Edição 02

Editorial

Nossa mentalidade racionalista, propensa a aceitar somente aquelas premissas que possam ser comprovadas cientificamente, tendem também a rejeitar as realidades que desafiam tais métodos. Como uma reação que reflete certa frustração, se desprestigia o que alguns chamam enigmas, ainda esperando resolução, à espera de que se aceitem hipóteses inovadoras, ou que alguém as proponha.

O fato é que vivemos rodeados desses fenômenos, mais que inexplicáveis, ainda não explicados pelo pensamento científico, muito mais do que às vezes estamos dispostos a admitir. É que uma alienação excessivamente materialista nos impede reconhecer que podemos encontrar explicações para muitas coisas, e aceitar somente a condição de que admitamos a realidade do invisível, ou que aprendamos a adentrar pelo território da imaginação, onde a Humanidade elaborou os símbolos e representações das manifestações profundas da Natureza. Felizmente, cada vez se admite com maior convicção, por parte dos cientistas que investigam as estruturas internas da psique humana, o papel relevante que desempenha a imaginação, com toda sua reserva de procedimentos de representações simbólicas das experiências que a fazem visível, e como muitos fenômenos que vemos acontecer na vida cotidiana têm raízes desconhecidas em certos símbolos e mitos que pertencem ao acervo cultural comum. O patrimônio histórico artístico, que dá tanta suporte a nossa cidades antigas, vem a ser um livro aberto, que nos ilustra generosamente a linguagem da imaginação e suas mudanças nas distintas etapas da história e nesse sentido nos proporciona chaves significativas sobre nós mesmos, além da apreciação do belo.

De tudo isso trata este número, que contempla, como em um caleidoscópio, as combinações possíveis de algumas destas representações e sua tradução para a linguagem racional que nos serve para interpretar os fenômenos. Algumas se encontram esculpidas em pedra, como indeléveis pegadas de um passado e outras, talvez mais evanescentes, se manifestam a cada dia na maneira como valorizamos as experiências que nos oferece a vida e a importância que damos a certas coisas preferencialmente a outras. O passado e o presente se reconciliam em muitas ocasiões, oferecendo perspectivas inusitadas e muito sugestivas para aqueles que se fazem perguntas audazes. Finalmente, o ser humano, o principal criador de enigmas, é em si mesmo um mistério, como diziam os sábios renascentistas.

Novo Achado Arqueológico de 6 Tumbas em Mênfis

Em colaboração com o Conselho Superior de Antiguidades Egípcias, uma equipe de arqueólogos australianos descobriu 6 tumbas não identificadas de 3.000 a.C. no antigo cemitério de Mênfis, a primeira capital do Egito.

As 6 tumbas foram encontradas na necrópole conhecida como Helwan, situada a 25 quilômetros ao sul do Cairo.

Em uma das 6 tumbas foram achadas facas cujas características nos ajudaram a saber que esta tumba pertencia à primeira dinastia do antigo Egito, disse a Dra. Kohler, diretora do projeto. Outra tumba continha um esqueleto bem preservado de uma mulher jovem, que tinha entre 16 e 18 anos de idade quando morreu. Também foram achados umas vasilhas, potes e utensílios para cosméticos. É um mistério saber porque morreu a jovem. A expectativa é que através da análise e estudo de seus objetos se descobrirá a causa.

Os reis daquela época começavam a experimentar a mumificação, porém as pessoas do povo – que é o caso do atual achado – não mumificavam seus corpos.

O Conselho Superior de Antiguidades Egípcias crê que um estudo exaustivo sobre o achado e continuar as escavações ajudaria a descobrir os detalhes da estrutura social de Mênfis, seus costumes funerários e história.

Este achado nos facilitará reconstituir o início da história da civilização egípcia, acrescentou a Dra. Kohler.

A Aparição da Inteligência

Para a maioria dos observadores, a essência da inteligência reside na lucidez, na versatilidade para resolver problemas novos. Os animais estudados pelos americanos brincam de correr de um lado para outro com incrível pressa e energia até que acabam dando, que casualidade, o resultado esperado. Os animais observados pelos alemães permanecem quietos, pensativos e finalmente, tiram a solução do interior de suas consciências. Costuma-se afirmar também que a essência da inteligência é a previsão. Nunca haverá acordo universal sobre uma definição da inteligência, porque é um vocábulo aberto, da mesma forma que consciência. A inteligência e a consciência relacionam-se com o mais elevado de nossa vida mental, porém freqüentemente são confundidas com outros processos mais elementares. Nossa inteligência surgiu em virtude do refinamento de alguma especialização do cérebro, tal como a que se dá no caso da linguagem. A evolução de adaptações anatômicas nos hominídeos não pôde acompanhar as bruscas mudanças do clima, que ocorriam durante a vida de cada indivíduo. Talvez se possam alcançar de outros modos altos níveis de inteligência, porém o paradigma que conhecemos é a ascensão a partir do movimento.

Necessidade do Sistema Imunológico

O sistema imunológico nos define e nos defende. Assim torna possível a vida. Porém seu fracasso traz a enfermidade e a morte. O estudo de sua natureza leva a uma concepção unificada da biologia. O sistema imunológico tem a capacidade de reconhecer um número que parece infinito de vírus, bactérias e outros elementos estranhos que ameaçam a saúde do organismo. Os anticorpos detectam e neutralizam os invasores. Cada tipo de anticorpo atua somente ante a molécula específica, seu antígeno. Os anticorpos não podem por si só proporcionar uma proteção completa ante o ataque infeccioso: enquanto se inflamam as células infectadas, acodem os linfócitos prontos para confinar com seu ataque a infecção. Imunidade assegurada por células, para fazer distinção da imunidade humoral assegurada pelos anticorpos. Porém ainda é muito o que está oculto, desafiando os mais intrépidos pesquisadores.

Museu do Teatro de Caesaraugusta

Um dos recursos turísticos-culturais utilizados pela cidade de Zaragoza é a criação de uma rota, chamada de Caesaraugusta, como meio para conhecer nosso passado romano, que percorre todos os museos dedicados aos restos que ainda existem do assentamento romano nesta cidade espanhola: muralhas, porto fluvial, termas públicas, o Teatro localizado no ponto mais alto da cidade, etc…

Esse teatro Romano de Zaragoza foi descoberto em 1972, porém até então e desde sua construção no século I sofreu inumeráveis modificações. No século III começou sua decadência. Sofreu a exploração de seus materiais que foram utilizados para a construção da muralha. Na época muçulmana viu como crescia em seu terreno a Medina, cheia de intrincada ruelas e mais tarde no século XIII (época cristã) se isolou ali o bairro judeu. Até 1492 quando, depois da expulsão dos judeus, se iniciou uma progressiva abertura ao resto da cidade. A partir do século XVI nesta zona se construíram numerosas igrejas e residências de importantes famílias até o século XX, quando foi reformada a residência da família Guillén convertendo-se no atual Museu.

Nos três andares do Museu, podemos ver desde um audiovisual e um teatro até uma grande maquete em três dimensões, podemos recriar a grandiosidade do edifício e com um pequeno esforço de imaginação poderemos ver os atores no palco.  E se em um arrebatamento de prazer aplaudimos, ficarão alegres por terem sido apreciados.

Os Olhos das Batatas

A cor verde é um sinal com que a Natureza nos indica a presença de veneno. As plantas de batata contém solanina, um alcalóide pertencente a um grupo de substâncias químicas vegetais muito poderosas e tóxicas, no qual também se encontram a quinina, nicotina, morfina e cocaína. Muito da solanina das batatas está em suas folhas e talos, e também sob a casca e no que chamamos “olhos”. Se a batata fica exposta ao sol enquanto cresce, pensa que já é tempo de começar sua fotossíntese, fabrica clorofila e se tinge de verde; além do mais, fabrica solanina.

Para que a solanina seja prejudicial é preciso comer uma grande quantidade, porém é prudente tirar as partes verdes. O nível de solanina aumenta quando a batata é desenterrada já crescida; portanto convém cortar os olhos das que estejam armazenadas um longo período de tempo. Conservam-se melhor em lugar escuro, seco e relativamente fresco.

PPL

Os Elementos da Terra

Os elementos que constituem a Terra e aqueles que a habitam foram criados por gerações de estrelas que a precederam. A matéria do universo nasceu de forma violenta. O hidrogênio e o hélio surgiram do intenso calor da grande explosão (big bang) há uns 1,5 bilhões de anos. Os elementos mais pesados, como o urânio, sintetizaram-se graças às ondas de choque geradas nas explosões das supernovas. Violentas explosões espalharam os elementos, uma vez formados, pelo espaço interestelar. A partir das densas nuvens de gás presentes  no seio das galáxias nasceram as estrelas. Enquanto o universo em seu conjunto se expandia, produzia-se em paralelo uma mudança na estrutura microscópica da matéria. O estudo da radioatividade natural na Terra proporcionou as chaves para determinar a idade dos diferentes elementos. A composição da Terra é um produto natural secundário da geração de energia nas estrelas e dos sucessivos ciclos de seu nascimento e morte em nossa galáxia.

PPL

O Enigma de Angkor

Quando em 1858 o naturalista francês Henri Mouthot descobriu as ruínas de Angkor na selva cambojana, pensou tratar-se da obra de algum Michelângelo da Antigüidade. O que foi a capital dos Khmer do Camboja na época em que dominavam a península da Indochina entre os séculos IX e XIV d.C. , foi revelando seus tesouros, sepultados durante séculos entre a vegetação, na medida em que iam exumando seus restos as sucessivas investigações arqueológicas. O ocaso daquela civilização permanece como um dos mistérios mais enigmáticos do mundo antigo.

Agora, uma equipe de investigadores pertencentes ao Greater Angkor Project acreditam que “o próprio crescimento e impulso daquela avançada sociedade, ocasionou problemas ecológicos e de infraestrutura, que não foram previstos”, o que teria levado ao colapso e posterior queda inevitável. Curiosamente, os estudiosos apontam que estas investigações podem ser úteis para aplicar aos modernos problemas urbanos de nossas sociedades.

Os Sábios do Amanhã

Corrigir provas pode ser uma tarefa muito divertida. Tanto é assim que não resisto a tentação de fazê-los participar disso.

– As rochas sedimentárias se amontoam.

(Se é que já não há ordem em nada)

– O sistema nervoso não afeta às pessoas mais tranqüilas.

(Principalmente se já estão catatônicos)

– O elefante arranca territórios com as presas.

(Um país dura para ele uma semana)

– O ator compadeceu no palco.

(A quem ? Ao público ? Ou será que compareceu ?)

– A água está menos úmida no deserto.

(A água seca, que descoberta para os poucos higiênicos)

A Vida no Universo

Conhecemos o lugar que ocupa o homem, porém só até certo ponto. Um céu estrelado comove por igual a poetas e físicos. A observação dos raios gama e dos neutrinos provenientes da supernova da grande Nuvem de Magalhães em 1987, indica uma confirmação espetacular da teoria sobre a estrutura e evolução das estrelas. Porém há mistérios para resolver. Ao tratar da vida e de outros aspectos da natureza, nossos raciocínios incorporam um componente histórico. Alguns fatos históricos são acidentes que nunca poderiam se explicar. As Leis da Natureza nos permitem retroceder na expansão do universo até o que poderia ser um verdadeiro começo, instante em que era infinitamente quente e denso, entre 10 e 20 bilhões de anos. Do universo primitivo pode ter restado um bom número de partículas exóticas que formariam a matéria escura que aparentemente, constitui agora a maior parte da massa do universo.

PPL

Congestionamento de Tráfego das Formigas

As formigas, da mesma forma que os motoristas, odeiam o congestionamento de tráfego em suas estradas e caminhos.

Segundo um estudo publicado pela revista Nature, esses insetos trabalhadores empurram-se mutuamente quando o caminho escolhido está demasiado cheio e são capazes de buscar rotas alternativas em seu incessante trabalho para manter o fluxo estável de alimento para o formigueiro.

Renovando Neurônios

  1. Comecemos com algo macabro: de onde vem a palavra sarcófago ?
  2. Qual é o verdadeiro nome de Sardanápalo da Assíria ?
  3. Quem era o último rei de Judá, derrotado por Nabucodonosor ?
  4. E seguindo com o tema, quem profetizou seu fim sem ser ouvido ?

Respostas

  1. Do grego sarcophagos, o que consome as carnes.
  2. Asurbanipal. O outro nome foi dado pelos historiadores gregos.
  3. Sedecias, de 598 a.C. Até 587 a.C.
  4. O profeta Jeremias, que tornou-se famoso pelas notícias agourentas.

Frases – A Linguagem

A linguagem é a cidade para cuja edificação cada ser humano aportou com uma pedra.” (R. Emerson)

A sabedoria e a razão falam; a ignorância e o erro ladram. (A. Graf)

Fala, para que eu te conheça. (Sócrates)

Quem verdadeiramente sabe do que fala, não encontra razões para levantar a voz. (Leonardo Da Vinci)

Tua língua é como um leão; se a guardas te defenderá, porém se a deixas escapar acabará te devorando. (Provérbio árabe)

É mais difícil manejar o silêncio que a palavra. (G. Clemenceau)

Muitas pessoas estão demasiado educadas para falar com a boca cheia, porém não se importam de fazê-lo com a cabeça oca. (O. Wells)

Os cântaros, quanto mais vazios estão, mais ruído fazem. (Afonso X o Sábio)

Há duas coisas que sempre fazem falar: a coragem e a vaidade. (Cristina da Suécia)

Se as pessoas só falassem quando tivessem algo para dizer, o ser humano perderia logo o uso da linguagem. (W. S. Maugham)

Inventos com História – O Martelo

O martelo é um dos instrumentos mais necessários nos trabalhos manuais e ao mesmo tempo um dos mais simples. As origens do martelo precisam ser buscadas na Idade Pré-histórica; uma lenda atribui sua invenção a Ciniras, primeiro rei de Chipre, inventor lendário, por sua vez, das tenazes e da bigorna, porém indubitavelmente aquele instrumento deve ter substituído, desde o aparecimento do bronze e do ferro, aos martelos de pedra empregados desde a pré-história. Seu nome provém do latim malleus. Aparece com freqüência representado em baixos-relevos e vasos pintados, e em muitos desses monumentos como atributo de Vulcano e dos Ciclopes. Examinando os martelos que se conservam nos museus e coleções particulares, se observa que a maioria que hoje são empregados nas distintas profissões já eram conhecidos dos antigos e que essencialmente não variaram sua forma.

A clava, como na atualidade, era de madeira, ainda que também existam as versões de metal, como as de ferro encontradas em Pompéia. Eram empregadas nos trabalhos do campo, para desfazer os torrões de terra e nos diferentes ofícios em que os operários tinham que golpear sobre instrumentos de cabo, como cinzéis, etc., devido à suavidade do golpe, pelo que eram empregados pelos batedores de ouro para reduzir a folhas esse metal; e se empregavam também para alisar as folhas de papiro. Entre os etruscos aparece como atributo do Deus Caronte e de outros gênios fúnebres. Entre os celtas houve um deus conhecido como “o deus da clava”, nome que recebeu do instrumento com o qual se apresentava.

A cabeça do martelo costuma ser de metal atravessada por um furo em sua parte central, chamado olho, pelo qual entra e se firma o cabo; pelo lado com que se golpeia, chamado cabeça, é de forma prismática ou cilíndrica, e pelo lado oposto aplainada, geralmente, ainda que variam segundo os usos a que se destina. A cabeça termina em uma superfície plana ou convexa chamada boca.

Francisco Capacete

O Uso de Terapias Alternativas

Segundo uma recente investigação realizada pelo Governo norte-americano, 36% da população de mais de 18 anos usa alguma forma de medicina alternativa ou complementar. Isso confirma a crescente tendência a utilizar as formas de medicina não tradicionais, sobretudo para certo tipo de problemas de saúde, entre os quais se contam: dores na coluna e musculares, dietas, doenças relacionadas com o estresse, a ansiedade ou a depressão.

Os dados apontam que o tipo de pessoa que usa esses tratamentos se incluiu em grupos da população que são fundamentalmente mulheres e de um nível cultural alto. As terapias mais usuais são cuidados quiropráticos, massagens, yoga, meditação, produtos naturais, macrobiótica, tratamentos a laser, dietas e uma longa lista.

CA

Restos de uma Mamute de Carne e Osso na Sibéria

Paleontólogos de uma expedição franco-russa revelam em Paris o assombroso descobrimento de um mamute, morto há 18.560 anos sob as terras congeladas da Sibéria. Trata-se de um macho de uns 40 anos, com um nível excepcional de conservação que o coloca no nível dos poucos – menos de dez – fósseis de mamutes “de carne e osso” achados desde o começo do século XIX. Seu exame revela a presença de medula em seus ossos e já há opiniões sobre a possibilidade de fazer reviver um dia os mamutes por clonagem ou fecundação artificial de uma elefanta.

Por que me abandonaste ?

Um bom homem, depois de sua morte, falava com Deus e lhe explicava que se não havia sido melhor era porque tivera muitos problemas em sua vida e havia tentado solucioná-los da melhor maneira possível.

Deus lhe assegurou que o compreendia e que aplicaria sua justiça em seguida. Finalmente, lhe perguntou: Meu filho, tens alguma pergunta antes de terminarmos ?

O homem disse: Nos tempos em que as coisas iam bem, vi duas pegadas no meu caminho e sabia que estavas ao meu lado. Nos tempos ruins somente vi uma pegada. Deus meu, porque me abandonaste quanto mais necessitava de ti ?

E Deus respondeu: Olha, filho. Nos bons tempos ia a teu lado para mostrar-te o caminho correto, porém nos tempos difíceis te carreguei nos meus braços.

CA

Damas do Nilo em Barcelona

Susana Macías

Héctor Gil

Sandra Almaraz

Correspondentes da Esfinge em Barcelona

Barcelona foi uma cidade de encontros culturais durante o verão. O Fórum 2004 desenvolveu um amplo leque de atividades, algumas das quais tivemos a oportunidade de destacar em números anteriores. Outras, por falta de espaço e de tempo, ficam nas lembranças de umas visitas fugazes porém nem por isso carentes de conteúdo, como a exposição sobre Confúcio que foi apresentada até o final de agosto.

Trazemos o tema das Damas do Nilo, exposição no Museu Egípcio de Barcelona, e que o leitor poderá visitar até finais de setembro.

O Egito sempre despertou interesse e admiração em todos os momentos da história e o mesmo continua acontecendo em nossos dias. No Museu Egípcio de Barcelona podemos encontrar uma exposição dedicada às “Damas do Nilo. Mulheres e deusas no Antigo Egito”. A exposição tem como objetivo a aproximação ao papel fundamental que teve a mulher no Egito nas diversas facetas da vida cotidiana. Homens e mulheres tinham um contato tão profundo com as leis da Natureza e com o Divino, que impregnava todos os aspectos da vida. Para os antigos egípcios homens e mulheres eram o mesmo em essência, no espiritual e por isso não havia uma exclusão em palavras, deveres, direitos e poder. As mulheres no Egito podiam chegar a ocupar postos de igual responsabilidade que os homens e em ambos os casos, o requisito fundamental era uma fortaleza moral que lhes permitisse desenvolver-se em seus trabalhos atuando com um profundo senso de justiça, de bondade e de dação…

No museu se realizam diversas conferências relacionadas com a exposição que oferecem uma visão mais ampla sobre o tema. Uma delas teve como protagonista um personagem bastante desconhecido e ao qual gostaria de render homenagem como símbolo das mulheres do mundo egípcio. Trata-se de Hypatia de Alexandria, uma grande dama que devemos situar em uma época conflitiva, não no antigo Egito, mas no século IV de nossa era.

A Alexandria de Hypatia.

Fundada por Alexandre Magno no ano de 330 a.C. Alexandria chegou a converter-se em uma grande cidade cosmopolita, onde se reuniam todas as correntes do saber do Oriente e do Ocidente, diferentes cultos religiosos, e onde foram construídas as duas instituições mais importantes da cidade: o Museu e a grande Biblioteca. A união de todo este saber, a investigação e o respeito a todas as crenças, converteu Alexandria em um sonho feito realidade, que nós tratamos de recuperar em nossos dias.

Hypatia nasceu aproximadamente no ano 370 d.C. No mesmo momento da queda do Império Romano e da sucessiva expansão da religião cristã. Na época de Hypatia já não se respirava o ar luminoso de Alexandria, existia uma forte crise entre o culto cristão e aqueles que eram tratados como pagãos por suas crenças diferentes.

Em meio deste choque se encontrava Hypatia…

Filha do diretor do Museu de Alexandria, (do qual se diz que morreu de pesar), assumiu a direção do Museu; dela se conta que era uma jovem de grande beleza, profundamente inteligente, virtuosa, grande conhecedora de matemática, astronoma, geometria cônica, mecânica… Desenhou o astrolábio que servia para medir a posição das estrelas e planetas e um aparelho para a destilação da água.

Ministrava aulas em sua casa, depois que o Museu foi destruído. Andava pelas ruas conversando com todos aqueles que quisessem escutá-la e explicava os escritos de Platão, Aristóteles e outros filósofos.

Hypatia negou-se a trair seus ideais, teve a valentia de defender aquilo que mais amava, até que no ano de 415 foi assassinada por monges fanáticos da Igreja de São Cirilo de Jerusalém.

A exposição conta com cinquenta peças que procedem da coleção Jordi Clos, entre as quais destacam-se representações de deusas e rainhas, além de objetos da vida cotidiana.

Ficha da exposição

Local: Museu Egípcio de Barcelona

Endereço: C/Valencia, 284

Telefone: 93 4881 188

Web: www.fundclos.com

Antonio Machado – O Poeta do Povo

Caminhante pelos caminhos da Espanha, Machado extraiu das pessoas do povo a filosofia de vida que inspirou suas palavras íntimas, melancólicas, profundas, sutis.

Juana M. Iglesias Lladó

Em sua caminhada, a tristeza foi sua fiel companheira, a saudade de uma vida boa e verdadeira. Antonio Machado, buscador de “Deus entre a névoa”, buscador, sim; jamais possuidor, apenas filósofo.

? Tu verdad ? No ,la Verdad,

y ven conmigo a buscarla.

La tuya, guárdatela.

