Edição 04

Editorial

O caso do Santo Sudário, com a sua longa história de suposições, análises científicas e descobrimentos, é um dos episódios mais apaixonantes para ilustrar o difícil encontro entre a tradição, o sagrado e a demonstração científica de sua exatidão. A possibilidade de contar com uma prova de que o que indicam os livros sagrados e a Teologia dos cristãos é certo amplificou a enorme repercussão de tudo que é relacionado com esse misterioso fragmento de tela que envolveu, como sudário, o corpo martirizado de Jesus da Galiléia.

O fato de a ciência poder verificar que os evangelhos estão relatando sucessos que ocorreram no tempo e no espaço, parece legitimar uma doutrina que se encontra circunscrita ao âmbito das crenças, seguindo uma alienação muito característica do nosso tempo: parece que necessitamos do referendo da ciência para aceitar planejamentos e tendemos a desconfiar dos conhecimentos que não são capazes de sistematizar os seus decobrimentos por meio de métodos científicos, bem explicitados e contrastáveis.

No entanto, por mais que a ciência tenha explicado sobre o Santo Sudário, muitas perguntas ficaram sem resposta científica, apesar dos sofisticados experimentos que foram realizados. Diante disso, ao invés de nos inquietar, seria melhor refletir sobre os limites do cientificismo e o alcance simbólico de muitos relatos que não estão orientados exclusivamente para dar conta de feitos que já ocorreram, mas que servem de pretexto para envolver ensinamentos ou verdades de natureza espiritual no véu de narrações sobre acontecimentos que tiveram lugar em tempos longínquos…

A Arqueologia nos acostumou a descobrir como histórias que pareciam pertencer ao âmbito do imaginário e fantástico tiveram lugar em pontos determinados do tempo e do espaço. Permitiu-nos reconhecer intenções que vão além do meramente descritivo, ultrapassando o ponto em que as explicações racionais se detêm, para dar lugar à complexa atividade das intuições e das interpretações de significados.

A esse longo processo de constatação pertencem as vicissitudes pelas quais passou o Santo Sudário, pois despertou evocações e fervores, que superam as análises científicas. Quiçá seja essa a melhor prova do seu real valor.

Mosaico

Morre Yang Huanyi, e com ela o idioma Nushu

No dia 8 de setembro faleceu Yang Huanyi, a última pessoa da China que falava Nushu. Na realidade a última mulher, pois o Nushu foi um idioma desenvolvido e utilizado exclusivamente por mulheres.

Yang Huanyi nasceu em Jiang Yong. Aprendeu o Nushu quando era criança junto com suas irmãs. Era viúva de um granjeiro e a última pessoa viva que sabia se comunicar no misterioso código secreto chamado Nushu. Com o seu falecimento não apenas se perdeu uma vida se não que todo um idioma.

O Nushu foi um idioma totalmente desconhecido até que foi descoberto por uma professora de línguas em 1982. As mulheres chinesas da época, especialmente nas zonas rurais, estavam excluídas dos espaços sociais e de toda a possibilidade de aprender a ler e a escrever. Aquelas campesinas analfabetas tiveram habilidade suficiente para inventar um idioma próprio. Transmitida de mães para filhas, a língua Nushu é um sistema de comunicação único. Nushu em chinês quer dizer escrita de mulheres. Mais do que um idioma, as mulheres criaram uma literatura e folclore próprios: cantavam, falavam e escreviam nesse idioma.

As inscrições nessa língua sutil e poética se podem ver em diários, onde se encontraram reflexões íntimas e conselhos de avó para mãe e destas às suas filhas, criando assim redes de amizade e afetividade, num mundo duro e difícil, onde as mulheres estavam marginalizadas.

Além dos conselhos e reflexões, também se contam os momentos importantes da história, como guerras, más colheitas, etc. Então os escritos possuem, por um lado, a riqueza do idioma em si mesmo, e por outro ajudam a entender o mundo de uma perspectiva feminina, convertendo-se na outra história, contada com outra sensibilidade e com outros pontos de vista.

Pondere-se que Yang Huanyi tratou de continuar com a tradição de ensinar o nushu de mãe para filha, mas suas filhas e netas não chegaram a aprender, rompendo-se assim uma longa tradição.

A aquisição de objetos com escritas em Nushu é difícil, porque segundo a tradição os pertences das mulheres devem ser queimados junto a seus corpos após sua morte.

Felizmente, o governo chinês criou em 2002 um museu em Jiang Yong, no lugar onde nasceu Yang, e onde se conservam pelo menos 300 objetos com escritas em Nushu.

A senhora falecida foi convidada à Conferência das Nações Unidas sobre a Mulher em 1995, que se celebrou em Beijing, e entregou todos os seus escritos à Universidade de Qinghua; pretende-se recompilá-los num livro que se publicará em breve.

Rafael Morales

Captando a luz do sol

Cientistas australianos predisseram que dentro de sete anos se fará realidade uma nova e revolucionária maneira de captar a força do Sol para extrair energia limpa e quase ilimitada da água, utilizando cerâmicas especiais de óxido de titânio, que coletam a luz do Sol e processam a água para produzir combustível de hidrogênio. Sua produção em grande escala depende da construção de um dispositivo coletor de energia sem partes móveis e que não emita gases tóxicos nem agentes contaminantes, uma simples operação de engenharia. A seleção do titânio como matéria-prima do invento responde às excelências desse metal, que é 40% mais rápido que o aço e tem excelentes propriedades semicondutoras, bem como com uma resistência única à corrosão da água.

Um período chuvoso em Marte

Através de um sistema de visualização que registra emissões térmicas, os cientistas observaram “vales dendríticos sobre esses cilindros e planícies que, devido às suas características geomórficas, tais como uma ramificação extensiva, são conseqüência de precipitações atmosféricas que favoreceram sua formação”, assinala Quantin.

Além do mais, os meandros e os canais interiores sobre o solo dos vales indicam que os períodos chuvosos duraram muito tempo e a paisagem lembra algumas zonas desérticas da Terra onde a areia cobre o solo de vales secos.

Até hoje, se acreditava que Marte gozava de um clima cálido e que a água fluía por sua superfície durante seus primeiros dias de existência, mas que na continuação congelou, há aproximadamente 3.600 milhões de anos, período limite entre as Eras Noachian e Hesperiana.

Este trabalho conduz a pensar que existia um clima cálido e úmido, durante a Era Hesperiana tardia – entre 2.900 e 3.400 milhões de anos, quando se pensava que o clima era frio –, condições que poderiam resolver o paradoxo sobre o oceano que existiu nas terras baixas do planeta vermelho, datadas dessa época.

A vida, para ter existido alguma vez em Marte, se faria beneficiada de um período mais longo de condições mais cálidas do que se pensava e que conduziriam à atividade hidrológica.

Adoçante artificial

Os adoçantes artificiais mais conhecidos são aspartamo, sacarina e acesulfamo potásico. O aspartamo é um adoçante nutritivo, o que significa que proporciona energia em forma de calorias, enquanto que os outros não são nutritivos. O aspartamo, que é de 100 a 200 vezes mais doce que a sacarose, é uma combinação de duas proteínas, ácido aspártico e fenilalanina, e portanto contém as mesmas 4 calorias por grama que as proteínas e, conseqüentemente, as mesmas 4 calorias por grama que o açúcar. Porém, ao ser muito mais doce que a sacarose, basta una mínima quantidade.

A sacarina é conhecida há 120 anos e é aproximadamente 300 vezes mais doce que a sacarose.

O acesulfamo potásico é de 130 a 200 vezes mais doce que a sacarose. Emprega-se a combinação com outros adoçantes em milhares de produtos em todo o mundo.

O sorbitol é álcool de sabor doce que se encontra naturalmente nas castanhas e em alguns frutos. Possui metade do sabor doce do que a sacarose. Um excesso de sorbitol pode resultar laxante, ao reter água no intestino.

Patricia Ponce de León

Os maias poderiam ter conhecido a bússola

Astrônomos tchecos dizem que as pirâmides se construíram seguindo os pólos magnéticos da Terra.

Um grupo de astrônomos tchecos desenvolveu uma nova teoria sobre as pirâmides, segundo a qual estas, e outras construções pré-colombianas, não foram construídas em conformidade com os pontos cardeais, mas sim com os pólos magnéticos da Terra.

Os investigadores Jaroslav Klokocnik e Fratisek Vitek desenvolveram essa teoria depois de fazer investigações na zona maia da península de Yucatán, contando com o apoio do Instituto Nacional de Antropologia e História e a Comissão Nacional para a Ciência e Tecnologia do México.

Nos seus estudos de medição das pirâmides e construções pré-hispânicas, iniciados em 2003, os cientistas chegaram à conclusão de que sua construção varia ao longo do tempo.

Essa teoria significaria que a civilização maia já conhecia a bússola anteriormente ao uso desse instrumento na China.

Isso abriria também a possibilidade de que as populações mexicanas tivessem capacidade de navegação.

Dessa maneira, a teoria estabelece a hipótese da existência de atividade marítima nessas civilizações, nos oceanos Atlântico e Pacífico.

Camuflagens

Não são apenas os soldados em combate que se camuflam para confundir o inimigo. A natureza e os seres que nela vivem são mestres nisso. Há uma multidão de organismos móveis que utilizam esses mecanismos para não ser vistos por seus predadores ou presas.

Às vezes são cores disruptivas, isto é, que imitam os fundos de desenho irregular, utilizadas para mimetizar, como fazem os polvos, que, além do mais, apresentam outra defesa: uma oportuna cortina de tinta. Alguns peixes utilizam, além disso, uma pequena asa dorsal carregada de veneno.

O RAPE (tão saboroso) não muda de cor, mas imita tão perfeitamente o fundo em que se aloja que não é advertido pelas suas presas até que sejam capturadas; basta ver a foto que segue:

Outros organismos fazem o contrário: mostram-se, como os moluscos nudibrânquios, de cores chamativas; suas substâncias tóxicas são suficientes para distanciar os predadores, já instruídos na arte de reconhecer o comestível discreto e rechaçar os coloridos, que escondem veneno ou um sabor muito desagradável.

Previsão de estiagens

A vigilância do estado hídrico dos solos é uma atividade dos meteorologistas quase desconhecida do público. No entanto, tem uma importância capital na agricultura e na gestão dos recursos hidráulicos, já que permite um diagnóstico precoce das estiagens.

Isso é feito através da modelação dos intercâmbios de água entre o solo e a atmosfera. Em escala mundial, os climatologistas também utilizam modelos similares.

Para validá-los, organizam-se campanhas internacionais muito exaustivas. Enquanto se propõe a próxima campanha na Amazônia, os antecedentes já proporcionam os primeiros resultados. Mesmo que as modificações climáticas tenham se limitado ao continente sul-americano, as conseqüências poderiam ser temerosas.

PPL

Chispas científicas – As Mudanças Geológicas da Terra

A vida geológica da Terra foi bastante intensa. Somente no último período de um milhão de anos aconteceram grandes mudanças na configuração física do nosso planeta. Geralmente as pessoas pouco familiarizadas com os grandes movimentos da crosta terreste ou as mudanças provocadas pelas antigas glaciações surpreendem-se quando descobrem que no cume do Everest há restos fósseis de peixes, ou de sedimentos, o que demonstra que este cume, anteriormente, se encontrava submerso no mar…

Para quem não esteja familiarizado com a teoria da deriva continental será difícil entender que a porção de terra que hoje constitui a Índia antigamente se encontrava em um continente denominado Gondwana, situado a milhares de quilômetros ao sul da sua posição atual no meio do Oceano Índico. Posteriormente foi deslocando-se para o Norte até incrustrar-se na massa continental asiática, provocando a elevação das terras costeiras e criando a dobra na crosta que constituiu os Himalayas.

A configuração dos continentes não se manteve ao longo do tempo e nem mesmo é estável, pois se acredita que as Ilhas Filipinas se separaram do continente asiático apenas há uns 10.000 anos e, em época ainda mais recente, a Nova Guiné separou-se da Austrália e também Java de Sumatra.

Muitas foram as mudanças que aconteceram na Terra, sejam estas devidas à submersão de terras continentais ou à elevação de outras que formavam o fundo dos mares, as grandes extinções de espécies, os grandes sismos e as erupções vulcânicas, violentas e impiedosas.

As Teorias Atuais

Certa vez foram mapeadas as linhas da costa nas margens opostas do Atlântico, vários cientistas começaram a especular que talvez aqueles continentes atualmente separados poderiam no passado terem estado unidos. Efetivamente as linhas das duas costas pareciam peças de um quebra-cabeças, de modo que, levando o continente americano até as costas da Europa e da África, pareciam se encaixar perfeitamente, salvo mínimos detalhes.

Personagens do porte de Francis Bacon, Buffón, Von Humbolt se atraveram a insinuar a semelhança das costas, até que em 1858 A. Snider se atraveu inclusive a afirmar que aquelas peças deveriam pertencer a um continente maior que se desagregou em vários pedaços. Isso foi a partir de 1910 quando Frederick B.Taylor, H.D.Baker e Alfred L.Wegener lançaram a teoria da “deriva continental”, segundo a qual os continentes teriam se deslocado na horizontal sobre as camadas mais profundas a partir de um supercontinente inicial. Esta posição criou grandes controvérsias entre os geólogos, sobretudo na América do Norte, até ser finalmente aceita.

Para esta teoria estar correta a Geologia devia admitir que as massas continentais tinham uma certa capacidade de movimento, ainda que naquela época imperasse a concepção de uma Terra rígida, cujo maior expoente era o geofísico Harol Jeffreys, e parecia difícil compreender como poderiam mover-se os continentes sobre os fundos oceânicos rochosos.

Em consonância com a postura de Jeffreys, muitos geofísicos consideraram que a Terra era uma massa rígida desde sua origem e que seguiria sendo assim até o final dos seus dias, como correspondia a sua natureza e origem, em que algumas partes desgarradas do sol deram origem aos planetas e, por sua vez, dos restos dos planetas se formaram os satélites.

A controvérsia sobre a origem da formação do planeta passou a fazer parte do debate sobre as teorias dos movimentos da crosta terrestre na medida em que outros geofísicos, como o Prêmio Nobel Harold C.Urey, pensavam que não só a Terra, mas todo o Sistema Solar, poderia ter se formado a partir de uma nuvem de pó, por condensação. Segundo esta concepção, a Terra, em seu nascimento, seria um corpo frio, que aumentaria sua temperatura devido à radioatividade dos seus componentes, até alcançarem os materiais estados plásticos. Nestas temperaturas próximas à fusão dos seus materiais as rochas podiam adquirir certa plasticidade, o que propiciaria o deslocamento de algumas massas continentais sólidas sobre outras internas mais maleáveis.

Por outro lado alguns geólogos, como A. L. du Toit, postulavam a teoria da “isostasia” que afirmava que as massas continentais se manteriam em equilíbrio sobre as camadas inferiores da Terra, provocando movimentos em sentido vertical, de modo que o afundamento de uma massa continental provocaria o empuxo ascendente das massas de terras contíguas.

Com o passar do tempo os geólogos observaram que aquelas zonas que antigamente estiveram cobertas por gelos permanentes até uns 11.000 anos, como a península escandinava ou o norte do Canadá, ao ficarem descobertas após a última glaciação, sofriam elevações graduais da ordem de quase um centímetro por século, como se ficassem liberadas de um grande peso, justificando os movimentos verticais preditos pela teoria da isostasia.

Observou-se também que as formações montanhosas tinham em ambas as ladeiras estratos dobrados, o que indicava que haviam sido submetidas a forças laterais, em sentido horizontal.

Atualmente se admite que a crosta terrestre está formada por uma camada superior fria e rígida, de cerca de cem quilômetros, que se apoiaria sobre uma zona interior mais quente e maleável. Enquanto se dá um equilíbrio hidrostático das massas na vertical, aparecem empuxos laterais que justificam também certos movimentos laterais de deslocamento. Os continentes flutuariam deste modo sobre a camada do manto, ao mesmo tempo que se criariam correntes no manto maleável, que por sua vez criariam empuxos de elevação e de deslocamento horizontal.

No final do século XIX, os geólgoos do hemisfério Sul descobriram formações geológicas e paleontológicas análogas as do hemisfério Norte, de modo que no início do século XX o geólogo austríaco Eduard Suess, agrupando os dados dispersos, deduziu a existência de uma massa continental única. Em estratos do mesmo período geológico foram encontradas plantas iguais, assim como as mesmas rochas procedentes de glaciações coincidentes.

Tal como havia especulado Wegener, há uns 200 milhões de anos, todas as terras formavam um supercontinente que se denominou Gondwana. Mas, atualmente, considera-se que no hemisfério Sul havia uma grande massa de terra denominada Gondwana e outra, no hemisfério Norte, chamada Laurasia. Isso foi concluído depois de definida a trajetória seguida pelos continentes atuais para chegarem a sua posição atual, por meio de modernos métodos sísmicos.

Atualmente se admite que a crosta terrestre sofre movimentos na vertical, como os abalos registrados no sul da África, cujas terras situadas a 1600 metros de altitude seguem se elevando, e, na horizontal, ainda que a explicação atual complemente as idéias de Wegener, como a denominada “Teoria das Placas Tectônicas”.

Surgida na metade do século XX, a “Teoria das Placas Tectônicas”, amplamente demonstrada na atualidade, considera a crosta terrestre como se fosse uma bola de couro constituída por várias “peles”. Estas “peles”, ou placas, pedaços da litosfera (as massas continentais e suas plataformas), formam os leitos marinhos e as superfícies continentais.

Estas placas mantêm um certo movimento quando impulsionadas pelas pressões internas das correntes surgidas no manto terrestre e devidas a diferenças de densidade, temperatura e, portanto, de elasticidade. As placas se encontrariam submetidas a impactos e empurrões com placas contíguas, dando lugar a rupturas, elevações das suas bordas, dobras montanhosas, ou afundamentos de um placa sob a outra.

Entre as onze placas existentes, nas bordas de colisão ou de impacto se geraram com o tempo as cadeias montanhosas, rosários de ilhas, ou zonas propensas a sofrer terremotos, devido à liberação de tensões e rupturas profundas, ou inclusive afloramentos vulcânicos do magma interno por meio das zonas de ruptura ou emergência de gases.

Geralmente com o degelo das calotas polares, tal como está ocorrendo agora no Ártico, tende-se a pensar que o nível das águas deveria elevar-se. No entanto, em outra época, ante tal circunstância, estranhamente se constatou uma descida geral dos níveis em vários continentes; tal é o caso do Alasca e da Groenlândia, da América do Sul e da Nova Zelândia.

Constataram-se importantes mudanças no nível do mar durante o último período glacial (na denominada glaciação de Würm, entre 110.000 e 12.000 anos atrás), registradas também em várias zonas, durante os últimos 12.000 anos. Assim se sabe que a Flórida se elevou durante o período glacial uns 600 metros, o que implicou importantes mudanças na zona do Caribe. Por outro lado, nas costas do sudeste da Ásia e Indonésia também se detectaram afundamentos de pelo menos 200 metros.

A única explicação possível para que isso tenha acontecido assim em outra época pode ser o gelo acumulado na Antártida que compensou amplamente o aumento do nível que tinha sofrido o planeta por causa dos degelos posteriores às glaciações.

Atualmente também existem modelos de comportamento climático que explicariam que um degelo na calota polar ártica, ao introduzir água doce na superfície do Atlântico, mudaria a corrente quente do golfo no hemisfério Norte, elevando as temperaturas da Europa e América.

Por outro lado se conhecem até quatro mudanças das condições climáticas dos continentes, que poderiam ser explicadas pelos movimentos de deriva continental, ainda que geralmente sejam mudanças tão completas que implicam quatro grandes variações da situação dos pólos: possíveis movimentos do eixo terrestre ?

Neste aspecto comprovou-se que as ilhas do Ártico abrigaram, antigamente, grandes florestas, pois tinham um clima temperado. Os grandes mamutes que viviam tempos atrás na América do Norte, Europa, Sibéria e Ásia não eram animais peludos e de pele grossa para resistir às baixas temperaturas, pois se demonstrou que não estavam mais adaptados ao frio que um elefante atual. Alguns deles foram encontrados em zonas geladas, perfeitamente conservados, paralisados em sua atividade cotidiana, com restos de comida que indicam que se alimentavam com produtos de zonas temperadas.

Assim, a Terra sofreu múltiplas mudanças e alterações ao longo da sua existência e, como um grande ser vivo, com sua capacidade de reação, parece capaz de adaptar-se sempre às circunstâncias e vencê-las uma a uma.

Raysan

Procurar a Arte – A balsa da Medusa

Theodore Géricault

Museu do Louvre

Esta impressionante tela, de 4,91 por 7,16, que se encontra no Museu do Louvre, retrata um fato real ocorrido em julho de 1816: o naufrágio da fragata “Medusa”, 149 sobreviventes que se amontoaram na balsa que conseguiram construir, dotada inclusive de uma vela, vão morrendo um após o outro até ficarem em número reduzido. Géricault conseguiu falar com alguns sobreviventes, coletando detalhes que lhe possibilitaram a recriação pictórica e, para aumentar o realismo, fez observações em cadáveres, em agonizantes e loucos em hospitais e asilos, que transferiu com realismo absoluto ao retratar os rostos dos náufragos, tanto é que lhe foi muito difícil vender o quadro para os Museus Reais.

O esboço da composição corresponde a um barco: a linha superior que os corpos formam cria a curva da proa, arrematada por uma flâmula. Todas as linhas tendem em direção a ela, como se a empurrassem em direção a terra, para afastá-la da onda ameaçadora que chega pelo bombordo.

A estibordo, um afogado fica preso pelas pernas, enquanto que na proa um homem de rosto ausente a tudo que o cerca segura nos braços o corpo do filho morto, incapaz de entregá-lo às ondas, o que era feito com todos os mortos para aliviar o peso da fragata.

Podemos imaginar que no horizonte tenha aparecido o barco salvador, já que da proa alguns fazem sinais com trapos e um homem de rosto enlouquecido faz sinal para o além.

A cor é quase monocromática, pois o dramatismo da cena não deveria ser desvirtuado por nenhum tom alegre. Somente tons escuros, como o da onda, o das nuvens carregadas e as sombras embaixo da vela.

Géricault morre jovem. Viveu de 1791 a 1824. É exemplo da revolução do gosto pela arte numa época de transição que lhe coube viver. Viajou pela Itália e lá se inspirou nos antigos baixo-relevos e em seu equilíbrio rítmico. Isso acrescentou um dinamismo barroco que aparece em todas as suas obras e também alguns violentos contrastes de luz e sombra que sem dúvida procedem de Michelangelo.

Guiomar

A Fusão Nuclear e a energia do som

Por Leonardo Santelices A.

“Porque o som cria, ou melhor, congrega os elementos que produzem ozônio,

cuja fabricação ultrapassa as possibilidades da Química, colocando-o na esfera da Alquimia”. H.P.B. – Doutrina Secreta

A vitalidade nas suas diferentes expressões é fundamentalmente um intercâmbio e transformação constante de energia, por isso todo ser vivo participa obrigatoriamente deste constante intercâmbio no qual consome e acrescenta energia ao ciclo.

A sociedade humana tem desenvolvido nos últimos anos, a partir da evolução industrial, uma grande quantidade de máquinas e aparelhos que permitem uma vida mais confortável para as pessoas, substituindo o ser humano nas tarefas mais pesadas, permitindo o transporte de mercadorias e pessoas, automatizando a produção de objetos, entre outros casos. Todo este novo exército de máquinas e aparelhos tem significado, entre outras coisas, um crescimento no consumo de energia e, na maioria dos casos, energias não renováveis como carvão, petróleo, gás e, em menor proporção, a energia nuclear. As energias renováveis como a hidráulica e as provenientes da biomassa são menos de 6% do consumo primário de energia. Esse consumo crescente de energia não renovável tem dois grandes inconvenientes, primeiro, as fontes são limitadas e mais cedo ou mais tarde vão se esgotar, e, segundo, na maioria dos casos, principalmente em relação ao carvão e ao petróleo, os processos de combustão geram grande quantidade de resíduos poluentes que estão afetando a biosfera de maneira alarmante.

