelo contato com outras civilizações, como a espanhola ou a americana. Desse modo, conservam seu antigo vestuário, suas crenças, seu folclore e principalmente suas tradições de séculos, e talvez de milênios.

Por tudo isso, há muito tempo, têm atraído a atenção dos antropólogos, tanto profissionais quanto amadores. São considerados relíquias do que talvez tenha sido um prolongamento setentrional, no tempo, da genuína civilização mexicana, e o povo mais rico em conhecimentos esotéricos.

Nesse sentido, de sua cultura se destaca a precisão dos oráculos. Toda a comunidade consulta suas ações com os espíritos Pais da Natureza, pois para eles cada ação repercute no futuro e por sua vez é produzida por ações passadas. Os Pais da Natureza são para os Hopi deuses, aos quais rendem culto. O mais venerado é o Grande Espírito Masau, pai dos pássaros. Segundo os índios, estes levam de um lado a outro o destino dos homens e são os únicos que conhecem suas ações, se serão benéficas ou não.

O traço específico desse oráculo é uma leitura baseada na posição de quatro penas pertencentes a pássaros da região: a águia calva, a grande garça, o pescador real, o que consideram mimado pelos deuses e o bico duro de peito colorido.

Porém, sem dúvida, o que tem despertado a curiosidade dos investigadores é a tradição que passa de geração em geração sobre sua história, seus costumes e seus mestres. Os Hopi contam que a sua sabedoria lhes foi dada por seres vindos das estrelas, a quem ainda representam em estátuas de cerâmica que vendem aos turistas. São os Katchinas, cujas cabeças são ocultadas sob um capacete de aparência Astronáutica.

Dizem que seus conhecimentos e tradições foram adquiridos há milênios em sua terra natal, a que se referem com o nome de Kasskara. Estava situada em um afastado território mais ao sul, território que foi vítima de grandes catástrofes, cataclismos naturais e guerras cruentas em que quase toda a sua raça desapareceu. Era o fim do “Terceiro Mundo”.

Segundo as tradições dos índios Hopi, a história da humanidade está dividida em períodos que eles chamam de “Mundos”. No total haverá sete, atualmente estamos no Quarto.

Parece que as transições entre um e outro estão rodeadas de catástrofes espantosas de que somente se salvam uns poucos “eleitos” que são a semente do Mundo seguinte. O germe de uma nova humanidade.

As catástrofes que põem fim ao mundo correspondente são depurações do Criador, devido ao fato de a humanidade deixar de viver em paz e harmonia com o espírito. Isso foi o que ocorreu com o Primeiro Mundo, no qual o Espírito Criador situou os seres humanos, precisamente para que vivessem essa paz e harmonia. Quando se rompeu, os que estavam dispostos a seguir o Caminho Sagrado foram enviados ao Grande Canhão, orientando-os que levassem reserva de alimentos. Os vulcões entraram em erupção, e o fogo destruiu tudo.

Uma vez recuperada a terra dessa depuração, os homens saíram de seu refúgio e a repovoaram dando origem ao Segundo Mundo. Porém, com o tempo, voltaram a perder o equilíbrio e deixaram de escutar o Espírito. Chegou um novo desastre: os pólos terrestres perderam a proteção e a terra girou livremente. Produziu-se uma mudança nos pólos e os vendavais açoitaram a terra. O gelo cobriu grandes extensões de terreno.

Novamente voltou-se a repovoar a terra, e a humanidade felizmente progrediu. Os avanços de todo tipo foram espetaculares, porém a ciência foi mal utilizada. Em Kasskara, existia outro povo, da mesma origem chamado “o País do Leste”, que quis dominar tudo, pois se considerava dono absoluto do mundo. Quis fixar fronteiras e quando “o País do Oeste” se negou, teve início uma cruenta guerra na qual foram empregadas terríveis armas de extermínio.

O Grande Espírito presenciava os acontecimentos com pesar, até que ordenou que os oceanos transbordassem, caíram grandes chuvas do céu; tudo foi inundado. A memória dos índios Hopi remonta a essa etapa e a esse Mundo chamado Kasskara. Dizem que formava um imenso continente situado no oceano pacífico.

Então apareceram os Katchinas, que em sua língua significa “veneráveis sábios”, “Mestres”. Vieram das estrelas a bordo de escudos voadores que, segundo explicam os Hopis, tem forma de lentes. Ajudaram-nos na batalha. Tinham um sistema para rechaçar as armas dos inimigos, escapar do desastre, transportando alguns deles em seus escudos – os encarregados de explorar os novos territórios – e a grande maioria foi a bordo de barcas, percorrendo um longo trecho até o nordeste.