Nascido em 26 de julho de 1875, viveu a encruzilhada do final do século XIX com o qual não compartilha ambições e que atingiu também a Espanha. Esta Espanha que se debatia entre “a Espanha que morre e a Espanha que boceja”, em defesa da qual surgiram um grupo de heróis cotidianos que pretendiam recuperar as raízes do povo espanhol e da Espanha profunda: a Geração de 98. Os expoentes da Geração de 98 foram: Unamuno, Baroja, Azorín, Valle-Inclán, Manuel Machado e também Antonio Machado.

Não podemos enquadrar Machado em uma corrente de pensamento. Os estudiosos discutem se era simbolista, modernista, romântico ou da geração de 98. Sendo tradicional no espiritual (sua filosofia era a mesma de Unamuno), foi ao mesmo tempo inovador, bebeu de todas estas correntes, mas seguiu seu caminho pessoal. Não era um homem de escola, pois escolheu caminhar livremente. É o que nos diz neste curto, porém belíssimo poema:

Caminante, son tus huellas

el camino, y nada más;

caminante, no hay camino,

se hace camino al andar.

Al andar se hace camino,

y al volver la vista atrás

se ve  la senda que nunca

se ha de volver a pisar.

Caminante, no hay camino,

sino estelas en la mar.

Filho da cidade de Sevilha, foi o segundo de quatro irmãos no seio da família Machado. Família modesta, de tradição liberal e ligada ao livre pensamento. Seu bisavô foi filósofo e pensador. Seu  avô, Catedrático de Medicina e Ciências Naturais na Universidade de Sevilha, estava entre aqueles que foram expulsos ou demitidos devido à Restauração dos Bourbon, que em 1875 proibiu a liberdade de ensino. Mesmo destino teve Giner dos Rios,  amigo da família, criador da Instituição Livre de Ensino, peça fundamental na educação infantil de Antonio Machado.

De sua infância em uma das moradias alugadas do Palácio das Senhoras dos Duques de Alba de Sevilha, as recordações impregnaram sua poesia mais intimista. Os pátios de Sevilha cheios de luz, aroma de manjericão e hortelã, a fonte adormecida, o horto com seu limoeiro, sua laranjeira, o sol da infância, os cavalinhos de madeira da feira sevilhana.

A família mudou-se para Madri onde Manuel e Antonio, os dois filhos maiores, são matriculados na Instituição Livre de Ensino que oferecia uma educação humanista.

Seus anos de juventude

Machado tinha grande apreço por seu professor Giner, tal era o respeito que havia conquistado entre as crianças por seu método de ensino através da conversa simples que lhes estimulava a pensar por si mesmos. Logo Machado reivindicaria o diálogo à maneira socrática como a forma de alcançar de maneira compartilhada estas visões das grandes idéias e intuições.

Da Instituição também recebeu o seu dom tão característico da tolerância e do respeito pelo critério alheio, a valorização do trabalho altruísta, e porque não, este amor pela Natureza e pelos campos com os quais manteve os mais profundos diálogos.

A descoberta dos clássicos da Literatura foi devida às tardes em companhia do seu pai e da sua avó, quando liam em voz alta  Shakespeare, Dickens e Bécquer. Neste quarto sombrio começou a sonhar.

Os anos da juventude de Machado foram despreocupados e felizes. Com seu irmão Manuel viveu a boemia espanhola dos finais do século. A Madri das lanchonetes, do teatro popular, das tertúlias, das longas horas na Biblioteca Nacional estudando os clássicos, das suas primeiras colaborações na revista “A Caricatura”, com os pseudônimos de Polilla e Cabellera, ou Tablante de Ricamonte. Nestes anos também aconteceu sua experiência como ator, na qual colocou tanto empenho que até estudou anatomia para mover os músculos do rosto.

Porém este não era seu destino. Antonio tinha dezoito anos quando morreu seu pai e dois anos mais tarde perde também seu avô. Sua vida dá uma guinada e a responsabilidade familiar cai inesperadamente sobre suas costas. Os dois irmãos vão para Paris trabalhar como tradutores da editora Garnier, em edições espanholas para a hispano-américa.

Machado entra em contato com a Paris do Simbolismo e do Impressionismo. Conhece Oscar Wilde, Moreas e o mestre do ritmo e da harmonia, o homem que havia impulsionado a corrente modernista, Ruben Dario. Ruben admirou os versos do poeta espanhol e o considerou o mais intenso de todos, um homem que  escreveu pouco mas meditaou muito.

Publica seu primeiro livro

Quando retorna de Paris publica seu primeiro livro, “Soledades”, com o qual foi reconhecido por seu próprio valor e não mais como o irmão de Manuel.

Soledades causou impacto em sua época. Sua palavra diferenciava-se da poesia modernista, cheia de cor, princesas, harmonia e ritmo. Tinha cor, porém não era brilhante. Tinha versos, porém eram tênues, apagados, breves.

Soledades é todo um ensinamento, uma lição de estética. Contra o excesso de luz, o apagado; contra o brilhante, o tênue. O pequeno, o cotidiano, o espontâneo, têm infinitas possibilidades estéticas que Machado soube concretizar.

Além do mais era um ensinamento de austeridade, de honestidade. Há ternura e profundidade nesses versos que, como gotas de água, contínuas e monótonas, vão penetrando na rocha.

Soledades é o próprio retrato da alma do poeta. Um homem enamorado do pequeno, do cotidiano, que sabia fazer das pequenas experiências um ensinamento. Era além de tudo austero, nunca se preocupou muito com as coisas materiais e com a forma de vestir, sua mente e seu coração sempre estavam elevados.

Para ele, o valor sonoro da palavra, o ritmo e a rima, não eram o fundamental na poesia. Pensava que a palavra sem conteúdo, ainda que estivesse bem escrita, cansava. Por isso lia mais Filosofia que Literatura.

Dizia que a poesia era uma palpitação do espírito. O que diz a alma com sua própria voz quando se coloca em contato com o mundo. Por isso, em seu primeiro livro não havia anedotas nem histórias, era simplesmente a expressão pura de uma emoção, de um sentimento surgido em um momento do tempo, ante uma paisagem concreta.

A água, a fonte, os caminhos, o mar, eram símbolos da transitoriedade do tempo, desta vida que irremediavelmente acaba em morte. Esta finitude do tempo que causa no homem a angústia pelo anseio do eterno.

No entanto, ante a morte Machado opunha a esperança. Assim como dizia seu grande e admirado amigo Unamuno: Se o que nos espera é o nada, vivamos de maneira que isso seja uma injustiça. Conquista a eternidade quem consegue viver seus sonhos, quem  vive suas mais altas aspirações. Machado se referia aos sonhos da alma, a esta bendita nostalgia que surge do úmido rincão de nossa alma por uma vida boa, por uma vida pura, por uma vida verdadeira.

Seu mundo de sonhos

Ele chamou a si mesmo “Um homem em sonhos”, um homem para quem o sonho era um mundo e o mundo era um sonho. Com seu exemplo ensinou que o poeta não é um homem estéril que foge da vida para a contemplação de si mesmo. Para ele, a poesia era “o diálogo do Eu do poeta com seu tempo”, e talvez por esse compromisso histórico com seu presente sua voz tenha chegado tão viva e válida até nós.

Nunca se conformou com o medíocre, com o indiferente, com o tíbio. Tinha completa fé que se tinham existido mundos novos e melhores era porque pessoas tinham sonhado com eles, e que inclusive podíamos sonhar com Deus dentro de nós mesmos.

Com sua cátedra de Francês recém obtida parte da sua querida Madri e começa a peregrinar pelas terras espanholas. Seu primeiro destino é Soria, uma cidade com cerca de sete mil habitantes. Fria, de cor parda e cinzenta, com seus cafés, com seu “Cassino de Numancia”, suas tertúlias e pessoas com caráter conservador. Num primeiro momento a cidade lhe parece hostil, porém com o tempo sua alma penetrou na alma da terra. Ele era um homem intensamente sensível aos costumes, tradições e pessoas do lugar onde vivia. Os alámos da ribeira do rio Duero, manso e monótono que logo abaixo se tornava alegre, os montes calvos e os campanários com suas cegonhas deixaram indelével marca em sua obra.

Como professor era muito respeitado por seus alunos. Diziam que era um homem muito bom, não só porque não fazia exames (jamais confiou em sua eficácia), mas pelas leituras compartilhadas em voz alta daqueles livros que lhe chegavam do exterior.

Assistente habitual das tertúlias do “Cassino de Numancia”, colaborador na revista “Terra Soriana” e fundador da revista “El porvenir castellano”, especialmente criada para que os jovens pudessem expressar seu sentimento sobre a Espanha, tudo fazia de maneira anônima. Tratou sempre de passar despercebido, de maneira que para muitos era só um professor de francês de mau gosto para se vestir. Inclusive depois de ter publicado seu primeiro livro, seguia sendo o irmão de Don Manuel.

Este tempo foi de assimilação dos valores castelhanos, sair de Madri e adentrar-se em outro caminho provocou uma mudança na forma de pensar e de sentir que registrou no livro que o faria ser conhecido como um dos melhores poetas espanhóis: Campos de Castilla.

Seguindo os passos de Unamuno

Foi a passagem de uma poesia subjetivista e do intimismo ao realismo, passagem do eu para o tu. Se antes havia escolhido um caminho individualista, agora se abre para a poesia descritiva, centrada em um tema crucial: a Espanha.

Duas pessoas influenciaram fundamentalmente neste momento de sua vida. Leonor, que tocou seu o coração e Unamuno, que deu forma ao seu pensamento de Machado com sua Filosofia,.

Leonor, a filha dos donos da pensão onde residia, uma menina de 15 anos, alegre, jovial, inocente, desde o primeiro momento cativou Antonio Machado. Depois de oito meses de noivado, os sinos de Soria celebraram o casamento. Leonor foi o pilar, a estabilidade que Machado necessitou para sua evolução como poeta e como homem.

Esteve sempre preocupado com a Espanha que podia ter sido e não foi. A Espanha do homem tíbio, vazio de inquietudes, burguês.

Este hombre Del casino provinciano,

Que vio a Carancha recibir um dia,

Tiene mustia la tez, el pelo cano,

Ojos velados por melancolia;

Bajo el bigote gris, lábios de hastío,

Y uma triste expresión, que no es tristeza,

Sino algo más y menos: el vacio

Del mundo em la oquedad de su cabeza.

Em uma nação quase analfabeta, onde a ciência, a arte e a filosofia são desdenhadas como coisas supérfluas quando não corruptoras, neste povo sem ânsia de superar-se nem respeito pela tradição, nesta Espanha tão querida e tão infeliz que dá as costas à cultura, o homem que eleva sua mente e seu coração por um ideal qualquer é um herói de alentos gigantescos, sobre cujos ombros podem sustentar-se montanhas.

Este herói cotidiano, este Quixote que representava a geração de 98, era para Machado seu grande amigo, seu mestre Unamuno. No âmbito intelectual do seu tempo ninguém era tão combativo como ele. Era um Dom Quixote disposto a qualquer combate nobre. Disto necessitamos, que semeiem para não colher. Sensatos que cortam a árvore para colher o fruto existem muitos, infelizmente.

De Unamuno aprendeu a esperança no homem simples, o protagonista da “história interna”, da história que não se escreve em livros. A esperança nestes homens que não vão ao Ateneu, mas que lavram e semeiam e o fazem cantando.

Y em todas partes he visto

Gentes que danzan o juegan,

Cuando pueden, y laboran

Sus cuatro palmos de tierra.

Nunca, si llegan a um sitio,

Preguntan adónde llegan.

Cuando caminan, cabalgan

A lomos de mula vieja,

Y no conocen a prisa

Ni aún em los días de fiesta.

Donde hay vino, beben vino;

Donde no hay vino, agua fresca.

Son buenas gentes que viven,

Laboran, pasan e sueñan,

E em um día como tantos

Descansan bajo la tierra.

Neste povo estava a Espanha profunda e a tradição. Só era necessário fazer chegar às pessoas simples a cultura, que devia deixar de ser um privilégio nas mãos de uns poucos que mantinham a maioria na ignorância. Porque um povo só podia ser livre se cada um dos seus homens e mulheres fosse livre e consciente de si mesmo.

A pátria não é o solo que se pisa, a pátria é o solo que se lavra e que só se conserva com o trabalho e com a cultura.

Despertar para o domínio, oferecer ao mundo o tesouro humano da consciência vigilante.

A morte de Leonor pouco tempo depois do casamento deixa o poeta desamparado e desesperado.

Pouco depois surge, com grande êxito, seu livro Campos de Castilla. O livro serviu para que ele se elevasse acima da sua dor pessoal e trabalhasse humildemente.

Parte de Soria rumo a Baeza. Toda a sua vida consistiu em um constante caminhar, de pensão em pensão, sem um lugar fixo.

Passou por dificuldades econômicas. Tomou contato com a Filosofia oriental. Estudou grego para conhecer a fundo sua cultura, mãe das culturas mediterrâneas. E aproveitou seus estudos para obter a Licenciatura em Filosofia e Letras, título que permitiria mais uma mudança. Seu sonho era ir para Salamanca encontrar com Unamuno, mas não teve esta oportunidade. Seu novo destino seria Segovia. Dali, sempre que podia, viajava para Madri em vagões de terceira classe para colocar-se em contato com seus velhos amigos.

Fruto do caminhar, sua poesia tornou-se mais filosófica, deu origem a seus personagens apócrifos: Don Juan de Mairena e Don Abel Martín, através dos quais revelou seu eu filosófico.

Abel Martín é um poeta filosófico, um pouco mulherengo, cujo tema central era a “heterogeneidade do ser”. O amor como força que nos leva a buscar o outro, que ele chamou “la otredade” , que é o contrário do indivíduo, do eu, mas também seu complemento. O olho que vês não é olho porque tu o vês, é olho porque te vê.

Quando o Eu cria no Tu, quando o olho que vê cria no olho que olha, então será possível a fraternidade humana e Deus estará na porta.

Machado considerava que o ateísmo era a posição individualista daquele que não via além de si mesmo, e portanto não podia ver ao outro nem tampouco a Deus.

Um coração solitário não é um coração. Tudo aquilo que você guarda no menor esconderijo do seu sentir, que não seja comunicável, acabará por não ser nada.

Sua musa, já na maturidade, foi Guiomar. Aquela dama que inspirou suas Canciones a Guiomar“La Lola se va a los puertos” e que deu uma nova esperança ao seu coração.

Juan de Mairena, por sua vez, era um professor de retórica, um pouco cético e irônico. Ditava suas aulas de maneira informal, com as mãos nos bolsos, utilizando o diálogo à maneira platônica.

O dolorido exílio

Juan de Mairena aparece em um momento muito doloroso para a Espanha. Explode a guerra civil. Machado, indignado e triste, luta com mais força por sua pátria. Escreve com mais intensidade. Privado de tudo, em uma casa modesta, rodeado de bombardeios, morto de frio, segue colaborando nas revistas e jornais.

Quando o exército chega a Madri, evacuam a família e são levados para Valência. Depois de Valência, o último destino antes do exílio é Barcelona, no Bairro de San Gervasio.

Depois de um doloroso processo, não somente pelas condições físicas, mas pelo impacto sentimental de fugir da Espanha, cruzam a fronteira e se instalam em Colliure, num hotel modesto junto com sua mãe e seu irmão José. Isto ocorreu em 22 de janeiro, em 18 de fevereiro, diz ao seu irmão José: Vamos para o mar. Caminharam os dois até a praia e ali ficaram sentados em um barco que repousava na areia.

Ventava muito. Tirou o chapéu que nunca abandonava e o colocou sobre o joelho. Com sua mão sobre a bengala nesta posição tão sua esteve longas horas absorto, em silêncio, contemplando o ir e vir das ondas do mar. Três dias depois, seu coração deixava de bater.

Em sua capa o irmão José encontrou uns dos seus últimos versos, que dizia: Nestes dias azuis e neste sol da infância.

Através da boca de Mairena, ele dizia:

Eu ensino, ou pretendo ensinar, a contemplar. O quê ? O céu e suas estrelas, e o mar, e os campos, e as próprias idéias e a conduta dos homens.

Eu ensino, pretendo ensinar, a renunciar às três quartas partes daquilo que acreditam ser necessário para viver. E não pelo mero prazer de fazer exercícios ascéticos, mas para que entendam o quanto limitado é o âmbito do necessário, e por conseqüência, o quanto amplo é o da liberdade humana.

Eu ensino, ou pretendo ensinar, a aprofundar na filosofia dos antigos gregos e na filosofia oriental, muito mais profunda que a nossa. Nem uma nem outra vai induzi-los a lutar. Nesta luta para viver ou viver para lutar darwiniana, que invadiu nossas vidas.

Eu ensino, ou pretendo ensinar, que amem o próximo e ao distante, ao semelhante e ao distinto, e que o façam com um pouco mais de amor do que precisam para si mesmos.

Em nosso tempo que grita também por um novo renascimento, retomamos a voz de Antônio Machado e de todos aqueles que lutaram com ele e antes dele.

O Mistério dos Nomes no Antigo Egito

A essência das coisas ou dos seres é sua raiz misteriosa, sua identidade, seu verdadeiro nome.

Fernando Schwarz

O mistério do Ser: Nome e Potência

Helena Blavatsky resgatou do Oriente um ensinamento chamado teoria do impacto. Esta teoria parte da idéia que a consciência não pode chegar a existir senão através do cruzamento de pelo menos duas dimensões ou planos diferentes da existência. Em uma só dimensão não há contraste, não existe a relação sujeito-objeto e a consciência humana, que é dual, não conseguiria se expressar. Compreendemos a luz por meio da obscuridade, o calor por meio do frio, etc.

Portanto, a consciência humana nasce do impacto entre dois planos da realidade. É no coração desse impacto onde surge e vive a consciência. Em um só plano ou dimensão não se podem estabelecer as relações de sujeito e objeto que ela necessita para compreender e ser. Graças aos múltiplos impactos que se produzem em seu movimento, a consciência se transforma. O nível de consciência dependerá dos planos que se cruzem.

Se um plano é de cor amarela e o outro vermelho, surgirá uma consciência de cor laranja que inclui uma e outra cor, criando uma síntese que reflete indiretamente a realidade dos dois planos. A consciência humana não consegue captar a realidade em si. É impossível para a consciência chegar como tal a unidade, que consiste na fusão ou reintegração a Origem, onde desaparece a dualidade sujeito-objeto.

Os egípcios pensavam que a Alma humana, uma vez purificada e justificada no Juízo do coração, na Balança de Maat, devia conquistar sua divinização, ou seja, renascer como um Akh, ou Alma espiritual. Com isso representavam a liberação da condição humana do defunto, que passa a formar parte dos seguidores de Rá, o dispensador de Luz, o pai da Alma. A última prova ou transformação, a da fusão, a reintegração da luz divina da Alma na Luz original de Atum-Rá, é então possível. A alma renasce como Sahu.

A combinação de Sa e de Hou (Sahu) permite atuar magicamente: que a palavra se transforme em poder, que o nomeado se transforme em ato. Sahu é o máximo poder das transformações. Sua atualização na alma humana permite a fusão, e no Demiurgo, a criação e sua conservação, que é a obra de Rá.

Hou (Hu) e Sa (Sia) são duas personificações indispensáveis das potências divinas. Sa é a inteligência, o piloto da proa da barca de Rá, o que assinala a direção. Hu é o piloto da popa, aquele que tem o timão, o que transmite à tripulação as indicações de Sa, a substância, a essência da palavra ou a potência do verbo. Hu coloca em ação o pensamento através da substância, transmite e manifesta a inteligência criadora e a vontade do piloto, que sem o Verbo não pode atuar.

Estes dois componentes, que indicam a bipolaridade da alma, formam a denominação do aspecto mais sutil ou espiritual dos componentes da constituição humana, o Sa-Hu. Seu hieróglifo é o nó que fixa o homem à sua natureza divina. É o fluido magnético que integra todos os componentes da personalidade humana e ao mesmo tempo dá vida à barca de Rá. Sem seus dois pilotos, a barca não se move e não pode atuar com inteligência, nem navegar livremente no fluxo da vida.

A Teoria do Impacto

Os egípcios teriam utilizado a teoria do impacto ao explicar os diferentes renascimentos e o itinerário da ascensão da alma até sua origem. No Livro dos Mortos, o defunto atravessa os diferentes planos do Universo. Cada vez que consegue cruzar um deles, renasce em uma nova consciência que aparece como um novo veículo. Os impactos que recebe a Alma ao cruzar estes planos são as transformações ou renascimentos, personificados pelos diferentes egos ou veículos de consciência.

A consciência, para o egípcio, corresponde ao elemento que está se transformando (Kheper). É o Misterioso de muitas formas, que nunca é conhecido totalmente, e que na medida em que se aperfeiçoa, envolve-se em novas vestimentas ou formas. O defunto representa a própria identidade do ser, que corresponde à Mônada, a Unidade que atravessa matéria e espírito. Modificando-se constantemente e se identificando com as duas qualidades do Ser, que são o Nome e a Potência, Ren e Sekhem.

O peregrino que evolui é o chamado defunto. Porém com esta denominação não se nomeia simplesmente o personagem terrestre que morreu, mas aquele que guarda, por um lado, o Mistério do seu Nome, e por outro, a potência dos seus múltiplos renascimentos possíveis, tanto na Terra como no Céu. O defunto tem dois aspectos que refletem sua dualidade primordial e que atuam conjuntamente: o nome, Ren e a potência, Sekhem. É o que os orientais chamam Atma e Budhi. Não se trata de dois planos separados, mas justamente do impacto que se produz entre os dois. E esta é, segundo a tradição egípcia e hindu, a raiz do Ser.

O nome secreto

Tomemos o exemplo do impacto do grão com a terra. Quando se produz o impacto ou inter-relação entre a terra e a semente, nasce a planta, que não é semente nem terra. Ela representa a consciência que nasce do impacto entre a terra e a semente. A essência da semente, em contato com a substância da terra, produz uma nova potência, que é a planta. Graças ao impacto com a terra, a semente libera seu poder, que por sua vez a transforma e a faz renascer como planta.

A essência da semente é a raiz misteriosa, sua Identidade, seu verdadeiro Nome, que será sempre um mistério, porque a planta é somente a expressão ou personificação do seu poder, do seu Sekhem, uma forma. Uma vez terminado o ciclo de maturação, voltará a renascer produzindo novas sementes, multiplicando sua essência e seu mistério. O poder vai multiplicá-la como faz a espiga de trigo. Isto é o que se simbolizava no Egito com o rito da germinação no corpo da múmia das sementes de trigo celeste, na festa de Kohiak.