O maior problema na queima de combustíveis fósseis é o acúmulo de compostos de carbono na atmosfera, estes, por sua vez, produzem o chamado efeito estufa e causam o aumento na temperatura global da biosfera. Esse aquecimento seria a causa das alterações climáticas que já estamos presenciando em muitos lugares do planeta com conseqüências catastróficas.

No entanto, os cientistas calculam que os piores efeitos ainda não foram sentidos em seu nível máximo, como a desertificação e o derretimento das calotas polares, o que aumenta o nível dos oceanos, inundando as cidades costeiras.

Este panorama levou os países participantes da Terceira Conferência das Partes da Convenção sobre Mudanças Climáticas, no Japão, a assinar em 1997 o Protocolo de Kyoto, no qual se comprometem a diminuir a emissão de gases poluentes que estão provocando o efeito estufa.

A energia nuclear

Como fonte alternativa de energia, têm sido construídos em diversos países reatores nucleares que funcionam com fissão nuclear. Mesmo que se alimentem de fontes de energia não renováveis, seu sistema de transformação energética não é químico, mas sim entra num terreno que as ciências tradicionais conhecem como alquimia, portanto é muito eficiente e de acordo com a famosa equação de Einstein (E=mc2), pela qual se obtém, com uma pequena quantidade de matéria, uma grande quantidade de energia. O grande problema da energia de fissão nuclear é a possibilidade ainda que remota, porém já ocorrida, de situações como a do tristemente famoso reator de Chernobyl que disseminou radioatividade. Isso faz com que grande parte da sociedade seja contrária a essa alternativa energética.

No entanto, há outra possibilidade de uso da energia nuclear que consiste em, ao invés de partir ou fissionar átomos, obter energia por meio da fusão, o que tem grandes vantagens em relação à fissão, pois essa não produz radioatividade e, além disso, o combustível básico para a fusão é o hidrogênio, que pode ser obtido sem problemas através da água, contando-se assim com uma fonte quase inesgotável desse elemento químico. O grande inconveniente é que o processo de fusão é ainda muito complexo, o que torna um reator de fusão algo muito caro.

A fusão nuclear

Com o objetivo de explicar brevemente no que consiste a fusão nuclear, temos que entender da forma mais simples possível a constituição do átomo. O próton é uma partícula de carga positiva de igual magnitude que a carga negativa do elétron, com uma massa de 1,6726 X 10-27 kg, que é mais ou menos um 0,125% maior que a do próton. O próton e o nêutron são chamados nucléolos porque formam núcleos atômicos.

A força que mantém unidos os nucléolos é a força nuclear, que é de grande intensidade, mas de curto alcance, portanto, para que dois nucléolos sintam a atração provocada pela força nuclear, devem estar bem próximos. Quando se afastam atua a força eletromagnética na qual os prótons se repelem mutuamente por terem ambos carga positiva.

Quando um nucléolo está rodeado por outros nucléolos este sente uma força equivalente a soma dessas forças exercidas por cada nucléolo separado. Se tentássemos arrancar este componente do núcleo precisaríamos dar-lhe energia suficiente para vencer essa força. A energia mínima necessária para consegui-lo se chama energia de enlace.

À medida que aumenta o tamanho do átomo, aumenta o número de nucléolos e, por conseguinte, também aumenta a energia de enlace, mas como a energia é de curto alcance apenas os nucléolos mais próximos contribuem nesse incremento de forma significativa. Então, quando se aumenta o tamanho nos átomos leves, o incremento da energia de enlace é significativo, mas, quando esses vão se tornando mais pesados, este aumento é menor e logo começa a diminuir, por isso a energia de enlace é praticamente a mesma em todos os átomos pesados.

A fusão nuclear é uma reação na qual se unem dois núcleos leves para formar um outro mais pesado.

Esse processo libera energia porque o peso do núcleo pesado é menor que a soma dos pesos dos núcleos mais leves. Essa diferença de massa se transforma em energia, apesar de a diferença de massa ser muito pequena, e se relaciona mediante a fórmula E = mc2, apesar de o ganho por átomo ser muito pequeno é preciso considerar que é uma energia muito concentrada, pois numa grama de matéria há milhões de átomos, portanto com pouca quantidade de combustível se consegue muita energia.

Nem todas as reações de fusão produzem a mesma energia, isso depende dos nucléolos que se unem e do produto da reação. A reação mais fácil de conseguir é aquela que se obtém de dois isótopos de hidrogênio, o deutério (um próton mais um nêutron) para formar o hélio (dois nêutrons e dois prótons) e um nêutron, liberando energia de 17,6 megavolts.

Essa é uma fonte de energia praticamente inesgotável, já que o deutério se encontra na água do mar e o trítio é fácil de produzir a partir do nêutron que escapa da reação.

Dificuldades da fusão nuclear

A dificuldade está na forma de obter a fusão.  A primeira dificuldade é que todos os núcleos atômicos estão carregados positivamente. E para poder uni-los é preciso vencer a repulsão que esses experimentam quando está atuando a força eletromagnética. Isso implica a aplicação de uma grande quantidade de energia.

Se quisermos criar uma imagem mais clara para compreender esta situação, diremos que a força de repulsão forma uma barreira que o núcleo deve atravessar para se unir a outro núcleo. É como se um objeto tivesse que subir um aclive; se sua velocidade inicial é inferior a este aclive, não conseguirá chegar no topo, pois sua velocidade irá diminuindo na medida em que sobe, logo ele vai se deter e mais tarde começará a descer sem chegar lá.

Este seria o comportamento habitual de um objeto sujeito às leis da física clássica, porém na escala subatômica atuam outras leis, nesta escala os movimentos são regidos pela mecânica quântica, e não pela clássica, então é possível que um núcleo atravesse a barreira mesmo que não tenha energia suficiente para fazê-lo, isso se chama o efeito túnel. De acordo com a mecânica quântica, a matéria pode se comportar como partícula ou como uma onda, o que implica a incerteza ou a incapacidade de estabelecer com exatidão a posição e o momento de uma partícula ao mesmo tempo, por isso é possível que uma partícula atravesse a barreira potencial sem ter, de acordo com a mecânica clássica, energia suficiente para fazê-lo, quer dizer, a possibilidade de que a partícula se encontre do outro lado da barreira não é nula; isso é o chamado efeito túnel.

Como conseqüência do efeito túnel, quando uma quantidade de partículas é lançada em direção a uma barreira potencial, com menor energia que o topo desta barreira, existe certa probabilidade de que uma fração dessas partículas passe através dela. Levando em conta esse efeito, não é necessário que, para a obtenção da fusão destes núcleos, eles precisem ultrapassar a altura desta barreira, permitindo que as possibilidades de obtenção da fusão aumentem, já que as energias requeridas podem ser comparativamente baixas.

A maneira mais fácil de obter a fusão dos dois núcleos é formando um feixe de muitos deles através de um acelerador de partículas, com energia suficientemente alta para ultrapassar a barreira de Coulomb, fazendo esse fluxo chocar-se contra um alvo formado igualmente de núcleos do mesmo tipo, assim alguns dos núcleos conseguirão se fusionarem. Com esse mecanismo se obterá sem dúvida uma liberação de energia nuclear, mas será muito menor do que a energia utilizada para produzir o feixe. Esse tipo de fusão tem valor unicamente experimental, mas nunca poderá ser usado para produzir energia pura.

Este é o problema básico desta energia nuclear limpa: o custo de produzi-la. Mas, por outro lado, de acordo com a teoria atual, a fusão nucelar é a fonte utilizada pelo Sol e pelas estrelas para produzirem energia e, portanto, deve ser a forma mais natural de se produzir energia.

Fusão quente e fusão fria

O mecanismo para produzir fusão começa confinando um gás composto dos elementos reagentes, trítio e deutério ou apenas deutério. Tradicionalmente tem-se trabalhado com dois métodos, a fusão quente e a fusão fria.

Os primeiros passos foram dados em relação à fusão quente. Como aconteceu em outras oportunidades, a engenhosidade científica foi canalizada para produzir uma arma mais mortífera do que as outras, surgindo assim a bomba H ou a bomba de hidrogênio que utiliza como combustível o deutério comprimido que, como detonador da fusão, obtém uma grande quantidade de energia calórica que é produzida por uma bomba atômica, ou seja, a fissão nuclear. A bomba H provou que é possível produzir energia por fusão, mas essa forma não pode ser utilizada já que é energia explosiva e sem controle, portanto o desafio é como conseguir uma fusão termonuclear controlada.

Na fusão fria, em lugar de fazer os núcleos se chocarem isolados para vencerem a barreira de Coulomb, tenta-se aproximá-los formando uma molécula especial na qual a separação entre os núcleos seja muito pequena. Quando estão muito próximos por um longo período é bastante provável que eles possam ultrapassar a barreira de Coulomb devido ao efeito túnel. Assim, em lugar de aumentar a energia dos núcleos para valores muito altos, como a fusão termonuclear, tenta-se mantê-los bem próximos até que ocorra a penetração da barreira. O ponto-chave nesse método é como se forma uma molécula que tenha os núcleos bem próximos.

Para conseguir isso, utiliza-se um tipo de partículas elementais chamadas mésons mu negativos ou simplesmente muons. Essas partículas tomam o lugar do elétron numa molécula normal, mas, como sua massa é 200 vezes maior que a do elétron, sua órbita é mais fechada, o que, por sua vez, faz com que os núcleos fiquem 200 vezes mais próximos. A energia liberada na reação é levada na sua maior parte pelo muon, que fica livre, e poderia, em princípio, formar outra molécula para catalisar mais reações. O principal inconveniente desse processo é que o tempo de vida de um muon é muito curto (2 x 10-6 segundos)  e decai  antes de poder catalisar mais reações. Isso diminui a eficiência, o que faz com que se gaste mais energia do que aquela que se cria.

De uma forma muito resumida vimos que a fusão poderia ser uma solução energética muito interessante no que se refere à disponibilidade de combustível e, além disso, é uma forma de obtenção de energia limpa, mas, apesar disso, ainda não se encontrou um método adequado para fazê-la de forma eficiente e controlada.

A sonofusão

Já faz alguns anos que se vem experimentando uma nova técnica que consiste em utilizar o ultra-som para produzir a fissão.

O processo inicia num recipiente de cristal transparente que contém acetona deuterada que é a matéria-prima. Expõe-se o recipiente com o líquido a pulsos de nêutrons a cada cinco milissegundos, provocando a criação de diminutas cavidades. Ao mesmo tempo o líquido é bombardeado com um ultra-som de freqüência específica, que faz com que as cavidades se tornem bolhas de uns 60 nanômetros de diâmetro.

As bolhas se expandem até se tornarem visíveis. Em alguns nanossegundos estas bolhas se contraem e liberam um lampejo de luz conhecido como sonoluminescência. A sonoluminescência é o fenômeno por meio do qual pequenas bolhas de ar, ou outro gás num certo líquido, emitem luz quando estão expostas a um som intenso.

Como as bolhas crescem antes de implodir, sua contração produz temperaturas e pressões extremas, comparáveis com as do interior das estrelas (uns dez milhões de graus Celsius e até um bilhão de atmosferas na experiência). Em determinado momento, os átomos de deutério se fusionam liberando nêutrons e energia.

A sonofusão ainda não chegou na sua maioridade em relação a sua tecnologia, mas já se formou o consórcio Acoustic Fusion Technology Energy Consortium, o AFTEC, integrado pela Universidade de Boston, Impulse Devices, a Universidade de Purdue, a Universidade de Mississipi em Oxford e a Universidade de Washington em Seattle. Seu objetivo é promover o desenvolvimento da sonofusão e estudar suas implicações científicas e tecnológicas.

Usualmente, na nossa cultura, pensamos que conhecimento é aprender coisas novas, mas na prática podemos comprovar que o que provoca os grandes avanços é enfocar as coisas por perspectivas diferentes. Aí temos o grande potencial da inteligência humana, a criatividade, que é um dos produtos naturais do exercício filosófico.

Catalisadores: os aceleradores da reação

a grande viagem química

O mundo à nossa volta muda constantemente: congela, degela, queima, dissolve, cresce, floresce e frutifica… Detenhamo-nos a observar de perto algumas destas habituais e enigmáticas metamorfoses.

A neve se derrete, condensa-se o vapor, congela-se a água… As propriedades químicas dessas substâncias não variam, o que muda é só a forma. Assim, o torrão de açúcar pode ser pulverizado até reduzir-se a pó, mas continuará sendo açúcar porque mantém as mesmas propriedades.

O ferro se oxida, a lenha se queima, o gás se consome, o leite se converte em requeijão, no filme fotográfico aparece a imagem… Estas são reações químicas que dão lugar a novas substâncias: o óxido de ferro, a cinza, o gás carbônico, o requeijão. Muda-se a própria base da substância, sua fórmula e sua estrutura. Agora temos algo completamente diferente, com propriedades químicas diferentes.

Mas, vejamos: pode-se converter a fumaça em lenha, o requeijão em leite, a ferrugem em ferro? A experiência nos diz que não é possível. São reações irreversíveis.

Então, o que é a reação e por que algumas acontecem e outras não podem acontecer?

A essência da reação química consiste na ruptura de ligações e na formação de outras. A ligação se realiza por meio dos elétrons de valência e se forma somente se os elementos que têm que reagir se aproximam suficientemente. Como resultado, a aparição da nova substância ocorre somente pela colisão das moléculas ou átomos dos agentes reativos iniciais. Todos eles são diferentes do ponto de vista energético, ainda que tenham a mesma estrutura química, porque têm distinta velocidade de movimento, distinto estado interior, distinto ângulo de choque, etc., pelo que nem todas as colisões levam à formação de uma nova substância.

Inicialmente, do ponto de vista das possíveis relações recíprocas,todos os elementos têm “simpatias” e “antipatias”. A reação será possível somente entre os átomos que “simpatizam” um com o outro em determinadas circunstâncias e com um mesmo “objetivo” que é a criação da substância nova.

Do ponto de vista da termodinâmica química, a possibilidade de que uma reação aconteça de forma espontânea está determinada pelas regularidades da conversão da energia e, particularmente, da correlação entre a entalpia (do grego “aquecer”) e a entropia (do grego “giro”). No entanto, a possibilidade principal da reação ainda não significa que esta vá acontecer em um nível suficientemente alto. Para que as moléculas e os átomos entrem em reação, em geral precisam da ativação dos reativos iniciais. O objetivo final desses é a reação química, porém para alcançá-la precisam superar o manto energético. O catalisador é a substância capaz de acelerar a reação química mantendo invariável seu resultado. A superação do manto energético, a saída para o caminho reto da reação química acontece graças à formação de outra conexão intermediária. Quer dizer, os resultados da reação são iguais, só os caminhos são diferentes e a barreira energética é mais baixa. Como resultado, a velocidade da reação química sobe enormemente.

Se aproximarmos um fósforo aceso a um torrão de açúcar, vemos como o açúcar se funde, se carboniza, mas não queima. Mas, ao contrário, se cobrirmos o açúcar de cinzas e o acendermos, vemos que assim queima. Os catalisadores são neste caso os sais dos metais alcalinos que se encontram na cinza e que aceleram o processo de oxidação.

Pode-se dizer que para que aconteça a reação são necessárias umas substâncias iniciais, um objetivo (o resultado da reação), a possibilidade inicial de que se produza a reação por meio de umas circunstâncias determinadas e a energia que possibilitará realizar a grande viagem química.

Se misturarmos iodo, freqüentemente cristalino, e pó de zinco em uma placa metálica, observamos que não se produz reação nenhuma. Porém, se acrescentarmos a essa mistura umas gotas de água, vemos como em cima da placa levanta uma nuvem violeta. A presença do catalisador (a água) fez com que o zinco reagisse intensamente com o iodo.

A água é o catalisador mais freqüente da Terra. Precisamente, graças a sua estrutura dupla, as moléculas das substâncias dissolvidas se ativam mais rápido.

A maioria das transformações químicas que acontecem na Terra, seja de forma visível ou não, se realizam por meio de um catalisador. É assim, por exemplo, o processo da transformação e a conversão da energia no reino das plantas e a liberação da dita energia solar para que continuem os processos de fermentação nos animais e no homem. O fermento, uma proteína de estrutura composta, é um catalisador dos sistemas biológicos com uma peculiaridade bem marcante, já que acelera só um processo, mas em um nível muito mais eficaz se comparado aos catalisadores inorgânicos, pois permite realizar mesmo as reações mais desvantajosas do ponto de vista termodinâmico. A aceleração da reação nos organismos por meio do princípio da catálise em todos os reinos da natureza é uma das leis universais de interação e de transformação das substâncias. Sem catálise não há vida.

Nos reinos da Natureza sempre governam as mesmas leis. Apesar de o mundo se apresentar dividido em múltiplas partes, ele, no entanto, é um. A variedade exterior do mundo é a manifestação de sua união interior.

Tatiana Stepanova

Chispas literárias – Estilos ou discursos narrativos

Em toda a narração, de um modo ou de outro, os personagens da história devem falar, adaptados a várias formas distintas de materializar seus “discursos”, sendo que essas variantes são denominadas de estilos.

a) No estilo do discurso direto, a voz do personagem se destaca dentro do contexto da narração. O narrador cede momentaneamente a voz ao personagem. Formalmente ocorre do seguinte modo: em uma linha à parte se faz um travessão e na seqüência o personagem fala, o qual poderá deste modo se expressar com a sua própria voz, com o seu jargão e ainda utilizando as figuras de linguagem que lhe são habituais. Poderá se utilizar para a fala do personagem o tempo presente, mas o narrador continuará seu relato em outro tempo verbal, geralmente o tempo passado. Isso destacará as intenções do personagem, seu nível sócio-cultural, sua mentalidade, situando-os no centro da cena, dando-lhe um realce especial. Deste modo, como no cinema, ficará suspensa a narração para iluminar exclusivamente o ator principal da trama.

Dessa maneira, no discurso direto, um personagem qualquer poderá dizer:

– Diga-me, não adies mais a tua resposta… Você está grávida, sim ou não?

A qual o personagem, a quem se dirige a pergunta, poderia responder:

-Não me pressiones, do contrário nunca verás o teu filho.

Às citadas falas dos personagens, pode-se acrescentar também certas descrições entre elas que definem de que modo ocorre a ação, ou com que intenções se disse aquilo, tal como:

-Não me pressiones, do contrário não verás o teu filho – disse virando as costas enquanto o seu olhar se perdia no horizonte através dos vendavais. – Acho que não mereço esse tratamento…- continuou dizendo entre soluços.

b) No estilo do discurso indireto, o personagem não fala diretamente, o narrador é quem nos informa o que ele disse. Essa é a forma utilizada na linguagem coloquial quando se narra uma situação…

“Pedro me disse que viria sem falta, ainda que já o vejas: não aparece”.

Deste modo, como se evita destacar à parte a voz do personagem, ganha-se em fluidez, reduzindo-se a extensão do relato. Não obstante, este estilo apresenta uma faceta negativa, pois o discurso se encontra nas mãos do narrador; deste modo, o leitor pode ter a sensação de que tão-só “escuta”, e não consegue “ver” o personagem com a mesma realidade do que no discurso direto.

Um exemplo deste estilo é a presente narração extraída de “um diário de bordo jamais escrito”:

“Vendo que o mar permanecia calmo e que o vento não alentava muito, as pessoas pareciam descontentes, murmurando em pequenos grupos. Alguns se atreveram a dizer que talvez o almirante não estivesse capacitado para aquele empreendimento, ante o qual o contra-mestre, subindo a ponte, repreendeu a tripulação com palavras fortes. Uma vez mais apelou ao seu bom juízo, exigindo que tratassem daquela questão quando chegassem ao porto, pois a todos convinha sair de uma situação tão desventurada…”

No discurso indireto, o narrador usurpa a voz dos personagens e nos descreve as coisas que eles diziam ou murmuravam, as perguntas que foram feitas, as dúvidas que lhes sobrevinham, narrando tais detalhes através da utilização de expressões como “disseram que…”, “perguntavam-se…”, “murmuravam sobre a questão…” etc.

c) O estilo indireto livre é uma variante do estilo anterior, no qual o narrador nos informa também o que dizem os personagens, evitando expressões do tipo “disse que…”. Este estilo aumenta, portanto, sua complexidade e geralmente se utiliza em uma narração em terceira pessoa.

Vejamos sua utilização através de um exemplo em que compararemos os três tipos de discursos:

Em uma narração escrita em discurso direto a voz do personagem se expressaria conforme segue:

-Não vou sair, é muito tarde e, além do mais, está chovendo – disse Estela.

Recorrendo ao discurso indireto, desapareceria a voz do personagem, ainda que mencionasse o seu comentário agregando a expressão “disse que”:

Estela disse que não sairia, pois era tarde e chovia…

Finalmente, no discurso indireto livre, a mesma ação poderia ser mencionada de várias maneiras, com maior soltura. Veja o presente exemplo:

De repente, parou no meio da casa. Não, ela não iria a lugar nenhum; era tarde e chovia. Preferia evitar aquela conversa…

Dessa forma, o discurso indireto livre permite dar uma maior vivacidade ao texto, é menos impostado, oferece a possibilidade de utilizar uma maior quantidade de recursos literários e, em suma, dá mais liberdade ao autor na sua forma de expressão. Apresenta a vantagem de que a voz do narrador chega a passar desapercebida, evitando a sensação de que alguém nos narra uma história, o que permite uma maior identificação do leitor com a trama.

Não obstante, neste tipo de discurso o autor pode incluir, de vez em quando, o discurso direto, ou seja, a voz de um personagem. Deste modo, consegue destacar uma frase dita pelo personagem, apontá-la, dando-lhe uma maior importância relativa, focalizando a atenção sobre ela. Enquanto o resto da narração descreve os personagens, suas vivências, suas inquietudes, seus comentários, a voz citada como discurso direto ressaltará de um modo que conclui a atitude ou o pensamento deles, dando a impressão ao leitor de ter escutado toda a conversa.

Concluindo, na observação dos estilos ou discursos narrativos se pode deduzir que, se bem que aparentemente o mais objetivo seria citar diretamente as vozes dos personagens, na literatura este é o estilo menos utilizado, pois assim não se poderiam apresentar os tons de voz e os gestos que eles utilizaram.

Por outro lado, pela sua dificuldade, tampouco se poderiam transcrever literalmente certos elementos utilizados na comunicação oral que vão mais além da linguagem acadêmica, tais como as onomatopéias, ou uma canção de ninar, ou as vozes de um coral, nem certas palavras que se usam coloquialmente na linguagem fática (sim, claro, pois…) por quem se encontra numa conversa. Por isso, o narrador deve descrever metaforicamente o som produzido, o efeito sobre os personagens, ou as reações deles, recorrendo a um estilo narrativo indireto.

Se for utilizado apenas o discurso direto, todas as frases parecem importantes. Quando se usa com maestria a narração no estilo indireto, tal como é o caso de Gabriel García Márquez, intercalando após a narração as vozes diretas dos personagens, estas aparecem fortes, determinantes, dado que previamente o narrador foi anunciando de um modo preciso o que eles finalmente dizem. Pode-se encontrar bons exemplos dos diversos estilos em “O falador” de Vargas Llosa.

Por outro lado, pode-se utilizar com bons resultados o discurso direto quando queremos ressaltar um modo de se expressar muito particular de um personagem. De qualquer maneira, é sempre aconselhável que as falas dos personagens sejam curtas, bem elaboradas e diretas, para que a narração não perca efetividade e o leitor não perca o interesse na leitura.