Recordam em suas tradições as penosas travessias de uma densa selva, o fato de se terem deparado com uma grande “parede de gelo” que os fez retroceder e, finalmente, chegaram aos férteis terrenos, muito mais ao norte, onde todos se reuniram. Os Katchinas lhes ensinaram a cultivar a terra, a observar os céus, a aplicar as leis e muitas coisas mais. Conseguiram que quase todo o seu povo fosse salvo. Para alguns foi solicitado que viajassem até o Leste, e esse povo foi denominado “o Verdadeiro Irmão Branco”, os que ficaram no oeste formaram os primeiros Hopi.

A nova terra dos Hopi recebeu o nome de Tautoma-la — Tocada pelo Raio — e também chamaram assim a primeira cidade que erigiram às margens de um grande lago. Essa cidade foi identificada por alguns como Tiahuanaco, com o que o lago seria o Titicaca, na fronteira do Peru com a Bolívia. Posteriormente, um cataclismo sacudiu a cidade destruindo-a, e a população se dispersou pelo continente formando distintos clãs. Alguns iam em companhia dos Katchinas que às vezes os ajudavam.

Construíram uma cidade que chamaram “A Cidade Vermelha”. Muitos pensam que poderia ter sido Palenque, no Yucatán Mexicano. Ali estabeleceram uma “Escola de Aprendizagem” — provavelmente iniciática — cuja influência ainda pode ser comprovada entres os Hopi. Os mestres foram possivelmente os Katchinas, e os ensinamentos correspondiam à história dos clãs, à natureza: as plantas, os animais, o homem e suas funções físicas e psíquicas, e finalmente o cosmos e sua relação com o criador.

Houve período de numerosos confrontos entre as cidades de Yucatán, e os Hopi empreenderam novamente sua migração para o norte. Nesses tempos, os Katchinas abandonaram a terra; em seus escudos, suas grandes aves voadoras, regressaram às estrelas, com a firme promessa de retornar. Os Hopi mantêm vivas essas tradições de seus ancestrais e sustentam que quando for necessário, seus mestres voltarão para resgatá-los de um quarto desastre. À vista dessas tradições, é fácil vincular a procedência de lendas que falam de mestres ou deuses cujos ensinamentos, uma vez divididos, voltam a seu lugar de origem, com os Hopi. Circulam pelas grandes culturas meso-americanas, e falam de Quetzalcoatl, ou serpente emplumada, Kukulchan, Viracocha, ou homem branco, etc. Também a idéia de diversos “mundos” subjaz na tradição maia e asteca, bem a de que o primeiro desapareceu por causa do fogo, outro pelo gelo e outro por um grande “dilúvio universal”.

Os Katchinas nunca foram considerados pelos Hopi como deuses. Desde o primeiro momento souberam que eram “sábios mestres”, e assim o transmitiram e seguem transmitindo. Tinham um corpo físico, aparência de homens e em muitos aspectos se comportavam como tal, porém dispunham de conhecimentos muito superiores aos do homem.

Possuíam artefatos voadores que se moviam graças a “forças magnéticas”, escudos que afastavam os projéteis inimigos, engendravam filhos em mulheres sem contato sexual e se tudo isso não for bastante surpreendente, dominavam a arte de cortar e transportar enormes blocos de pedra. Também sabiam construir túneis e instalações subterrâneas. Situando-se num plano cósmico de ingerência direta, intervieram no trabalho humano ensinando muitas de suas habilidades.

Será necessário esperar para ver o que ocorrerá num futuro mais ou menos próximo, porém segundo as tradições dos índios Hopi, as catástrofes anteriores podem ser identificadas: no final do primeiro mundo, poderia se estar referindo a uma extraordinária atividade vulcânica que aconteceu há cerca de 250 mil anos. A segunda catástrofe seria a era glacial, que afetou todo o hemisfério norte e que alguns datam de 100 mil anos atrás. Por fim, a última coincidiria com a tradição universal do dilúvio, que se poderia situar há aproximadamente 12 mil anos. Como se pode ver, as tradições Hopi têm sua lógica.

Referências

Las Profecías de la Tierra.- Ed. Martínez Roca, 1993.

