Edição 03

Editorial

Apesar de nossa linguagem convencional destacar a separação entre o Oriente e o Ocidente, sabemos que tais extremos do mundo se inter-relacionam culturalmente de uma maneira cada vez mais intensa, à medida que a tecnologia facilita os intercâmbios e nós, os seres humanos, expandimos nossas perspectivas vitais, derrubando barreiras que nos isolam do diferente. Quem sabe este seja um dos sinais dos tempos que estamos vivendo, junto ao processo contrário, o do estremecimento nas identidades e a inclinação ao choque entre civilizações, que diria Huntington, como que preparando o terreno para os conflitos primeiro imaginados e logo incentivados intencionalmente, que tanta dor e destruição estão provocando no mundo.

O Ocidente se liberar de sua proclamada superioridade e aprender a ver o mundo por meio das perspectivas que o Oriente foi desenvolvendo ao longo de sua fecunda história é um dos exercícios mais saudáveis, se quisermos enriquecer nossos recursos culturais com insólitos aportes integradores e colocá-lo a salvo da ameaça destruidora da barbárie em forma de fundamentalismos, noções de povos eleitos e etnocentrismos de variadas manifestações. Em contrapartida o mundo oriental também está vivendo um processo parecido de aceitação de padrões culturais ocidentais, às vezes com resultados não inteiramente satisfatórios, mas isso é outro assunto que talvez a Esfinge aborde numa próxima oportunidade.

Nesta ocasião, chegamos até o Extremo Oriente, em busca dos fundamentos de certas disciplinas e chaves interpretativas, que cada vez mais estão despertando o interesse em nossas sociedades ocidentais, especialmente entre os jovens. Dentre elas, talvez a mais inovadora e a que cobre melhor as expectativas de familiaridade, com o que poderíamos denominar os planos mais sutis da realidade, é a habilidade para canalizar a energia vital que flui ao nosso redor, sem que nos demos conta dela, nem saibamos o que fazer com ela. Nessas disciplinas, que vão talvez até mais além de seu mero enquadramento como “artes marciais”, encontramos o aspecto prático das elaboradas filosofias de suas escolas e suas correntes de pensamento, de provada eficácia na hora de resolver os enigmas que coloca a luta pela vida.

Uma sabedoria profunda e antiga, que para nossa fortuna chegou até nós quase intacta, convida-nos a ver o mundo e a nós mesmos com olhos novos e a descobrir insuspeitáveis possibilidades de encontrar saída a muitas de nossas perplexidades, tanto intelectuais como práticas e vitais.

Mosaico

Por que os astronautas flutuam no espaço?

Todos estamos acostumados a ver na televisão imagens dos satélites, naves e astronautas flutuando no espaço e nos parece a coisa mais normal do mundo, pois pensamos que no espaço não há gravidade e, claro, sem gravidade se flutua. Mas o certo é que isso é um erro: não há nenhuma parte do Universo sem gravidade. A uns 300 Km de altitude (uma altitude usual para as naves espaciais), a força da gravidade é 90% da que encontramos sobre a superfície terrestre, ou seja, apenas 10% a menos. Um astronauta de 80 quilos pesaria 72 e esta redução de peso não é motivo suficiente para sair flutuando. Então, por que flutua?

Na realidade flutua porque está em queda, livre de qualquer outra força exceto a da gravidade que o atrai para a Terra. Mas se a gravidade atrai os astronautas, naves e satélites, por que não caem na Terra, por que não se chocam com sua superfície e se estatelam? A resposta é porque uma nave espacial viaja a 27.750 Km/h na órbita da Terra. A esta velocidade e alta altitude a curvatura da “rota de caída” da nave coincide exatamente com a curvatura da Terra,  desta forma nunca entra em contato com a superfície terrestre. Para entender isso de uma maneira melhor é interessante observar que a superfície da Terra se “curva” cinco metros a cada 8 Km. Se uma pessoa avança 8 Km sobre sua superfície, terá “caído” cinco metros em relação a uma linha horizontal traçada sobre o ponto de início. Assim, por exemplo, se um veículo se encontra a 400 Km de altura, em uma órbita circular, necessitará uma velocidade horizontal de 7,67 Km/seg para atingir uma curvatura na mesma razão que a da superfície da Terra.

Rafael Morales

Prêmio da Fundação para a Inovação Altran

O prêmio, edição 2004, foi para o Engenheiro Bob van Eijk, do Projeto da Escola Secundária de Investigação Astrofísica com Raios Cósmicos (HISPARC) da Holanda.

Um instituto de investigação holandês da Universidade se propõe a desafiar equipes de alunos e professores da escola secundária a propósito do estudo dos raios cósmicos de energia ultra-alta. A HISPARC deseja promover a experimentação científica criando uma rede de ensino de equipes de alunos-investigadores.

Em coordenação com as instituições acadêmicas e científicas, esses grupos trabalharão no desenho, controle e operação de elementos da equipe de detecção. A obtenção desses dados e sua análise serão objeto de interpretação. Essa inovação em práticas de ensino servirá para tirar o vazio existente entre a educação teórica e a experimentação científica.

A HISPARC procederá inicialmente à construção, por parte dos estudantes das escolas secundárias, de um detector de partículas (um plástico cintilante unido a um oscilador e a um GPS digitais para o controle do tempo) para as medidas locais. Esses estudantes devem entender a física e a tecnologia ligadas à transformação de um fenômeno físico em um sinal eletrônico. Ao mesmo tempo, globalmente, devem compreender como correlacionando dados entre diversas localizações se pode obter um conhecimento mais amplo sobre um fenômeno, como, por exemplo, a relação entre uma explosão de raios cósmicos e a atividade solar. Isso se consegue mediante a participação da rede de escolas, que tem uma alta densidade em uma área urbana de 10 km2, podendo instalar-se detectores em toda a zona. É uma maneira eficaz de detectar bombardeios de partículas relacionadas com um mesmo raio cósmico.

O projeto já tem 5 grupos de trabalho nos Países Baixos que abarcam mais de 35 estações detectoras e recebeu o patrocínio do NIKHEF, Instituto de Física de Alta Energia dos Países Baixos. O professor Veltman, ganhador do prêmio Nobel, falou positivamente deste projeto durante uma palestra em Bruxelas a propósito da oficina “Incrementando os Recursos Humanos na Ciência e a Tecnologia na Europa”.

Ácido em Marte

Todas as evidências apontam que na superfície de Marte houve uma grande quantidade de água, mas não se encontrou rastro de depósitos de carbonato que provem isso. A equipe do microbiólogo Ricardo Amils propõe que Marte albergou mares de ácido, o que explicaria essa falta de carbonatos.

A água do mar ao evaporar-se faz com que seus sais se precipitem e formem enormes depósitos de carbonato de cálcio. Amils diz que os encontros de minerais de ferro oxidado, como a jarosita e as hematitas, compatíveis com a existência de água, podem ter ocorrido devido a que os oceanos de Marte teriam sido de ácido, já que a jarosita só pode se formar em águas ácidas.

Marte teria um ambiente ácido no qual o motor seria o ácido sulfúrico, que se forma na atmosfera ao combinar-se o enxofre dos vulcões com a água. Uma chuva ácida liberaria ferro, magnésio e ácido sulfúrico nos oceanos, isso impediria a formação de grandes depósitos de carbonato, que liberaria CO2 que se dissiparia na atmosfera, o que criaria um meio perfeito para o desenvolvimento dos processos biogênicos.

No Rio Tinto, Huelva, há a presença de jarositas e a ausência de carbonato, aproximando-o do modelo marciano; a oxidação do ferro de Marte poderia ter ocorrido também com a intervenção de organismos vivos, segundo o mesmo modelo.

O parasita da mantis

A Mantis religiosa deposita seus ovos em uma ooteca que constrói por meio da separação de um líquido que se solidifica em contato com o ar. Mas não com a rapidez suficiente para que os ovos fiquem cobertos e protegidos de qualquer perigo, visto que alguns himenópteros conseguem realizar sua postura nos ovos da mantis.

Um destes parasitas, a Mantibaria mantis, é um exemplo de paciência. A fêmea mede 2,5 mm e se instala embaixo das asas da mantis, permanecendo ali vários meses.

Quando começam as contrações abdominais da mantis, o himenóptero desce e chega ao fluido que banha os ovos, ainda semilíquidos. Ali deposita seus próprios ovos nos outros ovos, sendo que para isso dispõe de um período máximo de duas horas que é o tempo que demoram a endurecer na ooteca. A larva do parasita amadurecerá as custas do parasitado. A mantibaria, se sobreviver e não ficar aprisionada, voltará ao seu posto de guarda para esperar uma nova postura.

As jóias de 75.000 anos atrás

As contas de colar mais antigas encontradas até agora tinham 45.000 anos e eram da África. Investigadores da Universidade da Noruega descobriram jóias ainda mais antigas no continente africano. A descoberta se compõe de conchas em grupos de até 17 que provêm de um pequeno molusco de carniça conhecido como Nassarius kraussianus, que vive nos estuários. Foram encontradas na caverna de Blombos, na ponta do sul da África, e parecem ter 75.000 anos. Certamente as contas foram levadas às cavernas, já que os rios mais próximos estão a uns 20 quilômetros do lugar.

C. Henshilwood e sua equipe disseram à revista Science que a descoberta é o primeiro exemplo de que nossos antepassados também tiveram pensamento abstrato: “As contas têm uma mensagem simbólica. O simbolismo é a base de tudo o que vem depois, incluindo a arte rupestre, os adornos pessoais e outros tipos de comportamento mais sofisticados. Até no mundo de hoje, quando se fala de computadores, trata-se de ordenar informação fora do cérebro e a evidência da caverna de Blombos é que os humanos usavam a simbologia há 75.000 anos”.

Ler Homero faz bem para o coração

Ler os clássicos gregos sempre foi um prazer muito recomendável e desde sempre esses belos poemas têm sido bons para a mente e o espírito. Agora alguns investigadores alemães estão adicionando uma razão a mais para ler Homero, pois descobriram que ler em voz alta a Odisséia faz bem para a saúde do coração.

Um estudo realizado por investigadores europeus e publicado recentemente no American Journal of Physiology sugere que os ritmos da poesia antiga podem sincronizar os ritmos cardíaco e respiratório, o que tem um efeito positivo sobre todo o nosso corpo em geral, especialmente sobre a circulação sanguínea.

A Odisséia está escrita em una métrica chamada hexâmetro dactílico, na qual cada uma das seis seções de um verso tem uma sílaba longa seguida por outra sílaba longa, uma sílaba curta, ou duas sílabas curtas; enquanto se lêem os versos os ritmos respiratórios e cardíacos se sincronizam e isso ajuda que o coração trabalhe de uma forma mais pausada e eficaz. Faz com que as pessoas se sintan melhor física e psicologicamente.

Assim que, quando você for ao médico e ele lhe receitar ler a Odisséia, não se surpreenda e aproveite para lê-la, pois será bom mental e fisicamente e, além disso, o seu coração agradecerá.

Rafael Morales

Bactérias embaixo da terra

Assim como há incontáveis formas vivas na superfície da Terra, elas também existem em seu interior. As bactérias são muito similares e por isso os cientistas têm de ser bem engenhosos para observar sua diversidade.

É possível recorrer à microscopia de epifluorescência para localizar bactérias que vivem nas amostras de rocha. Mediante a construção de trechos curtos de DNA, que se unem a tipos concretos de RNA ribossômico, pode-se determinar a diversidade das famílias bacterianas que existem. As sondas de DNA incluem um colorante fluorescente e as bactérias brilham sob o microscópio de epifluorescência.

Outro método é analisar as amostras de ácidos graxos fosfolípidos, que são cadeias de carbono que constituem as membranas celulares bacterianas. Sua estrutura molecular constitui sua impressão digital identificadora, por isso quanto mais cadeias de ácidos graxos, mais bactérias.

O grau de diversidade bacteriana varia muito de uma zona do subsolo a outra.

PPL

A primeira escrita

No país dos sumérios apareceram as primeiras grafias verbais, a escrita cuneiforme: traços em forma de cunho horizontais, verticais ou inclinados. Elas têm 5.000 anos.

Os textos mais antigos conhecidos até o momento em tábuas de argila procedem de Uruk; trata-se de anotações contábeis, com números e palavras. Por volta de 2.600 a.C. a escrita já tinha palavras com sílabas. Junto a textos econômicos e listas de palavras há certificados legais, contratos, escrituras sagradas e textos literários.

No terceiro milênio a Mesopotâmia era bilíngüe: no sul predominava o sumério e no norte línguas semíticas como o akadio; para este se utilizavam também sinais sumérios.

Do começo do segundo milênio antes de Cristo até a segunda metade do primeiro milênio na Mesopotâmia meridional se falava sumério. A escrita cuneiforme serviu de modelo para os ugarititas e os antigos persas. O alfabeto foi idealizado pelos gregos no primeiro milênio antes de Cristo.

PPL

Mosaico: Inventos com história

A pólvora

Não é possível dizer com exatidão a época da invenção da pólvora. Algumas fontes atribuem sua invenção e uso na Guerra do Imperador Chinês Vitey, no ano 85 de nossa era. Este não é um dado seguro; porém alguns missionários do século XVIII assinalam o uso da pólvora antes do século VIII de nossa era. Se os mitos contêm algo de verdade, os Vedas e os Agni-Puranas, os escritos mais antigos da Humanidade, nos dizem que foi inventada por Wismarkamar, arquiteto do Deus Vishnu. Contam certas lendas hindus que Alexandre Magno, em sua gloriosa incursão até as margens do Hidaspes, tinha sido bombardeado pelas forças de Poro. Outras lendas, neste caso européias, atribuem a invenção da pólvora ao inglês Roger Bacon (1214-1284) ou ao frade alemão Severino Berthold Schwart, que viveu no século XIV e se dedicou à alquimia, sobre isso se conta que, tendo deixado em um morteiro (recipiente de ferro para misturar) uma mistura de salitre, carbono e enxofre, ela produziu uma explosão, sendo lançada a grande distância a tampa que havia sido colocada no morteiro. Bernouilli foi o primeiro a demostrar experimentalmente que o efeito da pólvora é devido a gases que, uma vez colocados em liberdade, tendem a ocupar um espaço muitíssimo maior do que tinham em estado de pólvora, destruindo todos os obstáculos que se oponham a essa necessidade de seu novo estado.

Francisco Capacete

Frases – Amigos animais

O elefante se deixa acariciar; o piolho não. (C. Lautreamont)

Se não houvesse cachorros eu não gostaria da vida. (A. Schopenhauer)

Quando um homem mata um tigre chamam de esporte; quando o tigre mata o homem chamam de ferocidade. (G. Bernard Shaw)

O homem, quando se animaliza, é mais animal do que o animal. (R. Tagore)

Para seu cachorro, todo homem é Napoleão. (A. Huxley)

É imperdoável que os cientistas façam experiências com animais; deveriam utilizar políticos. (H. Ibsen)

Duas coisas me admiram: a inteligência das bestas e a bestialidade dos homens. (F. Tristán)

Os animais são os melhores amigos: nem fazem perguntas nem criticam. (M. Twain)

Em dois lugares vi a inocência: nos olhos das crianças e nos dos animais. (Zubiri)

Maimónides e sua época

O que não passa pelo coração não te pertence.

No mês de setembro comemorou-se o oitavo centenário da morte de Maimónides, famoso filósofo, cientista e médico judeu-espanhol. O sábio deixou marcas de seu talento no direito, na matemática, na astronomia, na filosofia e na medicina.

Um total de 40 (quarenta) conferências e comunicações, apresentadas no Congresso, abordou a figura de Maimónides por meio de estudos de especialistas procedentes de diversas universidades do Reino Unido, Israel, Estados Unidos e Espanha entre outros países.

Sua visão holística da medicina e sua dedicação ao paciente como uma pessoa, e não como um órgão adoecido, mostra-nos um profundo humanismo e indiscutivelmente faz com que ele seja o precursor da medicina natural e preventiva.

Sua crença na imortalidade da alma, sua idéia de Deus (um deus que não se personifica, que não é corpóreo), seu conceito de ética universal como elemento de sustentação da saúde espiritual da sociedade, proporciona-nos um ensinamento atemporal muito útil em nossos dias quando os valores humanos por um lado estão em baixa e por outro há uma excessiva especialização do conhecimento, o que desvinculou o homem da natureza da qual faz parte.

Para aprofundar este pensamento do filósofo cordobês, Esfinge entrevistou Dom Santiago Garcia Jalóm, Secretário-Geral e Técnico deste Congresso e Catedrático de Hebreu da Pontifícia Universidade de Salamanca.

- Você poderia falar das correntes fundamentais que apresentou Maimónides, ou seja, o racionalismo neoplatônico e o aristotélico?

Na realidade Maimónides se encontra numa dupla confrontação epistemológica do conhecimento, a questão do ser; ele se inclina sem dúvida para o aristotelismo, mas segue alguns aspectos do platonismo, pois não apresenta a visão mecânica do pensamento aristotélico. Isso vai se integrar a uma via de conhecimento que ao final chegará em São Tomás, que funde essas duas correntes em seu pensamento.

-Qual é a diferença fundamental que Maimónides estabelece entre a filosofia e a religião?

O esforço de Maimónides é a fundamentação racional da religião na fixação da ética e dos preceitos morais. O professor Puig dizia que a diferença entre Maimónides e Avicena é que este havia buscado a razão e aquele conseguiu integrar a razão dentro dos ensinamentos religiosos.

-Já que nos falou de ética, que é ética para este pensador e a discrepância com seu filho Abraham?

Basicamente o que Maimónides tenta propor é uma ética de validade universal, não só para judeus, mas para todos, justamente por esse esforço de aspecto racional ou de questões que devem ser válidas para uma vida feliz, que é o que se pretende com a ética. Após Maimónides se produzem diversas reações antimaimonidianas, acusando-o de seguir tanto o pensamento platônico como o aristotélico e que havia desvirtuado a pureza religiosa do judaísmo. Tanto é que nos séculos XII e XIV acontece uma reviravolta no judaísmo e ocorre um desenvolvimento maior da cabala e do misticismo.

-Podemos falar sobre o que é caminho de ouro, da ciência e da prudência para Maimónides.

Maimónides em sua obra trata de unir a reflexão puramente teórica, filosófica, ética, com a prática científica e com a vida virtuosa. Essa coerência de pensamento ele aplicava a si mesmo, certamente este é o caminho de ouro.

-Se Maimónides vivesse hoje, ele que buscava o pensamento integral da pessoa, o que pensaria sobre a especialização que dividiu o conhecimento em nossa sociedade?

Esse é sem dúvida um dos dramas de nossa cultura, esta fragmentação de todos os saberes.  Frente a isso figuras como Maimónides constituem um desafio, pois é um teólogo, um jurista, um filósofo, um doutor, ou seja, um tipo de pessoa rara.

Não é que não nos interessamos pelo conhecimento total, é que não temos essa capacidade. Também é verdade que a quantidade de informações que recebemos é enorme, e que é uma informação superficial, pois não é um discurso elaborado, ou seja, como no exemplo de lermos um jornal e nos depararmos com informações que não são úteis.

O que é lógica para Maimónides?

A lógica é o instrumento da razão para conectar objetivamente o conhecimento.  Por outro lado é o instrumento, não a razão. Por outro tem uma função comunicativa, de diálogo, mas nem tudo que é lógico é racional, e só o que é lógico pode comunicar-se com a parte da racionalidade.

Maimónides falava sobre os profetas e as profecias. O que é um profeta para Maimónides?

Este é um tema difícil, ontem houve uma palestra em Lucena sobre o conceito de profecia de Maimónides. Ele dizia que por um lado o profeta é quem tem uma comunicação especial com Deus e, por outro, é quem tem uma inteligência especial para analisar o presente e falar sobre as coisas futuras. Este último é o profeta na concepção que conhecemos, aquele que sabe o que vai acontecer. Na verdade, o profeta é a fusão desses dois conceitos, comunicação com Deus e capacidade de prever o futuro.

Qual é o significado da palavra coração no Torah ou lei escrita?

O coração é a sede mais íntima do homem, aquilo que o homem nem se quer sabe que possui, embora saiba que é seu. O que não passa pelo coração não te pertence. Mas, uma vez que tenha passado pelo coração, já não te pertence; até que não tenham chegado ao coração as coisas não são próprias.

Que utilidade pode ter os ensinamentos de Mamónides para o homem de hoje?

Eu creio que o essencial dos grandes pensadores da Antiguidade é que os problemas que eles questionavam são os que nós questionamos ainda hoje, mesmo que em circunstâncias e por razões diferentes.

-                      Para finalizar, apesar de a pergunta conter a resposta, a filosofia é um caminho em direção a Deus?

Sim a filosofia é um caminho em direção a Deus, uma vez que Deus é amor à sabedoria, além do mais é um caminho em direção à fé.

Antonio Manuel Cantos Prats.

Correspondente da Esfinge em Córdoba – Espanha

Sagitário

Saggitarius é o que lança flechas (de sagitta, saeta ou flecha), ou seja, um arqueiro, assim conhecido por todos os acadios no seu Caminho da Lua (Tablas de Mul-Apin, 1000 a.C.), de nome “Pa-bil-sag”, “O Flechador”. Relacionou-se ao deus Erra (o Nergal), deus da guerra e da doença, muito temido e representado em numerosos amuletos. Seria o equivalente a Ares dos gregos. Arato o menciona assim:

“E ainda no mês precedente, quando tenhas padecido muito no mar, na época em que o Sol queima o arco e que oscila o arco, desembarca ao entardecer e não te fies na noite. Seja para ti indício daquela estação e daquele mês a saída do Escorpião ao final da noite. Pois, na realidade, o Sagitário estende a corda do seu grande arco muito próximo do dardo; e o Escorpião, ao sair, levanta-se um pouco diante dele; e sobe mais em seguida”.

De sua parte, Empédocles se refere a ele nestes termos:

“Trata-se de Sagitário, que muitos chamam de Centauro, embora outros autores não concordem porque não acham que tenha quatro patas, mas que se encontra erguido de pé disparando seu arco, pois nenhum centauro usou esta referida arma. Trata-se de uma figura de homem com patas de cavalo e rabo parecido com o dos sátiros. Daí que acreditaram ser pouco provável que se tratasse de Euferme, ama das Musas. De acordo com o que conta Sosíteo, habitava o monte Helicón e foram as Musas que lhe deram a habilidade de lançar flechas, com as quais caçava as feras que lhe serviam de sustento. Estava com as Musas, e um dia, ao ouvi-las cantar, aplaudiu-as em sinal de felicitação; na realidade foi um início de aplauso, já que só ele quem começou; mas aos poucos, ao vê-lo aplaudir, os demais o imitaram. Então as Musas, ao verem que graças à iniciativa de Croto as suas obras eram apreciadas por todos, decidiram que Zeus devia recompensá-lo pela sua piedade; e deste modo ascendeu ao céu, batendo suas mãos, além de brandir seu arco. Seu gesto permaneceu assim entre os homens. Desde então sua figura permanece como testemunho para todos os homens, tanto para os da terra como para os marinheiros. De modo que quem afirma que é um centauro se engana.”

Os gregos também viram na figura do “flechador” um centauro, personagem mítico com corpo de cavalo e tronco e cabeça humanos. Dentre todos os centauros célebres, cabe destacar Quirón. Este personagem é mais freqüentemente associado à constelação do Hemisfério Sul Centaurus (praticamente invisível hoje em dia, mas presente nos céus da época clássica, pelo efeito da precessão). Quirón foi o único centauro imortal, sábio, reconhecido mestre de Aquiles e Esculápio, entre outros. Foi ferido acidentalmente por uma flecha de Herácles e ficou tão ferido que Zeus se apiedou dele e lhe concedeu a morte para livrá-lo do seu sofrimento.

Os assírios o identificavam com Nergal, o deus arqueiro, e os babilônios com um centauro de duas cabeças e idênticas habilidades.

Uma espécie de Marte babilônico foi que deu origem à típica figura iconográfica dos horóscopos. Os hebreus identificaram-no com “José, cujo arco conservou sua força”.

Segundo menciona Cirlot, Sagitário é um símbolo cósmico que expressa o homem completo: animal, espiritual e digno do divino. Representa ao homem como um nexo entre o céu e a terra, tensão simbolizada pelo arco.

Juan Carlos del Río

Sala de Cinema

Mística do herói em Star Wars

Há uns vinte cinco anos estreou o primeiro filme da série Star Wars e desde então temos tido tempo para vê-la, desfrutá-la e por que não? Há muitos outros que falam dos efeitos especiais, sobre ser impossível que no espaço os X-Wing possam ressoar, pois o som não pode se propagar no vazio, ou sobre qual é a magia que faz com que as túnicas dos Jedi não se molhem quando visitam a cidade submersa dos Gungan, e ainda discutem se Anakin tem o nível mais alto de “miriclodianos” de toda a galáxia. Nesta ocasião vamos falar de outra magia, de algo menos fantasioso, talvez, mais próximo de nós, do valor humano, do heroísmo e da mística em Star Wars.

Do pouco que observamos no fenômeno Star Wars, vemos que seu êxito não só se deve aos espetaculares efeitos especiais de ILM (que eu desfruto como todos), mas também à introdução no roteiro de uma ordem de Monjes-Guerreiros, os Jedi, de características muito especiais e com toda uma filosofia de vida. No cinema podemos ver muitos tipos de heróis, muitos guerreiros corpulentos e hábeis, mas neste caso estamos falando de um herói cujos poderes e habilidades não estão em função de sua fortaleza física, seu valor temerário, nem sua inteligência, senão em seu grau de união, em seu grau de fusão mística com A Força, de união com a idéia de Deus, com isso que subjaz oculto em todas as partes e que anima todas as coisas, mas que somente uns poucos podem sentir. E, como toda religião que se preze, esta tem uma lenda, a profecia de que haveria de nascer o escolhido, o que traga o equilíbrio à Força e que será concebido sem pai, por vontade da Força, por mediação dos miriclodianos. No episódio 1, Anakin (o suposto eleito) pergunta a Qui-Gon Jinn (Mestre de Obi): O que são os miriclodianos? E este lhe responde algo assim: “Os miriclodianos são formas de vida microscópicas que residem em todas as células vivas, estamos em simbiose com eles. Sem os miriclodianos a vida não existiria, nem tampouco conheceríamos A Força; eles nos falam continuamente, comunicando-nos a vontade da Força, quando souberes silenciar  tua voz poderás escutá-la.”

Estas são algumas das frases extraídas da série e que fazem referência do culto Jedi à Força:

“O poder de um Jedi flui da Força”

“O crepúsculo chega e a noite deve cair, assim é a ordem das coisas, a ordem da Força”

“Nosso encontro não foi uma coincidência, nada ocorre por acidente. Encontrá-lo foi vontade da Força”

“A guerra não lhe torna alguém mais grandioso”

“Vive o momento, não penses, sinta, utilize teu instinto, sinta A Força”

“Bem, calma, pois através da Força verás coisas, outros lugares, o passado, o futuro, os velhos amigos que se foram…”

“Sempre em movimento está o futuro”

“Não, não tentes fazer: faça ou não o faça, mas não tentes”

Em Star Wars se introduz uma nova Religião-Filosofía, cujos seguidores são os Cavaleiros Jedi, guardiões da paz e da justiça na galáxia, os quais têm que passar duras provas para chegar ao grau de Cavaleiro, e para sua formação necessitam de um mestre, guia que lhes abra a porta aos mistérios da Força, que lhes faça sentir a Força, que lhes ensine a trabalhar com Ela. No episódio 1 “A ameaça fantasma”, vemos como Anakin, o que depois se tornará Darth Vader, pai de Luke Skywalker, não é aceito no círculo dos Jedi por ter passado da idade.  Aqui vemos como George Lucas vai bem longe e deixa entrever o incrível preparo que necessita um aspirante Jedi já desde muito pequeno, uma formação sobre tudo moral e ética que faça dele Cavaleiro inquebrantável, sempre a serviço do lado luminoso da Força, capazes de resistir à sedução do reverso da Força, de seu lado escuro.

A existência do reverso, do lado escuro, põe em evidência que, além de sentir a Força e de trabalhar com Ela, o Jedi deve ser um homem íntegro, com um especial equilíbrio interior, no qual não exista o ódio nem a violência, senão um afã de serviço aos demais, à justiça, à ordem, à verdade, afim ao bem.  Sem esse estado de graça, sem essa preparação interior, sem essa pureza de pensamentos, sentimentos e atos, o Jedi corre o perigo de servir ao lado escuro, de colocar-se a serviço de obscuros interesses, ao serviço do ódio e da violência. Somente o Jedi que fez seu heróico trabalho interior, de transmutar seus escuros elementos internos num diamante puro e cristalino, pode enfrentar-se com o reverso da Força e sair vencedor. Recordemos que Luke, durante sua preparação no pantanoso planeta Dagobah, pela mão do Mestre Yoda, entra em uma zona habitada pelo reverso e se enfrenta com o lado escuro, enfrenta a si mesmo e sai derrotado.

Yoda instrui a Luke no planeta Dagobah a cerca dos perigos do reverso:
“- Isso é, corre, corre, o poder de um Jedi provém da Força, mas cuidado com o reverso tenebroso: ira, medo, agressão, o reverso tenebroso te dá forças, elas se movem com facilidade e em seguida te induzem ao  combate; se alguma vez caíres no reverso tenebroso, ele dominará para sempre teu destino, te consumirá como fez com o discípulo de Obi-Wan Kenobi.

- É mais forte o reverso tenebroso?  Não! Ele é mais rápido, mais fácil, mais sedutor…
- Como diferenciar o lado bom do mau?
- Saberás quando estiver tranqüilo, em paz, equilibrado. Um Jedi utiliza A Força como ciência e para defesa, nunca para atacar.
- Mas…Por que não posso…?
- Não há um porquê. Libera tua mente de perguntas.

- Esse lugar é propriedade do reverso da Força, tens que entrar, dentro há o que deves levar contigo; tuas armas, não as necessitará.

- Que não te invada o ódio, pois isso pode te salvar do reverso tenebroso”.

Também Yoda diz a Anakin quando ele se apresenta ao Conselho:
“O medo é o caminho para o lado escuro, o medo leva à ira, a ira leva ao ódio, o ódio…leva ao sofrimento”

Se passarmos um pente fino, veremos que para um Jedi o mundo é uma ilusão. Ele comunga com a realidade, com A Força, e daí que suas proezas, seus poderes, não são senão uma prova de que o mundo em que vive é uma ilusão, por tanto suas leis físicas, que também o são, podem ser alteradas, ultrapassadas e superadas, algo como no filme Matrix. Isso da sentido aos poderes de controle mental que o Jedi exerce, os saltos espetaculares, o controle de objetos a distância, o ver o passado e o futuro, ler os corações e as mentes dos demais, e, como não, a incrível habilidade com a espada a laser, uma arma que é nobre e símbolo, em todos os tempos, de valor e vontade, com a qual podem ser desviados os disparos de outras armas, as armas de distância, mais própria dos covardes, porque ferem de longe, e não cara a cara. Todos esses poderes vêm ao Jedi por sua união mística com A Força, com a realidade oculta, com o lado invisível das coisas. E o caminho que conduz a essa mística é a heróica luta contra tudo o que vem do reverso tenebroso, dentro e fora de si mesmo.

Yoda instrui a Luke no planeta Dagobah a cerca da falsidade de seus pontos de vista e seu conceito das coisas:
“Tem muito presente que teu enfoque determina tua realidade”

“Muitas das verdades que cremos dependem do ponto de vista”

“No há um porquê, libera tua mente de perguntas”

“Não, não é diferente, somente é diferente em tua mente; tens que te esquecer do que tens aprendido”

“Não importa o tamanho, olhe para mim, me julgas por meu tamanho, verdade? É?  Não deveria fazê-lo; para mim o aliado é A Força, e é um poderoso aliado; A Força, a vida a cria e a faz crescer, sua energia nos rodeia e nos transpassa, nós dois, seres luminosos somos, não esta matéria bruta, deves sentir A Força a teu redor, aqui entre você e mim, sim, na árvore, na rocha, por todas as partes,  inclusive entre a terra e o mar”

Não vamos aqui fazer um estudo comparativo dos ensinamentos que esta saga destila com os ensinamentos de outras filosofias, outras religiões ou outras culturas de nosso mundo que disseram coisas muito similares. Desfrutemos de toda a série Star Wars tal e como George Lucas nos apresenta.

E se, ao vê-la, desperta-nos alguma fibra interior, talvez descubramos com assombro que a ficção pode ser muito real.

Como diria o Mestre Yoda: “Difícil, a missão é, mas, impossível, não”.

Investigação Científica – Robomimética

Quantos de nossos leitores nunca terão ouvido falar desse termo? Possivelmente a maioria, já que neste mundo de tecnologia e de comunicações, os assuntos do tipo científico apenas merecem alguma atenção. São outros os conteúdos que aparecem nos jornais, na Televisão, na Internet. A formação humana e cultural ou a investigação científica merecem apenas um pequeníssimo espaço entre coisas curiosas ou estranhas. Não podemos deixar de nos admirar que ainda existam filósofos e investigadores que dedicam seus esforços em prol de uma compreensão mais ampla e mais profunda do homem, da natureza e do universo.

E dentro dessa admiração, em que deve ser caracterizado o homem-filósofo, desta vez nos chamou a atenção a “robomimética”, isto é, a ciência dedicada a imitar o funcionamento de organismos vivos por meio de engenhos mecânicos ou eletrônicos. Já comentamos em alguma ocasião que a robótica é uma parte do amplíssimo campo da chamada Inteligência Artificial, pois trata de imitar seres biológicos nos quais a evolução de milhões de anos gerou modelos que não devemos menosprezar. Imitar o ser humano em sua forma de aprendizagem ou em sua forma de pensamento é o mais habitual, porém em alguns casos também se constroem robôs que imitam seres vivos especializados em tarefas concretas. Neste texto mencionaremos alguns desses robôs.