É conveniente uma boa prática dos diferentes estilos citados, pois são as ferramentas com os quais se molda o caráter dos personagens e se mantém a expressão narrativa.

Raysan

Exercício recibido

(Resposta ao exercício proposto nº 3, sobre a descrição de uma baleia em alto mar utilizando os cinco sentidos)

A baleia

Quando o capitão me lha mostrou, apenas pude vislumbrar um vulto amorfo e escuro de indefiníveis dimensões, uma pequena protuberância escura sobressaindo por cima do cinzento e agitado perfil que o contorno das águas desenhava sobre o fundo, apenas menos cinza, que o horizonte lhe emprestava. Gradualmente, à medida que nosso barco se alinhava até lá, cavalgando sobre as ondas que obstinadamente teimavam em nos distanciar da sua vista, a baleia foi crescendo aos nossos olhos até que se revelou na sua verdadeira magnitude: uma autêntica mole vivente acinzentada semi-submergida a pelo menos 25 m de longitude. Em um de seus extremos, agitava-se sua colossal aleta, como uma flor de duas gigantescas pétalas molhadas pela água com inquietante fortaleza. No outro, sua cabeça apenas se intuía submergida na água. Sua pele macia e brilhante, sem pêlos, apetecia-me de uma suavidade cálida e úmida. De repente, um potente jato de água se elevou sobre o seu dorso, como um gêiser que surgira de uma minúscula ilha à deriva, emitindo um som prolongado como o grunhido ruidoso de uma criança grande que foi contrariada. Uma rajada de vento levou essa água até nós, uma água morna e salgada oriunda do interior da baleia. Depois só ficou o vento, que nos trouxe aromas de mar e de vida, enquanto a baleia, indiferente à nossa expectativa, desaparecia debaixo das águas.

M. Arroyo

Exercício proposto nº 4 – Propõe-se a descrição concreta de um violino, viola ou contrabaixo. A extensão habitual é de meia folha, em letra Arial 12 ou similar, com parágrafos de um espaço e meio entre as linhas.

Do Fundo da História – Uma flor para o escuro

Não quero ir contigo!

Não, Plutão, não me leve ao Hades. Não quero viver contigo naquele inframundo de escuridão, onde não crescem as flores, onde o Sol não ilumina. Deixe-me com minha mãe, com Deméter, a das espigas, a que reina no calor amável da terra. Não a entristeça, porque se me arrebatares os campos não florescerão, tudo será deserto e frio como teu reino, os humanos morrerão de fome…

Não quero teu amor tão rude, não podes obrigar-me a te amar. Meu coração é livre, como livre é a primavera, o que sou, sem os limites de tuas cavernas, sem as fronteiras de tua escuridão. Assustam-me teus abraços.

Porém tenho que permanecer seis meses contigo, porque assim pactuaste com minha mãe, em troca de minha liberdade parcial. Seis meses nos quais alegrarei teu reino, enquanto a terra sente falta de mim, enquanto as árvores perdem sua coloração verde e os campos se cobrem de geada. Então me deixarás partir e novamente minha presença fará reviver a Natureza.

E, observe, Plutão; levar-te-ei a sentir ternura. Levar-te-ei a compreender e a compadecer. Comoveu-me teu amor, tua necessidade de ser amado.

Tua solidão desesperada.

Por isso decidi te dar, de minha parte, um pouco de amor. Se de meus dedos puderem brotar flores, por que não raspar com eles a escuridão úmida das pedras de tua caverna. Se meu sorriso pode iluminar um mundo triste, por que não sorrir em tuas trevas? Se tuas faces nunca foram beijadas, por que não pôr meus lábios nelas por um instante.

Por que não semear a primavera onde só se conhece o inverno. Deixar um sorriso onde o gesto era amargo. Roçar tuas mãos sempre solitárias. Na realidade, essa é minha tarefa no mundo. Cumprirei-a também contigo, pobre Plutão, sempre nas trevas. Não te temo: não há inverno que não seja vencido pela primavera.

Mª Ángeles Fernández

VOCAÇÃO NOSSA DE CADA DIA – PERCEPÇÃO E VOCAÇÃO

Comumente se confunde sensação com percepção. E talvez numa teoria simplista isso não faça muita diferença, mas quando se trata da vocação é de muita importância deixar bem claro que percepção é uma coisa, e sensação outra. É por esse motivo que começarei este artigo estabelecendo claramente as diferenças.

Sensação é a função exercida pelos sentidos físicos, é um arranjo natural produzido pelo cérebro, enquanto que a percepção é uma das funções exercidas pelas faculdades cognitivas, arranjada culturalmente pela mente consciente do ser humano.

Isso propõe uma série de diferenças que podemos descrever como uma trave de quatro colunas:

SENTIDO ÓRGÃO SENSAÇÃO PERCEPÇÃO
VISÃO Olhos Olhar Ver
AUDIÇÃO Ouvidos Ouvir Escutar
TATO Pele Tocar Sentir
OLFATO Nariz Cheirar Selecionar
PALADAR Palato Degustar Qualificar

Em geral, todos olhamos, ouvimos, tocamos, cheiramos e degustamos de forma natural, porém nem todos vemos, escutamos, sentimos, selecionamos e qualificamos, já que isso não é uma questão natural mas um desenvolvimento da consciência e evolução da mente humana. A percepção é proporcional ao conhecimento que faz parte da cultura e da evolução da humanidade.

Enquanto a sensação é um movimento de fora para dentro, a percepção é de dentro para fora. Ou seja, a sensação é informação que provém do mundo e dos seus objetos, e a percepção é in formação que vem da consciência cognitiva e dos seus objetos mentais.

Isso nos leva ao encontro de teorias de grandes filósofos que comparavam a sensação e a percepção com um espelho. Se a sensação se movimenta através dos sentidos, de fora para dentro, e a percepção de dentro para fora, ambas se encontram em algum ponto interior, onde coincidem. Nesse ponto existe uma espécie de espelho que reflete a compreensão de tudo, ou seja, de todas as coisas e também de nós mesmos. Esse espelho corresponde a nossa mente concreta com a qual nos desenvolvemos no mundo concreto.

Da mesma maneira que um espelho sujo distorce as imagens que nele se refletem, quando a mente está “embaçada” o conhecimento do que nos rodeia e de nós mesmos é confuso e incorreto. Pois bem, com relação à vocação, é de vital importância que nosso espelho interior esteja limpo e claro, para que reflita de forma adequada nossa verdadeira forma interior, isto é, quem somos, para que viemos ao mundo e para que estamos sendo convocados.

No Universo, tudo passa por arranjos, inclusive o conhecimento. E o arranjo do conhecimento se estrutura na relação de equilíbrio, sintonia e sincronismo entre as sensações e as percepções humanas. É fundamental então estruturar as sensações e as percepções por meio de arranjos cognitivos cujo fundamento principal é a intervenção da consciência em todos os assuntos, desde os mais transcendentes e importantes até os mais quotidianos e “domésticos”. Os suportes da consciência humana são a ética e a moral, já que a consciência sabe estabelecer a harmonia entre o homem e o Universo. Por isso, em termos vocacionais, a ética e a moral não são opções, mas o caminho traçado pelo destino de cada indivíduo. O conceito de vocação não é mais que o chamado a servir, do destino ao ser humano, ou seja, a convocação de cada cidadão para aportar à sua sociedade aquilo que de mais inteligente e melhor sabe e pode fazer pelos demais.

Por fim, a percepção é também um dos mais importantes sinalizadores da vocação, já que ela é um espelho que reflete de forma muito clara os interesses humanos que em geral não estão expressos na mente, mas sim na consciência. Definitivamente, a vocação é uma questão de verdadeiro interesse humano. A percepção possui um perfil específico motivacional e se comporta de maneira vocacional e, quando é feita uma leitura correta com relação a ela, se encontra um excelente sinalizador para a vocação.

As Termópilas

Um desses momentos da história que marcaram de maneira definitiva e indiscutível o futuro da humanidade.

O nome do lugar significa “portas quentes”, remetendo às águas termais que ainda hoje se encontram nessa zona. Segundo certa tradição, quando Hércules estava perto da morte, sentindo na pele o ardor que lhe causava a túnica do centauro Nesso, atirou-se num rio próximo a Tranquis (perto das Termópilas) para extinguir o fogo que o consumia. Morreu afogado, mas as águas do rio conservaram seu calor.

Por uma estranha coincidência, os espartanos, que se consideravam descendentes de Heracles, ou heráclidas, também pereceram ali, tal como o herói; e é significativo o nome do seu rei: Leônidas, pois o leão — símbolo da realeza — foi o animal vencido por Heracles em um de seus doze trabalhos.

O local era uma estreita passagem entre as montanhas e o mar, tinha uma longitude de 2,5 Km e em alguns pontos sua largura se reduzia a apenas 15 metros. Constituía a porta de acesso do Norte para a Grécia, e no ano 480 a.C. o rei persa Xerxes conduzia por ali um numeroso exército.

Dez anos antes, Dario o Grande, Rei de Reis, Senhor da Pérsia, tinha sido derrotado pelos atenienses em Maratona. Dario estava resoluto em vingar semelhante humilhação, mas uma revolta no Egito o impediu de se dirigir diretamente à Grécia, e no ano de 485 a.C. morreu em Susa.

Xerxes, seu sucessor, não tinha a princípio intenções de atacar a Grécia, no entanto rapidamente mudaria de opinião. Seus conselheiros o fizeram ver a possibilidade de enriquecer com os espólios da fértil Europa, onde, salvo as pequenas cidades gregas, não havia ninguém capaz de oferecer uma resistência organizada ao imenso poder do Grande Rei.

Segundo Heródoto, o exército persa era composto por mais de dois milhões de homens e, para seu abastecimento, dependia da frota persa, portanto ambas as forças — naval e terrestre — deviam avançar coordenadamente, seguindo a costa.

Ao lado de Xerxes, se encontrava o espartano Demarato, a quem perguntou se alguma cidade grega se atreveria a lhe fazer frente. Demarato respondeu:

Não posso falar pelos demais gregos, mas conheço meu povo: mesmo que estivessem sozinhos, lutariam contra ti; mesmo se fossem somente mil contra todo o teu exército, podes ter certeza que esses mil lutariam.

Como é possível? — perguntou novamente Xerxes — Mil contra todo meu exército… e mesmo que houvesse mais deles… Como iriam lutar, se pelo que dizes são homens livres e não obedecem a um só homem como fazem minhas tropas?

As tropas gregas nas Termópilas eram formadas por cerca de sete mil homens de diferentes cidades, sob o comando do rei Leônidas, que era acompanhado por trezentos espartanos da sua guarda real. Ao se despedir da sua esposa, a rainha Gorgo, esta lhe perguntou:

Que farei se não voltares?

Se eu morrer, casa com alguém digno de mim e tem filhos fortes para que sirvam a Esparta — respondeu Leônidas.

Os persas acamparam nas proximidades da entrada do desfiladeiro, e Xerxes enviou um batedor em missão de espionagem para observar os gregos. Quando o batedor retornou, Xerxes ficou atônito ao escutar seu relato. Os espartanos faziam exercícios atléticos, limpavam e afiavam suas armas, e alguns estavam se penteando e arrumando seu cabelo.

Demarato explicou a Xerxes que isso significava apenas uma coisa: que os espartanos iam lutar, pois esse era o ritual que seguiam antes de entrar em batalha, e que se vencesse a esses e aos que tinham permanecido em Esparta, dominaria o mundo, pois iria enfrentar os melhores e mais ferozes guerreiros da Grécia. Xerxes ainda lhe perguntou que tática um número tão pequeno de homens utilizaria para tentar detê-lo.

Demarato explicou a Xerxes que um hoplita espartano é tão bom como qualquer outro, mas unido a outros espartanos seu valor é dez vezes maior.

Para Xerxes era inconcebível que um exército tão pequeno e com tão escassas chances de vitória se atrevesse a enfrentá-lo. Assim, aguardou três dias e três noites com a crença de que finalmente os gregos se convenceriam da futilidade de qualquer resistência e partiriam. Depois de três dias de espera, vendo que os gregos não tinham a intenção de fugir, Xerxes enviou um mensageiro oficial para falar com Leônidas.

Uma vez diante dele, o oficial transmitiu a mensagem de Xerxes: informou o espartano sobre a força do exército persa, informou-o de que no dia seguinte atacariam sem trégua; por último convidou o rei a se render e disse que o Grande Rei, na sua generosidade, pouparia suas vidas se entregassem suas armas.

Que reposta devo levar ao rei? — perguntou o mensageiro — Leônidas respondeu laconicamente:

Que venham buscá-las.

Essa noite, junto às fogueiras do acampamento grego, um desanimado hoplita de Tarquis comentou que no dia seguinte, quando os persas atacassem, suas flechas ocultariam a luz do sol. Um espartano chamado Dienekes respondeu secamente:

Tanto melhor: combateremos à sombra.

Leônidas concentrou suas tropas na parte mais estreita do desfiladeiro. Decidiu não mesclar os contingentes das diversas cidades, pois sabia que os homens preferem morrer ao lado de seus amigos, e que além do mais é sempre mais difícil para um homem fugir e abandonar sua posição na falange quando aquele que vai abandonar, e cujo flanco deixará desprotegido, é um amigo. Situou os espartanos à frente das tropas gregas, enquanto os aliados esperavam ser chamados.

Os persas começaram a avançar e penetraram no desfiladeiro. Quietos, formados em falange, os espartanos entoaram um péan (hino em honra ao deus Apolo). Com grande estardalhaço, os persas arremeteram contra eles; quando já estavam bem perto, a falange se pôs em marcha. O choque foi terrível, os persas se lançaram às centenas sobre a muralha humana formada pelos espartanos, em cujas lanças se espetavam. Sentado no seu trono, Xerxes se inquietava diante do que presenciava; os espartanos estavam despedaçando suas tropas; e quando Leônidas ordenou aos demais aliados gregos que se engajassem no combate, a matança não diminuiu.

Ao cair da tarde, os persas se retiraram deixando grande quantidade de mortos no campo. Sem pausa, para não dar descanso aos defensores, o general persa Hidarnes enviou a guarda real, os chamados Imortais, convencido que essas tropas de elite aniquilariam facilmente os já cansados gregos. Os imortais eram o que havia de melhor no exército persa, escolhidos entre o que havia de melhor na nobreza.

Eram um total de dez mil homens e seu nome vinha do fato de que cada vez que um deles caía, era rapidamente substituído, nunca deixando de ser dez mil.

Os Imortais atacaram bravamente, avançaram sobre os corpos de seus camaradas caídos, mas eram abatidos às dúzias, trespassados pelas lanças dos espartanos, que haviam retornado à vanguarda grega. O valor e o ímpeto mostrados pelos imortais foram dignos de ser lembrados. Os espartanos sofreram algumas baixas, mas a falange não se desfez. Os persas tentaram encontrar alguma brecha para romper as linhas gregas, mas não encontraram nenhuma.

Assim foi-se o dia e veio a noite. Os persas, desanimados, se retiraram e os exaustos defensores tiveram algumas horas de repouso. Ao amanhecer, a batalha recrudesceu. Sabendo que os gregos eram pouco numerosos, os persas atacaram com a esperança de que, feridos e exaustos após a luta do dia anterior, seria fácil derrotar os defensores. Enganaram-se. Os gregos, como haviam feito antes, se agruparam segundo sua procedência e, revezando-se na primeira linha, exterminaram os persas que, fustigados pelo chicote de seus oficiais, se dirigiam como cordeiros ao matadouro.

Com o crepúsculo, a batalha cessou. Xerxes se debatia inquieto, nem ele nem seus generais sabiam como vencer a resistência dos gregos. Para piorar as coisas, sua frota havia travado batalha com a dos gregos nas proximidades do cabo Artemision, sem conseguir vencê-la, de tal modo que não havia maneira de ir além das Termópilas pelo mar.

O exército persa não podia esperar indefinidamente naquela região pobre e estéril, pois em breve os víveres começariam a faltar e, ainda pior, a moral estava baixíssima. Então, como em toda história épica, fez sua aparição a traição. Efialtes, um pastor natural da região, solicitou audiência ao rei Xerxes. Uma vez na presença do Grande Rei, com a garantia de uma suculenta recompensa, informou-o de que existia uma passagem que, rodeando o monte Kalidromos, pelo sul, desembocava do outro lado do desfiladeiro. Imediatamente, Xerxes ordenou a Hidarnes que colocasse os dez mil Imortais em ordem de marcha e que, sem perda de tempo, partisse guiado por Efialtes.

Quando amanhecia, os vigias deram aviso das manobras envolvendo os persas, Leônidas ordenou que todas as tropas abandonassem o local de imediato. Assim, se salvariam e poderiam voltar a lutar mais adiante. No entanto, ele decidiu permanecer com os trezentos espartanos. Segundo Heródoto, os setecentos hoplitas téspios se negaram a obedecer a ordem de retirada e abandonar os espartanos. Assim pois, esse punhado de homens, que constituía todo o exército de Téspias, escreveu a página mais gloriosa de toda a história da sua pequena cidade.

Leônidas sabia que se os persas atravessassem a passagem das Termópilas chegariam a Atenas rapidamente, o que obrigaria a frota grega a se retirar para tentar evacuar a cidade. Isso provavelmente teria levado a dois possíveis resultados: ou a frota grega seria destruída pela frota persa na retirada, ou Atenas seria destruída sem tempo para uma evacuação. Em ambos os casos, a Grécia estaria perdida.

Além disso, Leônidas conhecia e acreditava na profecia do oráculo de Delfos, segundo o qual Esparta seria devastada pelos persas a menos que um de seus reis morresse. Por outro lado, a lei de Licurgo não permitia fugir do campo de batalha ante nenhum inimigo, mas permanecer no posto para vencer ou morrer. Ou seja, para os espartanos, partir teria sido uma desonra.

Portanto, a permanência de Leônidas nas Termópilas permitiu à frota grega retirar-se ordenadamente. Leônidas enviara mensageiros para informar da sua decisão e solicitar a retirada o quanto antes, pois as Termópilas estavam prestes a cair.

Pouco antes da batalha final, enquanto comiam algo, Leônidas disse a seus homens: esta é nossa última refeição entre os vivos, preparem-se bem amigos porque esta noite jantaremos no Hades. E com a serenidade dos que já decidiram seu destino, os gregos formaram uma falange, todos juntos desta vez. Diante deles estava o exército de Xerxes e nas suas costas os dez mil imortais fechavam a passagem do outro lado do desfiladeiro.

O heroísmo que demonstraram os gregos foi magnífico e digno da maior admiração. Se tivessem decidido arremeter contra os imortais que recém lhes haviam fechado o passo de retirada, talvez tivessem conseguido abrir caminho e escapar. Mas em vez disso, arremeteram contra o grosso das forças do exército persa numa luta que, sabiam de antemão, estava perdida.

Leônidas caiu após ter aniquilado muitos persas com sua lança. Então se desencadeou uma brutal batalha pelo seu corpo, pois os espartanos não desejavam que o cadáver do seu rei caísse nas mãos do inimigo. Várias vezes os persas quase o tomaram, e tantas outras os espartanos os rechaçaram.

Quase todos os homens estavam gravemente feridos, suas lanças partidas, muitos escudos inutilizados, mas a luta não cessava e já não se dava nem se pedia trégua; os espartanos e os téspios que conservavam suas espadas as utilizavam, os que não, lutavam com as bordas de seus escudos e com suas lanças quebradas. Alguns inclusive usavam pedras ou as próprias mãos e dentes para ferir o inimigo.

Finalmente, diante das baixas que estavam sofrendo, os persas retrocederam. A seguir se adiantaram os arqueiros e uma chuva de flechas acabou com os poucos espartanos que ainda restavam.

As Termópilas haviam caído, mas os persas haviam sofrido um espantoso número de baixas: mais de vinte mil homens.

Xerxes perguntou a Demarato: ainda há mais espartanos com quem lutar? E este respondeu: sim, há mais 8.000 como estes, preparados para defender Esparta. Xerxes percebeu que não seria fácil continuar adiante.

O resto da história é conhecido. Depois de ser evacuada, Atenas foi saqueada e incendiada pelos persas. Mas em Salamina a frota persa foi derrotada pela grega. E pouco depois os gregos derrotaram os persas em Platéia. A Grécia havia vencido. Um século e meio mais tarde, Alexandre o Grande retribuiria a visita dos persas, mas não como o propósito de dominá-los, a sim para fundir suas culturas, o que finalmente conseguiu.

Hoje é fácil esquecer isso, mas a vitória das pequenas Pólis gregas diante do gigante persa mudou definitivamente nossa história. Foi uma autêntica luta de civilizações. Toda a Ásia atacou a um pequeno grupo de cidades onde os homens valorizavam a liberdade e a lei acima de tudo. Se a Grécia tivesse sido vencida, a Europa e sua cultura não existiriam, porque não teriam tido nem mesmo a chance de nascer.

Os espartanos que morreram nas Termópilas foram um exemplo para todos os gregos e seu exemplo perdurou. Se bem que a batalha física se tenha perdido, pois os persas atravessaram as Termópilas, moralmente Xerxes foi derrotado. O heroísmo espartano venceu seu numeroso exército, que finalmente sucumbiu.

Na colina onde caíram os últimos espartanos, identificada graças às pontas de flechas encontradas pelos arqueólogos, há uma pequena lápide, na qual se lê o epigrama que o poeta Simónides de Cós escreveu há 25 séculos em honra dos espartanos que caíram nas Termópilas: Viajante: vá até Esparta e diga aos espartanos que aqui descansamos por obedecer suas leis.

Miguel Ángel Antolínez

DOSSIÊ EXTREMO ORIENTE

A língua japonesa: a Alma do Sol Nascente

O yen é um valor que passa…o Kami, que se reflete na Alma do Japão, não passa.

(Jorge Angel Livraga)

Introdução

De todas as artes criativas que compõem o criativo e colorido mosaico cultural do Japão, talvez a mais impenetrável para o ocidental seja a sua Literatura e sua singular forma de linguagem expressiva e escrita.

Pode resultar relativamente fácil aprender Ikebana, pintura aguada ou Cerimônia do Chá. Mas difícil é dominar essas mesmas artes com o Espírito que deve animá-las. E indiscutivelmente difícil é adentrar o domínio da criação literária japonesa, porque seu material constitutivo — a língua falada e escrita — é uma arte em si mesma, e de uma beleza expressiva tão simples e profunda, que exige do iniciante muitos anos de estudo.

A língua japonesa escrita é ao mesmo tempo analítica e sintética, condensada e difusa; chegou a ser considerada com uma das escritas mais abstrusas e de maior peso mental para aquele que inicia seus primeiros estudos na Literatura no País do Sol Nascente.

A dificuldade de compreensão que oferece a linguagem escrita, ainda para os que a estudam com profundidade, supõe uma barreira invencível para a apreciação direta, não apenas da sua literatura, mas também da idiossincrasia, a forma de ser do povo japonês. Foram publicadas traduções e inúmeros estudos na língua inglesa, porém em espanhol as traduções ainda são poucas. Os tênues matizes da sensibilidade japonesa estão intimamente imbuídos nos ideogramas que expressam no texto original, nos neologismos formados pela combinação de ideogramas, nas fórmulas de tratamento, nos jogos de palavras, e na sua maneira de perceber esse mundo fantástico de Kamis. Todos esses valores, que dão um sabor de existência verdadeira à mensagem literária, muitas vezes passam desapercebidos nas traduções ocidentais.

A língua japonesa. História e atualidade.

Na antiga cidade de Nara, no século VIII d. C., se desenvolveram seis Escolas de ensinamento do Budismo, baseando-se em textos hindus, sânscritos e em sutras caligrafados pelos monges e pelos letrados japoneses em língua chinesa clássica.