¿Una cultura madre venida de las estrellas? – Antonio Pérez e Iván Hitar. Internet.

Los Hopi.- Enrique Durán. Internet.

Josef f. Blumrich. Internet.

Rosa Torres

A vocação nossa de cada dia (XIII) – CANAIS VOCACIONAIS

Embora, como já dito, a vocação não deva sofrer interferência nem ser manipulada, ela sim pode ser estimulada. O estímulo da vocação pode ser se realizar através de canais vocacionais, que teriam de formar parte das metodologias de ensino promovidas tanto pelas escolas quanto pelas autoridades responsáveis pela área da educação.

Ainda que existam atividades que possam tornar-se canais vocacionais, como por exemplo as feiras científicas, simpósios, carreiras técnicas do ensino médio, estágios, etc, o fato de nem sempre esses meios serem devidamente coordenados faz com que sejam perdidos como canais de estímulo da vocação.

Essas atividades são altamente motivadoras e servem para estimular, integrar e tornar participativos os estudantes nas diferentes áreas da educação, motivo por que as potencialidades vocacionais inerentes a todo estudante se expressam de forma clara e às vezes até contundente. Mas a falta de acompanhamento e coordenação nos programas de ensino faz que os educadores percam a continuidade do processo de engajamento dos alunos na descoberta da sua vocação.

Qualquer uma dessas atividades — ou outras — que possa gerar condições vocacionais, torna-se um canal vocacional quando os alunos participantes são observados e adequados, mediante critérios de participação, eficiência, resultados positivos, motivação, etc., às diferentes áreas de aprendizado relacionadas com as atividades realizadas nesses eventos. São muitos os exemplos de profissionais que direcionaram a sua vocação por resultados positivos nessa espécie de atividade. Seja por que um professor promoveu na sua matéria algum simpósio em que ofertou temas a escolher para os alunos, seja por que outro decidiu medir os conhecimentos dos seus alunos por meio de um seminário com temas livres.

Canais vocacionais são então esquemas de natureza administrativa que poderiam formar parte do conselho de professores de qualquer instituição educacional em que os alunos fossem observados de acordo com a sua performance, com relação à participação em eventos que estimulam as suas vocações. Se cada professor tivesse uma ficha de informações dos seus alunos sobre rendimento, qualidade, motivação, tendências, etc., com relação às suas participações nesse tipo de evento, e logo todas essas informações fossem cruzadas numa coordenadoria geral, poder-se-ia ajudar bastante os estudantes na busca de sua vocação.

Protagonistas da história – Alexander Fleming, além do azar

“Não tentava descobrir a penicilina, tropecei nela.” (A. Fleming)

Faz tão somente 75 anos que para curar feridas infectadas não havia nada além de iodo, ácidos carbônicos e outros medicamentos mais severos. Porém, quando as feridas eram profundas, os anticépticos não chegavam aonde se encontravam as bactérias, e, pior, destruíam os glóbulos brancos. Isso provocava muitas mortes, sobretudo de crianças e idosos, assim como também de mulheres que acabavam de dar à luz. A penicilina transformou essa situação.

Em 11 de março de 2005, se cumpriram 50 anos do desaparecimento de um dos cientistas mais importantes do século XX: Alexander Fleming. Nascido em 6 de agosto de 1881, em Lochfield, Grã Bretanha, no seio de uma família campestre, foi o sétimo de oito irmãos. Em sua infância já apreciava o gosto pela observação detalhada e a vontade singela que logo o haveria de caracterizar.

Quando seu pai morreu, foi viver em Londres com seu irmão Tom, que era médico e foi quem alentou em Alex o desejo de estudar medicina. Nessa época, morreu um tio dos Fleming que deixou para cada irmão 25 mil libras, o que tornou possível que Alex se dedicasse plenamente a sua carreira na escola de medicina de Santa Maria, em Londres, com que ficaria vinculado para o resto de sua vida. Em 1906, começou a fazer parte da equipe do bacteriólogo Sir Almroth Wright, com quem esteve associado por 40 anos. Licenciou-se em 1908, obtendo a medalha de ouro da Universidade de Londres.

Wright e Fleming buscaram os agentes farmacológicos que aumentaram a eficácia dos anti-corpos em sua luta natural contra os invasores microbianos. Durante oito anos trabalharam nesse problema, concluindo-o com êxito. Quando se instalou a primeira guerra mundial, foram enviados a serviço médico do exército, tendo salvo milhares de vidas com a vacina contra febre tifóide.