Robolagosta. Desenhado por Ayers Cooks, professor da Northeastern University em Boston (EUA), para localizar minas no fundo do mar. Também a Agência de Investigação Naval está cogitando em dar outros usos militares a essas lagostas marinhas biônicas. Porém, no momento, estão sendo utilizadas para recolher dados científicos acerca do mar e sua contaminação. http://www.neurotechnology.neu.edu/ayers.html

Serpente Modular. Howie Choset, professor da Universidade Carnegie Mellon em Pittsburg (EUA), criou um artefato que imita o movimento das serpentes, com a possibilidade de movimento sinusoidal, de rolamento, de escalada e, inclusive, com capacidade de nadar. Seus usos também são múltiplos, desde a possibilidade de percorrer grandes tubulações até a busca de vítimas de terremotos ou outros desastres. Apesar de sua aparente configuração semiplana, algumas dessas serpentes são capazes de mover-se tridimensionalmente. http://voronoi.sbp.ri.cmu.edu/~choset/

Robomarmota. William Whittaker, também da Universidade Carnegie Mellon em Pittsburg (EUA), trabalha com robôs dirigidos a distância que podem manobrar dentro das minas no interior da Terra, deslocando-se em superfícies desérticas ou polares, e, inclusive, limpar o lixo nuclear. Seus robôs mais conhecidos são os utilizados pela NASA, para missões em Marte, como o conhecido pelo nome de NOMAD, que recentemente foi posto a prova no deserto de Atacama (Chile), onde permaneceu por 40 dias. Mas, também, trabalhou no projeto Deméter para a construção de uma colheitadeira autopropulsada que opera de maneira autônoma e sem a intervenção humana no campo. http://www.ri.cmu.edu/people/whittaker_william_red.html

Poderíamos continuar mencionando dezenas de projetos similares, porém terminaremos mencionando, no continente europeu, o Centro de Biomimética, em Reading (Reino Unido), que tem projetos tão interessantes como a investigação para fazer por meio de compostos cerâmicos ossos tão duros e ao mesmo tempo tão leves como os das aves ou um gel com movimento próprio imitando o corpo de um verme. http://www.rdg.ac.uk/Biomim/

Esperamos que esta segunda invasão de robôs nos proporcione um mundo mais a salvo de nossa própria depredação.

Juan Carlos del Río

Gêmeos Gêmeos

Os Dióscuros eram Castor e Pólux, filhos da união de Zeus e Leda; os irmãos gêmeos são um símbolo astronômico e representam o Dia e a Noite

Juan Carlos del Río

Trata-se de uma das constelações mais significativas do zodíaco, devido ao brilho de suas duas principais estrelas. Sua origem se remonta à Mesopotâmia, aparecendo na literatura ocidental com Arato, ainda que este não nos tenha contado nada sobre a origem desta constelação: Debaixo de sua cabeça [de Virgem] estão os Gêmeos.(1)

Entretanto, Eratóstenes identificaria os gêmeos com Castor e Pólux, mito que se conservou até os dias de hoje: Dizem que são os Dióscuros, que nasceram e se criaram na região da Lacônia, superando todo o mundo em seu amor fraternal, pois jamais disputaram entre si pelo mando ou qualquer outro motivo. Zeus quis recompensar esse estupendo testemunho de fraternidade, denominando-os Gêmeos e os colocando no firmamento.(2)

Os Dióscuros (Dioskouroi, “filhos de Zeus”) eram Castor e Pólux, filhos da união de Zeus e Leda (filha de Testio, rei de Etolia), que foi transformada em cisne pelo deus. Leda pôs dois ovos, de um dos quais nasceram Pólux e Helena, filhos de Zeus, e portanto imortais, enquanto do outro, fruto da união com seu marido Tíndaro, nasceram Castor e Clitemnestra, mortais, ainda que outras versões assinalam ambos como filhos de Zeus. Os dois irmãos foram criados em Esparta, tendo Castor se destacado por manejar armas e domar de cavalos, enquanto que Pólux o fazia na luta. Participaram em numerosas aventuras, resgatando sua irmã Helena depois de ser raptada por Teseu e unindo-se a Jasão na expedição dos Argonautas, enfrentando o rei dos bébrices. Posteriormente, uma luta homicida contra dois de seus primos, ocasionada devido a uma disputa por suas prometidas, as Leucípides, filhas de seu tio Leucipo, e segundo outras versões, por uma disputa de gado, provocou a morte do mortal Castor. Pólux foi levado por Zeus ao Olimpo, mas se negou a permanecer ali enquanto seu irmão estivesse nos infernos. Assim, o pai de todos os deuses lhes ofereceu que se revezassem no Olimpo em dias alternados.

Para H.P. Blavatsky, Castor e Pólux têm um duplo simbolismo. Primeiramente, o astronômico:

Como as Tindaridas, os irmãos gêmeos são um símbolo astronômico e representam o Dia e a Noite; suas duas esposas, Febe e Hilaira, as filhas de Apolo ou do Sol, personificam o Crepúsculo da manhã e da tarde.(3)

Em segundo lugar, há um simbolismo cósmico ou teogônico: Tem relação com o grupo de

alegorias cósmicas em que se descreve como nascido de um ovo. Leda assume na alegoria a forma de um cisne branco, quando ela se une ao Cisne Divino [o Brahma-Kalahamsa]. Leda é, portanto, a Ave mística à qual se atribui, nas tradições de vários povos de raça ária, diversas formas ornitológicas de aves, que põem ovos de ouro. No Kalevala, o Poema Épico de Finlândia, a bonita filha do Éter, a “Mãe-Água”, cria o Mundo em conjunção com um “Pato” – outra forma do Cisne ou Ganso, Kalahamsa -, que põem seis ovos de ouro, e o sétimo, um “ovo de ferro”, em seu colo. Mas a variante da alegoria de Leda, que se refere diretamente ao homem místico, se encontra apenas em Píndaro, com uma referência mais rápida nos Hinos Homéricos. Castor e Pólux deixam de ser nela os Dióscuros de Apolodoro, e se convertem no símbolo altamente significativo do homem dual, o Mortal e o Imortal.(4)

Posteriormente, foram considerados protetores dos marinheiros devido a sua participação na expedição dos argonautas. Também se identificava com o fogo de San Telmo, que aparece nos mastros dos barcos, com os Gêmeos. Na Grécia, foram reverenciados especialmente em Esparta, porém alcançaram sua maior fama em Roma, onde foram considerados os protetores da Cidade Eterna e símbolos do amor fraternal, sem dúvida fazendo referência aos irmãos fundadores de Roma.

Esta constelação tem origem na Mesopotâmia, visto que nas tábuas Mul-Apin aparece como Mas-tab-ba-gal-gal, em sumério, “Os Grandes Gêmeos”. Esta denominação parece proceder sem dúvida do nome dado às grandes montanhas situadas no limite do mundo conhecido, segundo a cosmografia suméria, “As Grandes Montanhas” ou “Os Grandes Gêmeos”. Estes montes eram defendidos pelos legendários Homens-Escorpião, e formavam um longo desfiladeiro pelo qual o sol saía todos os dias de baixo da Terra desde um lugar situado mais ao Leste. Têm um papel destacado na Epopéia de Gilgamesh, já que o herói tem que atravessá-los em sua busca pela imortalidade, que o levará a visitar Utnapishtin, o Noé sumério.

Os gregos adaptaram esta constelação zodiacal da Mesopotâmia, pois como vimos nos Fenômenos, não tinham nenhum mito associado a esta. Posteriormente, identificariam esta constelação com os gêmeos mais famosos da mitologia grega, ainda que esta não seja a única identificação, já que Ptolomeu via Apolo nesta constelação.

No Egito esta constelação era representada por dois vegetais e na cultura fenícia era associada a um par de cabras. Para os romanos, estes gêmeos se associavam aos legendários fundadores, Rômulo e Remo. Para os egípcios, Gêmeos representava Horus e Harpócrates, o deus falcão filho da deusa Isis, enquanto que para os hebreus representava uma misteriosa porta dupla. Simbolicamente representa a pura força criadora de Áries e Touro, que se cinde em um dualismo. Segundo E. Cirlot (5) simboliza o intelecto objetivado e refletido, sendo a natureza criadora e a natureza criada.

A constelação de Gêmeos

Para os romanos, estes gêmeos se associavam aos seus legendários fundadores, Rômulo e Remo. Para os egípcios, representavam Horus e Harpócrates, enquanto que para os hebreus representavam uma misteriosa porta dupla.

Notas:

1- Fenômenos 146.

2- Catasterismo 10.

estância V. Pág. 136.

estância V. Pág. 137.

Página da Internet – Enciclopédia Wikipedia

Quem ainda se lembra do propósito com que nasceu a Internet? Embora tenha nascido como uma forma de intercâmbio de informação e investigações entre universidades, hoje é principalmente um lugar de intercâmbio comercial. E, se foi financiada pelo Departamento de Defesa dos EUA como meio seguro para manter as comunicações de maneira descentralizada em caso de ataque militar, hoje é mais comumente utilizada por delinqüentes e terroristas. Porém nesta ocasião não queremos falar do mal da Internet, senão do melhor exemplo que mantém vivo esse desejo de aprender, compartilhar e ensinar. Trata-se da enciclopédia de conteúdo livre e aberto on line, que começou a ser escrita em janeiro de 2001 e que recentemente alcançou  seu primeiro milhão de artigos. Seu nome é Wikipedia, termo que provém de wiki-wiki, que em língua hawaina significa rápido.

Como seguidor dos avanços da chamada Inteligência Artificial, aquela que trata de fabricar máquinas, às quais se pode dizer que são inteligentes, chamou-me a atenção um de seus modelos de trabalho, pois logicamente todos pensamos que a melhor forma de fabricar uma máquina “inteligente” é aquela em que a máquina imita o comportamento do homem. Pois bem, na realidade isso está parcialmente certo, pois realmente o melhor modelo de comportamento inteligente é o de um grupo humano compartilhando seus conhecimentos. E efetivamente um grupo de trabalho, coordenado e especializado em diversos aspectos de investigação, em seu conjunto é mais inteligente que um só homem.

Um bom exemplo disso é a elaboração de enciclopédias, que, desde seus inícios com Diderot, Dalembert e companhia até nossa época, sempre requereu a contribuição de numerosos eruditos. O que mudou desde então? A facilidade de manejo, a enorme ampliação do número de colaboradores e a rapidez de elaboração que proporciona a Internet. A isso se soma o acesso gratuito e o trabalho voluntário de centenas de pessoas. Tudo isso realizado com um software gratuito, MediaWiki, que permite a qualquer pessoa modificar uma página a qualquer momento e ver as mudanças imediatamente. E em mais de 100 idiomas diferentes com 2.500 novos artigos por dia, assim como atualizações e correções permanentes. Além disso, os visitantes podem navegar por versões anteriores de cada artigo para ver o seu desenvolvimento.

A versão em inglês (en.wikipedia.org) é a mais extensa, porém a espanhola cresce espetacularmente graças ao progressivo aumento de internautas que falam o idioma espanhol. É que na wikipedia todos podemos participar: existem muitos projetos abertos, desde Astronomia até os videogames, passando pela Língüística, o Heavy Metal e os Esportes Olímpicos; é certo que em alguns deles podemos colaborar. Os artigos podem ser originais, copiados ou traduzidos de uma fonte de domínio público. Porém, também se pode ajudar a corrigir erratas, acrescentar detalhes ou melhorar a gramática. Também existe a proposta do “país da semana”, para acrescentar artigos sobre os países dos quais existem menos informações, ou as efemérides de um dia, ou de temas relacionados com nossa cidade, nossa universidade, nosso trabalho, etc… Inclusive, embora não nos sintamos capazes de modificar uma página, podemos deixar nosso comentário indicando que uma página deveria melhorar, ou auxiliar na documentação da própria ferramenta wiki para ajudar a outros usuários, ou realizar mil e uma tarefas de manutenção…, e até mesmo fazer alguma doação econômica para ajudar a custear o gasto dos equipamentos de informática necessários para manter toda essa enciclopédia.

O único problema é que esse website realmente “prende”, embora o tempo empregado nele seja boníssimo para melhorar nosso nível cultural tão baixo devido a tantas horas perdidas diante do televisor. Assim um alerta para quem tenha a “síndrome de internauta”, porque uma web tão completa, com tanta informação e tão bem entrelaçada pode fazer com que passemos horas e horas diante da tela…

Juan Carlos del Río

Samurais, a alma do Japão

Legendários guerreiros japoneses, imortalizados por meio de mitos, lendas e mais recentemente do cinema, do teatro e da literatura, constituíram a alma do Japão durante mais de mil anos, e apesar de sua extinção em meados do século XIX, seu espírito perdurou até a atualidade.

No Japão feudal, a palavra “samurai” designava una classe de guerreiros especialmente treinados na prática das Artes Marciais, que estavam vinculados a um senhor da corte imperial como seu guarda pessoal, função que se reflete de maneira clara na etimologia, pois o termo primitivo foi “saburai” (de “sabuna”, “estar ao lado”), do qual derivou samurai, que literalmente significa “guarda”. Com o tempo, se aplicou essa denominação a todos os militares (bushi) de certa categoria que pertenciam a famílias guerreiras (buke).

O grupo dos bushi — cujas técnicas se transmitiam de pai para filho e de mestre para discípulo — se desenvolveu principalmente nas províncias do norte do Japão, onde os senhores feudais (daimyos) tinham necessidade de se defender.

Um desses senhores feudais foi Tokugawa Leyasu, que governava a parte oriental do Japão do seu castelo em Edo (atual Tokio). Elevou-se com supremacia ao derrotar o resto dos daimyos na batalha de Sekigahara em 1600. Três anos depois, adotou o título de Shogun. Foi durante essa época que a figura desses guerreiros aristocratas experimentou seu maior auge, porque para além das terríveis guerras domésticas que haviam açoitado o país, fez-se necessário vigiar estritamente a paz, trabalho de que os samurais estavam incumbidos.

Bushido

Como eram os samurais? Como pensavam, sentiam e atuavam? Que educação recebiam? A resposta deve ser buscada no bushido. O termo bushido significa literalmente “via do guerreiro”. Era o código de honra e de ética que deviam praticar os guerreiros e nobres samurais. Desenvolvido em plena época feudal, entre os períodos Heian e Tokugawa (aproximadamente no século XII d.C.), baseava-se nos princípios éticos de lealdade, sacrifício, justiça, valor, modéstia e honra.

As fontes do bushido foram as doutrinas do xintoísmo, budismo, confucionismo e uma escola de pensamento, o zen.

O budismo aportou ao bushido o sentimento de confiança no destino, a submissão tranqüila ao inevitável, o sangre frio, a serenidade diante do perigo ou da desgraça, e o não temer a morte. O zen representa o esforço humano para alcançar pela meditação um estado superior de consciência que leve a contemplar a unidade da vida. O xintoísmo deu ao bushido a lealdade para com o soberano, a veneração à memória dos antepassados, a piedade subsidiária e o amor à pátria. Essa não era apenas a Terra, como também a mansão dos Deuses e dos espíritos dos antepassados. Por último, o confucionismo marcou os cinco tipos de relações com o mundo dos homens, o mundo circundante e a família: entre senhor e servente, pai e filho, marido e esposa, irmão maior e irmão menor e entre amigos.

Para os samurais, os que apenas se dedicavam a ler e não vivenciavam os ensinamentos dos Mestres eram chamados “tontos que cheiram livro velho”. A ciência não chega a ser importante até que o espírito a tenha assimilado e se manifeste na forma de ser e no caráter. O saber apenas era considerado real quando era posto em prática na vida. Como dizia sempre Wan Yang Ming: “Saber e fazer são a mesma coisa”.

O bushido se sustenta especialmente sobre dois princípios básicos. O primeiro é que todo samurai deve sempre ter presente na sua vida a idéia da morte, pois a existência humana, e muito especialmente a do guerreiro, é sobretudo transitória. Por isso, foi escolhida a frágil e efêmera flor da cerejeira como o símbolo da vida do samurai.

Isso lhe confere um enorme poder, pois um homem sem medo de morrer é quase invencível. Além disso, um samurai preferirá morrer a ver seu nome desacreditado (a morte não é eterna, a desonra sim), o que podia ocorrer se fosse tachado de covarde ou transgredisse alguma das normas do bushido. A única forma de recuperar a honra perdida pelo infrator era a de recorrer ao harakiri ou suicídio ritual.

O segundo princípio é o da lealdade e da fidelidade mais estritas, à disposição dos governantes do país, os daimyos, mas sobretudo ao imperador.

O educador e escritor Inazo Nitobe definiu assim as virtudes que os samurais deviam possuir: o sentido da justiça e da honestidade, o valor e o desprezo à morte, a boa convivência com todos, a educação e o respeito à etiqueta, à sinceridade e o respeito pela palavra dada, a lealdade absoluta para com os seus superiores e, finalmente, a defesa da honra do seu nome e do seu clã, o que se resumia em: dever (giri), resolução (shiki), generosidade (ansha), firmeza de alma (fudo), magnanimidade (doryo) e humanidade (ninyo).

Todos esses fatores fizeram do bushido um código muito simples aparentemente. Entretanto, esses valores atemporais alimentaram toda uma nação através dos séculos.

Um samurai devia portar-se sempre com justiça e consideração e não cometer nenhum abuso de poder, como exceder na cobrança de impostos ou nas punições. Era importante diferenciar o justo do injusto, já que a tendência natural do homem é seguir o segundo caminho. O bushido estabelecia que, em tempos de paz, os samurais deviam colocar sua força ao serviço dos mais fracos, e sua sabedoria devia agir como mestra dos ignorantes. Existe, de fato, uma expressão do bushido, “Bushi no Nasake” (cuja tradução seria “ternura do guerreiro”), que expressa a necessidade de que os homens mais fortes e valentes soubessem também se mostrar acessíveis a sentimentos como a compaixão, a doçura ou a justiça para com todos os seres, tal como ensina também o budismo.

O samurai devia possuir também uma especial educação e um amplo conhecimento sobre as coisas. Antigamente, os jovens guerreiros eram enviados ao combate na idade de quinze a dezesseis anos, logo, sua formação militar começava aos doze ou treze anos, sem muito tempo para se desenvolver intelectualmente. Posteriormente isso mudou e antes de se iniciar na carreira bélica, aos sete ou oito anos, os meninos eram introduzidos nos Quatro Livros de Confúcio, no aprendizado de Literatura e de História, assim como na arte da Caligrafia. Quando completavam quinze anos, lhes eram ensinados o tiro com arco, a equitação, o manejo da espada, o jiu-jitsu e outras artes militares.

A katana é o sabre de combate dos samurais, que a consideravam como sua própria alma. Diz-se que na katana reside o espírito do samurai, motivo por que lhe confere mais cuidados do que a si mesmo, não permitindo que volte suja de sangue para a sua bainha, o que lhe causaria manchas de ferrugem. Por outro lado, o ato de desenbainhar era medido cuidadosamente, pois, uma vez que a espada estava fora de seu invólucro, a tradição exigia manchá-la de sangue (“não me tire sem valor nem me guarde sem honra”, era o lema). A relação do samurai com sua arma fica refletida nestes versos do mestre Morihei Ueshiba, fundador do Aikido: “Clara como o cristal, aguda e brilhante, a espada sagrada não admite lugar para alojar o mal”.

A katana tinha caráter sagrado, pois foi criada diante de um altar shinto por um sacerdote vestido de branco — símbolo de purificação —, imbuído de um conhecimento divino e auxiliado pelos espíritos (kami). Após os ritos purificadores que clarificavam sua mente, o criador começava o seu trabalho com uma oração. “Ligava sua alma e seu espírito ao aço que forjava e corrigia”. Os segredos dessa ciência se transmitiam de pai para filho e constituíam parte do mistério da grande qualidade destas armas.

Com o restabelecimento de Meiji, quando o tempo dos samurais já havia passado e ocorriam mudanças no Japão, foi evidente que havia que se estabelecer um novo caminho que modularia a força da nação japonesa. Com a Segunda Guerra Mundial, surgiu um novo tipo de samurai, condicionado a buscar seu Caminho em meio à crescente modernização do país, e outro tipo de senhor para o qual oferecer os seus serviços. As grandes companhias (zaibatsu), ocuparam bem esse posto, pois desempenhavam mais o papel de uma família do que de uma empresa, o que gerava um sentimento de lealdade — gérmen do antigo bushido — inquebrantável para com os chefes, que perdura os nossos dias. Também ocorre o contrário: ser injusto, ou errar, com os subordinados acarreta a maior desonra para quem faz e para a sua companhia, pois os japoneses atuais outorgam o mesmo caráter aos negócios que seus avós à guerra, e por conseguinte, todo o combate é sagrado.

Como dizia o imperador Meiji: “Buscaremos em todo o mundo o quanto possa ser aprendido, e com isso reforçaremos o cimento do poder imperial”.

Julián Palomares

A língua japonesa: a Alma do Sol Nascente

O yen é um valor que passa…o Kami que se reflete na Alma do Japão não passa.

(Jorge Angel Livraga)

Introdução

De todas as artes criativas que compõem o criativo e colorido mosaico cultural do Japão, talvez a mais impenetrável para o ocidental seja a sua Literatura e sua singular forma de linguagem expressiva e escrita.

Pode resultar relativamente fácil aprender Ikebana, pintura aguada ou Cerimônia do Chá. Mas difícil é dominar essas mesmas artes com o Espírito que deve animá-las. E indiscutivelmente difícil é adentrar o domínio da criação literária japonesa, porque seu material constitutivo — a língua falada e escrita — é uma arte em si mesma, e de uma beleza expressiva tão simples e profunda, que exige do iniciante muitos anos de estudo.

A língua japonesa escrita é ao mesmo tempo analítica e sintética, condensada e difusa; chegou a ser considerada com uma das escritas mais abstrusas e de maior peso mental para aquele que inicia seus primeiros estudos na Literatura no País do Sol Nascente.

A dificuldade de compreensão que oferece a linguagem escrita, ainda para os que a estudam com profundidade, supõe uma barreira invencível para a apreciação direta, não apenas da sua literatura, mas também da idiossincrasia, a forma de ser do povo japonês. Foram publicadas traduções e inúmeros estudos na língua inglesa, porém em espanhol as traduções ainda são poucas. Os tênues matizes da sensibilidade japonesa estão intimamente imbuídos nos ideogramas que expressam no texto original, nos neologismos formados pela combinação de ideogramas, nas fórmulas de tratamento, nos jogos de palavras, e na sua maneira de perceber esse mundo fantástico de Kamis. Todos esses valores, que dão um sabor de existência verdadeira à mensagem literária, muitas vezes passam desapercebidos nas traduções ocidentais.

A língua japonesa. História e atualidade.

Na antiga cidade de Nara, no século VIII d. C., se desenvolveram seis Escolas de ensinamento do Budismo, baseando-se em textos hindus, sânscritos e em sutras caligrafados pelos monges e pelos letrados japoneses em língua chinesa clássica.

Um dos grandes mestres da transmissão da doutrina, Saicho,

adotou mais tarde o nome de Dengyo Daishi. Iniciado aos catorze anos na doutrina da Escola Hosso, estudou os ensinamentos dos mestres chineses, e especialmente o sutra do lótus. Em 794, fundou um monastério perto de Kioto denominado Enryaku-Ji, que se converteu no centro da Escola Tendai. Saicho, que estudou os preceitos da “palavra verdadeira”, tentou expor os ensinamentos de Buda sem deturpá-los com as suas próprias interpretações.

O célebre monge Kukai, conhecido mais tarde com o nome de Kobo Daishi, viajou pela China no início do século IX para seguir os ensinamentos da “palavra verdadeira”.

Anos mais tarde, regressou ao Japão levando consigo não só objetos sagrados mas também uma grande quantidade de conhecimentos que buscou transmitir com total fidelidade aos seus contemporâneos. No ano 816, fundou no monte Koya, ao sul de Kioto, o templo de Kongobu-Ji, que se converteu no centro da Escola Shingón, seita muito importante do Budismo esotérico, integralmente consagrada ao estudo dos textos sagrados.

A partir da escrita esotérica derivada do sânscrito, criaram-se os caracteres kana, sinais silábicos que deram origem à escrita japonesa (recordemos que ao entrar em contato com os chineses, os japoneses não possuíam ainda uma linguagem escrita).

Nascimento da escrita

Com a chegada dos novos ensinamentos budistas, e as freqüentes viagens de eruditos na busca de um conhecimento mais profundo da doutrina búdica, fez-se também presente a adoção da escrita como elemento imprescindível na transmissão dos novos ensinamentos dos mestres hindus e chineses.

Os mestres japoneses, ao entrar em contato com a cultura chinesa, adotaram os caracteres chineses ideográficos, para mais tarde adaptá-los e combiná-los com a sua língua nativa. Esses signos (kanji), que oralmente são monossilábicos, semanticamente expressam conceitos globais.

Querendo simplificar o entendimento e a escrita dos kanji, chegou-se a um conjunto de caracteres que representavam una consoante e uma vogal e que constituem um silabário de 50 símbolos. Com mais uns poucos símbolos diacríticos, representaram foneticamente toda a sua linguagem falada. Era o hiragana, uma escrita cursiva com a qual se poderia escrever e expressar sua língua com caracteres especificamente nipones. Dessa forma, com a escrita dos kanji e paralelamente com os hiraganas, deu-se um enorme impulso à expressão da literatura popular japonesa, que até então se encontrava um tanto adormecida, não por inexistir seu espírito de manifestação, mas pela carência de um elemento material tangencial por que desbordar e canalizar todo esse grande mundo de percepção e idéias:a escrita.

Com o hiragana, no século VIII, já se havia desenvolvido um sistema ainda mais simplificado, que deu origem a um tipo de letra de forma mais simples e de linhas mais retas, o katakana, constituído igualmente por 50 sílabas.

Com o decorrer do tempo, essas escritas se fundiram no que se denomina genericamente kanamajiri, em que os caracteres kanji são utilizados geralmente para representar idéias, conceitos; o hiragana, por sua vez, para notas particulares; e finalmente o katakana para a escrita das palavras de origem estrangeira.

A complexidade não se detém aqui. Numerosos símbolos kanji, escritos de maneira distinta, são foneticamente equivalentes. Assim, una mesma palavra japonesa pode ter várias interpretações, e uma enorme quantidade de palavras homófonas podem ter sentidos diversos, dependendo do significado do símbolo kanji utilizado.

Dada a grande multiplicidade dos kanji, o acesso à linguagem especializada se torna particularmente difícil, o que levou aos japoneses, em muitos casos, a colocar ao lado do escrito kanamajiri sua versão em caracteres katakana, para fazer assim compreensível sua leitura e interpretação.

Para facilitar as coisas, o kanamajiri da linguagem corrente, de jornais e revistas, ficou oficialmente limitado a utilizar 1800 símbolos kanji. Supõe-se que os japoneses alfabetizados dominam pelo menos 1900 caracteres para seu uso cotidiano.

Uma língua precisa e ambígua ao mesmo tempo. Agora podemos compreender, mesmo que superficialmente, como pode a linguagem japonesa ser analítica e sintética, condensada e difusa, exata e aureolar. A realidade é que, além de ser uma das línguas mais difíceis de estudar, é também, simultaneamente, uma das mais ricas em capacidade de expressão.

Em virtude de sua herança ideográfica, a escrita japonesa contém, além de um significado preciso, uma aura de significados análogos ou distintos que lhe dá um extraordinário poder de ambigüidade e difusão semânticas.

Quando ambas características se unem em uma frase, podemos dizer algo extremamente preciso, e ao mesmo tempo sugerir una infinidade de outras coisas. Assim, corretamente traduzido, um texto japonês pode ser de uma profundidade e simplicidade exemplar e, ao mesmo tempo, constituir uma versão enganosa, pois todos os outros múltiplos significados gloriosos foram perdidos ao pretender traduzir para uma língua estrangeira o espírito da língua japonesa, como por exemplo um koan (idéia) zen, ou um clássico poema haiku.

É por essa razão que o japonês pode se estender infinitamente com uma linguagem coloquial para expressar um sentido e, por outro lado expressar toda uma situação com uma só palavra, o que para um ocidental demandaria numerosas frases detalhadas e abstrusas.

Conta-se que se por desventura o japonês cedesse ao espírito racionalista e utilitarista tão característico da cultura ocidental, abandonando o seu kanamajiri, e se restringindo a uma linguagem extremamente simples de kanas, perderia com isso não apenas sua riqueza, procedente de um tesouro tradicional milenar, mas também seu poderoso instrumento intelectual e espiritual representado pela sua inigualável língua.

Não é apenas por razão de ordem estética que os japoneses conservavam zelosamente sua língua. Talvez, por serem extremamente pragmáticos, essas duas tendências niponas se reforcem na hora de conservar uma língua escrita que, além de esteticamente valiosa, abriga elementos intelectuais ilimitados, que permitem um grau de refinamento cultural que a maioria das línguas não poderia desenvolver. Tudo isso se associa à infinita paciência de decifrar, entender e dominar no mínimo 1900 caracteres gráficos, desde a infância escolar; e saber que isso é apenas o início de um universo lingüístico exuberante e dinâmico, que tem muita relação com disciplina, paciência, constância, delicadeza. Assim como a perspicácia e adaptabilidade que o povo japonês tem para assimilar rapidamente tudo que é novo e que chega ao seu mundo circundante, essa perspicácia a caracteriza na hora de abordar qualquer tema, não apenas tecnológico, mas especialmente os relacionados ao espírito humano.

A poesia do Sol Nascente

A seguir oferecemos uma breve pincelada de uma das formas de arte tradicionais da escrita, a poesia, sutil e bela, inegavelmente arraigada na natureza e na alma religiosa do mundo japonês, que por suas conotações lingüísticas nos interessa no momento.

Uma das melhores definições do que significa a poesia para o povo japonês é encontrada nos alvores de sua literatura, no prólogo de Kokinshuu (Coleção de poesia antiga e moderna), de 905 d. C. São palavras de um de seus compiladores, Kino Tsurayuki:

A poesia japonesa tem uma semente no coração humano e cresce em inumeráveis folhas de palavras. Nesta Vida muitas coisas impressionam aos homens: eles buscam então expressar seus sentimentos por meio de imagens extraídas do que vêem ou ouvem. Quem há dentre os homens que não componha poesia ao ouvir o canto do rouxinol entre as flores, ou o croar da rã que vive na água? A poesia é aquilo que, sem esforço, move o céu e a terra e provoca compaixão em demônios e deuses invisíveis; o que faz doces os laços entre homens e mulheres; e o que pode confortar os corações de férreos guerreiros.

A poesia começou quando a vida foi criada, para animar o céu e a terra. O poeta japonês não se crê possuidor de essência diversa do resto da criação. Por sua herança cultural xintoísta e budista, sente uma profunda simpatia por todo o animado, uma compaixão universal. Por isso pode dialogar com todas as coisas deste mundo e captar a mensagem dos seres mais insignificantes. O japonês vê crescer a vida sobre um cenário animista que o faz descubrir traços de sua própria existência em cada objeto natural.

O haiku se situa no extremo oposto de toda verbosidade e ornato literário. Revela mais a emoção de um homem em um instante e nesse sentido é um estado da alma. Não é uma reflexão sobre as coisas, mas uma simples visão da realidade. Através dessa visão se podem descobrir determinados hábitos óticos e uma especial sensibilidade.

O momento estético de criação do haiku brota de uma total unidade de percepção do poeta na Natureza. Apagam-se os limites entre sujeito e objeto, entre a percepção e as palavras. Assim, a árvore de cerejeira, com sua flor que cai antes de murchar, simboliza a honra do samurai; o lótus sugere o mundo de ilusão de Amida e o pressentimento vago de existências futuras; o pinheiro faz pensar em legendários anciãos robustos e faz desejar a longevidade.

O professor Bonneau assinala que o conhecimento para o japonês é essencialmente concreto e simbólico, talvez por atavismo, tradição e educação. Como prova dessa afirmação, alega que enquanto que os gêneros literários “concretos” (novela, poesia, teatro) floresceram no Japão desde a época Nara (710-794), os gêneros “abstratos” (Filosofia, crítica, História), pelo menos no sentido comum em que entendemos essas palavras, ficaram ali como testemunhos atípicos e estrangeiros.

O haiku não aponta, pois, à beleza, mas sim ao significativo. A apreciação da beleza poderia ver-se tingida de subjetivismo e representaria um corte do cordão umbilical que estabelece a comunicação com a mãe Natureza.

Conclusão

A história, os valores, as soluções culturais niponas são a tal ponto distintas, originais e sob certos aspectos totalmente opostas à experiência da chamada cultura ocidental, que do contato com eles se suscita espontaneamente em todos os espíritos a sensação de se encontrar diante de algo enigmático, impenetrável, misterioso.

Esse é precisamente o seu encanto, o seu desafio. Na realidade, o mistério continuará enquanto não abrirmos as portas de nossa inteligência superior e de nosso coração.

No que se refere às questões humanas, a fria lógica, a razão, não basta. Ela se encontra a tal ponto comprometida com interesses, egoísmos e orgulhos que sua visão é apagada, superficial e limitada.

Necessita de algum elemento ilimitado na sua capacidade de penetrar, compreender naturezas aparentemente ilógicas e aceitar o que apareça.

A alma do Japão e da sua linguagem escrita e oral integram a capacidade que tem de se adaptar, pois em toda a sua longa e polifacetada história sempre perceberam e assimilaram o melhor de outras zonas da terra. Japão, geográfica e simbolicamente, supõe o fim de um grande começo.

Hashimoto Hidekichi

Alguns exemplos clássicos de poesia haiku japonesa

Com ligeiros estalos

Mastiga o doce arroz

a bela mulher.

Issa.

Graças sejam dadas ao alto;

a neve sobre o cobertor

vem também de Joodo.

Issa.

Secos crisântemos;

dezessete antanho,

minha oferenda floral.

Onitsura.

Arrastando suas densas

sombras,

brincam os lagartos.

Kyoshi.

Do fundo da História – A deusa das serpentes

Nenhuma mulher nunca se vestiu de forma tão formosa como eu, em meu palácio de Cnossos; faz quase 4000 anos, e nunca saiu de moda a minha vestimenta… Minha saia revoava graciosa ao caminhar. É um dos elementos que da minha terra grega passou para a sua terra espanhola, juntamente com a festa dos touros. Cingido o meu talhe, os seios ao ar, que não há por que ocultar, mas sim mostrar com orgulho como fonte de vida que são.

E, nas minhas mãos, as serpentes.

As Serpentes do Sigilo, da Sabedoria. Essas serpentes que tudo conhecem porque em todos os lugares podem entrar, em total silêncio, para observar com seus olhos de âmbar. E julgar. Elas sabem o que fazemos, por que o fazemos.

As serpentes do Destino, porque seus rastros no pó nos levam aos lugares recônditos onde os deuses nos falam.

As que guardam os santuários, os altares, as oferendas.

Elas estão nas minhas mãos. Porque as mulheres, as sacerdotisas, compreendemo-las. Também somos Sigilo, para velar o sonho de nossos guerreiros, para ser seu descanso na paz. Também somos Sabedoria, para educar os nossos filhos, para transmitir os costumes, os ritos do nosso povo, tudo o que é nossa identidade. Somos o Destino, porque em nossos ventres se aloja a vida que continuará nossa raça. Somos as pitonisas, as que levantam o véu do futuro para aconselhar os nossos governantes quando eles nos solicitam.