Um dos grandes mestres da transmissão da doutrina, Saicho,

adotou mais tarde o nome de Dengyo Daishi. Iniciado aos catorze anos na doutrina da Escola Hosso, estudou os ensinamentos dos mestres chineses, e especialmente o sutra do lótus. Em 794, fundou um monastério perto de Kioto denominado Enryaku-Ji, que se converteu no centro da Escola Tendai. Saicho, que estudou os preceitos da “palavra verdadeira”, tentou expor os ensinamentos de Buda sem deturpá-los com as suas próprias interpretações.

O célebre monge Kukai, conhecido mais tarde com o nome de Kobo Daishi, viajou pela China no início do século IX para seguir os ensinamentos da “palavra verdadeira”.

Anos mais tarde, regressou ao Japão levando consigo não só objetos sagrados mas também uma grande quantidade de conhecimentos que buscou transmitir com total fidelidade aos seus contemporâneos. No ano 816, fundou no monte Koya, ao sul de Kioto, o templo de Kongobu-Ji, que se converteu no centro da Escola Shingón, seita muito importante do Budismo esotérico, integralmente consagrada ao estudo dos textos sagrados.

A partir da escrita esotérica derivada do sânscrito, criaram-se os caracteres kana, sinais silábicos que deram origem à escrita japonesa (recordemos que ao entrar em contato com os chineses, os japoneses não possuíam ainda uma linguagem escrita).

Nascimento da escrita

Com a chegada dos novos ensinamentos budistas, e as freqüentes viagens de eruditos na busca de um conhecimento mais profundo da doutrina búdica, fez-se também presente a adoção da escrita como elemento imprescindível na transmissão dos novos ensinamentos dos mestres hindus e chineses.

Os mestres japoneses, ao entrar em contato com a cultura chinesa, adotaram os caracteres chineses ideográficos, para mais tarde adaptá-los e combiná-los com a sua língua nativa. Esses signos (kanji), que oralmente são monossilábicos, semanticamente expressam conceitos globais.

Querendo simplificar o entendimento e a escrita dos kanji, chegou-se a um conjunto de caracteres que representavam una consoante e uma vogal e que constituem um silabário de 50 símbolos. Com mais uns poucos símbolos diacríticos, representaram foneticamente toda a sua linguagem falada. Era o hiragana, uma escrita cursiva com a qual se poderia escrever e expressar sua língua com caracteres especificamente nipones. Dessa forma, com a escrita dos kanji e paralelamente com os hiraganas, deu-se um enorme impulso à expressão da literatura popular japonesa, que até então se encontrava um tanto adormecida, não por inexistir seu espírito de manifestação, mas pela carência de um elemento material tangencial por que desbordar e canalizar todo esse grande mundo de percepção e idéias:a escrita.

Com o hiragana, no século VIII, já se havia desenvolvido um sistema ainda mais simplificado, que deu origem a um tipo de letra de forma mais simples e de linhas mais retas, o katakana, constituído igualmente por 50 sílabas.

Com o decorrer do tempo, essas escritas se fundiram no que se denomina genericamente kanamajiri, em que os caracteres kanji são utilizados geralmente para representar idéias, conceitos; o hiragana, por sua vez, para notas particulares; e finalmente o katakana para a escrita das palavras de origem estrangeira.

A complexidade não se detém aqui. Numerosos símbolos kanji, escritos de maneira distinta, são foneticamente equivalentes. Assim, una mesma palavra japonesa pode ter várias interpretações, e uma enorme quantidade de palavras homófonas podem ter sentidos diversos, dependendo do significado do símbolo kanji utilizado.

Dada a grande multiplicidade dos kanji, o acesso à linguagem especializada se torna particularmente difícil, o que levou aos japoneses, em muitos casos, a colocar ao lado do escrito kanamajiri sua versão em caracteres katakana, para fazer assim compreensível sua leitura e interpretação.

Para facilitar as coisas, o kanamajiri da linguagem corrente, de jornais e revistas, ficou oficialmente limitado a utilizar 1800 símbolos kanji. Supõe-se que os japoneses alfabetizados dominam pelo menos 1900 caracteres para seu uso cotidiano.

Uma língua precisa e ambígua ao mesmo tempo.

Agora podemos compreender, mesmo que superficialmente, como pode a linguagem japonesa ser analítica e sintética, condensada e difusa, exata e aureolar. A realidade é que, além de ser uma das línguas mais difíceis de estudar, é também, simultaneamente, uma das mais ricas em capacidade de expressão.

Em virtude de sua herança ideográfica, a escrita japonesa contém, além de um significado preciso, uma aura de significados análogos ou distintos que lhe dá um extraordinário poder de ambigüidade e difusão semânticas.

Quando ambas características se unem em uma frase, podemos dizer algo extremamente preciso, e ao mesmo tempo sugerir una infinidade de outras coisas. Assim, corretamente traduzido, um texto japonês pode ser de uma profundidade e simplicidade exemplar e, ao mesmo tempo, constituir uma versão enganosa, pois todos os outros múltiplos significados gloriosos foram perdidos ao pretender traduzir para uma língua estrangeira o espírito da língua japonesa, como por exemplo um koan (idéia) zen, ou um clássico poema haiku.

É por essa razão que o japonês pode se estender infinitamente com uma linguagem coloquial para expressar um sentido e, por outro lado expressar toda uma situação com uma só palavra, o que para um ocidental demandaria numerosas frases detalhadas e abstrusas.

Conta-se que se por desventura o japonês cedesse ao espírito racionalista e utilitarista tão característico da cultura ocidental, abandonando o seu kanamajiri, e se restringindo a uma linguagem extremamente simples de kanas, perderia com isso não apenas sua riqueza, procedente de um tesouro tradicional milenar, mas também seu poderoso instrumento intelectual e espiritual representado pela sua inigualável língua.

Não é apenas por razão de ordem estética que os japoneses conservavam zelosamente sua língua. Talvez, por serem extremamente pragmáticos, essas duas tendências niponas se reforcem na hora de conservar uma língua escrita que, além de esteticamente valiosa, abriga elementos intelectuais ilimitados, que permitem um grau de refinamento cultural que a maioria das línguas não poderia desenvolver. Tudo isso se associa à infinita paciência de decifrar, entender e dominar no mínimo 1900 caracteres gráficos, desde a infância escolar; e saber que isso é apenas o início de um universo lingüístico exuberante e dinâmico, que tem muita relação com disciplina, paciência, constância, delicadeza. Assim como a perspicácia e adaptabilidade que o povo japonês tem para assimilar rapidamente tudo que é novo e que chega ao seu mundo circundante, essa perspicácia a caracteriza na hora de abordar qualquer tema, não apenas tecnológico, mas especialmente os relacionados ao espírito humano.

A poesia do Sol Nascente

A seguir oferecemos uma breve pincelada de uma das formas de arte tradicionais da escrita, a poesia, sutil e bela, inegavelmente arraigada na natureza e na alma religiosa do mundo japonês, que por suas conotações lingüísticas nos interessa no momento.

Uma das melhores definições do que significa a poesia para o povo japonês é encontrada nos alvores de sua literatura, no prólogo de Kokinshuu (Coleção de poesia antiga e moderna), de 905 d.C. São palavras de um de seus compiladores, Kino Tsurayuki:

A poesia japonesa tem uma semente no coração humano e cresce em inumeráveis folhas de palavras. Nesta Vida muitas coisas impressionam aos homens: eles buscam então expressar seus sentimentos por meio de imagens extraídas do que vêem ou ouvem. Quem há dentre os homens que não componha poesia ao ouvir o canto do rouxinol entre as flores, ou o croar da rã que vive na água? A poesia é aquilo que, sem esforço, move o céu e a terra e provoca compaixão em demônios e deuses invisíveis; o que faz doces os laços entre homens e mulheres; e o que pode confortar os corações de férreos guerreiros.

A poesia começou quando a vida foi criada, para animar o céu e a terra. O poeta japonês não se crê possuidor de essência diversa do resto da criação. Por sua herança cultural xintoísta e budista, sente uma profunda simpatia por todo o animado, uma compaixão universal. Por isso pode dialogar com todas as coisas deste mundo e captar a mensagem dos seres mais insignificantes. O japonês vê crescer a vida sobre um cenário animista que o faz descubrir traços de sua própria existência em cada objeto natural.

O haiku se situa no extremo oposto de toda verbosidade e ornato literário. Revela mais a emoção de um homem em um instante e nesse sentido é um estado da alma. Não é uma reflexão sobre as coisas, mas uma simples visão da realidade. Através dessa visão se podem descobrir determinados hábitos óticos e uma especial sensibilidade.

O momento estético de criação do haiku brota de uma total unidade de percepção do poeta na Natureza. Apagam-se os limites entre sujeito e objeto, entre a percepção e as palavras. Assim, a árvore de cerejeira, com sua flor que cai antes de murchar, simboliza a honra do samurai; o lótus sugere o mundo de ilusão de Amida e o pressentimento vago de existências futuras; o pinheiro faz pensar em legendários anciãos robustos e faz desejar a longevidade.

O professor Bonneau assinala que o conhecimento para o japonês é essencialmente concreto e simbólico, talvez por atavismo, tradição e educação. Como prova dessa afirmação, alega que enquanto que os gêneros literários “concretos” (novela, poesia, teatro) floresceram no Japão desde a época Nara (710-794), os gêneros “abstratos” (Filosofia, crítica, História), pelo menos no sentido comum em que entendemos essas palavras, ficaram ali como testemunhos atípicos e estrangeiros.

O haiku não aponta, pois, à beleza, mas sim ao significativo. A apreciação da beleza poderia ver-se tingida de subjetivismo e representaria um corte do cordão umbilical que estabelece a comunicação com a mãe Natureza.

Conclusão

A história, os valores, as soluções culturais niponas são a tal ponto distintas, originais e sob certos aspectos totalmente opostas à experiência da chamada cultura ocidental, que do contato com eles se suscita espontaneamente em todos os espíritos a sensação de se encontrar diante de algo enigmático, impenetrável, misterioso.

Esse é precisamente o seu encanto, o seu desafio. Na realidade, o mistério continuará enquanto não abrirmos as portas de nossa inteligência superior e de nosso coração.

No que se refere às questões humanas, a fria lógica, a razão, não basta. Ela se encontra a tal ponto comprometida com interesses, egoísmos e orgulhos que sua visão é apagada, superficial e limitada.

Necessita de algum elemento ilimitado na sua capacidade de penetrar, compreender naturezas aparentemente ilógicas e aceitar o que apareça.

A alma do Japão e da sua linguagem escrita e oral integram a capacidade que tem de se adaptar, pois em toda a sua longa e polifacetada história sempre perceberam e assimilaram o melhor de outras zonas da terra. Japão, geográfica e simbolicamente, supõe o fim de um grande começo.

Hashimoto Hidekichi

Alguns exemplos clássicos de poesia haiku japonesa

Com ligeiros estalos

Mastiga o doce arroz

a bela mulher.

Issa.

Graças sejam dadas ao alto;

a neve sobre o cobertor

vem também de Joodo.

Issa.

Secos crisântemos;

dezessete antanho,

minha oferenda floral.

Onitsura.

Arrastando suas densas

sombras,

brincam os lagartos.

Kyoshi.

Samurais, a alma do Japão

Legendários guerreiros japoneses, imortalizados por meio de mitos, lendas e mais recentemente do cinema, do teatro e da literatura, constituíram a alma do Japão durante mais de mil anos, e apesar de sua extinção em meados do século XIX, seu espírito perdurou até a atualidade.

No Japão feudal, a palavra “samurai” designava una classe de guerreiros especialmente treinados na prática das Artes Marciais, que estavam vinculados a um senhor da corte imperial como seu guarda pessoal, função que se reflete de maneira clara na etimologia, pois o termo primitivo foi “saburai” (de “sabuna”, “estar ao lado”), do qual derivou samurai, que literalmente significa “guarda”. Com o tempo, se aplicou essa denominação a todos os militares (bushi) de certa categoria que pertenciam a famílias guerreiras (buke).

O grupo dos bushi — cujas técnicas se transmitiam de pai para filho e de mestre para discípulo — se desenvolveu principalmente nas províncias do norte do Japão, onde os senhores feudais (daimyos) tinham necessidade de se defender.

Um desses senhores feudais foi Tokugawa Leyasu, que governava a parte oriental do Japão do seu castelo em Edo (atual Tokio). Elevou-se com supremacia ao derrotar o resto dos daimyos na batalha de Sekigahara em 1600. Três anos depois, adotou o título de Shogun. Foi durante essa época que a figura desses guerreiros aristocratas experimentou seu maior auge, porque para além das terríveis guerras domésticas que haviam açoitado o país, fez-se necessário vigiar estritamente a paz, trabalho de que os samurais estavam incumbidos.

Bushido

Como eram os samurais? Como pensavam, sentiam e atuavam? Que educação recebiam? A resposta deve ser buscada no bushido. O termo bushido significa literalmente “via do guerreiro”. Era o código de honra e de ética que deviam praticar os guerreiros e nobres samurais. Desenvolvido em plena época feudal, entre os períodos Heian e Tokugawa (aproximadamente no século XII d.C.), baseava-se nos princípios éticos de lealdade, sacrifício, justiça, valor, modéstia e honra.

As fontes do bushido foram as doutrinas do xintoísmo, budismo, confucionismo e uma escola de pensamento, o zen.

O budismo aportou ao bushido o sentimento de confiança no destino, a submissão tranqüila ao inevitável, o sangre frio, a serenidade diante do perigo ou da desgraça, e o não temer a morte. O zen representa o esforço humano para alcançar pela meditação um estado superior de consciência que leve a contemplar a unidade da vida. O xintoísmo deu ao bushido a lealdade para com o soberano, a veneração à memória dos antepassados, a piedade subsidiária e o amor à pátria. Essa não era apenas a Terra, como também a mansão dos Deuses e dos espíritos dos antepassados. Por último, o confucionismo marcou os cinco tipos de relações com o mundo dos homens, o mundo circundante e a família: entre senhor e servente, pai e filho, marido e esposa, irmão maior e irmão menor e entre amigos.

Para os samurais, os que apenas se dedicavam a ler e não vivenciavam os ensinamentos dos Mestres eram chamados “tontos que cheiram livro velho”. A ciência não chega a ser importante até que o espírito a tenha assimilado e se manifeste na forma de ser e no caráter. O saber apenas era considerado real quando era posto em prática na vida. Como dizia sempre Wan Yang Ming: “Saber e fazer são a mesma coisa”.

O bushido se sustenta especialmente sobre dois princípios básicos. O primeiro é que todo samurai deve sempre ter presente na sua vida a idéia da morte, pois a existência humana, e muito especialmente a do guerreiro, é sobretudo transitória. Por isso, foi escolhida a frágil e efêmera flor da cerejeira como o símbolo da vida do samurai.

Isso lhe confere um enorme poder, pois um homem sem medo de morrer é quase invencível. Além disso, um samurai preferirá morrer a ver seu nome desacreditado (a morte não é eterna, a desonra sim), o que podia ocorrer se fosse tachado de covarde ou transgredisse alguma das normas do bushido. A única forma de recuperar a honra perdida pelo infrator era a de recorrer ao harakiri ou suicídio ritual.

O segundo princípio é o da lealdade e da fidelidade mais estritas, à disposição dos governantes do país, os daimyos, mas sobretudo ao imperador.

O educador e escritor Inazo Nitobe definiu assim as virtudes que os samurais deviam possuir: o sentido da justiça e da honestidade, o valor e o desprezo à morte, a boa convivência com todos, a educação e o respeito à etiqueta, à sinceridade e o respeito pela palavra dada, a lealdade absoluta para com os seus superiores e, finalmente, a defesa da honra do seu nome e do seu clã, o que se resumia em: dever (giri), resolução (shiki), generosidade (ansha), firmeza de alma (fudo), magnanimidade (doryo) e humanidade (ninyo).

Todos esses fatores fizeram do bushido um código muito simples aparentemente. Entretanto, esses valores atemporais alimentaram toda uma nação através dos séculos.

Um samurai devia portar-se sempre com justiça e consideração e não cometer nenhum abuso de poder, como exceder na cobrança de impostos ou nas punições. Era importante diferenciar o justo do injusto, já que a tendência natural do homem é seguir o segundo caminho. O bushido estabelecia que, em tempos de paz, os samurais deviam colocar sua força ao serviço dos mais fracos, e sua sabedoria devia agir como mestra dos ignorantes. Existe, de fato, uma expressão do bushido, “Bushi no Nasake” (cuja tradução seria “ternura do guerreiro”), que expressa a necessidade de que os homens mais fortes e valentes soubessem também se mostrar acessíveis a sentimentos como a compaixão, a doçura ou a justiça para com todos os seres, tal como ensina também o budismo.

O samurai devia possuir também uma especial educação e um amplo conhecimento sobre as coisas. Antigamente, os jovens guerreiros eram enviados ao combate na idade de quinze a dezesseis anos, logo, sua formação militar começava aos doze ou treze anos, sem muito tempo para se desenvolver intelectualmente. Posteriormente isso mudou e antes de se iniciar na carreira bélica, aos sete ou oito anos, os meninos eram introduzidos nos Quatro Livros de Confúcio, no aprendizado de Literatura e de História, assim como na arte da Caligrafia. Quando completavam quinze anos, lhes eram ensinados o tiro com arco, a equitação, o manejo da espada, o jiu-jitsu e outras artes militares.

A katana é o sabre de combate dos samurais, que a consideravam como sua própria alma. Diz-se que na katana reside o espírito do samurai, motivo por que lhe confere mais cuidados do que a si mesmo, não permitindo que volte suja de sangue para a sua bainha, o que lhe causaria manchas de ferrugem. Por outro lado, o ato de desenbainhar era medido cuidadosamente, pois, uma vez que a espada estava fora de seu invólucro, a tradição exigia manchá-la de sangue (“não me tire sem valor nem me guarde sem honra”, era o lema). A relação do samurai com sua arma fica refletida nestes versos do mestre Morihei Ueshiba, fundador do Aikido: “Clara como o cristal, aguda e brilhante, a espada sagrada não admite lugar para alojar o mal”.

A katana tinha caráter sagrado, pois foi criada diante de um altar shinto por um sacerdote vestido de branco — símbolo de purificação —, imbuído de um conhecimento divino e auxiliado pelos espíritos (kami). Após os ritos purificadores que clarificavam sua mente, o criador começava o seu trabalho com uma oração: “Ligava sua alma e seu espírito ao aço que forjava e corrigia”. Os segredos dessa ciência se transmitiam de pai para filho e constituíam parte do mistério da grande qualidade destas armas.

Com o restabelecimento de Meiji, quando o tempo dos samurais já havia passado e ocorriam mudanças no Japão, foi evidente que havia que se estabelecer um novo caminho que modularia a força da nação japonesa. Com a Segunda Guerra Mundial, surgiu um novo tipo de samurai, condicionado a buscar seu Caminho em meio à crescente modernização do país, e outro tipo de senhor para o qual oferecer os seus serviços. As grandes companhias (zaibatsu), ocuparam bem esse posto, pois desempenhavam mais o papel de uma família do que de uma empresa, o que gerava um sentimento de lealdade — gérmen do antigo bushido — inquebrantável para com os chefes, que perdura até os nossos dias. Também ocorre o contrário: ser injusto, ou errar, com os subordinados acarreta a maior desonra para quem faz e para a sua companhia, pois os japoneses atuais outorgam o mesmo caráter aos negócios que seus avós à guerra, e por conseguinte, todo o combate é sagrado.

Como dizia o imperador Meiji: “Buscaremos em todo o mundo o quanto possa ser aprendido, e com isso reforçaremos o cimento do poder imperial”.

Julián Palomares

Fisionomia – Doña Isabel Cobos

Não me subtraio à tentação de fazer o estudo fisionômico dessa bela mulher tão genialmente retratada por Goya, e da qual nada sabemos psicologicamente falando. Vamos, pois, a isso.

Vemos em primeiro lugar um claro predomínio do nível cerebral, unido a uma mais que regular inteligência. O marco e os receptores largos indicam uma absorção total do que a rodeia, uma interiorização imediata dos estímulos. O rosto é venusiano, de ar: é uma mulher acolhedora, sociável, afetuosa e alegre, com uma grande facilidade de fazer amigos e um rechaço total a qualquer forma de depressão. O amor é muito importante na sua vida. É criativa, confia nos que a rodeiam, e pode chegar a sentir uma atração perigosa pelos aspectos sórdidos da vida.

A testa indica boa lógica, mas pouco poder de observação. É sonhadora e sentimental, com boa memória. Sente-se atraída pela arte, e a infância com suas funções receptivas se mantém muito nela. Seu pensamento é lógico e ativo, desconectado dos arquétipos. Tende à superstição e pode ser muito exaltada.

As orelhas indicam inércia e uma certa irresponsabilidade. Seu ego é forte e é uma mulher prática. É afetiva, mas não muito sensível; reflexiva e auto-controlada.

Os grandes olhos demonstram benevolência, ingenuidade e certa imprevisão. Gosta de dominar. É nervosa e agitada, muito ciumenta. Alto sentido de responsabilidade. Está sempre aberta ao que a cerca. É delicada, amável, tímida às vezes.

As sobrancelhas lhe dão um ar de rudeza, rapidamente dominada. É enérgica e constante, com uma amplitude de finalidades. Volta a aparecer a inteligência. Grande força de vontade. Gosta de se ater aos fatos, não deixa a imaginação divagar. Interessa-lhe o poder, aceita os desafios, enfrenta as dificuldades.

O nariz expressa energia, paixão, sensualidade. É firme, sensata, com força moral. Tende ao sibaritismo e às vezes à inércia . Mostra-se orgulhosa do que possui. Se pode escolher, opta por uma vida tranqüila. Nota-se um pouco de dureza e egoísmo. Ama a justiça e a nobreza no comportamento.

A boca volta a expressar sensualidade. É ativa, sagaz, às vezes maliciosa. Possui astúcia e um alto grau de sarcasmo. É enérgica, jovial, volúvel e muito sutil. E pode chegar a ter manias e ser muito suscetível. Obstinada e às vezes problemática, faz valer sua vontade.

Uma mulher, se bem que desconhecida, muito interessante à luz de seu estudo.

Mª Ángeles Fernández

Investigação Científica – Thermagen e a “tecnologia” de Moringa

Esperemos que o título desta matéria não resulte ofensivo aos amantes das novas tecnologias, nem aos donos da empresa francesa Thermagen, fundada por Fadi Khairallah, especialista em novas tecnologias graças ao programa de transferências tecnológicas da Agencia Espacial Européia. Na realidade, queremos destacar nesta ocasião que, em primeiro lugar, as novas tecnologias não têm por que ser complexas “ciências de foguetes” e, em segundo lugar, que em muitas ocasiões os maiores inventos se inspiram não só na natureza (como a robomimética) mas também no saber tradicional de nossos antepassados.

O “revolucionário invento” a que nos referiremos nos permite diminuir a temperatura de um produto cerca de 20 graus em apenas dois minutos sem consumir eletricidade, utilizando só um processo de evaporação completamente natural. E efetivamente está de alguma forma inspirado no efeito refrigerante próprio das moringas de nossos avós, mas com novas tecnologias.

Uma moringa tem no interior alguns graus abaixo da temperatura ambiente graças à evaporação superficial. A argila da moringa se comporta como uma finíssima esponja com poros de um milionésimo de milímetro. O vapor da água se condensa nessas porosidades, e a temperatura da argila aumenta pela extração da energia do líquido no seu interior.

Mas se esse processo de evaporação for repetido em uma embalagem a vácuo, o efeito se multiplica e acelera, já que a velocidade de evaporação se regula pela corrente de ar devida ao deslocamento do vapor da água. No ar, esse vapor se propaga lentamente, mas no vácuo é muito mais rápido, conseguindo assim uma rápida diminuição da temperatura do interior. Segundo os experimentos, a evaporação de um centilitro de água permite esfriar em 18ºC um recipiente de 33 centilitros, a típica lata de bebida.