Regressando a seu laboratório, a partir de 1918, Fleming realizou investigações para encontrar um anticéptico efetivo. Foi assim que, em 1921, ao estudar sangue e outros fluidos corporais, descobriu a lisozima, uma enzima que é encontrada de forma natural em certos fluidos como a saliva e a lágrima. Ainda que tenha causado muita emoção e criado muitas fantasias com sua descoberta, essa enzima é efetiva contra bactérias que carecem de parede celular, mas não contra fortes agentes infecciosos bem equipados.

Sem dúvida, continuou buscando e buscando. Estava trabalhando com estafilococos, porém acumulava tanto trabalho no laboratório, que muitas vezes gerava desordem. Essa desordem foi muito afortunada para ele.

Foi na manhã de 03 de setembro de 1928. Alexander Fleming havia feito uma pausa no trabalho para conversar com um colega em seu laboratório do Hospital de Santa Maria, quando observou algo surpreendente em sua mesa. Em um recipiente de cultivo que deixara havia vários dias sem tapar apareceram uns “bolos” de mofo, e, ante sua perplexidade, aquela capa acinzentada havia provocado a morte das bactérias que a rodeavam.

A partir desse momento, o bacteriólogo dedicou toda a sua energia para realizar experimentos com aquele estranho mofo. Primeiro, verificou que desprendia uma substância antibacteriana em forma de minúsculas gotinhas de coloração áurea. Então, chegou à conclusão de que aquele líquido amarelo era tão eficaz quanto o próprio mofo. Também verificou que o mofo era um simples fungo e que era muito parecido com o que aparece comumente no pão ou no queijo, e ainda que causava efeitos mortíferos sobre os germes infecciosos. Pouco tempo depois de isolar o mofo, identificou-o como Peniciliun notatum. Acabava de descobrir a penicilina.

Porém, como aconteceu em outros muitos casos, Alexander Fleming também foi mal compreendido em sua época; e mais, seus colegas londrinos menosprezaram a importância de seu achado.

Sem dúvida, Fleming estava convencido de que tinha em suas mão uma poderosa arma contra as infecções. Em 10 de maio de 1929, publicou seu descobrimento, ainda que desgraçadamente, sua utilização clínica tenha ficado suspensa por mais de uma década. O problema estava em que, apesar de haver descoberto uma substância capaz de combater as infecções bacterianas, Fleming e seus colaboradores não conseguiam isolar a penicilina. A descoberta de Fleming caiu no esquecimento durante décadas, até que os pesquisadores Ernst Boris e Howard Walter Florey retomaram a investigação de Fleming na Universidade de Oxford e produziram a penicilina em estado puro em 1940, devido à necessidade de ter disponíveis substâncias antibacterianas para melhorar o tratamento dos soldados aliados feridos na Segunda Guerra Mundial. Seu papel no desenvolvimento da penicilina foi tão fundamental quanto as primeiras evidências que Fleming encontrou sobre as aplicações terapêuticas do fármaco, conseguindo isolar e produzir quantidades suficientes de penicilina para aplicá-la na cura de seres humanos, com o que se converteu no primeiro antibiótico com aplicações práticas da história e abriu caminho para uma autêntica revolução na medicina do século XX.

Boris e Florey receberam o prêmio Nobel de fisiologia e medicina junto com Alexander Fleming em 1945. O primeiro medicamento antibacteriano, o Prontozil, foi desenvolvido pelo químico Gerhard Domagk em 1935.

“Deus não joga os dados” é a famosa frase que Albert Einstein pronunciou para afirmar estar convencido de que a casualidade não existe na natureza, tudo tem uma causa ainda que não se faça evidente no princípio.

Por isso, ainda que Alexander Fleming, em sua modéstia, dissesse que ele não havia descoberto a penicilina, mas que havia tropeçado nela, é evidente que esse “tropeço”, essa aparente casualidade era o fruto de toda uma vida dedicada à investigação das defesas do corpo humano contra as infecções bacterianas. E somente alguém com esses conhecimentos e dotado de sua capacidade de observação haveria podido perceber que algo pesava nesse prato com mofo.

Com um certo atraso a fama chegou, por fim, até Fleming, que foi eleito membro da Royal Society em 1942 e recebeu o título de Sir dois anos mais tarde. Quando morreu de um ataque do coração em 11 de março de 1955, foi chorado por meio mundo e foi enterrado como herói nacional numa cripta da Catedral de St. Paul em Londres.