Por isso porto em minhas mãos serpentes. Elas me entendem e me obedecem, elas são minhas irmãs. A Mulher e a Serpente, eterno mito de todas as religiões. Inimigas ou companheiras, mas sempre relacionadas. Aos pés ou nas mãos, mas sempre o contato pele a pele. A Píton da Grécia, o Oureus do Egito, minhas pequenas víboras. Crava nos meus olhos fixos e expectantes as pupilas de âmbar e mostra-me o sigiloso caminho ao secreto, à Sabedoria.

Não temas nunca às serpentes. São um relâmpago feito de matéria. São pequenos rios de vida no leito da terra.

Mª Ángeles Fernández

Chispas científicas – A revolução inversa

Ciência sem consciência é a ruína da alma. (Rabelais)

Nas últimas décadas, e mais concretamente desde a metade do século XX, pode-se constatar uma aceleração dos processos vitais por que passam habitualmente os seres humanos. Tendo em vista a situação mundial, pode-se dizer que nos últimos cinqüenta anos assistimos no campo da ciência a uma etapa de esplendor, baseada na obtenção de uma série de criações e descobrimentos de primeira magnitude, uma força tecnológica sem precedentes, uma melhor racionalização dos processos industriais, uma maior eficiência na exploração dos recursos disponíveis, uma sensível melhora no intercâmbio de informação entre os países e as pessoas, e uma maior mudança por parte das empresas e dos governos em I+D (Investigação e Desenvolvimento, à qual se somou ultimamente a inovação, para se denominar I+D+I).

Em suma, não apenas existe uma maior tecnologia de ponta, mas existe um melhor acesso das pessoas aos conhecimentos, o que eliminou muitas barreiras antigas e fronteiras psicológicas, devido a uma melhor divulgação e acesso à ciência, algo sem precedentes desde a época de Copérnico e Galileu…

No entanto, valorizando as obtenções na sua justa medida — e não em excesso — a dita globalização do conhecimento encobre uma terrível dualidade entre os países desenvolvidos e “os outros países”, aqueles que se encontram “em improváveis vias de desenvolvimento”. À luz das estatísticas se detecta um fenômeno de desaceleração dos processos e das vivências humanas quando contemplamos a realidade mundial como um todo — mais além de uma mentalidade de primeiro mundo —, aproximando-nos ao que denominamos “a revolução inversa”, que passamos a detalhar.

Os dados que se aportam a seguir, oferecidos atualmente na exposição “A Terra vista do ar” na Praça do Comércio de Lisboa, são um resumo das obtenções e contradições alcançadas nos últimos 50 anos, por si mesmos suficientemente eloqüentes:

- População: “nos últimos 50 anos, a população do planeta triplicou, embora o consumo de água tenha-se multiplicado por 6, principalmente devido ao consumo agrícola”, isto é, não foi motivado por melhorias no abastecimento humano. Na atualidade “a população mundial aumenta para mais de 1 milhão de pessoas por semana”, sendo que há um paradoxo: “40 milhões de pessoas morrem de fome por ano num mundo que produz 356Kg de cereais por pessoa”.

- Acesso à água: é significativo descrever que “80 países, isto é, 40% da população mundial, sofrem pela escassez de água”, alcançando a cifra de “20% da população não dispõem de água potável”. “A água insalubre provoca 5 milhões de mortes por ano”, ou seja, “mais de 1 bilhão de pessoas não dispõem de mínimas condições de vida”.

- Países industrializados e países em desenvolvimento: um quinto (1/5) da população vive em países industrializados, produzindo, consumindo e contaminando em excesso, destruindo árvores e degradando o meio ambiente, enquanto quatro quintos (4/5) vivem em países em vias de desenvolvimento, ou seja, na pobreza. É significativo que “50% da população vive com menos de 2 dólares diários”. É notório indicar que “90% dos habitantes deste planeta nunca utilizaram um telefone”. De fato, atualmente, “600 milhões de pessoas no mundo vivem em favelas nas periferias das grandes cidades”. Como exemplo do efeito que tem a industrialização sobre o ecossistema se pode citar que “para fabricar um computador são necessárias de 8 a 14 toneladas de matérias-primas não recicláveis”.

- Acesso à higiene: “40% da população não dispõem de instalações sanitárias”. Por exemplo, “a cada ano, 500.000 crianças ficam cegas por falta de vitamina A”. Em âmbito mundial “1 em cada 3 crianças com menos de cinco anos sofre desnutrição”, em contrapartida, nos países desenvolvidos “entre 10% e 30% das crianças sofrem de obesidade”. No total, “826 milhões de pessoas sofrem desnutrição no mundo”.

- Acesso à educação: “no mundo, 1 em cada 5 adultos não sabem ler ou escrever”, “e destes, 80% vivem nos países em vias de desenvolvimento, e 2/3 são mulheres”.

- Situação da infância: em nível mundial “1 em cada 5 crianças não vai à escola”, entre outras causas, porque “mais de 300.000 meninos e meninas são soldados (muitos têm menos de 10 anos)”. Como exemplo citaremos o caso do Quênia, “onde 30% dos trabalhadores das plantações de café são crianças”.

- Agricultura: é o meio de vida de milhões de seres, ainda que seu desenvolvimento cada vez demande um maior consumo de recursos disponíveis. Nos últimos 50 anos “40% da terra cultivável do mundo foi degradada pelo cultivo intensivo”, e na atualidade “70% da

água doce é usada para regar a terra cultivada”. Enquanto “o uso de pesticidas provoca a morte de 20.000 agricultores por ano”, por outro lado, “80% dos agricultores do mundo não precisam modificar seus métodos de produção para obter as certificações porque acreditam que seus produtos são totalmente orgânicos”, pois mantêm técnicas tradicionais alheias à técnica moderna.

- Produtividade econômica: “a produção econômica nos últimos 50 anos se multiplicou por 7, embora a produção de peixe apenas se tenha multiplicado por 2, e a de carne por 5″.

- Produção energética: em determinado período “a geração de energia  apenas se multiplicou por 5″, embora 20% das pessoas — obviamente as que vivem nos países mais ricos — consumam até 60% da produção total de energia elétrica”. Basta dizer que “40% da população mundial não têm eletricidade”.

- Consumo de petróleo: “o consumo de petróleo se multiplicou por 7″, a quantidade de petróleo consumida atualmente em 6 semanas possibilitaria em 1950 a totalidade do transporte mundial para 1 ano”. Isso acarretou que “as emissões de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera também se multiplicaram por 7″. Sendo estas, além do mais, “as responsáveis por 60% do aumento do efeito estufa do planeta”, que “provocou, entre 1960 e 1990, uma diminuição da espessura da geleiras estimada em 44%”. Na atualidade “mais da metade dos recifes de corais estão ameaçados”.

- Ajuda pública ao desenvolvimento: “a indústria alimentícia gasta 40 bilhões de dólares em publicidade”, por outro lado “a ajuda pública ao desenvolvimento totaliza 58 bilhões de dólares”. “Nos últimos anos, as ajudas públicas ao desenvolvimento derivaram 29% no mundo”.

- Conflitos bélicos e gasto militar: “o total de gastos militares no mundo chega aos 794 bilhões de dólares”. Isso acarreta que “a cada ano morram entre 15 e 20 milhões de pessoas devido a minas anti-pessoas”. Pode-se afirmar que “1 em cada 120 habitantes do planeta é um refugiado”.

Resumindo, antes de 2050 a terra terá mais de 3 bilhões de habitantes que viverão em países em vias de desenvolvimento. Se realmente conseguissem se desenvolver, entrariam em choque com os interesses dos países desenvolvidos, alterando-se o ecossistema da Terra.

Urge, portanto, aplicar um desenvolvimento sustentável, que atente para a utilização dos recursos disponíveis no planeta, que melhore sua redistribuição, e propicie o acesso ao bem-estar dos países em vias de desenvolvimento. Mas tudo isso não ocorrerá sem uma mudança de mentalidade, uma reprogramação dos hábitos e condutas dos países mais desenvolvidos.

A perda de mínimas condições de vida, de salubridade, de condições de higiene e educação, deve fazer que o primeiro mundo reflita que a revolução científica conta na sua condução também com esta tácita involução, com estas falhas na aplicação prática das técnicas e dos conhecimentos. Esta revolução na qual crescem exponencialmente as carências, a ausência de condições mínimas, é a que chamamos “a revolução inversa”, é uma revolução órfã de horizontes claros, de princípios, que denota que nosso mundo está carente de ideais, de diretrizes globais, sobre a qual os políticos, os técnicos e os científicos têm muito o que dizer. Nossa crítica não pretende ser destrutiva, mas sim uma chamada à reflexão e ao compromisso leal com a humanidade… Há que colocar mãos à obra, pois o relógio do destino não se detém jamais e se escreve com ações esforçadas mais do que com palavras vãs… Talvez a ciência, se souber recordar a tempo seus nobres ideais, tenha em suas mãos os instrumentos para suturar a sangria de uma revolução inversa que outros interesses não sabem ou não querem promover.

Raysan

Chispas literárias

Tema 2. A linguagem a ser utilizada na narração

Todo escritor é um observador do mundo que o rodeia, através do qual se pergunta por si mesmo, tratando de descobrir sua porção de verdade. Uma vez vislumbrada essa verdade, e diante de sua necessidade de transmitir a profundidade alcançada, elaborará e destilará novamente no seu próprio atanor as imagens e as vivências acumuladas. Assim,

todo escritor se vai forjando nas próprias vivências. Isto é, para escrever, deve-se possuir algo objetivamente válido para aportar aos demais, que através da fantasia da ficção possa enriquecer suas vidas.

O autor que sabe o que aportar a seus leitores freqüentemente mostrará ao seu favor a convicção da utilidade do seu escrito. Talvez se guiando por sua intuição, seu amadurecimento interno, ou confiando no seu juízo, possa distinguir facilmente aquilo que esteja muito simples ou insignificante, evitando o chato ou sem qualidade.

Toda obra literária é um reflexo do caráter do escritor e da sua própria humanidade. Os grandes autores como Homero, Cervantes, Shakespeare, Dante, Dostoievski, Tolstoi, Borges, são admirados pelo ritmo da sua escrita, pela capacidade de recriar um ambiente, pela força descritiva de seus personagens, pela sua forma concreta de elaborar as frases ou parágrafos, mas principalmente são valorizados por sua capacidade de análise e compreensão da alma humana, por seus juízos acertados e, em suma, pela humanidade e pelas virtudes que transluzem nos personagens.

Em troca, na falta de um bom “fundo”, muitos escritores tentam recriar “a forma” dos textos, resultando espessos, excessivamente recarregados de imagens, repetitivos, ou muito melosos. Uma linguagem excessivamente cuidada corre o risco de se tornar maçante, e certamente o autor não entenderá por que ninguém gosta.

Os escritores novos tendem a utilizar uma linguagem vulgar ou grosseira, que pode representar certa modernidade, mas não é mais do que uma moda passageira que quando filtrada pelo decorrer do tempo não terá mais lugar, pois não tem consistência. Não obstante, como com as cordas de um violão, todo autor atrairá alguém que vibre na mesma freqüência. Uma linguagem fútil ou vazia de conteúdo sempre atrairá leitores da mesma categoria.

A criatividade deve romper também as barreiras de uma série de tópicos universais, de uso comum, como por exemplo “seu cálido sorriso” ou “sua agradável presença” ou ainda expressões sobrecarregadas como “a pátina do tempo”, etc. Vivemos num mundo que constrói a sua linguagem com frases e expressões predefinidas. Do mesmo modo que a sociedade nos impõe uma série de idéias preconceituosas e enlatadas, que se repetem e contagiam constantemente, escutamos à nossa volta uma linguagem feita, infestada de lugares comuns que convém evitar.

Assim, dizemos de algo que “se repete até se saciar” que é “recorrente” e ocorre “sem solução de continuidade”, chegando a “martelar nossos ouvidos”. É curioso comprovar que certas frases feitas se instalam no jargão cotidiano com significados contrários aos de sua procedência, haja vista a expressão “sem solução de continuidade”, que matematicamente significa que na representação gráfica de uma curva em algum ponto falha a continuidade, e portanto há nela uma omissão ou uma indefinição, isto é, nesse ponto falta a solução que permita a continuidade, quando se utiliza na linguagem com o sentido de que existe continuidade.

A linguagem literária tampouco requer grandes complexidades barrocas. Não se escreve melhor por fazê-lo de modo sobrecarregado, utilizando excessivas metáforas e imagens, nem alardeando pedantemente palavras desconhecidas. Dado que num texto literário apenas há algumas palavras que desconhecemos, disso se deduz que se pode escrever com palavras do nosso vocabulário habitual. Devem-se utilizar palavras que geralmente se entendam, uma vez que o importante é saber o que queremos transmitir.

A simplicidade na linguagem geralmente se consegue com muitas horas de trabalho, polindo as arestas do retórico. Quem tem a vivência e a necessidade de escrever o melhor possível para transmitir suas idéias, sabe o quanto custa acabar um texto que se possa considerar completo, a ponto de sentir-se satisfeito.

Finalmente, apesar do que foi dito, deve-se aconselhar uma certa capacidade de romper moldes e fronteiras. Ser atrevidos para dizer aquilo que queremos transmitir. Escrever com o coração pois ele sempre vai fazer vibrar quem mantém vivos os seus sonhos e sua necessidade de aprender através da leitura. O escritor deve observar o seu entorno, vendo as coisas com olhos de admiração, para poder relatá-las de um modo que outros não apreciaram. Não se deve cingir a uma estrutura muito tradicional, achando o próprio ritmo, sem competir com a forma de contar dos outros. Há que se fazer uma clara distinção entre relato, conto e narrativa. Enquanto que em um conto sempre há uma história, um relato pode não tê-la e ser uma narração meramente descritiva de situações e personagens. A existência de um núcleo na narração é primordial no caso do conto, porque em todo conto sempre deve ocorrer algo, e isso desencadeia alguns acontecimentos que terão um desenlace. Em contrapartida, numa narrativa, podem coexistir mais de uma história, vividas por diferentes personagens, e o núcleo narrativo sói estar disperso em vários nós ou tramas distintos, que se complementam. Pode aparecer uma única história na narrativa, mas ela estará suficientemente matizada, e passará por muitas inclinações e mudanças de ritmo. Manter a intensidade na narrativa é deste modo mais complexo.

O desenlace dos acontecimentos tampouco se encontrará, necessariamente, no final da narração. Na narrativa, como muitas vezes acontece no cinema, pode-se trocar a ordem temporal da ação. Podemos começar a narração pelo seu final para ir rememorando o ocorrido anteriormente, ou também dar saltos temporais para trás e para frente. Não nos devemos cingir necessariamente à ordem cronológica dos acontecimentos, pois pode-se cair na monotonia. Deste modo ganhará vivacidade o relato, mantendo melhor o interesse do leitor. Devemos conseguir um ritmo fluido e ao mesmo tempo intenso.

Sobretudo no caso do conto ou do breve relato, ganharemos em efetividade para narrar aquilo que desejamos por ser a extensão limitada. Por isso, deve-se utilizar a maior economia possível de meios para conseguir rápida e nitidamente nosso objetivo. É fundamental no caso do conto a expressão cotidiana “ir ao essencial”. No conto ocorre de ter poucos personagens, apenas delineados e sem grandes detalhes psicológicos, porque a abundância de detalhes sacrificaria sua efetividade.

Existe a idéia de que é mais fácil escrever um conto do que uma narrativa, ao se pensar na mera extensão, mas é muito difícil conseguir uma narração intensa, com um núcleo narrativo atraente e um desenvolvimento que chame a atenção do leitor, com uma ajustada economia de meios. O ritmo do conto é diferente e deve ser de qualidade do princípio ao fim. Sempre existiram grandes narradores que não podiam fazer bons contos e vice-versa. Ambas as facetas guardam sua dificuldade, requerem um trabalho intenso para que resultem ao menos “decentes”.

EXERCÍCIO RECEBIDO

Meio-dia, o sol resplandecia mais do que em qualquer outra hora, atordoado pelo incessante cantar das cigarras.

Na mesa do terraço de um café estava sentado com uma mulher madura, alta, que olhava fixamente numa direção com os lábios despontando um leve sorriso.

Ele não deixava de mover a xícara de café com leite, derramando parte dele no seu pires e em si mesmo; quando acabou a bebida olhou a face da sua companheira e suspirou, tentou olhar o relógio no seu pulso, mas o reflexo da luz não o deixava ver os ponteiros.

Tirava as costas da cadeira e voltava a apoiar, olhava o céu quase fechando os seus olhos negros, para logo deixar cair de cabeça para baixo.

Pegou o guardanapo e começou cortar em pedacinhos cada vez menores, dobrando-os, juntando-os…

De repente o vento soprou entrelaçando seus cabelos escuros, trazendo consigo aquela música celestial, levantou-se da cadeira da melhor maneira que pôde, sacudindo suas roupas azuis e ao grito de “vem, vem” de sua mãe correu até o carrinho dos sorvetes.

Mª Soledad Torres. As Areias (Bizkaia)

Comentários ao exercício:

Em geral está bem definido o personagem, embora dê a entender na primeira parte do texto que é una pessoa maior, camuflando a realidade final, no que se descobre que é um menino.

Eis aqui o que não é muito acreditável, e na literatura se podem utilizar todos os recursos que estão no nosso alcance, sempre que o resultado mantenha sua credibilidade. Busca-se uma surpresa final, embora talvez pudesse ter aproveitado melhor o tema se desde o início se dessem indícios de que se narra a vivência de um menino…

O exercício, escrito no passado, mantém o mesmo tempo verbal como é lógico, embora se caia na cacofonia de reiterar as terminações “estava”, “olhava” “deixava”, ou bem se escreve “dobrando-os, e imediatamente juntando-os”, etc…, tal como corrigimos no mês anterior. Este aspecto sempre requer, após a sua elaboração, uma última leitura paciente ao final. Não é fácil maquiar terminações mantendo o mesmo tempo passado, embora às vezes em vez de dizer “deixava a cabeça caída” pode-se utilizar “deixou cair a cabeça”, ou também “deixando a cabeça caída”… Utilizam-se, além do mais, verbos “polissêmicos”, isto é, com múltiplos significados, sem ajustar um verbo cujo significado seja mais apropriado. Os verbos “fazer”, “ter”, “deixar”, podem muitas vezes ser substituídos por outros mais apropriado. Na frase “separava as costas da cadeira e voltava a apoiar” poderia-se dizer “se balançava na cadeira”, para fugir de verbos com múltiplas expressões.

Na frase… “Meio-dia, o sol resplandecia mais do que em qualquer outra hora, atordoado pelo incessante cantar das cigarras”, não parece que o verbo atordoar seja o mais apropriado. Mais além da sua beleza, já que o sol não se aproxima ou se apóia junto a algo, tal como os barcos permanecem encalhados no porto um junto ao outro.

Exercício proposto nº 3.- Descrever uma baleia em alto mar, utilizando os cinco sentidos.

Melhorando nosso vocabulário

Trazemos hoje para a nossa seção alguns vocábulos do livro “O Catón” de Matilde Asensi, publicado pelo Editorial De bolsillo em 2001, e um breve resumo do texto em que se utilizam.

Taumatúrgica.- O pertencente ou relativo à taumaturgia.

Taumaturgia: faculdade de realizar prodígios.

pág. 106 “Resulta evidente que não está em nossas mãos ressuscitar os mortos, porque essa capacidade taumatúrgica apenas pertence a Deus”.

Raysan

Dossiê: As Legiões de César

Esteban Coronado Berosio

Quando se mencionam os feitos do Império Romano, costumam vir à nossa mente suas calçadas, suas cidades, pontes, aquedutos e outras obras monumentais de engenharia. Se falamos das legiões romanas, é provável que, influenciados um pouco por Hollywood, recordemos compactas formações de soldados em linhas ordenadas, com escudos erguidos e lanças apontadas, dispostos a destroçar inapelavelmente com muita disciplina um desordenado exército inimigo. Poucas vezes associamos o gênio criador romano ao seu indiscutível êxito bélico.

Roma e a Guerra

Todo legionário era capaz de construir uma ponte, uma muralha, desviar um rio ou levantar um acampamento com todas as suas defesas em poucas horas.

A verdade é que um legionário romano não chegava a esta condição senão após um completo e rigoroso treinamento, de intermináveis sessões de exercícios com os quais se conseguia uma inestimável disciplina que converteu o exército romano durante séculos na melhor máquina de combate no mundo conhecido. Também é certo que nesse formidável corpo militar não havia especialistas na construção de pontes, construtores de trincheiras, arquitetos ou engenheiros. Todo legionário era capaz de pôr mãos à obra e construir em um abrir e fechar de olhos uma ponte, uma muralha, desviar um rio ou levantar um acampamento com todas as suas defesas (paliçada, fosso, torres e acessos) em poucas horas.

A história de Roma está repleta de combates nos quais o que se impôs não foi um valor militar próximo do heroísmo, no estilo de Horácio Cocles ou Múcio Cévola, mas sim uma visão prática, quase “econômica”. Uma boa legião foi sempre difícil de obter e treinar, além de ser muito cara a sua manutenção, e por isso o método de combate romano se caracterizava entre outras coisas pelo seu mínimo risco de perdas humanas (salvo raras exceções, uma legião podia ser vencida, mas não exterminada) e pela sua eficácia, muito de acordo com o conjunto geral do modo de ser romano. Como disse Cipião, o Africano, em certa ocasião, “as batalhas se ganham meses antes de ocorrerem, sobre uma mesa de trabalho”.

A lista dos enfrentamentos militares de Roma inclui um bom número de ocasiões em que, ante um inimigo “invencível”, por seu número, posição ou armamento, os romanos compensaram sua desvantagem inicial com um estudo meticuloso da situação e adotaram medidas óbvias, independentemente da sua aparente impossibilidade ou desproporção numérica. Em outras ocasiões, o general romano não se distinguiu por sua tática brilhante e surpreendente, mas simplesmente por obras de engenharia sensatas, apropriadas e resistentes.

Por exemplo, durante a Primeira Guerra Púnica, Roma e Cartago eram as duas principais potências militares da época e seus enfrentamentos foram violentíssimos. Na primeira Guerra, Cartago era uma força naval de primeira ordem, com séculos de experiência. Os romanos, que não haviam saído da Península Itálica, eram invencíveis em terra, mas inexperientes no mar. A guerra foi longa (264 a.C. – 241 a.C.), com vitórias terrestres dos romanos e navais dos cartagineses. Mas a cada frota que os cartagineses destruíam, Roma sempre criava outra, isso devido à inestimável constância romana. E, então, entraram em cena os engenheiros. Inventaram toda uma série de artefatos, ganchos de ferro, ganchos com alavancas, enormes grampos que se lançavam de uma embarcação para prender o barco inimigo enquanto este era invadido por soldados, ou as próprias pontes de abordagem, que fizeram com que as batalhas na água deixassem de assim ser, pois, no lugar de duas frotas, com seus barcos a remo ziguezagueando, encarando-se e investindo uma contra a outra, os romanos nos combates navais converteram em enormes plataformas os conveses dos barcos amarrados entre si, onde os legionários podiam ir e vir à vontade, fazendo de um combate marítimo um combate terrestre. O resultado, depois desse artifício, não tardou, e a principal arma cartaginesa foi vencida finalmente na batalha das ilhas Égadas.

Outro exemplo é o de Cipião Emiliano, também chamado “o Africano”, na destruição de Cartago, como também o de seu avô adotivo depois da sua vitória ante Aníbal em Zama.

Nomeado cônsul em 134 a.C., ele tomou Numância, dando assim por finalizada a guerra contra lusitanos e celtiberos. Mas, para isso, não deslocou suas legiões em um terreno favorável, nem assaltou corajosamente as muralhas, por demais inexpugnáveis. Numância, na qual foram ridicularizados três generais romanos (Quinto Pompeu 141-140, Pompilio 139-138, Hostilio Mancio 137 a.C.), viu-se obrigada ao suicídio coletivo, por causa de 60.000 legionários armados de uma estratégia invencível: a paciência e a carpintaria. Cipião, para evitar o aprovisionamento da cidade, a entrada de reforços e saídas inesperadas dos sitiados, fechou o rio com cordas e grades eriçadas de pontas. Posteriormente, rodeou a cidade com 7 acampamentos fortificados e finalmente foi unindo com firmeza e bom senso esses acampamentos com uma muralha que circundava a cidade celtibera. Os atônitos sitiados contemplaram durante mais de um ano como esta muralha crescia até que alcançou uma altura que, ultrapassando os próprios muros de Numância, permitiu à artilharia romana instalar-se nele e varrer à vontade o interior da cidade. O resultado, todos conhecemos.

Roma e Cartago eram as principais potências militares da época e seus combates foram violentíssimos.

E se quisermos falar de obras gigantescas usadas para vencer cidades inconquistáveis, o melhor exemplo foi a tomada de Massada. Após a conquista de Jerusalém no ano 70 da nossa era, os restos do exército zelote com suas mulheres e crianças, sob o comando de Eleazar Ben Jair refugiou-se em Massada, no deserto da Judéia. Dali se dedicaram a fustigar os exércitos romanos com ataques de guerrilha, até que a X Legião, com o governador romano Flavio Silva no comando, sitiou a fortaleza. Construíram novamente um muro circundante para evitar fugas e comprovaram que a única forma de tomar Massada seria derrubando uma parede das muralhas que os especialistas romanos descobriram ser um ponto fraco. Havia apenas um pequeno problema: esse ponto das muralhas se encontrava precisamente a mais de 400 metros de altura, no alto do penhasco que tornava a cidadela inexpugnável. Mais uma vez colocou-se em ação o gênio romano, e sob um sol inclemente movimentaram milhares de toneladas de areia e pedras em pleno deserto até construir uma rampa para levar um aríete e derrubar o muro. Simples e, principalmente, eficaz.

Caio Júlio César – Um general de pá e picareta

-                   (…) Chegou a hora, disse a mim mesmo, destes soldados que tenho em minhas legiões, voltem a fazer o que melhor sabem fazer !

- Que fazeis melhor, rapazes ?

- Cavar! – responderam os soldados, pondo-se a rir.

McCullough, C. César.

César foi talvez o general romano por excelência. Somente seu próprio tio Mário lhe fez sombra, chegando a ser cônsul sete vezes, cinco delas consecutivas. Cáio Mário foi responsável pela maior reforma da legião romana, com seu sistema de rodízios, renovação do equipamento do soldado romano, que tornou-se finalmente uniforme e a reestruturação de manípulos e coortes. Realizou a proeza de deter as invasões (melhor dito, migrações, já que se transladaram tribos inteiras) de címbrios e teutônicos. Segundo alguns autores, para a realização desta tarefa, contou com um contingente total de 750.000 militares. Nunca foi vencido e se de algo podia se lamentar, foi de não estar politicamente à altura do seu gênio militar.

O caso de Caio Júlio César foi muito diferente. Nele podemos encontrar um modelo de estrategista,  administrador, político, literato… Enfim, alguém quase perfeito em todos os campos das atividades humanas, independente da maneira como seja julgado por umas e outras correntes históricas.

César nasce no ano 100 antes da nossa era, no seio de uma família de patrícios de antiqüíssimos ancestrais. Seus pais descendiam em linha direta de nada menos que Rômulo e Enéas (ou seja, Marte e Vênus, respectivamente). Ainda que se saiba pouco da sua primeira infância, seguramente recebeu uma esmerada e completa educação. Tutelada de perto pela sua mãe Aurélia, um autêntico exemplo de matrona romana, devido inicialmente às muitas ocupações do seu pai e depois de sua morte, quando César tinha 16 anos. Existem muitas lendas em torno da sua figura quando criança. Lendas que compõem o grande personagem que, com o passar do tempo, Júlio César chegaria a ser.

O mais provável é que cresceu ouvindo e aprendendo diretamente do seu tio Mário, tudo o que um nobre romano devia saber sobre a vida militar. Entre os cidadãos romanos, o melhor e o mais valorizado meio para obter honras e ascender na carreira política. O jovem César, altamente capacitado para isto, se inteirou bem de tão sábias experiências que posteriormente soube aproveitá-las,  tornando-se grato, com o tempo, à figura do seu tio por tudo o que dele recebeu.

Cresceu durante uma época muito convulsionada da história de Roma. O modelo de República estava ficando limitado e ineficaz para o governo da imensa Roma. Isto provocou diversas convulsões internas, guerras civis e confrontos com o resto dos povos e nações que povoavam a península itálica, que naquela época começou a chamar-se Itália. No ano 91 Druso foi assassinado, basicamente por propor e quase conseguir a cidadania romana para algumas tribos itálicas. Por causa disto, no ano 90 explodiu a chamada “Guerra Itálica”, onde vestinos, picentinos, marrusinos, frentanos, marsos, oscos, pelignos, hirpinos, lucanos e samnitas, para mencionar apenas os mais importantes, enfrentaram Roma com seu Senado desunido.

As circunstâncias históricas quiseram que Roma sobrevivesse e que nesta guerra se destacassem Lúcio Cornélio Sila e Pompeu Estrabão. O segundo seria o pai do futuro rival de César, Cneo Pompeu Magno, outro menino prodígio na arte militar. Sila nomeou-se ditador e instaurou um regime de terror que durou até que ele mesmo renunciou no ano 79. Morreu no ano seguinte.

Como se não bastasse, no ano 73 se declarou a guerra de Espartaco. Nesta ocasião quem teve a possibilidade de se destacar foi Marco Licínio Crasso. Ele acabou com o exército de escravos no Sul da Itália no ano de 71, enquanto Pompeu Filho esmagava os últimos focos de revolta no Norte, quando regressava após vencer as tropas de Sertório na Hispania.

Tanto Crasso como Pompeu teriam um papel fundamental na vida de César. Ambos eram generais vitoriosos, tinham o dinheiro suficiente para a atividade política e  descendiam de famílias poderosas. Ambos foram eleitos cônsules no ano 70.

Enquanto tudo isto acontecia e preparava a situação para a entrada em cena de César, ele continuava com a sua educação romana tradicional.

Casou-se muito cedo com Cornélia, mãe da sua filha Julia. Quando Sila ordena que ele a repudiasse e toda Roma treme sob o olhar do ditador, César o desafia. Nega-se a fazê-lo e foge  de Roma por isso, apenas com 18 anos.

Começa sua carreira militar como oficial na Ásia, destacando-se em Mitilene, onde obtém sua primeira condecoração de valor, a coroa cívica de folhas de carvalho. Na Cilícia presta um serviço indispensável, reunindo uma frota para seu general enquanto se inicia nas artes navais.

César não tem pressa. Tem consciência do seu valor e além do mais quer conseguir os cargos políticos na ordem e no tempo que ditava a tradição. Questor no ano 68. Edil no ano 65. Grande pontífice no ano 63 e pretor em 62. Propretor na Hispania no ano 61 e, finalmente, Cônsul no ano 59.

Depois disto, associado com Pompeu e Crasso, conseguiu o proconsulado da Ilíria, Gália Cisalpina e Gália Transalpina por cinco anos, com o comando de quatro legiões.

César nas Gálias

Foi durante o período denominado a “Guerra das Gálias”, onde o gênio militar de César, eclipsaria para sempre na história o de qualquer romano anterior ou posterior a ele. Durante esta campanha, que foi muito mais longa do que no princípio se esperava, mas ao mesmo tempo, assombrosamente curta em relação aos fatos que nela se sucederam, as legiões de César tiveram a oportunidade de brilhar por seu valor muitas vezes e como tal são lembradas. Sua forma de planejar as batalhas foi revolucionária em muitos aspectos e, por exemplo, se converteu em um dos primeiros estrategistas romanos que utilizaram com assiduidade a artilharia não somente em sítios, mas também nos combates de infantaria.

No entanto, em outras ocasiões a vitória viria por meio da capacidade de construção romana. Este fato parece ter sido eclipsado por suas outras qualidades, caindo no esquecimento a história da arte da guerra.

As Gálias eram compostas por três regiões distintas. Por um lado, a Cisalpina: desde os Alpes até o célebre Rubicão. Era parte da Itália, ainda que o seu reconhecimento como tal ainda tardaria em chegar. Outra Gália se conhecia como Narbonense, colonizada há muito tempo e de população gálica, grega e romana. É conhecida hoje como Provença. Também se conhecia como Gália Togata.

Por último, temos a Gália Comata, ou “daqueles de cabeleiras longas”. Habitada por um sem número de tribos mais ou menos estruturadas em clãs, governadas por um regime similar ao feudal, cujos governantes eram eleitos entre uma espécie de assembléia de notáveis. Na realidade, um heterogêneo crisol de tribos onde, a única coisa que parecia uni-los era o druidismo, que teve papel importante no confronto contra César.

A Gália Comata se considerava dividida em outras três partes: confinando com a Germânia a noroeste, estavam os belgas. Os aquitânios na Gália próxima aos Pirineus e no centro, até o Canal da mancha, os celtas.

Muito combativos entre si, os galos não tinham escrúpulo em contratar ou pedir ajuda a povos estrangeiros para que tomassem parte em suas contínuas guerras. De uma destas petições surgiria a desculpa para a intervenção romana no território que, aparentemente, não havia declarado guerra à Roma.

Os germanos

Os germanos, povo muito mais rude e combativo que os galos, sempre cobiçaram as férteis terras da Gália, tão rica em bosques, terras aráveis, caças, madeiras e minas de ferro e ouro. Sob o comando de Ariovisto, já tinham se instalado na terra dos arvernos e secuanos, que corresponde a atual Alsácia, cobrando a terra como tributo por conta de uma intervenção a favor destes povos na guerra que mantiveram contra os eduos, por sua vez aliados de Roma.

Além do mais, no ano de 58, os helvécios (Suíça), pressionados pelos suevos, tentaram emigrar para o oeste. Mas para isto era inevitável que atravessassem a Provenza, sob o protetorado romano, ou o território dos eduos que apesar de autorizarem tal trânsito num primeiro momento, logo reclamariam a ajuda da sua aliada Roma.

César pôs mãos à obra, literalmente. Com um contingente de 4.800 soldados se propôs conter a migração de 350.000 pessoas, das quais 90.000 seriam combatentes. Entre o monte Jura e o lago Lemano, para frear o avanço dos helvécios, construiu um muro de 26,5 Km de largura por 4,5 m de altura e um fosso de igual profundidade, com torres e fortins inteligentemente distribuídos. Com este muro, evitou que seu pouco numeroso exército fosse superado e esmagado por tão grande contingente inimigo. O exército brincava dizendo que as batalhas eram o prêmio que César lhes outorgava, por todo aquele trabalho com a pá, por construir, por transportar troncos e por suar tanto trabalhando (McCullough, Collen).

Após várias tentativas de avanço, rechaçados por Júlio César, os helvécios optaram por cruzar o território secuano. Nesta situação César demonstrou a eficácia de outras das suas armas: a rapidez. De Genebra, onde deixou a sua legião fortificada, marchou até a Gália Cisalpina para recrutar duas novas legiões, enquanto colocava em marcha outras três que passavam o inverno em Aquileia sob o comando de Tito Labieno. Reuniu cerca de 28.000 legionários e 4.000 cavaleiros galos aliados.