O sistema se pode comparar a uma técnica utilizada pelo corpo humano para controlar sua temperatura: a transpiração. De fato, também acontece assim em nosso planeta: a regulação da temperatura na superfície se consegue pela evaporação e condensação da água, fazendo possível a vida.

Curiosamente, a tecnologia para o controle deste processo se desenvolveu originalmente para simular o funcionamento dos motores do foguete europeu Ariane. A Thermagen conseguiu modelar os fenômenos físicos complexos que têm lugar dentro do sistema de refrigeração, ajudando a otimizar seu rendimento e confiabilidade.

A primeira vez que se utilizou na prática foi em janeiro de 2003, no Rally Dakar, quando a Thermagen forneceu vários containers à equipe Pescarolo Sports para esfriar as bebidas.

Ainda faltam mais alguns anos de investigações para se conseguir um recipiente descartável e reciclável para o consumo massivo, mas já se comercializa um produto que usa este princípio em outro campo totalmente distinto: a cosmética. Os ingredientes de um novo produto de cuidado da pele, combinados com um processo de resfriamento ultra-rápido, proporcionam um efeito de “lifting” imediato ao ser aplicados. Quando se esfriam a um ritmo de mais de 5 graus por minuto, os lipídios (gorduras, óleos, ceras…) presentes nos produtos cosméticos sofrem uma retirada molecular que permite que penetrem melhor na pele. Uma vez absorvidos, recuperam sua estrutura inicial e se “enchem” de água. Suas vantagens são que se integram mais rápido e afetam a pele imediatamente, hidratando-a.

Para mais informação:

www.thermagen.com

Juan Carlos del Río

Não ceder ao pessimismo

Vivemos em um momento da História — que é a vida de todos — em que os acontecimentos se aceleram de maneira ininterrupta, dando-nos muitas vezes a impressão de escaparem completamente às nossas forças.

Sabemos que o tempo não tem a mesma duração segundo o estado interior com que o medimos. Por isso, nem na vida dos homens, nem em sua vida histórica de conjunto, podemos evitar essa sensação de velocidade incontrolável. Em parte porque tudo acontece sem intervalos que nos permitam respirar, em parte porque a quantidade de fatos que se sucedem em todo o mundo supera nossa capacidade de assimilação, quando pensamos ter entendido algo, ou ao menos tê-lo suportado, vêm mais dez ou vinte coisas que nos paralisam por sua quantidade, dimensão e rapidez.

Não é preciso ser um erudito para compreender a que me refiro, nem tampouco são necessários muitos exemplos. Por sorte ou por azar, os meios de comunicação, com sua eficiência, fazem com que qualquer um possa viver o que acontece em qualquer canto da terra sem sair de sua casa, sentir o impacto da dor, a miséria, os enfrentamentos, as guerras, a morte, a violência, a insegurança, o desamparo… Para cada situação geral que se produz — dessas que enchem a mídia, dessas que passam à História — há outras situações pessoais muito similares que reproduzem em pequena escala o que acontece no geral. O pequeno talvez não ocupe grandes manchetes, mas afeta aquele que o sofre. Também nos grupos humanos reduzidos, na família, entre amigos, nas relações diárias, há agressividade, dor, enfrentamentos, desamparo e, infelizmente, crimes e assassinatos.

A mencionada velocidade com que vivemos e a qualidade do que vivemos nos fazem ceder em algumas ocasiões ao pessimismo. Ainda que tentemos ser objetivos e analisar a quantidade e qualidade das coisas que vivemos, o resultado final é assustador.

No entanto, creio que não é o pessimismo nem o sentimento negativo da vida o que nos domina. Ainda que possa parecer que a impotência às vezes nos paralisa, na verdade não estamos derrotados.

Vejam-se, ao menos, os enormes esforços que realizam tanto as nações quanto às pessoas em sua vida individual para chegar a acordos, para respirar com tranqüilidade, para deter a voragem, para frear as lutas destrutivas e estéreis. Em muitos casos, os resultados não são alentadores, é verdade, mas o importante é a constância para voltar a começar até conseguir o desejado. Há diálogos intermináveis, é bem verdade, e chegamos a nos perguntar se tanto os Estados quanto os homens querem chegar a um acordo, se há diálogos autênticos ou simples monólogos nos quais ninguém escuta a ninguém. No entanto, insistimos uma vez mais, e esse é um bom sinal: indica que estamos tomando consciência de nossa surdez.

No coração interno de tudo o que nos acontece, há uma centelha de luz, de otimismo, de esperança no futuro, de recuperação de um ritmo harmônico de vida. Falamos de dor, porém o fazemos pensando na felicidade que nos aguarda (se queremos consegui-la, é claro). Falamos de guerra, mas o fazemos sonhando com a paz. Execramos a violência, porque amamos a convivência. Nos aborrece a intolerância, porque queremos seriamente entender-nos uns aos outros.

Os que não vivem o hoje, ainda que um pouco confuso e obscuro, com essa chispa de esperança, são os que tornam o presente — e também o futuro — perigosamente negativo. Os que sentem essa chispa de recuperação, de renovação, de caminhos amplos e seguros estão construindo um futuro mais digno em meio às dificuldades do presente.

Como filósofos, e em nome do amor à sabedoria que nos alenta, cuidamos da chispa, por pequena que seja, porque vemos nela a semente de uma certeira claridade para o amanhã.

A magia de compartilhar

O mês de dezembro é o mês das grandes festas, é verdade, mas também das reuniões íntimas, dos encontros pouco habituais ou, talvez, da solidão construtiva. Mais rica ou mais humilde, costuma haver uma mesa ao redor da qual a família e os amigos compartilham um prato de comida, uns minutos de tranqüilidade, um brinde, votos de felicidade, uma promessa de esperança para o ano que vai começar. Por uns poucos dias — infelizmente poucos — desaparecem as diferenças e se estreitam os laços de união. Depois, passa a exaltação festiva, e tudo regressa ao cinza e quase insípido cotidiano, com seus conflitos e dificuldades.

Qual é o mistério desses encontros? Só a enorme publicidade lançada, a incitação ao espírito festivo e despreocupado, o costume de dar e receber presentes?

Acreditamos que não, que há muitos outros fatores, sem desprezar a força desses movimentos de opinião.

Talvez, para além das distâncias e incompreensões que salpicam a vida diária, haja uma necessidade intensa de poder compartilhar humanamente sentimentos, um calor de lar, um sorriso, um gesto de amizade. Há uma intensa necessidade de não estar só, ou de saber estar só, se se soube encontrar um bom amigo dentro de si mesmo. Há um resplendor de magia unida ao religioso: crentes ou não, a todos compraz a imagem do Menino que nasce com o alvorecer do ano, da Mãe que o acolhe, dos viajantes que chegam de todo o mundo para ver o prodígio e podem estar reunidos junto a um motivo fundamental. Há um resplendor de esperança… É possível que o tempo que começa nos traga o que mais precisamos… É possível que possamos realizar nossos sonhos, se não todos, ao menos alguns… É possível, é possível… Porque a magia da união faz tudo possível.

É maravilhoso ver como se unem as distintas gerações, como se entendem as crianças e os anciãos, os pais e os filhos, e mesmo o animal doméstico que nos acompanha parece participar; como se telefona ao velho amigo ou se enviam umas palavras de saudação. É maravilhosa essa cena de convivência que, sabemos, não demorará a desaparecer por trás da tela do final das festas.

Mas, por que se resignar frente a isso? É verdade que fora desses dias especiais não há tanto tempo para compartilhar com as pessoas; é verdade que as obrigações da vida nos atingem e nos fazem esquecer coisas importantes. Mas o que não pode desaparecer é o sentimento de fraternidade, de amizade, de encontro, de compreensão, de união em torno de uma esperança. Não é possível que somente graças a datas assinaladas a consciência assome em nós. Não pode ser que sem esses estímulos percamos a capacidade de relação, de afeto e entendimento humano.

Creio sinceramente que nos falta Filosofia, esse simples amor à sabedoria, para discernir o valor dos fatos essenciais sem necessidade de que o calendário se encarregue de marcá-los. Falta-nos uma consciência mais ampla, mais ativa, mais clara, capaz de desviar das diferenças e estabelecer laços de entendimento. Falta-nos valor para erradicar o medo, a desconfiança, o ódio, o separatismo…

E se algum presente tivéssemos de pedir a esses reis que se aproximam com seus alforjes carregados, esse seria um raio de luz e vida para forjar uma cadeia de unidade ali onde tudo ameaça ruptura. É bom meditar sobre isso, agora que dezembro nos convida a fazê-lo em meio ao repouso das festas. É bom ter o coração alegre e disposto à concórdia agora e pelo resto dos dias.

Delia Steinberg Guzmán

Viver Saudável – Socorro, estou com cólica!

A palavra cólica vem do grego e significa “relativo ao cólon”. Hoje em dia já não se refere somente às dores intestinais, mas a qualquer dor aguda e repentina na zona abdominal, especialmente se provoca contrações espasmódicas. Assim, além da cólica intestinal, produzida por uma gastrenterite ou por verminoses, existe a cólica apendicular, diante de uma apendicite, a cólica hepática ou biliar, a cólica renal ou nefrítica, a cólica menstrual e, nos bebês, a cólica intestinal do lactante. Mas, ainda que nos termos médicos atuais, a cólica denote qualquer desses casos, um quadro de cólica remete imediatamente aos tipos biliar ou renal, que são aqueles a que o termo é utilizado de forma mais generalizada. Tanto um quanto o outro se produzem pela formação de cálculos, quer dizer, pela presença de pedras, na vesícula ou no rim, respectivamente.

Cólica biliar

A bílis é uma substância fabricada pelo fígado, armazenada na vesícula biliar e utilizada no processo de digestão das gorduras. Ao falar em bílis (choles em grego), remonta-se aos primeiros tempos da medicina, com Hipócrates, que estabeleceu a importância dos quatro humores do corpo como causa de enfermidades: o sangue, a fleuma, a bílis negra e a bílis amarela, também estabelecendo com eles uma tipologia temperamental. A idéia da influência da bílis sobre o caráter chegou a nossos dias por meio da linguagem, visto que colérico, ou “bilioso”, é alguém com tendência à ira, e melancólico, de “bílis negra”, é alguém apático e triste.

A bílis é composta por lecitina, colesterol, ácidos, sais e pigmentos biliares. Esses componentes são pouco solúveis em água e podem se precipitar em forma sólida, formando cálculos que podem se depositar na vesícula ou nos condutos que a levam ao intestino.

Os sintomas de uma cólica biliar são uma dor repentina e convulsiva na parte superior do abdômen, que pode ser notada nas costelas, do lado direito, irradiando para as costas e o ombro direito, e que aumenta com certos movimentos e posturas. Também podem ocorrer náuseas e vômitos, junto a calafrios.

As causas são pouco conhecidas. Há pessoas com predisposição genética para sofrer cólicas, devido a fabricarem pouca bílis ou à composição química da bílis, que não está nas proporções adequadas, ou que tem muito colesterol. Entre os fatores de risco estão o consumir uma dieta rica em gorduras, a obesidade, o uso de anticoncepcionais orais, a diabetes ou a gravidez. Além disso, estatisticamente, essa afecção apresenta maior incidência sobre as mulheres com mais de 40 anos.

Uma cólica biliar costuma acontecer depois de uma grande refeição, especialmente rica em alimentos gordurosos, normalmente à noite, quando já passaram algumas horas da ingestão. O duodeno reclama mais bílis para poder fazer a digestão e é então que o cálculo vai da vesícula para o conduto biliar e o obstrui parcialmente. É extremamente doloroso.

Uma complicação que pode aparecer é que o cálculo chegue a obstruir por completo o conduto biliar, o que leva o paciente a apresentar icterícia, uma cor amarelada na pele. Também pode inflamar a vesícula, por decomposição da bílis que ficou armazenada, ou produzir-se uma pancreatite.

O tratamento é sintomático. Consiste na administração de analgésicos fortes junto a antiespasmódicos e, no caso de suspeita de infecção, antibióticos. Os cálculos podem dissolver-se mediante uma medicação específica e também desde o exterior, por meio de ultra-som. Em casos recorrentes, fica a critério do médico a opção de extirpar a vesícula por meio de cirurgia. A dieta preventiva deverá ser rica em fibras e baixa em gorduras, evitando o consumo de alimentos que gerem colesterol. Em pessoas propensas, recomenda-se tomar antiácidos para evitar indigestões. Entre os chás que podem trazer algum alívio, encontram-se as ervas amargas, sobretudo o dente de leão, que limpa de impurezas do fígado e da vesícula biliar. Uma infusão de grande utilidade é a preparada com alecrim, calêndula, hortelã, melissa e dente de leão, em partes iguais, tomada depois das refeições.

Isabel Pérez Arellano

Protagonistas da História – Gaudí: a plasmação da Beleza

“Construir! Construir Beleza! Buscar na Natureza a imagem do Mistério e transformá-la em arquitetura. Forjar a forma da idéia: esta foi minha obra de alquimia. Meu sonho: uma Barcelona mediterrânea, bela, grande… Ser canal para que a Beleza seja a luz da Verdade; descobrir nas leis do Universo todos os seus segredos.”

Assim dizia o genial arquiteto catalão Antonio Gaudí, nascido em Reus (Terragona), em 25 de junho de 1852.

Nasceu tão fraco, que foi batizado no dia seguinte. Mas ele sempre se orgulhava, além de sua origem mediterrânea, de afirmar que tinha lutado para sobreviver. Durante sua infância, sofreu febres reumáticas que lhe impediam de mover os pés e brincar com as crianças de sua idade. Também tinha que faltar freqüentemente à escola. Talvez por causa desta limitação física, se transformou num grande observador da vida e da natureza, o que lhe provocou uma curiosidade básica sobre tudo que o cercava.

Dos seus tempos de escola em Reus, conta-se uma anedota na qual o seu professor fez uma dissertação sobre o porquê das aves terem asas para voar e o pequeno Gaudí contestou, dizendo que as galinhas de sua casa tinham asas e não voavam – mas as utilizavam para correr mais rápido. Ainda muito jovem, Antonio já demonstrava possuir uma capacidade de percepção visual fora do comum.

Na sua juventude, estudou oito anos na Escola Provincial de Arquitetura, em Barcelona, e também teve aulas de Estética e Filosofia. Permanecia absorto diante dos edifícios islâmicos e hindus; diante da descrição da expedição napoleônica ao Egito. Parecia surgir em Gaudí o espírito renascentista do homem completo, artista e cientista. Gostava de Shakespeare e, apesar de seus modestos recursos econômicos, freqüentava todos os concertos e apresentações de teatro clássico que podia.

Gaudí foi um profissional bem diferente em comparação aos seus contemporâneos (mais teóricos e acadêmicos). Como ele se inspirava? Onde nascia sua imaginação? Diante de um problema, sempre pensava como o solucionaria a Natureza pois, segundo ele, esta era o grande livro da Arquitetura e ninguém mais oferecia tamanha variedade de modelos. Na sua obra, as curvas predominam sobre as retas. “As retas são do homem; as curvas, de Deus”, ele dizia.

Algumas das obras mais famosas de Gaudí foram as que Josep Battló lhe encomendou para sua Casa del Paseo de Gracia. Trata-se de uma reforma quase total de um edifício onde o arquiteto surpreendeu a todos com balcões que parecem ter movimento, a cruz que coroa o topo ondulado e as originais chaminés. Depois, desenhou e construiu a casa da família Milá, popularmente conhecida como La Pedrera, onde idealizou um projeto nunca antes visto. Representa grutas montanhosas ou penhascos, num clima de mar e montanha.

Gaudí resume seu pensamento em uma só frase: “Originalidade é voltar à origem”. A origem está na Natureza, mas Gaudí procurou uma origem ainda mais remota ao entender que a Natureza é a obra de Deus e, desta forma, impregna sua arquitetura de espiritualidade. “Eu não sou um criador, mas um copista” – costumava dizer – “um copista das mais perfeitas formas criadas pelo Grande Arquiteto do Mundo.”

Toda a obra de Gaudí, e especialmente a Sagrada Família ou Capela da Colônia de Güell, supõe uma espiritualização da matéria. Tal como os construtores medievais, ele edificou para o atemporal.

Não viu estas obras prontas, mas isso não importava, pois participava de algo grandioso, deixando marcas que as águas do tempo não apagarão. Disse Gaudí sobre a Sagrada Família: “Esta não é a última das catedrais, senão a primeira de uma nova série. O templo eu não terminarei: uma geração, duas, três, ou o esforço ainda que genial de um só homem é pouco… Somando gerações chegaremos até o belo.”

No dia 7 de junho de 1926 um bonde atropelava um homem pobremente vestido no cruzamento das ruas Bailén e Gran Vía de Barcelona; um indigente a quem não ofereceram nenhuma ajuda. Esse homem era Antonio Gaudí. Ele foi enterrado na cripta da Sagrada Família.

Suas palavras atemporais continuam inspirando aqueles que sonham com um mundo novo e melhor: “A criação continua incessante por meio dos homens; o homem não cria – ele descobre e é parte desse descobrimento. Aqueles que procuram as leis da natureza para fazer novas obras, colaboram com o Criador.”

Julián Palomares

O Presépio de Miajadas

Miajadas, um dos mais ilustres povos de Extremadura e repleto de história, conta com um tesouro artístico de porte internacional: o extraordinário presépio de propriedade da Sra. Ana Maria Hortet Dominguez, fruto de toda uma vida de perseverança ininterrupta em busca de um epicentro existencial: a criação diacrônica, ano após ano, de um Nascimento originalmente sonhador, cada vez com mais figuras e detalhes, original em altíssimo grau e com a máxima qualidade possível.

Tudo começou em 1941, quando a citada proprietária, alma-mãe e criadora desta jóia do bom gosto, tinha 5 anos de idade e sua mãe colocou um pequeno presépio comprado por um tio seu em Valladolid e que incluía o Mistério e Os Reis Magos.

A partir de então, a Sra. Ana Maria Hortet Dominguez foi desenvolvendo o presépio pouco a pouco, com grande constância e fantasia, até que ocorreu algo crucial na sua vida, quando em 1970, seu filho esteve a ponto de morrer devido a complicações no parto. A Sra.Ana Maria fez uma promessa de que, se o seu filho sobrevivesse, aperfeiçoaria o presépio ao máximo e o colocaria no Natal durante toda a sua vida.

Foi o que aconteceu e, desde esse momento, a Sra. Ana Maria Hortet Dominguez mudou as premissas de elaboração e ampliação do presépio que tinha até esse momento (baseadas na intuição e na contemplação de outros presépios domésticos) e começou a estudar exaustivamente, de maneira autodidata, tanto as características dos presépios de elite histórica como a sublime e imaginária tradição vinculada a eles, comprando muitos livros sobre o tema, tanto nacionais como importados.

Fontes de inspiração do presépio de Miajadas

E aqui, o Presépio de Miajadas iniciou seu novo destino, com uma enorme ampliação e transformação, dia após dia, hora após hora, tendo como referência as obras supremas em nível mundial no âmbito de presépios:

a) Os fabulosos presépios napolitanos, célebres pela sua espetacularidade, riqueza e suntuosidade. São os presépios mais caros e complicados de montar e conseguem reproduzir a vida cotidiana do antigo reino de Nápoles como argumentação básica para acompanhar a Natividade de Jesus. Providos de figuras de 30 a 35 cm de altura – escala tercina -, sempre destacaram-se historicamente pela sua variedade de personagens distintos (em muitos casos figuras humanas convertidas em retratos de incrível realismo) e em grande número de peças e acessórios (finimenti), como instrumentos musicais, frutas, hortaliças, peixes, cofres, objetos de diversos tipos, etc., todo realizado por especialistas com incrível minuciosidade em diversos materiais e um grandioso naturalismo nas composições que buscam a reprodução até dos mínimos detalhes da paisagem física e humana da Campania e do sul da Itália, assim como buscam destacar a personalidade dos mais diferentes espaços e personagens.

b) O maravilhoso Presépio de Salzilho da Catedral de Murcia, realizado com impressionante realismo costumeiro. Abarca todas as cenas do nascimento e da primeira infância de Jesus, desde a Anunciação à Maria até a fuga ao Egito e a Degolação dos Inocentes. Consta de 556 figuras de 25 a 30 centímetros, 456 personagens e 372 animais. Todo ele constitui um modelo de elegância, naturalidade e impressionante realismo.

Supõe uma representação excepcional dos hábitos e costumes da Murcia do século XVIII: cavalariços, caçadores, tecelãs enovelando, dois senhores diante do lar, um bêbado, dois meninos pastores, um velho curtidor, um jovem servindo vinho, dois agricultores, pastores, cães, lenhadores, fruteiros, dois mendigos com a roupa remendada, um homem com alforjes, 24 figuras de pessoas no mercado, realejo (ou mariola), etc.

Destaca-se pela notável expressividade das figuras, a doçura dos rostos e a capacidade de emocionar.

Em que pese a sua pequena escala, as figuras são tratadas como se fossem imagens em tamanho grande e, sua policromia, é levada a cabo com nobres alinhados (uma técnica do século XVIII). É uma obra gigantesca quanto ao seu número de figuras e peças feitas preferencialmente em barro cozido.

c) Os Presépios Hebreus, caracterizados pela presença de turbantes e pelo tipo de vestimenta própria do povo judeu daquela época, constituem o tipo de presépio pequeno tradicional, que durante décadas esteve presente em milhares de lugares durante a época natalina, caracterizado por um esquema simples, configurado pela Sagrada Família e o Menino, o Portal de Belém, os Reis Magos, a mula, o boi e os Anjos sobre o Portal.

d) Os Presépios do grande artista italiano Luigi Pinelli, autor de presépios compreendidos do baixo ao alto e caracterizados pelo aproveitamento máximo do espaço vertical, com numerosos escalões em sentido ascendente e variedade de árvores, vegetação, plantas, pequenas igrejas e capelas com seu correspondente campanário, casas muito pequenas, anjos, etc.

destaques do presépio de Miajadas

Pelo seu delineamento diacrônico e eclético, o Presépio de Miajadas, obra artística de altíssima qualidade e originalidade, constitui uma experiência visual única e nova, ao apresentar a tradição do Nascimento desde múltiplas perspectivas.

A montagem está feita à napolitana, com um abundante desenvolvimento vertical em degraus nas zonas esquerda, direita e frontal ao fundo, repletas de personagens, construções, animais e objetos de toda índole que complementam de maneira certa o grande espaço central plano.

O Presépio de Miajadas possui um sentido dual: por um lado, a representação mais confiável possível dos diversos cenários históricos e personagens da Judéia do século I (Belém, Galiléia, Jerusalém, etc.), nos quais transcorreu a vida de Jesus Cristo e os acontecimentos sobrenaturais que precederam sua vinda, e, por outro lado, a plasmação com uma enorme precisão e requinte de detalhes da vida da Extremadura tradicional, com suas diversas tipologias vitais e sociais: lavradores, pescadores, açougueiros, padeiros, lavadeiras, pastores, diversos animais, os trabalhos cotidianos, etc., todos com seus trajes típicos em miniaturas e os utensílios próprios de sua atividade, numa tentativa global de reproduzir a vida popular e cotidiana como argumentação básica para acompanhar o acontecimento religioso da Natividade do Menino Jesus e seus 33 anos de vida.

De fato, estão representadas todas as cenas importantes da narração da vida de Cristo, incluindo “A Anunciação à Maria”, “A visita de Maria e Isabel”, “Os Esponsais de Maria e José”, “O sonho de José”, “Pedindo Pousada”, “O Apadronamento”, “A Anunciação aos Pastores”, “A Adoração dos Pastores”, “A Cavalgada dos Magos”, “A Adoração dos Magos”, “A fuga ao Egito”, “A oficina de Nazaré”, “A apresentação de Jesus no Templo”, “Jesus entre os Doutores”, etc.