Ren (RN), o Nome, está constituído por dois hieróglifos: R (ro), que é a boca, o verbo, sobre N, hieróglifo do Noun, a água ondulada. O verbo faz surgir ou nascer a primeira vibração do Noun. A verdadeira identidade de Ren é o Verbo sobre as Águas, a boca de Rá sobre Noun, o instante que prepara a manifestação visível. O momento misterioso do qual nascem todas as coisas é o verdadeiro Nome.

Por extensão, Ren, o Nome, gerador de todo o poder, é também um estado vibratório. Conhecer o nome de um Deus ou de um homem é conhecer seu mistério. No Egito existia a noção sobre o Nome secreto ou interno, que somente era conhecido do Deus ou do Sahu que o envolve com seu laço. Quando se conquista o estado de Sahu, todos os componentes da personalidade humana se tornam uma unidade ativa que reflete o poder, Sekhem.

O Nome expressa a qualidade do que é cada coisa. Para as plantas e animais, uma qualidade genérica ou coletiva (a espécie). Para o homem, uma qualidade individual, o ser como indivíduo que se diferencia da espécie. Para os deuses, uma qualidade múltipla. Por isso os deuses podem estar simultaneamente em todos os lugares do Universo.

Cada vez que se recebe um nome, se passa previamente por um batismo, por uma purificação, seja na vida ao nascer ou na morte, através da passagem pelas diferentes fontes dos elementos. Estas purificações representam a capacidade do defunto de superar as provas dos elementos da existência. Na Terra, por exemplo, quando se unge o Faraó, ele é proclamado sob cinco novos Nomes.

O hieróglifo de Sekhem designa um cetro de mando, que pode estar associado ao remo ou timão, e outras vezes à clava que utiliza o Faraó para vencer as forças hostis que ameaçam a Unidade. O cetro Sekhem representa a coesão, a capacidade de expressar a unidade, a potência como unidade. Tem a capacidade de unir e tornar coesos diferentes componentes autônomos. É um agente que relaciona as coisas, que produz efetivamente as inter-relações.

A forma feminina de Sekhem é Sekhmet, a deusa leoa. A raiz da palavra é S-Kem, que significa o verbo queimar ou fazer queimar. Sekhmet é o fogo celeste, a esposa de Ptah, o fogo da Terra. Sua função é extrair o fogo subterrâneo das trevas para que se una à luz solar.

Todos os Neter (deuses) são forças sekhem: Re é uma força sekhem no Céu.

Sekhem não é só um poder do Nome, mas o lugar onde o Nome tem poder.

Sekhem é também, aparentemente, uma região no Céu. A finalidade da alma é chegar a um lugar que é sinônimo da potência incorpórea que é Sekhem. É ali onde vive Hórus. Os chefes de Sekhem são Hórus e Toth. Sekhem é o Lugar da Cerimônia dos Mistérios. Em Sekhem, Hórus toma posse da sua herança. Sekhem é o lugar do renascimento dos deuses.

No papiro de Nebseni, em Sekhem se produz a iluminação do mundo, pela luz irradiada do sarcófago de Osíris. A luz do sol se eleva do sarcófago como a alma que renasce no horizonte oriental, depois de todas as purificações. Entro em Sekhem e saio como um espírito puro. (Livro dos Mortos, LXIV, 29)

Bibliografia

– Livre dês morts. Traduzido ao francês por Paul Pierret. Ed. Ernest Leru, Paris, 1882.

– El Livro de los Muertos, Ed. José Llanes. Barcelona, 1953.

A Teoria da Relatividade

Aparentemente é algo simples, mas ao mesmo tempo complexo, difícil de entender e mais ainda de explicar. Tudo começou com uma pergunta: que é a luz ?

José Escorihuela

A luz que nós vemos é tão somente uma pequena porção do espectro invisível que toda a radiação eletromagnética comporta desde as microondas que concentram uma grande energia até as ondas de rádio de grande longitude. A luz é misteriosa porque participa de uma dupla natureza, é uma onda, porém também é uma partícula que se conhece como fóton. Quando se transmite funciona como as ondas da água quando lançamos uma pedra em um tanque, mas quando se choca com um objeto que não pode atravessar atua como um corpúsculo. Este é o primeiro princípio de um longo desenvolvimento conhecido como mecânica quântica, teoria na qual paradoxalmente Einstein nunca acreditou, apesar de ser considerado um dos seus fundadores. As conclusões da mecânica quântica referem-se a indeterminismo e casualidade no mundo microscópico, e a visão pessoal de Einstein concebia o contrário: finalismo, causalidade, leis em toda a Natureza.

A luz existe porque se move, porque vibra. No preciso momento em que deixe de se mover converte-se em um corpo negro, pois absorve toda a luz e não emite nada. O movimento contínuo deste espectro eletromagnético traduz-se em energia. O universo, por estar repleto de ondas eletromagnéticas, está cheio de energia.

Imaginemos que dois golpes consecutivos são dados sobre uma parede. Parecerá que os dois golpes foram dados no mesmo lugar, porém não é assim. Pensando que estamos sobre um planeta em movimento ao redor do Sol, que nosso Sol está movendo-se na galáxia, em um dos confins mais distantes, e que nossa galáxia se dirige para a constelação de Hércules, evidentemente os golpes não foram dados sobre o mesmo lugar físico, geométrico, pois este se moveu. Para um observador comum foram dados no mesmo lugar. Einstein desejava encontrar estes invariantes, estes absolutos, estas referências a respeito das quais medir tudo o demais, como neste caso particular dos golpes na parede.

Tais golpes são dados no mesmo lugar para o meu ponto de vista, pois o sistema de referência que eu utilizo sou eu mesmo, mas isto não se dá em relação ao centro do Universo, porque este lugar físico onde impacta o golpe moveu-se no espaço. Na realidade, a referência a seguir seria um ponto do Universo que permanecesse estático (seu centro ?) provavelmente muito afastado de nós. O problema de nosso mundo é que tudo se move em relação a tudo, tudo vibra, como a luz, este espectro eletromagnético de energia que se desloca por todo o universo à velocidade limite.

Ao questionar-se sobre o mundo da luz, Einstein chegou à conclusão que nossos sentidos nos enganam, mas que este engano faz parte da própria Natureza e de sua forma de manifestar-se.

E esta aparente ilusão com que nos enfrentamos ante a realidade existe tanto no plano físico como no psicológico e no mental. Nossos sentidos e nossas maneiras de entender a realidade estão cheias de subjetivismo. Então, em que podemos nos apoiar ? Existe alguma certeza objetiva, alguma lei inamovível ? Na realidade, Einstein nunca acreditou nesta aparente relatividade (“tudo é relativo”), e se dedicou à busca dos referenciais físicos inamovíveis.

Quando o senso comum não encontra respostas na Natureza, é preciso lançar mão da Matemática e da Física como instrumentos.

O problema clássico do trem

Vamos nos imaginar viajando em um trem, no vagão central, lendo tranqüilamente nosso jornal. Imagine que projetamos com uma lanterna, desde o vagão central, dois feixes de luz, um para o último vagão e outro para o vagão do maquinista. Para o passageiro do vagão central, os dois feixes de luz chegam ao mesmo tempo tanto em um extremo como no outro do trem. Evidentemente, percorreu o mesmo espaço. Porém, que conclusão tiraria um camponês que vê passar o trem do exterior ? Verá que o feixe de luz que vai para o último vagão chegará antes à parte traseira do trem, porque esta se aproxima do raio de luz. E demorará mais para chegar o feixe de luz que vai para o vagão do maquinista, porque este está afastando-se do raio de luz com a velocidade própria do trem. Evidentemente, tanto o passageiro como o camponês têm razão. O que é simultâneo para o passageiro não é para o camponês. Então, as leis da Natureza são diferentes para os dois observadores ? Tudo é relativo para cada observador, porém a lei deve ser a mesma, neste caso a lei da propagação da luz com velocidade uniforme e constante.

Como é possível que a luz chegue e não chegue ao mesmo tempo nos dois extremos ?

Einstein começa por questionar o conceito mais inabalável em nós: o tempo.

O tempo não é absoluto, é relativo. O tempo é diferente para o passageiro que está no trem e para o camponês que o observa; cada um tem o seu tempo. O tempo é diferente para cada observador, é plástico, elástico. Existe um tempo próprio para cada era geológica, para época histórica, para cada ser humano. Como vivemos em um mundo macroscópico onde as velocidades não são como a velocidade da luz, nossos tempos são aparentemente iguais. Em um caso real como o que vimos anteriormente, o camponês e o passageiro praticamente não encontrariam diferenças entre os raios de luz que vão em direções contrárias. Outra coisa aconteceria se o trem se deslocasse a uma velocidade quase igual a da luz e nossos sentidos estivessem preparados para perceber nestas circunstâncias. Se vivêssemos em um universo onde fosse possível nos mover em velocidades tão altas como as das partículas de luz, o tempo acompanhando o movimento destas partículas e o tempo em repouso seriam diferentes.

A Teoria da Relatividade se baseia em três princípios: a não existência de sistemas de referência privilegiados em nosso mundo manifestado, a relatividade do tempo e a constância da velocidade da luz. Este último princípio é um tanto quanto paradoxal. Imaginemos uma escada mecânica. Se permanecemos parados sobre ela, nossa velocidade relativa em relação ao solo será a velocidade da escada, porém se subimos por ela em uma determinada velocidade, a velocidade em relação ao solo será a soma de ambas e nos afastaremos do solo com maior velocidade. Mas, que aconteceria se a velocidade da escada fosse a velocidade da luz ? Usando a lógica anterior, se subíssemos andando por esta escada a velocidade resultante seria superior a da luz. Mas é impossível superar a velocidade da luz, por muito que corrêssemos sobre esta escada mecânica o esforço seria inútil. É um limite, como dizia Einstein, até que a natureza se canse dos seus próprios limites.

Foram feitos muitos experimentos para encontrar a verdadeira velocidade da luz, tanto indo a favor como contra a velocidade da Terra. São famosos os experimentos de Michelson-Morley na cidade de Chicago, por volta de 1900. Inclusive chegou-se a paralisar a cidade para que nenhuma vibração alterasse estes experimentos de alta precisão e obteve-se a conclusão de que a velocidade “c” da luz era uma constante.

Em relação ao tempo, foram feitos experimentos em aviões supersônicos com relógios atômicos. Se em um avião que supera a velocidade do som colocamos um relógio atômico, e o sincronizamos com outro sobre a Terra, ao aterrissar o relógio do avião sofre um atraso de alguns milionésimos de segundo. Em velocidades próximas à velocidade da luz, o tempo se dilata. Vários exemplos servem para explicar estes paradoxos do tempo. Consideremos dois fumantes, um no centro de uma via circular e outro dentro de um trem que circula a altíssima velocidade. A conclusão a que chega o fumante estático no centro da via é que o cigarro do viajante deve ser de melhor qualidade, pois dura mais.

Tudo isto evidentemente não podemos vivenciar, porque nos movemos em um mundo macroscópico onde alcançar estas velocidades tão altas requereria energia superior aquela que um ser humano pode gerar. Mas atualmente temos a oportunidade de trabalhar no mundo das partículas atômicas, nos aceleradores de partículas. Neste ambiente se observam fenômenos relativísticos extraídos das equações da Teoria da Relatividade. Por exemplo, podemos ver como a massa das partículas nestas altas velocidades aumenta ou como seu comprimento se contrai.

Na realidade não é que nestas velocidades os objetos pesem mais ou mudem suas característica físicas. Eu peso o mesmo sobre uma balança a esta velocidade ou sobre outra que permaneça parada, porque o observador sou eu. O problema surge ao comparar o mesmo fenômeno, visto por dois observadores em estados diferentes. O verdadeiro relativismo implica a existência de dois pontos de vista diferentes.

Recordando a época em que foi publicada a teoria da relatividade restrita, foi um breve manuscrito de poucas páginas, porém causou uma verdadeira comoção entre a elite científica.

Muitos se mostraram céticos. Mas outros, como Madame Curie, chegaram a catalogar Einstein pela primeira vez como o maior físico do século XX.

A Virgem, o Menino e Santa Ana

Leonardo da Vinci

Museu do Louvre

Guiomar

Temos neste quadro um magnífico exemplo de composição piramidal, além de um rico simbolismo. O vértice está fixado na cabeça de Santa Ana, e a linha desce reta pelas outras cabeças, enlaçadas também pelos olhares, em um continuum perfeito. Santa Ana olha feliz para Maria, e esta olha o Menino amorosamente, o Menino olha sua Mãe, e o cordeiro também olha o Menino. A Santa não toca em Maria, porque sua missão já foi concluída; Maria sim agarra o seu Filho, tentando em vão retê-lo, enquanto o Menino tende para o cordeiro, que é prefiguração do seu sacrifício.

Os pés formam uma graciosa curva que suaviza o final do quadro, e que, como acontece com A Virgem das Rochas, aproximam-se perigosamente do abismo que simboliza a morte.

A posição de mãe e filha é muito forçada; incômoda e antinatural pela idade de Maria, somente pode ser entendida em uma chave simbólica: a filha surge do seio de sua mãe e está muito unida a ela, enquanto que o Menino, desde o primeiro momento, é independente devido a sua missão na Terra.

A paisagem é convencional e pintada em um belo sfumatto, que a coloca como um cenário onírico, simples moldura para a cena religiosa. As rochas, mais desenho que pintura, parecem inacabadas, o que acentua a impressão irreal. A paleta é fria, com os ocres avermelhados exatos para vivificá-la.

É conhecida a existência de um trabalho preparatório de 1500 ou 1501, retomado em 1508-1510, e não terminado. O quadro, alguns anos posteriores, foi retomado do zero.

Um Pequeno Engenheiro

Protagonistas de incríveis façanhas, as formigas possuem um fantástico comportamento social que desperta admiração e surpresa.

José Manuel Escobero Rodríguez

Lares de Madeira:

Existem numerosas espécies de formigas que utilizam um singular tipo de formigueiros. São aquelas que, por diversos métodos, encontraram uma forma de simbiose com alguns vegetais, estabelecendo uma relação tão estreita quanto incomum no resto do mundo vivo.

Basicamente, existem dois tipos de plantas que abrigam colônias de formigas. A esta relação simbiótica denomina-se “mirmecofilia”. Os vegetais oferecem ao formigueiro amparo e proteção, além de certas doses de alimento.

Em contrapartida, a planta obtém principalmente alimento destes insetos. Em sua maioria são plantas de vida epífita,  que vivem sobre outras plantas, e que portanto não têm a sua disposição um solo nutritivo que as alimente. Também ocorre o caso dos vegetais de zonas desérticas e pantanosas que crescem sobre substratos pobres e arenosos.

Entre os exemplos do primeiro caso, plantas que amparam as formigas em troca de proteção, assinalamos um em especial.

As formigas do gênero Pseudomyrmex, por exemplo, mantém uma cordial relação com as árvores do gênero acácia. A acácia, da qual se conhecem 750 espécies, fabrica para se defender espinhos que se intercalam entre sua folhagem. A maioria das espécies engrossam a base destes espinhos, oferecendo assim um lugar propício onde se instalam as Pseudomymex. Cada espinho alcança um volume interno de 7 cm3, e as formigas ocupam tantos espinhos quantos sejam necessários para acomodar toda a colônia, formada por uns 30.000 indivíduos. As formigas patrulham constantemente a árvore, dia e noite, e a salvam não somente do ataque de insetos, mas de outras plantas epífitas ou parasitas, como também de cogumelos. A saúde da árvore, graças a estes diminutos seres, é perfeita. Em troca, a árvore dá, além de refúgio, alimento. Neste caso, a genialidade construtora dá lugar a um senso prático que substitui o trabalho de edificação pelo aproveitamento da situação presente.

Há casos de plantas que as formigas se encarregam de alimentar e que produzem tubérculos, rizomas ou folhas grossas nas quais aninham-se as formigas. Em alguns casos as formigas escavam no tecido da planta; em outros casos o vegetal cria o ninho e as formigas só necessitam abrir a entrada dessas estruturas, nas quais depositam excrementos, urina e alimentos. A planta toma os nutrientes que necessita destas substâncias em decomposição. Demonstrou-se que o enxofre, fósforo e carbono dos alimentos acumulados pelas formigas aparecem nos tecidos da planta na qual habitam. A presença de numerosos estomas nas câmaras destas plantas sugere também que o dióxido de carbono, liberado durante a respiração das formigas, pode ser absorvido e utilizado durante o processo de fotossíntese. Nas câmaras que contêm os dejetos das formigas crescem raízes, que os absorvem diretamente como nutrientes.

O caso mais bem estudado é o da Mymecodia tuberosa, planta epífita do sudeste da Ásia e norte da Austrália, que se especializou tanto nesta simbiose que diferencia seus tecidos internos para favorecer a instalação das formigas. Possui um enorme tubérculo com numerosas câmaras, umas enrugadas e escuras e outras lisas e claras. As formigas vivem nas câmaras de textura lisa, depositando excrementos e lixo nas câmaras escuras.

O desenvolvimento deste tubérculo é uma resposta direta à colonização da formiga. O ciclo se fecha com o tipo de semente que gera a Mymecodia. Possuem sementes muito desejadas pelo inseto, que armazena nos tubérculos onde as formigas se encarregam para que germinem.

Horta Subterrânea

Outro tipo de formigas utiliza de maneira muito diferente as árvores. As formigas conhecidas como “guarda-sol” recebem este nome pela forma curiosa que adotam em seus deslocamentos. Correm tronco abaixo com um pedaço de folha cortada preso entre as mandíbulas, como se fosse uma sombrinha. Mas não agem assim para evitar o calor do sol. Na realidade estão carregando folhas para suas hortas particulares.

Os gêneros Atta e Acromymex são um tipo de formiga que se dedica, milhares de anos antes do homem à agricultura. Ainda que deveríamos inventar a palavra “micocultura” para elas (de mycos, cogumelo). Ambas sobem ao teto da selva e pedacinho por pedacinho, desfolham árvores inteiras para levar as folhas para seus ninhos. A formiga atta estabeleceu uma relação simbiótica com algumas árvores, como a embaúba, já que esta árvore tolera a presença das cortadeiras, oferecendo inclusive no interior do seu tronco cavidades que as formigas utilizam como formigueiro. É um arranjo lógico, já que em troca do corte de parte de sua cobertura de folhas, a colônia de formigas mantém perfeitamente saneada e limpa a árvore. A acromymex, no entanto, converte-se onde quer que apareça em uma verdadeira praga.

Em ambos os casos, a arquitetura que estas formigas utilizam em seu formigueiro é destinada a abrigar câmaras de amadurecimento e frutificação de um cogumelo, do qual se alimentam. A atividade da atta começa na época chuvosa, quando os machos e as fêmeas aladas voam e se acasalam. Pouco depois, os machos morrem e as fêmeas caem ao solo, perdendo as asas. Porém as fêmeas levam uma bagagem em seu vôo. Antes de partir, recolheram cuidadosamente um pedaço do cogumelo Rhozites gongylophora das câmaras de cultivo, como se fosse um enxoval de núpcias.

Cada rainha, no solo, coloca excrementos sobre a haste do cogumelo e o enterra 10 a 30 centímetros sob a superfície. Depois de 3 dias, a formiga começa a colocar 10 ovos diários durante 10 ou 12 dias, alimentando-se com até 90% destes ovos para produzir um substrato adequado para o cultivo do cogumelo. As primeiras larvas aparecem depois de 2 semanas e a fêmea as alimenta com ovos até que se tornam pupas depois de 2 semanas. As primeiras formigas operárias saem depois de 10 a 12 dias e se alimentam do cogumelo. Estas escavam, aumentando o formigueiro, e depois de 7 semanas abrem um olho até a superfície. Conforme a colônia aumenta, também cresce a diferença morfológica destas formigas. Existem dentro do mesmo formigueiro exemplares centenas de vezes maiores que seus irmãos. Esta diversidade de tamanho é ditada pela especialização no trabalho.

As formigas operárias, de grande tamanho, saem para cortar folhas ou outros materiais, que as carregadoras levam às jardineiras, que por sua vez preparam uma pasta que utilizam como substrato para o cultivo dos cogumelos. Estas jardineiras são diminutas. Não podem ser de outra maneira, já que somente assim cabem no interior das câmaras de cultivo, e podem espalhar-se sem temor de danificar o mais precioso tesouro da colônia: o cogumelo.

As formigas soldados, com mandíbulas gigantescas, vigiam e protegem o ninho. A rainha é a única fêmea reprodutora na colônia, e se encarrega da postura dos ovos. As larvas se alimentam unicamente do cogumelo, as operárias cortadeiras, de seiva e do cogumelo. As babás e jardineiras são as menores trabalhadoras, e as cortadeiras e os soldados os maiores.

Para sair ou chegar ao ninho percorrem um longo caminho bem marcado e livre de vegetação, assinalado por feromonas e pelo contínuo tráfego.

No interior do formigueiro se distribuem pequenas câmaras onde prosperam os jardins de cogumelos. Estes necessitam cuidados especiais e sobretudo uma temperatura que varia entre 24º C a 30º C. Outro cogumelo que cultivam é um basidiomiceto do grupo dos agaricales, uma das espécies mais conhecidas é o Rhozites gongylophora. Há uma simbiose estreita entre o cogumelo e as formigas cortadeiras. O que utilizam como alimento são as formações que aparecem sobre o micélio, pequenas inflorescências chamadas gôngilos. As câmaras de cultivo dos cogumelos são atravessadas por galerias, orifícios e túneis, o que facilita a circulação do ar e o controle da temperatura.

No exterior do ninho pode ver-se um montículo de cor ocre, que se denomina “lixeiro”. Ali se depositam todos os dejetos, que dia-a-dia as operárias tiram para fora, mantendo o cultivo de cogumelos escrupulosamente limpo e sem contaminação.

Estas formigas produzem um som que dá o sinal de alarme ante um perigo para colônia, o que estimula todas a se reunir. Além disso, há uma série de feromônios que em seu conjunto mantém a coesão dos indivíduos. O bom crescimento do cogumelo se deve também aos feromônios que segrega a glândula metatorácica, como a mirmicasina, que atua como herbicida, evitando a proliferação de cogumelos inferiores, o ácido indolilacético, que fomenta o crescimento do cogumelo, e o ácido fenilacético, que mantém a cultura de cogumelos livre de bactérias.