No rio Arar, os helvécios trabalhavam há 19 dias cruzando em balsas pessoas e equipamentos. César apareceu de repente, depois de marchas forçadas com três legiões e massacrou as hostes helvéticas em uma margem, enquanto da outra margem o restante exército helvético o contemplava atônito. Em um só dia as legiões de César construíram uma ponte e cruzaram o rio sem molhar um só fio da roupa. Seguindo a uma distância prudente os seus inimigos, César finalmente os enfrentou em Bibracte. Deixando na reserva as legiões de novatos, as tropas romanas se dispuseram a enfrentar um contingente de 70.000 guerreiros que combateram em uma frente compacta. Conta-se que César retirou do campo de batalha todos os cavalos, inclusive o seu, para deixar claro que não havia possibilidade de voltar atrás. A superioridade do armamento romano e o exemplo do seu general fizeram em pedaços a compacta frente dos inimigos.

O pilum ou dardo pesado, a arma de lançamento do legionário, se lançava quando a carga do inimigo estava suficientemente próxima. Então, respondendo a uma voz de comando, caía sobre o inimigo atacante, uma autêntica chuva de dardos que se cravavam nos escudos, geralmente de madeira. Como, além do mais, estes escudos se levavam em alto, um só dardo podia atravessar vários deles. Uma vez trespassados um ou vários escudos, o engenho romano operava sua magia. Os dardos se partiam pela haste de madeira, ou simplesmente se dobravam por uma espécie de dobradiça, que se colocava na junção da peça metálica com o cabo. De todas as formas, o normal era que se retorcessem com o impacto, já que tinham uma forma bastante afilada. O resultado acabava sendo que, o inimigo tinha que lutar com estes dardos cravados nos seus escudos, impossíveis de se retirar. Algo muito incômodo! No combate corpo a corpo, a alternativa era jogar no chão o dardo e o escudo, ficando sem a indispensável proteção e em franca inferioridade diante das espadas curtas romanas.  Estas espadas eram desenhadas não para cortar, mas para investir cravando. Em distâncias curtas, era outra arma formidável. A idéia de incluir o pilum e o gládio, o dardo e a espada, como armas “regulamentares” foi de Mário e a peculiar forma de utilização destes dardos causou a ruptura das linhas helvéticas.

A supremacia do engenho romano era esmagadora.

César na Bretanha

As legiões de César demonstraram seu domínio de engenharia em muitas ocasiões ao longo da Guerra das Gálias. Sem este conhecimento, quase inato em todo romano, a simples disciplina e o conhecimento militar dos soldados de César não teriam bastado para realizar a conquista de tão extenso e povoado território.

Os vênetos, na Bretanha francesa, se sublevaram protegidos nas suas fortalezas que as marés isolavam completamente da terra. César ordenou armar uma frota para enfrentar os navios vênetos, barcos acostumados para navegar nas duras condições do Atlântico. No princípio, os pequenos barcos romanos não puderam nem sequer arranhar as imensas e muito altas naves bretãs. Mas outra vez apareceu a astúcia romana, César equipou seus marinheiros com longas varas terminadas em foices que cortavam os cordames inimigos. As pesadas velas de couro caíam sobre a tripulação e os barcos vênetos, desprovidos de remos, ficavam inertes ante o ataque e a vitória romana.

No ano 55 algumas tribos germanas, outra vez pressionadas pelos suevos, cruzaram o Rhin. César não se contentou somente em detê-las, mas no prazo de 10 dias construiu uma sólida ponte sobre o turbulento e caudaloso rio germano. Corrente acima colocou paliçadas que diminuíam a velocidade da corrente e detinham os troncos e madeiras que lançavam os inimigos. A ponte, com fundamentos em forma de “X” para deixar passar a água, culminava com tábuas. Nas proximidades  ergueu um fortim ao alcance da sua artilharia, para defender as obras e evitar uma possível travessia do inimigo. Por este local passou no comando das suas legiões, satisfazendo-se desta vez, em assustar com grandes correrias as tribos locais. Quando conseguiu a submissão dos povoados se retirou, desmontou a ponte e a guardou na fortaleza, pronta para ser montada novamente. A mensagem era clara para os germanos e César não queria um exército às suas costas enquanto continuava com seu trabalho na Gália.

No ano 55 desembarca pela segunda vez na Bretanha (Reino Unido), para acabar, segundo suas próprias palavras, com os reforços de homens e equipamentos que os parentes do outro lado do Canal da Mancha faziam chegar aos seus primos do continente. Nesta ocasião utiliza 800 barcos e narra o desembarque como um autêntico exemplo de heroísmo. Vence Casivelauno e seus carros de combate e volta para a Gália.

A Rebelião de Vercingetórix

Depois de pacificada a Gália belga, foi a Comata que se agitou com insurreições. Estando César longe do seu exército, surge a sublevação com dois propósitos: uma revolta geral que imobilize as legiões, separadas entre si pelo inverno, até sua aniquilação. E impossibilitar César de reunir-se com elas. Qualquer um que tivesse estudado César minimamente deveria saber que este último objetivo era impossível.

Enquanto Vercingetórix é nomeado comandante em chefe, ainda com muitas reticências por parte dos próprios galos, César supera o bloqueio mediante a legendária travessia de Cebenna.  Arrasta suas legiões de reserva por esta passagem montanhosa, superando mais de 1,5 m de neve e aparece totalmente de surpresa, em território arverno pela retaguarda.

Vercingetórix tenta utilizar com César a tática da “terra arrasada”, mas comete um gravíssimo erro. Ainda que na realidade a história parece dizer que não estava de acordo, os nobres galos não lhe deixaram outra opção. Não evacua nem destrói os valiosíssimos víveres guardados na fortaleza de Avarico e apesar de acampar quase à vista da cidade, envia emissários indicando que não pensa atacar César. O general romano, depois de uma rápida inspeção, encontra o ponto onde as impressionantes muralhas deviam ser assaltadas.

Avarico era mais que um povoado, uma autêntica cidade, rodeada de estruturas naturais que a convertiam em uma praça fortificada. Segundo os galos, era impossível de conquistar. Ficava no alto de um platô de penhascos, no centro de uma ampla zona de pântanos, pelas quais, exército algum podia se mover. Muralhas altas e largas completavam a proteção e a porta se encontrava no final de um caminho escavado na rocha viva. Justamente antes de chegar à porta o caminho descia para uma depressão natural, o que fazia com que as muralhas ficassem ainda mais elevadas. Aparentemente, estas muralhas eram construídas com um tramado de pedras e vigas de madeira. A madeira impedia o ataque dos aríetes e a pedra os possíveis incêndios que os atacantes pudessem provocar para derrubar a muralha.

César tinha a obrigação de tomar a fortaleza por dois motivos. Por um lado, necessitava dos víveres que estavam guardados no interior da cidade. Por outro, os galos estavam convencidos da invulnerabilidade da sua fortaleza e necessitava também de um golpe de efeito para debilitar a sua moral.

Decidiu tomá-la pela porta

Começou a levantar muros paralelos ao longo da depressão. Começando pela sua parte mais alta, que estava quase á altura das muralhas, mas a uns 500 metros de distância. Milhares de troncos foram cortados para construir a estrutura. Uma enorme quantidade de terra e pedras foi deslocada para construir nos muros um aterro de 100 metros de largura que chegasse quase até a borda das muralhas. Além do mais, foram construídas duas torres de assalto e preparados os projéteis dos escorpiões, máquinas que lançavam com diabólica precisão dardos de um metro de comprimento, afiados em uma ponta e talhados com guias em forma de pluma na outra. Grandes coberturas de pele avançavam pelo muro, junto com o aterro, para proteger os construtores. Quando a obra se aproximou das muralhas e os construtores se colocaram ao alcance dos arqueiros galos, começou a cantar a artilharia romana. Os escorpiões varreram dos parapeitos qualquer galo que ousasse erguer a cabeça.

Em 25 dias o trabalho estava terminado. O aterro de assédio tinha 25 metros de altura e 100 metros entre as duas torres de assalto. A cidade foi tomada. De 40.000 pessoas que estavam no interior da cidade só se salvaram 800, que buscaram abrigo com Vercingetórix. Ele os recebeu dizendo: – Eu avisei…

Alesia

A tomada de Avarico precipitou o final da guerra. Depois do “empate técnico” de Gergovia, Vercingetórix cometeu, desta vez por conta própria, o último dos seus erros. Depois de um combate, para o qual César o atraiu fazendo-o crer que batia em retirada, decide refugiar-se em outra fortaleza dos galos, à espera dos reforços, o que lhe permitiu finalmente vencer os romanos.

Alesia (“a rocha”, em gaulês) se encontrava no alto de um monte muito elevado, inexpugnável, salvo por bloqueio, em uma meseta de 1.500 m de comprimento por 1.000 m de largura e 150 m de altura. As tropas de Vercingetórix se distribuíram pela meseta e no interior da cidade. Dois rios a circundavam. Diante da cidade, aos pés da colina, se estendia uma planície de quase 5 Km de largura e em todo o redor se erguiam altas colinas. Cerca de 80.000 galos aguardavam no alto da colina o reforço de um exército de outros 240.000 combatentes celtas. No total, 320.000 soldados. Diante deles, César com todos seus efetivos: cerca de 50.000 homens.

Antes mencionei o paradigma dos assédios nos livros de história: Massada. Mas, para mim, o auge das construções romanas de combate é, sem dúvida alguma, Alesia.

César sabia que tinha algum tempo antes que o exército de reforço fosse recrutado e o atacasse pela retaguarda. Estimou este período em 30 dias e colocou suas legiões a cavar, cortar, afundar, desviar rios e levantar paliçadas, torres e fortins com grande habilidade. Trabalho que os legionários de César fizeram uma vez mais, confiantes na tática do seu chefe e com uma disposição e eficácia assombrosa.

A idéia era simples mas ao mesmo tempo descomunal. Sitiar os sitiados e levantar um muro de proteção que, ao mesmo tempo, isolasse os dois contingentes galos quando o exército de reforço se apresentasse. Uma estrutura de dois anéis concêntricos, um voltado para o exterior e o outro voltado para Alesia, no interior dos quais as tropas romanas poderiam mover-se com desenvoltura. E mãos à obra…

Para isto, a primeira coisa que César fez foi cavar um fosso de 6m de largura circundando a meseta, evitando desta maneira possíveis ataques de surpresa do interior de Alesia. Depois, colocou à 120 m o começo das escavações, para que os soldados que as realizassem estivessem a salvo das armas de arremesso dos sitiados.

As obras que circundaram Alesia foram titânicas. Ao longo de um perímetro de 16 km foram escavados fossos de 3,5 m de largura e com igual profundidade. O mais próximo da muralha, que media 4 metros de altura, em forma de “U”, foi preenchido com a água desviada dos rios próximos. O mais interno tinha forma de “V”, com o que se evitava a possibilidade de colocar o pé no fundo. A terra extraída de ambos os fossos, serviu para levantar um aterro em continuação do fosso em “V”, coroado por uma paliçada na qual se agregaram ramos grossos com as pontas afiadas, a “maneira de chifres de cervo”. Aterro e fosso tinham, sem a paliçada, um desnível de 7,5 metros. A cada 25 metros foi erguida uma torre e ao longo de todo o perímetro se construíram um total de 23 fortins para guarnecer as tropas romanas.

Não satisfeito com isto, levou a obra mais além e para atrapalhar as investidas do inimigo, rodeou o fosso externo com cinco fileiras de fossas de 1,5 m de profundidade. No fundo destas fossas foram fincados galhos muito fortes, ramificados, com as pontas aguçadas. Diante delas acrescentou três fileiras de covas dispostas como num tabuleiro de xadrez, cheias de galhos, do tamanho de uma cocha (os “lírios”). E precedendo estas oito fileiras, foram enterrados pedaços de madeira eriçados de ganchos e pontas metálicas (a estas delicadezas chamaram “dificuldades”). Estas filas de defesas foram cobertas com vegetação e soterradas com o fim de ocultá-las dos olhos de Vercingetórix.

As tropas de César demoraram treze dias para “sitiar” Alesia com esta faraônica estrutura. Mas agora era necessário defender-se do ataque exterior. César ordenou repetir a estrutura, mas virada para fora. Fossos, aterros, paliçadas, torres e “lírios”, aos quais acrescentaram cinco acampamentos de cavalaria e três de infantaria, colocados estrategicamente para intervir com prontidão em qualquer ponto da fortificação. Este novo anel tinha um perímetro de 20 km.

Ambos anéis de defesas se levantaram em apenas 30 dias.

Justo a tempo quando chegou o exército de reforço. As hordas de galos, que se chocavam sucessivamente contra este duplo anel, lançavam efetivos amparados em seu número. Enquanto isto, César com sua capa escarlate ao vento, acudia a um e outro ponto dos aterros onde o combate era mais duro, para ser identificado pela sua vestimenta, por seus rapazes e assim infundir-lhes ânimo. A oportuna intervenção da cavalaria romana e a defesa hercúlea detrás das formidáveis fortificações de campanha, deram a vitória, uma vez mais, aos romanos. Era o ano 52. Vercingetórix entregou suas armas.

A campanha das Gálias ainda não havia terminado com esta vitória e César teve que sufocar um a um muitos pontos de rebelião, até a tomada final de Uxellodonum. Oito anos de guerras terminavam com a tomada deste centro galo. O balanço final foi a integração das riquíssimas Gálias à Roma, um milhão de galos mortos em combate, outro milhão ferido, um milhão de prisioneiros e outros tantos vendidos como escravos. Tudo isto, com menos de 50.000 legionários romanos.

César e Pompeu

O gênio militar de César ainda teria outras oportunidades de se destacar. A oposição do Senado, capitaneada por Pompeu, que deu as costas ao seu sócio e levou César a cruzar o Rubicão com suas legiões. Algo que sempre lamentou, porque o caráter legalista de César lhe impedia de fazê-lo. Ele sempre quis obter o que merecia, mas seguindo, como mencionamos antes, os passos que a tradição romana ditava.

Em Dyrrachium, César repete a estratégia de Alesia frente a Pompeu, melhorando-a com fortes externos e distintas linhas de defesa. A traição de alguns galos que militavam nas suas fileiras, fez com que Pompeu se informasse dos pontos fracos desta fortificação e César retirou-se depois de perder 500 homens.

O enfrentamento final com as tropas de Pompeu foi em Farsalia. César atraiu Pompeu a este lugar depois da derrota simulada em Dyrrachium, como fez com Vercingetórix depois de Gergovia. Em Farsalia, César contava com 23.500 legionários em oito legiões (cada legião estava com quase a metade dos seus efetivos), 7.000 infantes auxiliares hispanos e 1.000 experientes cavaleiros galos e germanos, que tanto resultado lhe deram nas Gálias. Pompeu dispunha de 11 legiões completas, com 50.000 homens, 4.200 infantes auxiliares, 5.000 efetivos de infantaria hispânica e a esmagadora cifra de 7.000 soldados de cavalaria sob o comando de Tito Labieno. Labieno fora o braço direito do próprio César na guerra das Gálias, como comandante de cavalaria, mas o confronto entre estes dois colossos romanos, César e Pompeu, o colocou no lado deste último.

A proporção era maior que dois para um. Na cavalaria aumentava para 7 por um. César, genial estrategista, previu a tática de Pompeu e baseou seu ataque justamente na cavalaria galo-germana, apoiada pela infantaria ligeira. Seus mil homens varreram os sete mil de Labieno, provocando a queda do flanco esquerdo do exército de Pompeu e a perda da batalha. Neste caso, foi a audácia no planejamento da estratégia e a eficiência como soldado o que deu a vitória a César.

Egito, África e a derrota na Hispania (concretamente em Munda, lugar ainda por descobrir) dos restos do exército de Pompeu, vestiram de glórias muitas vezes Caio Júlio César.

A personalidade deste ilustre romano é fruto de muitas controvérsias, mas seus feitos como estrategista estão fora de qualquer dúvida. De pensamento vivaz, com capacidades intelectuais sobre-humanas, poliglota, escritor, era também um político muito inteligente e um general extraordinariamente dotado para a arte da guerra. Nunca seguia os conselhos dos manuais de estratégia e tática, aproveitando a menor vantagem em seu favor. Reconhecia de maneira intuitiva os pontos fracos do inimigo e era capaz de adotar sobre a marcha, com espontaneidade e rapidez, mudanças em suas ordens que lhe faziam freqüentemente vencedor. Treinou os “seus rapazes” na sua forma de ser. Fez deles legionários duros, férreos e ao mesmo tempo flexíveis, dotados de iniciativa e conscientes de que quem os dirigia era um filho da Fortuna. Seus soldados foram para ele o bem mais valioso e nunca levou à perda injustificada um só dos seus homens. Os amava e fazia com que se sentissem amados.

Podia mover-se com uma velocidade assombrosa e nunca atacava como era de se esperar.

Todas estas virtudes fizeram dele o general romano mais impressionante de todos os tempos e sem dúvida um dos expoentes da estratégia militar mundial. Mas, ao longo deste artigo, procurei demonstrar que por detrás destas capacidades militares clássicas, também se escondia um engenheiro, um arquiteto, um mineiro e um marinheiro de primeira ordem. Um homem que utilizou todas estas artes para vencer um inimigo sempre superior em número, sempre em posições mais vantajosas.

César devia seu êxito tanto a sua formação militar, como a sua eficiência como versátil construtor. E demonstrou que as guerras se podem ganhar também com uma pá e uma picareta.

O Acampamento romano e as “mulas de Mário”.

Todos já vimos uma representação de um acampamento de legionários romanos. E é impossível abordar a relação entre o êxito militar romano e sua capacidade como engenheiros, sem dedicar algumas linhas a estes acampamentos. Digamos que os generais romanos articulavam grande parte da sua estratégia, em torno do uso dos seus acampamentos fortificados.

Existiam diferenças entre acampamentos permanentes, realizados com madeiras e pedras e o acampamento de campanha. Este último era erguido pelas legiões depois de 30 km de dura marcha (no caso das legiões de César, 50 km ou mais) e na manhã seguinte era desmontado para voltar a ser reconstruído a uma jornada de distância.

Os legionários romanos eram apelidados, com ironia, de  “as mulas de Mario”. Pois, em uma das suas reformas, este general distribuiu os equipamentos entre cada soldado, para fazer o comboio de suprimentos menor, conseguindo com isto uma maior mobilidade das legiões.

Cada legionário marchava com a cabeça descoberta, armado de couraça, cinturão, espada e adaga. O pilum (dardo) era carregado na mão direita. Apoiado no ombro esquerdo, em uma vara, pendia o capacete e o escudo, em sua respectiva capa. Na esteira se incluía ração de cereal para cinco dias, legumes, toucinho, azeite, prato e taça de bronze, equipamento de asseio, muda de roupa, capa para chuva e roupa para o frio. Também uma manta, um cesto de vime para remover a terra, além de recordações e talismãs pessoais. Alguma ferramenta para cavar, duas estacas que logo formariam a paliçada do acampamento. Tudo isto amarrado solidamente na estrutura da esteira, formando um bloco sólido que não atrapalhava a marcha. Entre cada oito homens (o octeto), que iam ocupar uma tenda, se repartiam alguns equipamentos comuns: a levedura, o pedernal, o sal, uma lâmpada e seu azeite… cerca de 30 quilos para cada legionário. As “mulas de Mário”…

Além do mais, cada octeto dispunha de um animal de carga, geralmente uma mula (desta vez de verdade, um eqüino autêntico), que se encarregava de transportar um moinho de trigo, um forno de argila para o pão, os equipamentos de cozinha (panelas, colheres, etc.), o armamento de reposição, água e a tenda comum. A mula era cuidada por dois combatentes e as oito mulas de cada centúria avançavam trotando no final da formação.

Ao dar ordem de acampar, cada legionário sabia com precisão matemática qual era seu lugar e função. O acampamento se levantava em um tempo invejável para qualquer exército.

Enquanto metade da legião se ocupava formando uma guarda para evitar ataques (em muitas ocasiões se travaram combates enquanto os companheiros terminavam de montar o acampamento detrás das linhas), se cavava um fosso de 4m de largura por 3m de profundidade seguindo uma forma retangular. A terra era amontoada para formar um muro, coroado pelas estacas que cada legionários levava, atadas fortemente entre si, para formar uma sólida paliçada. As tendas eram de 4 lugares, já que sempre a metade do exército estava de guarda e eram montadas, levantavam a 30 m do muro, para evitar os projéteis que se lançavam desde o exterior. Um acampamento de inverno se levantava com pedras e cabanas de madeira, ocupando uma superfície de 1.500 m2. Para uma noite de campanha, era suficiente a terça parte desta superfície. Os acampamentos de cavalaria eram ligeiramente distintos mas, em todos os casos, cada um conhecia exatamente o seu lugar, após a repetição em inumeráveis exercícios. Até os animais sabiam de memória aonde ir.

Duas avenidas perpendiculares, no mínimo, atravessavam o acampamento que tinha “praças” e alargamentos para os afazeres da tropa. No cruzamento das principais avenidas se instalava o posto de comando.

Bibliografia

- Julio César: Comentário de la Guerra de lãs Gálias

- Editorial Debate, Ian Gibson: Protagonistas de la Civilización: César

- Otto Zierrer, Herbet Reinos: “Grandes acontecimientos de la Historia”

- Javier de Juna e Peñalosa, Santiago Fernández-Giménez: Historia de la Navegación

- Collen MacCullough:

- El Primer Hombre de Roma

- La Corona de Hierba

- Favoritos de la Fortuna

- Las mujeres de César

- César

- Editorial Plaza e Janés: Gran Larousse Universal. 37 tomos

- Editorial Planeta: Gran Enciclopedia Larrousse. 24 tomos.

- Carlos Frisas: Historias de la Historia

- Enciclopedia Digital Encarta

- www.historialago.com

- www.israel.org

A alma no antigo Egito

O destino da Alma está no céu; o destino do corpo está na Terra. Os rituais de mumificação determinam a direção da viagem.

O ego pessoal e a Alma diante da sala do Juízo

Na antiga cultura egípcia, o Ego pessoal é representado pelo coração e é de dupla natureza. Possui uma face espiritual superior, que lhe outorga as faculdades mentais da memória e da imaginação. Mas essa luz da inteligência se encontra submersa no mundo do desejo e da dualidade, o kama dos hindus, que se entende como uma espécie de Alma inferior humana ou mente de desejos.

O coração tem dois nomes que na vida se convertem em um só: Ab e Hati. O Hati é o coração físico, o que permanece na terra, o aspecto temporal, a sede das paixões que se devem dominar para transcender a natureza inferior. O Ab é o que vai ser julgado como uma testemunha que olha o passado e o futuro da alma.

Helena Blavatsky insiste em que a alma que aspira à osirificação, à ressurreição ou renascimento num plano superior, é o eu pessoal (Ab). Este coração, Ab, é o aspecto inferior da mente. O Ba é o superior, e ambos constituem uma unidade. De fato, devem integrar-se como tal na Sala do Juízo para demonstrar estar com a Verdade, com a Justiça, com a Lei e com a Luz. Isto é o que considera a alma osirificada, que permite ao Ba recuperar o poder sobre a memória e a imaginação.

Há diversos capítulos do Livro dos Mortos em que o coração hereditário Geb-Ba¹, ou o princípio que reencarna, solicita ao seu coração Ab que não testemunhe contra ele. “Oh, meu coração, meu coração hereditário, (te) necessito para minhas transformações (…) não te afastes de mim perante o guardião das balanças, Tu és minha personalidade dentro do meu peito, companheiro divino que vela meu corpo” (Livro dos Mortos. Cap. LXIV, 34, 35).²

O coração Ab deve testemunhar acerca da inocência do defunto e de que este se comportou na Terra como um discípulo no caminho espiritual. Este coração é o centro da forma e da vida da personalidade temporal, que tem de demonstrar, frente ao tribunal de Osíris, ter sido o correto canal dos princípios superiores.

Quando o coração do defunto é julgado puro, a sentença de sua liberação que o juiz pronuncia é: “que o coração seja posto em seu lugar, na pessoa de Osíris N. O retorno do coração ao peito do defunto é o sinal de seu renascimento e está associado ao escaravelho”.

A osirificação do coração permite o renascimento da alma no plano de Atum, sua divinização e sua fusão na luz de Re. O coração, uma vez osirificado, não se transforma mais, porém o Ba prosseguirá ainda sua transformação. O defunto diz: “Eu vejo as minhas formas, como vários homens transformando-se eternamente (…). Eu conheço este capítulo. Aquele que não o conhece assume todo tipo de formas viventes”. (Livro dos Mortos, Cap. LXIV, 29-30)

O juízo do coração determinará a direção da viagem, seja para reencarnar na Terra, seja para continuar seus renascimentos no Céu.

Se não consegue passar no juízo, o coração é engolido pelo monstro Amhet, que o excreta nos planos inferiores, transformando-o no corpo causal de uma futura vida ou encarnação. O Ba se inverte, retorna ao Duat de cabeça para baixo e volta a ter uma morada na Terra, o que se representa como o Ba retornando ao túmulo. Voltar ao túmulo significa reencarnar. Por isso, se vê Ba levar para a múmia funções vitais e alimentos, o que representa o processo de uma nova encarnação na terra. Na realidade a múmia não renasce no além, mas apenas simboliza a futura personalidade ou quaternário que deverá encarnar, em estado de gérmen.

A múmia representa o corpo que fica na Terra e por sua vez a representação do último destino da alma, o Sahu, o que pode causar muitos mal-entendidos porque é um conceito utilizado de modo alegórico. O corpo, depois da morte, é transformado em múmia. A múmia é a sustentação no mundo terreno da recomposição dos elementos septenários que tendem à dissolução depois da morte. Os rituais funerários propiciam a transformação do defunto em um corpo de Luz ou Akh. A múmia, como prefiguração do corpo de luz, é também denominada Sahu, que se distingue do cadáver ou corpo putrefactível, Khat, e do Djet ou corpo físico vivo.

A múmia pode também representar o continente ou veículo do que será transformado ou renascerá em qualquer plano. Estar em estado de múmia é estar em estado vegetativo ou latente. Mas isso pode denotar tanto a latência do corpo físico como a da alma superior. Não é a múmia física que ressuscita.

Quando nos textos se vê o Ba regressando à múmia, se está simbolizando o descenso da alma ao plano terrestre, isto é, a reencarnação. “O que vai reviver (…), a alma deveria encontrar-se com a múmia (Livro dos Mortos. Cap XXXIX) e lhe dar novamente a vida”.³

Depois de haver passado um tempo no além, no Amenti, e se haver purificado da vida passada, o defunto é chamado a contribuir com novas existências para a múmia, o germe causal de sua próxima encarnação. “Oh Deuses de Heliópolis (…), concedei-me que minha alma venha a mim onde quer que esteja. (…) Minha alma e minha inteligência me foram arrancadas. Fazei que minha alma veja meu corpo, se a encontrardes… Que se uma à sua múmia (que reencarne)” (Livro dos Mortos cap. LXXXIX).

Quando a múmia chama a alma ou Ba representa o germe do futuro ego pessoal que se está reconstituindo para uma nova encarnação. Não há ressurreição da carne no mundo terreno. O destino da alma está no Céu. O destino do corpo esta na Terra.

No Livro das Respirações, ou Shai-n-sin sin, supostamente escrito por Isis para seu irmão Osiris, para fazer reviver a alma, para fazer reviver o corpo, se diz: “tua individualidade é permanente; teu corpo é durável; tua múmia germina. A germinação da múmia é o símbolo da ressurreição ou reencarnação na Terra”.

Se a Alma for osirificada, isso significa que seu coração está tão leve quanto a pluma de Maat e não é preso pelo monstro Amhet. Então será o deus Horus quem apresentará, não o coração, mas a Alma viva e justificada (Livro dos Mortos cap. CCXXV) do defunto a Osiris, deus do Além. A Alma viva poderá continuar seu itinerário ruma à luz do dia. Será purificada no lago de fogo (Livro dos Mortos cap. CCVI) e avançará no caminho que a conduzirá à sua verdadeira natureza, que é ser Luz junto a Re.

O Livro dos Mortos oferece uma lista completa das transformações da alma que o defunto realiza enquanto se despoja progressivamente das vestes mais opacas e densas, à medida em que se eleva na noite do Duat, à luz do horizonte de Re.

A sombra (Kaibit), a forma astral, é aniquilada, devorada por Oreus (Livro dos Mortos, CIL, 51). Os Manes serão aniquilados; os dois gêmeos (os princípios quarto e quinto) serão dissipados; mas a Alma Pássaro (Ba), a Andorinha divina e a Oreus de fogo (Sahu, que reúne os três componentes superiores em uma unidade) viverão na eternidade, pois são os maridos de sua mãe.4

Notas

Blavatsky compara este Geb-Ba com o Maná Hindú, a Alma hereditária, o fio brilhante imortal do Ego superior, ao qual adere o aroma espiritual de todas as vidas ou nascimentos (Doutrina Secreta, vol. 4p. 196). O (morto) Rei é Osíris nas cinzas. Seu horror é a terra: não entrará em Geb (pois) está aniquilado quando dorme em sua casa sobre a terra (a nova personalidade) (Pyr 308-312). A entrada em Geb é a entrada na vida terrestre, ou seja, a encarnação. Às vezes se vê nos desenhos a Alma como pássaro com cabeça humana sobre a tumba. Esta (a tumba) representa a antiga personalidade material, que contém a múmia, as vísceras e os aspectos materiais. Há analogias entre a tumba e a casa. A casa na terra é a nova personalidade terrestre.

Doutrina Secreta, vol 1, p. 241.

La réincarnation. E. Berthelot, Ed. Pierre Guenillard, p. 164. Lausanne, 1978.

Doutrina Secreta, vol. 1, p. 247.

Bibliografia

O livro dos mortos, traduzido do francês por Paul Pierret, Ed. Ernest Leru, Paris, 1882.

O Livro dos Mortos, Ed. José Llanes, Barcelona, 1953.

Chi Kung, o poder da energia

“O caldeirão deve ter uma base larga e estar colocado em posição vertical. Adiciona-se mercúrio como ingrediente principal. A água que se coloca deve vir de uma fonte limpa. O fogo que aquece os ingredientes deve estar na temperatura correta. O chumbo, produto do desprezo, evapora-se. Os ingredientes ficam ao fogo durante 300 dias. Se tudo correr bem, os ingredientes purificam-se convertendo-se num verdadeiro ouro brilhante é que armazenado na parte inferior do caldeirão para uso posterior” (1).

Anônimo

O Chi Kung é um sistema de exercícios energéticos de origem chinesa. São inúmeras as versões que se conhecem deste sistema que, ao final, pode ser traduzido como uma forma de manejo da energia.

É difícil precisar sua origem por conta de sua grande variedade de estilos e usos, mas forma parte da mentalidade chinesa. Suas idéias primordiais são: o Yin Yang, os cinco movimentos, o Tao, os Três Tesouros, que serão abordados no decorrer desta matéria.

Percebe-se, sobretudo, a presença do Chi Kung na Medicina Chinesa, nas Artes Marciais, nas escolas do Taoísmo, Confucionismo e Budismo. Essas cinco áreas são as principais fontes onde se pode buscar suas características e origens.

Taoísmo

A escola taoísta adota o Chi Kung com o objetivo último de alcançar a imortalidade (Cheng-Shein) através da alquimia interna dos Três Tesouros, a fim de regressar a fonte.

Para alcançar este objetivo, segundo os adeptos do taoísmo, deve-se cultivar a saúde e a longevidade como fundamentos para práticas superiores. Para isso desenvolveram um sistema coordenado chamado de Yang Sheng (cultivar a vida) que inclui dieta, ervas, exercícios, massagem, assim como uma atenção cuidadosa e a harmonização das atividades humanas com os ritmos da Natureza.

Lao Tsé escreveu: esvazie o coração e encha o abdômen. Pode-se entender isso como esvaziar a mente e o coração e inspirar suave e profundamente para que se encha de energia o tan inferior. Esta é uma instrução taoísta básica para Chi Kung.

O clássico do elixir e o clássico da paz são os dois textos sobre Chi Kung taoísta. Na seqüência apresentaremos um resumo do clássico da paz: temos um corpo e este corpo é uma unidade, a unidade, a união do físico e do espiritual. A forma em si mesma está morta; é o espírito que dá a vida física. Quando há harmonia entre a parte física e a espiritual as condições são favoráveis; se não há substância física o espírito parte; se há substância o espírito florescerá. A harmonia constante une o físico e o espiritual. A enfermidade constante causa a separação do físico e do espírito.

Confucionismo

A escola confucionista utiliza o Chi Kung como uma forma de purificar e controlar a mente e as emoções, de tal forma que as pessoas se tornem pessoas melhores na sociedade.

Confúcio dizia: para cultivar o corpo, primeiro devemos purificar a mente, devemos antes eliminar o desejo e cultivar a energia pura da Natureza.

O Chi Kung se converte com os confucionistas em um método que permite ao individuo assumir seu lugar na sociedade, cultivando as virtudes do equilíbrio e a equanimidade.

Concebia-se a sociedade como um microcosmo de ordem universal e ao aprender a obedecer suas leis também se aprendia a obedecer as leis da sociedade. Um estado mental pacífico e ordenado se converte na base de uma sociedade pacífica e ordenada.

Budismo

A escola budista viveu uma profunda transformação com a chegada do monge Tamo (Bodhidharma) ao tempo de Shaolín, que logo se transformou no mais famoso centro de Artes Marciais e de Meditação, dando origem ao budismo Shang e ao Kung Fu. Deste modo, o Chi Kung se transformou na principal e mais importante prática de auto-desenvolvimento físico e espiritual.

A Tamo foram atribuídos dois sucintos livros, que foram mantidos em segredo pelos mestres das Artes Marciais. Estes dois livros se converteram nos pilares de todas as escolas seguidoras do estilo interno (nei chia) de Artes Marciais e provavelmente são os textos de maior influência em toda história do Chi Kung.

O primeiro livro chama-se Yi chin ching (Clássico da transformação dos tendões) e o segundo, mais esotérico, chama-se Hsi sui ching (Clássico da limpeza da medula). Estes dois volumes envolvem tudo que há de exercícios de alongamento e relaxamento básico que preparam o corpo para: a Meditação, a prática das Artes Marciais e as práticas mais avançadas de alquimia interna, que incluem técnicas para transformar a essência em vitalidade espiritual.

A escola budista não desanimava a prática de cuidar do poder pessoal através do trabalho da energia interna, pelo risco que existia de desviar-se do caminho. Cultivava-se a respiração como ponto de concentração no estilo de meditação samatha (quietude) e vipassan (penetração espiritual).

Estas restrições só eram aplicadas aos monges; os leigos observavam uma mistura sincrética com o Taoísmo.