Portanto, o Presépio de Miajadas possui um plano sagrado e outro mais profano, coexistindo o atávico Nascimento (como visão simbólica de fatos sobrenaturais com epicentro arqueológico e bíblico que tenta reconstruir de maneira fiel a vida da Judéia no século I) com o Nascimento pitoresco e tipológico rural (repleto de referências tomadas de uma realidade tradicional, todo ele com um louvável fundo didático).

O Presépio de Miajadas se destaca, sobretudo, pelo seu colossal número de peças e personagens: mais de 5.000 diferentes, com uma grande variedade de acessórios (finimenti), o qual gera uma enorme cenografia, com numerosos grupos humanos surpreendidos em franca espontaneidade, num marco muito equilibrado às vezes religioso, popular e costumeiro.

As figuras estão feitas em formato pequeno (entre 12 e 16 cm), já que uma das premissas básicas foi desde o princípio tentar construir um Presépio grandioso, com o maior número de peças, figuras e acessórios possíveis, que foi se ampliando ano após ano.

É um presépio que consegue atrair a atenção de um público heterogêneo, de todas as idades, afeições e crenças, que sem dúvida fazem parte da mágica festa do visual que emana da preciosa mise en scéne desta belíssima obra de arte de autêntico porte internacional, que necessita de três meses para ser instalada e outros três meses para ser guardada sua plêiade (7 elementos) de peças e figuras.

Durante décadas, são muitas as milhares de pessoas procedentes de toda Espanha e de outros países que viajaram até Miajadas para ver esta jóia de Extremadura, alentadas pela fama gerada por esta perfeita sinergia artesanal da arte religiosa e costumeira que é o Presépio de Miajadas, toda uma homenagem póstuma ao bom gosto e às coisas bem feitas com carinho e esmero.

Inclusive, gravaram, até o presente momento, três documentários sobre ele realizados na Holanda, Suíça e França.

A imensa maioria das figuras e peças do Presépio de Miajadas foi feita em barro cozido, cuja técnica de produção parte da criação pelo artista da figura original em argila. Uma vez que a peça já está terminada, crua, há que esperar que seque para, em seguida, introduzi-la no forno para o seu cozimento a uma temperatura entre 800ºC e 900ºC. Assim, adquire consistência e isso evita que se rompa com facilidade. Ao sair do forno, se a figura leva tela (que deve ser 100% de algodão para que se formem bem as dobras), acrescenta-se essa neste mesmo instante e, finalmente, passa-se à decoração com pintura, feita à mão.

Dessa maneira, as figuras do Presépio de Miajadas foram realizadas, a partir de encargos personalizados muito específicos durante decênios, de maneira 100% manual:

a) por diversos artesãos de elite murcianos das melhores oficinas de presépios salzilhescos do distrito de Ponte Tocinos e Murcia capital.

b) por, em alguns casos, experts italianos de oficinas de presépios da Rua São Gregório Armeno (Nápoles), também conforme especificações muito concretas.

c) pela Sra. Ana Maria Hortet Dominguez (modeladas artesanalmente), mulher de extraordinária criatividade e capacidade de trabalho, que dedicou muitíssimas horas de sua vida para buscar melhorar o Presépio pouco a pouco, durante anos, com pequenos e importantes detalhes como: pontes, o já mítico trilho antigo, todo tipo de plantas, muitíssimos trajes em miniatura elaborados por ela com grande precisão e esmero (com as suas ninharias, seus jalecos e húmus), pássaros de cores e seus correspondentes ninhos, rios, o moinho com motor elétrico, algumas fontes, fundos de diversas cores, palhoças, belíssimas rodas-gigantes, casas de diferentes tamanhos, o castelo de Herodes, os caramanchos (onde penduravam antigamente as frigideiras dos pastores), os liados (chifres de boi que se utilizavam para entornar o azeite e o vinagre nas saladas), os lampiões, os pescadores e suas varas de pescar de bambu com linhas autênticas de vara de pescar, a região com peixes vivos, a Capela de São Bartolomeu, o sacerdote, os dois desocupados, as árvores naturais, o musgo, os preciosos caminhos de pedras, a horta, as cercas de pedra para os porcos, os mais diversos objetos de cozinha em miniatura fabricados de metal, etc.

Além do mais, como ocorre com o famoso Presépio de Salzilho e os presépios napolitanos, no Presépio de Miajadas aparecem variados anacronismos tanto arquitetônicos como de vestuário e um diferente tratamento das figuras, já que a Sagrada Família se destaca, por ser mais bem hierática e solene, frente ao naturalismo em ocasiões pouco características de alguns personagens populares.

Por outro lado, o Presépio de Miajadas possui outra característica distinta excepcional que lhe faz ainda mais atraente: a prolixa instalação elétrica da qual está dotado, obra do Sr. Bartolomé Vicente Avis, e que funciona desde 1985. Um autêntico prodígio de reguladores de intensidade de luz e diversos interruptores, capazes de realizar ad hoc preciosas configurações de dia ou de noite com diferentes intensidades luminosas e conseguir o movimento visível a distintas velocidades de muitas peças, figuras humanas, rodas-gigantes, animais, que flua água pelos rios, etc., tudo o que faz com que o audiovisual do entorno seja de primeiríssimo nível. Este sistema é capaz inclusive à plena potência de fazer com que brilhem as milhares de estrelas existentes no fundo azul do Presépio.

E a pérola do dispositivo eletrônico citado é um galo que canta automaticamente com grande realismo quando amanhece, algo que provoca o entusiasmo de todos os visitantes, especialmente das crianças.

Mas o momento mais importante na história deste Nascimento teve lugar em 1998, quando sua proprietária, a Sra. Ana Maria Hortet Dominguez, recebeu uma carta pessoal da Secretaria de Estado do Vaticano, firmada pelo Papa João Paulo II, felicitando-a pessoalmente pela enorme qualidade do Presépio. Isso supôs o apoio definitivo e o reconhecimento internacional ao Presépio de Miajadas, que é, sem dúvida, atualmente um dos melhores presépios particulares do mundo.

Fotos e texto: José Manuel Serrano Esparza

Natureza construtora

As maravilhosas e complexas técnicas construtoras que aprendem para sobreviverem explicam porque necessitam, em alguns casos, de vários anos de aprendizagem comunitária.

Menu: Marisco

Em relação ao uso das ferramentas por parte dos animais, é singular o caso das lontras do mar (Enhydra lutris). Pesando até 25 kg e com uma longitude de algo mais de 130 cm, é o representante mais robusto da subfamília Lutrinae, inclusive mais pesadas que a lontra gigante do Amazonas.

Tendo chegado quase à beira da extinção por sua lustrosa pele, povoa as águas costeiras das Kuriles, as Aleutianas e o golfo do Alaska, e a costa da Califórnia, e foi reintroduzida com êxito em outras zonas do Pacífico dos Estados Unidos e Rússia.

Como todas as lontras, possui um corpo fusiforme, aplanado, patas curtas e uma boca relativamente pequena, que não revela seu regime alimentar preferido: os moluscos.

As lontras marinhas se alimentam principalmente de animais com concha, como ostras, mexilhões, mariscos, ainda que não desdenhem dos ouriços, exercendo um controle ecológico ao evitar que se convertam em praga. Porém, não têm uma dentadura forte, nem bico, nem grandes garras para desalojar primeiro das conchas e depois para se alimentar de seu menu favorito. Assim, esse representante marinho das lontras tem que utilizar instrumentos. Para desalojar um abalone, por exemplo, do fundo marinho, a lontra baterá com uma pedra na beirada da concha desse molusco. Submersa de 30 a 60 segundos, a mesma pedra será usada durante 20 viagens ou mais.

Os alimentos sempre sobem à superfície desde profundidades que podem ultrapassar 40 m, já que a lontra marinha jamais come dentro da água. Quando o alimento se solta do fundo, a lontra sobe e na superfície coloca uma pedra em seu peito para utilizá-la como apoio. Sobe essa pedra desde o leito marinho em uma prega de pele nas axilas, enquanto segura a comida com as patas dianteiras.  As pedras costumam ser planas e de uns 18 cm de diâmetro. A lontra segurará com força a concha e a golpeará com energia contra a pedra para poder assim romper a dura proteção de seu suculento almoço e engoli-lo com satisfação ou dá-lo a sua cria, que durante o processo observou meticulosamente o que fazia sua mãe para, depois, repeti-lo em sua vida como adulto.

Uma sucessão ininterrupta de 2 a 22 golpes, em um ritmo de um ou dois por segundo, basta para alcançar o objetivo.

Em lugares arenosos ou lodosos, onde as pedras sejam escassas ou inexistentes, a lontra utilizará uma ostra ou mexilhão como instrumento.

Como último dado curioso, explicaremos que nem todas as lontras marinhas sabem utilizar as pedras como ferramentas. As lontras do mar do Alaska raramente o fazem.

O abutre-preto faz o mesmo. O chamado “abutre sábio” (Aegyupirus monachus) gosta de saborear o interior dos ovos desprotegidos de avestruz que encontra. Mas qualquer um que tenha tentado quebrar a casca de um destes ovos compreenderá que não é nada fácil. O abutre-preto escolhe uma pedra de tamanho e peso adequado e com seu bico à lança contra o ovo de maneira que o parte sem derramar seu conteúdo e, então, encontra um verdadeiro banquete.

O doutor Félix Rodriguez de la Fuente fez uma experiência com um filhote de abutre-preto (capítulo intitulado “O abutre sábio” da série Fauna Ibérica), o qual retirou de um ninho nos arredores de Riba de Santiuste, Espanha. Criado sozinho e sem contato com seus congêneres, foi capaz de repetir diante das câmeras, depois de algumas tentativas, o comportamento de seus primos africanos sem que ninguém o tivesse ensinado. Uma atuação digna de prêmio!

Muitos outros animais, e não só mamíferos, utilizam ferramentas, e hoje em dia não é, como deveria ser há 80 ou 90 anos, um descrédito afirmar que o homem não seja o único a usá-las.

Um mundo subterrâneo

E tampouco somos, como vamos comprovando ao longo destas páginas, os únicos a realizar construções mais ou menos complexas.

Vejamos, como primeiro exemplo, as toupeiras douradas. Esses animaizinhos de 7 a 20 cm de comprimento constroem um sistema de galerias que pode alcançar os 95 cm de profundidade e ter mais de 240 túneis. Como a maioria dos sistemas de guaritas subterrâneas, estes autênticos sistemas de minas possuem câmaras especiais para determinadas atividades, entre as quais se destacam a câmara de cria, armazéns para alimentos e latrinas. Algo similar ao que já vimos no caso dos formigueiros, ainda que esses animais, como a maioria, sejam solitários. Entre os mamíferos, não ocorre a especialização dos insetos sociais… Salvo em um caso conhecido.

Ratos ou formigas?

Trata-se do rato-toupeira pelado (Heterocephalus glaber), da Etiópia, Somália e Kênia. Coloniais, em cada colônia só procria um casal. Machos e fêmeas restantes pertencem a castas diferentes por seu tamanho ou função.

Os ratos-toupeira pelados da casta operária são os mais numerosos, porém também os de menor tamanho.

Outra casta obreira, de tamanho maior, ainda que menor em número, passa muito tempo com a fêmea reprodutora, talvez a protegendo. São os que enfrentam as colônias rivais, quando por casualidade se cruzam seus túneis.

As crias são cuidadas por todos, porém só a fêmea “rainha” se encarrega de amamentá-las. Essas crias engrossam as fileiras dos operários, porém alguma delas pode chegar a crescer o suficiente para engrossar as fileiras dos soldados.

Todos os machos e fêmeas são férteis, e qualquer um deles pode emigrar e fundar uma colônia.

Quando a rainha morre, uma fêmea cresce e amadurece sexualmente para ocupar seu lugar. Sem brigas, sem disputas, como se estivesse previsto de antemão quem deveria ter a sucessão do governo da colônia onde, sem trabalhar em grupo, provavelmente não sobreviveria ninguém, devido ao pouco alimento disponível.

Ainda que este tipo de controle se realize quimicamente mediante hormônios de crescimento, o mérito desta solução biológica continua sendo alto, sobretudo se tentamos compará-la a alguns momentos, mais dignos de esquecimento, da própria história humana…

O trabalho nas galerias é feito em grupo. Uma fila de operários perfura túneis de maneira que os dentes do que está na frente rasparão a terra que empurrará para trás. O que o segue a arrastará ao seguinte, e assim sucessivamente, até o último que a espalhará e alisará. Quando se cansa o primeiro, o substitui o segundo, que passará por cima dele.

Megalópoles Subterrâneas

Se continuarmos falando, ou no caso escrevendo, sobre animais de vida mais ou menos comum em galerias subterrâneas, não podemos deixar de lado o titã destas estruturas. Trata-se do trabalho realizado por um roedor da família dos esquilos terrestres (Sciuridae), aparentado também com as marmotas.

De corpo compacto, gordinho, com pelagem de cor canela – palha, fortes unhas, típica cara travessa, sem a suntuosa cauda de seus primos arbóreos, estes esquilos terrestres são claramente identificáveis pelo peculiar som que emitem para comunicar-se entre si, similar a um latido. Trata-se do cão da pradaria, mencionado em textos ocidentais pela primeira vez nas memórias de Coronado (séc. XVI).

O chamado cão da pradaria representa, na verdade, cinco espécies diferentes, todas do gênero Cynomys (termo que significa algo como “cachorro-rato”), que se espalham no meio oeste desde Saskatchewan, no Canadá, até o norte do México. Medem entre 28 e 33cm.

Seus sistemas de galerias não têm comparação (salvo o caso da formiga argentina) no reino animal. Chegou-se a falar de sistemas de galerias de 40.000km2 ocupadas por mais de 400.000.000 de indivíduos, que se reconhecem como pertencentes à mesma colônia. Não é de se estranhar que o termo empregado para falar de suas galerias seja o de “cidade”.

As cidades são tremendamente “urbanas”. Cada família ocupa uma cova, com distintos apartamentos que incluem as já conhecidas câmaras de cria, dormitórios, dispensas, etc. Um macho com várias fêmeas pululará perto delas, aceitando-as como próprias, e raramente será desalojado por um rival mais forte, dado que a coesão interna é muito alta. Um clã aparentado entre si, de aproximadamente uns 20 indivíduos, ocupará um bairro de uma destas cidades.

Como há muitos predadores à espreita, as cidades dos cães da pradaria possuem várias saídas, e tanto estas quanto a entrada principal estão construídas sobre um montinho em forma de cone, para evitar que se inundem quando haja cheias e para utilizá-las como observatórios de onde vigiar as planícies onde vivem.

Não possuem o instinto cooperativo das formigas ou ratos-toupeira pelados, e cada família vive sua própria vida. No entanto, estabelecem múltiplos contatos entre os indivíduos de uma mesma cidade, que incluem cheiros, latidos e o “beijo”, toque realizado entre adultos com a boca aberta mostrando os incisivos. Esta conduta pode tanto indicar uma saudação quanto, se é realizado entre estranhos pertencentes a duas cidades diferentes, uma ameaça. O peculiar latido, pelo qual recebem seu nome comum, chega a ter onze modalidades diferentes, com o que se trocam diferentes mensagens, apoiadas pelas posturas corporais. Além do que os indivíduos jovens gostam de cuidar das crias de outros casais, e sempre se encontrará algum adulto astuto montando guarda sobre o monte de terra da entrada, disposto a sinalizar com seus escandalosos gritos a presença do coiote ou de alguma águia oportunista.

As cidades são defendidas em grupo pelos adultos frente a colônias vizinhas ou a tentativas de invasão de indivíduos errantes, sobretudo no outono e inverno. Na primavera, no entanto, há uma agradável vizinhança que permite o intercâmbio de indivíduos ou pequenos grupos, sobretudo jovens, que gostam de mudar da própria cidade para ver o mundo ou conhecer inquilinos mais interessantes que os de seu lugar de origem.

Pouco a pouco, estas colônias engrossam as filas de sujeitos que nelas moram. Quando se atinge uma superpopulação, os que emigram são os fracos. Os adultos deixam a cidade para suas crias e partem para cavar outra.

Uma cidade de cães da pradaria consome uma grande quantidade de vegetais, já que são estritamente herbívoros. O mar de erva que constitui a pradaria americana, lugar onde poderíamos encontrar este simpático roedor, é uma paisagem muito adequada para a emboscada dos inimigos do cão da pradaria. Porém, a atividade de milhares destes esquilos terrestres literalmente moldou enormes extensões de terreno, em que o único ataque surpresa viria do céu. Com sua forragem, impedem que as ervas altas, perenes, regenerem-se, crescendo em seu lugar outras menores e suculentas, de crescimento rápido, das quais se alimentam, e que não atingem altura que impossibilite uma boa visibilidade. Quer dizer, em outras palavras, que modelam seu entorno para buscar maior segurança.

Atualmente é muito difícil encontrá-los fora dos limites dos parques nacionais americanos. Ainda que outrora fossem tremendamente abundantes, e a visão normal de um vaqueiro fosse o corre-corre buliçoso destas pequenas criaturas ao longo do horizonte, pouco a pouco a pressão do homem os foi exterminando.

O cão da pradaria mexicano e o de Gunnison entraram na macabra lista das espécies em perigo de extinção. E é uma pena, já que dado seu caráter fortemente social, vivaz, inteligente e esperto são muito bons como mascotes. De fato, recomenda-se sua criação em cativeiro a pessoas de vida solitária e isolada, como anciãos, com os quais estabelece um laço talvez mais forte do que os de um cachorro doméstico. Mas que ninguém pense em adotá-los se não está disposto a passar ao menos um período de quatro horas com eles, tempo mínimo necessário para compensar as relações que, vivendo em liberdade, teria com seus pares.

Engenheiro de caminhos, canais e portos

Do último mamífero que vamos falar, ainda que não do último construtor, se encontra abundante material escrito. Para uns é um autêntico problema; para outros, o melhor engenheiro da natureza. Faculdades de Engenharia Civil o adotaram como animal emblema e, com freqüência, se denominam por seu nome. Trata-se do castor.

O castor é um animal rechonchudo que se inclui na ordem dos Herbívoros, dentro da família Castoridae. Existem duas espécies de castores, o castor europeu (Castor fiber) e o americano (Castor canadiensis). Hoje, o castor europeu é encontrado tão-somente em determinadas zonas do Ródano, no Elba e na Rússia Central.

São os segundos roedores com mais peso, superando em ocasiões os trinta quilos. Costumam medir em torno de setenta e cinco centímetros de comprimento por uns trinta de altura. Adaptado à vida aquática, seu corpo em forma de torpedo possui uma característica cauda escamosa, aplanada no sentido horizontal, que serve de timão e para conseguir um empuxo extra quando nada, para afastar-se dos seus inimigos. Também pode bater na água com a cauda, que assim serve como meio de comunicação com o resto da família. Em outras ocasiões a usa para transportar barro.

As patas traseiras são palmeadas e isso permite nadar extraordinariamente bem, inclusive melhor que sua mortal inimiga, a lontra, com a qual não se dá muito bem. Esta última é carnívora e se aproveita dos peixes que vivem nos lagos que o castor fabrica.

O castor pode chegar a permanecer mais de vinte minutos sob a água. Quando mergulha, o nariz e as orelhas se fecham, e os olhos ficam recobertos por uma membrana. A garganta, ao contrário, pode ser bloqueada por detrás da língua, e os lábios por detrás dos incisivos, o que lhe permite continuar trabalhando quando mergulha, roendo ou transportando galhos, sem o perigo de se afogar. Estes dentes, modelados em forma de cinzel, são ligeiramente curvos e se afiam um contra o outro adquirindo o corte também de um cinzel e constituem sua melhor ferramenta de trabalho. Como nos demais roedores, não se desgastam nunca e crescem à medida que se gastam pelo uso.

Os castores vivem em unidades familiares fechadas, mal denominadas colônias. Em geral, podem constar de um casal adulto e reprodutor, monogâmico e unidos por toda a vida, as crias do ano, ainda demasiado imaturas, alguns jovens de doze a vinte quatro meses de idade, a prole do ano anterior, e também algum outro semiadulto atrasado e acomodado de maior idade, que a maioria das vezes não procria.

O tempo empregado na criação dos filhotes é fundamental, sobretudo se os compararmos com a taxa de reprodução dos demais roedores. A fêmea dominante não parirá mais do que uma vez ao ano e terá um número muito reduzido de filhotes, de um a cinco, no caso do castor europeu, e até oito, do americano. No entanto, a taxa de sobrevivência é das mais altas, dado que as crias passam dois anos no seio de uma família que se preocupa com elas, outorgando pouco a pouco responsabilidades até alcançarem definitivamente o período de maturidade.

A família se estrutura como uma hierarquia, na qual os membros de maior idade se impõem por gestos e vocalizações aos mais jovens. Domina o macho, que se acasala na água com sua fêmea. O nascimento ocorre no seio da câmara familiar e os pequeninos desfrutam do cuidado de toda a família. Mesmo que com poucas horas sejam capazes de nadar, seu pequeno tamanho os impede de fazê-lo, pelo que passam seis semanas de amamentação em regime de clausura, cuidados pela mãe, enquanto o resto de seus irmãos e parentes colaboram com o macho trazendo comida sólida.

As complexas técnicas que têm que aprender para sobreviver (corte de árvores e construção de represas, tocas e canais) explica necessitarem de dois anos de aprendizagem comunitária.

A comida é obtida das margens dos lugares em que vivem. Durante a primavera e o verão, consiste em vegetação macia, enquanto que no outono se compõe basicamente de cascas de árvores. No inverno, saboreiam as gostosuras que tiveram a previsão de guardar dentro de sua laguna particular, abaixo do nível da água, que com tão baixas temperaturas serve de refrigerador.

Aos dois anos, costumam se emancipar, e os pequenos castores se vão a descobrir o mundo e fundar sua própria família. O normal é que não se afastem mais de uns cinqüenta quilômetros, mas há casos de castores jovens que chegaram a se instalar a 250 km de seu lugar de origem.

Convém destacar, antes de adentrarmos nas maravilhas de suas técnicas construtoras, que poucos animais influíram tanto na exploração, história e economia como o castor americano, que é o responsável direto  pela exploração de amplas zonas do Novo Mundo, devido à moda de confeccionar gorros com sua pele lá pelos idos do século XVIII, o que levou aventureiros e comerciantes a abrirem rotas no norte da América para encontrar e controlar o comércio deste valioso material.  França e Inglaterra travaram a Guerra dos Sete Anos (1756-1763) pelo domínio do território de caça deste experto engenheiro.

Melhorando o Ecossistema

A atividade construtora do castor o leva a modificar o meio ambiente em que vive de uma maneira só comparável ao que realiza o homem.

Obtém segurança, dado que o castor é extremamente torpe em terra e busca sempre a água quando se trata de fugir (ainda que seus incisivos o convertam em um rival poderoso frente ao lobo). Ao estender o nível da água, alcança as plantas e árvores dos quais se alimenta simplesmente nadando.

Estabiliza o nível da água, permitindo a presença desta mesmo quando o ano é fraco em chuvas.

Realiza um enorme favor aos outros grandes herbívoros florestais, cervos e alces que se alimentam da erva que cresce nos únicos lugares em que pode crescer na intrincada selva fria do norte: as clareiras abertas pelo castor.

Além do mais, suas lagunas acabam por transbordar, como todas as represas, oferecendo a possibilidade de que se desenvolva uma vegetação de pradaria onde só havia árvores.

Dentro das represadas águas, reproduzem-se e criam com muito mais facilidade uma vastíssima gama de peixes, que servem, por outro lado, de alimento a uma complexa cadeia de carnívoros, que não inclui só a ingrata lontra, mas também ursos, canídeos e felinos de todo tipo.