O homem ainda não pôde ter cultivos livres de pragas e experimentou as substâncias que produzem as formigas para melhorar seus herbicidas. Novamente, os insetos ensinam algo.

Todos sabemos que as formigas lutam entre si. Quando um formigueiro detecta a presença de congêneres de distinto parentesco nas proximidades, organizam uma expedição de extermínio e, ou canibalizam as invasoras, ou as convertem em escravas. Somente formigas engendradas dentro do mesmo formigueiro, salvo raríssimas exceções, não se agridem até a morte.

Além do mais, como são clones da mesma mãe, todas as formigas compartilham igual carga genética, coisa que ocorre na maioria dos insetos sociais. Por isso cunhou-se o termo “super-organismo” para definir uma multidão de seres individuais idênticos e que funcionam como um só.

Considerando todo um formigueiro como um mesmo ser vivo, teremos uma surpresa de tamanho quilométrico.

Uma Surpresa Gigantesca

Há oitenta anos chegaram à Espanha, procedentes da América do Sul, diminutas invasoras. Tratava-se da formiga Argentina (Linephitema humile), de apenas 1,5 a 3 mm de comprimento. Esta formiga se adaptou bem ao clima europeu meridional, especialmente na área mediterrânea. Muito organizadas, cooperativas e sistemáticas, as formigas estrangeiras revelaram-se mais evoluídas socialmente que suas adversárias, impondo-se sobre elas sem que aparentemente influísse de maneira negativa o seu reduzido tamanho. Este “impor-se”, no mundo das formigas, significa que as espécies autóctones de formigas européias foram pouco a pouco sendo sistematicamente varridas dos seus nichos naturais. Expedições sistemáticas de exploração e conquista impõem a formiga Argentina, ali onde antes havia outros formigueiros de espécies distintas.

A introdução de espécies estrangeiras não é um problema novo, e a seu estudo se dedicam muitos cientistas. O mundo da entomologia não é alheio a esta problemática e um grupo de cientistas do Instituto de Ecologia da Universidade de Lausanne, na Suíça, junto com especialistas franceses e dinamarqueses, seguem a pista de nossas amigas. Este círculo de especialistas, liderados por Laurent Séller, efetuou recentemente o que pode ser a descoberta mais sensacional do século no campo da Zoologia. Eles seguiram a pista de formigueiros gigantescos compostos por um número de entradas que oscilam entre cinqüenta e cem, que podiam chegar a estender-se até aproximadamente um quilômetro. O que comprovaram no caso da Linephitema humile deixou os especialistas profundamente impressionados.

Tentando descobrir a extensão da invasão, deparam-se com o que constitui provavelmente o maior super-organismo da Terra. Existe um formigueiro contínuo de Linephitema humile de mais de 6.000 Km de extensão. Efetivamente, uma enorme colônia de formigas argentinas se estende na atualidade desde a Itália, pelo Mediterrâneo, Gibraltar e a costa atlântica da Península Ibérica, até a Galícia. Um indivíduo tomado de qualquer ponto desta gigantesca sociedade pode ser transladado a qualquer outro sem que seja atacado, experimento que realizaram com mais de 5.000 indivíduos tomados de 33 pontos da Itália, França e Espanha. Desta maneira descobriram a enorme extensão deste monstro. E a colônia, organizadamente, expande seus domínios a cada dia. É difícil imaginar uma sociedade humana que funcione tão bem. Até nas menores, uma família, por exemplo, existem problemas de convivência, quando não franca hostilidade. No caso estudado pelos cientistas, milhões de formigueiros são capazes de administrar sua vida como um só, sem atritos, sem choques, sem exclusões, cooperativamente.

A baleia azul mede 30 metros e pesa 150 toneladas, e as sequóias da Califórnia podem chegar a medir cem metros de altura. Samuel Chiltern, da Universidade de Yale, defendeu há tempo a existência de um “super-cogumelo” que pesaria 10.000 toneladas e se estenderia por dez milhões de quilômetros quadrados entre a Virgínia ocidental, nos EUA, até o Canadá e o Alasca. Agora, vários bilhões de formiguinhas acabam de elevar-se ao primeiro lugar do pódio do Livro Guiness dos Records.

Ainda que não tenhamos terminado de narrar as incríveis proezas dos pequenos invertebrados, convém seguir nossa jornada pelo reino animal, e lançar um olhar para as artes de construção dos peixes. Em nossa próxima edição seguiremos surpreendendo-nos com este afã construtor universalmente presente neste mundo. Conhecem as aptidões de construtores dos peixes e anfíbios ?

Dossiê

Virgens Negras

Autora: Paloma de Miguel

De conteúdos simbólicos ancestrais, relacionadas com crenças celtas e pré-celtas, cristãs-visigóticas, presentes tanto na rota Jacobea como nas lendas dos Cavaleiros Templários, as virgens negras seguem recebendo cultos populares, oferendas de ramos de flores monárquicos e até presidindo casamentos reais.

Sumário:

– Entre a história e a tradição

– A mãe negra

– Aproximação simbólica

– A lua obscura e suas representações

– Psicologia das deusas negras

– Virgens negras na Idade Média

– Lendas e mitos

– A virgem de Almudena

– A Senhora do Atochar

– Sobre o culto à tradição monárquica

Entre a História e a Tradição

Vinculadas a um ambiente de cavernas, montanhas, árvores, poços e cursos d’água, se integram com a Natureza e parecem reinar dentro dela.

Aqueles que já se sentiram atraídos por imagens de virgens negras concordam am assinalar alguns aspectos que as diferenciam de outros tipos de representações da virgem, como por exemplo, o fato de que foram intencionalmente fabricadas negras. Sua cor não é fruto da ação do tempo ou da exposição aos círios como já se cogitou. Nas representações autênticas, o rosto e as mãos da mãe e do filho são negros ou estão pintados de negro, enquanto o traje está pintado de várias cores.

Caracterizam-se por serem pequenas esculturas de madeira que normalmente não excedem os 70 cm de altura por 30 cm de largura e 30 cm de profundidade. Estão sentadas em um trono com o menino sentado no colo ou, mais raramente, sobre o joelho esquerdo. Às vezes o menino tem um livro fechado na mão esquerda e seus traços costumam ser menos detalhados que os da sua mãe. Esta mantém uma expressão corporal e facial hieráticas. Firmes e relaxadas ao mesmo tempo, as estátuas transmitem poder. Seu olhar se dirige para diante e é ao mesmo tempo sereno e distante.

Às vezes se aprecia um certo toque oriental. Suas lendas se referem ao Oriente, a Bizâncio, de onde iriam para diversos pontos do mundo cristão. O cristianismo atribui lendariamente a São Lucas a imensa maioria das virgens negras, com o que dirige nossos olhares para a Ásia Menor. No entanto, este fato sem dúvida tem uma interpretação simbólica. O Oriente também aparece nas menções de que foram os cruzados que as introduziram em seus países de origem quando regressaram.

Historicamente podemos situar seu apogeu entre os séculos XI e XII, raramente são encontradas no século XIII. Artisticamente pertencem ao românico. Aquelas que foram feitas durante o período gótico possivelmente sejam novas representações que fazem referência a imagens anteriores. Assim como as imagens cuja lenda remonta a períodos anteriores a estes séculos podem estar evocando estátuas cristianizadas, quando não a própria imagem de cultos pagãos mais antigos. Porque, ainda que as virgens negras freqüentemente sejam encontradas por vaqueiros ou por pastores, seguramente o centro de reverência original corresponde ao enclave onde, no passado, se venerava uma divindade pagã de antiqüíssima tradição e alvo de peregrinação há séculos. Estão vinculadas a um ambiente de cavernas, montanhas, árvores, poços e cursos d’água. Na França foi comprovada sua vinculação a dólmenes e outros monumentos megalíticos. As virgens negras se integram com a Natureza e parecem reinar dentro dela.

É na França onde se encontraram tradições subjacentes a seus festejos de origem distante, relacionadas com remotas cerimônias celtas em honra de uma deusa mãe, como as oferendas de rodas de cera e velas de cor verde.

Os estudiosos franceses destas imagens destacam sua reaparição na Idade Média, coincidindo com o cruzamento de diferentes correntes culturais em um momento histórico próximo ao primeiro milênio. Um momento onde conflui a tradição celta cristianizada, a cristã visigótica e as tradições romanas do oriente e do ocidente em uma síntese, realizada pelas ordens monásticas, por São Bernardo (figura chave na expansão do culto mariano) e pelos Templários.

Com a ascensão dos Beneditinos, unindo as correntes anteriores, acontece uma consolidação da infra-estrutura da rota Jacobea, tais como albergues e hospitais. Posteriormente, magníficas catedrais consagradas à Nossa Senhora abrigarão algumas destas imagens ou suas réplicas. O impulso artístico nos oferece duas facetas: a da expressão arquitetônica, escultórica e a do conteúdo subjacente. Muito se falou das confrarias de construtores, conhecidas sobretudo a partir do românico e que começaram a fazer falar as pedras, deixando sua assinatura impressa em grandes obras, alcançando a eclosão final no gótico. Sob as cenas evangélicas e fábulas bíblicas se encontram alegorias gnósticas, astrológicas e alquímicas. Os animais fantásticos e motivos vegetais não são adornos, mas imagens que transmitem uma mensagem. Estamos muitas vezes diante de grandes símbolos e como é próprio desta categoria, são símbolos universais. Portam conteúdos arquetípicos.

Aparentemente são três as confrarias de artesãos que se conhecem. Os Filhos do Padre Soubise que, sob a proteção beneditina,  ergueram monumentos românicos; os Filhos de Salomão, relacionados com a Ordem Cisterciense e portanto em relação mais ou menos direta com os Templários, considerada como impulsionadora do Gótico; e os Jacks, ou Filhos do Mestre Jacks ou Jacques, relacionados com as catedrais de Chartres, Amiens e Reims, além de muitos edifícios do Caminho de Santiago. A este último grupo se atribuiu grande parte da transmissão de conteúdos simbólicos ancestrais, relacionados com as crenças celtas e pré-celtas que aparecem ao longo de toda a rota Jacobea, sincronicamente vinculados às virgens negras.

Virgens Negras – A Mãe Negra

O negro representa a fecundidade, o trabalho oculto e secreto em que as coisas são gestadas até que chega o momento de sua manifestação.

Tanto o negro como seu oposto, o branco, são cores limite. Um representa a ausência de cor e o outro a síntese de todas as cores. O negro está associado às trevas primordiais, à indiferenciação dos inícios, aos abismos do céu e da terra, ao profundo onde todos os elementos parecem unir-se. Assim, representa o Caos, que tudo contém em potência e onde todas as coisas são possíveis. O negro e o branco foram associados à morte como umbral e elemento de confluência e, ao mesmo tempo, da partida para uma nova mudança, uma mutação e uma transformação. O negro é a cor da noite, da obscuridade, da não-luz e do tempo anterior à luz. O negro representa também a dissolução e a putrefação onde os elementos que se separaram podem reunir-se e germinar sob a ação da umidade, aparecendo de novo à luz. Esta faceta de ocultamento da obra, que se realiza além da visão porém que no entanto acontece, é o que se associou à fecundidade e o trabalho oculto e secreto em que as coisas são gestadas até que chega o momento de sua manifestação. Assim, o negro foi associado ao Yin, o aspecto feminino da Natureza.

Esta qualidade de potencial germinativo é a que faz com que se considere o Caos como receptáculo em que germinam as formas com as leis que as regem. Esse negro, feminino, potencial, conteria em si a semente das coisas sujeitas a ritmos, representações e transformações.

Aproximação simbólica

No aspecto de receptáculo a mãe é o Grande Útero feito de vida e a própria vida em seu potencial de gestação, o grande atanor que possibilita as mudanças. Por isto foi imaginada como uma Grande Potência que ilumina e acolhe os universos, os mundos e todos os seus seres, de todas as ordens e de todas as categorias. Tanto animais como vegetais e com eles as Leis que regem seus processos vitais.

Foi personificado na Magna Dea, a Deusa, a Grande Mãe, Aditi, Maha Sackti para o Oriente, força vital que gesta, mantém, sustenta. Força que anima e unifica e que, sendo Ela oceano vital, conduz os seres imersos em suas correntes através dos movimentos de águas da vida.

Um dos seus símbolos é o caldeirão, o cálice, a taça, o receptáculo que contém. Outro, as Águas, as Grandes Águas de seu imenso e profundo seio que correm até o fim do céu e até o ponto mais distante dos oceanos. É a potência que está mais além das águas e ao mesmo tempo é a própria água. Por isto é o movimento, o ritmo, o ciclo, a maré que lança os seres para alimentá-los de sua essência, para permitir a eles existir nela mesma e para reuni-los novamente em seu seio.

Sendo as águas do espaço, constitui este imenso oceano que espera o alento divino para se ativar. Sendo a onda que regenera, recolhe  todos os seus filhos no final dos ciclos da vida, seja na longa duração do tempo dos sóis ou no breve momento da pequena partícula. Expressa, realiza, recolhe, reúne. Então é a morte. A pequena morte de cada ser e a Grande Morte que devolve a Criação ao silêncio original.

Ela que oferece as condições para a vida não é afetada por elas. Por isto foi concebida como a Mãe Virgem, intocada e intacta durante a eternidade antes da Criação. Como Caos Primordial é a Mãe da Luz, como Corpo do Espaço em que nascem, flutuam e morrem os Universos, a Mãe do Cosmos, dos Sóis e dos Mundos com seus seres. Por isto é a Rainha de Toda a Natureza. Por isto foi chamada a frutificadora, e os vegetais, animais e homens surgem dela e dela se alimentam. Por isto foi representada com o menino divino em seus braços, seu fruto, que representa a todos, os grandes seres e os pequenos seres. Todos somos o Filho.

Foi associada à Terra e à Lua. Como essência gestante é a potência ctônica que acolhe os mortos e os conserva, como as sementes caídas que dormem em seu seio pelo tempo necessário. Assim se imaginou que as grutas e cavidades são portas que conduzem a um ponto central no mundo inferior, onde reina e vela por suas criaturas, outorgando-as o tempo do sonho e o tempo do despertar.

Quando foi relacionada com a Lua, também vinculada desde tempos imemoriais com o tempo, os ritmos vitais, as águas, as marés, a umidade, a fecundidade e a dualidade. A Lua tem uma face de luz e um lado de obscuridade nunca alcançada pelo Sol, eternamente sombria e imutável, enquanto que a face luminosa está sujeita a diferentes expressões de luz.

Aos seres humanos custa muito esforço a visão unificadora e integrada. Nossa mente tende a separar as coisas em oposições, podemos entender a interação dos pares como complementares mas a maioria das vezes só compreendemos a disjunção e o conflito da dualidade. Assim, o simbolismo da mãe negra serviu em muitas ocasiões para expressar aspectos que consideramos pejorativos.

A Lua obscura e algumas de suas representações

A Grande Mãe, Caos, Noite Cósmica, útero e recipiente da vida é abismo oceânico, o seio da Terra e da Lua. Seus atributos foram com o tempo representados em vários imaginários, muitas vezes  separados entre si segundo as variações da percepção psicológica e mental, limitadas pelos momentos culturais em que se formularam, personificaram e receberam culto. Representações antiqüíssimas da deusa Lua são os pilares ou os cones, a maioria de pedra, muitas vezes de origem meteórica (as chamadas pedras lunares) que em certas ocasiões eram esculpidas. A cor também variava em função destes aspectos luminosos ou sombrios da divindade lunar e a valorização positiva ou negativa dos povos que as sacralizaram. Se em Pafos ou Chipre Astarté era representada como um cone ou pirâmide brancos, Cibele era representada como uma pedra negra. Na Caldéia a Grande Mãe era venerada na forma de pedra negra sagrada que muitos acreditam ser a mesma que agora se guarda na Kaaba de Meca Só que antigamente, ao que parece, a serviam sacerdotisas e agora são sacerdotes em um culto estritamente patriarcal.

As pedras lunares freqüentemente eram representadas como ônfalos, centros vitais. O pilar como árvore, também com um significado parecido ao já visto: o fruto da Natureza, ramificação de possibilidades que obedecem a um princípio comum, os distintos seres, fecundidade, expansão vital e a vegetação. Tudo isto segundo o nível de análise empregado. Todos os seus frutos são o Filho da Deusa, o filho da Lua, que morre e renasce periodicamente. Se bem é muito comum que a Deusa Mãe seja representada com seu filho em forma de menino, também existem as alusões ao filho como companheiro e consorte igualmente submetido a ciclos de morte e ressureição. Inanna, Isthar, Cibele, Afrodite e Ísis estão associadas a esta contraparte e complemento, seu aspecto masculino, que em uma de suas chaves é a árvore pilar, e que nesta faceta recebe muitas vezes o qualificativo de “o verde”. Frazer e outros estudiosos do século XIX fazem uma interpretação exclusivamente agrária (de fecundidade física e da terra) desta associação das deusas-mães com a árvore e seu aspecto sombrio e doloroso ao ver morto o seu consorte.

Não só cerimônias do mundo antigo relembram este fato, mas também festas do folclore popular nas quais figuram a árvore e a cruz como árvore esquematizada. Toda a Europa tem tradições em torno da árvore e nossas Cruzes de Maio teriam seus ancestrais nestas considerações. Contos e mitos sobre o homem verde, Jacq ou Jacques in te green no mundo anglo-saxão. Talvez o mesmo Santiago, o Verde, associado à Nossa Senhora de Atocha, cujo toponímico pode ter dado lugar à raiz deste símbolo. São ramificações da mesma pauta simbólica. Nas celebrações populares, a árvore da Lua aparece em desenhos coberta com frutos ou luzes, em um desenho assírio tem fitas, como em algumas celebrações da árvore de Maio e quem sabe se nesta época não se celebravam danças ao redor, como agora ! Cruzes ou paus truncados sobre uma meia lua e representações de árvores, com uma origem claramente pré-cristã foram encontrados em algumas igrejas gregas.

A deusa Lua às vezes é representada como uma Lua crescente, o exemplo mais próximo é Ísis ou Hathor, a Lua como barca que sulca as águas do céu. Também o machado de duplo fio, tão comum no mundo mediterrâneo, nos remete aos cornos da lua. Uma de suas interpretações é, novamente, fecundidade e potência vital, suas características ambivalentes, masculinas e femininas ao mesmo tempo, nos falam outra vez e de outra forma da deusa e seu consorte, tanto a vaca que nutre como o touro celeste ou terrestre que fertiliza. Surpreende novamente que nas tradições das virgens negras apareça com esmagadora maioria São Lucas, cujo animal emblemático é, precisamente, o touro.

Psicologia das deusas negras

A representação da Mãe Escura e da Lua Negra passou psicologicamente a assumir as características do incontrolável, o desconhecido e portanto o que contém e mantém a maior parte de nossos temores e de nossos impedimentos. No nível social representam muitas vezes aspectos da Natureza e dos seres que se consideram contrários à ordem dominante e que atentam contra esta ordem.

O abismo onde se oculta a Mãe Escura representa nos seres humanos o inconsciente, com todas suas facetas e possibilidades. Os conteúdos que foram rechaçados e deslocados da consciência por serem incompatíveis com a própria imagem, com o que se espera de si mesmo e com o que os demais esperam. Assim como aspectos pessoais que se consideram desfavoráveis ou não valorizados, considerados ou desejados por outros. Porém também estão aqui as qualidades nunca desenvolvidas e as potencialidades desconhecidas que não puderam expressar-se ou manifestar-se. Jung chamou a esta parte da personalidade a sombra, que se em um certo nível pode coincidir com o inconsciente freudiano, o ultrapassa amplamente, já que é tanto caudal de energia como o que chamamos “bom” e “mau” em nós mesmos.

No nível social, este abismo onde se oculta a Deusa Escura significa o desterro da consciência social. O que indica que a Deusa pode ter um significado coletivo e também em outro sentido representar o inferno, o mundo subterrâneo, o berço dos mares. Onde quer que ela seja situada, segue de algum modo existindo e esperando uma nova oportunidade de manifestação.

Como já foi assinalado, muitas deusas foram representadas em suas duas facetas: luminosa e sombria. Como as duas cópias idênticas de Artemisa de Éfeso, uma em branco e outra em negro, acolhendo toda a Natureza. Temos imagens negras de Demeter ( que em sua versão escura deixou o mundo árido quando perdeu a sua filha, por sua vez Rainha dos mortos). Kali, mãe terrível, tempo (kala) que tudo devora, e que de certo modo pode considerar-se como um aspecto de Parvati, a contraparte de Shiva, é negra. Todas são expressões do poder do aspecto feminino da criação e o aspecto destruição, morte e regeneração da Natureza.

Há imagens negras de Ísis, que também tem uma contraparte em sua irmã Néftis, o rosto eternamente escuro da Lua. Há também  Ereshkigal, Hécate, Lilith, que são negras, claramente infernais. A primeira é também irmã e contraparte de Inanna, vive no Kur, o imenso desconhecido. Está perpetuamente só, ansiosa e insaciável, sente-se abandonada e cheia de fúria.

Ereshkigal foi deusa da fertilidade na terra e esposa do Grande Touro do céu, assim como Hécate foi também, antes de Hesíodo, uma deusa terrena. Hécate resume a concepção humana dos terrores das trevas, dos desvarios do irracional, os pesadelos, os terrores noturnos. Porém também abarca a consciência amplificada, a visão profética e o conhecimento profundo dos acontecimentos. Psicologicamente se move entre o impulsivo e o intuitivo. É a faceta impulsiva de Lilith, a rebeldia indomável, que fez com que fosse socialmente indesejável para a tradição patriarcal judaica. Foi representada como possuidora de uma sexualidade desenfreada, por isso na tradição judaico-cristã foi julgada inimiga do matrimônio e dos filhos, na Idade Média foi considerada como um súcubo, demônio feminino que se dirigia à noite ao leito dos homens.

Praticamente todas as tradições conheceram e cultuaram as deusas escuras. Todas, incluindo os exemplos apresentados, mostram diferentes níveis de leitura, ainda que algumas de suas peculiaridades mais destacadas sejam as que as caracterizaram para a posteridade. O certo é que nas deusas escuras palpitou sempre um fator de renovação e de transformação.