Medicina

Os vestígios mostram que o Chi Kung evoluiu na China com uma forma preventiva e curativa de cuidar da saúde e é na metade do século XX que há um interesse repentino quanto ao Chi Kung nas aplicações médicas.

Esta escola destaca a importância do exercício físico como meio para manter o corpo fortalecido, equilibrado e para estimular o livre fluxo de sangue e energia através de todo sistema. Porém o tipo de exercício é muito diferente da máxima que diz: sem acelerar não há prêmio. O Chin Kung enfatiza os movimentos suaves, lentos e rítmicos, sincronizados com uma profunda respiração diafragmática.

A escola médica adotou numerosas formas de exercícios: o dao yin, o tai chi chuan, massagens de acupressão, etc. Sua particularidade é o pouco uso da mente e a visualização da forma, como fazem os taoistas nos exercícios, considerando a importância da tranqüilidade e do equilíbrio emocional.

No ano de 610 d.C, o imperial professor de Medicina Chao Yuan Fang editou o primeiro livro chinês especializado em patologia, em 50 volumes. Registra 1.270 diferentes tipos de enfermidades, explicando os sintomas, as causas e os princípios terapêuticos de cada uma. A característica extraordinária é que só prescreve como remédio a prática de 400 tipos de exercícios Chi Kung conforme seja a enfermidade. Outro médico sábio foi Sun Si Miao, famoso por ter exposto a terapia Chin Kung dos seis sons curativos.

Basicamente há dois tipos de medicina Chin Kung: preventiva e curativa. Nesta última também existe a modalidade de transmitir energia curativa do mestre curador ao paciente, conhecida em chinês como fa-shi. Atualmente esta técnica é estudada pelos cientistas chineses para tratar doenças terminais, severas e degenerativas.

Arte Marcial

Depois que Tamo ensinou os monges chineses a integrar o exercício físico em suas práticas de meditação, e aos artistas marciais como potencializar suas habilidades físicas pelo cuidado do espírito, as escolas marciais e de meditação do Chin Kung construíram suas práticas sobre a idéia do elixir interno (nei dan), da energia como pedra angular do poder físico e da lucidez espiritual.

Desde os tempos de Tamo, as artes marciais têm seguido o caminho da prática da energia interna, utilizando o espírito para manejar a energia e cuidar das habilidades marciais.

A Escola Marcial tomou emprestado, algumas técnicas da Escola Médica de Chin Kung, por exemplo, os meridianos e os pontos vitais do sistema de energia humana foram cuidadosamente estudados para se aprender como a energia se move pelo corpo. Assim, desenvolveram-se técnicas especificas de luta para incapacitar um rival com o simples fato de atingir-lhe em um ou mais pontos específicos, de forma que o corpo seja paralisado imediatamente.

O Kung Fu contava com 72 artes especializadas, entre elas: sino de ouro, palma de ferro, correr sem pisar na grama, 18 monges, que incorporavam exercícios de Chi Kung em seus treinamentos.

Formas de Chi Kung

Há diversas formas de classificar estes exercícios: uma é a que acabamos de mencionar; outra é dividi-lo em: jing gung ou práticas estáticas, e dung gung ou práticas em movimentos, também como a forma yin yang do Chi Kung.

As formas em movimento são definidas como aquelas que implicam movimentos externos do corpo mediados por uma quietude interna da mente. Os princípios básicos são: rou, a flexibilidade; mou, a lentidão e ho, a suavidade. Seu propósito é manter as partes do corpo soltas, ativas e flexíveis com o propósito de estimular a circulação sanguínea e a energia através do sistema. Tudo está resumido na máxima buscar a quietude dentro do movimento.

As formas estáticas estão definidas pela quietude externa do corpo, combinada com o movimento interno da energia, ou com o buscar o movimento na quietude. O propósito é manter a mente totalmente sincronizada com a respiração.

Desde que Tamo reuniu as tradições marciais e meditativas do Chi Kung, o movimento e a quietude têm partilhado a mesma categoria de importância.

Equilíbrio no Chi Kung

Os sistemas de Chi Kung também podem ser classificados de acordo com a parte do sistema humano que contribui para o equilíbrio.

O equilíbrio do corpo (tiao chen)

Neste Chi Kung o equilíbrio é alcançado mediante exercícios e relaxamento. À medida que o corpo relaxa, o sistema nervoso autônomo ativa-se, equilibrando também o sistema endócrino e estimulando os mecanismos curativos do corpo.

O equilíbrio da respiração (shi de tiao)

Ao equilibrar a respiração por meio de movimentos rítmicos do diafragma, chamada respiração de compressão ou das fossas nasais alternadas, equilibra-se também o sistema energético, o emocional, harmoniza-se as 5 energias elementares dos órgãos, equilibra-se a polaridade yin yang, estimula-se a circulação da energia dos meridianos e sincroniza-se o campo energético do homem com o da Natureza.

O equilíbrio da mente (tiao shen)

Considera controlar as funções cerebrais pós-natais da mente humana adquirida, de forma que possam manifestar-se os poderes pré-natais do espírito primordial.

A chave para conduzir a tensão da mente é a faculdade do espírito primordial conhecida como yi (vontade). Ela é o agente que nos permite exercitar o controle volitivo sobre nosso corpo, respiração e mente.

Todas essas variedades de estilos, formas e escolas reduzem-se basicamente a três categorias de práticas do Chi Kung: Medicina, Meditação e Artes Marciais. O denominador comum é chi, a energia que, como diria Lao Tse, falta som, falta substância, não depende de nada, imutável, onipresente, implacável. Podemos pensar nela como a mãe de todas as coisas abaixo do céu.

O Chi Kung e os Três Tesouros

O Chi Kung está submerso nas concepções que convém à mentalidade chinesa. Uma dessas concepções é o San Bao, os Três Tesouros, que são: shen, chi e jiang (espírito primordial, energia e essência), como réplica microcósmica do universo macrocósmico formado pelos três poderes: tien, rem e ti (Céu, Humanidade e Terra).

O Céu é a fonte do espírito primordial e a consciência universal, essencialmente aberto e vazio, naturalmente radiante e claro. Brinda o espírito humano (Shen) a primordial virtude do Tao, que vigora a mente humana com a capacidade de criar a consciência primordial pura, conhecida como iluminação no Budismo e como imortalidade na tradição taoista.

O clássico da medicina do Imperador Amarelo afirma que o céu foi criado pela acumulação do yang.

A Terra relaciona-se ao mundo material, a fonte das forças naturais, as cinco energias elementares e o local em que ocorrem as transformações cíclicas.

A Terra expressa o poder da vida humana através dos instintos básicos de sobrevivência e dos impulsos primários de procriação e propagação das espécies conhecidas como jiang ou a essência.

A Humanidade ou rem é especificamente o sábio, o santo, o soberano, que diferente do homem comum sintetiza o melhor do céu e da terra, equilibrando e servindo de ponte e emissário da bondade de ambos.

Para alcançar isso, o homem deve fazer em si mesmo o que fará na Natureza, ou seja, harmonizar o Shen (espírito), correspondente ao céu, com o Jiang (essência), correspondente a terra, e o que relaciona a ambos, que é o Chi (respiração, energia), correspondente ao Rem-Humanidade quanto à função.

TIEN   SHEN

REN    CHI

TI        JIANG

Assim chegamos aos Três Tesouros que são o laço triangular que conecta todos os seres humanos com o poder e a sabedoria infinita do Universo e abrange os componentes básicos da Escola do Chi Kung da alquimia interior, nei gung (trabalho interno).

No clássico de Wen Tse, de 2000 anos atrás ensina-se que o corpo é o templo da vida. A energia é à força da vida. O espírito é o governante da vida. Se um deles se desequilibra, os três conseqüentemente ficam danificados.

Antes do nascimento, os Três Tesouros estão agrupados em uma unidade sem fissuras, conhecido com seu aspecto pré-natal. Esta espécie da semente começa a nascer no mesmo instante da concepção diferenciando-se do resto do Universo como uma gota de água que se desprende de uma onda do oceano. Ao nascer, os Três Tesouros separam-se em três manifestações pós-natais, a essência do corpo, a energia da respiração e o espírito da mente, enquanto as raízes pré-natais se conservam como essência em uma profunda reserva, jiang; energia, chi e espírito primordial, Shen. Revisaremos a relação pré e pós-natal dos Três Tesouros:

Jiang ou essência pré-natal é a força primordial criadora do Universo, da qual o homem recebe uma porção a partir da fusão do esperma e do óvulo, que é armazenada nas glândulas sexuais e supra-renais.

Sua condição pós-natal é o corpo; como essência nutritiva e material dos alimentos, a água. Suas formas mais importantes são os fluídos corporais vitais, como: o sangue, os hormônios, os neurotransmissores, o fluído cérebro-espinhal etc. O lugar que corresponde à essência pós-natal é o tan tien inferior.

O chi em sua condição pré-natal é o poder primordial do Universo, sua natureza é a atividade constante e a transformação perpetua, e está estritamente associada à essência pré-natal.

A energia pós-natal se atribuem as cinco energias elementares dos sistemas dos órgãos vitais: a respiração, a fala, o movimento corporal e o metabolismo, além da energia emocional.

Esta energia está centrada no tan tien médio e pode-se controlar mediante métodos equilibrados de respiração Chi Kung.

O shen ou o Espírito primordial, em sua condição pré-natal, é a mente do Tao, que está presente em todo o Universo e dota todo ser sensível da luz original da consciência. Permanece profundamente escondido como uma pedra preciosa na concha temporal da mente humana, sua condição pós-natal.

É como um andarilho inquieto que vai de um lapso vital a outro, alojando-se neste corpo e depois movendo-se a outro sem que jamais o reconheçam seus passageiros anfitriões, até que um dia na vida do homem desperta a sutil presença do espírito primordial em sua mente terrena e o liberta das ilusões. Este aspecto da mente humana é sua condição pré-natal e imortal, e reconhecê-lo significa superar o medo da morte e encontrar a paz interior, último fim do Chi Kung espiritual. O espírito pós-natal reside no tan tien superior.

O objetivo espiritual do Chi Kung ou Alquimia interna (nei gung) é cuidar dos Três Tesouros, com os quais se obtêm saúde e longevidade, condições necessárias para alcançar a imortalidade.

O trabalho da energia

Aqui também nos acompanha a polaridade wai gung, nei gung (trabalho interno e externo).

O trabalho externo abrange os movimentos rítmicos e as posturas equilibradas do corpo projetadas para dirigir e fortalecer a energia conduzida pelos meridianos ou canais.

O que não se vê, porém os participantes sentem, são os aspectos internos denominados com toda a propriedade Alquimia interior.

Na prática, somente o objetivo e a finalidade empregados nesta disciplina podem distinguir se o caminho é interno ou externo.

O Mestre taoista Chao Pin-Chen, escreveu: no campo de elixir inferior (tan tien inferior), por baixo do umbigo, é onde a força gerativa (essência) sublima-se em vitalidade (energia); o campo médio do elixir (tan tien médio), no plexo solar é onde se sublima a vitalidade em espírito; no campo superior do elixir (tan tien superior), no cérebro é onde o espírito sublima-se para elevar-se em direção ao espaço.

A força gerativa (essência) transforma-se em vitalidade (energia) quando o corpo está quieto; a vitalidade converte-se em espírito quando o coração está sereno, e o espírito volta ao vazio devido a mente ou a pensamento imutável.

Este é o fundamento do Chi Kung. Por meio da respiração, seu exercício e domínio, iniciamos o cuidado dos Três Tesouros, mas não podemos isolar ou excluir a totalidade. Além deste aspecto trino e da dualidade, a Unidade, o Todo coerente é muito importante.

A prática do Chi Kung envolve toda a personalidade, a postura, o corpo, a respiração, o ritmo energético; a atitude que se descreve com o sorriso interior, seu aspecto emocional e, com a concentração e visualização, a parte mental.

Há dois ciclos que originam a prática e são conhecidos como o ciclo da nutrição e do controle. O ciclo da nutrição é o ciclo yin (yin interior nutre o yang), e o ciclo do controle é o yang (yang superior controla o yin).

Através da respiração, a essência vital dos hormônios, em especial as secreções sexuais, transformam-se em energia. Esta energia é impulsionada até o tan tien superior, onde se transforma e se refina em energia espiritual. Mas para obtê-la é necessário conectar a mente e harmonizar a respiração. Ao conseguir isso se atinge um equilíbrio adequado da essência (hormonal, neurotransmissor etc) que sustentará à energia.

É tudo ao mesmo tempo, pois os ciclos da nutrição e do controle são contínuos, e são aumentados até atingir o requinte máximo, que é a condição para restabelecer a unidade primordial dos Três Poderes e devolvê-los à fonte universal, a imortalidade, como uma gota de água para um mar brilhante.

Estas anotações resumidas sobre o Chi Kung darão ao praticante os fundamentos da respiração e o contexto e alcance desses exercícios, que vão desde o fortalecimento físico, até o desenvolvimento dos níveis energéticos e sua relação com a meditação nas Artes Marciais.

Ficará para desenvolver em detalhes os aspectos fisiológicos, sobre os quais há muitos estudos, a dinâmica do Chi através dos meridianos, baseada na teoria da acupuntura e a relação com a concentração, visualização e meditação.

Significado dos termos do fragmento anônimo da introdução

Caldeirão                                Adepto/seguidor

Mercúrio                                 Energia cósmica benéfica

Fonte Limpa                           Energia intrínseca dos rins

Fogo                           Energia intrínseca do coração

Temperatura correta               Respiração suave e rítmica

Chumbo                                 Energia indesejável que se elimina do corpo

A prática da respiração faz circular pelos meridianos a energia num fluxo continuo chamado circulação microcósmica e que se mantém durante 300 voltas.

A energia acumula-se no tan tien inferior e assim gerada, formará a pérola de ouro pronta para usar na prática da santidade.

Bibliografía

- Livro do Chi Kung, Daniel Reid.

- O Tao do bem-estar e da vida longa, Da Liu.

- Chi Kung, Camisa de Ferro, Mantak Chia.

- A Arte do Chi Kung, Wong Kiew Kit.

Daniel Salinas Larenas

Buscar a Arte – Venus e Adonis

Tiziano

Museu do Prado

A cena que Tiziano nos apresenta é numa primeira leitura, a

plasmação de um tema mitológico extraído das Metamorfoses de

Ovídio: o belo Adônis é amado por Perséfone e por Vênus; a deusa se vinga por seus desprezos, fazendo-lhe morrer numa caçada devido a feridas que lhe inflige um javali. No quadro ele vai partir a essa caçada, com seus cães, arrancando-se dos braços de Vênus.

Entretanto há uma outra interpretação, mais histórica e pior intencionada. O quadro é encomendado pelo então príncipe Felipe, filho de Carlos I da Espanha, em 1553, pelo motivo de sua boda com sua tia Maria Tudor, e o recebeu em Londres. Se compararmos fotos de Felipe II jovem, ainda sem barba, veremos a extraordinária semelhança que tem com o Adônis do quadro. Estaríamos, portanto, na presença de uma sutil e certeira zombaria política: o jovem príncipe perseguido pela sua incansável tia. Tudo isso sob os presságios do poderoso deus que desponta dos céus, isto é, do quase tão poderoso imperador Carlos.

Tecnicamente, o quadro se resume em uma diagonal formada pelos corpos dos protagonistas, cuja cor dá o tom geral da paleta. À direita fica a matéria, os cães, que se desentendem com os humanos porque o que representam, essa matéria, não vai por enquanto entrar em ação.

Na esquina da esquerda está Cupido. Mas, tal como a matéria, o amor tampouco tem algo a fazer. Dorme tranqüilo entre os galhos da árvore, e deixou o carcaj das suas flechas pendurado no alto, com o arco, porque não vai ter que usá-lo.

Felipe e Maria não têm que se apaixonar, como Apolo não se apaixonou por Vênus, porque não havia amor. É apenas um interesse político que deve ser resolvido.

Aos pés de Vênus, uma cratera inclinada: não há vinho para brindar, não há nada pelo que brindar. Não há ponto de fuga, a cena é de certo modo plana, não necessitamos ver a saída para nenhum lugar.

Estamos nela, imersos no drama do amor e do ódio, eterno leito emotivo do universo.

A paleta, fria, sem mais concessão que o vermelho escuro aos tons ocres e neutros. Até o azul do céu é apagado. Como apagado está o coração de Felipe, do Adônis que se encaminha à morte.

Guiomar

Humberstone. A febre do ouro branco

Esplendor e queda da mineração do nitrato no deserto do Chile

Camisa emprestada, gravata de humita e um magnífico traje negro feito a medida. Luvas brancas, chapéu de feltro, sapatos de verniz e um relógio de prata cuja corrente cruzava o peito sobre o elegante chale. Ainda olhando-se ao espelho de cima para baixo, Lautaro Baldesani no podia acreditar que aquele personagem com pinta de senhor da cabeça aos pés fosse o mesmo. Acabava de se incorporar a uma das companhias

salitreiras mais importantes do norte pampino, e logo depois de chegar, a mesma empresa lhe havia proporcionado aquele terno tão apropriado para a classe que deveria ocupar dentro da comunidade.

Lautaro olhou ao seu redor contemplando todas as comodidades de sua pequena dependência de empregado solteiro. Fechou a torneira de água corrente depois de umedecer com o pente o fixador de cabelo pela última vez, iniciando una rotina que se repetiria todas as tardes durante a maior parte de sua vida. Ao sair, girou o interruptor da luz elétrica e se sentiu contente ao comprovar que todas aquelas maravilhas podiam se fazer realidades no meio de condições tão duras.

No exterior, o sol começava a se esconder atrás do horizonte,  banhando-o todo de uma cor alaranjada que apenas se pode contemplar no deserto e, os trabalhadores voltavam às suas casas depois de ter cumprido com a quota de caliche que tinham assinalado. Durante todo o dia brandiram maças de aço de doze quilos sob um sol de justiça, e agora reporiam forças na cantina onde lhes proporcionariam três pratos servidos até a borda, nos quais não faltariam guisado de vacuno, os legumes e os assados, coroados por um jarro de ossos com milho e uma grande xícara de café. O esforço daqueles homens construía a prosperidade da pátria, extraindo das entranhas o salgado el caliche que “A Máquina” transformaria depois em valioso nitrato de sódio. O nitrato era símbolo da riqueza e do poder do Chile, um patrimônio exclusivo que desde quase um século era transportado diariamente até o porto de Iquique para ser exportado e garantir assim os campos do mundo inteiro. Vendo-nos passar com suas carretas de mulas, suas picaretas e suas maças, Lautaro pensou na dureza da vida desses homens que, como ele, chegavam ao norte de todos os lados buscando riqueza, e se alegrou intimamente de ter alcançado sua recém estreada posição social: empregado de escritório.

Na realidade não seria mais do que um simples funcionário num escritório da Administração, mas esse por si só já era um posto invejável, e além do mais não tinha que ser sempre assim. Talvez com os anos prosperasse ainda mais, e chegasse a ganhar o suficiente para aspirar casar com uma moça de boa família. Enquanto desfrutava das vantagens que a sua situação lhe proporcionava, uma delas: jantar todas as noites no salão do hotel na companhia do administrador, um privilégio restrito aos chefes, autoridades medianas e empregados de escritório como ele, mesmo que a sua condição de recém chegado o deixasse no canto mais longe da mesa. Antes do jantar, conviveria com o melhor daquela próspera comunidade. Jogaria bilhar com os rapazes, leria os jornais de Iquique no bar bebendo cerveja gelada, ou se sentaria para conversar na borda da piscina fumando cigarros ingleses, enquanto desde la pérgola se filtrariam os acordes da música do baile, enchendo de vida e diversão a vasta solidão daquele deserto interminável.

Lautaro andou pela rua deixando para atrás os cômodos dos empregados solteiros e a escola, enquanto sonhava com um  futuro promissor. Seguro de seu porte elegante, passou diante da igreja e do mercado de abastecimento, e cruzou altivo praça florida e iluminada de luminárias elétricas daquela pequena cidade artificial tão ativa e agitada.

Enquanto seus filhos brincavam nos balanços e calesitas especialmente instalados para eles, os habitantes de Humberstone passeavam pelos suportes da pulpería com curiosidade pelos postos de informações de rotas, ostentando suas melhores roupas e desfrutando do ar fresco de cada tarde. Ou se informavam no teatro sobre quais famosas estrelas chagariam de Santiago ou até mesmo da Europa até aquele canto perdido do mundo para deleitá-los.

Ao entrar no salão do hotel, com a sua música e sua alegria, Lautaro não pode reprimir um gesto de admiração diante do que parecia um milagre no meio daquela terra, a mais seca e árida do planeta, e pensou que o engenho e a ciência do homem podem converter em realidade os sonhos mais duvidosos.

Lautaro estava muito longe de imaginar que a quinze mil quilômetros de distância a Grande Guerra da Europa e o engenho e a ciência dos físicos alemães destruíram para sempre o mundo de ensoñaciones.

A febre do nitrato de Chile

Quando começou a exploração do salitre em 1810, o imenso deserto de Atacama que abarca as províncias de Arica, Iquique e Antofagasta, aind anão formava parte do norte do Chile como é atualmente. Naqueles tempos, estas províncias praticamente desabitadas eram parte da Bolívia e Peru, a extração de salitre não tinha outro destino do que a fabricação de pólvora.

Não passados nem vinte anos depois, foi realizado emIquique o primeiro embarque de nitrato de sódio à Europa e Estados Unidos com finalidades agrícolas. Então começou um acelerado processo de crescimento dessa indústria que a levaria desde as setenta e três mil toneladas métricas de extração em 1840, a milhões de toneladas no começo do século, e à máxima produção de três milhões em 1917, chegando a gerar  cinqüenta e um por cento das exportações do Chile.

Terrenos de salitre existem em todo o deserto de Atacama, desde Zapiga ao norte até Altamira ao sul, findando com a III Região. Os salitrais se formam pela evaporação das águas subterrâneas filtradas desde a cordilheira andina, que vão depositando sua salinidade na superfície do terreno na forma de uma capa acinzentada, grossa e dura chamada caliche, que contém grandes concentrações de nitrato de sódio. Os salitrales não são paños contínuos, mas áreas específicas próximas aos serros, que durante a sua exploração se designaram com o nome de cantões. Cada cantão tinhas várias oficinas salitreiras que combinavam, num mesmo espaço, as instalações industriais para o processamento do caliche e as casas dos empregados, com todos os recursos necessários para satisfazer suas necessidades e das suas famílias. Humberstone, Santa Laura, Carmen Alto, Peña Chica, Baquedano, Keryma, Mapocho, Edwards, Anita, Araucana, Curicó, Abra, Concepción, e um número muito grande de oficinas que seria impossível enumerar, algumas das quais, as mais importantes, chegaram a derivar, com o decorrer dos anos, em autênticas cidades. Cidades localizadas no meio do nada, e onde todos os seus habitantes estavam direta ou indiretamente dedicados à exploração do caliche.

No início, caliche era moído a batidas para dissolver na água que esquentada por fogo direto e que depois era exposta ao sol em bateas de ristalización. Este sistema rudimentar apenas servia para processar o caliche de alta qualidade com um cinqüenta ou sessenta por cento de concentração de nitrato. E quando o caliche dessa qualidade acabava, a oficina e os caldeirões se trasladavam para outra parada para iniciar novamente o processo. As oficinas estáveis surgiram apartir de 1853, quando o sistema de exploração evoluiu consideravelmente graças a Pedro Gamboni, um engenhoso trabalhador nascido en Valparaíso que nesta data patenteou um sistema de dissolução do salitre a fogo indireto en bateas esquentadas por vapor. A oficina Sebastopol é a primeira em aplicar este invento que permite usar caliches com qualidade de até trinta por cento de salitre. A instalação de moinhos e de feitorias complexas para o processamento facilitou a criação de oficinas estáveis em torno das quais começaram a se instalar os operários com as suas famílias. Também deu origem a  uma das características mais emblemáticas de una oficina salitreira: as tortas de ripio, ou seja, os gigantescos escombros nos quais se acumularam durante anos os resíduos da produção de nitrato. Chegou-se a dizer que, de fato, uma oficina era tão importante quanto o tamanho de sua torta.

Essa não foi a única criação de Pedro Gamboni. Após dez anos de ensaios, patenteou em 1866 o sistema de extração de iodo de das águas mães do caliche e, obteve dos governos do Peru e da Bolívia uma concessão exclusiva por dez anos de extração que o converteram em um multimilionário, tornando realidade o sonho de fama e fortuna que encorajava os que se aventuravam nas terras do ouro branco.

Em 1875 chega em Pisagua outro dos grandes personagens do caliche: Santiago Humberstone. Nascido em Dover em 1850, engenheiro químico formado na Inglaterra, desenvolve as bases de um novo processo de dissolução do salitre denominado Sistema Shanks, que instala na oficina de Água Santa em 1878. Através deste procedimento, consegue aproveitar caliches com quantidade de ouro ou prata de até treze por cento, evitando enormes perdas em ripios. O Sistema Shanks e suas sucessivas melhoras foi logo muito utilizado por todos os industriais do salitre, e esteve em plena vigência até o desmantelamento das oficinas em 1945. Considerado por todos “o pai do salitre”, Santiago Humberstone morreu em junho de 1939 com oitenta e nove anos, dos quais sessenta e quatro foram dedicados à produção de nitrato de sódio. Em 1934 a Companhia Salitreira de Tarapacá rebatizou com o seu nome uma de suas oficinas mais importantes, a até então conhecida oficina La Palma, que desde este momento passaria a se chamar em sua homenagem de oficina Humberstone.

Em 1879, o Chile declara guerra ao Peru. Pouco antes, tropas chilenas haviam recuperado todo o território até o rio Loa, ocupado cinqüenta anos atrás pela Bolívia. Havia iniciado a guerra do Pacífico. Na ocasião a indústria calichera já era um gigantesco empório que mantinha milhares de trabalhadores, com toda uma infra-estrutura de oficinas, feitorias e redes de ferrovias privadas que substituíram as carretas no transporte do nitrato até os portos de Iquique e Piságua, convertidas já em duas importantes cidades costeiras.

Então, aparece em cena o conhecido como “o rei do nitrato”. Trata-se de John T. North, um inglês muito esperto que chegou ao Chile em 1866 contratado como técnico mecânico para preparar uma equipe ferroviária em Carrizal Bajo e logo depois em Caldera. Alguns anos mais tarde enriqueceu nos negócios, fundando em Iquique a Companhia de Água, com barcos cisterna que atraiam a água desde Arica um condensador de água do mar. Porém foi durante a guerra do Pacífico que se aproveitou para enriquecer ainda mais. Em 1875 o governo do Peru expropriou as salitreiras de Tarapacá pagando com Certificados Salitreiros. Em plena guerra, esses Certificados caem a dez por cento do seu valor, e John T. North aproveita essa chance para adquiri-los por um baixo preço e com dinheiro emprestado pelo Banco de Valparaíso, contribuindo ativamente com as sociedades formadas em Londres. Chile saiu vitorioso na guerra que terminou em 1880, e anexa as ricas províncias salitreiras até a cidade de Arica, última a ser tomada pelo exército. Após discussão, o governo chileno devolve as salitreiras expropriadas aos proprietários de Certificados, mas para North isso se fez com as oficinas Primitiva, Peruana, Ramírez, Bom Retiro, Jazpampa e Virginia. Em 1882 volta à Londres, onde cria um império econômico gigantesco que controla direta ou indiretamente quinze companhias  salitreiras, quatro empresas ferroviárias, a Companhia de Água de Iquique que fornece água de Iquique até Pica, o Banco de Tarapacá e a empresa de distribuição de alimentos e importações de Tarapacá e Antofagasta. No final do século, as companhias inglesas controlam sessenta por cento da indústria de salitre no Chile.

A decadência começou com a Primeira Guerra Mundial. A falta de  fretes dificultou a exportação, que em 1914 sofre uma violenta baixa. Mais tarde, o incremento da demanda com fins bélicos incentivou os laboratórios europeus a investigar a fabricação de nitrato sintético sobre a base de sulfato de amônio, empreendimento em que obtiveram êxito. Em 1917, foram os investigadores alemães que começaram a comercializar este produto. O fim da indústria chilena estava próximo.

Deslocada pelo êxito da investigação européia, a produção chilena, que em 1910 representava sessenta e cinco por cento do consumo de abonos nitrogenados no mundo, caiu precipitadamente até chegar a representar apenas dez por cento em 1930 e tão só três por cento em 1950.

As oficinas salitreiras foram fechando uma a uma, devolvendo ao deserto sua vasta solidão de milhares de anos. As cidades foram abandonadas, apesar dos esforços por evitar que a indústria desaparecesse. Algumas, como Humberstone, agüentaram até o seu fechamento definitivo em 1960, e na atualidade apenas uma, a oficina Maria Elena, continua a sua atividade. Através da aplicação de uma tecnologia de grande mineração desenvolvida em 1924 e conhecida como Sistema Guggenheim, a oficina Maria Elena move um gigantesco volume de caliche que lhe permite funcionar de forma rentável. O alto perco alcançado pelo iodo e a revalorização dos fertilizantes de origem natural, prevêem um novo auge na indústria salitreira chilena, mesmo que jamais se iguale à daqueles anos. Os anos de esplendor do ouro branco.

Humberstone. Uma reflexão sobre o passado

Recorrer ao deserto do Atacama na atualidade é cruzar com a história do salitre. Feitorias desmanteladas, cidades abandonadas, paisagens de terras removidas e gigantescas tortas de ripio se levantando no horizonte estão espalhadas pela paisagem, e em cada cidade importante encontra-se um museu ou coleção de antiguidades dedicados ao mundo do caliche. Entretanto,  quando chegamos aos arredores de Humberstone, durante nossa primeira viagem pelas terras do norte do Chile, algo me disse que aquela seria uma experiência muito especial. Eu já tinha visitado anteriormente outras oficinas abandonadas com os seus edifícios em ruínas, na sua marioria desmantelados de todo o utilizável durante os anos da Segunda Guerra Mundial. Mas Humberstone tinha um ar distinto. Seu abandono tardio em 1960 permitiu que suas ruínas sobrevivessem até os nossos dias num estado de conservação excelente. Convertido num autêntico povo fantasma no meio do deserto, suas ruas e suas  casas pareciam recém abandonadas pelos seus habitantes, como se um perigo iminente estivesse se aproximando do lugar, obrigando-os a fugir precipitadamente. Aquela solidão e aquele silêncio sobressaltado dão à cidade um ambiente de novela de ficção científica.

Caminhamos pelas ruas desertas que ainda conservam as placas com os nomes, na sua maioria dedicados a personagens e feitos heróicos da Guerra do Pacífico: Manuel Blanco Encalada, Eleuterio Ramírez, Manuel Baquedano, Corbeta Esmeralda, Arturo Prat, Tarapacá, Independencia… Deixamos para trás o hospital e a escola pública, e chegamos até a praça principal em torno da qual se concentram os edifícios mais importantes da cidade. À entrada está a igreja, construída em madeira com autêntico pinheiro de Oregón, e a guardería infantil San Mauricio, que foi a primeira a se instalar na província de Iquique. Continuando, encontra-se o magnífico mercado de abastecimento com seu ponto de venda de carne, verduras e peixe, além de muitas lojas pequenas que ofereciam artigos dos mais variados.

O hotel continua dominando o principal lugar da praça com a sua fachada branca. Ainda se pode observar os restos do esplendor do antigo clube social da elite umberstoniana. Entramos no edifício e cruzamos o antigo salão de bilhar e os grandes refeitórios,  até chegar às dependências da cozinha, presididas ainda por um  enorme mole de ferro fundido com seus grandes fogos, seus fornos e sua chaminé. Dentro está a pérgola com sua pista de baile na qual tocava uma orquestra todos os fins de semana e nos dias de festa. Os restos do teto de talo de cana equatoriana ainda se penduram desvencilhados da sua estrutura de arame.

O bar, as habitações dos hóspedes e as dependências de serviço completavam as instalações do hotel, que tinham a sua principal atração na elegante piscina, um imponente complexo desportivo que surpreendia os que chegavam a esse lugar queimados pelo sol. Considerada no seu tempo uma das melhores piscinas de todo o Chile, está construída com chapas de ferro unidas por remendos, e tem um trampolim de três níveis que ainda se conserva em boas condições. A água era obtida do subsolo graças a duas poderosas bombas instaladas debaixo dos graderíos, que a extraíam de uma profundidade de quarenta e um metros.

Já fora do hotel se pode ver, fechando a praça, a biblioteca, a pulpería e o magnífico edifício do teatro, construído na década de trinta, que ainda conserva o cenário, a platéia, o fozo da orquestra e a sala repleta de poltronas, como se o tempo não tivesse passado. Por aqui desfilaram os principais artistas nacionais e estrangeiros. Da Europa chegavam as companhias de óperas e opereta, e não faltaram as pampinas, que colocavam em cena as obras de Salvador Rojas, relatos costumeiros sobre a vida do trabalhador calichero. As projeções cinematográficas também foram freqüentes desde as mesmas épocas do cinema mudo.

Caminhando por fora pudemos visitar primeiro a quadra de basquete, e depois cruzar pelas diversas casas dos trabalhadores, agrupadas por categorias e diferenciadas entre empregados, solteiros e casados, para chegar até o campo de futebol, diante do qual se encontra o quiosque da orquestra, que amenizava as tardes de competição entre as equipes das diferentes oficinas. Um pouco além se encontram a Caixa Nacional Econômica e a administração, um edifício de cor branca rodeado de um longo corredor com balaustrada, onde residia o dono da oficina e seu representante, era daí onde se dirigia a produção e toda a vida da comunidade.

Dali pode ver de longe a grande torta de ripio, e à sua esquerda as ruínas do que foi “A Máquina”, ou seja, a processadora de onde o caliche era transformado em nitrato de sódio.

Todos os anos, em meados de novembro, é celebrado o dia do Salitre, e os pampinos regressam a Humberstone e colocam em marcha “A Máquina”, cuja chaminé volta por algumas horas a jogar fumaça como fazia em tempos passados. Desejosos de recuperar seu passado histórico, essas pessoas do Norte fundaram o chamado Museu Arqueológico Industrial Salitreiras Nebraska, que conta com um Conselho Assessor Cultural, decidido a recuperar as ruínas de Humberstone, Santa Laura, Peña Chica y Keryma, numa tentativa de fazer conhecer o mundo inteiro o modo de vida do trabalhador calichero e sua família durante os anos de auge do ouro branco nesta região.

Quando saímos de Humberstone, um sentimento de tristeza nos acompanhava. Paramos o motor do Nissan Patrol com o qual viajávamos e voltamos a olhar para desfrutar pela última vez do embriagador romantismo que emanava daquelas velhas ruínas industriais abandonadas sob um sol abrasador e, nos dissemos que efetivamente eram o testemunho da tradição e da história de um povo e, que mereciam ser conservadas para o conhecimento das gerações futuras.