Por último, as lagunas artificiais que o castor tem a amabilidade de construir são, na maioria dos casos, o principal habitat reprodutor de patos, gansos e uma vastíssima gama de aves que se beneficiam de um lugar tranqüilo e a salvo dos predadores, com um sistema de vigilância agregado que consiste em uma dezena de castores distribuídos pela área, atarefados em suas funções de engenharia e que darão o alarme ao primeiro indício de perigo.

Principais Construções

Das obras capazes de realizar, represas, tocas e canais, a mais simples são os canais, e é provável que o castor tenha começado seu acervo de experiências por eles. Com suas garras, os castores desprendem o barro do fundo de arroios e regatos pantanosos, que com a ajuda de patas e cauda lançam às margens, criando assim corredores aquáticos pelos quais passam em busca de alimento, ou que utilizam como pistas de transporte de materiais para outras obras hidráulicas. No Canadá, estes canais podem ter de quinhentos a seiscentos metros de comprimento, e ser tão profundos que permitam a passagem de uma canoa.

As represas são construídas em pequenos arroios para acumular água, e para isso utilizam barro, pedras, galhos e troncos. Estas lagunas oferecem uma segurança extra às tocas ante o ataque dos predadores e permitem a busca de alimentos a distâncias maiores.

O castor se preocupa muito com o nível de água obtido, que deve ser profundo o suficiente para permitir que a entrada de sua casa fique bem submersa na água e também que os membros da família possam ir mergulhando dela até o local de armazenamento de comida.

O trabalho é dividido entre toda a família. Com os incisivos, os mais velhos cortam as árvores que os mais jovens despojam de galhos e casca. Os adultos também se encarregam de cravá-los profundamente no leito da corrente fluvial que escolheram como morada. Com suas pequenas e ágeis mãos, arrancam barro e pedras das margens e do fundo dos arroios, que transportam em suas patas dianteiras ou na cauda e que entrelaçam com galhos arrastados com os incisivos. Os castores continuam acrescentando galhos, pedras e barro, até conseguir uma sólida construção que pode alcançar três metros de altura e mais de cem de largura. No Parque Nacional das Montanhas Rochosas, no colorado, chegou-se a registrar uma que atingiu trezentos metros de longitude.

Estas represas são muito vigiadas e mediante o ouvido detectam os lugares com escape, que imediatamente são reparados. A manutenção destas estruturas se realiza durante todo o ano, especialmente na época de crescimento, primavera e outono.

As fêmeas adultas da família são, uma vez mais, as que se mostram mais ativas nesta empresa de construção.

Para destruir uma destas represas é necessário utilizar no mínimo dinamite. Se um proprietário de terras observa alarmado que uma família de castores se instalou em sua propriedade e que seu afã construtor ameaça destruir as casas ou celeiros que imprudentemente construiu perto do arroio vizinho, costuma recorrer a um par de cartuchos bem colocados ao longo da linha da represa do castor. Ao explodir, se modifica o ruído da água que cai e o castor localiza os lugares precisos em que a represa se rompeu.

É usual, no entanto, que nosso proprietário comprove que, em uma só noite, uma família de trabalhadores castores é capaz de repor todo o material perdido, dispondo na manhã seguinte de outro sólido muro de vegetais e barro, se possível mais firme que os anteriores. Os castores são muito teimosos, uma vez encontrada sua localização ideal. De fato, costuma ser impossível desalojá-los: ou se opta por matá-los, ou é melhor se mudar, reconhecendo a derrota.

A guarita de um castor consiste em um grande monte de paus e barro de forma cônica, sempre na água. A começa escavando às margens do lugar onde está construindo sua represa. Com dentes e garras, perfura um túnel horizontal que depois encurva para cima até sair na superfície. À medida que o nível de água vai subindo, o castor acumula galhos, talos e barro. Se o nível se eleva muito, o reforça com grossos troncos. Conforme se vá criando o açude, a toca vai sendo completada com diversas câmaras e com material que, em uma guarita em geral rodeada já de água por todos os lados, o castor arrasta comodamente pela superfície do líquido elemento. Estes cones terminam em uma chaminé de aeração, cuja manutenção no inverno é a única causa pela qual se pode ver este animal no exterior.

O resultado é uma ampla habitação unifamiliar, com dormitório, sala de estar, dispensa, com uma segura entrada submersa e alguma outra saída de emergência, e com grossas paredes de barro gelado, isolante do frio do exterior e impossível de perfurar para os vizinhos de intenções duvidosas. A câmara principal pode medir no interior desta estrutura até dois metros e meio de largura por um de altura. Foram vistas guaritas muito velhas de castor de até quatro metros de altura.

Não muito longe, o castor e sua família armazenarão a comida da qual se alimentarão durante o inverno, em que permanecem despertos, e à qual alcançam, como já dissemos, mergulhando, sem ter por que se arriscar a sair à superfície.

Lorenzo Botto

O Santo Sudário

O Santo Sudário foi submetido a mais de 500 análises de todos os tipos, sem que nenhuma delas tenha conseguido provar a falsificação. Além disso, o sudário possui atividade radioativa.

O Santo Sudário, Sudário ou Mandylion é um lençol de linho que atualmente se encontra em Turim, propriedade do Vaticano, e que é venerado por fiéis católicos pois acreditam que envolveu Cristo no Santo Sepulcro.

Mas, em 1980, veio à luz a polêmica da sua autenticidade. Três laboratórios(1) de reconhecido prestígio o dataram mediante a técnica do Carbono 14, obtendo uma antiguidade máxima remetida aos anos 1230-1390 de nossa era. Implica isso que o Sudário é uma hábil falsificação medieval?

O Sudário

Este lençol de 4,32-4,36m de comprimento por 1,10m de largura tem uma história conhecida desde que Godofredo de Charny o revelou, em Lirey, França, convencido da sua autenticidade, ainda que não pudesse explicar como este tinha chegado em suas mãos. Como o Sudário sepulcral de Jesus surgiu na França no ano de 1356, isso chamou a atenção do Vaticano, que imediatamente enviou sucessivamente especialistas que, justiça seja feita, negaram a autenticidade da relíquia. Um deles provavelmente nem chegou a vê-lo e o testemunho do outro nos descreve um sudário idêntico àquele conservado até hoje e no qual certamente mal podemos identificar algo. Para esse último, tratava-se de uma “falsificação grosseira”.

Historicamente há provas o bastante para sustentar a permanência da mortalha de Cristo ao longo do tempo. Ainda que os primitivos cristãos, predominantemente judeus, tivessem como tabu a manipulação de qualquer objeto que tivesse tido contato com um cadáver, é provável que neste caso o conservariam. Por meio de diferentes pontos do Mediterrâneo oriental (Pella, Odessa, etc.) teria chegado a Constantinopla. De todos esses transportes existem referências históricas, menções e representações artísticas. Por exemplo, Justiniano foi até a Palestina no século VI para “medir o corpo de Cristo”.

Em Constantinopla é constante a menção de um lenço com a face de Jesus, o Mandylion, desde o ano de 1092 até a pilhagem da cidade durante a VI cruzada, em 1247, quando desaparece de Sta. Maria de Blanquerna.

Hoje se desengavetaram numerosos escritos que fazem referência que este Mandylion era na verdade uma tela bem maior, das dimensões do Sudário de Turim(2), mas a falta de evidências neste sentido levou os especialistas em Sindonologia [a ciência que estuda o Síndone (Sudário) de Turim] a trabalhar com métodos da ciência forense.

A história não demonstra a autenticidade do Santo Sudário, mas não a nega, e abre a possibilidade, a qual é bem mais interessante, de que seja autêntico. Analisemos uma por uma as principais evidências científicas sobre a autenticidade ou não do Sudário.

O Tecido

O Sudário é um lençol de linho, com restos de algodão entre os fios, tecido mediante a técnica de “sarga de cuatro” em espiga ou espinha de peixe. É um pano de uma qualidade soberba, fino, de 234g/m2 . Na verdade são duas peças, uma das quais mede 8 cm e está costurada pela esquerda. Faltam-lhe duas pontas (possíveis souvenirs ou intercâmbio de relíquias? Também há evidências históricas desta possibilidade). A única finalidade desta peça é centralizar a imagem.

Na Europa não havia teares que tecessem esse tipo de tecido na metade do século XIV, técnica que só apareceu no final desse Século. O linho era praticamente desconhecido e o algodão mal se trabalhava. No entanto, essas são as características dos tecidos do oriente próximo no Século I.

O tecido foi lavado com extrato de pau-sabão, uma planta rica em saponina, composto altamente fungicida que contribuiu para a conservação, ao longo dos anos, do Sudário.

Sobre ele aparecem impressas três tipos de manchas:

– Chamuscos: o lençol sofreu, ao menos, dois incêndios conhecidos (1510-1532). No último, o relicário de prata onde era guardado chegou a se fundir em parte, e as gotas atravessaram o pano. Note que a prata se funde a 600 graus Celsius. A água utilizada para apagar as chamas deixou uma marca também visível. As partes do tecido perdido foram cosidas pelas freiras clarissas, apesar de que esses remendos tenham sido retirados desde a última exposição do lençol.

– Sangue: apesar do fato de que devia estar esverdeado depois de tanto tempo, certas manchas ocres denotam a presença de sangue por toda sua superfície.

– Uma figura humana, de traços esvaídos, da qual falaremos mais adiante.

A hipótese iconográfica

As primeiras investigações sobre a autenticidade do Santo Sudário incluíram a interessante teoria que afirma que o florescimento e a uniformidade dos retratos de Jesus na arte bizantina se deve a um modelo que foi imitado: o rosto de Jesus, tal como aparece no Sudário.

De fato, é correto afirmar que Jesus foi representado bastante deformado e bastante feio. Olhos saltados, barba fendida, nariz torcido, inclusive manco. É difícil imaginar como uns artistas que procuravam enaltecer a figura do Messias se atreveram a representá-lo tão “pouco agraciado”, a não ser que tivessem como modelo uma figura considerada como a autêntica imagem de Cristo, na qual sua efígie fosse, de fato, grotesca. Essa imagem não seria outra senão o Mandylion de Constantinopla, ou seja, o lençol que hoje conhecemos, dobrado de forma que só ficasse exposto o rosto que ele apresenta.

Na medicina legal se considera que duas imagens são a mesma coisa quando compartilham aproximadamente 40 características em comum. Os ícones bizantinos e o rosto do Sudário têm mais de 150 coincidências. No “Trémisi” de Justiniano, essas coincidências se elevam a 180.

O pólen

Emitido pelas flores das plantas, o pólen não costuma se espalhar por mais de 8 km da sua fonte emissora. Max Frei, perito em tecidos suíços e expert da Interpol, apresentou em 1976 um estudo realizado com o pólen retirado do Sudário com pequenas tiras adesivas que colocou em toda a superfície deste.

Além de 12 espécies européias comuns, encontrou 9 tipos de grãos de pólen de espécies vegetais endêmicas(3) da zona turca (lembremos a visita do Sudário a Constantinopla e Odessa)  e inclusive 8 pertencentes a plantas palestinas.

Em 1978 completou sua investigação, alcançando o número de 48 espécies cujos grãos de pólen tinham se depositado no sudário. Três quartas partes deles pertenciam a plantas da zona da palestina, 13 delas exclusivas do Mar Morto, algumas extintas desde o século I da nossa era, para as quais foi necessário recorrer aos sedimentos fósseis dos lagos de Genezaret e do próprio Mar Morto.

O Doutor Ghio, de Zurique, repetiu e confirmou os dados. Atualmente, além do pólen, têm sido estudados os ácaros presentes no tecido, justificando e corroborando novamente os resultados.

Recapitulemos um pouco antes de continuar: Existiria um falsificador medieval que percorreria perigosos locais santos em pleno século XIV para adquirir um tecido similar ao que foi utilizado no enterro de Jesus e espalharia nele pólen e ácaros (que foram descobertos 500 anos depois da invenção do microscópio) da região, alguns deles desenterrados de estratos geológicos antigos?

A figura dupla

O piedoso advogado Secondo Pia foi o primeiro a solicitar uma permissão para tratar o Sudário no alvorecer de 1898 como um revolucionário descobrimento da época: a fotografia. Com a permissão dada, este homem montou um complexo sistema de impressão que incluía negativos quase do tamanho natural para recolher a imagem do lençol com qualidade. Quando as revelou, não conseguiu conter o grito. A imagem quase imperceptível do sudário tornava-se nítida e precisa nas suas placas, porque as imagens frontal e posterior do corpo impresso no lençol estavam impressas na verdade… em negativo.

O corpo do Sudário está impresso numa série de manchas difusas. A 20cm são quase imperceptíveis e a 10cm não se vê imagem nenhuma.

Experiências no microscópio demonstram que a imagem cobre apenas as microfibras mais externas dos fios externos do tecido. Resumidamente, algo como as moléculas superficiais da celulose do linho.

Não absorve líquidos, como o sangue, descartando a hipótese de ser uma pintura. Tampouco se encontrou sinal algum de corante, imprescindível em qualquer pintura(4). A imagem, como uma improvável pintura, rompe com todos os cânones desta. Não há sinais de contorno, nem inclinação natural da visão. Não possui iluminação e parece ser frontal, irradiando luz dela mesma. É uma pintura que não descascou nem se alterou pelas dobraduras, a idade ou o calor dos incêndios que sofreu. Não há líquido, nem capilaridade e a única explicação pra sua impressão consiste em “uma alteração química da celulose dos fios do linho”, provocada momentaneamente que produziu um ressecamento deles.

Mas o mais estranho é que a imagem está em negativo. Esse halo fantasmagórico que se contempla mais nitidamente desde longe (uns 2 metros) ganha vida e uma presença indescritível ao ser contemplado no negativo da sua foto. A imagem está impressa “ao contrário” de como costumamos visualizar as coisas.

Como negativo, a luz projetada é perpendicular a superfície da tela, e emerge do cadáver por inteiro, incluindo cabelo e unhas. Portanto, a impressão na tela dessa imagem depende da distância do corpo que envolveu o lençol e a superfície desta, já que o cabelo, esse sim, aparece na sua cor natural. Como a intensidade é igual na parte dianteira e posterior e a imagem das costas, glúteos e coxas não está aplainada, o corpo carecia de peso no instante da “foto”, ou seja, permanecia suspenso.

O sangue

Sangue com 2.000 anos de idade devia estar esverdeado pelo processo natural de decomposição. No entanto, tem cor ferruginosa. Essas manchas, que aparecem no positivo, cobrem o cadáver completamente, pela frente e por trás.

Adler submeteu as manchas a 14 experimentos que demonstraram sem sombra de dúvida que se tratava de sangue. Têm sido encontradas proteínas de soro sanguíneo, hemoglobina alterada e antígenos M, N e S, idênticos aos dos judeus do Iêmen atual. Por fim concluiu-se que se tratava de sangue tipo AB.

Mas as manchas de sangue encerram um mistério muito maior. Quando o corpo foi envolvido no lençol, colocando-o dentro do envoltório como num pacote, os coágulos estariam, na sua maioria, secos.

Só sangue post mortem que surgiu das feridas abertas nas mãos e nos pés, e principalmente na lateral(5), ia acompanhado de suficiente soro para ser líquido. Um sangue nessas condições não empaparia o tecido. No entanto, tem se demonstrado que as condições de umidade do ambiente da sepultura tornariam esse sangue seco, não líquido, mas ao menos o suficientemente fluido para que grudasse entre os fios do Sudário sem empapa-los coisa que de fato ocorreu. Esse fenômeno, denominado fibrinolosis, está constatado na medicina legal e acontece, curiosamente, entre as 30 e 36 horas de se envolver o defunto e entre 24 e 40 horas nos casos mais extremos. Posteriormente o sangue se liquefaz e impregna o tecido.

Certamente os cadáveres eram acicalados antes de irem para a definitiva sepultura, mas com esse não se seguiu o procedimento habitual. Foi um uma exumação “provisória”. Lembremos que Cristo foi executado nas vésperas do Sabatt, quando não se podia trabalhar.

Assim que temos um cadáver com seus coágulos semidiluídos impregnando o tecido que o envolve. As bordas das manchas de sangue são bem delineadas, precisas. Como retiramos o cadáver sem marcar estas bonitas imagens, sem que as manchas apresentem bordas borradas ou escorridas? A única explicação foi dada por Jumper e Jackson. O corpo simplesmente desapareceu do interior do lençol.

Moedas

Era um costume entre os judeus e outros povos de colocar no defunto moedas para “pagar” ao barqueiro a passagem para o outro mundo, às vezes eram depositadas sobre os olhos para evitar que eles se abrissem. O corpo do Sudário possui uns olhos muito inchados. Ampliando a área, o Padre Filas descobriu a silhueta de duas moedas, cujos relevos e inscrições delatam que foram leptones cunhados por Pilatos, por volta do ano 30 da nossa era.

O suplício

A morte do homem envolvido no Sudário foi incomumente atroz. Se bem que a morte pela crucificação é, por si só, um inferno de dor, mas com esse corpo foram utilizados outros procedimentos inusuais e sádicos. Permitam-me descrever apenas um pouco dos detalhes desta cruel execução.

Para começar, foi açoitado sistematicamente. Mais de 120 marcas de 6 bolinhas cada uma aparecem distribuídas com profissional regularidade por todo o corpo. Como uns 30% delas não aparecem impressas, pode-se imaginar que haveria aproximadamente 1.000 (150 marcas vezes 6) impactos do flagelum taxilatum, instrumento de tortura romana, dotado de 3 correias no fim das quais se prendiam bolinhas ou ossinhos destinados a amassar e rasgar a carne do réu. Um judeu – segundo o sangue e o tipo de penteado – açoitado exageradamente pelos romanos, visto que em judeus não se podia dar mais do que 40 açoitadas. Apenas na zona do coração não se observam marcas, pois não interessava comprometer uma parte tão sensível, já que o réu morreria, antes de se acabar com ele, de enfarto.

O rosto aparece atrozmente desfigurado devido a uma coroa em forma de capacete (coroa oriental, não européia) de espinhos. Mais de 50 marcas de espetadas podem ser observadas na cabeça. Chama a atenção uma marca em forma de 3 invertido sobre e fronte (como um cacho de cabelo).

O nariz está quebrado, mediante o golpe de um bastão de 4 a 5 cm de diâmetro dado da direita para a esquerda por um canhoto.

Pendendo do olho, aparece a marca de uma cuspida. A barba direita está semi-arrancada e nota-se uma emanação de sangue que surge do nariz e escorre pela barba.

O réu teve que ir para o cadafalso com o patíbulo (pau horizontal da cruz) sobre seus ombros e com uma coroa de espinhos sobre a cabeça. Só isso impediria que o atrito com a madeira amalgamasse o sangue na nuca. Inclinado sobre o ombro direito, o extremo livre da corda estaria amarrado à perna esquerda, numa zona na qual vemos as açoitadas (que a corda apagaria com o atrito). Isso inclinaria o pau para a esquerda o que puxaria o ombro direito. As feridas são mais altas nesta parte, com um ângulo de 20 graus.

Amarrado nas mãos e nos pés, isso faria com que os puxões da corda o fizessem cair. Cairia desde 1,80m de altura, com um pau de 45kg nos ombros, com as mãos presas e sem poder se proteger. Além disso, também foi encontrado barro no interior do sangue do rosto, joelhos e pés (caminhava descalço).

A crucificação se realizou pelos pulsos, com pregos quadrangulares de 8mm no espaço de Destot. Se tivessem sido cravados na palma das mãos, ele teria caído (há especialistas que divergem quanto a isso). Através dos ossos dos pulsos, o cravo romperia o nervo do polegar (por isso não podem ser vistos no lençol).

Ao que parece, as manchas irregulares do pulso direito mostram que foi necessário tirar e cravar o prego várias vezes até atingir o local certo.

Os pés foram não foram cravados pelos tornozelos, mas com o esquerdo sobre o direito, com um só prego. No Sudário aparecem na planta dos pés do corpo as marcas dos dedos de quem transportou esse corpo desde a cruz até a sepultura.

A morte

A morte na cruz acontece por asfixia. O réu, pendurado pelos braços, pressiona o diafragma contra os pulmões e deve erguer-se, apoiando-se nas feridas dos pés e das mãos, para aspirar um pouco de ar, justo antes de desmaiar de dor, deixando-se cair para repetir a operação tantas vezes quanto sua força o permita, geralmente, durante dois ou três dias. Neste caso que analisamos, que apresenta esse tormento a que os crucificados não eram submetidos (se iam morrer, não se lhes açoitava ou os injuriava antes), o prisioneiro fica praticamente sem sangue e exausto.

A ferida da lança, que penetra a 5a e 6a costela do lado direito, perfurou a aurícula do coração, fazendo surgir uma marca de soro e sangue seco, própria de um cadáver, do único lugar onde permanece sangue num corpo morto. Normalmente suas pernas teriam sido quebradas para acelerar a asfixia. Mas, não foi necessário fazê-lo, pois a morte do réu era óbvia. O rigor mortis das pernas e das mãos assim o demonstra também.

Conclusão

Se me estendi um tanto demais nos detalhes dos tormentos foi apenas para corroborar a impossibilidade de falsificação que examinemos uma vez mais. Um suposto falsificador que elabora cuidadosamente o tipo de tecido que envolveria Cristo e sobre o qual espalha pólen séculos antes que se descobrisse o que afinal de contas era isso. Um falsificador que pinta uma imagem em negativo, sem a mais remota idéia do que é uma fotografia. Um falsificador que recolhe sangue judeu, sem conhecer grupos sanguíneos e o distribui cuidadosamente pelo tecido, denotando conhecimentos de anatomia absolutamente desconhecidos no século XIV . Um falsificador que desenterra moedas da época. Um falsificador que representa uma coroa de espinhos e feridas da crucificação diferentes dos usualmente representadas na tradição…

O Santo Sudário foi submetido a mais de 500 análises de todos os tipos, sem que nenhuma delas tenha conseguido provar a falsificação. Apenas o C14 está em dissonância com este amplo leque de evidências. Considerando que mais de 10% do Sudário é matéria externa, contaminante, e um erro de 5% nas medições invalidaria a análise do método, não é estranho que o próprio inventor do método do C14, o Doutor Libby, dissesse que, se existe um objeto ao qual é impossível aplicar este método, este objeto é o Santo Sudário.

Como cientistas, não devemos supor a invalidação dos fatos pelo resultado desse experimento. O problema não está em como justificar a fenomenologia que o Santo Sudário nos apresenta, sendo um tecido do Século XIV, mas o oposto, quer dizer, como este tecido contemporâneo de Jesus possui uma atividade radioativa do século XIII. Ao mistério da imagem e de como foi impressa, questão que ainda não foi respondida, acrescenta-se a intervenção de energia atômica, a única que poderia ter rejuvenescido o tecido. Parafraseando o Padre Manuel Sole, o milagre não seria que este pano fosse aquele que envolveu Jesus de Nazaré, mas que não fosse.

Declarando-me como não católico, nem mesmo como cristão, é óbvio para aquele que escreve sobre o Sudário que este encerra um mistério realmente notável. O acúmulo de provas a favor da sua autenticidade é enorme, e o fato de que o C14 não o tenha localizado no alvorecer da nossa era, o que era o que todos os seguidores deste fenômeno esperávamos, acrescenta-nos outro mistério. A fidelidade do sofrimento e morte do homem envolvido pelo Sudário, as provas forenses aplicadas e o fato de que uma misteriosa energia emanara de um corpo cadavérico (sangue coagulado surgido da ferida lateral), aproximadamente aos três dias de ser sepultado (processo de fibrinolosis) enquanto o corpo permanecia suspenso (homogeneidade na impressão da imagem), para a seguir desaparecer (marcas imaculadas de sangue), falam-nos de realidades que estão, por hora, longe do alcance da nossa compreensão. Toda uma fenomenologia parapsicológica se abre diante de nossos olhos e estou totalmente de acordo que a ciência continue investigando, tentando encontrar uma prova convincente que, ao menos neste caso, dilua a fronteira entre o crível e o imaginável para além do que nos querem fazer acreditar.