As virgens negras na Idade Média

Muitos estudiosos das virgens negras apontam a suposta mensagem alquímica de sua cor e dos tons de suas roupas (negro ou azul escuro, branco e vermelho). O negro ou o  azul escuro, representando a matéria prima e a primeira fase da obra, a opus nigrum. O branco representando o albedo e o vermelho o rubedo. Rastrear historicamente as cores das vestimentas das estátuas é uma tarefa árdua, principalmente se levamos em conta que há lugares onde só temos a referência de que possivelmente ali houve alguma vez uma virgem negra. Porém só resta a tradição, como é o exemplo de Mont St. Michael, na França. Ou então encontramos uma estátua que é a cópia da cópia de uma imagem negra original, que se perdeu para sempre, freqüente devido a desastres naturais e intervenções humanas. Na Espanha as cores poderiam coincidir em Nossa Senhora de Nuria, porém não é assim no caso da Nossa Senhora de Montserrat, Guadalupe, Atocha e muito menos Almudena que é uma imagem muito mais moderna. Tampouco sabemos quais eram as cores originais, levando em conta além do mais, o costume (que durou séculos) de vesti-las. Por outro lado, muitas representações gerais da Virgem, sobretudo a partir do Renascimento, mostram nas cores de seus trajes interessantes características simbólicas, como o branco e o azul claro para a Imaculada, que podemos associar com a Virgem Celeste, a matéria pura mais além da Vida e da Morte e causa de ambas. O vermelho e o azul em todas suas gamas para a Virgem Mãe, vermelho feminino da vida e do sangue no traje e azul, algumas vezes salpicado de estrelas, masculino e celeste, para o manto. Espírito e Matéria em conjunção para frutificar no Menino-Criação, e finalmente o negro do luto e da morte, com o matiz ctônico para a Virgem Dolorosa.

Outro aspecto importante das virgens negras são os milagres. Os que se aproximaram do seu simbolismo têm peculiaridades que não se dão em outros milagres atribuídos a Nossa Senhora em outros momentos históricos. São milagres que têm relação com a vida e a morte, como o que se produziu no momento da reaparição da imagem de Almudena, com tele-transportes, como os casos de cativos no Oriente despertaram repentinamente em seu país e são libertados de suas correntes, ou a salvação das águas (como o de Nossa Senhora de Atocha no poço de San Isidro). Milagres de individuação, de libertação, de despertar.

Por outro lado, no período da Idade Média que coincide com a aparição das virgens negras, há uma reativação social, artística e cultural no seio da sociedade medieval hispano-francesa. As ordens monásticas, as cruzadas, os Templários, o contato com o Oriente e o mundo árabe facilitaram o comércio, a entrada de conhecimentos sobre arquitetura, arte em geral, medicina, matemáticas, astronomia, etc. E a tradução dos clássicos abriu novas perspectivas na filosofia e no mundo do conhecimento em geral. Há uma irrupção e um desenvolvimento do elemento feminino, não somente com o culto mariano, mas também de forma idealizada no amor cortês… apesar das grandes discussões que ocuparam a atenção dos escolásticos sobre a Natureza, a carne e o pecado, semeando uma disjunção entre matéria e espírito que chegou até os nossos dias.

Lendas e Mitos

Testemunhas de celebrações de todo tipo, deram origem a histórias de reis e plebeus, princesas e camponeses.

Há registro de virgens negras em toda a Europa. A maior concentração destas imagens, descobertas e estudadas até agora, está na França. A Espanha ocupa o segundo lugar. Disseminadas pelo território espanhol, associadas às montanhas, grutas, ermidas, cursos d’água, poços, pedras, árvores ou lavouras. São também pródigas no Caminho de Santiago. Não é casual que o apóstolo está fortemente vinculado a Nossa Senhora, que motivou sua viagem para a Espanha e o protegeu depois, segundo a tradição, em sua missão evangelizadora. Porém também se encontram em Cáceres (Guadalupe) e em Madri, por exemplo, longe da rota Jacobea. Madri conta com duas virgens negras do antigo culto: Nossa Senhora de Atocha e Nossa Senhora de Almudena, apesar de alguns investigadores assinalarem que talvez trate-se da mesma. Uma vez que da imagem encontrada em uma parede de uma muralha árabe só temos a lenda milenar. Alguns dizem que remonta a época de São Lucas, enquanto outros a época de São João, tendo sido esculpida durante a vida da Virgem. Também contamos com algumas menções históricas, porque a estátua que podemos observar na Catedral só conserva de tão vetusto passado a memória.

A Senhora de Almudena

Diz-se que Santiago Maior trouxe consigo a imagem de Nossa Senhora de Almudena. Posteriormente se depositaria na Igreja de Almudena na rua de mesmo nome, entre as atuais ruas de Bailén e Mayor. Para preservá-la de um possível ataque muçulmano, um ferreiro a ocultou em uma parede da muralha árabe com dois círios acesos, um de cada lado. Era o ano 712.

Após reconquistar Madri pela terceira vez, Alfonso VI, em 1083, tem notícias do fato e se interessa pelo paradeiro da imagem.

A conquista de Toledo foi difícil e conta-se que não aconteceu até que não aparecesse a Virgem. Uma jovem cristã de Madri conheceu a história da imagem, porém não sabia o lugar exato do ocultamento. Rogou à Virgem que a iluminasse e chegou a oferecer sua vida em troca da recuperação da estátua.

O Rei e a jovem se encontram em Toledo. Conta-se que o monarca prometeu fazer todo o possível para achar a imagem ainda que fosse necessário desmontar a muralha com suas mãos, pedra por pedra. Organiza em Madri uma procissão de preces públicas que ele mesmo presidiu e durante os cânticos e orações se ouve um grande estrondo, como se a terra estremecesse e os edifícios se partissem. Abre-se um grande buraco na muralha, repicam os sinos, aparece Nossa Senhora com as duas velas acesas, tal como  havia sido ocultada e a jovem cai morta aos seus pés. Era o dia 9 de Novembro de 1085. Uma imagem branca da Virgem, em pé, com o menino nos braços, pode ser vista na parte da muralha que rodeia a Catedral e desce pela rua Mayor em direção à rua Custa de la Vega, chamada assim pela fértil margem com plantações que antigamente desciam em direção ao rio. Uma placa dá fé do milagre e assinala o lugar onde aconteceu a aparição. Ali esteve antigamente a Puerta de la Vega.

Dizem que a imagem de Almudena deriva da palavra árabe almudin. Segundo alguns, se relacionaria com allóndigá, segundo outros com al mudayna ou al Medina, a cidade ou cidadela. Há ainda que faça relação com almud ou pedra.

A Senhora de Atochar

Diz-se que a Virgem de Atocha foi trazida para a Espanha pelos discípulos de São Pedro ou também por São Lucas. A próxima referência é do século VII e é atribuída a San Ildefonso, arcebispo de Toledo, a cuja diocese pertencia Madri. Ildefonso escreveu a um padre de Zaragoza insistindo que não se esquecesse de visitar uma imagem de Nossa Senhora, conhecida como a Virgem de Atochar, com um menino sentado em seu joelho esquerdo e uma maçã na sua mão direita. Acontece que naquela época, o caminho para Toledo partindo de Zaragoza passava por Alcalá e por Madri.

Apesar da tradição afirmar que a Virgem de Almudena era Negra, a imagem que agora podemos observar é morena. Já a Virgem de Atocha é uma estátua de madeira, muito escura, com os trajes pintado em tons azuis e dourados. O tipo da estátua, seu tamanho e características indicam que foi e é uma virgem negra. Seguramente o original que surgiu das mãos do artesão ( certamente o autor desta e de outras tantas estátuas não foi São Pedro nem São Lucas, pois acreditando na lenda eles não teriam feito outra coisa senão esculpir) e talvez a imagem que agora contemplamos tampouco é aquela a que se referem as primeira crônicas citadas.

Segundo consta, no ano 720 a Virgem de Atocha estava em uma ermida na margem do rio Manzanares, próxima a atual Ponte de Toledo, em um lugar que ficaria conhecido como Santiago, o Verde, devido ao fato de ser uma zona muito fértil. Gracián Ramirez, um nobre visigodo que tinha um castelo em Ripa Carpetana (atual Rivas Vaciamadrid) entre os rios Jarama e Henares, e que costumava visitar a ermida todos os dias, constatou uma bela manhã que não estava ali a imagem. Ao procurar,  encontrou a estátua nos atochares. Deste termo dizem alguns autores que deriva o nome da Virgem, que significaria campo de esparto, vegetal que era muito abundante nas ribeiras do rio. Outros propõem que Atocha deriva de Antioquia, de onde procederia a imagem. Há quem aponte uma procedência basca baseando-se na etimologia de Vallecas ou Valle del Kas, enquanto outros derivam do grego Theotokos, Mãe de Deus, cujas siglas figuram aos pés da sua cadeira.

Gracián decide erguer uma nova ermida no lugar do seu achado, caminho de Vallecas, hoje avenida Ciudad de Barcelona, muito próxima se não no mesmo lugar onde hoje está sua Basílica. Quando estavam se realizando as obras foram atacados pelos muçulmanos, que temiam a construção de uma fortaleza. Para evitar que sua esposa e filhas caíssem nas mãos dos infiéis, e com o consentimento delas, Gracián decapitou as duas com sua espada. Então os testemunhos falam de um impressionante resplendor que desorientou os atacantes e que fez com que fugissem em debandada. Acredita-se que este fato facilitou a reconquista de  Madri.

Quando acabou a contenda, Gracián Ramírez tomou consciência do que havia feito. Estava confuso, culpado e cheio de fúria. Chorava entre a multidão de cristãos agradecidos ante a imagem, por sua intervenção na vitória. Quando conseguiu abrir caminho até o altar viu, ajoelhadas e em primeiro plano, sua esposa e suas duas filhas que, novamente vivas, oravam e só mostravam uma cicatriz no lugar da ferida.

Passado e presente das virgens negras de Madri

Os estudiosos franceses assinalaram a relação entre a tradição céltico-druídica e as virgens negras. Por um lado encontramos representações de deusas mães celtas muito similares às virgens negras. No entanto, em outras culturas também temos deusas sentadas como o menino nos braços ou em seu colo. Uma referência próxima é a da egípcia Ísis.

Madri esteve povoada desde tempos muitos antigos. Foram encontrados restos de assentamentos humanos pré-históricos. Temos evidências de povoações com características celtas, além da presença romana, como se pode ver no museu municipal de San Isidro. Na zona de Rivas, onde se diz que antigamente viveu Gracián, foi encontrado um povoado visigodo e ainda temos as pegadas dos árabes, que estão à vista de todos, pois restos dos minaretes que formaram parte de antigas mesquitas estão integrados agora às igrejas católicas, como as de San Pedro el Viejo, na rua do Núncio ou de San Nicolas, na praça do mesmo nome.

Outra mesquita, a principal de Madri, estava na rua da Almudena, sobre a qual se ergueu a igreja que dá nome à rua e que foi derrubada na segunda metade do século XIX para reestruturações urbanísticas. Para não falar da antiga Fortaleza, que se queimou na época de Felipe V, e que ocupava a colina onde agora se erguem o atual Palácio Real e a Catedral de Almudena. Os nomes atuais das ruas desta zona, e em geral da cidade de Madri da época dos Austríacos, nos indicam os lugares onde se situavam as agremiações de ofícios, assim como a população muçulmana (porta dos mouros, bairro dos mouros, etc). O que é indubitável é que tanto a primeira ermida ao lado do Poente de Toledo, como esta segunda ermida, que segundo a lenda foi construída por Gracián para Nossa Senhora de Atocha, estavam fora dos muros e bastante longe da Madri daquela época.

Que imagem se adorava ali nos séculos VII e VIII ? Considerando que a imagem que agora podemos contemplar é, quase com toda a segurança e no mínimo, dois ou três séculos posteriores ? Trata-se da virgem cristã ? Seguramente era um culto popular, e é possível que fosse da antiga tradição. Certos autores afirmam que antes da estátua que conhecemos havia uma pintura de Nossa Senhora, porém este dado parece confundir-se com uma atribuição similar feita à imagem de Nossa Senhora de Almudena.

Por outro lado, o culto mariano experimentou seu apogeu precisamente na época das virgens negras, que são datadas entre os séculos XI e XII. Sabemos que cultos anteriores ao cristianismo foram cristianizados e velhos símbolos com evidentes componentes arquetípicos foram integrados também no mundo cristão. Entre outros símbolos estão as antigas deusas mães. Além do mais precisamos considerar que desde o século IV, quando cai o  império romano, até o século VII em que Nossa Senhora de Atocha já era plenamente venerada, há muito pouca margem para admitir que crenças milenares e cultos enraizados tenham desaparecido sem deixar rastro. É muito provável, então, a continuação dos mesmos através dos vaivéns socioculturais e que com o tempo se identificaram com a nova visão religiosa.

Outros enigmas e lendas

Neste sentido surgem novas perguntas. Que culto era celebrado na região, anterior ao dedicado à imagem que conhecemos como Nossa Senhora de Atocha ? A que divindade feminina se dirigia ? E porque precisamente ali e não em outro lugar ?

Sem descartar a possibilidade de que proceda da vertente celta de acordo à opinião já assinalada pelos eruditos franceses, insistimos que na Espanha existiram povos que contavam com deusas negras em sua tradição, como os tartéssicos, que veneravam a Noctiluca, a luz lunar, e os fenícios ou os romanos, que incorporaram Ísis ao seu panteão. Sem falar do arquétipo da Mãe, que é universal e portanto comum a todos os homens de todos os tempos.

Com Nossa Senhora de Almudena surge outro enigma. Alguns cronistas de Madri falam de uma primitiva imagem visigoda, enquanto para outros seria uma imagem romana, o que apoiaria a hipótese assinalada anteriormente relativa aos cultos pré-cristãos. Hipótese que neste caso não podemos nem afirmar nem negar. Esta imagem primitiva jamais foi encontrada, pois qualquer que tenha sido a sua origem foi queimada na época de Henrique IV e a afirmação, tão repetida, de que a atual imagem é a mais antiga da Espanha fica sem fundamento. Em descrições posteriores parece ter sido confundida com Nossa Senhora de Atocha, como são as menções à pintura que figura no sarcófago de San Isidro que, no entanto, parece representar a primeira, enquanto que outros falam que estavam juntas as duas Virgens.

Uma das lendas relativas à Virgem de Almudena nos conta que Alfonso VI mandou pintar na parede de uma mesquita, anterior a construção da Igreja de Almudena, um quadro tal como se recordava a imagem para conservar sua tradição (um fato curioso, pois se efetivamente aconteceu evidenciaria a enorme tolerância dos muçulmanos). Este quadro mostrava uma Virgem com um lírio na mão. Trata-se da Virgem da Flor de Lis, que também figura em outro quadro posterior que esteve durante muito tempo na Igreja de San Isidro e depois na cripta da Catedral de Almudena. Há outro dado do século XVII onde ela é descrita sentada, morena, de nariz aquilino, cabelos longos e, novamente, com um lírio na mão. É neste período que se tem situada a origem da imagem atual. Diz-se que os restos da primeira imagem, que era de pinheiro incorruptível, porém não imune ao fogo como ficou comprovado, foram introduzidos na imagem posterior, como também foi feito em outros lugares em casos similares. A verdade é que os citados restos não apareceram.

Supondo que em algum momento existiram duas virgens negras distintas e independentes, e não uma “transferência” de informações, o fato chama a atenção. Se, como dizem os investigadores, sua “aparição” e localização é intencional, porque contamos com duas “aparições” a tão pouco distância uma da outra ?

Para não ficar atrás, também se atribuiu à intervenção de Nossa Senhora de Atocha a reconquista de Madri na época de Alfonso VI, e a partir desta data foi crescendo ainda mais sua devoção e as novas doações. Em função disto, o arcebispo de Toledo destinou vários padres para atender os cultos, sendo sustentados pelo patrimônio criado. Então se construiu um novo templo, ainda que foi respeitada a ermida, que durou até a época de Felipe II. Esta ermida media somente 14 metros quadrados e estava repleta de muletas, correntes, barcas, lápides, quadros, etc. Fruto do agradecimento de seus fiéis e mostra de sua intervenção milagrosa.

O tamanho reduzido da ermida se deve aos acordos firmados com os mouros, que assinalaram o tamanho que deveria ter, talvez por questões de segurança. Esta informação é importante já que nos mostra que os árabes estavam cientes do seu culto e o respeitavam, e que as intervenções das quais nos fala a tradição, a favor do lado cristão e os ocultamentos para evitar profanações, como é citado claramente na lenda de Almudena, obedecem mais a intenções religiosas, políticas e sociais que a uma ameaça real.

Na época das três culturas aparecem dois milagres de Nossa Senhora de Atocha nas Cantigas de Alfonso X, o Sábio. Porém o mais famoso é o de San Isidro. O Santo era muito devoto desta adoração da Virgem. Todos os dias a visitava antes de ir trabalhar e colocou-se sob a sua proteção para obter um bom casamento, o que depois se converteu em costume para muitos. Um dia, estando Isidro no campo, seu filho caiu no poço de sua casa, de onde não podia ser retirado. Ao voltar seu pai do trabalho e ver o acontecido suplicou o auxílio de Nossa Senhora. Então a água do poço subiu até a boca e levou à superfície o menino são e salvo. O pequeno devia saber nadar e ter um domínio assombroso de si mesmo para sobreviver na água do poço até que o pai rogasse ajuda.

O poço do milagre pode ser visto hoje em dia no Palácio dos Vargas, sede do Museu Municipal de San Isidro. Há versões que dizem que o menino salvo das águas (individualizado, renascido) não era seu filho, mas o filho da família Vargas, de quem San Isidro era servo.

Também temos uma libertação espetacular de cativos. Uns condenados à morte colocaram-se sob a proteção de Nossa Senhora de Atocha e apareceram livres de suas correntes junto ao convento de Atocha, sendo recebidos pelos frades. Isto ocorreu no século XVI. Na mesma época, uma epidemia de gripe que causou muitas mortes na Espanha fez com que a Virgem fosse levada em procissão à Madri. Neste momento cessou a epidemia e ficou curado também Felipe II, enfermo e desenganado.

Outra procissão, neste caso, de Nossa Senhora de Almudena, acabou com um grande incêndio. Ocorreu no mesmo século dos exemplos anteriores e na praça da Província, onde várias casas afetadas vieram abaixo ante a imagem que passava no momento por ali, permitindo que fosse possível combater o fogo.

Na época dos Bourbons começou a ganhar expressão o culto a esta representação de Nossa Senhora. Foi roubada em 1789 e seu autor foi executado. Foi escondida e localizada com uma corda no pescoço, seguramente por algum miliciano após a guerra civil. Quando a igreja de Almudena foi derrubada foi levada para o convento das Bernardas e em 1954 a San Isidro, estando agora na Catedral que lhe está consagrada. Em novembro de 1948 foi coroada e desde então é patrona de Madri. Seu dia é 9 de novembro.

Sobre o culto à tradição monárquica

Há uma longa lista de reis que veneraram Nossa Senhora de Atocha, inclusive Reis Católicos. Mas foi com Carlos I que começou uma maior vinculação com a coroa. Frei Juan Hurtado de Mendoza, dominicano que era seu confessor, conseguiu sua aprovação e a do Papa Adriano VI para que a Virgem de Atocha passasse à custódia dos dominicanos. Tradição que ainda perdura. Felipe II a chama Patrona de Madri e de todos os seus reinos. Custeia um novo convento e a igreja que continua sendo financiada por seu filho Felipe III. Carlos II a decora com afrescos de Lucas Jordan. Todos os reis Austríacos tiveram grande devoção a esta Virgem e praticaram o costume de levar a imagem ao leito de morte.

Os Bourbons continuaram com esta tradição, apesar de que ao Rei Carlos III propuseram que visitasse a Virgem de Almudena, pois estava mais próxima. É preciso assinalar que o monarca viveu no Palácio Real.

Testemunha de casamentos e celebrações religiosas de todo tipo, Nossa Senhora de Atocha deixou seu santuário no dia 5 de maio de 1808. O lugar foi ocupado pelas tropas francesas, que o converteram em quartel, destruindo a biblioteca e saqueando o local. A imagem foi levada às Freiras Descalças Reais e mais tarde ao convento de Santo Tomás, na mesma rua de Atocha, até o regresso de Fernando VII, que havia depositado cetro real aos seus pés e dali o recolheu novamente. Em 1834, com a desapropriação de Mendizábal, foi confiscado o Santuário de Nossa Senhora de Atocha e convertido em Hospital de Inválidos. O templo ficou em ruínas e a imagem se transferiu à Igreja do Bom Sucesso até que os dominicanos pediram a Alfonso XIII, em 1924, a restituição dos terrenos para reconstruir o templo e a basílica.

A igreja foi incendiada em 1936, mas felizmente a imagem não estava mais lá. Finalizada a guerra apareceu no Museu Arqueológico, no fundo de um baú, vestida com todos os seus trajes. Então foi levada à Igreja de Santa Bárbara até que a Direção Geral de Regiões Devastadas construiu um novo templo, ampliando o anterior com duas naves laterais, que é o que agora podemos visitar. Esta basílica tem anexo um colégio para 2000 alunos. Os terrenos incorporam o Panteão dos Homens Ilustres, uma idéia da Rainha Maria Cristina, cuja construção começou em 1891 como anexo da Basílica de Atocha. Ali estão enterrados, entre outros, Cánovas, Mendizábal, Sagasta, Argüelles, Canalejas e Eduardo Dato.

O casamento Real de 22 de maio de 2004, que foi celebrado na Igreja de Nossa Senhora de Almudena, incluiu uma visita posterior à Basílica de Atocha para oferecer um ramo de flores, um elo a mais na longa cadeia de reis, nobres e fiéis de todo tipo que rendem homenagem a esta Senhora Escura de Atochar desde tempos que se perdem na lenda. Esta visita real tem além do mais uma leitura simbólica, ao servir como nexo de união entre estas duas Virgens. É uma justa retribuição para Nossa Senhora de Atocha, que devido a diversas vicissitudes políticas e sociais não só foi colocada em segundo plano, mas convertida em uma grande desconhecida.

Em seu caso, parece que se cumpre um dos aspectos  das deusas negras ao serem relegadas à obscuridade do esquecimento. Fica aqui registrado também meu pequeno aporte de desagravo a elas.