Angel García Rodríguez, catedrático de microbiologia na Universidade de Salamanca assinala que “sem medo de equivocar-se se pode afirmar que o descobrimento da penicilina foi a conquista mais importante da medicina do século XX. A partir de então começou uma nova etapa conhecida como a era dos antibióticos.” Não podia ser para menos, já que depois se conseguiram as penicilinas semi-sintéticas, as de amplo espectro e as de ação anti-pseudomonas. Por isso, García Rodríguez afirma que “os antibióticos não somente têm contribuído de forma decisiva para diminuir a mortalidade por enfermidades infecciosas de origem bacteriana, mas também têm propiciado o desenvolvimento de outras áreas médicas através do controle da infecção”.

Aqui vai nossa homenagem a esse herói da ciência no 50º aniversário de sua morte.

Julián Palomares

A partir da pupila do superdotado

Como saber que se é superdotado? O que se espera para ele e sua família? Quantos são como ele? Em que é diferente? Como se sente?

O que distingue um superdotado do restante das pessoas não é uma habilidade excepcional para tocar piano ou recitar números primos. Isso é quase impossível inclusive para eles, é um mito a descartar. O que realmente caracteriza uma criança assim é o modo como maneja as ferramentas intelectuais de que o ser humano está dotado. Em sua natureza está a capacidade de organizar e utilizar a informação que recebe de uma forma mais complexa do que o habitual.

Existe uma nuvem de confusão, admiração, magia, inclusive, em torno da palavra “superdotado”. Grande quantidade de filmes e livros tem fascinado a todos com os incríveis poderes de pessoas distintas que podem fazer maravilhas com a sua mente. Porém, quanto há em tudo isso de verdade? Deve-se entrar em um desses casos, em seu dia-a-dia, em sua forma de ver as situações que o rodeiam… Chegar a saber que uma criança é superdotada supõe um processo cuja demora depende basicamente de que as pessoas à sua volta estejam atentas às suas peculiaridades. Torna-se curioso, por exemplo, ver como ante um jogo escolar a resolver, a criança superdotada é a ultima que começa a jogar, já que antes dedica um tempo para planejar, e, apesar disso, termina primeiro.

Indícios mais comuns

Entre as lembranças de alguns pais desse tipo de criança são encontradas frases como: “distinguia todas as parte do rosto e do corpo com 1 ano”, “tinha um vocabulário de adulto com dois anos”, “com dois anos e meio me perguntou por que somente as mães têm filhos”, “desde os três anos compreende o conceito de infinito, fala da morte e de Deus”. Esse tipo de observação, assim como outros fatores distintivos que serão comentados ao longo deste artigo, devem fazer verificar a possibilidade de que a criança seja avaliada pelo gabinete psicopedagógico de sua escola ou centro educativo. A explicação para a sua conduta diferenciada se baseia tanto na quantidade quanto na forma de manejar as ferramentas intelectuais (memória, concentração, abstração espacial, raciocínio lógico, etc.). Ao receber os mesmos estímulos do exterior, os processa de um modo diferente, olha a realidade de forma global, como um todo a analisa, a organiza e planeja baseado no trabalho de sua mente. Graças a isso pode dar soluções aos problemas reais ou teóricos que lhe sejam apresentados que a outros não ocorreriam.

Ao contrário do que se possa crer, pode ser que em cada disciplina da escola ou da vida haja resultados mais altos do que os seus. O superdotado não é o melhor em uma área determinada, mas será dos mais destacados em todos os campos em que queira se esforçar; em muitos.

Um verdadeiro superdotado não somente possui inteligência acima da média. Com base nas definições fatoriais mais simples (Renzulli, 1977), pode-se dizer que há três fatores que definem um superdotado: capacidade, motivação e criatividade. Há pessoas muito válidas em cada um desses campos, porém somente entraria na definição aquela que tem um alto nível nas três áreas, aquela que se encontra na zona de intersecção. Da população mundial, 2% pertencem a esse grupo de indivíduos diferenciados, porém são muitos deles os que não têm estímulo suficiente para que suas capacidades cheguem a se destacar, isso dentre todos os habitantes deste planeta, de todas as culturas, níveis econômicos e sociais. Muitas dessas mentes se perdem por não serem desenvolvidas ou destacadas.