Fichas de Salários

Nos primeiros tempos, as empresas calicheras utilizavan um abusivo sistema de remuneração que consistia em pagar não com dinheiro, mas com fichas da mesma empresa, que eram o circulante obrigatório. Cada oficina editava suas próprias fichas que apenas podiam ser trocadas por comida, roupa e outros utensílios dentro da própria oficina e, careciam de poder aquisitivo fora de seus limites. Assim, a empresa se beneficiava por ambas as frentes, controlando a venda do abastecimento, já que os trabalhadores estavam obrigados a comprar deles os artigos de uso diário e às vezes a preços realmente abusivos.

Esse sistema impiedoso de exploração derivou nos primeiros conflitos sociais, que por sua vez desencadearam atrozes medidas de repressão, como as matanças de trabalhadores nas oficinas Ramírez e La Coruña, ou a tristemente famosa matança na escola de Santa María de Iquique, na qual duas mil pessoas, homens, mulheres e crianças, foram mortos pelo exército em 21 de dezembro de 1907.

O número de fichas que se produziram é incalculável, e na atualidade são peças raras que originaram no Chile um grande interesse por colecionar. Uma das melhores e mais completas coleções, formada por duas mil peças, encontra-se no Museu de Salitre da cidade de Iquique.

O mercado de abastecimento

O mercado de abastecimento oferecia aos humbertonianos todo o tipo de artigos e utensílios. Entre suas lojas se encontravam a oficina de fotografia de Paulo, que posteriormente se converteu em farmácia, a sapataria do Sr. Humberto Diomedi, a loja de quinquilharias de Dona Victoria Bustamante, conhecida por todos como Dona Toya, a sorveteria Saavedra, a loja da Sra. Blanca Varas, a livraria de Armando Duarte, a oficina de costura, a chapelaria, e o salão de beleza japonês de Manuel Etisidaki.

No interior do edifício está o pátio onde se encontravam os departamentos de alimentação: as verduras, a peixaria, o açougue, ou o posto de carvão. Dentre todos eles destacava-se o armazém de Juan Chang, apelidado de Chino Chalupa, a quem todos conheciam pela sua modalidade de venda “por peso”, na qual usava as suas mãos como balança e nunca se enganava.

No centro do pátio existe uma pia que servia para lavar as frutas e verduras, e duas grandes prateleiras utilizadas pelos clientes para apoiar a bolsa da compra. O edifício tem no seu topo uma torre de madeira que há tempos alojou um relógio e um equipamento de alto-falantes que entretinha com música as pessoas que passeavam na praça.

Juan Adrada

A vocação nossa de cada dia (IV) –

SOBRE O ÊXITO

Continuaremos tratando da Vocação, este tema já comentado nos artigos dos números anteriores da nossa revista Esfinge. Do ponto de vista da vocação, o êxito não é uma questão aleatória, o que pode ser demonstrado através de algumas premissas básicas:

1ª.) O êxito não depende de que tenhamos recebido inteligência ou dons especiais, também não depende de uma educação esmerada ou de uma posição social, de ter trabalhado duro, e menos ainda da sorte.

2ª.) A diferença entre êxito e fracasso não é tão grande quanto parece.

3ª.) O êxito é questão de compreender e praticar religiosamente certos hábitos específicos e simples, ditados pelo senso comum. E entender que para alcançá-lo devemos dar uma série de passos que paulatinamente nos conduzirão até ele.

Uma vida de êxito é a soma de muitos anos de êxito, os anos de êxito são a soma de meses de êxito, de semanas, de dias, de horas, enfim, de momentos de êxito. O que vale não é uma vitória ocasional, mas os pequenos triunfos consecutivos, o que em definitivo nos levará a desfrutar de uma vida de êxito.

Todos obtemos resultados, mas o importante é que sejam positivos.

Existem dez hábitos, muito fáceis, mas importantes, que necessariamente se devem adquirir e cultivar para alcançar êxito na vida:

1. O hábito da realidade: devemos aprender nos posicionar de acordo com aquilo que é e com aquilo somos, não com o que gostaríamos que fosse nem com o que gostaríamos ser.

2. O hábito da atitude mental positiva: devemos saber o que queremos e ter uma fé inquebrantável na vitória final. Para isso, devemos saber que existem quatro realidades básicas:

¨      Os problemas são parte da vida. Eles correspondem aos passos que devemos dar para desenvolver o nosso cominho, que nos permite triunfar.

¨      Lei de equilíbrio. Cada fracasso espalha as sementes de um triunfo equivalente. Tudo leva consigo seu contrário, que o equilibra e harmoniza.

¨      Lei das porcentagens. Para que apareça a compensação é só questão de tempo. Na acumulação de intentos está o segredo para finalmente chegar ao triunfo. Portanto, deve-se saber esperar, pois mais cedo ou mais tarde chegará o percentual de possibilidades que nos pertencem para conseguir o que procuramos.

¨      O poder da mente. Para triunfar, temos que nos imaginar triunfantes. Triunfante não é quem sempre vence, mas quem tem sempre mentalidade positiva. A mente é um paradigma expansivo, e quando a usamos de forma correta ela nos traz todas as ferramentas que colaboraram sem dúvida para encontrar as soluções dos problemas.

3. O hábito da perspectiva: é a capacidade para contemplar as coisas em seu relativo nível de importância, ou seja, ficar um pouco acima, olhar os problemas de uma certa distância. Este hábito inclui um método para resolução de conflitos:

¨      não fugir jamais de um problema;

¨      reconhecer o problema;

¨      aceitá-lo;

¨      integrá-lo a nossa vida;

¨      desenvolver uma tática para a solução;

¨      solucioná-lo de forma global.

4. O hábito de viver o presente: é a capacidade de ter objetivos imediatos, cotidianos. Temos de ser capazes de ver o conjunto da nossa vida, o que é importante, o que realmente queremos fazer, e ser capazes de trazê-lo ao nosso dia-a-dia.

5. O hábito de viver o que cremos: ser morais, coerentes entre o nosso comportamento e aquilo em que acreditamos. Ser capazes de sonhar e lutar para conquistar nossos sonhos.

6. O hábito de nos relacionar com os demais: o importante neste ponto é conseguir a cooperação de todos, e para isso existem regras:

¨      dar sempre mais do que esperamos receber;

¨      merecer o respeito dos demais sem procurá-lo;

¨      ser muito claros em nossas comunicações;

¨      não falar dos nossos problemas com os demais;

¨      cumprir todos os nossos compromissos

¨      agir com tato;

¨      reconhecer quem faz algo bom.

7. O hábito da simplicidade: de todos os caminhos que encontrarmos para solucionar um problema, devemos escolher o mais acessível, o mais simples de se fazer.

8. O hábito de procurar pessoas adequadas: é fundamental selecionar bem as pessoas com quem trabalhamos e não aceitar trabalhar com pessoas que tiram tempo, energia, paz ou dinheiro.

9. O hábito da autodisciplina: é a capacidade de nos concentrarmos na hora de fazer um trabalho, ou seja, não divagar nem ter em mente outros assuntos, ou o que faremos depois. Enfim, sermos em todo momento os donos de nós mesmos e controlar o nosso próprio destino.

10. O hábito da ação: deixei este hábito por último porque é o mais importante de todos. O conhecimento é inútil sem ação. Isso parece óbvio, porém estamos limitados por uma série de barreiras que dificultam agir e que nos freiam. Essas barreiras são basicamente:

¨      resistência a mudanças;

¨      tendência de esperar que aconteça alguma coisa que nos resolva o problema;

¨      sentirmo-nos abalados;

¨      esperar ter tudo na mão antes de começar qualquer empreendimento;

¨      a dúvida;

¨      a adversidade que não desejamos.

Finalmente, para alcançar o êxito, é importante nos convencermos de que deixar de agir constitui o maior de todos os perigos. Se não tomarmos a iniciativa, os acontecimentos controlar-nos-ão. Devemos escolher nossa forma de vida. Não podemos esquecer que a lei natural de equilíbrio diz que quanto mais tempo se trabalha para conseguir algo, maior significado representa a sua conquista, e que cada fracasso, num processo de eliminação, nos aproxima mais um passo do êxito.

O conhecimento como uma forma de combater o excesso de informação

Por Leonardo Santelices  A

A busca e o armazenamento da informação

No transcurso da história sempre se procurou contar com suficiente informação para o desempenho de todo tipo de atividade. A engenhosidade do homem tem criado diferentes formas de recopilar e compartilhar as informações como parte fundamental do acervo cultural humano. Nesse tema a linguagem escrita tem sido um protagonista principal.

Em muitas culturas encontramos inscrições em pedra com símbolos ou sinais que expressam uma linguagem, no entanto também se procuraram sistemas que permitissem uma difusão mais rápida e eficiente da linguagem escrita.

Na Mesopotâmia se escrevia com símbolos em forma de cunhas, logo foi chamada de escrita cuneiforme, eles a escreviam principalmente em placas de barro que uma vez cozidas num forno se transformavam em documentos perduráveis, as vezes gravando um cilindro com a escritura que podia ser reproduzida em muitas placas.

A fabricação de papel começou muito cedo na China e foi feito com diversos materiais. Famosas são essas formas especiais de material para escrever que os egípcios possuíam a partir da polpa do papiro da qual tomaram esse nome. O couro de ovelha, terneiros e cabras sem curtir, era utilizado desde 1.500 a.C. no mundo greco-romano, onde a cidade de Pérgamo fabricava um de excepcional qualidade, dando origem ao nome pergaminho.

Na América Central era utilizado um papel feito de fibras vegetais como o amate e o maguey, também em lenços de algodão e em peles curtidas de cervo e jaguar.

A mentalidade que levou a dirigir a capacidade engenhosa e os recursos a mecanização e que vai desembocar na assim chamada revolução industrial, também alcançou a escrita.

Em 1714 o engenheiro inglês Henry Mill patenteou a primeira máquina de escrever com a descrição: “método artificial destinado a impressão ou transcrição de letras, de maneira individual ou progressiva, uma depois da outra, como a escrita manual…tão nítida e exata que não se diferencia da letra de uma impressora”. A primeira máquina produzida industrialmente foi fabricada em 1873 por Remington & Sons em Llion, Nova York.

O salto tecnológico do Século XX

O grande salto aconteceu no Século XX, onde desde 1925 começaram a se utilizar as máquinas de escrever elétricas. Ao mesmo tempo iniciou-se o desenvolvimento de outra tecnologia, a eletrônica, que mudou completamente o panorama do armazenamento e difusão da informação.

No começo do Século XX apareceram os tubos de vácuo, primeiros avanços na eletrônica. Em 1948, John Bardeen, William Shockley e Walter Brattain inventaram um novo dispositivo que tinha como propriedade mudar a resistência com a passagem da corrente elétrica entre o emissor e o receptor; era um transferidor e resistor, conhecido pela sua contração transistor.

Em 1959 um engenheiro da Texas Instruments, Jack St. Clair Kilby desenvolveu o primeiro circuito integrado ao juntar 6 transistores em uma mesma base semicondutora. No ano 2000, ele recebeu o prêmio Nobel de Física devido à sua grande contribuição à tecnologia da informação. Destes SSI (Small Scale Integration) chegamos até os ULSI (Ultra Large Scale Integration) que contém mais de 100.000 componentes.

Os circuitos integrados deram origem aos microprocessadores que constituem a Unidade Central de Processo, mais conhecido pela sua sigla em inglês CPU dos computadores.

Esses avanços tecnológicos produziram um incremento exponencial da capacidade de armazenar e processar a informação.

Assim como a mentalidade de mecanização acabou provocando a Revolução Industrial, na década de 60 começou a surgir a idéia de trabalhar em rede. Em 1962, J.C.R. Licklider propôs o conceito de uma rede interconectada globalmente através da qual cada um pudesse acessar desde qualquer lugar dados e programas. Desta idéia, que a princípio foi aplicada na DARPA (Defence Advanced Research Projects Agency), vai surgir a internet que nos anos 90 provocará uma nova revolução que disponibilizará aos usuários do mundo inteiro quantidades cada vez maiores de informações, alcançando níveis nunca antes vistos nem mesmo nos grandes centros de documentação, além de uma velocidade de busca igualmente imensa.

Quantidade nem sempre é qualidade

Um problema nesse excesso de informação é que contar com uma quantidade imensa de informação não garante que essa informação seja confiável.

A tecnologia tem caminhado com passos acelerados e seu impacto tem sido tremendo na sociedade, no entanto as pessoas não modificaram sua mentalidade com a mesma velocidade como para se adaptar a essa nova realidade.

Vejamos alguns exemplos que servem como amostras deste problema.

A televisão exerce um poder de autoridade sobre as pessoas e, mesmo quando se tratam de pessoas regularmente bem informadas, que sabem que tudo o que aparece na televisão passa por um trabalho de edição e montagem, mesmo em se tratando de transmissões ao vivo, mesmo assim, acredita-se que aquilo que aparece na TV é verdadeiro. “Apareceu na TV” torna as coisas mais reais do que aquelas que simplesmente não apareceram na TV, porque foram assistidas por um maior número de pessoas. No fim já não interessa se é ou não verdade, o importante é que apareceu na TV, e isto é sabido e utilizado por todos os manipuladores.

Na desmedida quantidade de informação disponível na internet, não sabemos se verdadeira ou não, aquilo que antes era fofoca ou mexerico de uns poucos imorais, hoje está disponível para todos nesse imenso mar da Rede.

Hoje se considera um dos grandes avanços sociais viver numa sociedade livre e democrática onde a voz e opinião dos cidadãos têm peso, na medida em que é canalizada através de sistemas de participação cidadã. No entanto, no que se baseia a opinião desses cidadãos? Principalmente na informação que tem recebido, que é o que vai compondo sua visão do mundo. Antes a principal fonte de informação era aquela recebida em escolas, colégios e em casa. Hoje a maior parte da informação chega através dos meios de comunicação. Portanto a chave está em controlar os meios de informação e isso também tem sido compreendido por aqueles que manipulam a sociedade.

A fonte de informação política e social mais utilizada na atualidade são os telejornais onde supõe-se que em uns poucos minutos, o telespectador ficará informado daquilo que acontece no mundo. São difundidas em grande velocidade imagens selecionadas, acompanhadas por leituras feitas por apresentadores que recém chegaram à redação.

Esta é uma técnica de manipulação conhecida há muitas décadas, a maior velocidade no áudio e no vídeo impede que o espectador possa pensar e assim torna-se mais facilmente manipulado. Muitas imagens, muitos temas tratados superficial e desordenadamente, conseguem que o espectador fique farto de informações, emocionalmente chocado e, no entanto, na melhor das hipóteses, com uma compreensão muito básica do que está acontecendo de fato.

O excesso de informação, uma nova forma de contaminação

O neurologista russo Levon Badalian (929-1994), que se dedicou principalmente à neurologia infantil, avisava sobre o dano que o excesso de informação provoca no desenvolvimento neurológico e cerebral das crianças, sendo esta a causa de muitos problemas de aprendizado.

O psicólogo britânico Davis Lewis criou o termo Information Fatigue Syndrome (IFS) – síndrome da fadiga por excesso de informação. Este termo é utilizado para caracterizar o elevado nível de stress daqueles que tentam, a qualquer custo, assimilar a torrente de informação que chega até eles através da televisão, telefones celulares, jornais, livros, fax e acima de tudo, pela internet. O IFS caracteriza-se por um estado psicológico de hiperexcitação e ansiedade quando a pessoa se vê diante de um amplo mar de informações, contando com literalmente milhões de páginas. Ao mesmo tempo, isso provoca medo e insegurança pelo fato de não se poder administrar essa imensa quantidade de informações. Em muitos casos isso leva a uma parada da capacidade analítica, podendo levar o sujeito a tomar decisões imprudentes e conclusões distorcidas.

Essa nova forma de intoxicação tem sido chamada de infoxicação.

A infoxicação é o que uma pessoa tem quando a informação que a rodeia – ou aquilo que deveria saber, supera sua capacidade de assimilação.

Ainda que nem todos tenham acesso a todos os meios disponíveis, todos têm experimentado um crescimento em forma geométrica da quantidade de dados em relação ao que possuíam há alguns anos. Mas a pergunta fundamental diante dessa avalanche é se com todo esse crescimento de dados tem crescido também o nosso conhecimento?

O fato de contar com mais dados, ter informação diária, estar conectado em forma permanente, não significa necessariamente que se conhece mais ou que se compreende mais aquilo que acontece.

Dados, informação e inteligência

É preciso assinalar que os dados são a matéria prima da informação, são as cifras, a quantidade, a anedota, o acontecido. Mas em nome de uma busca pela objetividade  temos nos abarrotado de dados, o que hoje se escuta como notícias são geralmente dados, aconteceu isto ou aquilo, e se supõe que, se nos são mostradas imagens, fotografias ou filmes, estamos vendo a realidade E nos esquecemos de que a câmera não capta tudo, mas sim apenas aquilo que quem a usa quer captar (e ainda por cima essas breves tomadas são editadas). Dados são datas, lugares, nomes. O que temos na realidade não é um excesso de informação, mas sim um excesso de dados.

Informação é a capacidade de responder perguntas que expliquem os dados, porquê aconteceu aquilo, qual o motivo das cifras subirem ou descerem… a informação requer, necessariamente, o exercício do pensamento. Uma seqüência rápida de imagens, sons e locução, podem resultar impressionantes para persuadir um consumidor ou leitor, como já advertia Vance Packard no fim dos anos 50, mas não permite produzir o processo reflexivo que leva a compreender o porquê dos acontecimentos. Os dados dizem o que estão dizendo, mas a informação é compreender o que acontece.

A inteligência consiste principalmente na capacidade de discernir, saber o que é uma coisa e o que é outra (e a diferença entre as duas). Isto pode parecer simples quando se tratam de objetos, mas conhecimento não é saber que uma xícara é diferente de uma árvore, conhecimento é aquilo que nos permite atuar, fazer e ser. E para conseguir esse conhecimento precisamos do discernimento, saber o que é, por exemplo, o correto e saber diferenciá-lo daquilo que não é. Isto significa princípios e critérios.

Os dados são a matéria-prima para que em base a um processo pensante consigamos obter informação e saber o que está acontecendo, mas é a inteligência que produz conhecimento.

O oceano de dados que recebemos diariamente, e que temos acesso, só pode ser útil na medida em que possamos processar como informação. Não basta saber que algo aconteceu, é necessário saber por que aconteceu, em que ambiente e contexto aconteceu, só então estaremos informados, antes disso estaremos apenas chocados e às vezes saturados de tantos impactos.

Para que a informação seja algo útil, é necessário transformá-la em conhecimento, aplicar o discernimento, avaliar de acordo a um bom critério, contrastá-la com princípios fundamentais para saber sua validade.

O excesso de dados se transforma em uma intoxicação quando não pode ser digerido. Para lograr esta assimilação é preciso pensar sobre esses dados, compreender os processos e não ficarmos a mercê apenas do impacto causado.

É importante compreender o que acontece, mas isso só não basta. É preciso saber como atuar, compreender não apenas o que está acontecendo, mas também em que direção se dirigem esses processos e encontrar a criatividade necessária para resolver os desafios ao final. O conhecimento verdadeiramente estratégico é um produto da inteligência,

Utilizar os dados para obter deles informação é responder às naturais perguntas; obter um conhecimento de prospecção que permita adiantar-se aos fatos; compreender o sentido das coisas; desenvolver a criatividade; tudo isso é questionar-se, é fazer filosofia.

Fazer filosofia é descobrir o filósofo que todos temos no nosso interior, é desenvolver nossas potencialidades latentes, é nos surpreender diante da vida e do mundo, é procurar a sabedoria sem sectarismos. Isto é filosofia à maneira clássica, que é o melhor remédio para sair da intoxicação pelo excesso de dados e evita cair nas garras da manipulação.

Florentino Ameghino: um paradigma de cientista e investigador

Por Leonardo Santelices  A

Nosso planeta, a Terra, tem uma história formada por todos os acontecimentos de sua vida. Assim como por sua magnitude a Terra é imensa para nós  humanos, o são também as etapas de sua história, que não se contam em anos, mas em milhões de anos.

Essas etapas da história geológica têm deixado pegadas na superfície da Terra, onde podemos encontrar desde as grandes rugas que formam as cordilheiras até os amplos sulcos dos mares. Na Terra há pegadas da água, dos ventos e dos diferentes movimentos que causam suas forças internas, e todo este conglomerado de atividades, que geralmente não chegamos a compreender em conjunto, forma o cenário no qual os diferentes seres vivos que habitamos a Terra nos desenvolvemos.

Também todos os corpos de minerais, vegetais, animais e humanos são feitos de terra; suas formas foram se modificando ao longo do tempo, deixando em seus restos as amostras deste processo evolutivo. Essa dinâmica representa as pegadas que a Terra guarda. Já no século XII o filósofo chinês Chu Hsu dizia:

…sobre altas montanhas vi conchas. Às vezes estão dentro das rochas. As rochas devem ter sido matéria terrosa nos tempos antigos e as conchas devem ter vivido na água. Estes lugares baixos se elevaram e a matéria branda se converteu em pedra dura… citado por M.J. Borrero

O estudo dessas pegadas será a grande paixão do cientista argentino Florentino Ameghino.

Há versões que falam de seu nascimento em Moneglia, província de Gênova, mas ele declara que nasceu no povoado de Luján, província de Buenos Aires e lugar de peregrinação mariana, a uns 70 quilômetros da Capital Federal, em 18 de Setembro de 1854. Seus pais eram genoveses, Antonio Ameghino e María Dina Armanino.

Realizou os estudos primários em sua cidade natal entre 1860 e 1867, e ali teve como preceptor don Carlos D’Aste, que o levaria em 1867 a Buenos Aires para a Escola Normal. De 1867 a 1869 foi estudante na primeira Escola Normal de Buenos Aires, tendo estudado Burmeister e Lyell, encontrando ali sua vocação.

Nesse último ano obteve um posto de professor no colégio Municipal de Mercedes, declarada como cidade em 1865 e que logo seria conhecida como a Pérola do Oeste. Em 1877 passou à direção deste estabelecimento.

Foi durante sua residência em Mercedes que (em suas próprias palavras): “empreendi o estudo dos terrenos do Pampa fazendo numerosas coleções de fósseis e investigações geológicas e paleontológicas que demostraram a existência do homem fóssil na Argentina”.

O historiador da ciência José Babini disse: “Em 1875 faz conhecer suas primeiras espécies novas, enquanto que nesse ano e no seguinte se apresenta nos concursos-exposições organizados pela Sociedade Científica com “sete caixas de fósseis” e uma memória sobre o quaternário, respectivamente. Mas a preocupação dos homens da Sociedade Científica de então era o progresso material do país e o aproveitamento de suas matérias- primas; e não os fósseis ou as discussões sobre o quaternário. O fato é que seus fósseis mereceram a última das quatorze menções honoríficas (as medalhas de ouro foram reservadas para um construtor de uma máquina a vapor e para um fabricante de mármores artificiais)”.

Com 23 anos, no começo de 1878, mudou-se para a Europa. Em Paris seguiu os cursos regulares da Escola de Antropologia e de Museu, ali se relacionando com notáveis personalidades científicas, como Owen, Cope, Gaudry, Paul e Henri Gervais, com quem recorreu as jazidas de Chelles. Ambos publicaram várias notas sobre os mesmos, além de “Os mamíferos fósseis da América do Sul” (1880), com texto duplo, em espanhol e francês, e a descrição de mais de 300 espécies, sendo 70 delas novas.

Regressou a Buenos Aires no final de 1881, casado com uma dama francesa, Leontina Poirier, e como já havia esgotado sua verba, abriu uma pequena livraria de um nome sugestivo, a livraria do Glyptodón, que lhe permitia viver. Sobre esse então jovem cientista, Domingo Faustino Sarmiento, escreveu-se: “Um paisano de Mercedes, Florentino Ameghino, que ninguém conhece e é o único sábio argentino, segundo o sentido especial dado à classificação que reconhece a Europa”.

Nesta época escreve sua grande obra, Filogenia, e no prólogo Ameghino explica o seu sentido:

“À medida que enriquecia minha coleção de fósseis de mamíferos pampeanos e me familiarizava com as numerosas formas que apresentam, columbraba entre elas, as que precederam e as sucederam, laços de parentesco, que se manifestam à minha vista, em séries graduadas de modificações que pareciam obedecer a um plano preconcebido em um primeiro impulso que lhes imprimira direção. Esta lei evolutiva se apresentava a mim tão constante em seus efeitos e resultados, que entrevi a possibilidade de restaurar uma fauna perdida, conhecendo tão somente um pequeno número de seus representantes”.

É uma obra imensa para um jovem que ainda não havia chegado aos 30 anos e que nos mostra, além da precocidade, da que sempre fez gala, a ousadia de sua atividade científica. No mesmo prólogo ele explica:

“Não tenho a autoridade de um Cuvier para impor minhas convicções, e tampouco tenho a celebridade bem merecida de um Owen ou de um Darwin, para temer que um fracasso real ou aparente de meu trabalho possa menosprezar minha reputação científica, até agora nula. Represento um ponto da imensa planície em que sobressaem esses picos elevados do saber humano e me elevei gradualmente com o nível geral da planície. Não é para esses picos que escrevo: me dirijo à planície; e se os primeiros podem fulminar sobre mim suas anatemas, da segunda nada tenho que temer, pois dela saí e a ela voltarei”.

Mais adiante, no mesmo prólogo, indica o propósito ao qual vai dedicar sua vida:

“Outra consideração determina meu atrevimento. Não direi que estou num bom caminho, porque a falibilidade é atributo humano; mas creio estar; e como ainda sou bastante jovem, suponho que se as leis da natureza se cumprem, ainda me sobram muitos anos para levantar bem alto o estandarte das idéias das quais me faço apóstolo e para fazê-las triunfar”.

Por esta obra, em 1884 será nomeado professor de zoologia da Universidade de Córdoba. Se muda para essa cidade e aproveita para estudar geologia e paleontologia da zona.

Em 1886 é nomeado Subdiretor do Museu da Plata, encarregando-se da seção de paleontologia e contribuindo com suas coleções ao Museu, mas por discrepâncias com seu Diretor renuncia em janeiro de 1888.

Permanece em La Plata e continua com seu trabalho científico. Em suas próprias palavras: “Em 1889 enviou uma expedição a Patagonia, a cargo de seu irmão Carlos, com o objetivo de explorar o território e reunir coleções científicas para seus estudos, custeando-a do seu bolso durante quinze anos”.

O gasto desta expedição leva-o a abrir em 1891 outra Livraria, desta vez em La Plata e com o nome Rivadavia, que o mesmo atende até abril de 1902, quando é nomeado Diretor do Museu Nacional de Buenos Aires, cargo que detém até sua morte em 1911.

As obras científicas de Ameghino são numerosas, somam umas 20.000 páginas. “Por um lado está o trabalho descritivo do geólogo e sobretudo do paleontólogo, de valor perene e indestrutível. Quase oitenta por cento das espécies de mamíferos fósseis descritas na obra de 1884 são descobrimentos seus. Com o trabalho dos dois, Ameghino e a de Hermann von Ihering, fundador e diretor do Museu paulista, com o qual esteve vinculado Ameghino e a quem confiou o estudo dos invertebrados fósseis de suas ricas coleções, a paleontologia argentina realizou progressos extraordinários e fundamentais”. José Babini “História da Ciência na Argentina”.

Mas Ameghino não foi apenas foi um geólogo e paleontólogo incansável na busca pelas pegadas que a terra guardou em forma de fósseis, senão que também, e a partir delas, elaborou valentes e inovadoras teorias: “…a tese que Ameghino sustentou e por cujo estabelecimento lutou toda a sua vida consiste em supor uma origem americana para o homem e que o território argentino, ou algum outro próximo a ele, foi a berço de nossa espécie, de maneira que as migrações humanas que povoaram os demais continentes tiraram deste solo, passando por pontes hoje inexistentes”.  José Babini

Em tempos mais recentes comprovaram-se vários erros nas teorias de Ameghino,  pois certos estratos não eram tão antigos como ele pensou e que o grau de parentesco que ele pensava existir entre a fauna sulamericana e a de outros continentes não era real. Entretanto, isso não compromete o tremendo impulso de investigação e busca pela verdade que Florentino Ameghino desenvolveu durante toda a sua vida, vencendo dificuldades e obstáculos, e por isso continua sendo um paradigma científico.

“Foi um sábio autêntico. Pelo valor de suas investigações científicas, por sua fé em uma teoria revolucionária para sua época (a da evolução) que previu duradoura e fecunda, pela audácia e o vôo de suas doutrinas, e por sua adesão vital, de corpo e alma, à ciência. Foi o protótipo do sábio dedicado exclusivamente aos estudos e preocupações científicas, e por isso vítima das aparentes contradições que essa adesão representa”. José Babini

“A obra científica deste homem, extraordinário naturalista, investigador, pensador e filósofo, se distribuiu em cerca de duzentos trabalhos impressos, e aos poucos ele foi invadindo o mundo científico durante trinta e oito anos trabalho constante, sem interrupções, apesar de todos os contrastes próprios de uma vida de luta incessante para derrubar obstáculos e destruir prejuízos acumulados no mundo científico pelo imperfeito conhecimento dos fatos ou observação rápida das coisas”. Extrato do discurso pronunciado por Juan Ambrosetti por motivo do falecimento de Florentino Amheghino em La Plata no dia 7 de Agosto de 1911.

Em tempos de crônica vermelha e imprensa amarela, é necessário recordar aqueles personagens que dedicaram sua vida a causas que os transcenderam, pois eles são os que deixaram o cimento no qual hoje nos apoiamos.

Na visão ampla que abarcou diversos âmbitos, na firmeza do estudioso autodidata, no valor de expor suas conclusões ainda que não fossem populares, encontramos em Florentino Ameghino um exemplo para as novas gerações que buscam esquadrinhar os mistérios da Natureza e suas leis.

Viver saudável – O sistema endócrino

Muitas das funções do organismo, especialmente as metabólicas e as do crescimento, são reguladas por uma série de substâncias químicas, chamadas hormônios, produzidas ou segregadas por órgãos especiais chamados glândulas endócrinas. Essas glândulas lançam os hormônios na corrente circulatória, daí seu nome de endócrinas, distinguindo-as de outras glândulas, exócrinas, que lançam seus produtos ao exterior, como as glândulas sudoríparas da pele ou as salivares. A maioria das glândulas endócrinas é regulada pela hipófise, que por sua vez é regulada pelo hipotálamo. Esse sistema de controle é tão fino que as distintas enfermidades endócrinas são produzidas por pequenas variações nos níveis de atividade das glândulas, por hiperfunção (excesso de atividade) ou hipofunção (atividade insuficiente).

O hipotálamo é uma estrutura muito importante do cérebro que se encarrega da homeostase interna, quer dizer, da manutenção de uma série de parâmetros mais ou menos constantes no interior do organismo. Por exemplo, participa na regulação da temperatura corporal, na regulação do equilíbrio hídrico, no equilíbrio energético, na regulação da pressão sangüínea, no ritmo cardíaco, na atividade gastro-intestinal, nos ciclos de fertilidade sexual e em manifestações relacionadas à conduta. O hipotálamo está conectado à hipófise por um feixe nervoso e a regula por meio de seis hormônios, chamados liberadores, e outros três, chamados inibidores.

A hipófise (ou glândula pituitária) tem o tamanho de um caroço de cereja e está situada na face inferior do cérebro, abaixo do hipotálamo e no interior da chamada sela túrcica, estrutura óssea que corresponde à parte central do osso esfenóide. Tem duas partes bem diferenciadas, o lóbulo anterior e o posterior. No lóbulo anterior, ou adenohipófise, se produz uma série de hormônios estimuladores ou ativadores do resto das glândulas endócrinas. Temos (1) a ACTH ou hormônio estimulante do córtex suprarrenal; (2) o TSH, que estimula a glândula tiróide; (3) o STH ou hormônio do crescimento, que favorece o crescimento geral mediante o estímulo da síntese de proteínas e mediante a diferenciação e reprodução celulares; (4) o hormônio estimulante dos melanócitos, que preside a pigmentação da pele e outros órgãos; e (5) os hormônios gonadotróficos, FSH e LH, que estimulam os ovários ou testículos para que completem o desenvolvimento dos óvulos e espermatozóides e para que segreguem estrogênio ou androgênio, respectivamente.

No lóbulo posterior ou neurohipófise se produz (6) a ocitocina, que favorece as contrações do útero no momento do parto e participa, junto da prolactina, no processo de lactação, e (7) o hormônio antidiurético (ADH) ou vasopresina, cuja missão é regular o metabolismo da água, para o que incrementa a reabsorção de água nos túbulos dos néfrons do rim. Assim se origina uma urina mais concentrada e aparece a sensação de sede.

Além da hipófise, o sistema endócrino é integrado pelas seguintes glândulas:

- A tiróide, situada no pescoço, diante da laringe, que segrega os hormônios tiroxina e triodotironina, que aumentam o consumo de oxigênio e estimulam a taxa de atividade metabólica, regulam o crescimento e a maturação dos tecidos do organismo e atuam sobre o estado de alerta físico e mental. Estes hormônios contêm iodo, por isso, quando a dieta não aporta a quantidade necessária, a tiróide cresce desmedidamente e forma o que se conhece como bócio.

- Junto à tiróide se situam quatro pequenas glândulas, as paratiróides, encarregadas de regular o metabolismo mineral do organismo através do hormônio paratiroideo, especialmente o cálcio e o fósforo.

- O pâncreas tem duas estruturas distintas: a exócrina, anexa ao aparelho digestivo, produtora de enzimas que se vertem no duodeno e ajudam na digestão, e a endócrina, situada nas ilhotas pancreáticas, que produzem insulina e glucagon. Ambos hormônios regulam o metabolismo dos hidratos de carbono.

- Nas glândulas suprarrenais colocadas sobre o rim como um gorro frígio, observam-se duas partes bem definidas, a medula e o córtex. A medula suprarrenal segrega adrenalina, hormônio que regula o tônus dos vasos sangüíneos. O córtex suprarrenal segrega múltiplos hormônios e derivados hormonais, todos eles mais ou menos relacionados com a cortisona, atuando em duas frentes: sobre os hidratos de carbono, com os hormônios glucocorticóides, que têm também um efeito protetor das reações alérgicas e inflamatórias, e sobre o metabolismo mineral, com os hormônios mineralcorticóides.

- As gônadas, ovários e testículos segregam respectivamente hormônios femininos (estrogênio e progesterona) ou masculinos (testosterona), que produzem os chamados caracteres sexuais secundários, quer dizer, no homem a voz grave, os pelos no corpo, a barba e a complexão robusta, na mulher o desenvolvimento dos seios, a pélvis larga, a abundância de tecido adiposo, a laringe menor e o menor tamanho corporal.