Desde o fundo da história – Vou escrever…

Ma. Ángeles Fernández

As tabuletas enceradas em uma mão, o cálamo pronto na outra. Seleciono, escolho entre tantas idéias que se amontoam em minha mente. Há tantas coisas formosas sobre as quais escrever…

Talvez escreva uma poesia. Talvez concretize em meus versos todo o amor que transborda do meu coração, a admiração que produz em mim a beleza, a dor de não poder abraçar-te hoje. Busco as palavras mais sugestivas, as mais ressonantes, as mais doces. As que tenham o acento melhor colocado, as sílabas alternadas, as vogais longas e curtas.

Ou não. Talvez não. Talvez só deixe fluir meus pensamentos, como flui o rio da beleza entre as árvores do meu mundo. Escrever, só escrever, pelo prazer de que não escapem meus sentimentos, meus desejos mais ocultos, mais meus. Talvez logo o apague, para que sigam sendo meu segredo.

Vou escrever…

Escreverei que te amo. Que Eros desça sobre minha alma unindo-me a ti com o abraço de suas asas. Que o pequeno Cupido ria de mim detrás do seu arco. Que Afrodite seja minha Senhora e me salpique com a espuma dos mares. Que Pan me tome pela mão e me leve para seus bosques e acompanhe com sua flauta minhas canções.

Escreverei que o mundo é formoso, que nada nele falta nem sobra. Que a simples folha de uma flor é mais bela que a mais bela das jóias de uma rainha.

Escreverei que te vi hoje e meu coração foi lira tangida pelo vento, e meus olhos espelhos que refletiam teu rosto tão amado. Que me falou e tua voz foi o sino da glória em meus ouvidos.

Procurarei palavras que te agradem, para quando as leias. Deixarei minhas tabuletas junto ao teu leito, para que as encontres pela manhã. Farei de ti partícipe e depositário dos meus sonhos.

Vou escrever…

Não poderia viver sem fazê-lo. Não poderia guardar para mim as palavras. Não poderia deixar de voar nelas, impulsionada pela sua cadência.

Dizem que sou Safo. Talvez. Talvez seja só a encarnação das palavras. Da poesia.

Isabel Guerra – A pintora da Luz

Um olhar para o interior do ser humano

Ma. Teresa Cubas

Ela expõe a cada três ou quatro anos. No ano 2000, a Prefeitura de Zaragoza patrocinou uma exposição retrospectiva de toda a sua obra. Por ali desfilaram centenas, milhares de pessoas. Quem foi capaz de mobilizar tantas pessoas com uma mensagem de beleza ?

Fomos conhecer de perto esta pintora extraordinária e aproveitamos sua estada em Madri, por ocasião da sua última exposição em 2004 para falar com ela. Como é, o que pensa, o que sente a mulher simples que temos diante de nós ?

Nomeada recentemente membro de duas Reais Academias de Belas Artes (1), é monja cisterciense e sobretudo – e isto é o que nos traz aqui – é Pintora da Luz… Como nos dirigimos a você ? Irmã ? Madre ?

Isabel. Eu me chamo Isabel.

Em que idade começou a pintar ?

Com dedicação exclusiva, aos 12 anos. Antes fazia borrões em papéis e desenhava as coisas que normalmente pinta uma criança amadora. Quando no meu aniversário ganhei de presente uma caixa com tintas, tive um impacto terrível. Aquilo foi muito importante para mim e no dia seguinte me dediquei com uma ansiedade louca para tentar pintar a belíssima paisagem que se vê da casa onde nasci, que é nada menos que a serra de Madri… O mesmo cenário que tinha Velázquez em seu estúdio, e onde colocava os retratos dos reis. Neste lugar privilegiado pude iniciar minha profissão e minha vocação.

Acompanhamos de perto sua obra e através dos catálogos comprovamos que esta obra se enriquece também com sua palavra (2). Complementam-se a palavra e a pintura na hora de comunicar amores e emoções ?

A pintura não nasce para ser explicada. É uma forma de expressão completa em si mesma, como a palavra. Ambas podem caminhar juntas e paralelas, mas não são complementares. A pintura não deve ter explicações. De fato, os textos dos catálogos não são uma explicação das pinturas, mas uma forma a mais de me expressar. A arte chega imediatamente, e se não chega, é que lhe falta algo.

Isabel Guerra está evoluindo na apresentação dos seus últimos quadros ?

Sim, há evolução numa parte desta exposição, uma novidade para aqueles que estão habituados ao meu trabalho. É algo que fiz com muito carinho e que saiu do fundo do coração. Foi um risco porque tenho uma linha muito característica de trabalho há anos, mas em geral ficaram satisfeitos com minha nova fase, que existam idéias novas. Creio que isto é muito importante para um pintor. Mas isto não deve ser imposto como uma obrigação, deve ser espontâneo, pois do contrário não se deve fazer. Mudar por mudar é falsear a própria obra.

Os motivos concretos das obras surgem de sua própria inspiração ou são sugeridos por alguém ?

Não, ninguém me sugere nada. A um pintor, a vida e seu ambiente  devem inspirar sua obra, sobretudo sua emoção ante as coisas que o rodeiam e ante sua própria intimidade. No meu caso é minha relação com a Beleza – com letras maiúsculas – que deve ser permanente, pois sou uma mulher consagrada. Minha busca é a busca da Beleza, da Luz. E busca da Bondade, da Verdade e da Formosura – como letras maiúsculas – que é de onde emana toda a beleza entre nós.

Por que aparece tão timidamente o ambiente externo nas obras de Isabel Guerra ?

Alguns quadros estão em uma paisagem aberta e há outros que têm uma mescla, que é um tanto quanto irreal e imaginativa. Não sei se aparecem timidamente ou se trata de não querer renunciar ao aspecto interno e íntimo que busco sempre. Este aspecto interior me interessa muito, porque gostaria de abrir caminho para as pessoas, dar pistas de como podem encontrar-se com si mesmas, com o próprio eu. Do que hoje em dia muitos fogem e não precisamente para seu bem, porque todo aquele que foge de si mesmo perde a oportunidade  de conseguir serenidade e coerência, consigo mesmo e com os demais.

Dou forma a esta aceitação de si mesmo nestas visões interiores que evocam uma atitude reflexiva, até mesmo de oração.

A imagem tranqüila dos modelos parece nos sugerir um arquétipo feminino, para onde ou para quem dirigem o olhar estas adolescentes ?

Estamos falando do olhar interior. Em nós habita a Luz, este Alguém que é mais íntimo a nós que nós mesmos e que temos a possibilidade de descobrir e amar. Viver em permanente comunicação com Alguém – com letras maiúsculas – que não somente nos envolve, mas que nos invade e está dentro de nós, que habita em nós.

Nos impressionam estes primeiríssimos planos que refletem uma beleza interior, estas naturezas mortas que não têm nada de mortas. Talvez o ritmo acelerado que vivemos nos deixe sedentos de sossego e intimidade ?

O homem de hoje, saiba ou não, tem sede e necessidade de paz, de serenidade e de interiorização ! A prova é que são muitos os visitantes da exposição que comentam comigo que a pintura transmite a eles paz. Há pessoas que agradecem de uma forma muito mais efusiva, porque para eles – segundo dizem – foi fundamental o impacto que sentiram ao ver os meus quadros. Outros mantêm comigo uma relação permanente, me escrevem e comentam a evolução que experimentaram em sua vida depois de conhecer minha obra.

Isto é o mais gratificante que pode acontecer a um pintor e é o que verdadeiramente dá sentido ao meu trabalho. Ainda que fosse por uma só pessoa, valeria a pena o esforço de trabalhar no que faço.

Vamos falar de algo muito mais concreto, quantas horas dedica por dia ao sagrado ofício de pintar ?

Nossa vida e o horário monástico estão muito organizados, mas cada dia é novo e nem sempre fazemos as mesmas coisas. O que acontece é que eu costumo tomar muitos minutos ao dia, pois há também momentos livres que dedico ao trabalho. A pintura é muito exigente quanto a horários e esforço diário. As pessoas pensam que se deve trabalhar quando se está inspirado, porém é exatamente o contrário. A inspiração pode vir justamente no dia em que menos se tem o desejo de trabalhar. Às vezes o dia em que se está mais cansado e se pensa que não vai fazer nada é o dia em que mais trabalho é feito e melhor fica. É preciso ser muito constante nisto.

Que diferença existe entre um pintor e um artista ? Onde está a linha que separa uma simples pintura de uma obra de arte ?

É possível fazer um quadro perfeito e sem alma, da mesma forma que é possível tocar piano magistralmente bem em termos técnicos e não produzir emoção alguma nas pessoas. Também é possível o contrário: ter uma técnica um pouco deficiente mas uma grande capacidade de transmitir sentimento e emoção até chegar a arrancar lágrimas dos olhos das pessoas que escutam. Esta seria a diferença.

Entendendo a arte como expressão da Beleza, que acredita que pensam as pessoas deste culto ao feio que coloca, por exemplo, um olho em cima do outro ?

Já escrevi algumas vezes sobre este culto ao feio que vivemos hoje. Que pensam as pessoas ? Pensam de tudo, somos muitos e sobre este assunto há opiniões muito surpreendentes para todos os gostos. Há pessoas jovens que apreciam a Beleza em si mesma, que não está somente nas coisas bonitas, pode estar em uma escova que têm alma e esteja bem iluminada. O bonito não é somente o elegante.

Diríamos que a Beleza está também nos olhos de que vê ?

Um quadro nunca está concluído quando o pintor o assina e o deixa nas mãos de alguém que o pendura na parede da sua casa, ou em uma galeria de arte. O quadro realmente se completa com o olhar do espectador e terá tantas leituras e tantas formas de Beleza – ou tantos desencantos – quantos sejam os espectadores. O quadro sempre é algo que se conclui a dois: entre o pintor e aquele que contempla a obra, quando percebe a mensagem. Neste ponto de encontro é onde se recriam verdadeiramente a Arte e a Beleza.

O culto ao feio está hoje em dia muito arraigado na sociedade, mas creio que menos entre os possíveis aficcionados da pintura e mais no bombardeio dos meios de comunicação, que nos assediam com todo o horror que vivemos no mundo. Porém acredito que a Arte deve oferecer pistas de esperança.

Temos que nos abrir a esta possibilidade introduzindo em nosso mundo imagens com as quais possamos perceber que a Beleza é possível, e não só para o dia de amanhã, mas para hoje ! Precisamos perceber que nesta vida não existe só o distorcido e o feio, mas também que há muita beleza ao nosso redor, e que as coisas cotidianas que nos rodeiam também estão nos falando de harmonia e de paz.

Podemos criar um ambiente de serenidade, de amabilidade, ou podemos criar um ambiente brusco, turbulento. Mas isto depende de nós. Quanto mais introduzirmos nosso desalento ante o que ocorre, colocaremos mais desalento e fealdade no mundo. É um problema com o qual nos deparamos a cada dia e é importante não desanimarmos nunca. Certamente é muito difícil, é preciso reconhecer que é difícil para o homem de hoje.

Imaginando o gênio do artista como uma chama que vai passando através das épocas, para despertar em determinados corações humanos, de quem se sentiria intimamente herdeira na arte de pintar ?

Absolutamente de todos. Sinto-me herdeira de todo aquele que tenha feito uma obra importante e desfruto com tudo o que é bom feito na História da Arte. Não me sinto seguidora de nenhuma corrente em especial, tento sempre criar meu próprio mundo, por modesto que seja. E com a soma de todos estes enormes valores, criar minha própria forma de fazer, de ver e de dizer. O que pode acontecer é que por temporadas esteja estudando mais um pintor que outro, mas sempre uso o mesmo exemplo – é como quando ouvimos música e de acordo com o momento, nos agrada ouvir Mozart, Beethoven ou Albeniz.

Diz-se que uma arte sem mensagem é como um envelope sem carta. Não há muitos envelopes vazios hoje em dia ?

Às vezes os pintores podem correr o risco de trabalhar neste ofício maravilhoso da pintura como em uma profissão qualquer e fazer uma série de trabalhos para suprir seu modo de vida. Porém eu me atreveria a dizer que estes pintores não são artistas. Os verdadeiros artistas vão colocar cartas dentro dos envelopes.

Sendo acadêmica em duas Escolas de Belas Artes, Isabel Guerra tem discípulos aos quais transmitir sua arte ?

Não, meu caminho não é a docência, nunca tive esta inclinação. Além do mais uma coisa são as Escolas de Belas Artes e outra são as Reais Academias de Belas Artes, organismos que não têm alunos, não são docentes. A verdade é que muitas pessoas comentam isto comigo, mas está claro que meu caminho não é este.

Voltando aos seus quadros: ao vender-se somente originais, não é uma pena que tão poucas pessoas participem desta comunicação permanente com a Beleza, presente em suas obras ?

Uma das razões pelas quais se expõe é também para que as pessoas possam desfrutar ou simplesmente ver o trabalho que é feito. Não é feito exclusivamente com o fim de vender quadros, mas para dar a conhecer a obra.

Não pensou em editar seus trabalhos em lâminas ou cartões que possam difundir-se mais amplamente, a preços viáveis ?

Nas exposições sempre há um catálogo onde aparece toda a obra. Existe também um livro que é uma recompilação da obra anterior (3), e é possível que no futuro possam aparecer mais publicações, esta porta nunca está fechada. Também pode ser que em algum momento se façam reproduções de alguma obra em particular, por alguma razão.

De qualquer forma, não há nada como a pintura vista diretamente. As reproduções são sempre um sucedâneo, às vezes muito lamentável e o importante não é comprar um livro do Museu do Prado, mas visitá-lo. O importante não é ter o catálogo de uma determinada exposição, mas visitar esta exposição e tentar que se produza esta magia que comentávamos antes.

Cada quadro tem sua própria história. Entre os da sua última exposição, há algum que seja seu preferido ?

Cada quadro tem sua vida e em cada um coloco todo o interesse e todo o coração. Quando termino quase sempre comprovo que não tem nada a ver com o que queria e o esconderia em qualquer canto… A verdade é que todos são muito queridos, é como se perguntassem a uma mãe de qual filho gosta mais. Coloquei muitos sonhos nestes  últimos quadros, nos quais se aprecia uma evolução clara, ainda que formem parte da continuidade de uma obra.

Se os quadros são como filhos, dói desprender-se deles ?

Não, pelo contrário, inclusive para trabalhar, prefiro ter as paredes do estúdio limpas. Além do mais, eu pinto para os outros, trata-se de dar uma mensagem. É como uma carta aberta aos demais e me parece muito triste que o quadro feito com esta finalidade esteja fechado em um quarto ou em um depósito da casa. Isto não é minha forma de sentir o tema. Sei que há muitos pintores que reconhecem sentir pena ao desprender-se dos quadros, respeito esta postura mas não a compartilho.

Acostumada, como imagino que está, ao silêncio do monastério (4), como se sente, depois de um mês em contato direto com o público ?

Vivo já há muitos anos nestes contrastes, e se tornou relativamente familiar, faz parte do meu trabalho e da minha forma de vida. Qualquer artista se sentiria muito à vontade no ambiente em que eu tenho o privilégio de viver e trabalhar, entre tanta paz e serenidade. Mas não há problema, em cada exposição sei o que vou encontrar, não é uma surpresa o rio de vida que é Madri. Conheço esta cidade, tão incômoda e agitada, mas a qual quero muitíssimo porque é o lugar onde nasci e isto faz com que me sinta muito à vontade e muito feliz aqui.

Muitos leitores da Esfinge admiram profundamente sua obra, como estabelecer um vínculo com todos eles, um vínculo permanente ? De coração a coração…

Eu os animaria a que fossem buscadores desta paz da qual falamos um pouco, e não pensarem que no mundo só pode existir lugar para a melancolia e a tristeza. Não pensem que as coisas belas já passaram e só resta a distorção, o terrorismo, ou a angústia… Não!

Diria a eles que estar em harmonia com nosso ambiente vale a pena porque podemos ser muito mais felizes. Mas sobretudo diria a eles que olhassem para dentro para se encontrar com a Luz que habita dentro de nós.

Depois de contemplar os seus quadros, e elevar a alma na ponta dos pés, confirmamos que em Isabel Guerra se respira o perfume da eterna saudade da Vida. Em silenciosa cumplicidade, comemoramos este encontro com a Luz que restabelece para sempre a esperança.

Isabel Guerra é Acadêmica de Honra da Real Academia de Belas Artes de San Luis e Acadêmica Correspondente da Real Academia de Belas Artes e Ciências Históricas de Toledo.

Os modelos

A assinatura

Minha assinatura é muito pequena nos quadros, mas é muito grande quando assino nos catálogos. Nos quadros seria excessiva. Efetivamente, quando vamos a um museu e nos encontramos com um Greco, não necessitamos ler a assinatura, nós vemos ! É um Grego! A assinatura deve ser a aura, o todo do quadro, o que cada um percebe imediatamente nele. Mas hoje em dia todos pedem a assinatura. É preciso colocá-la, embora para mim ela seja um estorvo, por isto procuro que não distraia… Antes me esquecia sempre, mas agora sou uma boa menina e assino todos os quadros.

Protagonistas da História – Luis Vives, Filósofo e Humanista

Julián Palomares

Não há espelho que reflita melhor a imagem do homem que suas palavras. (Luis Vives)

Juan Luis Vives foi o maior expoente  do Humanismo na Espanha.

Menéndez Pelayo disse dele: “Há dois ou três homens que competem com ele na História da Ciência espanhola, nenhum que o supere.” Devido a sua obra “Anima et vita” (1538) foi considerado o pai da psicologia moderna.

Juan Luis Vives Marc nasceu em Valência no ano de 1493. Sua origem judaica causou uma grande desvantagem ao filósofo, pois os inquisidores perseguiam sua família.

Aos 15 anos de idade começa seus estudos na Universidade de Valência (fundada apenas 5 anos antes). Parte aos 17 anos para estudar em Paris, na Sourbone, onde concluiu seus estudos em 1512, especializando-se em Filosofia e Artes.

Após concluir seus estudos de especialização instalou-se em Brujas, onde conheceu Tomás Moro em 1515. Em 1519 se estabelece em Lovaina para iniciar sua carreira docente na Universidade, onde conhece Erasmo de Rotterdam e tornam-se grandes amigos. Paulatinamente, Vives toma contato com os humanistas mais importantes da sua época, tais como Bude, Juan de Vergara e Tomás Moro.

Em 1522 ministra aulas de ciências humanas e jurisprudência na Universidade de Oxford por indicação de Moro. No entanto, a sombra da desgraça segue presente em sua vida. De Valência chega a notícia que seu pai fora condenado pela Inquisição a morrer na fogueira, como já havia ocorrido em outras ocasiões com seus familiares.

Apesar das dificuldades, Luis Vives se converte em um verdadeiro reformador da educação européia e um filósofo e moralista com visão universal. Seu livro, destinado a ensinar latim aos estudantes, foi editado 65 vezes entre 1538 e 1649. Ao longo de mais de um século serviu como livro texto para toda a Europa.

Propôs a reforma da primeira universidade do mundo, a Sourbone. Depurou sua educação filosófica dando a ela uma qualidade que hoje em dia, cinco séculos depois, faz com que siga sendo uma das mais importantes e prestigiadas.

Vives foi um humanista brilhante e profundo. Tudo o que escreveu deixou em latim: cerca de sessenta títulos. É preciso reconhecer seu trabalho como filólogo. Mas é acima de tudo um pedagogo, um psicólogo, um pensador religioso e um moralista. Como pedagogo, reagiu contra os métodos escolásticos e a dialética especulativa dos professores da Soubone. Insistiu em que o ensinamento deve realizar-se de acordo com a personalidade e a natureza do aluno.

O importante em Vives é sua preocupação por aqueles aspectos mais imediatos da realidade humana, com um profundo conhecimento do homem e da história. Um exemplo da sua sabedoria,  um texto muito interessante para aplicar na crítica dos excessos consumistas da sociedade atual:

As coisas das quais temos necessidade, a natureza nos mostra e ensina que são muito poucas e colocadas à mão, que facilmente se alcançam. A necessidade ou falta de entendimento inventa coisas excedentes e supérfluas. Se dás à Natureza o que ela tem necessidade, se alegra e se esforça; com o excedente se enfraquece e aflige, como se de coisa alheia se tratasse.

O apetite desordenado que procede do pouco saber e de falsas opiniões, não se preenche nem farta com as coisas necessárias; e as supérfluas antes molestam que satisfazem. (Juan Luis Vives. Introdução à Sabedoria. Brujas, 1546 Cap. IV)

Desde 1529 sua saúde era muito delicada, com dores de cabeça e úlcera estomacal. Sua artrite degenerou em fortes dores e por fim no dia 6 de maio de 1649, em Brujas, ficou doente de gota e devido a um cálculo biliar faleceu.

Nos despediremos de nosso protagonista com suas próprias palavras: “A ditatura da ignorância é a mais dura e mais lúgubre das escravidões.”

Anita Garibaldi.

Giuseppe Garibaldi permanece no Brasil entre os anos de 1837 a 1841. Nesse período ele conhece a jovem que viria a ser Anita Garibaldi. A seguir algumas informações sobre esta incrível mulher.

Ana Maria de Jesus Ribeiro nasceu em Morrinhos, em 1821, Laguna, na então província de Santa Catarina. Seus pais, Bento Ribeiro da Silva e Maria Antônia de Jesus, eram pobres, porém honrados. Do seu pai parece ter herdado a energia e a coragem pessoal, revelando desde criança um caráter independente e resoluto. Aos 18 anos conheceu a Giuseppe Garibaldi que viera com as tropas farroupilhas de Davi Canabarro e Joaquim Teixeira Nunes tomar a Laguna em julho de 1839, devido a sua posição estratégica e também pelo porto, importante para o fluxo de armas e alimentos para a revolução, fundando a República Juliana dos Cem Dias.

Garibaldi chegara à Laguna com fama de herói pelo feito épico que acabara de realizar ao transportar, por terra, as duas embarcações “Farroupilha” e “Seival” de Capivari a Tramandaí e posterior salvamento do naufrágio da primeira ao sul do Cabo de Santa Marta. Seu encontro com Anita resultou em amor a primeira vista, dando origem a um dos mais belos romances de amor e dedicação incondicionais.