Não somente os fatores expostos por Renzulli distinguem a criança superdotada intelectualmente, também possui uma sensibilidade aprimorada que em determinadas ocasiões a faz sofrer. Intui com facilidade, sabe porque se fazem coisas, nota o que se passa com os demais e sofre por eles. Na intimidade é um grande amigo, muito próximo, compreende os problemas, ajuda a analisar e explica o que não se vê.

Sua faceta desconhecida

A sensibilidade é a faceta mais desconhecida da criança superdotada. Citando Jean-Marc Louis em “As crianças precoces”, 2004: “Têm reações mais fortes do que as outras crianças. Reagem a estímulos que deixam os outros indiferentes… são perfeccionistas, choram com facilidade, lhes custa assumir os erros e os fracassos, aceitam mal as ironias e são demasiadamente amáveis, obedientes, temem ferir aos demais”.

O que o autor francês passa é uma visão da realidade sensitiva da criança superdotada. Poder-se-ia dizer que é mais receptivo ao que ocorre ao seu redor também no âmbito emocional, detecta sensações de seu entorno que a outros não chegam e que são as bases das reações mencionadas por Jean-Marc Louis.

Há casos de crianças que não suportam filmes de ação, violência ou guerra, já que sofrem pelos demais. Inclusive, alguns chegam a refletir em si mesmos sensações de nervosismo e medo alheio. É por isso que suas reações parecem exageradas, porém na realidade estão em proporção com a intensidade com que recebem os estímulos. Choram com facilidade, dependendo da sutileza das emoções.

Viver também a partir dos demais as faz ser pessoas cuidadosas com os sentimentos alheios, tentar não ferir, ser amáveis. Podem chegar a ser excessivamente atentos e responsáveis, conduta não comum para sua idade.

A criança e seu entorno

Ainda que em princípio seja uma boa notícia ter um filho com uma alta capacidade em um campo qualquer, neste caso a reação mais habitual não é uma alegria completa, pois vem acompanhada de certa preocupação relacionada à forma adequada de se tratar a criança, se são suficientes os conhecimentos como pai, ou se encontrará dificuldades somadas ao esforço de crescer. Todas essas perguntas têm uma mesma resposta: a criança superdotada é uma criança normal, com um algo mais. Porém o papel é de pais: estabelecer limites, dar carinho e estima, aproximá-la das coisas que sejam necessárias, passo a passo, é o que se faria com qualquer filho e é exatamente do que elas precisam. Não é tão simples ser superdotado, há dificuldades a superar. Sentir-se só é uma delas. A criança se percebe diferente e não sabe por quê. Pode ter poucos amigos e aborrecer-se com os temas que correspondem à sua idade cronológica. Chega a gostar mais de estar com seus professores que com seus companheiros. Estabelece questões pouco habituais para a sua idade, busca explicação ao que vê ao seu redor, inclusive astronomia, biologia e ética. Deve-se destacar que não é algo intencional, ela é assim.

Essas crianças são altamente ativas, não param de se movimentar, de falar e de fazer perguntas, o que não deve ser confundido com hiperatividade, com transtorno da atenção. Pode-se tornar uma criança complicada ou difícil tanto para professores quanto para pais que não compreendam o que ocorre, e estranha para seus companheiros. Isso pode fazer com que desenvolva certo medo de ser rechaçada, o que pode levar a não se mostrar como realmente é. Tanto o êxito acadêmico repetido, como sua grande atividade e respeito podem provocar certa atenção entre seus iguais e com isso um retraimento da criança superdotada, que tende a retrair-se em si mesma. Por outro lado, a incompreensão ou falta de interesse que pode encontrar no meio escolar desemboca, em algumas ocasiões, em fracassos acadêmicos.

Entre os vários problemas que sua mente lhe provoca, se encontra o de não saber exatamente a que profissão dedicar-se. Ela obtém bons resultados em várias tarefas, portanto deve esforçar-se em escutar seu interior e distinguir aquilo que a encanta, que lhe dá prazer, que se aproxima do vocacional, na hora de escolher sua profissão. Se não for assim, poderá ser alguém destacado e que ascenda com rapidez em seu trabalho, porém, no fundo, um frustrado. Isso é algo habitual no adulto superdotado, que acaba abandonando sua carreira original e dando um brusco giro em sua vida profissional.