Isabel Pérez Arellano

Principais Personagens da Historia – Platão e a sabedoria atemporal

Raúl Estañol

Se não tivesses criado, oh pai Febo, a Platão na Grécia, quem teria curado com as palavras as maldades e as doenças dos homens?

Assim como Esculápio tratava das doenças do corpo, Platão curava as doenças das almas imortais. (Atribuído a Diógenes Laércio)

Para muitos Platão é considerado o filósofo mais criativo e influente da Filosofia ocidental, tanto é, que há mais de 2400 anos suas idéias continuam válidas. De nenhum outro filósofo da antiguidade se conhece tantas obras escritas e que trata praticamente de todos os temas: sobre a natureza do homem; sobre a alma; sobre a ciência; sobre a Atlântida; sobre a justiça; sobre a verdade. Suas obras foram traduzidas para todos os idiomas.

Chamava-se Aristocles, embora desde jovem o chamavam de Platão, talvez por suas costas largas, ou por sua ampla testa, ou por sua grande eloqüência. Nasceu no ano de 427 a.C em Egina ou em Atenas e pertencia a uma família da nobreza ateniense.

Segundo Diógenes, desde jovem gostava de poesia, lia Homero e Hesíodo, sabendo suas poesias de cor. Também se exercitava fisicamente. Sua educação foi extensa, provavelmente recebeu aulas de Crátilo, discípulo de Heráclito e de Hermógenes da escola de Parmênides.

Com vinte anos, Platão conheceu Sócrates e ficou tão impressionado com seus ensinamentos que imediatamente se tornou seu discípulo. É famoso o episódio que relata o encontro entre os dois: Sócrates teve um sonho, que entre as pessoas que o escutavam conversar na praça aparecia um cisne branco que abria passagem entre eles. Logo no dia seguinte, enquanto Sócrates ensinava na praça, apareceu Platão.

Os poucos anos em que passou como discípulo de Sócrates foram fundamentais na formação do filósofo, recebendo de seu mestre alguns ensinamentos que marcaram sua trajetória posterior. De um lado a virtude do diálogo como método de investigação das almas e das pessoas, e do outro a necessidade da virtude unida ao conhecimento.

Outro aspecto fundamental da filosofia de Platão era o interesse pela política, para que as cidades tivessem um bom governo e pela busca da justiça.

O julgamento injusto e a condenação do seu mestre marcaram fortemente Platão e o maravilhoso fruto dessa experiência é a Apologia de Sócrates.

Platão passou muitos anos longe de Atenas, viajando pelo Mediterrâneo oriental, desde o Egito até a Sicília, completando sua formação e recebendo novos e profundos ensinamentos. Em Siracusa buscou plasmar seus ideais políticos, boa parte aprendidos no Egito, porém suas idéias foram de encontro com o tirano Dionísio I, que as considerava inadequadas e perigosas, de tal forma que Platão acabou preso e vendido como escravo.

Quando recuperou a liberdade, pôde voltar à Atenas, onde fundou a Academia instituição educacional que teve este nome por localizar-se próxima ao templo do herói Akademos. Alguns a consideram a primeira universidade do ocidente, usufruindo uma vida ininterrupta por mais de 900 anos, até que o imperador Justiniano a fechou no ano de 529 d.C..

Aritmética, geometria, astronomia, música e dialética eram alguns dos estudos fundamentais da Academia e na fachada existia uma placa com os dizeres “Ninguém entra aqui sem saber geometria”; de seu seio saíram brilhantes filósofos e matemáticos como Aristóteles, Teeteto, Eudoxo, Jonócrates ou Espensipo, sobrinho de Platão que assumiu a Academia com a morte do mestre (347 a.C.).

O centro de filosofia de Platão é constituído pelas suas teorias, conhecimento e idéias. Para Platão o conhecimento que recebemos através dos sentidos vem do exterior e trata das coisas que mudam, a esse tipo de saber não podemos chamar de conhecimento, mas sim de opinião.

A teoria do conhecimento ficou exposta magistralmente no mito da caverna no livro A República, que mostra pessoas acorrentadas dentro de uma caverna com a face em direção à parede, onde, suas visões estão limitadas pelas sombras. Um dos prisioneiros foge e sai em direção a luz do dia vendo pela primeira vez o mundo real, depois regressa para a caverna com a intenção de libertar seus companheiros. O mundo das sombras simboliza o mundo físico, o mundo das aparências. A fuga para o exterior em direção a luz do sol simboliza a transição para o mundo real, para o mundo do conhecimento.

Tão atual quanto na Grécia de Platão, o mito da caverna nos lembra que devemos buscar a essência das coisas e dos seres, mais além dos enganos superficiais, que devemos olhar para dentro de nós, para nosso interior, tornando real a inscrição do templo de Apolo em Delfos na qual Sócrates se inspirou: “HOMEM conheça-te a ti mesmo.”

Fisionomia – Julián Romea

Julián Romea é o ator mais famoso do teatro espanhol no século XIX. Toda sua performance foi acompanhada de um êxito apoteótico de expressões faciais equilibradas, é um homem concentrado, que permite a expressão de sua vitalidade. É brilhante, nervoso, muitas vezes tenso. Não consegue relaxar e sua mente é muito inquieta, de gênio rápido e grande capacidade de persuadir, ambicioso e astuto, foge da proximidade emocional, mas é muito receptivo.

A fronte indica uma lógica clara e tendência ao sentimentalismo, é criativo, ativo e autoritário com uma abertura para o mundo exterior, de ampla memória e mente concreta, impulsivo e bom observador. Possui amplo domínio do inconsciente. Pela linha do cabelo observa-se uma fascinação metódica em suas ações e prático em suas metas. Muito intuitivo e com tendência à superstição.

As orelhas mostram uma inteligência normal. Há uma violência latente que contrasta com alto grau de espiritualidade. Um pouco imaturo e uma nítida atração para os problemas. Interessado por seu próprio progresso,  pode ser enérgico de coração. A área intuitiva prevalece e com uma forte sensualidade.

Os olhos mostram fantasia, uma certa passividade frente à vida e grande dose de idealismo. De novo aflora a sensualidade e a sagacidade para encarar os problemas. De certa forma é ingênuo e precavido. É nervoso e excitável. Em muitas ocasiões sua mente funciona em um ritmo diferente daqueles que estão ao seu redor. É obstinado, generoso, constante e leal, em certas ocasiões chega a ser insensível. É receptivo e possui um grande magnetismo. O mundo o envolve com grande força. Sua inteligência normal o sublima e alcança chispas de genialidade. É preguiçoso, às vezes lento. Há um certo desanimo em suas reações.

É ciumento e disfarça seus impulsos íntimos, constante em suas decisões, possui um ego bem definido. Boa capacidade de relacionamento. Às vezes despreocupado. É direto, gosta que seus trabalhos se atem aos fatos e caminha para frente, lutando com as fases de desânimo.

No nariz se observa uma afetividade conflitiva, com uma imaginação passional e sempre lutando pelo equilíbrio nervoso. É um homem de bom gosto, firme em suas decisões e com uma avidez oculta pelos prazeres da vida. Hipócrita em muitas ocasiões com tendência ao exagero. Possivelmente gosta de jogar e nem sempre podemos confiar nele.

A boca parcialmente tampada pelo bigode diz pouco. É um homem emotivo, desconfiado, obstinado, astuto, profundo em seus julgamentos. Possui momentos de irritabilidade e em muitas ocasiões, é, ou parece ser insensato.

No queixo volta a aparecer à tenacidade e a energia expressa a necessidade de seduzir.

Assumiu o seu passado e não é dependente dele. O futuro por outro lado o preocupa muito, por isso luta para não perder o que já conquistou e o enfrenta com decisão ativamente.

Pequenos grandes construtores – Expertos em técnicas modernas

Organizados, trabalhadores e socialmente muito evoluídos, estes extraordinários seres nos impressionam com suas engenhosas construções.

“Assopra, assopra…”

Da mesma forma que no conto dos três porquinhos, as aves contam nas suas fileiras com pedreiros, que descobriram que uma casa de tijolos é mais resistente que uma de madeira ou palha.

O representante mais conhecido do grupo é a andorinha, porém nossos céus se povoam de diversas espécies de aves que também recorrem à esta técnica. Existe uma infinidade de espécies relacionadas com os nomes comuns, que pertencem a vários gêneros.

Pássaros oleiros, recolhem o barro pingo a pingo na beirada dos pântanos e riachos, que se misturam com o a sua saliva e que grudam embaixo de algumas saliências rochas ou gretas. Pouco a pouco o ninho adquire sua forma característica de semi-esfera, com uma entrada superior por onde a fêmea entra. No interior do ninho, parecido com um iglu de barro virado, a andorinha elabora um leito de líquen, penas e pêlos, macio onde criará sua ninhada. O normal é que tais aves aninhem-se em colônias, mais ou menos numerosas, que colaboram quando algum outro pássaro tenta se aproveitar da construção para se instalar em tão cômoda e fresca casinha de barro.

Temos visto algumas vezes que quando um intrometido, por exemplo, um pardal penetra no interior do ninho de andorinhas, a colônia inteira ajuda a castigar o invasor, pingo a pingo de barro os pássaros fecham a entrada do ninho, deixando preso no interior do ninho o ousado e atrevido, que ilusoriamente pensou em se apoderar de tão confortável e segura moradia.

Alguns ninhos são tão pequenos que não permitem nem o peso da ave incubadora. Nestes casos o barro se prende na parede ou ramo onde está preso o ninho, com uma parede da grossura de uma folha de papel. Os ovos são tão preciosos que não correm o risco de perdas, em quase todas estas situações utilizam suas saliva para, literalmente, cimentar os ovos no fundo do ninho.

Como curiosidade, os ninhos das andorinhas com os quais os orientais fabricam sua famosa sopa, não são construídos estritamente por andorinhas, também por outras espécies de aves oleiras. Estas aves se aninham em paredes rochosas de grutas e alcantilados de difícil acesso ou quase impossível, onde constroem seus pequenos ninhos com sua saliva densa que adere as rochas e se solidificam, endurecendo-se ao secar.

Em algumas situações esta saliva está misturada com alguns tipos de algas. Para retirar esses ninhos os chineses recorrem aos serviços de acrobatas profissionais.

Um ninho de luxo

Não obstante à capacidade de fabricação das andorinhas, existe um pássaro que as supera em qualidade e quantidade de produção. Nos referimos ao joão-de-barro (Furnarius rufus) da América do Sul.

O ninho é construído no outono e o casal participa na construção. Durante esta época as glândulas salivais destes pássaros se hipertrofiam, aumentando a sua função e usando esta saliva para cimentar os materiais usados. Eles levam com seus bicos a lama ou o barro à qual se misturam raízes e grama seca. Assim vão dando forma ao ninho esférico, semelhante ao forno de um padeiro, do qual deriva seu nome.

Com aproximadamente trinta centímetros de diâmetro essas casas ou alojamentos possuem uma única entrada, pela qual se passa para uma espécie de sala de espera. A continuação é em forma de espiral, um corredor que vai se estreitando para impedir o acesso não desejado e termina no quarto de criação.

Para fixar o local, escolhem geralmente locais visíveis, ramos grossos de árvores, postes e telhados. Embora sejam conservados durante dois ou três anos, em cada estação se constrói um ou dois ninhos novos, algumas vezes um em cima do outro, como um prédio. Os ninhos abandonados são disputados por ratos, pintassilgos, andorinhas e pardais que sem tamanha habilidade, sabem apreciar o bom da vida.

Peritos em energia alternativa

Não estamos acabando com os pássaros, mas sim com extraordinários construtores de ninhos. E que além de conhecimentos específicos de engenharia, arquitetura, alvenaria, aerodinâmica, resistência de materiais, química, adesão e serralheria, há pássaros que entendem de termoquímica e seus ninhos são dignos de se mencionar, não pela estrutura, mas pelas propriedades térmicas.

Dentro dos Galiformes existe uma família, os Megapódidos, que são especialistas em usar fontes de calor alternativo para incubar seus ovos. Distribuídos por toda Austrália, Nova Guiné, Indonésia e Polinésia, são pássaros de grandes, que chegam a cinqüenta centímetros. Todos se caracterizam pela construção de ninhos, onde depositam os ovos a serem incubados, não pelo calor dos progenitores, mas pela fermentação através do calor do sol, inclusive aproveitam o calor residual das atividades vulcânicas. São peritos extraordinários em geotermia.

A espécie que foi mais bem estudada é o Pavão do Mato (Leipoa ocellata), pássaro que habita no mato árido de eucalipto da Austrália.

Muito territorial os machos trabalham no montículo até onze meses por ano, embora a postura se realize na primavera e no verão.

O ninho consiste em uma depressão, que é cheio com material orgânico, sobre o qual se deposita areia e cascalho. A camada de húmus ao apodrecer gera o calor que o pássaro aproveita. Em julho quando a temperatura dentro do montículo chega aos 30° C, o Megapódido retira a camada de areia e cava uma câmara na matéria orgânica em fermentação. Os ovos são depositados de setembro a janeiro, durante vários dias. Só então os ovos são recobertos com cascalho e o macho monta guarda ao redor da sua futura geração.

É louvável a fidelidade destes pássaros para com sua ninhada. Não há acontecimento que o faça abandonar a vigilância do ninho e em intervalos regulares, introduz o bico dentro do montículo como se fosse um termômetro para detectar a temperatura, que deverá ser exatamente de 35° C. Se a temperatura aumenta o Megapodio abre frestas de refrigeração na camada orgânica. No contrário, se a temperatura satisfatória não é alcançada, nosso pássaro acrescenta matéria vegetal ao ninho de forma que a putrefação aumente os graus necessários.

O maleo de Mutum-de-bico-vermelho (Macrocephalon maleo) usa um sistema mais prosaico, mas que não deixa de ser eficaz. Na estação de procriação, abandona a mata úmida, que constitui o seu habitat, e se desloca trinta quilômetros até a praia de areias pretas vulcânicas acima do nível da maré alta. A fêmea escava um buraco para cada ovo que planeja depositar e os cobre com este material escuro. O calor do sol se encarrega de fazer o resto.

O megapodio de Freycinet (Megapodio freycinet) é o campeão deste grupo de construtores. Seus ninhos são os maiores, chegam a alcançar onze metros de diâmetro por cinco metros de altura. Estas enormes acumulações de terra e material vegetal atingem o tamanho de muitas árvores. A temperatura do ninho é regulada ao redor dos 30° a 35° C dependendo do tempo em que foram depositados os ovos.

Um montículo grande pode ser usado por três ou quatro casais, embora só seja usado por um de cada vez. Nesta ocasião, macho e fêmea compartilham as tarefas de elevar esta construção colossal, trabalho que realizam durante o ano todo. Com suas patas e principalmente com os robustos bicos, encarregam-se de manter limpas as imediações do ninho. Em uma ocasião, foi constatado que um macho de 1 quilo de peso, carregava uma pedra de 6,9 quilos. Os montículos são usados durante muitos anos, muitos deles são utilizados como testemunho arqueológico dos incêndios ocorridos, graças às camadas dispostas de carvão nos diferentes extratos.

Ao Amor da Luz

Os Megapodios vivem na Inglaterra e nas Ilhas de Salomon. Colocam seus ovos em grande quantidade no solo aquecido por fenômenos vulcânico. Como há pouco solo  apto, a quantidade dos ninhos é elevadíssima, onde se encontra até um ninho para cada 20 m². As correntes térmicas subterrâneas e os gases vulcânicos provêm os 34° C necessários para incubação.

É uma pena que os cuidados primorosos que estes pássaros proporcionam a seus ovos, não se aplique nos cuidados com sua prole. De fato, logo que nasce, o pintinho de Megapodio tem que cavar a galeria que o levará para fora do ninho, este é o começo da vida totalmente só. Tornam-se jovens precocemente e aprendem a se esconder rapidamente nas matas próximas ao ninho. Sendo um caso verdadeiramente insólito dentro dos pássaros, eles podem voar a poucas horas de seu nascimento.

Estudas ou Desenhas?

Antes de abandonar o fantástico mundo dos pássaros construtores, vamos abordar um último caso que não se destaca nem pela sua estrutura e nem pelo mecanismo de funcionamento do ninho. Nos referimos a alguns pássaros, que merecem ser citados neste artigo como animais especiais simplesmente pelo seu caráter de construção e pelo seu lado artístico.

Os Tilonorrincos são, sem duvida nenhuma, os artistas mais notáveis no mundo dos pássaros. Os machos constroem estruturas elaboradas, decoradas com objetos das mais variadas cores e procedência, frutas, cogumelos, latas, pedaços de plásticos, flores, minerais… Tudo tem espaço nesta área, que só possui a função de acasalar. A fêmea construirá o ninho em um lugar distante e discreto.

Também é conhecido por este empenho paisagístico. Como pássaros jardineiros eles escolhem um terreno, geralmente clarão de um bosque, no centro de espaço montam um tipo de casa com galhos e palhas. Alguns chegam a enfeitar suas casas como se fossem pintores e decoradores profissionais. Recolhem pigmentos naturais (resina, pólen, barro etc…) com isto untam seus espaços de acasalamento com o bico ou com algum galho, utilizando-o como se fosse um pincel, é inacreditável! A mistura feita com terra e cinzas é amassada e espalhada com um pouco de algodão ou liquens. O resto do terreno eles enfeitam com objetos de cores brilhantes, caracóis, flores ou objetos plásticos, isto se estão perto de um centro urbano. NAo lugar convidam fêmeas e outros machos onde fazem reuniões e dançam. Deve se ter muito cuidado com os convidados, não é estranho que alguns machos espertinhos roubem descaradamente alguns objetos que servem para ornamentar seu próprio lugar de acasalamento.

Estudos recentes mostram que esta arte não é instintiva, tem todo um aprendizado. Os Tilonorrincos jovens machos, começam sua experiência com esboços humildes, que pouco a pouco vão melhorando à medida que ganham experiência no trabalho, observando as pérgulas de alguns vizinhos com mais sucesso entre as fêmeas.

Rechonchudos, com pés fortes e bicos pesados de tamanho que vai do estornino ao de um corneja, estes pássaros são muito eficientes na hora de vislumbrar a sua parceira, melhor dizendo parceiras, já que os machos aproveitam todo o tempo possível na fabricação de seus jardins. À maioria são promíscuos, aproveitando todas as ocasiões que lhe são oferecidas para acasalar com todas as fêmeas que conseguirem atrair para seu apartamento de solteiro. Uma vez coberta, o Tilonorrinco não quer saber de mais nada, e a fêmea irá para algum lugar escondido para se encarregar da postura dos ovos, da incubação e cuidará da criação sozinha.

É interessante destacar que os Tilonorrincos mais adúlteros são os mais longevos. Tardam sete anos para adquirir sua coloração de adulto, pelo menos no caso dos Pássaros-caramanchão-cetim (Ptilonorhynchus violaceus). Os ninhos são reaproveitados por quase 50 anos.

Cabelos e Peles

Terminando o nosso rápido estudo sobre o reino das aves, esperamos que tenham se surpreendido. Nos corresponde agora, entrar no não menos complexo mundo dos mamíferos. Não obstante para eles temos pouco espaço, não é por falta de exemplos, mas porque eles são mais conhecidos e se aprofundar no que já é conhecido não é a intenção desse artigo.

Efetivamente os cérebros e os comportamentos dos mamíferos são os mais complexos, aparentemente no mundo animal, por isso não devemos nos enganar. Não há nada que um mamífero faça que não encontre alguma comparação em algum representante de outro grupo.

Engenhoso por Naturaza

Por exemplo, o uso de ferramentas, algo totalmente inconcebível na biologia decimonónica. Foi descoberto primeiro em Chipanzés, e depois em outros representantes dos mamíferos como a lontra marinha. O homem deixou de ser o único a manipular seu meio ambiente para utilizá-lo à sua conveniência. Isto significou um replanejamento forçado, mais uma vez, que é o que realmente nos define como humanos.

Realmente os chipanzés gostam de completar a sua dieta com proteínas animais, na maioria das vezes com cupins. Recentemente foi comprovado que são organizados no grupo de caça com estratégias e ciladas para pequenos animais que normalmente lhe servem de comida, pelos quais ficam enlouquecidos, mas os cupins são mais acessíveis na floresta onde vivem e o esforço para adquirir-los é menor.

Para chegar ao interior do cupinzeiro, os chipanzés, não podem usar os dedos, nem a língua. A solução encontrada foi usar pequenos galhos, não se sabe como nem quando encontraram esta solução, não é a única forma em que os chipanzés (Pan troglodytes e P. paniscus) fabricam e usam ferramentas. Na realidade estes símios empregam muitos outros instrumentos para resolver seus problemas que nenhum outro animal utiliza. Não somente são capazes de imitar condutas humanas, caso comprovado também entre orangotangos, gorilas e alguns macacos, como martelar pequenos pregos, pentear-se e escovar os dentes. Tribos inteiras de chipanzés em liberdades, são capazes com certa freqüência de fabricar utensílios com o que enfrentam as dificuldades do dia a dia. Em geral, os utensílios fabricados por chipanzés selvagens podem ser classificados em três grupos, ramos ou galhos, martelos e esponjas. Embora, os outros animais dos quais falaremos a seguir são capazes de realizar algo semelhante. O chimpanzé difere sensivelmente deles, pois conseguem, de acordo com sua função, fazer objetos que possam ser utilizados, é como se já tivessem uma idéia pré-concebida do tipo de instrumentos ou ferramentas que precisam.

As varinhas são as ferramentas mais usadas, passam por até três modificações em mais de 90% das ocasiões. Variados tipos de comida se obtém com o uso de varinhas, por exemplo, os chipanzés preparam uma vareta macia e resistente com galhos de 60 a 70 cm de comprimento, que introduzem nos ninhos abertos de formigas. As formigas começam a escalar pela varinha e os chimpanzés as comem sem dar tempo de serem picados. Para saquear os cupinzeiros, descascam os talos herbáceos que são mais flexíveis e se adaptam melhor ao interior do cupinzeiro. Ao fazer isto, os cupins soldados mordem as nervuras e são enganchados, é o tempo suficiente para o chimpanzé come-los. As varetas rígidas também são empregadas para aumentar a entrada do formigueiro e chegar às formigas, que os chipanzés saboreiam com deleite. Algumas populações usam varinhas para extrair o tutano dos macacos que caçam, coisa que outros chipanzés não sabem fazer.

Os martelos e as bigornas geralmente são troncos e galhos, mas também podem ser pedras de tamanhos e formas adequadas cujo comprimento se ajusta para o emprego mais eficaz. Tornam-se eficazes para quebrar nozes e perfurar ossos robustos. Boesch observando os chipanzés comprovou que eles recolhem grandes pedras (quartzo, granito e outras) e as levam onde crescem as árvores que produzem nozes, logo recolhem as nozes e as colocam sobre a raiz das árvores (a bigorna) e batem (martelam) com uma pedra. Esta tecnologia é necessária, pois estas nozes são muito duras. Um chipanzé acaba abrindo 100 nozes em um dia e foi demonstrado que as crias levam até sete anos para aprender essa técnica.

O instrumento de uso mais curioso é a esponja, feita com a casca ou folhas de árvores mastigadas e são utilizadas para beber e o uso mais interessante é para a higiene pessoal.

Não são só as ferramentas o que eles utilizam, talvez tenham exclusividade no manejo das armas no reino animal. Os machos adultos gostam de se exibir sozinhos, ou em seus jogos de guerra, ou de caça através do lançamento de paus, galhos e pedras de até 4,0 Kg de peso. Em algumas dessas exibições de força podem chegar a lançar até 100 pedras e os demais devem cuidar-se para não serem acertados pelas pedras. Durante um episódio de caça, foram vistos verdadeiros projeteis, onde um macho acertou um javali que se encontrava a cinco metros de distância, o assustou tanto que o fez fugir e o chipanzé pode capturar suas crias para comê-las.

Se quisermos buscar algo semelhante é necessário fazê-lo com um animalzinho mais simples que os símios. Trata-se de um tipo de tentilhão. Este passarinho pouco maior que um pardal, se alimenta de insetos xilófagos*, apesar de  possuírem um bico rechonchudo, cônico totalmente impróprio para esta finalidade. Para isso eles se utilizam de espinhos. Arranca farpas suficientemente compridas e as segura fortemente com o bico e com o qual mexe meticulosamente nas galerias de onde espetam e retiram larvas ou gusanos, que vivem no interior de troncos semipodres para alimentar-se.

Terapia de Grupo

Convém mostrar um interessante experimento realizado com macacos japoneses. Para estudar seu comportamento, deram batatas, grãos e outros alimentos que foram depositados na praia onde habitam macacos, que apreciaram os presentes e engoliram rapidamente toda a comida, apesar de estar coberta de areia, porém uma macaca fêmea, mais esperta que as demais, apanhou as batatas e foi para a beira da praia, onde as ondas se encarregaram de limpar e condimentar, deixando-as com um gosto salgado que as tornam mais apetitosas. Com os grãos tiveram que utilizar outro método. Comprovou-se que, a batida da água dispersou as sementes e elas se perderam no mar, alguns macacos buscaram outra saída para não encher a boca de terra. Cavaram buracos que se enchiam com água do subsolo, introduziram os grãos e tranqüilamente puderam degustá-los limpos e temperados. Pouco depois todo o bando de macacos utilizou o mesmo sistema. O curioso veio a seguir. Quando certos números de exemplares aprenderam uma determinada técnica, neste caso a de lavar a comida, outro bando de macacos de ilhas próximas, que jamais tiveram contato com o grupo objeto de estudo, começou a fazer o mesmo desde a primeira vez que os investigadores lhe deram comida.

Este fenômeno é conhecido como “população critica”. Sem saber por que, quando um grupo de indivíduos suficientemente numerosos de alguma espécie de animal aprende algo novo, imediatamente outras espécies que nunca tiveram contato com eles também adquirem a nova técnica, embora eles nunca tetivessem praticado. Talvez a idéia de alma grupal entre as espécies animais, que a doutrina esotérica sustenta, não seja tão descabida.

Não terminamos da falar sobre os mamíferos, seguiremos com essa apaixonante aventura e descobriremos mais segredos, como por exemplo, as lontras e os castores.

* xilófagos que se alimenta de madeira. (ex: cupins)

José Manuel Escobero Rodrígues

Desde que o Dinheiro move o Mundo – História da Ciência Econômica

A aparição de um mercado mundial de artigos supérfluos começou a mover um capital que desembocou no consumismo e no mercantilismo de nossos dias.

Juan Prades

Tal como aconteceu com outros ramos do conhecimento, também a ciência econômica teve sua fase de grande desenvolvimento e de concepção sistemática, sobretudo em meados do século XVIII. Contudo, quando se trata de fixar as características da evolução do pensamento econômico, percebe-se que desde a antiguidade dominaram duas correntes fundamentais e opostas entre si. Por um lado, a construção de sistemas ideais e por outro, a análise objetiva da atividade econômica.

Platão, na República, se esforça para delinear o projeto de uma sociedade ideal, baseada em um sistema hierárquico: em cima se encontram os filósofos, na qualidade de governantes, no meio se encontram os auxiliares ou soldados, na parte inferior da escala os agricultores e os artesãos. Platão imagina esta divisão de atividades como o meio de libertar as classes superiores (magistrados e guerreiros) da servidão das posses e da riqueza, assim como do espírito de lucro e da inveja. Estas classes superiores têm como missão consagrar-se ao serviço da comunidade.

Aristóteles se concentra mais na análise dos fatos, dos intercâmbios e das funções da moeda. Aos olhos de Aristóteles, esta análise era justificada pela busca de uma definição do preço justo e pela condenação do monopólio.

Os romanos mostravam certo sentimento de reprovação da atividade econômica, que consideravam indigna de um cidadão. Os escritos romanos mais importantes do ponto de vista econômico tratavam principalmente de problemas práticos (agricultura, comércio interno, intercâmbios internacionais). Ao contrário, davam grande importância ao Direito (contrato, direito de propriedade) e graças a isto exerceram grande influência na vida econômica.

O pensamento econômico não apresentou progresso algum no período compreendido entre a decadência romana e o século XII. Foram unicamente os teólogos e moralistas que se ocuparam desta matéria através das suas preocupações morais, filosóficas ou espirituais sobre a significação dos fenômenos econômicos. A economia aparecia ligada a considerações éticas.

Os teólogos, encabeçados por santo Tomás de Aquino e Luis de Molina, se situam em uma posição muito clara a respeito de determinados problemas econômicos, fazendo depender a solução destes da concepção cristã da existência.

A pujança da burguesia cidadã no século XIV, os grandes inventos e descobrimentos, a afluência de metais preciosos procedentes das colônias americanas, a revolução na ordem intelectual e moral causada pela Reforma, o Renascimento, a alta de preços e o nascimento do Estado moderno soberano transtornaram as estruturas da atividade econômica. Os Estados nacionais, rechaçando a autoridade universal da Igreja romana, adotaram atitudes belicosas, defensivas ou imperialistas. Os príncipes, pressionados por necessidades prementes de dinheiro, procuraram organizar a atividade econômica com vistas ao interesse nacional.

Todas estas preocupações deram origem ao mercantilismo. A idéia essencial dos mercantilistas era que, para fortalecer e aumentar seu poder, o Estado devia alcançar o nível máximo da posse de metais preciosos, então considerados como a riqueza de maior valor.

A nova orientação dada à economia política teve início com duas obras: a de Quesnay e a de Adam Smith. Na França Quesnay, chefe da economia fisiocrática, publicou seu Tableau économique. O “quadro econômico” mostra como as riquezas circulam no organismo social segundo regras derivadas da ordem natural. Proclama que o dinheiro é só um intermediário e que a verdadeira riqueza deriva do produto líquido consumível, ou seja, da parte que excede os gastos nos quais se incorreu para gerá-lo. O produto líquido circula no corpo social da mesma forma que o sangue no corpo humano, porque os proprietários e os manufaturadores necessitam comprar produtos agrícolas dos agricultores, enquanto estes precisam comprar os produtos manufaturados. O produto líquido não existe na indústria nem no comércio, é somente a agricultura que o provê. Em virtude disto a agricultura merece ser qualificada como produtiva. Os comerciantes e os industriais constituem uma classe estéril, porque eles não criam a riqueza: se limitam a transformar a riqueza já existente.

Na Grã-Bretanha, Adam Smith, autor de A Riqueza das Nações, pensou, como os fisiocratas, que existia uma ordem econômica natural cujas leis a ciência deveria descobrir. Mas enquanto para seus predecessores o fundamento era de índole metafísica, para ele era de índole psicológica: o equilíbrio econômico, a adaptação da oferta à demanda nos intercâmbios se baseia no fato de que os interesses particulares, supondo que sejam livres, tornam realidade o interesse geral. Em um cenário de livre intercâmbio, cada um se especializará e esta divisão de trabalho assegurará uma eficácia cada vez maior da produção, ou seja, uma maior produtividade.

Mas a rápida expansão da população, em uma época onde a produção agrícola não aumentava em absoluto, fez com que nascessem prognósticos pessimistas acerca do futuro do bem-estar da humanidade. T. R. Malthus no seu Ensaio sobre a população, sustenta que o obstáculo principal para progresso do bem-estar está na tendência para a multiplicação da raça humana, incremento que é de ritmo mais rápido que o da produção requerida para a subsistência. Se nada diminuísse sua expansão, a cada 25 anos se duplicaria a população, enquanto os meios de subsistência aumentariam segundo uma progressão aritmética. O meio para restabelecer o equilíbrio seria a repressão (guerras, fome, epidemias) ou a prevenção (restrição voluntária da natalidade).

A revolução industrial

A noção de revolução industrial se atribui geralmente a Arnold Toynbee (1852-1883). Paul Mantoux (1877-1956) a adotou em uma obra publicada em 1906. Um e outro descrevem o processo que abalou a Inglaterra de 1760 a 1840. Na realidade, Marx havia feito no primeiro volume de O Capital (1867) a descrição do fenômeno. Este sistema de desenvolvimento econômico é próprio do Ocidente europeu.

Efetivamente, o desenvolvimento capitalista é o único que permitiu não só a transformação do mundo inteiro, mas a universalização da História.

A revolução industrial afetou, em primeiro lugar, a Inglaterra no século XVIII, e depois o resto do mundo no período seguinte.

Na Inglaterra se fundou uma sociedade de cientistas, a Royal Society of London (1660), protegida pelo rei, que mantinha contatos regulares com os operários e os colonos, que lhe proporcionavam a base de experimentação científica. No século XVIII se desenvolveu e difundiu uma nova filosofia da natureza. O Século das Luzes descobriu a noção de progresso e estabeleceu as relações entre a ciência e a tecnologia.

Pela primeira vez, a ciência se aplicou sistematicamente ao processo de produção, o que permitiu o descobrimento de novas matérias primas (ferro, aço), de novas fontes de energia (o carvão e o vapor, a eletricidade e o petróleo, e finalmente a energia nuclear) e de máquinas automáticas (primeiro, as mecânicas; depois, as elétricas e por fim, eletrônicas).

A atividade econômica se concentrou e se especializou, a fábrica constituiu a nova organização de trabalho. Pela primeira vez, a produção superou o caráter local ou familiar para alcançar sistematicamente o caráter nacional e internacional.

As comunicações experimentaram um grande desenvolvimento e as cidades tiveram um impulso sem precedentes. A produção agrícola deixou de ser básica e a produção industrial adquiriu uma importância preponderante.

Apareceram e se desenvolveram novas classes sociais: a burguesia industrial e o proletariado moderno. As condições indispensáveis para o desenvolvimento da revolução industrial foram: a existência de um capital significativo, a presença de mão-de-obra disponível e o progresso da tecnologia.

A base de toda superprodução social e de toda civilização é a superprodução agrícola. Mas enquanto esta conservou o aspecto de uma renda em espécies, o dinheiro e o capital só ocuparam um lugar muito limitado na sociedade.

Com a aparição da moeda, o dinheiro que as antigas classes proprietárias utilizavam para adquirir produtos supérfluos foi para as mãos dos comerciantes e usurários. A primitiva forma de existência do capital foi o capital usurário, cujo empréstimo com enormes juros para os poderosos, permitiu a recuperação e o lucro.

Este capital comercial se ampliou por meio da criação de um mercado mundial de artigos supérfluos, que constituiu uma autêntica revolução comercial O aumento da quantidade de metais preciosos em circulação resultou numa revolução dos preços, cujo aumento não compensou a perda de valor da moeda.

A indústria doméstica presenciou o progressivo triunfo do comerciante sobre o artesão. Os comerciantes começaram a financiar os artesãos do campo, que produziam a domicílio e recebiam deles as matérias primas e os meios de produção. Deste modo, acabaram por trabalhar em troca de um simples salário.