Anita decide seguir Giuseppe Garibaldi, em 20 de outubro de 1839, subindo a bordo de seu navio para uma expedição de corso até Cananéia. Sua lua de mel tem lances de grande dramaticidade: Em Imbituba recebe seu batismo de fogo ao serem os corsários atacados por forças marítimas legais. Dias depois, a 15 de Novembro, Anita confirma sua coragem impar e amor heróico a Garibaldi e à causa na célebre batalha naval de Laguna, contra Federico Mariath, em que se expõe ao perigo, atravessando uma dúzia de vezes num pequeno escaler na área de combate para transportar munições em meio da verdadeira carnificina humana.

Com o fim da efêmera República Lagunense, o casal segue na retirada para o sul. Subindo a serra, Anita combate ao lado de Garibaldi em Santa Vitória, passa o Natal de 1839 em Lages, toma parte ativa no combate das Forquilhas (Curitibanos) à meia-noite de 12 de janeiro seguinte. Feita prisioneira de Melo Albuquerque, consegue desde comandante permissão para procurar no campo de batalha o cadáver de Garibaldi que lhe haviam dito morto. Foge depois espetacularmente embrenhando-se pela mata atravessando o Rio Canoas a nado reencontrando as tropas em retirada e seu Giuseppe, oito dias depois.

Nasce seu primogênito Menotti, em Mostardas, em 16 de Setembro de 1840, na região da Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul. Doze dias depois de parto, é obrigada a fugir dramaticamente a cavalo, seminua e com o recém-nascido ao colo, de um ataque noturno de Pedro de Abreu durante a ausência de Garibaldi.

Reencontrados depois, Anita e o filho seguiram, também, na posterior grande retirada pelo mortífero vale do Rio das Antas, da qual nos conta o próprio Garibaldi foi a mais medonha que jamais acompanhou, e que a desesperada coragem de Anita conseguiu meios de salvar o filho na última hora.

Em 1841, dispensado pelo Bento Gonçalves, Garibaldi segue com a pequena família para Montevidéu, engajando-se nas lutas uruguaias contra o tirano Rosas. Em 26 de Março de 1842, Garibaldi casa com Anita na antiga Igreja de São Francisco de Assis. Nos anos seguintes Anita tem mais 3 filhos Rosita, Teresita e Riccioti. Rosita não consegue vencer um ataque de difteria, falecendo aos trinta meses.

Em fins de 1847 segue Anita com seus três filhos para a Itália, para Gênova e Nice sendo seguida pelo marido poucos meses depois. Na Itália, Anita Garibaldi deu múltiplas demonstrações de aprimoramento intelectual, aparecendo como esposa condigna do herói italiano cuja estrela começa a brilhar internacionalmente. Infelizmente a vida de Anita foi demasiado curta. Em meados de 1849 vai a Roma sitiada pelos franceses ao encontro do marido, e com ele e a sua Legião italiana faz a célebre retirada, dando repetidas demonstrações de grande dignidade e de coragem em lances de bravura frente aos inimigos austríacos.

Grávida pela quinta vez e muito doente, não aceita os conselhos para permanecer em San Marino para restabelecer-se. Não quer abandonar o marido quando quase todos o abandonaram. Acompanhado de poucos fiéis, ziguezagueando pelos pântanos ao norte de Revenna, fugindo dos Austríacos, prometendo pena de morte a eles Garibaldinos e a quem lhes ajudasse, Giuseppe Garibaldi vê definhar rapidamente a mulher que mais amou na vida e de sua coragem disse desejara muitas vezes fosse a dele! Pelas 19 horas do dia 4 de agosto de 1849, Anita Garibaldi falece nos braços do esposo, longe dos filhos, num quartinho do segundo pavimento da casa dos irmãos Ravaglia em Mandriole, próximo a Santo Alberto.

Jucildo Augusto Lima

“O Negro” Juan Latino

Escravo trazido da Etiópia ainda criança, chegou a ser um erudito no reino de Granada e um dos grandes humanistas da sua época.

Fátima Gordillo Santiago

Em certos momentos, a tarefa de resgatar personagens de outro tempo pode fazer com que nos deparemos com fatos extraordinários, mas outras vezes, o extraordinário não são os fatos, mas as pessoas que os realizaram. Este é o caso de uma delas, Juan de Sesa, conhecido na sua época como “o negro” Juan Latino.

O Escravo do Duque

Não existem dados que possam confirmar quando e onde nasceu, só uma referência do próprio Juan Latino em sua autobiografia relata a chegada à Espanha junto com sua mãe quando ainda era criança, vindos da distante Etiópia. Ambos chegaram ao mercado de escravos de Sevilha, onde foram comprados para a viúva do Grande Capitão, Don Gonzalo Fernández de Córdoba. Esta senhora vivia em Baena com sua filha, viúva do Duque de Sesa, e o neto, que tinha aproximadamente a mesma idade que Juan, pelo que se calcula que a data do seu nascimento deve ser entre 1528 e 1520.

Desde o princípio, a mãe de Juan foi destinada ao serviço da filha da Duquesa e o pequeno Juan designado como pajem do filho da Duquesa. Este não era seu único trabalho já que também se ocupava, entre outras coisas, da limpeza das cavalariças.

Conta uma anedota que, diante da dúvida de que os negros tivessem alma e acreditando que estariam mais expostos ao demônio que qualquer cristão branco, Juan de Sesa chegou a ser batizado cinco vezes. Parece que Juan logo se converteu, não só por obrigação, mas por afeto mútuo em companheiro de brincadeiras do seu amo, o Duque de Sesa (que também tinha o mesmo nome do seu famoso avô). De fato, Don Gonzalo se negou a receber lições se seu “amigo” de brincadeiras não fosse para a aula com ele. Assim, ante a teimosia do Duque, não houve remédio senão ceder e permitir que Juan de Sesa (já que os escravos tomavam o sobrenome dos seus amos como sinal de pertencerem a eles) assistisse às aulas. A primeira surpresa foi do professor ao comprovar como aquele escravo, negro como piche, era capaz de absorver todos os conhecimentos com assombrosa agilidade.

Juan Latino

Pouco depois a família Fernández de Córdoba mudou-se para Granada e ali encontramos algumas notícias sobre sua educação, graças a uma comédia de Jiménez de Enciso, que escreveu sobre Juan Latino por volta dos séculos XVI e XVII. Dizia Enciso que enquanto os filhos dos nobres iam estudar no colégio da Catedral, na Cúria, os escravos que eram seus acompanhantes ficavam brincando no pátio, com exceção de Juan, que entreabria um pouco a porta da sala de aula para poder escutar as dissertações do professor. Destacando assim o grande desejo de saber do “escravinho” negro.

O caso é que chegou a saber tanto latim que ficou conhecido a partir de então como Juan Latino.

Parece que também teve uma grande influência sobre seu amo e que, de uma forma tremendamente discreta, converteu-se em uma espécie de conselheiro.

O Duque inclusive o apresentou aos seus amigos e logo o talento e inteligência de Juan fizeram com que fosse muito apreciado nos círculos intelectuais e sociais do Reino de Granada e da Espanha. Ainda que evidentemente também teve detratores e inimigos.

Juan Latino realizou algumas traduções de Horácio e chegou a escrever algumas poesias muito corretas em língua latina, chamando a atenção dos seus professores.

Algum tempo depois Juan obteve licença do Duque para não realizar na casa nenhuma outra função que não fosse o estudo. Tinha inclusive uma academia na qual dava aulas particulares aos filhos dos nobres (alguns inclusive vinham de fora de Granada) e com a qual obtinha o seu próprio sustento.

Na hora de cursar estudos superiores Juan teve a intenção de fazer Medicina, mas seus protetores o aconselharam a continuar com seus estudos sobre Ciências Humanas. Chegou a dominar com perfeição não só o latim, mas também o castelhano, o grego e algumas outras matérias, obtendo uma grande formação humanista.

Um personagem muito conhecido na época em Granada era o administrador do bispo. Este, que necessitava um professor de música para sua filha, Ana de Carvajal, consultou Gregório Silvestre, organista da Catedral e ele, sem hesitar, recomendou seu amigo Juan Latino, que era um grande especialista.

Aconteceu porém que entre professor e aluna foi surgindo um afeto que se converteu em amor e, diante do assombro de muitos, a complacência de poucos e o desgosto do pai, casaram-se, depois que o amo de Juan lhe concedeu a liberdade e um dote de 2.000 ducados.

Juan Latino foi muito valorizado, tanto pelo aval de Don Gonzalo Fernández de Córdoba e outros personagens de grande peso em Granada, como por suas próprias capacidades. Começou a dar aulas de latim na recém fundada Universidade de Granada, formando parte de pleno direito do círculo de professores, tal como se estipulava nos estatutos de fundação da Universidade e como aparece no livro de registro dos professores. Teve alguns problemas para converter-se em professor pois não era licenciado, somente bacharel, e alguns aspirantes à vaga protestaram. Mas era tão grande o interesse que despertava “o negro” que rapidamente a Universidade preparou uma banca e o examinou, outorgando-lhe assim o grau merecido de licenciatura.

A fama de Juan Latino alcançou toda a Espanha. Pellicer fala dele nas Preliminares do Quijote, Diego Jiménez de Enciso dedicou a ele uma comédia, Rodrigo Ardilla o elogiou em um romance e o próprio Cervantes o elogia em algumas poesias do seu Quixote. Além do mais, um de seus maiores méritos está em ter formado  numerosos escritores de Granada e famosos tradutores dos clássicos que logo formaram parte do Século de Ouro da Literatura.

Ele, que se autodenominava “Mestre da Juventude”, era muito respeitado entre seus colegas mas especialmente entre seus alunos, que em agradecimento ao seu magistério chegaram a dedicar-lhe algumas de suas obras.

Conheceu pessoalmente Don Juan da Áustria que, ao chegar em Granada e ser recebido pelo Duque de Sesa, comentou que havia ouvido falar da existência de um escravo negro muito famoso por seu saber, e quis conhecê-lo. Em uma ceia que deu no palácio de Carlos V e a qual assistiram personalidades da política e da sociedade espanhola, Juan Latino esteve presente e foi submetido a exame por todos eles ante a vista da corte do rei. Aquela foi uma situação complicada da qual soube sair vitorioso, pois foi capaz de responder a todas as perguntas sem dar nunca a impressão de colocar-se acima (ainda que estivesse) dos seus interlocutores. Foi uma exibição de diplomacia.

Juan Latino humanista

Não é possível considerar Juan Latino como um dos primeiros humanistas espanhóis, como frei Luis de Leon ou Luis Vives, pois sua situação não lhe permitia destacar-se, e muito menos ser um pensador. Mas depois deles, sem dúvida, tem um lugar na corrente humanista.

Tinha um conhecimento global de tudo relacionado com o saber humano. Participava assiduamente nas tertúlias onde se reunia a nata da intelectualidade de Granada. O lugar se chamava o “Salão Dourado” e era freqüentado por personagens do porte do Marquês de Mondéjar, os Granada-Benegas, Pedro Martinez de Ardilla, Hurtado de Mendoza ou Bermúdez de Pedraza.

Em Granada não há, durante o século XVI, outro poeta latino como ele. Sua obra tem um forte caráter academicista, algo carente do frescor renascentista, mas nem por isto deixa de ser excelente.

Era habitual entre os escritores e poetas da época praticar a “imitatio veterum”, ou seja imitar no estilo as formas dos grandes autores antigos, tais como Virgílio e Homero. Os humanistas se sentiam seus devedores e consideravam uma honra ser capaz de imitá-los. Juan Latino imitava com grande maestria Terencio, Horácio, Ovídio e Virgílio.

Entre suas obras destacam-se a “Austriada”, considerada por muitos estudiosos (Lopes de Toro entre outros) como uma das obras latinas mais perfeitas de nossa literatura. Escreveu esta obra em latim, em honra do herói de Lepanto, don Juan da Áustria, ainda que dando o papel mais relevante a seu meio irmão, o rei Felipe II. Seria tremendamente comprometedor para Don Juan aparecer ante a corte como alguém mais importante que o monarca. Desde cedo sua postura de manter uma posição muito discreta, apesar de suas tremendas capacidades, foi em alguns momentos muito duro para ele.

Também escreveu Epigramas, uma série de poemas em comemoração do nascimento do príncipe Fernando, considerado a “esperança” do reino. Estes epigramas foram expostos, para leitura e conhecimento público, na praça da cidade.

Posteriormente realizou uma biografia do Papa Pio V, com tendência claramente contrárias à reforma, e alguns poemas, como protestos (sempre discretos) pelo translado dos cadáveres reais. Juan Latino representa magistralmente Granada como uma mulher que ouve o burburinho e olha à janela pela manhã, ainda despenteada, reprovando o translado dos corpos (com exceção dos Reis Católicos, Felipe o Formoso, Joana a Louca e o suposto filho de ambos) dos reis cristãos que estavam enterrados na Capela Real até o recém construído Monastério de “El Escorial”. Precisamente Felipe II foi concebido em Granada, durante a viagem de núpcias dos seus pais Carlos I e Isabel de Portugal.

A sua obra é realmente impecável.

Uma vida dedicada principalmente à docência e a formação dos jovens nobres. Sabe-se que morreu muito velho, com mais de 80 anos, e contam alguns que a partir de Juan Latino a cor morena na pele tornou-se moda, mudando a estética das damas nobres.

Na igreja da Santa Ana de Granada está enterrado junto com sua esposa, Ana de Carvajal.

O extraordinário aqui é sem dúvida a própria pessoa de Juan Latino, “o negro”, mestre da juventude, antes Juan de Sesa, escravo do Duque, trazido da Etiópia com sua mãe sendo ainda muito pequeno. Talvez, se não fosse escravo e negro, poderíamos contá-lo hoje entre os grande humanistas espanhóis, possuidor da amizade e o respeito dos que souberam vê-lo além de sua raça.

Investigação Científica – ACC: Controle Inteligente de Velocidade

Juan Carlos del Rio

Há um anúncio de uma conhecida marca de automóveis na televisão espanhola que utiliza como motivo humorístico a progressiva introdução de siglas diversas como acessórios dos veículos que compramos. O primeiro foi o ABS (freios anti-bloqueio ou Anti-lock Braking System) e logo vieram uma dezena mais. O que nos interessa neste momento é o ACC: Controle Inteligente de Velocidade, tradução livre do inglês “Adaptive Cruise Control”. Vamos ver de que se trata e como, não só melhora a comodidade na condução dos veículos, mas a segurança e a redução de acidentes.

Há mais de 15 anos eu dirigia veículos nos Estados Unidos com “Cruise Control”, ou controle de velocidade, e pensava que era uma novidade que ainda não havia chegado aos automóveis europeus, mas que logo isto aconteceria. Este controle é uma grande vantagem que facilita a direção nas longas viagens, ao menos para o motorista, pois este pode selecionar uma “velocidade de cruzeiro” e o veículo se mantém na velocidade selecionada sem que seja necessário pressionar o pedal, até que suspendemos este controle manualmente ou simplesmente pisamos no freio.

Depois de tantos anos passados, este dispositivo não se disseminou fora da América do Norte, talvez porque as estradas não sejam tão largas e retilíneas e os caminhos tão longos. Agora, com o tráfego cada vez mais denso, o controle de velocidade típico é cada vez menos útil, mas os sistemas evoluíram conforme a nova realidade.

O sistema ACC observa o tráfego e adapta a velocidade ao fluxo controlando automaticamente (mediante radar) a distância entre nosso veículo e o que está à frente. O ACC acelera automaticamente até que nosso veículo alcance a velocidade selecionada. Quando nosso veículo se aproxima de outro que se desloca mais lentamente o ACC freia automaticamente e segue o veículo a uma distância escolhida por nós. Quando voltamos a ter a via livre o ACC volta a acelerar automaticamente até chegar à velocidade escolhida.

Não resta dúvida que este novo dispositivo aumenta a segurança no trânsito, pois nos ajuda a manter a distância correta em relação ao veículo que nos precede, ganhando um espaço de segurança, reduzindo o stress e evitando a fadiga na direção. Este sistema de ajuste automático da velocidade é mais seguro, pois enquanto um motorista pode demorar quase um segundo para reagir a uma mudança visual, o tempo de resposta do radar é praticamente instantâneo.

Além do mais o ACC oferece um efeito secundário benéfico, para reduzir os efeitos dos terríveis acidentes, considerando o lento tempo de reação humano. Os acidentes se produzem quando um veículo se vê obrigado a reduzir a velocidade devido ao ingresso de outro veículo na fila, por exemplo. Os veículos que vêm atrás reduzem também a velocidade, mas pelo lento tempo de resposta dos motoristas, produz-se um efeito em cadeia que leva a uma freada brusca e até mesmo a uma parada total.

O ACC ainda tem que melhorar, sobretudo em condições complexas de condução, como por exemplo, nos cruzamentos. E também os motoristas devem acostumar-se ao seu uso, pois como as distâncias de segurança com as quais trabalha o ACC são menores, devido ao menor tempo de resposta, a insegurança do motorista se reduz e os efeitos positivos podem ser eliminados.

Este sistema é fabricado na Europa pela Bosch e o empregam veículos de “alto nível”, como o Audi A6. Mas esperamos que no futuro seu uso seja estendido e possamos vê-lo em outros automóveis mais econômicos.

Para saber mais sobre o funcionamento do controle automático de velocidade, podemos consultar a página web http://auto.howstuffworks.com/cruise-control.htm

Chispas Científicas – O Pêndulo de Foucalt

Raysan

Efeitos do Eclipe sobre o movimento do pêndulo de Foucault

Quando se produziu o último eclipse total do Sol, os telescópios observavam o firmamento… ainda que ninguém podia imaginar  – até aquele preciso momento – que o pêndulo de Foucault ia modificar seu movimento habitual. Foi um acontecimento fortuito ? Existiria alguma relação com o fenômeno astronômico ? O fato colocou “em xeque” a comunidade científica e as agências aeroespaciais.

Em 11 de agosto de 1999, os astrônomos aguardavam com grande expectativa a ocorrência de um eclipse total, pois estes eventos, nos quais a Lua se interpõe entre a Terra e o Sol, permitem o estudo da coroa solar. A luminosa capa de gás ionizada que nasce do contorno da estrela, seria em tal circunstância visível porque o disco central se mostraria obscurecido e justamente em um ano de forte atividade solar, com uma grande proliferação de manchas solares.

Mas aquele estranho eclipse tornou-se famoso por alterar o giro do pêndulo de Foucault, que deve sua importância histórica ao fato de servir como prova da existência da rotação terrestre. Na atualidade há muitos pêndulos instalados em vários pontos do planeta com finalidades experimentais, similares ao que foi utilizado pelo físico francês Foucault. Em um destes lugares, o monastério austríaco de Kremsmünster, o plano de oscilação do pêndulo ali instalado habitualmente gira no ritmo de 11 graus em cada hora. Enquanto durou o eclipse observou-se um adiantamento de 10 graus sobre seu movimento regular e seu giro foi mais rápido que o costumeiro.

Anteriormente, em 1954, o economista francês, Maurice Allais percebeu pequenas alterações no movimento do pêndulo de Foucault, devido aos eclipses do Sol que aconteceram em 30 de junho de 1954 e em 22 de outubro de 1959. Devido a isto alguns astrônomos e técnicos da NASA estavam prevenidos para o acontecimento de 11 de agosto de 1999, criando uma típica rede de informação na Europa e Ásia.

O pêndulo de Foucault

Ainda que uma oscilação deste tipo já fora constatada em 1661 pelo matemático florentino Vicentino Viviani (1622 – 1703) o mérito é concedido ao físico francês Jean Bertrand Leon Foucault, que, em 1850, dispôs um pêndulo formado por uma bola suspensa de uma corda suficientemente longa, quando casualmente comprovou que longe de oscilar dentro de um plano estável, este se movia girando no mesmo sentido dos ponteiros do relógio…

Foucault foi o primeiro a ficar intrigado pelos movimentos do pêndulo em sua oscilação… Se não se achava submetido a uma força visível cabia perguntar-se como podia acontecer tal oscilação.

Uma vez que a Terra vista desde o pólo Norte gira em sentido contrário aos ponteiros do relógio, encontrando-se Foucault no hemisfério norte, era de se esperar que o pêndulo se mantivesse oscilando de modo estável em um mesmo plano ou que girasse também no mesmo sentido que o planeta. Pelo contrário, Foucault observou que o pêndulo derivada no sentido contrário ao movimento terrestre.

Como não atuava qualquer força externa sobre o pêndulo, salvo seu próprio peso e a tensão gerada na corda, por inércia o movimento devia varrer a mesma zona. O fato do pêndulo não se comportar assim comprovava que o solo havia se movimentado. Por isto, o giro aparente do pêndulo no sentido horário indicava que realmente quem girava era a Terra em sentido anti-horário (considerando seu giro desde o hemisfério norte e o inverso no hemisfério sul).

Do experimento de Foucault também se deduziu que o movimento do pêndulo se atrasava em relação à direção do giro planetário porque estava submetido à aceleração de Coriolis, descoberta por outro francês alguns anos antes. A aceleração de Coriolis, contrária ao sentido do giro do planeta, também é a causa de movimentos similares nas grandes correntes marítimas e atmosféricas.

Efeitos dos Eclipses sobre o pêndulo de Foucault

Allais calculou no eclipse de 1954, que durou duas horas e meia, que o pêndulo incrementou seu giro, neste período de tempo, 13,6º além do habitual. Estas alterações foram constatadas também em outros eclipses do Sol que afetaram faixas ou zonas do planeta, tais como registraram os pêndulos em Boston no ano 1970 e na Romênia em 1981. Apesar de outros casos em que não se detectou variação apreciável, como na Escócia no ano de 1954, na Itália em 1965, na Finlândia em 1990 e no México em 1991.

Portanto, para as autoridades científicas no assunto, as variações registradas por diversos pêndulos no eclipse de 1999 não foram uma notícia inesperada, embora não exista uma interpretação definitiva sobre a causa do fenômeno.

Segundo os cientistas, as variações no giro do pêndulo poderiam ter como causa erros nas medições realizadas, a ocorrência de microsismos provocados pelo eclipse ou – e esta é a questão fundamental – a uma surpreendente dependência do campo magnético terrestre em relação ao Sol.

Se o simples fato de que a Lua se interponha entre a Terra e o Sol durante o eclipse é capaz de alterar o movimento do pêndulo, deve ocorrer inevitavelmente o incremento do giro da Terra e o aumento da aceleração de Coriolis em sentido contrário. Se, por outro lado, ficar comprovado que a Terra não aumenta o ritmo do seu giro, ou seja, se em termos físico sua velocidade angular não muda, coisa que não é tão estranha quanto parece, a única explicação possível é que o campo magnético gire bruscamente no interior do planeta, independentemente da expressão física do planeta, atraindo assim o peso metálico do pêndulo, tal como o faria um grande imã.