Inerente

Após haver observado a ampla gama de cores que supõe este peculiar dom, não se pode esquecer que ser superdotado é algo “inerente”, que não pode ser evitado, que determina para sempre a pessoa e que precisa de algumas condições de compreensão e pista livre para ser distinto, para que a inteligência não seja um empecilho pessoal, mas algo benéfico para todos.

É responsabilidade da sociedade aceitar a criança superdotada, sem medo, sem suspeitas, e dotá-la dos meios suficientes para que possa, como qualquer outra pessoa, chegar a desfrutar de suas potencialidades e expressar-se tal como é, sem se angustiar, sem se esconder, sem esperar rechaço por isso, sem mostrar somente a metade do que sabe ou sente, sem limites, tal como é.

Se é realmente um ser especial ou não, é algo que está vinculado a que mostre tudo o que pode chegar a ser. Dela depende o fato de ser consciente de suas potencialidades e tentar desenvolvê-las ao máximo possível. Da sociedade, aceitá-la como é, tomando as diferenças como vantagens para todos.

Apreciemos tudo que a natureza propicia, inclusive o que se situa dentro de nossos semelhantes.

Estela Álvarez Baraza

Filhos – A Difícil Arte de Educar

Pais não são sinônimos de educadores. E se estes últimos vêm enfrentando dificuldades cada vez maiores dentro de um sistema educacional ineficiente, incapaz de atingir resultados satisfatórios no âmbito da formação do ser humano, o que dizer dos primeiros, que desde o início reclamam da ausência de um “manual de instruções” que os ajude a tomar as decisões certas em meio a tantas questões pessoais envolvidas no relacionamento com seus filhos.

A própria idéia de educação vem sofrendo mudanças constantemente, fragmentando-se e revestindo-se de elementos artificiais e mecânicos. Uma sombra imperfeita e distante de seu verdadeiro sentido de “educire”, que visa formar o caráter para que as potencialidades humanas se desenvolvam e se expressem de maneira natural. A educação, hoje, está associada à informação, à obtenção de conhecimentos externos que conduzam à realização baseada na possibilidade de acesso aos bens materiais.

A Disciplina seria um “mal necessário”, assim como o são o trabalho, a ordem e o cumprimento do dever.

Assim, diante da distorção dos fins e princípios, também os meios carecem de referencial. Já não se sabe mais como educar as crianças e os jovens, como promover entre eles o valor, o respeito e a responsabilidade; como fazer com que aprendam as lições da experiência para que sejam melhores.

O papel da Filosofia na Educação

A história nos apresenta diversos exemplos de escolas e sistemas de ensino baseados na Filosofia que, à maneira clássica, segue a trilha dos conhecimentos universais e atemporais transmitidos pelos grandes sábios, que tratam das questões fundamentais do ser humano. Independentemente do local ou época, essas escolas foram as responsáveis pela formação dos grandes homens e mulheres da história, daí surgiram os maiores heróis, artistas, cientistas, daí surgiram “Alexandres”, “Platões” e “Leonardos”.

Através da filosofia, o ser humano tem a possibilidade de se conhecer-se e dominar-se; de descobrir o seu papel no mundo e viver sua vocação de acordo com sua própria natureza. É o despertar da consciência, que permite ao homem viver em harmonia consigo mesmo e com todas as coisas.

Aplicação Prática

Essa educação natural se aplica em qualquer época e em quaisquer circunstâncias, pois não se tratam de modismos ou tendências mutáveis. Estamos nos referindo aos valores essenciais do ser humano, como discernimento, atenção, concentração, memória, coragem, amor, perseverança, resistência, determinação, honra. Isso está sempre, ainda que sob a forma de sementes, sob espessas camadas de terra mal cultivada.

A criança precisa desde cedo aprender a gostar do que é certo e bom, ter contato com a beleza, a ordem, e ter sempre à sua frente bons exemplos que a inspirem a querer ser melhor. Essa é uma tendência natural, a criança pede e necessita de referenciais e limites, embora aparentemente se anteponha aos mesmos. Também ela tem uma tendência natural ao dever e a responsabilidade, gosta de ajudar e se sente importante por ser útil aos demais. Isso deve ser estimulado através de incentivo e pequenas tarefas que lhe possibilitem a alegria dessas vivências.

Disciplina

Tudo na vida necessita de ordem para se desenvolver. E existe uma ordem natural que emana da autoridade dos pais.  No entanto, as crianças possuem um ritmo próprio que precisa ser respeitado. É preciso entrar no seu ritmo para fazê-las entender e não ao contrário, como normalmente se faz, com discursos e métodos que funcionariam muito bem para os adultos, mas que para os pequenos trazem apenas pressão, frustração e insegurança.