Para mim, o Sudário de Turim é uma mostra evidente de até que ponto o mundo material e o espiritual estão entrelaçados, de como é certo que às vezes suas fronteiras se tocam. De como no ser humano estão presentes potencialidades que ainda não foram concebidas ou mensuradas pela ciência, no alvorecer de um novo século e de uma nova era, caso impensável alguns séculos atrás que pode reafirmar nossas crenças particulares e colocar um pouco de luz nos âmbitos do conhecimento nos quais, não faz muito tempo, era proibido acender mais do que uma vela.

José Manuel Escobero

Notas:

1 A Universidade de Oxford, com uma equipe dirigida pelo Dr. Hall, o Instituto de Tecnologia de Zurique, coordenado pelo Dr. Wolfli e a Universidade de Tucson (Arizona), sob a supervisão de Damon. Os três por sua vez estavam sob a direção de Michel Tite, do Museu Britânico.

2 Por exemplo, conserva-se uma carta fechada de 16/8/944 da arquidiocese de Santa Sofia que afirma que o Mandylion continha “sangue e água da lateral” de Jesus. Ian Wilson catedrático de História Universal de Oxford descobriu um cálice de prata siríaco do Século VI com uma representação do Sudário.

3 Um endemismo é uma espécie de animal ou vegetal que só pode ser encontrado num local muito específico do planeta, geralmente de pouca extensão.

4 Durante a investigação McCrone ficou famoso por ter detectado ferro, pigmento muito comum em tinturas. Posteriormente provou-se que era o ferro hemoglobínico, procedente do sangue do Sudário, tremendamente abundante, e que McCrone só o usou para obter publicidade pessoal. Foi gentilmente convidado a abandonar o STURP, o grupo de cientistas que estuda o Sudário. Curiosamente foi aquele que anunciou aos jornais a data demonstrada pelo C14, que mostrava ser o sudário da época medieval, sem ter recebido os códigos secretos que faziam com que a análise fosse impossível de ser realizada.

5 Sangue que surge em coágulos e soro, presente apenas em cadáveres, e que flui pela gravidade ao mudar o corpo de posição ao ser retirado da cruz e colocado em posição horizontal para seu transporte. Sangue, finalmente, que demonstra que o corpo era um cadáver.

Saturno, Senhor do Tempo e do Destino

Os deuses da Mitologia, tal como os planetas na astrologia, representam forças e princípios vivos no Universo e na vida de cada um de nós.

Mitologia, Astrologia, Psicologia

Joseph Campbell escreveu: Os deuses da Mitologia, tal como os planetas na Astrologia, representam forças e princípios vivos no universo e na vida de cada um de nós. A Astrologia é a mais extensa linguagem de energia e ao mesmo tempo mais precisa que o homem conhece. Pode-se considerá-la como uma Mitologia utilizável conscientemente. Como um meio que volta a unir o homem com seu eu oculto, com a natureza e com o processo evolutivo do Universo.

Jung demonstrou que os agentes primários da psique individual e as normas psicológicas de culturas inteiras são manifestações de fatos-arquétipos da psique humana. A Mitologia destaca as manifestações culturais dos mesmos arquétipos-essências com sua linguagem individual e cultural. Chegamos à conclusão de que a Astrologia pode considerar-se como a estrutura mitológica mais vasta que se sustenta em configurações simbólicas do inconsciente coletivo; os planetas são os deuses, símbolos dos poderes do inconsciente. Segundo Jung, a astrologia abrange a soma total de todo conhecimento psicológico antigo, incluindo a predisposição dos indivíduos e o modo exato de regular as crises da vida.

Os mitos (na chave psicológica), como símbolo dos valores do inconsciente coletivo (arquétipos) da Humanidade, nos ajudam e nos guiam nos mistérios da alma humana, pois representam muito bem as experiências psíquicas do homem, o esqueleto da vida subjetiva. Os sutis paradoxos contidos neste sistema rico de símbolos podem nos orientar como Ariadne no labirinto da vida.

Saturno e as Provas

Deus quis em sua bondade que os obstáculos nos servissem para aguçar as armas;

quis que o impossível

estivesse não para vencer-nos,

assim como são as barreiras nos hipódromos,

para que os cavalos as saltem.

(Amado Nervo)

Saturno, Senhor do Karma, representa o maior problema kármico na vida de um indivíduo. A posição e os aspectos de Saturno revelam onde nos encontraremos com nossas provas mais específicas e concentradas e onde nosso karma mais difícil se especializa.

Saturno, refere-se à natureza fundamental da pessoa, a pureza de nosso verdadeiro eu. Com um ato desafiante se experimenta o destino, para que comecemos a prestar a atenção nas necessidades de nossa fundamental natureza interior. É o tendão de Aquiles na armadura que usamos perante o mundo. É também a ambição de concretizar as possibilidades inerentes ao nascimento. Saturno representa aquelas áreas da vida nas quais o indivíduo pode ver frustrada a sua expressividade e onde encontrará maiores dificuldades. Em muitos casos pode estar relacionado com as circunstâncias dolorosas que, a primeira vista, não foram causadas por nenhuma falha ou debilidade por parte da pessoa, mas que simplesmente aconteceram. Os ensinamentos mais antigos o chamam “O Dono do Umbral”, o guardião das chaves através da qual (e somente através dele) poderemos obter a liberdade por meio da compreensão de nós mesmos.

Por tudo isso, Saturno representa a experiência e a instrução concentradas que só se obtêm por meio da vida no plano material. É desenvolver um maior nível de entendimento concentrado e uma maior paciência em nossas atitudes frente à vida. Saturno nos mostra o valor do trabalho. Sua pressão é um impulso útil para nos desenvolvermos profundamente. Tanto é que o calor e a pressão de Saturno são necessários para que possamos desenvolver o que os budistas chamam de “a alma de diamante” ou “o corpo de diamante”, nossa natureza fundamental oculta, porém se expressa somente através de Saturno teremos rigidez e morte. Por isso nós não só necessitamos de esforço (Saturno), mas necessitamos também de Fé (Júpiter/Netuno) e Mística para sairmos vencedores nas provas da vida.

O símbolo de Saturno no mapa de nascimento indica onde estamos mais apegados e onde somos rigidamente egocêntricos. Simboliza um ponto de sensibilidade, onde nos afligem sentimentos de inferioridade, timidez ou opressão. Neste âmbito nos falta confiança e, mesmo assim, podemos desenvolvê-la lentamente, sobre a base do conhecimento de quais são nossas capacidades reais como demonstra o processo de provas do tempo, o trabalho e a experiência. Então o que eram talentos potenciais, serão feitos comprovados e podemos desenvolver, pela pressão de Saturno, uma notável força interior. A mesma configuração que denota falta de confiança poderia indicar uma confiança particularmente sólida e inabalável anos mais tarde. Tudo depende de aceitarmos o desafio de Saturno, sempre presente em nossas vidas. Assim o dever e a responsabilidade serão os diques que mantêm a mente controlada.

Por isso experimentamos deveres específicos e responsabilidade kármicas que nos ajudarão a disciplinarmos mente e desejo. A frustração volta-se sobre a pessoa, dá-lhe a oportunidade para que ela desenvolva uma força interior descobrindo seus recursos mais profundos. Saturno é o grande mestre acerca das realidades práticas e das leis da terra. Ensina paciência, moderação, temperança, dever e trabalho. Nos mostra de forma lenta, mais segura, qual é a realidade do mundo material que nos põe à prova a cada passo.

Saturno não dá espaço ao auto-engano, ao escapismo, nem a racionalização. Confirma nosso conhecimento espiritual e nossa consciência. Serão as experiências que comprovarão a nossa força interior. Algo assim como: agora que as coisas estão ruins, nossa espiritualidade e nosso suposto autoconhecimento nos permitem que enfrentemos este karma com graça, aceitação e paciência?

Saturno é o mestre arquetípico, cujas lições têm grande peso e importância. Elas não representam unicamente a dor, a restrição e a disciplina, mas também é símbolo de processos psíquicos pelos quais o indivíduo pode aproveitar suas experiências de dor, restrições e disciplina para obter mais consciência e plenitude.

As experiências frustrantes e relacionadas com Saturno são obviamente tão necessárias como educativas num sentido prático e psicológico. Nós os seres humanos seremos realmente livres através do próprio descobrimento e isso somente acontecerá quando as coisas ficarem tão difíceis que não haverá outra saída. O processo psíquico simbolizado por Saturno parece estar relacionado com a realização da experiência interna da maturidade do indivíduo. Saturno representa o valor educativo da dor e a diferença existente entre os valores externos e internos.

Podemos alcançar a liberdade aprendendo mais sobre nós mesmos e entendendo a influência das experiências vividas, para o desenvolvimento da totalidade do eu. Não há nada como a frustração, um presente de Saturno, para levar o homem a realizar esse tipo de exploração. Essa entidade misteriosa e evasiva que denominamos o ser não tem aparecido entre os símbolos do horóscopo, mais pode ser invocada em qualquer momento da vida para que a personalidade e o mapa adquiram um novo e mais completo significado. Saturno é a chave da dita invocação do ser, com todo seu potencial de transformação. Saturno é o planeta do discípulo, de alguém que esta aprendendo. Só é inimigo para aquele que não compreende sua mensagem e, por conseqüência, não aproveita suas lições e oportunidades.

A matéria prima (o chumbo) da Alquimia, na qual poderia ser encontrado ouro, chama-se Saturno. Será o trabalho constante de transmutação dessa mesma matéria que nos premiará com o ouro. Só poderá encontrar Mercurius (Hermes Trimegisto, o mistagogo por excelência), praticando rito da ascensão e desascensão, a destilação circulatória, que começa com o chumbo negro, na escuridão, no frio de Saturno, e eleva até o Sol ígneo, onde o ouro queima no maior dos fogos, libertando-se de toda impureza. Retorna finalmente a Saturno onde se encontra Hermes, de quem recebe ensinamentos úteis. Saturno deixa de ser o astro de desgraça e passa a ser a casa da sabedoria. Saturno é a chave do trabalho de transmutação, feliz é aquele que pode cumprimentar este planeta pelo seu nome correto. Certamente, tudo que fizermos na Terra tem seu eco na eternidade, e cedo ou tarde voltara a nós, como um filho volta aos braços do pai.

Um velho ensinamento egípcio diz que para nascer de novo é necessário purificar-se dos tormentos irracionais da matéria. A ignorância é o primeiro, o segundo é a mágoa, o terceiro é a incontinência, o quarto é o desejo, o quinto é a injustiça, o sexto é a cobiça, o sétimo é o engano, o oitavo é a inveja, o nono é a fraude, o décimo é a ira, o décimo primeiro é a impetuosidade e o décimo segundo é o vício.

Moira

Moira é o destino, com conjunto de Divindades ou Potenciais naturais a ele associado. Heimarmene (o negativo de Moira) é como um fino fio que percorre através da existência. Para Hesíodo, o Destino é guardião da justiça e da lei. Este guardião fixou os limites da ordem elementar original em que cada homem deve viver e impõe o castigo a qualquer transgressão. As Nornas, que vivem no Inframundo, são personificações do Destino, como Cloto, Laquesis e Atropos. A forma definida, a linha que o cerca, o trabalho que nos designaram os deuses, à parte de glória que nos concede e os limites que não podemos ultrapassar. Moira é tudo isso. As filhas de Nix, a deusa da noite, ou Era, a mãe da Terra, são chamadas Moiras, Erinias, Nornas, Grayos, Hécate de face tripla, Artemisa-Hécate, Senhora dos caminhos da noite, do destino e do mundo dos mortos.

O tecido da criação telúrica se converte no tecido do destino, e o fio é o portador do destino humano. Eileithya, a parteira, a fiadora, converte-se na Grande Moira, tão antiga como Cronos. O tear, portador da lei suprema da criação, inscrita nas estrelas, foi designado às deidades uranianas, e a vida humana e o cosmos em sua totalidade passaram a ser considerados como grande tear do destino. Nas profundidades escuras Ogygianas da terra, fiam todas as vidas e as enviam para cima, para luz do sol, e na morte voltamos a ela. Toda vida termina pagando sua dívida com a Natureza, quer dizer com a Mãe. Desse modo as Erinias, como a terra a qual pertencem, governam sobre a vida e sobre a morte, e ambas, vida e morte, formam parte da matéria, do ser telúrico. Os mistérios primordiais de fiar e tecer foram projetados sobre a Grande Mãe que fia o fio da vida e tece o tecido do destino.

Moira é mais forte do que os desejos e decisões do ego, mais forte do que as razões do intelecto, mais forte do que os deveres e do que as boas intenções, mais forte ainda do que a própria fé. Para Platão, estava empossada no centro do Universo, com o fuso cósmico em seus joelhos, e suas filhas, reflexos diferenciados de seu próprio rosto, guardavam as fronteiras da lei natural e castigavam os transgressores com sentimentos profundos. A Moira conhece-se na depressão, no desespero, na impotência e na morte; quando a pessoa toma consciência da força, do poder superior impessoal que guia nosso caminho, mais além do nosso desejo. Seu segredo é aquele que guia e sustenta o indivíduo quando este já não encontra sustentação em si mesmo, e é também o que garante o seu próprio padrão único de desenvolvimento.

O filosofo neoplatônico Marsilio Ficino aconselhava lembrar e não esquecer de que: A força do destino não afeta a mente, a menos que esta tenha submergido previamente no corpo, que este sim está submetido ao destino…para que o destino possa descarregar sua força sobre o corpo sem atingir a alma, o espírito deve afastar-se da carga que opõe o corpo e se concentra na mente.

Síntese final

Dentro dos limites do tempo, destino e matéria, nossa alma esta encantada e prisioneira. Ela tece com suas ações, no tear da vida, seu destino, sua moira, seu karma. E será este, através do tempo, o que nos trará na ordem oportuna, as experiências necessárias para nossa aprendizagem. Ele nos ensina, dia a dia, que não há vitória sem luta, esforço e sacrifícios.

Através dele recolhemos experiências múltiplas que irão se inserindo como contas de um colar, no fio do destino e em nossa consciência, recolhendo o melhor de todas elas; as sementes de ouro. Graças a Saturno e a tudo que temos experimentado no tempo, conseguiremos plasmar, mais além das provas, numa ação constante e fiel, nossa verdadeira identidade.

Dionisos, o menino de ouro da divina linhagem de Jove, nasce ou desperta em cada homem que conseguiu passar pelas provas de Saturno, conhecendo-se e vencendo a si mesmo. Alcança à vitória, graças às chaves que lhe outorgaram os segredos e mistérios de Hermes ou da Sabedoria. Mais além da diversidade e da dor, Dionisos sempre ri desde um coração que sabe ser imortal.

Dolores Villegas

A teoria da relatividade

Pensávamos que, com a Teoria da Relatividade Especial, Einstein havia realizado sua última grande descoberta, mas não foi assim, pois a Teoria da Relatividade Geral talvez tenha sido o processo mental mais abstrato, complexo e difícil que jamais tinha realizado antes.

O que Einstein fez foi estabelecer um princípio de equivalência. Imaginemos um corpo, uma massa que deixamos cair. Se duplicarmos essa massa, seu peso também será o dobro. Uma coisa é o peso e outra é a massa: se a massa é de 30kg, por exemplo, seu peso na Terra será de 30kg, porque esta medida é algo que foi convencionado para a Terra, mas essa mesma massa na lua terá um peso diferente, devido ao fato de a gravidade na lua ser diferente daquela da Terra. De fato terá 5 kg, já que a gravidade lunar é um sexto da terrestre. Embora, massa e peso sejam dois conceitos diferentes, na Terra são equivalentes. Se duplicarmos uma massa, seu peso na Terra também dobrará. Esta massa é conhecida como massa gravitacional. Outro conceito diferente é o da massa inercial, ou seja, a relação entre a força que se aplica a um corpo e a aceleração que adquire. Se exercermos uma força sobre uma massa a fim de duplicarmos sua massa inercial, a força que devemos aplicar sobre esta para arrastá-la com a mesma aceleração será o dobro. O princípio de equivalência afirma que a massa inercial e a massa gravitacional são iguais em nosso planeta.

Einstein se questionou: Por que são iguais? Encontrando um dos arcanos mais ocultos, a geometria do Universo, chegou à conclusão mais conhecida acerca da Teoria da Relatividade: o espaço-tempo é curvo.

Imaginemos que estamos dentro de um elevador e temos dois objetos de pesos diferentes em cada mão e os deixamos cair: qual chegará primeiro ao chão? Também Galileu já naquela época estudou o problema deixando cair objetos do alto da Torre de Pisa. Galileu deduziu que o tempo gasto na queda é independente da massa dos corpos, ou seja, desde a mesma altura, corpos com massas diferentes chegam ao chão ao mesmo tempo e com a mesma velocidade. Essa lei é conhecida como o Princípio de Galileu.

Agora imaginemos que este elevador está no espaço interestelar, onde não há gravidade. Deixemos então cair os dois corpos. O que acontece? Pelo fato de estarmos com gravidade zero, esses dois corpos permanecem estáticos. Suponhamos que amarramos no teto desse elevador uma grande corda e o puxamos para cima, então o que ocorrerá com esses dois corpos? Acontecerá que o chão do elevador se deslocará para cima enquanto os dois corpos permanecerão estáticos, flutuando. Então o chão do elevador se chocará com ambos ao mesmo tempo. Para um observador no interior do elevador, será como se os dois caíssem pela ação da gravidade e chegassem ao chão ao mesmo tempo. Einstein notou então que este fato nos impede de tomar a gravidade como uma força que pode ser substituída por outra igual e de sentido contrário. Quer dizer, a gravidade, a força com que somos atraídos pela Terra, pode ser substituída por um campo em aceleração.

As leis são invariáveis tanto para um campo gravitacional como o da Terra, como para um campo em aceleração, tal como o elevador do nosso exemplo, com uma força em direção a um novo chão, como nossa gravidade agora aponta para cima. Isso se conhece como o princípio de equivalência.

Agora imaginemos que um raio de luz parte horizontalmente desde a parede do elevador que está no espaço. Se o chão vai subindo, que aconteceria ao raio de luz? Acabará encontrando-se com o chão, traçando uma parábola, como se o campo gravitacional do chão tivesse atraído esse raio de luz também.

Portanto, a luz é desviada pela gravidade, atraída por ela.

Einstein conspirou contra a estrutura clássica do espaço-tempo (definiu o tempo como uma dimensão a mais, junto com as três do espaço. O universo de Einstein apresentava quatro dimensões). A existência de corpos massivos no cosmos produz a contração, a curvatura do espaço que os cerca que é influenciada pela massa. Isso é conhecido no mundo da física como campo.

O espaço-tempo é curvo, é flexível. Einstein foi capaz de deduzir as trajetórias traçadas por um raio de luz nas proximidades de um corpo massivo ao ser desviada por este último, atraído pela sua gravidade. Einstein precisava de um fato empírico para demonstrar sua hipótese, e ele a conseguiu. Como? Em 1914, quando apresentou a Teoria da Relatividade Geral, houve um eclipse total do Sol (a lua se interpôs entre a Terra e o Sol). Os astrônomos tinham tabelas perfeitas da posição das estrelas fixas, mas quando ocorre um eclipse do Sol, podemos ver ao redor da sua coroa solar as estrelas que normalmente são escondidas pela poderosa luminescência do astro rei. Aqui viu Einstein a solução perfeita para comprovar sua teoria. Previu que uma dessas estrelas fixas, durante o eclipse solar, já não seria vista no mesmo lugar, mas que se desviaria alguns segundos de arco calculado. Isso seria devido ao fato de que o raio de luz de que vem dessa estrela até o observador terrestre teria realizado uma curvatura pela atração gravitacional do Sol, e não seguiria a lógica da linha reta. Suas previsões foram comprovadas por uma expedição inglesa sob as ordens do astrônomo Eddington. Podemos imaginar a grande comoção internacional que se originou. De um momento para o outro, Einstein passou a ser extremamente popular. Todos falavam da Teoria da Relatividade nos cassinos, no comércio, nas barbearias, até lhe foi proposto fazer uso da sua imagem e da sua teoria para vender todo tipo de produto, desde lâminas de barbear a gel para cabelo. Mas, segundo afirmou Bertrand Russell em seu famosíssimo livro O ABC da relatividade, (um livro de divulgação científica que já na sua época fez muito sucesso) poucos foram e poucos são, ainda hoje, os que realmente entendem a Teoria da Relatividade e suas implicações na ciência e na Filosofia.

Para Einstein, a gravidade não é mais uma força que atrai os corpos à distância instantaneamente, mas que tem sua velocidade, seus limites, seus corpúsculos (que hoje são conhecidos como grávitons). Quando um corpo supermassivo como nosso Sol se forma, cria uma série de auto-estradas ou pistas, que são as órbitas planetárias. Uma galáxia no espaço curva a geometria dele, a modifica. É como um rio que desde seu nascimento a sua desembocadura não segue uma linha reta, mas vai se adaptando às sinuosidades do terreno, desde as corredeiras dos montes até as tranqüilas planícies próximas da sua desembocadura. Por que os planetas giram em órbitas elípticas ou circulares? Porque tem de vencer os obstáculos do terreno espacial, pois é como uma grande malha elástica sobre a qual deixamos cair um peso, sendo as trajetórias resultantes estradas espaciais, como a elipse.

O Universo de Einstein é finito, mas ilimitado. É um paradoxo. Imaginemos que somos habitantes de um planeta esférico, mas nós só temos duas dimensões, largura e comprimento; somos planos e vivemos sobre a superfície deste planeta. Logicamente não conhecemos a terceira dimensão. Como poderíamos nos mover por essa superfície?

Poderíamos dar voltas ao redor do planeta de maneira indefinida, e não encontraríamos nenhum limite. Em duas dimensões esse lugar é infinito, mas desde a terceira dimensão é finito. Este exemplo é similar aos postulados de Einstein, com a diferença de que ele transferiu esse conceito para quatro dimensões, as três espaciais e a quarta, que é o tempo, inseparável das coordenadas espaciais.

Escreve-se muito sobre os efeitos da relatividade do espaço, exemplo disso são os buracos negros (hoje se afirma que existe um superburaco negro no centro de cada galáxia, como grande fonte de atração que terminará por engoli-la.). É dito também que através deles podemos estabelecer uma ponte no espaço para outros universos. Seria como fazer um buraco através da Terra entre a Espanha e a Nova Zelândia, sendo que este trajeto seria bem mais curto do que viajar pela superfície, dessa forma contrairíamos tempo e espaço.

A revolução da relatividade de Einstein não eliminou a velha mecânica newtoniana estudada pela física durante tantos séculos, mas, pelo contrário, a incorporou em sua própria teoria, a universalizou. A diferença reside em que, com velocidades diferentes as da luz, continuamos usando a mecânica e a dinâmica newtoniana, mas quando nos aproximamos da velocidade da luz surgem os fenômenos relativistas.

Outro dos grandes resultados deduzidos de suas teorias foi a mais famosa equação matemática: E = m x c2. Esta equação estabelece uma nova equivalência entre matéria e energia. A matéria não se destrói, transforma-se em energia. A energia não se destrói, transforma-se em massa.

Quando foi criado o Universo, foram criados o tempo e o espaço. Mas esse tempo e esse espaço não são fixos, são moldáveis. Quando desapareça nosso universo, também o farão as duas dimensões. Einstein nunca negou que existissem um Tempo e um Espaço absolutos, mas, como ele dizia, isso talvez forme parte dos segredos do Antigo, que, talvez quem sabe, um dia possam ser desvelados.

José Escorihuela

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