Movimento no campo magnético terrestre

Que o campo magnético no interior da Terra possa ter este tipo de reação independente do movimento de rotação da crosta terrestre se deve a que este campo se comporta como uma realidade dentro de outra realidade. Entendemos no caso do ser humano que o corpo físico é um aspecto que nem sempre acompanha o seu ritmo energético e vital, mas nos custa projetar esta analogia em um planeta – um ser vivo, como propõem todas as culturas clássicas – cujo ritmo vital se descompassa em relação ao físico.

O campo magnético terrestre é gerado pelo “núcleo interno” sólido, de ferro, submetido a altíssimas temperaturas, que tem seu próprio movimento de rotação um pouco mais rápido que o da superfície terrestre. Não é um elemento alheio ao planeta, mas até onde se sabe segue suas próprias leis, pois se dão nele oscilações e inversões periódicas dos pólos magnéticos, sem que isto afeta o ritmo global da Terra.

Este “núcleo interno” encontra-se rodeado por um “núcleo externo” mais líquido, que é formado basicamente por ferro e níquel. É um elemento condutor das correntes elétricas e oscila na medida em que é afetado pela rotação do planeta e pelas correntes de Coriolis. Segundo certas teorias, estas correntes e movimentos de elementos metálicos do núcleo externo induzem correntes elétricas, que devido ao efeito dínamo, geram por sua vez o campo magnético. Ou seja, as correntes elétricas criam campos magnéticos que por sua vez criam correntes elétricas, em um efeito que se auto-alimenta.

De fato, o campo magnético terrestre é gerado por estas correntes de convecção, originadas pela diferença de calor entre os distintos pontos do manto externo – semelhante às correntes que surgem em um líquido antes de entrar em ebulição, e também é gerado pelo calor que liberam estas correntes dentro do núcleo.

Algo similar ocorre também na superfície da Terra com as correntes de ar, dado que ela é aquecida pelo Sol, e as correntes de ar cumprem a mesma função, repartindo o calor para outras latitudes, arejando assim a superfície. Aparecem desta forma zonas de diferentes temperaturas, provocadas pela diferente incidência da radiação solar sobre a superfície terrestre, devido à inclinação de nosso planeta e os mecanismo já citados de convecção atmosférica que provocam correntes e mudanças de temperatura que se auto-alimentam sem fim. Presumimos que no interior do núcleo o fenômeno é similar e se deve à assimetria da radiação solar.

Estas correntes de convecção no núcleo externo precisam de energia e a fonte desta energia é o calor, ainda que não se saiba exatamente o que gera o calor no interior do planeta. Mas seguramente se deve a correntes radioativas ou às radiações solares que atingem o campo magnético terrestre gerando correntes elétricas que por sua vez geram campos magnéticos.

O efeito dínamo ocorre enquanto exista assimetria e um objeto sólido circular em rotação não o gera, por isto entendemos que é fundamental o influxo externo de energia e de radiações de todo o tipo que nos transmite o Sol, para manter o dínamo magnético da Terra. O Sol provoca as assimetrias, pois se constatou recentemente a assimetria da sua própria massa, e também em virtude da inclinação terrestre, dado que ele provoca diferenças de temperatura segundo as latitudes, diferenças de radiações, criando assim assimetrias nas correntes internas do planeta. Quando falta a relação direta com o Sol, por interposição da Lua, talvez então falte o aporte destas radiações e a Terra sofra uma alteração de ritmo.

As culturas clássicas já falavam desta relação íntima com o Sol, não como dependência mas como doação de vida do Sol para a Terra. Observando também as estranhas alterações no comportamento dos animais nos dias de eclipse, deveríamos considerar que ainda desconhecemos estas estranhas relações. Talvez, no fundo, a Terra baile ao som que produzem as secretas cordas do Sol.

Gravity Probe

Rafael Morales

As teorias de Einstein são colocadas à prova pela sonda Gravity Probe-B.

Desde que Einstein publicou sua teoria da relatividade especial em 1905 e a teoria da relatividade geral em 1916, elas foram confirmadas por muitas experiências importantes e com instrumentos cada vez mais sofisticados e precisos.

A sonda espacial GP-B levará um giroscópio, o mais perfeito até agora construído, que possui um avançado sistema de referência espacial e temporal, com o qual colocará novamente à prova a validade das teorias de Einstein. Seu eixo estará alinhado com sua estrela guia, a IM Pegasi (HR8703). Uma vez em órbita, a 640 quilômetros de distância da Terra, a sonda de 3,3 toneladas dará uma volta completa em torno do planeta em 97,5 minutos, passando pelos dois pólos, e a comunidade científica espera ser capaz de descobrir propriedades fundamentais do universo invisível descrito por Einstein.

Um dos prognósticos mais difíceis de entender é que os corpos celestes gigantescos como os planetas, as estrelas e os buracos negros, entrelaçam o tempo e o espaço à medida que giram sobre o seu eixo, de forma similar ao que acontece com um tornado. Assim, com cada giro se perde um fragmento de espaço e de tempo e com sua presença estes corpos massivos deformam o espaço-tempo ao seu redor. Isto produz um efeito gravitacional que explica porque todos os corpos, seja qual for a sua massa, caem com a mesma aceleração. Eles seguem a linha de maior inclinação no espaço.

Se Einstein tem razão, o satélite detectará que em cada órbita se perdem pequenos fragmentos de tempo e espaço. Segundo alguns cálculos se perde a cada ano 40,9 milionésimos de segundo e o desvio do eixo de rotação, devido ao efeito da gravidade da Terra, deveria ser de um ângulo de 6,614 bilionésimos de segundo. Isto pode nos dar uma idéia da precisão dos instrumentos e da dificuldade deste experimento.

Todas as pessoas interessadas neste experimento devem ter paciência, pois os técnicos demorarão de 40 a 60 dias para calibrar o instrumento e nos 13 meses seguintes a GP-B recolherá dados científicos com o fim de comprovar se há algum desvio do eixo de alinhamento dos seus giroscópios em relação a sua estrela guia, a IM Pegasi (HR8703). A perda de tempo será comprovada através de relógios atômicos.

Chispas Literárias

Raysan

Iniciamos aqui uma seção dedicada à arte de escrever em seu aspecto de ficção narrativa. Trataremos de esboçar algumas idéias e técnicas básicas que fazem de um texto literário uma peça a mais completa possível.

Não poderemos fixar idéias absolutas sobre o que deve ou não deve ser feito na narrativa, sobretudo porque a experiência que possuímos é relativa. Além do mais, poderia anular a intuição pessoal do aprendiz de escritor. Pretendemos, no entanto, dar algumas indicações úteis que sirvam de guia, que canalizem as naturais capacidades….

– Todos aprendemos de alguém e seguramente podemos ensinar a alguém. Todos precisamos de modelos e quanto mais elevados sejam estes modelos melhor, pois nos obrigarão a nos colocar na ponta dos pés para alcançá-los. Por isto se diz que aprendemos a escrever lendo os grandes autores. Eles nos mostrarão a medida da altura que poderemos alcançar e que sempre haverá quem os ultrapasse. Estes serão exceções. Por isto, no momento, é útil seguir as marcas que nos deixaram os grandes autores.

– Gradualmente enfocaremos distintos temas de ficção que versarão sobre os tipos de linguagem, as diferenças entre relato e conto, a criação de personagens, sobre a trama, a intriga e a ação, sobre as formas de discursos, etc.

Exercícios: Proporemos finalmente alguns exercícios para nossos leitores, publicados nesta mesma seção e sobre os quais agregaremos as oportunas indicações que sirvam de guia no aperfeiçoamento da técnica literária pessoal. (A extensão habitual será de meia folha, em letr Arial 12 ou similar, com parágrafos de um espaço e meio entre as linhas).

Tema 1

Como criar um personagem ?

Os personagens guardam, como um exótico cofre, a alma do autor. Por isto devem encerrar em suas atitudes e condutas, ainda sendo estas inadequadas ou desumanas, a mensagem que se pretende transmitir. Portanto, além de que o desenlace da trama aconteça no final, em cada curva do texto devem apreciar-se as chaves a transmitir, o fundo humano que se quer assinalar.

É por este motivo que o escritor deve ir perfilando o personagem (ou os personagens) à medida que avança no desenvolvimento do texto. Se dentro de uma narração segregamos a descrição do personagem do desenvolvimento geral da trama, isto resultará numa falta de homogeneidade do texto. É preciso conseguir que a descrição dos traços físicos e psicológicos do personagem fiquem enredados no contexto da ficção, espalhados por toda a narração.

Por outro lado, deve se adotar na exposição um grau de intriga e de mistério. Os personagens, seja pela boca de um narrador onisciente ou de um narrador que fale em primeira pessoa, não podem dizer muito de si mesmos. O leitor irá descobrindo o que sente, o que pensa o personagem. Porque o leitor médio prefere degustar o descobrimento inteligente dos personagens antes de mastigar comida excessivamente preparada.

O desenho fictício de um personagem requer também um exercício de coerência, porque os pequenos detalhes que o caracterizam, como sua vestimenta e suas expressões devem ser coerentes com seu modo de viver, com sua personalidade. Isto requer uma atenção constante da parte do escritor para definir o personagem no menor gesto de acordo ao caráter que foi atribuído a ele. Assim, um personagem poderá descobrir-se não só pelo que diz, mas deve “ver-se” claramente.

É fácil dizer diretamente que “o personagem está nervoso” ou “o personagem está triste”, mas o narrador deve evitar o óbvio, de modo que se insinue com gestos ou por via indireta seu estado de ânimo ou de pensamento. Acender um cigarro ao contrário ou tentar fumar sem acendê-lo, branquear as juntas dos dedos ao aferrar-se a um copo ou tentar beber de um copo vazio,  brincar repetidamente com os cachos dos cabelos ou ajustar repetidamente o cinturão, dizem mais sobre o estado ou tipologia do personagem que uma descrição literal. Entendemos que se alcança um maior nível literário quando se consegue que o leitor inteligente deduza as situações e os personagens.

A descrição de um objeto, de um animal ou de um personagem, pode ser meramente  física e visual, ou pode incluir suas qualidades emocionais, mentais e anímicas. Geralmente, sobretudo quando se trata de descrever um ser vivo, é difícil fazer uma mera descrição física, pois o autor acaba adicionando emoções ou intenções que conhece ou pressupõe. Assim, poderá carregar uma descrição com elementos psicológicos ou simbólicos, como … “seu sorriso era franco” ou “a alegria provinha do fundo do seu ser”, ou ainda, “sua mãos eram grandes e generosas”, mas todo escritor deveria exercitar-se previamente na simples descrição física e visual, aprendendo a descrever tão somente aquilo que vê.

O aprendiz de escritor poderá finalmente usar uma ou outra tipologia segundo considere conveniente para o desenho do personagem, mas deveria conseguir um manejo correto de cada uma delas.

Todo personagem criado não deveria ser obtido a partir de uma pessoa real e se uma referência é adotada com base em alguém conhecido, a época e a atmosfera utilizada para a ficção, a trama, o desenlace e as situações criadas tornarão improvável que o personagem de ficção reaja como o modelo real. Isto é óbvio porque os elementos citados condicionarão ou até mesmo criarão um novo personagem.

Mas, sem dúvida, a maior dificuldade literária está em criar personagens autênticos, cujos comportamentos estejam de acordo com o desenho que o autor fez deles. Fictícios mas capazes de nos convencer da sua realidade e inclusive de reações previsíveis a partir do conhecimento que o leitor vai adquirindo deles.

Criar ficção é conseguir manter o leitor em um sonho imaginário com traços de realidade. Portanto a passagem entre o real e o imaginário, entre o objetivo e o subjetivo deve realizar-se sem descontinuidade, sem que seja percebido. Assim, os personagens devem estruturar-se previamente, deixando paulatinamente filtrar seu modo de ser em pequenos detalhes e atitudes com base em tênues pinceladas. O quadro final, como no impressionismo, se apreciará bem de longe, tomando uma sadia distância e perspectiva.

Escrever não é alcançar o objetivo mas saber oferecer um ponto de vista subjetivo, ainda que tocará a maestria na medida em que os personagens criados se aproximem do mais essencial da alma humana.

Exercício proposto no. 1 – Descrever um personagem que espera em uma cafeteria ou em uma estação, momentos antes de um acontecimento ou situação concreta que é conhecida. A descrição não será alheia a este acontecimento. (meia folha, letra arial 12, com parágrafos de um espaço e meio)

Melhorando nosso vocabulário

O uso correto do vocabulário se adota observando o manejo que fazem das palavras os grandes mestres. Trazemos hoje para nossa seção alguns vocábulos do livro “A caverna” de José Saramago, publicado em 2003 pelo Editorial Alfaguara, e um breve extrato do texto em que se utilizam.

Viração – vento que nas costas sopra do mar durante o dia, alternando-se com o terral.

Polvadeira – redemoinho de pó.

Misturar – mesclar duas coisas.

“… semelhante ao rebordo de uma abóboda luminosa que chegou empurrando a obscura cúpula da noite, a fronteira da manhã se movia lentamente para o ocidente. Uma súbita viração rasante redemoinhou, como uma polvadeira, as cinzas da superfície da cova. Cipriano Algor se ajoelhou, afastou para o lado as barras de ferro e, usando a mesma pequena pá com que havia aberto a cova, começou a retirar as cinzas misturadas com pequenos pedaços de carvão não queimados.

Libra

O equilíbrio e a harmonia do Universo, da duração do dia e da noite, da luz e das sombras.

Juan Carlos Del Rio

Esta constelação já é mencionada nas Tábuas de Mul-Apin, fazendo parte da eclíptica ou Caminho da Lua. É conhecida como Ziba-ni-tum, “as balanças”. Até o ano 2000 a.C foi associada com o juízo final dos vivos e dos mortos das religiões babilônicas e a pesagem das almas. Posteriormente, ficou conhecida na Babilônia como Tashritu, “a balança”, Libra em latim. Em algumas tradições fazia parte do signo de Escorpião, formando as suas pinças, como indica o nome das suas duas estrelas principais.

Quanto aos dois autores clássicos que estamos estudando, Arato e Eratóstenes, nenhum deles menciona Libra, mas uma constelação chamada “As Pinças”. Segundo Arato:

“A ponta da sua mandíbula [de Ofiuco] está situada junto à Coroa. Debaixo da sua espiral podem ser vistas as grandes Pinças, mas são de pouca luz e nada brilhantes.”

Os gregos costumavam juntar as estrelas de Libra com as de Escorpião, pois a imagem das balanças não era conhecida, e é possível que este simbolismo tenha uma origem mesopotâmica. Foram os autores romanos que primeiro diferenciaram Libra de Escorpião. A balança também simbolizava a idêntica duração do dia e da noite nos equinócios. Há dois milênios, a passagem do Sol por Libra marcava o equinócio de setembro. Também foi em Roma onde se associaram as balanças de Libra com as balanças da Justiça, sustentadas por Astréia, a deusa da Justiça.

Zeus a colocou no céu como uma homenagem a Themis (Justiça), representada tradicionalmente com uma venda nos olhos e uma balança nas mãos. Da união de ambas as divindades nacionais nasceram numerosas criaturas entra as quais estão as Horas (encarregadas de abrir e fechar as portas do dia, de cuidar dos cavalos do sol e de presidir as estações do ano) e as Parcas (tecedoras do destino dos homens e observadoras do movimento das esferas celestes). Ou seja, Themis e suas filhas eram responsáveis pelo equilíbrio e pela harmonia do universo.

Em Roma, para que cada signo correspondesse a uma constelação e cada uma destas representasse um mês do ano, Escorpião foi dividido em duas partes iguais. Por isto colocaram a figura de Júlio César em uma das duas partições de 30º que foram criadas. A balança que sustenta na mão aquele personagem, simbolizava a justiça e a eqüidade, servia ao mesmo tempo para recordar que foi seu portador quem dividiu  ano de maneira exata. Por isto, o Novo Signo recebeu o nome de Libra (a balança) e, além do mais, passou a representar a igualdade do dia e da noite no equinócio de outono. O que equivale a dizer que, neste preciso momento, a luz e a sombra têm a mesma duração.

Entre os egípcios, o símbolo da Balança estava associado à vida no além, já que o coração dos mortos era pesado antes de poder entrar no Outro Mundo. Também as colheitas eram pesadas quando a Lua cheia se encontrava em Libra.

Libra simboliza o equilíbrio, pois a balança marca o equilíbrio entre o mundo solar e a manifestação planetária, entre o ego espiritual do homem e o eu exterior ou personalidade. Assinala o equilíbrio entre o bem e o mal, com dois pratos inclinados um em direção do Escorpião (o mundo dos desejos) e o outro para o signo de Virgem (a sublimação dos desejos).

Shreck II

Sinceramente, após ver a primeira parte todos imaginamos que a seqüência é, como na maioria dos casos, a continuação de algo não tão bem feito. No entanto, a grande campanha de publicidade e os recordes de bilheterias nos EUA indicam que neste caso isto não ocorre. A causa do grande êxito é uma sábia combinação de humor, fantasia e uma mudança na dinâmica normal dos filmes de animação, que sempre estão orientados ao público infantil de uma forma que aborrece aos mais velhos. Neste caso, reunindo os elementos próprios do gênero, como a transmissão para as crianças de valores clássicos (a solidariedade, amizade, honra e sobretudo o valor do coração em relação às aparências) através de personagens íntimos para as crianças, temos também uma maturidade lógica na história que faz com que as salas de cinema fiquem cheias também com o público adulto. Se no primeiro filme poderíamos falar de uma versão moderna do mito da Bela e da Fera, mas muito simples e um tanto quanto orientada para o riso fácil, agora temos um roteiro bastante interessante e a incorporação de novos personagens à história, o que amplia de maneira espetacular o cenário. Assim, cabe destacar acima dos demais o esplêndido personagem do Gato de Botas, dublado por Antônio Bandeiras, que delicia a todos pelo tratamento genial que dá ao personagem.

Quanto aos elementos ambientais, efetivamente também há uma melhora em quanto à música, decoração, etc. Digamos que aconteceu um crescimento de forma e expressão em relação ao primeiro filme.

Outro ponto que não podemos deixar de mencionar é o inegável e esmagador êxito que sempre tem a reatualização dos velhos mitos em uma nova forma que os traga ao mundo. Este é um fenômeno que vem se repetindo e nos indica que efetivamente o ser humano guarda uma memória antiga que desperta em contato com a linguagem simbólica. Todos sabemos que os clássicos contos de fadas têm uma intensidade e profundidade simbólica que lhes dá uma aura mágica e misteriosa. E aqui temos mais um exemplo de como o uso destes elementos míticos, as mesmas histórias de sempre, voltam a lotar as salas de cinema. Shreck é um ogro, é verde e feio, mas tem um coração de herói que o leva a resgatar sempre a sua dama, que também é capaz de reconhecer o coração de um valente além das circunstâncias que tentam enganá-la ou confundi-la por meio de feitiços e sortilégios.

O único ponto fraco da história, presente sobretudo no primeiro filme e bastante diluído no segundo, é a necessidade de aproximar-se do público por meio do riso fácil e um pouco grosseiro. No entanto, na segunda parte aparece só como reminiscência ou traço da identidade do filme, mas não como motor da ação humorística, melhorando o roteiro e elevando-se acima da mediocridade.

E por último reforçamos que não se trata de um filme somente para crianças, mas também para adultos. É inegável que o bom humor e o sorriso nos rejuvenescem por dentro e por fora. Assim, quando vejamos este filme, não deixemos de sair do cinema mais entusiasmados, risonhos e até um pouco mais travessos.

Ficha técnica

Estados Unidos – 2004

Título original: Shrek 2

Direção: Andrew Adamson e Kelly Asbury

Roteirista: Wilima Steig e J. David Stem

Direção artística: Steven Gordon e John Stevenson

Ficha artística

Vozes de Mike Mayers (Shrek), Eddie Murphy (Asno), Cameron Díaz (Princesa Fiona), John Cleese (Rey Harold), Julie Andrews (Rainha Lílian), Antonio Banderas (o gato de botas) e Rupert Everett (O príncipe azul).

Próximo Número

As Legiões de César

Quando se mencionam os feitos do Império Romano vêm à nossa mente suas realizações arquitetônicas, suas leis, sua vida social, sua religião. Mas raras vezes associamos o gênio criador romano ao seu indiscutível êxito bélico. A história de Roma é a história das suas guerras, da sua disciplina, da sua estratégia militar e da sua esmagadora indústria bélica.

Símbolo desta genialidade é Caio Julio César, o general romano por excelência, modelo de estrategista, cujas conquistas levaram Roma até os confins do mundo conhecido.

Quando o dinheiro move o mundo

Dentro da história da ciência econômica, a base de toda superprodução social e de toda civilização era a produção agrícola. Mas enquanto esta conserva o aspecto de uma renda em espécie, o dinheiro e o capital pareciam ocupar um lugar muito limitado na sociedade. Quando chega a revolução comercial o capital se amplia por meio de um mercado mundial de artigos de luxo. No entanto, as crises vão marcar a história do dinheiro. Uma história onde os sistemas de produção, a concentração demográfica, as organizações sindicais ou a qualificação da mão de obra marcam os diferentes ritmos.

Por nascer mulher

Analisar os aspectos históricos, sociais e culturais dos maus-tratos que sofrem as mulheres é uma forma de abordar as causas do que se convencionou chamar violência de gênero ou terrorismo doméstico. Tradições universais, mitos e lendas nos mostram as origens do ser humano, as diferenças psicológicas ou mentais entre os sexos, as justificativas do predomínio de um sobre o outro. Todo este simbolismo foi explorado por algumas sociedades patriarcais do mundo civilizado. Os preconceitos e a desvalorização do feminino aprofundam ainda mais o problema.

Prisciliano de Galícia

Personagem controvertido e inimigo das idéias estabelecidas, foi perseguido pelos poderes eclesiásticos. Na Galícia, sua terra, desenvolveu-se posteriormente o priscilianismo baseado em tradições milenares, idéias gnósticas e a ciência dos antigos druidas. No final do século IV encontramos este personagem já convertido em um profeta das massas e líder de uma igreja gnóstica totalmente contrária à nova ordem doutrinária romana.

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