A criança age com retidão quando acredita em seu potencial. Por isso, não basta mostrar aonde chegar e o que fazer, ela precisa descobrir nela o que se espera dela. Por exemplo, caso se espere dela uma atitude corajosa, não adianta falar que ela precisa ter coragem, simplesmente; e muito menos dizer que ela precisa deixar de ser “medrosa”. Tem que mostrá-la a coragem que existe dentro dela, afirmar que está aí, lembrá-la de antigos atos corajosos e valorizá-la por isso.

Há uma linguagem própria, lúdica, cheia de exemplos e analogias. As coisas devem ser explicadas não de forma racional, mas com muito amor, compreensão e paciência. Isso não significa ceder às pressões da criança, ao contrário, demonstra firmeza e persuasão para conduzi-la de forma correta.

Mas as crianças costumam testar seus limites, e se, em primeira instância não funcionou, é natural que exista alguma conseqüência. Essa conseqüência deve ser o mais natural possível e isso afasta qualquer possibilidade de violência. A violência diz respeito mais ao posicionamento interno do que à atitude externa. Há palavras que ferem mais do que qualquer gesto.

É importante que fique clara a idéia de direitos e deveres. Para que tenhamos direitos precisamos primeiro cumprir com os nossos deveres. Ante uma atitude errada reincidente, melhor do que aplicar um castigo qualquer, é privar a criança de algo que ela goste, e mostrar para ela que isso é uma escolha dela. Que ela pode ter o que para ela for importante desde que faça sua parte.

Disciplina é a virtude do discípulo, aquele que aprende e aplica, e com isso desenvolve-se de forma consciente. Desenvolvimento requer treinamentos e superações, e quanto antes comecemos esse processo, mais fluido e natural será o caminho.

Natália Ramon

Descoberto templo de pedra na Amazônia

Arqueólogos brasileiros anunciaram a descoberta de uma antiga estrutura de pedra, em uma parte remota da Amazônia, que poderia jogar nova luz sobre o passado da região.

O sítio, que se acredita ter servido de observatório e lugar de adoração, antecede à colonização européia e indica um sofisticado conhecimento de astronomia por parte de seus construtores.

Devido à sua aparência, está sendo comparado com o Sítio Arqueológico de Stonehenge, na Inglaterra, mesmo que o recém descoberto pareça ser bem mais recente.

Ainda não se sabe exatamente quando foi construída a estrutura, mas fragmentos de cerâmica indígena encontrados no local foram datados como tendo 2.000 anos.

Até o momento não se acreditava que existissem sociedades avançadas na região amazônica, antes da chegada dos conquistadores europeus.

Solstício de Inverno

A descoberta ocorreu no estado do Amapá, no extremo norte do Brasil.

São 127 grandes blocos de rocha encravados no piso, no topo de uma colina.

Bem preservadas, com algumas pesando várias toneladas, as pedras estão aparadas e dispostas de forma espaçada e eqüidistante.

O que mais chamou a atenção dos investigadores foi a sofisticação da construção. As pedras parecem ter sido arranjadas para possibilitar a localização do solstício de inverno, ou seja, quando o sol está em seu ponto mais baixo no céu.

Acredita-se que os antigos povos amazônicos utilizavam as estrelas e as fases da lua para determinar os ciclos agrícolas.

FONTE: http://news.bbc.co.uk/hi/spanish/science/newsid_4767000/4767783.stm

Próximo Número

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Personagens que cantam a vida, o amor e a guerra deixaram profunda pegada em toda a Europa medieval. Foram chamados trovadores pelos seus excelentes descobrimentos literários, e desde o século XI se estendem pela Europa cantando as aventuras dos grandes heróis.

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As catedrais serviram para unir o povo entorno de uma causa comum, a da fé. É na junção entre o monge e o artesão em que se gesta o Construtor, abarcando desde o Mestre de Obra até o peão como último elo da cadeia construtora.

Os Templários, suas chaves históricas e seus mistérios

A Ordem do Templo tinha por objeto a salvaguarda dos Santos Lugares. Isso fez com que a lenda a associasse à busca e custódia das Relíquias Sagradas. No que hoje é a mesquita de Al Aqsa, na esplanada do Templo de Salomão, encontrava-se o Sancta Santorum com a Arca da Aliança.

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