A manufatura permite subdividir cada ofício e cada processo de produção e reduzir as operações do trabalho a alguns gestos mecânicos e simplificados, com o fim de aumentar o rendimento e de utilizar mão-de-obra não qualificada e mal paga.

O aparecimento de mão-de-obra disponível para as grandes empresas modernas obteve-se por meio de uma revolução que expulsou do campo a população, até então essencialmente camponesa.

No século XV começou na Inglaterra o movimento de fechamento dos campos. Consistia em repartir entre os proprietários (essencialmente, os grandes proprietários) os terrenos comuns aos quais os camponeses da Idade Média tinham livre acesso. O movimento visava à constituição de grandes propriedades cercadas, para cuja manutenção basta uma mão-de-obra reduzida. A redução da necessidade de mão-de-obra e o aumento das contribuições territoriais aceleraram a expropriação dos camponeses pobres.

No final do século XVIII, a multidão de camponeses, ao ficar sem meios de subsistência devido ao fechamento dos campos, abandonou o campo para dirigir-se às cidades.

No século XVIII se produziu na Inglaterra um duplo movimento: um que tendia a criar nas cidades uma massa de produtores aos quais se havia privado de todo controle dos seus meios de produção, e outro cuja finalidade era criar uma massa de trabalhadores expulsos do campo, onde era impossível que subsistissem. Do encontro desta nova classe, que só podia viver alugando sua força de trabalho, com os proprietários de um capital significativo, nasceu a forma moderna da indústria: uma classe proprietária dos meios de produção e uma classe produtora de mais-valia.

O aparecimento da grande produção industrial implicou na constante ampliação do mercado e, portanto, na queda do preço dos produtos fabricados. Isto só pode ser alcançado por meio da mecanização das indústrias. Esta mecanização começou no ramo têxtil e continuou com o uso industrial do carvão e do ferro, tudo isto acompanhado do descobrimento da máquina a vapor.

A mecanização provocou uma concentração em maior escala que a manufatura. À concentração geográfica, provocada inicialmente pela necessidade da indústria do algodão de se instalar próximo dos cursos d’água, se somou, a partir de 1875, a concentração ao redor das jazidas de carvão, e depois, ao redor dos mercados ou dos grandes centros de mão-de-obra.

A crise de produção começou a surgir. Apareceram abundantes e novas contradições. A destruição das máquinas pelos operários, que os deixavam sem meios de sobrevivência, provocou violentas revoltas.

A população das cidades cresceu desmedidamente e se deslocou para as novas zonas industriais. No século XVIII, mais de três quintos da população inglesa estava concentrada em uma faixa que se estendia entre o canal de Bristol e Londres. Em doze anos, Manchester, centro básico da nascente indústria do algodão, dobrou sua população.

A existência de uma grande massa de mão-de-obra disponível permitiu à burguesia capitalista exercer uma pressão sobre os salários e aumentar o tempo de trabalho. Este aumentou sem que aumentassem os salários, o que produziu o aumento da mais-valia absoluta. No século XVIII, uma jornada normal de trabalho na Inglaterra durava de 13 a 14 horas. Nas fiações de algodão, a semana de trabalho, em meados do século XVIII, era de 75 a 80 horas. Diminuiu para 72 horas no final do século XVIII, mas voltou a crescer para 80 horas em 1804. Um dia parado equivalia a um dia sem pão.

Mas a organização da resistência operária provocou, no século XIX, uma limitação legal na duração da jornada de trabalho. Primeiro para 12 horas, depois para 10 horas e finalmente para 8 horas no século XX. Para aumentar a mais-valia, o capital tentou reduzir o horário de trabalho necessário para produzir o valor do salário pago ao operário. Tratava-se do aumento da mais-valia relativa, ou seja, da produtividade do trabalho. Este é o resultado de uma divisão do trabalho mais pesado, de uma organização mais despótica na fábrica e do emprego de novas máquinas. O tempo de trabalho necessário para fabricar os produtos caiu. Nos Estados Unidos eram necessárias 1.000 horas para fabricar 100 pares de sapatos em 1860 e em 1895 eram suficientes menos de 100 horas.

A intensificação do trabalho graças à aceleração do seu ritmo e do aumento do número de máquinas controladas por cada operário provocou uma crescente exploração do trabalhador. A introdução da mecanização provocou, em primeiro lugar, consideráveis demissões, seguidas por uma redução de salários. Em 1824-1825 a incorporação do tear mecânico provocou uma redução de 50% nos salários dos tecelões ingleses. A demissão de uma massa de operários se converteu na formação de uma reserva de mão-de-obra industrial, que influiu nos salários. O maquinário industrial desvalorizou o conjunto do trabalho manual ao transformar os operários qualificados em operários não qualificados ou semi-qualificados.

Esta relação não tem fim, pois ainda hoje seguimos subjugados pelos mecanismos de controle e exploração do mercantilismo contemporâneo através de suas distintas formas.

Glossário de termos econômicos

Bolsa: lugar de encontro daqueles que tentam colocar seu dinheiro e de outros que, investido anteriormente, desejam vender sob a forma de títulos.

Inflação: é o aumento geral, sustentado e substancial, dos preços de uma economia.

I.P.C: Índice de Preços ao Consumidor. Informação obtida sobre as variações dos preços de alguns bens selecionados.

Hiperinflação: “inflação galopante”. Aquele processo inflacionário de forma vertiginosa, tornando praticamente impossível seu controle.

Deflação: situação caracterizada pela queda generalizada e persistente dos preços.

Tarifas: São direitos de aduana que devem pagar os importadores de determinados produtos às autoridades econômicas do seu país.

Balança de pagamentos: documento contábil em que aparecem registradas todas as transações econômicas que se realizaram durante um ano entre os sujeitos econômicos de um país e o resto do mundo.

P.N.B.: Produto Nacional Bruto. É a soma dos valores de todos os bens e serviços finais produzidos pelos habitantes do país durante um ano.

P.I.B.: Produto Interno Bruto. É o resultado da soma do valor de todos os bens e serviços produzidos no país, sem levar em conta a valorização dos que tenham sido elaborados pelos fatores produtivos nacionais no estrangeiro.

Lucro: diferença entre o preço de venda e a importância que custa elaborar cada unidade produzida.

Ponto morto: volume de produção em que a empresa nem perde nem ganha.

População ativa: conjunto de indivíduos que são aptos para trabalhar no contexto da legalidade vigente.

Capital: é o fator de produção constituído pelo conjunto de elementos que a fazem possível, incluindo os bens produzidos com objetivo de utilizá-los no processo produtivo.

Capital fixo: edifícios, máquinas, ferramentas.

Capital circulante: matérias-primas, artigos semi-elaborados, embalagens.

Mercado: conjunto de atividades relativas à compra e venda de um determinado bem.

Gasto público: conjunto de obrigações de pagamento contraídas pelo Estado como conseqüência do consumo, de investimentos e das transformações que realiza.

Dívida pública: conjunto de empréstimos concedidos ao Estado por particulares, empresas e entidades financeiras, documentados na forma de títulos de valores.

Economia: aquela parte da renda obtida e não gasta em um determinado período.

Investimento: é a diferença entre os capitais produtivos de dois períodos determinados.

Renda nacional: soma total das rendas geradas a favor dos possuidores dos fatores de produção nacionais, como contraprestação a sua participação no processo produtivo.

Renda per capita: é o resultado da divisão da renda nacional de um país pelo número dos seus habitantes.

Sociedade Anônima: é aquela sociedade capitalista que, com um capital próprio dividido em ações e sob o princípio da responsabilidade limitada dos sócios, se dedica à exploração de uma indústria mercantil.

Sociedade Limitada: tem uma dimensão mais reduzida que a S.A. , tanto quanto ao número de sócios como ao valor do capital social.

As Egípcias

Julián Palomares

As egípcias conheceram um mundo no qual a mulher não era uma adversária, nem uma rival do homem.

Que mundo que lhes permitia viver na plenitude sem renunciar a sua identidade?

Uma civilização que se modela sobre um conjunto de arquétipos ou de mitos que configuram o estilo de vida, o modo de ser e os objetos que sustentarão o ser humano.

A mulher no Egito não era considerada “do mal” como em outras culturas e nem desprovida de conhecimento, mas sim se inspirava na grandiosa figura de Ísis ─ que havia superado os piores obstáculos e descoberto o segredo da ressurreição.

Ísis foi o modelo das rainhas, das esposas e das mães, assim como das mulheres mais humildes. A sua fidelidade somava um valor indestrutível frente às adversidades, uma intuição fora do comum e a capacidade de penetrar no mistério. Ela era o modelo ou arquétipo que toda a mulher egípcia tinha como proteção e inspiração de seus atos. Aqui é, sem dúvida, onde reside o segredo da beleza, serenidade e sabedoria da mulher egípcia.

A percepção da polaridade feminina durante a criação está na raiz do respeito que a civilização dos Faraós mantinha pela mulher e o papel que lhes atribuiu na sociedade, desde a rainha até a dona-de-casa.

As egípcias conheceram um mundo que lhes permitia viver em plenitude como esposas, como mães, no trabalho ou como iniciadas nos mistérios do templo, sem renunciar a sua identidade a favor do homem. Um mundo em que tinham livre acesso às coisas sagradas.

A mulher egípcia mantinha seu nome e sua personalidade sem que isso significasse entrar num processo de disputa com o homem, já que ela dispunha da possibilidade de expressar plenamente sua capacidade como pessoa consciente e responsável. A mulher casada mantinha seu nome e sobrenome, não adotava o do marido e tinha orgulho em lembrar sua filiação materna.

Não podemos negar que as egípcias desfrutaram de algumas condições de vida muito superiores as que conhecem hoje milhões de mulheres. A igualdade entre homens e mulheres era um dos valores essenciais da civilização dos Faraós. Não se repetiram mais as realizações das mulheres egípcias, pois esses valores eram grandes, livres e criativos demais para ficarem presos aos dogmas religiosos.

Hoje nos chama a atenção o imenso respeito que era dado à mulher egípcia. Bela, serena, luminosa, a mulher egípcia contribuiu de modo muito ativo na construção diária de uma civilização que fazia culto a deusas como Maat (verdade, justiça, confiança, equilíbrio cósmico, harmonia) e Hathor (a Grande Mãe, grande e rica na Magia, aquela que nada ignora do Céu e da Terra, Mágica e Sábia).

A moral no Egito não é um adorno intelectual, mas formata todo um estilo de vida. É o esqueleto e o sangue desta civilização e influencia até nos menores aspectos do dia-a-dia. Os livros de moral e sabedoria eram os que ditavam a conduta a ser seguida, tanto na família como no exercício profissional de cada um.

Na relação com a esposa devia predominar o respeito; a violência era algo condenável. O respeito era seguido pela fidelidade e pela palavra empenhada, valor central da civilização egípcia. Um bom marido tinha atitudes justas, não era causador de dor, nem de ofensas, nem de abandono. A esposa era a companheira adorada pelo marido, a irmã bem amada e a dona de seu coração, pois ela era a riqueza da vida e quem trazia a felicidade.

A mulher era igual ao marido e entre eles reinava uma profunda cumplicidade. Nas esculturas, com seus gestos quase secretos que traduzem uma atividade mágica, a mulher protege o esposo, velando pela sobrevivência do casal, para que nada os perturbe.

O casal divide as responsabilidades dessa forma se desenvolve uma vida com múltiplas facetas.

Cada sexo era, por definição, o complemento do outro e representava um papel determinado. Ambos são igualmente respeitados e necessários para a perpetuação da vida e cada um tinha seu lugar e seu papel. A incontestável igualdade dos sexos no Egito não foi resultado de uma luta protagonizada pelas mulheres do Nilo para conseguir uma ascensão.

Os egípcios eram conscientes da necessidade de respeitar a tradição ancestral com a qual esta civilização estava profundamente unida. Eles viviam e mantinham a ordem que havia sido estabelecida nos tempos dos Deuses para que não ocorresse uma ruptura do equilíbrio.

Ser esposa, mãe e dona-de-casa junto a um ser amado que sabia responder ao esforço realizado ─ este era o ideal. A instrução e a educação eram essenciais para a formação daquela que, seguindo seu destino, seria chamada para assumir certas responsabilidades. Não havia limites para a ascensão. Isso se verificava em todos os níveis da sociedade. Tanto é que o universo do conhecimento estava eternamente aberto à mulher egípcia. Nos tempos dos Faraós, a mulher podia desempenhar as mais altas funções.

Assim como não havia diferença entre homem e mulher no solo egípcio, tão pouco as havia no céu, no Amenti, nem na terra do espírito. Esse magnífico desdobramento da espiritualidade feminina não voltou a repetir-se desde o desaparecimento da civilização dos Faraós. Outra dimensão não menos admirável foi a ausência de rivalidade espiritual e intelectual entre homens e mulheres que trabalharam conjuntamente nos templos e formaram comunidades dirigidas indistintamente por um homem ou por uma mulher. Embora existissem caminhos iniciáticos especificamente masculino ou feminino, estes coincidiam no essencial.

Como filhas da Grande Mãe, as mulheres deviam ser suas representantes na terra, atualizando suas encarnações, assumindo estes poderes e servindo como suporte de uma civilização que engrandeceu a evolução da vida. Este era seu alimento interior, a inspiração para o dia-a-dia. Como Maat, deviam velar pela manutenção da harmonia e da relação entre o céu e a terra.

Seus modelos não eram ídolos de papel, nem pedras, nem ilusões, nem fantasias humanas. Eram idéias, arquétipos que representavam os mistérios da natureza. Como dizia um grande egiptólogo: “O Egito foi o reino da espiritualidade feminina.”

Bibliografia

Tebas, Jorge A. Livraga.

Manual Egípcio, Vários Autores.

As Egípcias, Christian Jacq.

A Mulher Egípcia, Christian Jacq.

A Mulher Sábia, Christian Jacq.

Novos tempos, velhos erros. Um ciclo novo.

Delia Steinberg Guzmán

Acreditávamos ou pretendiam que acreditássemos que o tempo nos levaria a atingir nossas metas, as melhores formas de vida, os descobrimento técnico-científicos que atenuariam as doenças físicas e a falta de recursos econômicos. Isto nos conduziria a opções sociopolíticas mais justas e equilibradas, a ampla comunicação não só com nosso planeta, mas com outros do espaço… e tantos outros sonhos…

Sem menosprezar a quem verdadeiramente se esforça para resolver os problemas, reconhecemos que estes esforços são pequenos e que ficam isolados frente a grande quantidade de acontecimentos ardorosos e inesperados que nos afetam, e que vão crescendo dia a dia.

Sentimos que um importante ciclo da história termina, que o mundo está dando um giro poderoso para uma direção que não conseguimos entender com clareza e, por isso, nos confunde.

Embora nos interessem as previsões e investiguemos os já conhecidos movimentos milenares dos séculos passados, pensamos que todas as coisas têm suas causas e também suas conseqüências.

O que ocorre é que, nos dias de hoje, estamos saturados de situações que não conseguimos digerir, às vezes, porque desconhecemos as causas ─ ou estas não nos interessam, ou não há interesse em que as conheçamos ─ e então não sabemos o que será do nosso futuro imediato.

São muitos os fatos que nos chocam e que clamam por respostas. São muitos os diálogos que temos conosco mesmos, mas nos calamos quando não conseguimos dominar forças mais potentes que nós.  Isso não só ocorre com os cidadãos comuns, mas também com aqueles que têm a possibilidade de administrar meios e soluções.

Nosso planeta muda, desertifica-se, empobrece. Grupos de ecologistas, (alguns mais manipulados que outros por interesse políticos), clamam pela salvação da terra. E o que muda? Nada. Algumas páginas nas revistas e jornais, algumas manifestações e tudo continua igual… Ou pior. Os homens, cada um em seu continente, em seu país, em sua terra, sofrem pressões psicológicas, morais, econômicas e sociais. Alguns lutam por uma economia global e outros, há alguns quilômetros, morrem de fome e, desesperados, recorrem ao êxodo por caminhos mortais que não os levarão a lugar nenhum.

Copilamos algumas palavras sábias e emocionantes de José Maria Mendiluce: “Acredito que este é o momento de darmos um passo que nos leve da emoção e do sentimento de indignação para uma análise mais profunda das causas que nos permitam uma prevenção ativa do conflito… A África “sobra” na partilha da globalização da economia… Lutamos contra a inflação… Inflação de reuniões e palavras frente ao déficit de ações coerentes… Inflação de falsas ilusões na busca de uma felicidade impossível e que nos afasta dos valores que nos fazem humanos, sensíveis, solidários”.

A filosofia busca essas soluções, na convicção de que os excessos de planejamentos inviáveis, de demagogia e corrupções consentidas, não oferecerão uma saída digna. É necessário encontrar o ser humano e devolver-lhe sua dignidade. Depois de tudo isso, as melhores obras das civilizações, os melhores momentos da história foram obras de homens íntegros, dignos, honestos e generosos, capazes de atuar não só para si, senão para todos os que necessitam dele.

Podemos citar a real expressão: “Depois de mim, o dilúvio”. Mas se não agirmos rapidamente, esse dilúvio cobrirá a todos ─ aos vivos e aos mortos.

Colômbia pré-colombina

Maria Ángeles Fernández

Ainda que em muitos caso possamos especular sobre as origens ancestrais destas cidades remotas, os arqueólogos consideram que a grande época de esplendor da atual Colômbia aconteceu durante o ano 500 a.C. e 1000 d.C, conforme as datas atualizadas e classificadas por aqueles que por séculos tentaram se enriquecer naquelas terras.

Isso equivale a quinhentos anos antes da chegada dos Espanhóis, com o que deduzimos que no momento da entrada dos conquistadores, estas cidades estavam na “Idade Média” o que impede que valha a pena um estudo mais rigoroso.

Outro fator para se levar em conta é da existência de uma civilização mais primitiva e agressiva que o restante da área: os Caribes. Este povo, embora nativo da selva amazônica e da Venezuela atual, estava estabelecido no vale do Cauca, antiga Costa do Caribe e praias do vale Madalena. Os Caribes eram antropófagos e causaram no século XVI uma invasão que por sua vez pressionou vários povos, entre eles os Chibchas, uns dos povos mais representativos da Colômbia antiga, da qual daremos mais detalhes no decorrer do texto. Habitantes das terras baixas e cálidas do percurso inferior de Madalena, foram deslocados para as savanas de Bogotá, a uma altitude de 2000m.

O povo dos Taironas também foi encurralado pela invasão caribe em direção às margens da serra nevada de Santa Marta.

Por outro lado, os Kunas foram deslocados para o norte pelos Chocos, de estirpe caribe, misturada com populações de fala chiba, guerreiros canibais e depredadores. Os Chocos eram guerreiros conquistadores; cozinhavam a carne humana em uma espécie de grelha; moravam em casas rodeadas com estacas de madeira e fabricavam colares com os dentes dos inimigos mortos em combate. Por outro lado, incorporaram os escravos à tribo, eram nudistas, usavam sarabatanas, dardos e flechas envenenadas. Usavam esteiras em vez de camas e tinham alguns conhecimentos de xamanismo.

Pelas suas características, a cultura choco corresponde a uma cultura típica da floresta tropical e, como os Caribes e os Tupi-Guaranis, são de descendência patriarcal. Havia proibição de se casar com parentes pela linha paterna e residência independente. Eles não só diferem dos povos Chibchas pelo idioma, mas também pelo tipo físico. Eles formaram a avançada setentrional, que foram invasões que mudaram a fisionomia étnica da Colômbia.

Embora os grupos aborígines que habitaram a Colômbia tenham sido numerosos (Guajiros, Bocamas, Caribes, Bocinegras, Orejones, Chimilas, Burbacos, Conas, Sinus, Chiareros, Carares, Guanes, Tunebos, Barbacoas, Muiscas, etc), nos limitaremos ao mais importante do ponto de vista cultural e histórico.

Povos Aborígines

Entres os distintos povos de culturas medianas destaca-se o Tairona, encurralado por um invasor mais primitivo, os Caribes, na época da invasão espanhola, na serra nevada da Santa Maria, no litoral mais próximo a esta. Possuíam um destacado censo urbano; foram capazes de erguer alojamentos, estradas, canais; cultivaram produtos como milho e algodão; na guerra usavam flechas envenenadas. Destes povos procede o famoso mito da Cidade Perdida. Um fato interessante é que os Taironas mantiveram enorme afinidade com a cultura Guajira, grupo Arawak que residiu na península de Guajira. De acordo com as descobertas, fabricavam cerâmicas semelhantes às encontradas na parte sul do Panamá, ou seja, na entrada sul da América Central.

A cidade de San Agustín é na realidade um conjunto de grupos assentados em áreas de San Agustín e Huila, no maciço colombiano. Lá ergueram terraços e canais. Para enterrar seus mortos, construíram montículos e enormes estátuas com formas de jaguares, serpentes e seres humanos. Ocorre na escultura uma transposição do gravado rupestre ao monólito, por exemplo, o desenho do ser com duas cabeças: uma parte superior e outra na parte inferior, olhando para o alto. Esta figura é comum na América, e na área taranca encontramos também cabelos cortados em forma de escadinha.

Destaca-se também o povo Calima, na região do vale do Cauca. Cultivaram milho, viviam em terraços; tiveram um sistema de irrigação e fizeram estradas. Desfrutaram de uma expressiva hierarquia social. Conheciam perfeitamente as técnicas de fundição.

Destacava-se também o povo Nariño, cultura que vivia na área mesmo nome, junto ao Equador, no altiplano nariñense.

Nestas terras se misturaram vários grupos como: os Capulís (que eventualmente cavavam tumbas de trinta a quarenta metros para enterrar seus mortos); os Pastos (capazes de esculpir as montanhas com infinidade de terraços) e o povo Quimbaya (que morava na região do velho Caldas, a mais de 1000 a.C.). Estes últimos possuíam uma ourivesaria extraordinária, aprimoraram suas técnicas de fundição até mesmo com ligas de ouro e cobre.

Também realçamos o povo Sinú, nos arredores dos rios San Jorge é Sinú. Sua principal fonte de alimentação era a mandioca e conseguiram transformar extensas áreas barrentas em áreas cultiváveis. Eram ourives.

Outros povos, os Tierradentro, que se situavam entre Huila e Cauca, eram conhecidos por suas enormes e enfeitadas tumbas. O povo Tolima, na região de mesmo nome no vale do rio Madalena, tinha por atividade principal a extração de ouro no rio Saldana. Por último, o povo de Tumanco, na área de Marinho, próximo às costas do Pacifico. Cultivaram milho e se dedicaram à pesca e à modelagem de estatuetas, através das quais se pode estudar e reconstruir a vida cotidiana. Desenvolveram técnicas metalúrgicas e inclusive chegaram à solda por fusão. Este foi um dos povos saqueados pelos conquistadores por sua infinidade de objetos de ouro (armaduras, máscaras, estatuetas).

A origem de todas estas culturas sempre foi baseada em suposições e se produziram desde América Central através de correntes migratórias de agricultores que se deslocavam em direção a sul, chegando a épocas diferentes em estados de evolução diferentes. Encontramos a cerâmica mais antiga no Porto Hormigas, no norte da Colômbia, nas portas de saída do corredor Centro Americano. Existem teorias sobre a origem Subandino nas culturas médias de sul da América. Vários investigadores concordam que a cerâmica do norte da Colômbia e do sul do Istmo corresponde ao horizonte formativo que se estende desde o leste de América do Norte até os Andes Meridionais, mas ainda não se descobriu seu centro de origem.

No norte das Antilhas e da América do Sul o tipo de petroglifo centro americano é comum.

É atribuído à cultura Arawak a origem da terraplanagem, do amontoamento de terra e dos canais. É comum encontrar sobre as tumbas pequenos monólitos ou menhires, característicos em toda América Central, inclusive na Colômbia.

Na América Central é comum o sepultamento em tumbas forradas de pedras e cobertas com lajes; ocorrem também em outras culturas formativas e na cultura Arawak.

Outras características das culturas médias é o culto a Deusa-mãe, por meio de diferentes representações. As gravuras rupestres Arawak, oferecem uma ampla semelhança com as gravuras da Venezuela, Colômbia e América Central. Por exemplo, a figura de Deus resplendoroso: a cabeça em forma de coração, a cabeça triangular, a mão em forma de cruz, o ser humano com duas cabeças, uma das quais repousa na sua mão, o rosto de forma arredondada, o corpo triangular, a serpente ondulada, etc, assim como o oferecimento de comida aos deuses e mortos em geral.

A cultura Chibcha

Deixamos para o final um dos melhores expoentes da Colômbia ameríndia. Como já comentamos, os Chibchas, pressionados pelos Caribes, se mudaram para as savanas de Bogotá, anos antes da chegada dos Espanhóis.

Nestas terras não conseguiram plantar mandioca (planta básica dos Chibchas), mas sim o milho, a batata-doce, o algodão, abóbora, feijão; tabaco, tomates, guanabana (Aroma muricate), abacaxi e pitahaya (Cereus pitajaya).

Os trabalhos de cultivo eram realizados pelas mulheres auxiliadas pelos maridos (ela tinha a função mágica de fecundar a terra). Os trabalhos agrícolas eram em comunidades e eram considerados uma festa. Também era em comunidade a construção de casas de projetos circulares, elíptica ou retangular, cujo teto era cônico. Existia o ritual de consagração da casa construída na cimentação dos pilares sobre corpos humanos. Este sacrifício com sangue e carne humana era utilizado para dar força e propiciar bons augúrios para a casa e seus moradores. Este não era diferente de alguns rituais que os Maya-Chiches praticavam (segundo os mitos de Popol Vuh).

Os Chibchas domesticaram animais selvagens, iguais a outros povos das culturas médias. A sucessão dos chefes era matrilinear, ou seja, herdava o reino o primogênito da irmã mais velha do chefe. Os filhos da suas esposas eram considerados para este efeito ilegítimos. Existia a poligamia e eles poderiam ter quantas esposas pudessem sustentar. A herança era determinada pela linha materna; segundo os rituais, quando surgia a primeira menstruação da jovem, esta ficava reclusa durante seis dias em um canto, encoberta com uma manta que cobria cabeça e rosto. O adultério era castigado severamente, inclusive algumas vezes com a morte.

No comércio, a civilização Chibcha era matriarcal, embora já existisse um estado de transição para o direito patriarcal.

Estavam organizados em comunidades (pequenas confederações). O chefe ou cacique tinha poder absoluto sobre seus súditos, em virtude da sua origem divina. Seus subalternos jamais o olhavam de frente. Adoravam a saliva do cacique, que tinha um valor sagrado e a qual recebiam como uma coisa santa e valiosa, comparando-a ao sêmen que fecunda ou a chuva (outra semelhança com o mito de Popol Vuh Maya).

Entre os atributos do poder do cacique podemos destacar a coroa de ouro, o transporte em um assento baixo ou liteira coberta de ouro. O bastão Chibcha é um símbolo do poder, em metal que se alarga de um extremo a outro. Nos braços colocavam-se braceletes e colares de contas, pedras, ossos e pingentes de ouro, que usavam nas orelhas e nas narinas. Na cabeça usavam barrete, faixa ou turbante. Os sacerdotes usavam coroas de ouro em forma de mitra. Todos levavam no nariz discos em forma de meia lua.

A cultura Chibcha esta vinculada às grandes culturas centro-americanas, às culturas médias e, como todas elas, também com os Mayas, embora a marca da separação date aproximadamente de cinqüenta e seis séculos e diferentes espaços, pelo que encontramos fundamentos suficientes para afirmar que estas culturas poderiam ser fragmentos velados de uma gigantesca cultura anterior.

Armas

Usavam a impulsão do dardo, a lança, o porrete, o estilingue, a sarabatana de uma peça só, os escudos. Conheciam a arte das fortificações é construíam caminhos pavimentados. Os Chibchas também eram guerreiros, decapitavam seus inimigos e exibiam as cabeças como troféu. Praticavam um tipo de sacrifício que consistia em amarrar a um pau os ladrões para posteriormente matá-los a flechadas, como ritual de fertilidade para produzir chuva, do mesmo modo que o faziam os Caribes, além do que, também os comiam, pois, eram canibais. Os Chibchas de épocas mais recentes ofereciam sacrifícios humanos ao sol para obter benefícios no combate à seca. Acredita-se que também faziam oferendas à Lua.

Comércio e artesanato

Eram grandes comerciantes. Praticavam a troca nos mercados locais. As mulheres teciam finos panos de algodão e vestiam túnicas fechadas. Eram excelentes ourives, trabalhavam o ouro, o cobre e a prata; talhavam a madeira; fabricavam vasos e figuras de barro similares em sua forma e desenho a outros povos. Na arte lítica, faziam facas de duplo fio, machados, facões e raspadores de pedra. Existem semelhanças entre suas culturas e as dos Taironas e Mayas do período pré-clássico do México. Suas estatuetas, depositadas em caverna como oferendas votivas, desenhavam um hexágono com os braços e as pernas que unem o homem com a Ordem universal.

Calendário de festas

Contavam os dias pelos sóis e os meses pelas luas com suas minguantes e crescentes, divididas em quatro partes.

O ano tinha doze meses ou luas e começava em janeiro. O calendário era um almanaque agrícola. As festas religiosas mais importantes eram a semeadura e a colheita, com agradecimento e pedidos ao Deus Sol (Bochica). Os rituais eram celebrados nos templos, por sacerdotes ou pluviomagos Chibchas, únicos mediadores entre deuses e homens. Tinham domínio das forças da natureza: tempestade, ventos, geadas; eram curandeiros e podiam transformar-se em animais, que também eram conhecidos pelos povos centro-americanos.

A lenda de El Dorado

Os Chibchas rendiam culto às plantas, as rochas e aos lagos. O lago de Guatavita é onde se originou a lenda do El Dorado, criada pelos conquistadores espanhóis. Para a nomeação de um novo cacique Chibcha ou Muisca, o herdeiro teria que passar seis anos em uma caverna, purificando-se. Não podia comer sal, nem ter relações sexuais; era levado à margem do lago e alguns sacerdotes o despiam, ungindo seu corpo com resina pegajosa e cobrindo-o com ouro. O acompanhavam quatro dignitários numa grande balsa, ricamente adornada, até o centro do lago, onde o submergiam e ofereciam os objetos de ouro simbolizando os cinco sóis cósmicos.  Este valor simbólico é similar em todas as culturas médias.

Gravuras rupestres

Os gravados rupestres nos oferecem cenas de um drama cosmogônico que se projeta em rituais e cerimônias celebradas pela casta sacerdotal. Alguns proporcionam a fertilidade nos campos de cultivo e a fecundidade humana; outros se dedicam ao cultivo solar; o Sol pode ser coroado por cinco raios simbolizando a figura central do universo, ou associado à figura de uma serpente; pode ter braços em forma de asas representando a sua imagem, o Deus Solar, Sol e pássaro mensageiro do sol.  Existe uma grande variedade de símbolos iconográficos: deuses esquemáticos, estilizados, antropomorfos, pássaro e serpente. A serpente emplumada se apresenta freqüentemente de diversas formas na arte rupestre Chibcha. Há também cenas astronômicas onde são configurados verdadeiros mapas celestes. A tempestade se manifesta através do zig-zag do raio, ou na cabeça de um pássaro; o relâmpago se apresenta por uma serpente em forma geométrica por meio de um labirinto de linhas quebradas; e a chuva por meio de linhas curtas verticais.  Existe uma repetição de muitas das figuras geométricas de caráter pan-americano: a cruz simples, a cruz eqüilateral, a cruz dupla, o círculo, os círculos concêntricos, o quadrado, o rombo, a suástica, o signo bijungal, o tridente etc.

Escatologia

Os Chibchas praticavam o enterro secundário, expondo os cadáveres em grades de madeira elevadas. Os caciques eram mumificados com resina, ou desidratados no fogo, ou expondo-os no sol. Também praticavam enterros em grutas. Efetuavam enterros coletivos entorno do cacique e do sacerdote que ficavam encarregados ao eterno serviço de seus chefes na vida e após a morte. Isto é de caráter geral nas culturas médias, do mesmo modo que sacrificavam pessoas para o serviço de algum Deus, pois se acreditava que os mortos velavam pelo bem-estar da comunidade a que pertenciam. Os mortos descem ao centro da terra por uma pesarosa viagem, exceto os que morrem em guerras, as mulheres que morrem de parto e as crianças, que vão diretamente ao céu. Os Chibchas tinham um Deus da morte, figura humana esquelética, semelhante à das culturas médias e superiores.

Mitologia Chibcha

Concebiam uma deidade (deusa) em três manifestações, registradas na mitologia e objetivada em sua arte, era por sua vez una e trina. Os Muiscas acreditavam que existia um criador da Natureza, que fez o Céu e a Terra e era trino em pessoas e uno em essência. Chiminiguagua, o grande Deus Criador, onipotente e Senhor Universal de todas as coisas, é uma entidade divina que pode ser comparada com o criador da mitologia Maya-Quiché.

Na mitologia de uma cultura feminina como a Chibcha, não poderia faltar a Deusa-mãe, ao mesmo tempo lunar e terrestre, chamada Bachue e Furachogua, ou seja, boa mulher e Grande Mãe universal, criadora da humanidade, deusa da fertilidade vegetal e da fecundidade humana.

Os mitos Chibchas falam de outra deusa lunar, Chia, belíssima e de grande esplendor, que pregava uma vida cheia de prazeres jogos e bebedeiras, totalmente contrária aos ensinamentos Bochica, o herói civilizador; ao final se converteu em uma coruja ou em lua, segundo as fábulas.  Estas duas entidades luares podem comparar-se a Ixmucané e Ixqic no Popol Vuh. O adversário de Chia e Chibchacum era Bochica, com características de Deus solar, que estabelece novas normas de conduta humana.

Próximo Número

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O Santo Sudário ou Lençol de Turim é um pano de linho, propriedade do Vaticano, sobre a qual gravita uma intensa polêmica, pois os pesquisadores se encontram divididos entre os que apostam que envolveu a Cristo em seu sepulcro e os céticos a este respeito: a hipótese iconográfica, os restos de pólen e sangue, as partículas radioativas… o ícone da polêmica é sem dúvida apaixonante.

As Termópilas

A célebre batalha dos “Portões de Fogo” é um marco na história do ocidente e no predomínio do pensamento grego sobre a satrapia oriental. Isso se deve em grande parte ao heroísmo sem medida de um punhado de espartanos e téspios ante forças que os centuplicavam.

A teoria da relatividade geral

Verdadeiramente, se fôssemos capazes de assumir as conseqüências dos revolucionários descobrimentos de Albert Einstein em toda sua insondável profundidade, nosso olhar sobre o mundo seria diferente: o tempo e o espaço não são valores reais, absolutos, e a gravidade que afeta os corpos não é uma lei, mas sim o efeito de outra lei maior desconhecida.

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